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O garoto que amava Yoko e a paz

O garoto que amava Yoko e a paz

Do alto de uma fértil plantação de exemplos para sustentar sua teoria, Zé Rodrix costumava definir a canção como a mais sintética – e também a mais perfeita – dentre todas as manifestações artísticas. Pena que meu amigo e nosso ídolo não esteja mais entre nós e, assim, tenha perdido a chance de encontrar bons argumentos na prática para reforçar sua teoria apaixonada. O parceiro de Tavito em Casa no campo teve, como muitos de nós, o privilégio de, na flor da juventude, conviver com o maior fenômeno musical da indústria fonográfica desde seu auge nos anos 60 até a decadência destes dias: os Beatles. Mas perdeu a oportunidade de acompanhar o que agora é testemunhado pelos espectadores do documentário Os EUA X John Lennon, de David Leaf e John Scheinfeld: a militância pacifista do garoto que saiu de Liverpool para conquistar o mundo e suas consequências sobre o projeto de vida pessoal do beatle. E – ainda mais que isso – o impacto causado na mobilização interna americana contra a intervenção bélica no Vietnam por sua até então inusitada postura política e pelo refrão de seu hit Give peace a chance (Dê uma chance à paz).
Com seu conceito integral do álbum conceitual, Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado em 1967, os Beatles viraram o planeta todo de pernas para o ar no que concerne à música de consumo, aos costumes e à moda, em plena era da “aldeia global”, batizada pelo sociólogo canadense Marshall McLuhan. Isoladamente, contudo, os Beatles não participaram da efervescência política dos anos 60, para cuja denominação de “rebeldes” o grupo de roqueiros cabeludos contribuiu. George Harrison chegou a se envolver com benemerência, ao organizar o Concerto para Bangladesh. Mas só Lennon se meteu com política. A virtude desse documentário é mostrar como isso se deu e, sobretudo, como pode um menestrel abalar um Império.
Como Walter Cronkite, o grande âncora da televisão americana, mostrou em seus comentários da época e no depoimento que deu depois, a causa do Vietnam foi desde sempre perdida, porque os EUA não defendiam no distante Sudeste asiático uma democracia da ameaça da tirania comunista, mas, sim, uma monarquia despótica, cruel e retrógrada. O documentário mostra – de forma interessante e comovente – como se deu a politização de Lennon. Fica clara para o espectador antenado a ativa participação da filha de um banqueiro japonês, Yoko Ono, no processo de “desalienação” do herói da classe operária de Liverpool. A artista plástica que foi apontada como pivô da separação da maior banda de música pop da história e anatemizada pelos gritinhos em suas gravações e pela foto em preto e branco do casal nu na capa de um disco solo dele o acompanhou à América. Sentindo-se em casa em Nova York , o europeu e a oriental fizeram uma imersão plena no movimento pacifista, tornando-se íntimos de líderes alternativos como Abbie Hofman, fundador do Partido da Juventude Internacional (os Yippies), e Angela Davies, militante do grupo racial Panteras Negras. O auge da militância pacifista de Lennon poderia ter sido a libertação de John Sinclair, preso por ter oferecido dois baseados de maconha a uma policial disfarçada. Mas ele chegaria mais longe, ao virar o jogo contra o governo Nixon, que tentou deportá-lo, vencendo uma ação na Justiça contra o establishment ianque.
O Império perdeu a guerra na Ásia e para o beatle nos tribunais. Lennon foi assassinado pela força da própria fama. A ironia da deusa da história elimina vilões, mas tampouco poupa heróis.

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