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No Blog do Nêumanne: O faroeste, segundo Gleisi Hoffmann

No Blog do Nêumanne: O faroeste, segundo Gleisi Hoffmann

José Nêumanne

Eleita de novo presidente nacional do PT, deputada paranaense definiu no congresso do partido sua bandeira: inocência para Lula e condenação e prisão para Moro

Nos moldes do centralismo democrático stalinista, mantido a ferro, fogo e saliva pelo Partido dos Trabalhadores (PT), a deputada paranaense Gleisi Hoffmann assumiu por mais um período a presidência da agremiação, por indicação do chefe supremo, Luiz Inácio Lula da Silva. Condenado em três instâncias por nove julgadores – um juiz, três desembargadores e três ministros –, o ex-presidente perdeu o rótulo conveniente de “preso político”, embora sua condição coubesse até a semana passada no de “político preso”, cunhada em tempos antigos pelo colega Reinaldo Azevedo, hoje um dos maiores entusiastas da condição de mártir dele. Isso não quer dizer que tenha perdido a narrativa. Ao contrário. Livre, Lula agora disputa a condição de inocente para depois realizar o lema do faroeste pelo avesso que seus devotos pretendem berrar em uníssono nos comícios petistas pelo País: “Lula inocente e Moro, condenado e preso”.

Esse absurdo total da troca do mocinho pelo bandido nasceu de uma estratégia elaborada com a combinação feita por um ianque formado nas escolas do crime em Nova York na condição de empresário da pornografia e sonegador de impostos. De acordo com relatos confiáveis do New York Times e do Washington Post, essa é a verdadeira saga de Glenn Greenwald, que se diz herói e mártir de um caso de traição da pátria, conhecido como WikiLeaks, sob a chefia de um sócio chamado Julian Assange, que neste momento está apelando para a condição de doente mental a fim de receber tratamento médico na prisão onde hoje mora na velha Albion, que pode até ser considerada pérfida, mas nunca foi reduzida à condição de carcereira de inocentes desde que instituiu a mais democrática de todas as monarquias na face do planeta.

Pois é, o vulgo Verdevaldo foi recebido por Lula em sua prisão de fancaria na sala de hospedar agentes em trânsito na Polícia Federal na sede da instituição em Curitiba, pátria da Operação Lava Jato, que acabou com a era da prisão exclusiva para pretos, pobres e prostitutas para inaugurar a investigação que levou à cadeia corruptos de vários escalões. Do topo da empresa da propina, a Odebrecht, cujo chefão, Marcelo, viveu na cadeia até recentemente e hoje porta uma vistosa tornozeleira na própria mansão no Morumbi, em São Paulo. Dos píncaros da República há muitos representantes de escol, mas o mais alto em posto continua sendo o “guerreiro do povo brasileiro”, o papai herói que resta à esquerda esmagada na eleição pela direita liderada pelo capitão Jair Bolsonaro, Lula da Silva. Na tal “sala de estado-maior”, reservada pelo herói do povo, Sergio Moro, por mera benevolência, os dois planejaram um conto do vigário de fazer corar frade de pedra em adro de carmelitas descalças: o Vaza Toga.

O projeto, engendrado num encontro na cadeia de fancaria que o ex-sindicalista ocupou de abril do ano passado até a última semana, o ex-pornógrafo que editou o furto de Assange de segredos do Pentágono elaborou e levou à prática um plano que não teria nada para dar certo em sua terra natal, mas caiu como uma luva no Brasil. Uma quadrilha de “arararraquers” (denominação genial da coleguinha Cora Rónai) invadiu os segredos de mensagens trocadas no aplicativo russo, sem dono conhecido, Telegram. E neles garimpou material para apresentar ao público a narrativa da conspiração entre Polícia Federal, Ministério Público Federal e o ex-juiz Sergio Moro, hoje ministro da Justiça e da Segurança Pública do governo Bolsonaro, para manter na prisão o mártir popular, cujo feito histórico mais conhecido foi ter criado uma crise econômica que desempregou 13 milhões de brasileiros, cuja saída será lenta e gradual, como nos tempos da abertura do general Geisel, no penúltimo sopro do regime militar.

O material exposto ao público pelo site The Intercept Brasil, comandado pelo pornógrafo, que também deixou num ex-amante e sócio o maior inimigo na Nova York natal, tinha leite insuficiente para encher um pires de gato. Mas que rato vai importar-se com isso, ora bolas? Imediatamente a Band News, a Folha de S.Paulo e a Veja compraram as denúncias provocadas pelo roubo das mensagens e tornaram discursos ensandecidos como o de dona Gleisi aproveitáveis, embora nada verossímeis. Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), tornados inimigos por lealdade política a grupos denunciados por roubo do erário, caso de Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello e outros que preferem ficar à sombra, já passaram por cima da questão das provas ilícitas porque roubadas, criminosamente. A esquerda sem voto, mas com a complacência de alguns eleitos que contam com a graça do perdão de sua participação na roubalheira, a patota do Centrão, encontrou nas sutilezas da narrativa razão de sobrevivência. E a lenha da fogueira arde.

Gleisi Hoffmann — acusada de ter financiado campanha milionária para o Senado com o furto mensal de aposentadorias de servidores do Ministério do Planejamento, à época chefiado pelo marido, Paulo Bernardo, também político da cúpula do PT — navega pelos mares infectos da calúnia com a desenvoltura de quem deixou de competir para o Senado e se abrigou na votação proporcional da Câmara dos Deputados para sobreviver, a fim de empunhar a bandeira das novas batalhas anunciadas. Na ocasião da consagração da nova presidência, ela berrou a plenos pulmões, como sempre faz: “(A liberdade de Lula) não é a que nós queríamos. Nós queremos a anulação da sentença de Moro. Aliás, queremos a prisão de Sergio Moro pelas barbaridades ele que praticou”. Como de hábito, ela apenas repetiu o refrão que lhe cabe ecoar nos ambientes públicos. Repetiu o que o chefe mandou dizer e diz sempre que pode e que o deixam falar. Estamos no país do faz de conta, no qual se mofa da Justiça porque ela permite. E basta.

Lula é deus da esquerda. E Gleisi, sua suma pontífice. Ele está solto porque os compadritos do Supremo, que ele, Sarney, Fernando Henrique, Dilma e Temer nomearam, fingem não perceber a clara violação da lei sob o brilho dos holofotes nos showmícios em que a fantasia substitui a verdade dos fatos, numa peça de ficção de horror e escárnio.

Apesar do discurso oportunista de ministros dos altos tribunais, que não são juízes, como o são os de primeiro e segundo grau, regra geral, Lula não é inocente. Nada disso. Ele continua sendo corrupto e lavador de dinheiro, não apenas condenado pela primeira sentença de Moro, que ele escolheu como adversário a desafiar. As provas dos crimes pelos quais foi condenado duas vezes e que se acumulam em outros seis processos na Justiça abundam e somente os inimigos do império da lei no Brasil, na ONU e em países socialistas como Venezuela, México e Espanha usam para suas próprias fantasias delirantes, em suas paróquias políticas. Ou seja, o lema da inocência é lorota e essa prosa de corredor de presídio não engana mais o povo brasileiro. Basta comparar as manifestações públicas em Curitiba, São Paulo, São Bernardo do Campo, Salvador e Recife com o que se esperava de protestos contra seus carcereiros para perceber o fiasco que se prenuncia para as campanhas municipais, que o partido de Lula e Gleisi pretende usar para eleger prefeitos no ano que vem e deles fazer portos de partida para uma eventual candidatura presidencial do ex-presidiário.

Ninguém se deve enganar. Os próximos passos dos devotos do lulismo nas altas Cortes, sob o comando de Dias Toffoli, o semialfabetizado Maquiavel de Marília, Ricardo Lewandowski, o rasurador da Constituição no julgamento do impeachment de Dilma, e Gilmar Mendes, o parceiro de Paulo Preto, serão usar o veredicto do fim da segunda instância para autorizar prisão de condenados como cancelamento da Lei da Ficha Limpa, adaptando-a a essa jurisprudência de analfabetos que mudam o sentido de “considerar culpado” por “ser preso”. Não será surpresa para este escriba se, com o material furtado pelos “arararraquers”, os mesmo mandriões cancelarem a condenação de Moro, passando por cima do TRF-4 e do STJ, e até mesmo, se não houver reação pesada dos omissos de sempre, o punirem, de forma a desmoralizá-lo, mesmo que não o prendam.

Mas ainda há o povo. Os resultados eleitorais de 2020 e 2022 podem mostrar que o brasileiro não engole essa presunção de poder absoluto de quem nunca foi votado. Sob pena de a democracia ir para as cucuias. Mas, e se não for, quem ficará com as batatas da vitória?

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 25 de novembro de 2019)

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