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O brilho da ribalta, por trás do refletor

O brilho da ribalta, por trás do refletor

É possível dizer de José Eduardo (Zuza) Homem de Melo que, mesmo tendo ele abandonado há muito tempo o contrabaixo, o instrumento nunca o deixou e até hoje o acompanha nas múltiplas atividades que exerceu e ainda exerce na área musical, sem mais percutir suas cordas. O contrabaixo é o responsável pela base rítmica sem a qual nenhuma execução musical consegue se manter harmônica: sem ele se instauraria o caos no universo de melodias, refrões e improvisos das bandas de jazz. Como chefe da mesa de som da TV Record na época dos grandes festivais e musicais; apresentador de um programa que se tornou ícone da programação da radiodifusão contemporânea no Brasil; produtor de festivais de jazz; crítico na imprensa; autor de ensaios sobre movimentos importantes da música popular brasileira; programador de temporadas de música em bares e restaurantes da moda; e organizador de trilhas sonoras para música ambiente, este paulistano simpático e de fala mansa se tornou uma figura capital para a compreensão e a melhor fruição do que se fez de musical no País.
Descendente de um clã de cafeicultores paulistas, herdeiro de um título de barão, contemporâneo da boêmia dos anos 40 e 50 na Paulicéia Desvairada, nosso protagonista não deixou dissipar nas nuvens de cigarro nem nos vapores etílicos das boates célebres de seu tempo de juventude os sons que produziu e, sobretudo, ouviu. Mas os incorporou e retransmitiu com tais empenho e competência que um amigo o apelidou de “o homem que tem música nas veias”, epíteto utilizado para intitular seu programa de sucesso no fim da tarde na rádio nos anos 70 e 80 do século passado e espécie de marca registrada com a qual passou a carimbar todos os trabalhos aos quais aporia sua assinatura de prestígio. A marca voltou agora na forma de título de livro, gênero no qual não é jejuno, pois já andou reunindo no formato depoimentos dos principais participantes da bossa nova e escreveu um compêndio muito interessante narrando fatos ocorridos nos bastidores dos festivais, que freqüentou como técnico de som. A diferença desta vez é que ele aparece com um coquetel de sabor original, uma fusão, para usar o jargão musical que domina. O livro que acaba de lançar mistura reminiscências de uma longa e profícua experiência de vida em torno de grandes astros do universo musical com ensaios para os quais contribuem anos de aprendizado na arte de tocar, ouvir, produzir e programar discos, espetáculos e outros eventos sonoros.
O leitor deste seu novo livro será apresentado aos mestres do jazz que povoaram a cena nova-iorquina nos anos 50. Como aluno de contrabaixo de Ray Brown, um dos maiores gênios do instrumento, Zuza viu, ouviu e às vezes até conviveu com os maiores instrumentistas e cantores daquele tempo. As lições que lhe trouxe esse aprendizado são ministradas de forma leve e agradável, num estilo que flui como prosa à beira do fogo, para o leitor interessado ou para o simples curioso. As aulas com Ray Brown e as conversas com marcos da música americana, como o trompetista Dizzy Gillespie, apenas para dar uma idéia de como são frondosas as fontes em que o autor do livro bebeu, servem de base (e aqui volta a metáfora do contrabaixo) para as análises minuciosas feitas pelo crítico dos temas que aborda. Estes podem ser as orquestras que animavam os espetáculos dos cassinos brasileiros, antes de o jogo de azar ser proibido no governo Dutra, aqui mesmo no Brasil, ou as vicissitudes dos líderes de banda na Alemanha nazista para conviver da maneira possível com a truculência dos esbirros de Hitler.
As lembranças e o conhecimento musical, acrescidos do estilo jornalístico vigoroso que privilegia os fatos importantes, servem também de apoio para o autor traçar o perfil de instrumentistas lendários, caso do chorão Jacob do Bandolim. Zuza resgata com carinho, mas sem pieguice nem protecionismo, a virtuosidade e os detalhes do comportamento do homem por trás do instrumento. Ao reproduzir cartas do músico para um amigo cantor, seu maior confidente, revela as dúvidas, anseios e aperreios de um ícone da música brasileira, cuja carreira foi prejudicada por uma série de tragédias pessoais, que ele lamenta num apurado estilo literário, inesperado, surpreendente até, num virtuose musical. Não escapam ao autor, que os repassa ao leitor, detalhes incômodos, caso da inveja que o perfilado sempre destilou do sucesso de um competidor, Valdir Azevedo, também marcado pela tragédia: este teve um dedo decepado por um cortador de grama.
Na qualidade de produtor de shows da TV Record, em seu auge, nos anos 60, Zuza teve na vida a oportunidade de trazer para o Brasil grandes nomes da canção internacional, artistas do quilate de Nat King Cole e Sammy Davis Jr. O relato dos bastidores da contratação destes intérpretes é um capítulo à parte na leitura instrutiva e divertida deste livro em que o ofício do autor passa a ser uma oportunidade para o leitor ter acesso ao brilho da ribalta, por trás do refletor, no negócio do entretenimento.

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