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O Brasil dividido pelo voto

Nesta eleição presidencial, o atual presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, operário braçal de origem, reproduziu uma situação similar à existente na pátria do Libertador da América Hispânica, Simón Bolívar. Assim como Hugo Chávez dividiu a Venezuela ao meio, tornando-se ídolo das favelas no morro e relegando a oposição à elite abonada do vale de Caracas, o ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da industrializada região do ABC, na Grande São Paulo, estabeleceu um pacto direto com o lúmpen-proletariado. Isso não lhe assegurou a vitória no primeiro turno, em 1° de outubro, como chegaram a prever as pesquisas, mas ainda deve lhe garantir a vitória final no turno decisivo, no domingo 29. Caso seja reeleito, Lula abandonará o populismo, cavalo-de-batalha de seu primeiro mandato (2003-2006), para fundar a democracia de massas no Brasil no segundo (2007-2010).
Incrível é que esse quadro estava fora de cogitação em maio de 2005, quando um útil aliado da composição governista no Parlamento, o então presidente nacional do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), criado por Getúlio Vargas nos anos 40, Roberto Jefferson, denunciou a existência de um esquema de compra de votos para apoio a projetos oficiais no Congresso. Então, a oposição soit-disant social democrata e liberal ao Partido dos Trabalhadores, de linha socialista, calculou que Lula seria carta fora do baralho na própria sucessão. O escândalo de corrupção, que derrubou o homem forte do governo federal, José Dirceu, da chefia da Casa Civil da Presidência da República, atingiu o poderoso ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e desmontou a cúpula do PT, acirrou os ânimos entre os principais pretendentes do PSDB, partido que ocupara o governo nos dois mandatos anteriores ao de Lula e que passou a ter a vitória em outubro de 2006 como líquida e certa. Travou-se, então, uma guerra violentíssima entre os dois principais líderes do partido que adotou o símbolo do tucano, uma ave da Amazônia. De um lado, o governador do maior Estado da Federação, São Paulo, Geraldo Alckmin. De outro, o prefeito da Capital do mesmo Estado, José Serra. Apesar das credenciais deste último, que havia sido ministro da Saúde com muito êxito no segundo governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso e perdera a eleição presidencial para o mesmo Lula, em 2002, Alckmin ganhou a disputa, deixando para Serra o posto de candidato à própria sucessão, que este venceria com 58% dos votos.
Direita contra esquerda – Aparentemente a opção do partido tucano pelo governador deu ao PT a oportunidade de levar a luta eleitoral para a arena que mais lhe convinha: a ideológica. Esse confronto não seria tão claro com Serra, economista de esquerda, ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), exilado à época da ditadura militar e notório adversário das tendências ditas neoliberais da equipe econômica das duas gestões de Fernando Henrique, sob a chefia do economista carioca Pedro Malan. Com Alckmin, porém, o contraste ideológico seria mais nítido. Parlamentar de pouco brilho, escolhido para ser vice-governador do maior líder do Partido da Social Democracia Brasileira, Mário Covas, de quem herdara o governo paulista pela morte do titular, ele já começou a campanha acusado de pertencer ao grupo de religiosos de direita Opus Dei, adversário figadal dos clérigos da Igreja Católica progressista, cuja participação na fundação do PT fora decisiva.
Por mais que a acusação tenha contribuído para diminuir as chances de vitória do principal candidato da oposição, contudo, ela não bastou para caracterizar a disputa entre Lula e Alckmin como um embate entre direita e esquerda. Seja porque o PSDB é uma dissidência do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), principal bastião da resistência política civil à ditadura militar (1964-1989), sendo, portanto, considerado “de centro-esquerda” (como, de resto, praticamente todos os partidos no Brasil, onde se foge da pecha de direitista como o Diabo da cruz). Seja porque Lula também não pode ser considerado um homem de esquerda, apesar de sempre ter sido a mais forte, carismática e popular liderança do PT, agremiação política que congrega em torno de seu símbolo de sindicalista autêntico ex-guerrilheiros da guerra suja contra a ditadura e grupos remanescentes da Igreja alinhada com a Teologia da Libertação.
O carismático contra o anódino – Ao longo da campanha eleitoral propriamente dita, o que se viu foi a guerra entre um líder carismático e um político anódino, mal saído do anonimato. Pouco conhecido no Brasil além das fronteiras de seu Estado, o mais rico e mais populoso, o candidato da oposição teve dificuldades para enfrentar o charme do adversário, além do mais dono das prerrogativas do poder. Essas dificuldades foram agravadas pela dificuldade do cidadão mais pobre de gravar seu sobrenome de origem árabe, incomum nos grotões onde são reconhecidos apenas os substantivos próprios de origem ibérica, e pela oratória em tom de oração do candidato do PSDB, um anestesista que discursava nos palanques com a empolgação de quem estivesse participando de uma operação num centro cirúrgico.
Com a cassação dos mandatos de um punhado de deputados que protagonizaram o escândalo conhecido como do “mensalão”, entre os quais Dirceu e Jefferson, as denúncias de corrupção, se não caíram no vazio, pelo menos não exerceram no ânimo do eleitorado o efeito esperado pelos oposicionistas. Do princípio ao fim da campanha, o presidente foi apontado como favorito a superar a soma dos votos dos adversários, ganhando no primeiro turno. Isso se deveu basicamente ao fato de que o sistema da reeleição, engendrado por Fernando Henrique, do PSDB, instituir na prática um recall no meio de um mandato real de oito anos – e não dois mandatos de quatro anos. Além disso, o presidente atravessou o período da disputa, inclusive os 45 dias de propaganda eleitoral gratuita dos partidos nos meios de comunicação de massa, como se, de fato, nada tivesse a ver com os malfeitos de seus ex-subordinados e correligionários. Ter-se-ia, então, beneficiado do chamado “efeito teflon”.
Da diferença à isonomia – Lula elaborou uma estratégia muito pragmática e eficiente para ganhar a segunda eleição consecutiva, após perder três em seguida. Eleito em 2002 por uma ampla aliança, que incluía setores da classe média insatisfeitos com o que se chamava de privatização do Estado brasileiro por grupos políticos patrimonialistas, ele convenceu a maioria do eleitorado que seria diferente de tudo e de todos, comandando uma gestão competente tecnicamente e honesta. Esse discurso, contudo, perdeu o sentido com a enxurrada de denúncias de ineficiência e corrupção no governo. Ele, então, da mesma forma como já havia aplicado a política econômica do antecessor, Fernando Henrique, levando-a até a extremos, deu uma guinada de 180 graus, partindo para o convencimento do eleitorado de que seus adversários, que o condenavam retoricamente, adotavam idênticas práticas desonestas. Estes confirmaram esse argumento dele, participando de um grande pacto nacional pela manutenção dos mandatos dos próprios parlamentares acusados de corrupção.
Indo com facilidade e desfaçatez da diferença à isonomia, Lula conseguiu êxito em sua brilhante estratégia de garantir o apoio dos banqueiros, propiciando-lhes ganhos inéditos: as cinco maiores instituições financeiras tiveram em seus três anos iniciais de governo 26% de lucro a mais que nos oito de Fernando Henrique, acusado pelo PT de ser “neoliberal”. Enquanto isso, conquistou o apoio maciço do lúmpen-proletariado explorando programas sociais pouco utilizados pelos adversários nos governos anteriores, caso do Bolsa Família, que atinge 11,5 milhões de lares miseráveis.
O Brasil dividido – Os mapas eleitorais do primeiro turno não deixam dúvida alguma quanto à divisão do Brasil em dois países distintos: os 16 Estados em que o presidente esmagou seu adversário sob uma avalanche de votos e os 11 em que Geraldo Alckmin o superou. O favoritismo do presidente à própria reeleição é sustentado pelo apoio que recebe do lado do País mais dependente das benesses do Estado provedor. Enquanto o outro lado, cuja renda provém basicamente da capacidade de empreendimento privado, reagiu de modo a assegurar a disputa em segundo turno, embora talvez ainda não disponha de sufrágios suficientes para levar o pretendente do PSDB à vitória final.
Com políticas econômicas praticamente idênticas e jamais debatidas ao longo da campanha, os dois candidatos se diferem basicamente no plano das relações internacionais. Lula filia-se claramente ao grupo liderado por Hugo Chávez e que reverencia Fidel Castro. Enquanto Alckmin, com certeza, abandonará esta política terceiromundista, realinhando a posição brasileira com o Ocidente capitalista. Seja como for, vença uma hipótese ou outra, nunca se deverá deixar de levar em conta as diferenças entre um país de complexa estrutura econômica como o Brasil e a Venezuela, dependente demais da monocultura petroleira.
© VÉRTIGO (revista mexicana)outubro de 2006 .

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