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No Blog do Nêumanne no Estadão: O coronavírus como arma política

No Blog do Nêumanne no Estadão: O coronavírus como arma política

José Nêumanne

Após demitir a ciência no combate à covid-19 no Brasil, Bolsonaro usa a pandemia como aliada política, vendendo óleo de cobra de que não pode haver impeachment durante crise sanitária

“O comportamento do presidente bateu de frente com a ciência, com o SUS e com a vida. Aí ficou impossível, porque nenhum de nós podia sair das nossas prerrogativas. Ele resolveu substituir o ministro, não o Mandetta. Ele exonerou foi a ciência.” A frase, de autoria do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, proferida em evento do Movimento Brasil Livre (MBL) pode parecer choro de perdedor, mas não tinha como ser mais exata. Ao usar o poder hierárquico, garantido pela Constituição, de demitir o ministro, qualquer um que fosse ele, Jair Messias Bolsonaro mostrou-se coerente em relação a seu comportamento na maior crise sanitária recente da História do País e na promessa de maior depressão econômica da nossa História, quiçá da Terra inteira.

Em março, o capitão de gravata aproveitou mais uma ocasião para bajular seu ídolo, Donald Trump, que definiu a covid-19 como “gripezinha”. E mesmo com o novo coronavírus fazendo um estrago trágico absurdo, que forçou vários administradores municipais a usarem câmaras refrigeradoras para conservar cadáveres e, assim, evitar uma crise local de sepultamentos, ele nunca levou a pandemia a sério. Aproveitou a oportunosa ensancha que lhe foi dada por ela para triturar adversários políticos de uma eleição a ser disputada em dois anos e sete meses e ainda transferir para governadores de Estado e prefeitos a responsabilidade pela crise econômica, que será tanto mais grave quanto maior for o número de vítimas da doença maligna. De fato, ele não desautorizou o ministro que ganhava popularidade administrando o combate ao contágio da forma mais eficiente que podia, tendo em vista as enormes deficiências do serviço público do Brasil. Mas, sim, o conhecimento.  Agarrado à lorota que lhe permitiu escapar da responsabilização pelo desastre econômico após a passagem do microrganismo, ele rasgou recomendações da autoridade sanitária planetária e foi coerente com sua pregação do ignorantismo tirando o chefe da pasta encarregada de seu comando para se travestir de sacerdote de Tânatos, deus grego da morte.

Esse não foi o único pecado mortal cometido pelo chefe do Executivo federal nos últimos dias, terríveis para o Brasil e a humanidade em geral. Aproveitou-se da concentração do noticiário dos meios de comunicação em torno do vírus vindo da China para matar (sua paixão) dois coelhos numa cajadada só: livrou-se de um policial incômodo que o faz perder o sono com a perspectiva de seus filhos investigados serem denunciados, ganhando de lambujem o afastamento de outro ministro popular, forçando atitudes que não teria coragem de adotar na normalidade.

E mais: imediatamente depois disso passou a usar a atual tragédia sanitária e a eventual depressão econômica que ela produzirá para evitar quaisquer movimentos institucionais que ameacem sua condição de ocupante do maior poder da República com o argumento de tornar caos institucional a urgência de salvar vidas. Não imagine o incauto leitor que houver nessa crise, em particular quem considere seu governo acima de qualquer outro bem vital da democracia, que este está sendo o mais sórdido de seus movimentos. Ao mau militar que negociou sua retirada do Exército no mais baixo grau do oficialato para evitar escândalo que constrangesse seus então comandantes encostou seu barrigão de “atleta” no balcão do palácio para comprar seu salvo-conduto de permanência no poder com verbas públicas oferecidas ao centrão, conjunto de organizações partidárias criminosas dedicadas ao furto do erário precário.

Antes de pagar, conseguiu provas incontestes de que sua tática surtiria efeito. Roberto Jefferson, cujo currículo é emporcalhado pela dupla condição de corrupto condenado, em cumprimento de pena vigente, e delator de seus companheiros de quadrilha, providenciou em passado distante emprego público para seu filho 03, Eduardo, em gabinete de Brasília, enquanto frequentava aulas no Rio. Acabou de visar o passaporte dele para ficar. De olho no Ministério do Trabalho, talvez para dá-lo de presente à filha, Cristiane Brasil, impedida pela Justiça de servir de cambalacho com Dilma, do PT. Talentoso advogado de criminosos do Estado do Rio, o prócer não se esquivou de aderir à luta contra o impeachment do baluarte da nova política, que apodreceu antes da velha, contrariando as leis da finitude na biologia com uma declaração bombástica: “O presidente só sai à bala”. Não se sabe se isso era garantia de vida ou ameaça de morte. É um pacto de sangue entre malandros que se entendem e por isso não se sabe se um ou outro cumprirá o pactuado.

Jefferson foi a cereja do bolo. Neste há ingredientes tão podres quanto ele. Acorreram ao balcão Valdemar Costa Neto, do PL, como Jefferson usando tornozeleira após passagem por cela, e Ciro Nogueira, atual presidente do partido da joia da coroa da corrupção pátria, Paulo Maluf. Arthur Lira, personagem da devassa da Operação Lava Jato, aceitou dar prova inquestionável de sua adesão num selfie que mandou para a mulher. Candidato à sucessão, na presidência da Câmara, de Rodrigo Maia, mais novo inimigo da saraivada de tuítes e zaps disparados do “gabinete do ódio”, comandado por Carlos Bolsonero, o incendiário que torra as mais sólidas reputações do País. Como, no momento, a reputação do ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça e da Segurança Pública Sergio Moro. Outro pretendente a terceiro na linha sucessória presidencial, Marcos Pereira, teve prometida preferência na disputa, mas o encontro não foi filmado e o parceiro de buraco ficou sabendo que o ainda poderoso chefão o rifou, temendo ser traído, obsessão de todo traidor contumaz.

A agenda do Palácio do Planalto na vigência desta “nova” nova política, que apodreceu e desmilinguiu antes de envelhecer, traz novidades interessantes. Pelo centrão também foi ao balcão o deputado Wellington Roberto, que protagonizou a falsificação da assinatura do senador Jorginho Mello e do presidente de seu partido, o PL, Valdemar Costa Neto, numa votação simbólica, ou seja, só de líderes. Ele levou experiência antiga na prática de ilícitos. Na infância, segundo contam amigos da família, ajudava o pai a diminuir o peso de sacas de açúcar, fórmula bem-sucedida para engordar o patrimônio familiar. Não à toa, dias depois a assinatura do então ministro da Justiça, Sergio Moro, foi falsificada no decreto em que foi demitido o então diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo.

Dois outros frequentadores do balcão, Efrahim Moraes, conhecido em seu Estado como Éfraquim, do DEM de Maia e Alcolumbre, e Baleia Rossi, líder do MDB de Renan Calheiros, saíram afinados com a canção favorita dos cetáceos. Pediram juízo por causa do coronavírus. Sua Insolência não retirou sua negação à pandemia, pois covid-19 é gripezinha, resfriadinho, e o impeachment dele não pode ser votado por causa da prioridade nacional de combater o coronavírus. Efrahim e Baleia exageram no bolsonarismo de balcão e tornaram-se mais desumanos do que ele.

Gilberto Kassab, dono do PSD, também foi honrado com uma visita ao balcão do capitão. A presença, como sempre, discreta, do ex-prefeito de São Paulo, que foi ministro de Dilma até o dia da votação do impeachment dela e de Temer no primeiro dia do governo depois do “gópi”, deve ter propiciado boas perspectivas para o Messias da “nova” farsa, que apodrece, mas não fenece. Este votou nos três julgamentos de impeachment a que compareceu: para defenestrar Collor, que renunciou diante do inelutável, Dilma e Temer. Só o paulista sobreviveu às tentativas de Rodrigo Janot, então procurador-geral e seu inimigo. Para isso contou com a ajuda de toda essa tropa que o atual presidente convocou para se salvar e, assim, se tornar o único beneficiado pelo coronavírus do planeta.

Minha avó dizia que quem tem padrinho não morre pagão. O presidente desta tresloucada República em que o ignorantismo é prova de sabedoria desempenha função primordial para mostrar que quem marca, tange e toca um gado cego, idólatra e fiel consegue ir sobrevivendo. Mesmo com todas as evidências de delitos contra o Código Penal e crimes de responsabilidade, que pululam como o vírus que veio de Wuhan no testamento do juiz paranaense à saída de seu governo. Mesmo que seu óleo da cobra não tenha salvado milhares da covid-19. Isso não prova que não houve tragédia, mas, sim, dois são mais do que três nos quintos do inferno.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 27 de abril de 2020)

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