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No Blog do Nêumanne: Honestidade e garantismo de araque

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José Nêumanne

Afastamento de Witzel do governo do Rio põe em xeque duas tradições inabaláveis da hipocrisia na política e na gestão do Estado no Brasil: probidade a toda prova e pleno direito de defesa

O escândalo em torno da atuação do governador do Estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que culminou em processo de impeachment na Assembleia Legislativa e seu afastamento do cargo por 180 dias pelo Superior Tribunal de Justiça, expõe duas farsas na vida pública nacional. A primeira são as juras de lisura na manipulação do erário tendo como base a falta de prática na política. E a outra, a falsa imparcialidade dos ministros das altas Cortes, garantida pela profusão de habeas corpus concedidos a protagonistas de casos escabrosos de desvios de recursos públicos.

Fuzileiro naval e paraquedista militar de origem, juiz de carreira e marinheiro de primeiríssima viagem em disputa de votos, Wilson Witzel nadou de braçada em mares revoltos da eleição estadual fluminense em 2018. Na disputa apoiou e foi apoiado por outro “azarão” nas eleições gerais: Jair Bolsonaro apostou no antipetismo, no combate à corrupção e na necessidade da reforma da máquina pública como armas de persuasão do eleitor. Com diferenças: ele era realmente iniciante, enquanto o capitão proibido de frequentar a escola de formação de majores, ao contrário, disputou a Presidência após dois anos na Câmara Municipal do Rio e 28 na Câmara dos Deputados. De lambujem, este ainda exibia na bagagem um filho deputado estadual que se tornaria senador, outro, reeleito deputado federal e mais um, vereador desde os 17 anos. Toda a descendência tem sustento garantido sem demissão e perda de renda. E com foro privilegiado.

Ambição de ambos e amadorismo do ex-juiz os separaram. Mesmo encarando evidências cabulosas de participação e proteção em esquema de peculato nos gabinetes de dois filhos e no próprio, administrados por ex-colega na brigada de paraquedistas do Exército, o subtenente PM do Rio Fabrício Queiroz, que protagoniza inquérito no Ministério Público do Estado (MP-RJ) em que figuram depósitos vultosos em dinheiro vivo de um chefão de milícia e empresa que agenciava préstimos de pistoleiros profissionais, o capitão PM do Rio Adriano Magalhães da Nóbrega.

Tudo isso, contudo, está imerso num mar tão poluído quanto a Baía da Guanabara, de dejetos morais que não vêm à tona talvez por causa do peso do material orgânico disponível. Sua reação estúpida a questionamentos sobre depósitos de pelo menos R$ 89 mil reais feitos pelo operador do sistema e sua mulher, Márcia Aguiar, em contas da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, é tratada de forma jocosa por seus asseclas, como o suspeitíssimo líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros, e com cínico descaso pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia, que mantém em gaveta trancada mais de 30 processos de impeachment.

Sem capivara similar, Witzel embriagou-se com o ineditismo de seu sucesso eleitoral e apostou todas as fichas em charme inexistente para afundar num pântano que não cuidou de evitar. Como os Bourbons desprezados por Talleyrand, ele fez questão de repetir tudo o que cinco de seus antecessores no Palácio Guanabara fizeram de errado, entre eles o recordista preso por pilantragem, Sérgio Cabral, Mas não deu a mínima atenção aos péssimos resultados penais colhidos pelo inspirador. Como se fartou de citar o copioso noticiário sobre o caso, é acusado de ter lavado dinheiro na contabilidade do escritório de advocacia da mulher, Helena Witzel, assim como foi feito antes com Adriana Ancelmo. As investigações também descobriram que, a exemplo de Cabral, os aliados de Witzel usaram doleiros do Uruguai para movimentar os recursos do esquema. O sistema incluiu ainda cofres e viaturas de uma transportadora de valores, a Fenixx, para guardar o dinheiro, repetindo mais uma vez o grupo de Cabral, que recorria aos serviços da transportadora TransExpert, evitando com isso que o dinheiro passasse pelo sistema bancário oficial. Essa foi a fórmula usada por Cabral e repetida por Witzel para receber e depositar propinas em dinheiro vivo. Método, aliás, similar ao de que é acusado um de seus maiores apoiadores na campanha e hoje inimigo mortal, Flávio, o primogênito de Bolsonaro.

Até agora, contudo, todas as evidências que pesam contra o ex-aliado de campanha, produzidas e vazadas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), não causaram o efeito explosivo das revelações da Operação Placebo, que ainda tem a agravante de ter desvendado a malversação de verbas empregadas no combate à pandemia de covid-19. Pois isso adiciona desumanidade à falta de prática e ao desleixo estúpido. O previsível desenrolar dos acontecimentos é a perda do cargo de Witzel retirar de suas mãos o único trunfo importante para enfrentar o inimigo poderoso na Federação: a direção do MP-RJ, que vai ser substituída em janeiro de 2021. A troca pode explicar, embora não justifique, a comemoração da famiglia Bolsonaro da desgraça do paraquedista que não soube esperar sua vez no topo da nova carreira.

Por enquanto, a única carga d’água capaz de alterar o sabor pleno do chope da vitória do aliado que virou inimigo é a prisão do pastor Everaldo Dias Pereira, acusado pela Operação Lava Jato de ter recebido R$ 6 milhões da Odebrecht para dar uma mãozinha amiga a Aécio Neves (PSDB) num debate presidencial na TV em 2014. Ou seja, dois anos antes de ter batizado Bolsonaro (o que também faria com Witzel) no Rio Jordão e quatro antes da eleição dos dois. Mas quem vai prestar atenção nisso? Os bolsonaristas ditos de raiz, ou seja, que vivem enterrados no próprio fanatismo, acreditam piamente que quem o povo elege nunca mais pode perder o mandato, a não ser na eleição seguinte. Embora seu “mito” (ou seja, minto) tenha enterrado os eleitos Collor e Dilma com seus votos e agora trate de sepultar Witzel, eleito com seu apoio em troca de apoiá-lo mesmo tendo a ele faltado a total garantia de seu direito de defesa.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 31 de agosto de 2020)

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