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No Blog do Nêumanne: Escondendo a covid do povo

No Blog do Nêumanne: Escondendo a covid do povo

José Nêumanne

General intendente na Saúde suspende boletim diário da pasta sobre total de contágios pelo novo coronavírus e Bolsonaro comemora Jornal Nacional não ter como informá-los ao público

O Estado de Direito, vigente há 32 anos na forma de Constituição aprovada por representantes da cidadania, foi violentado de forma desrespeitosa e cínica pelo ministro da Saúde, o roliço general intendente Eduardo Pazuello, que interrompeu a comunicação diária de dados de contágios e óbitos da covid-19. A infâmia foi comemorada de forma pueril e estúpida pelo chefe dele, o presidente da República, Jair Bolsonaro, que, num de seus ominosos contatos com adoradores no chiqueirinho montado à frente do Palácio da Alvorada, disse: “Acabou matéria do Jornal Nacional”. E depois chamou a Globo, que veicula o telejornal citado (e explicitamente prejudicado), de “TV Funerária”.

Celebrada como batalha vencida contra inimigo jurado, a rede de televisão aberta monopolista de audiência, na guerra eleitoral da covid, a ordem foi executada com fé cega, faca amolada pelo general boboca, que executou o serviço sujo por crassa ignorância. E resultou em crime brutal contra direito elementar de cada cidadão brasileiro. Pretendente a proprietário exclusivo da liberdade de expressão, conceito que usa e de que abusa para defender acusados de divulgar mentiras para executar reputações de inimigos e louvar seus falsos feitos oficiais, o chefe do governo não sabe da missa um terço, como rezava minha avó.

A liberdade de expressão não é um produto nobre dos meios de comunicação ou exclusivo do ofício de comunicadores. Ao contrário. É um dos direitos humanos fundamentais em qualquer Estado de Direito que se preze. E que também deveria ser prezado por quem se proclama, como é seu caso, defensor do único regime político realmente popular, que é a democracia, palavra egressa do grego que significa “governo do povo”. A liberdade de expressão, informação ou opinião é um direito público, e não uma arma política individual. Ou seja, o usuário do conceito pétreo de qualquer Constituição, incluída a nossa, é o cidadão. O que ele e seu intendente sabujo não conhecem, por interesse ou deficiência intelectual de analfabetos funcionais que são, é que a ordem vigente neste país desde 1988 admite que até seus inimigos, como eles, por exemplo, o exerçam apenas porque a cidadania exige pluralidade de ideias.

No entanto, essa liberdade de um tipo de governo que admite até desaforo (caso das manifestações fascistoides animadas pelo chefe do Poder Executivo diante de edifícios que abrigam instituições do Estado, como o Quartel-General do Exército e os Palácios do Planalto e da Alvorada) não permite caneladas que os impeçam de continuar sua marcha, com a qual o povo brasileiro é comprometido e de que não quer abrir mão.

A liberdade, em toda a ampla extensão do significado dessa palavra sagrada, não é uma permissividade do Estado que a pratica, mas um dever inelutável, uma obrigação indispensável de seguir e manter, tal como expressa o juramento que o capitão reformado fez em sua posse na Presidência da República. Esse exercício é de tal forma exigido que, ao longo dos anos, o configuram em leis ordinárias os membros do Poder Legislativo, eleitos pelo povo da mesma forma que ele, como vive a repetir, pretendendo assim executar todos os Poderes prometidos pelos populistas, sem regras nem limites, tal como faz questão de executar e exibir. É o caso da lei da transparência, também vigente neste país, que não é a senzala da “casa grande” da famiglia Bolsonaro nem a latrina da caserna da qual ele foi convidado a se retirar por indisciplina e terrorismo, e não deveria esquecer-se disso. No caso particular de mais essa lei, que o capitão cloroquina e o general contabilista desafiam como se fosse um dever de casa, exige a divulgação de informações de interesse público que sejam “primárias, íntegras, autênticas e atualizadas”.

No episódio específico da violação da transparência e do direito do público à informação pela providência totalitária tomada pelos dois, há ainda uma agravante. Outro preceito constitucional dá a qualquer cidadão brasileiro o direito à vida e também este é inalienável, precedendo em valor até o da liberdade e o de ir e vir, de que, de forma irresponsável, ele tem lançado mão contra governadores e prefeitos que pretenderam evitar o colapso do sistema público de saúde de seus Estados e municípios.

Ao contrário do que seu mesquinho individualismo doentio pode fazer-lhe crer, não foi por vaidade, exibicionismo ou vontade de brilhar na foto que seu primeiro ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, liderou a equipe em entrevistas coletivas diárias em horário adequado à melhor absorção pelo público pagante, detalhando estatísticas e informações sobre a pandemia: 17 horas. O desempenho do Estado brasileiro na prevenção à circulação do novo coronavírus foi de um ridículo comum no desgoverno de sua excelência. No quarto mês da ameaça crescente da covid-19, o cidadão (e não súdito) brasileiro conviveu com a incompetência de gestão de governos federal, estaduais e municipais, que não providenciaram a compra de testes e de equipamentos indispensáveis para permitirem ao sobrecarregado Sistema Único de Saúde (SUS) cumprir, com dificuldade e heroísmo, a obrigação de manter a higidez de todos os brasileiros.

No entanto, Mandetta nunca negou outro insumo fundamental, a informação, que não é, nunca foi, exclusivo de nenhum veículo, por mais poderoso que possa ser. Mas de todos. As informações que Mandetta e sua equipe deram não serviam apenas para aumentar a audiência ou leitura desses veículos, consequência natural não da histeria detectada pela limitada inteligência do chefão, mas da necessidade comum de tomar conhecimento de tudo o que pudesse ser feito para evitar a contaminação.

O arrivista Nelson Teich, bem-sucedido empresário da área da doença privada, e não da saúde pública, desprezou a prática apenas como concessão à vaidade e à cegueira do chefe máximo. Mas também terminou caindo por não poder emprestar sua assinatura de médico à vocação dele de homem da cobra de feiras livres, a prometer a cura mágica pela cloroquina, que não evitou a mortandade que se abateu sobre o povo brasileiro. Como já tinha feito antes com a tentativa de empurrar goela abaixo de cada um o placebo (que consulte o dicionário e saberá o que é) da “pílula do câncer”.

Agora temos o general guarda-livros, que gosta de falar em logística (aliás, dane-se sua logística). E este cede a seus caprichos. Ainda assim, não sendo médico nem tendo encontrado nenhum profissional das ciências médicas disponível para satisfazer sua altiva ignorância, não firmou o protocolo do medicamento para lúpus, malária e reumatismo, mas promulgou um édito absurdo, que seria cômico se não fosse trágico.

O permanente ministro provisório, de plantão até o fim dos efeitos deletérios da pandemia e da depressão econômica inigualáveis, deu sua contribuição à catástrofe, que parece não ter limite nem fim, de sua gestão com um dedo de ridículo impagável. O bilionário Carlos Wizard é tão absolutamente absurdo em sua falta de “senso de loção”, como dizia minha tia Maria, que queria proibir a importação de mais respiradores. E prometeu recontar e reduzir o número de mortos, feito que nem seus inspiradores da ditadura militar conseguiram com a epidemia de meningite que abalou o País no fim do século passado.

Da obra inesquecível do paspalho ficou, contudo, essa herança que o conduzirá ao opróbrio (será necessária mais uma consulta ao “pai dos burros”) histórico de não ter respeitado alguns direitos elementares que os homens veneram desde que observavam as sombras da fogueira na caverna de Platão. O coronavírus nega a suas vítimas acompanhar seus entes queridos na agonia, confraternizar na despedida dos velórios e contar com amigos em número suficiente para levarem o ataúde até a sepultura. O desgoverno de sua excelência acrescenta a isso a mágica macabra de um ilusionista que tenta se esconder no sobrenome inglês de tal desumanidade que retira seus mortos queridos até da estatística.

 Não omitirei a sentença genial do substituto legal eventual do capitão, o general Hamilton Mourão, seu companheiro de chapa na vitoriosa campanha eleitoral de 2018. “O governo não quer esconder os mortos. É só somar”, sapecou o conselheiro Acácio dos bivaques. Isso poderia, pelo menos, ter servido de alerta ao titular. O Tribunal de Contas da União, a Câmara e o Senado anunciam a criação de plataformas para substituírem a Intendência da Saúde na tarefa que pode ser cumprida por algoritmos de computador. E os meios de comunicação também farão isso.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicada no Blog do Nêumanne na segunda-feira 8 de junho de 2020)

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