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No Blog do Nêumanne: Brasil e Amapá ao deus-dará

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José Nêumanne

Bolsonaro e Alcolumbre foram a Macapá em missão oficial inaugurar um gerador a Diesel e pedir votos para o irmão do beneficiário da fraude da eleição da Mesa do Senado, e o apagão continua

Em 3 de novembro, choveu forte no Amapá, e um incêndio na transmissora privada de eletricidade para a rede paralisou o fornecimento do Estado em cujo território corre o rio Oiapoque, no extremo norte do mapa do Brasil. No sábado 21, 17 dias depois, o presidente Jair Bolsonaro deu o ar de sua desgraça, inaugurou um gerador a Diesel, prometeu não cobrar a conta da luz que não foi entregue e pediu votos para José Samuel, irmão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, escolhido para o posto na Mesa em eleição fraudulenta com 81 eleitores e 82 votos. Pobre Amapá nas trevas, miniatura do Brasil, em cujo mapa no  extremo oposto fica o rio Chuí, durante o maior apagão de gestão da História.

Enquanto no Estado sem força, o povo sofre sem água nem urna e não se decidiu quem é o responsável pelo inferno de calor, treva e seca. E não faltam suspeitos. O primeiro deles é a privatização. A responsável pela transmissão de energia no estado do Amapá, desde 2008, é a Linhas de Macapá Transmissora de Energia, que até o ano passado pertencia à empresa espanhola Isolux, que venceu o leilão de privatização da Linhas de Macapá Transmissão de Energia em 2008, mas a transferiu no ano passado à Gemini Energia. A transmissão passou a depender de concessões de transmissão de empresas privadas, que não prestam o melhor serviço do mundo. O Valor Econômico informou que documentos do Ministério de Minas e Energia e do Operador Nacional do Sistema (ONS) atestam que a subestação atingida opera há mais de dois anos no limite de sua capacidade.

Da discussão em torno da privatização, quimera do liberal Paulo Guedes, que mantém o emprego, mas abandonou as convicções, a responsabilidade pelo caos é transferida para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). É ocioso lembrar que as agências que, em teoria, fiscalizam as empresas para as quais foram repassadas subsidiárias das antigas estatais, sempre foram dirigidas por paus-mandados dos governantes federais de plantão. O caso mais angustiante, mas não o único, é o da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), dirigida pelo contra-almirante Antônio Barra Torres, negacionista e bajulador do presidente Bolsonaro. André Peppitone foi nomeado para a presidência da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em agosto de 2018 pelo ex-presidente Michel Temer. O diretor do ONS,  Luiz Eduardo Barata Ferreira, é petista, foi nomeado por Dilma Rousseff e reconduzido por Temer. Peppitone e Barata foram afastados dos cargos pelo juiz federal João Bosco Costa Soares Batista como óbvios culpados. E as diretorias foram mantidas por decisão do 1.ª Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF 1).

A mera leitura do parágrafo anterior permitirá ao leitor ter uma ideia do saco de gatos que mantém o povo de Macapá no inferno de Dante Alighieri na vida real. Aneel e ONS mantêm relações estreitas com o Ministério das Minas e Energia. O ministro é o contra-almirante Bento Albuquerque que, ao contrário de seu chefe imediato, o capitão Jair Messias, viajou para o Estado em pane duas vezes antes da terceira, agora em companhia do próprio no sábado passado. Dois dias antes, respondeu, meio irritado, a um repórter que ele já tinha cumprido seu dever ao mandar publicar no Diário Oficial instruções para a retomada da normalidade. Em seguida, outra chuva provocou mais um apagão. Que lambança, hein?

Na sexta-feira, 20, o presidente Bolsonaro recebeu no Palácio do Planalto o corregedor-geral do Tribunal de Justiça do Rio (TJ/RJ), desembargador Bernardo Garcez. Este fugiu da imprensa escondendo-se atrás de uma pilastra, onde, imaginou, não seria visto. Como lembrou O Antagonista, Garcez integra o órgão especial que julgará denúncia do MP/RJ contra o senador sonso Flávio Bolsonaro, primogênito do capitão.

No sábado, 21, após ter acompanhado o fiasco de candidatos por ele apoiados, de forma criminosa, em lives gravadas em próprios públicos, o chefe do governo foi a Macapá a convite do presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre. Este perdeu, em 2014, a eleição para o governo do Amapá e conquistou, em 2018, vaga para o Senado, cuja presidência ocupou em fevereiro de 2019 em eleição fraudada, na qual de um total de 81 senadores 82 “votaram”.

Na viagem-relâmpago dos dois presidentes de Poderes, Bolsonaro e Alcolumbre, foi inaugurado, pasme a Nação, um gerador a óleo Diesel, que não encerrou o calvário do rodízio de eletricidade. Pois a providência que o contra-almirante Bento, também protagonista do ridículo atroz, mandou publicar dela não deu cabo. O povo do Amapá, que garantiu a sobrevida de José Sarney na política, quando o ex-presidente foi enxotado do Estado em que reinava, o Maranhão natal, na certa não terá muito a se orgulhar do fato de ter fornecido a tragédia pronta para definir o país inteiro. Como faz com  fúria contra a imunização da covid-19, o chefe do Executivo fez propaganda do irmão do comparsa do Centrão, que preside o Legislativo, sem a menor cerimônia. E este não se fez de rogado ao produzir a pérola que não é besta de jogar aos porcos: “o maior prejudicado com o apagão é meu irmão”. Outra rima que não é solução. Essa versão nortista das irmãs Cajazeiras da telenovela O Bem Amado, de Dias Gomes, inspira Bolsonaro a usar sem medo de ser feliz a retórica de Odorico Paraguaçu, de Sucupira.

Em homeagem à “banana, menina, tem vitamina, engorda e faz crescer”, esta não é a republiqueta de bananas, mas, sim, o principado das trevas, sob um príncipe que dispensa o cérebro para governar com o fígado azedo. O coitado do Amapá continua ao deus-dará, produzindo mais uma mísera rima, que não é solução de nada. E o Brasil todo idem ibidem.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, segunda-feira 23 de novembro de 2020)

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