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No Aliás do Estadão: O rendez-vous do sórdido com o sublime

No Aliás do Estadão: O rendez-vous do sórdido com o sublime

Poesia Completa é um livro à altura do fino ofício de Alberto da Cunha Melo

O volume de mil páginas provoca o primeiro impacto: como pode o pernambucano de Jaboatão dos Guararapes Alberto da Cunha Melo ter sido um poeta tão produtivo e copioso nos 65 anos em que viveu? Impacto ainda maior terá o leitor, habituado ou não à arte do romano Horácio (seu ícone e cânone), ao percorrer cada uma delas e nada encontrar que considere jaça. Há ainda, no caso desta Poesia Completa, a inserção do gesto criador, do labor exaustivo do autor, permitindo o acesso a poemas inacabados, esboços ou exercícios poéticos, alguns intocados há décadas: belos diamantes brutos, ainda não lapidados.

poesia completaA poesia publicada em vida do autor foi louvada por críticos respeitáveis. Destaco dentre eles o poeta e professor paraibano Hildeberto Barbosa Filho, que parafraseou Johannes Pfeiffer em Introdução à Poesia: “devido à sua verdade, esta poesia é necessária; devido à sua beleza, é beatificante!” Alberto foi sociólogo e jornalista competente e pontual, mas revelava que essas atividades apenas lhe serviam como fonte de sobrevivência e, algumas vezes, de leitmotiv de seus poemas. Uno e indivisível, é poeta, e a terceira pessoa do singular rege o verbo no presente do indicativo, porque sua poesia atravessa o tempo e ganha uma dimensão que, apesar de todas as honras e gratificações em vida, ainda carece de maior reconhecimento a seu mérito.

A primeira vez que vi falarem dele foi em entrevista de Bruno Tolentino nas páginas amarelas da Veja. O implacável avaliador lançou-o às alturas de maior nome da poética nacional desde João Cabral de Melo Neto. A fé em Bruno me levou a adquirir os livros de Alberto, todos editados no Recife, berço de Cabral e Bandeira, sem penetração no Sudeste. O faro fino do editor Pedro Paulo de Sena Madureira, meu sócio na Girafa Editora, permitiu que a obra imensa e singular circulasse nas metrópoles a bordo de uma edição caprichada e magnífica de O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos. Os adjetivos usados descendem, mais do que do entusiasmo deste autor, da concessão do prêmio para o melhor livro de poesia dado pela Academia Brasileira de Letras em 2007. Debilitado, o poeta não foi à Casa de Machado de Assis recebê-lo e me honrou, como editor, pedindo para representá-lo.

Alberto da Cunha Melo, no lançamento do livro "O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos". Recife: A Girafa, 2006.

Alberto da Cunha Melo, no lançamento do livro “O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos”. Recife: Girafa Editora, 2006.

Certa vez, Astier Basílio, precoce candidato a Arthur Rimbaud de Campina Grande (na comparação feita por Alberto e glosada por outro pernambucano, Jomard Muniz de Britto, que indagou quem seria, então, o Paul Verlaine da Borborema), pôs-me nas mãos um exemplar da edição artesanal de 200 exemplares numerados de Yacala, à beira do balcão do Café Aurora, na Praça da Bandeira, em Campina. Exórdio, o primeiro dos 140 poemas reunidos, sacudiu minha alma como um vagalhão na tempestade: “Levamos fogo, não esponjas, / ao trono sujo de excremento, / disputando o mesmo vazio / de uma estrela no firmamento; // jarros negros e estrelas, tudo / é uma busca de conteúdo; // ou somos renúncia ou cobiça, / atravessando esses planaltos / feitos de cinza movediça; // mas todos estamos em casa, / como os voos dentro das asas”.

Manuscrito da segunda versão do "Exórdio", do livro "Yacala"/ Alberto da Cunha Melo exibe uma matriz de chumbo do seu livro "Yacala". Recife, Gráfica Olinda, 1999.

Manuscrito da segunda versão do “Exórdio” do livro “Yacala”/ Alberto da Cunha Melo exibe uma matriz de chumbo do seu livro “Yacala”. Recife, Gráfica Olinda, 1999.

A emoção desse rendez-vous do sórdido com o sublime se repetiu ao reunir-me a um grupo de atentos e devotos espectadores que lotaram o auditório da Livraria da Vila no lançamento paulistano da obra magna. Entre os presentes, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, professora de literatura, mulher, viúva, a mais completa e mais autorizada crítica (o que permitiu ao poeta conviver com a própria exegeta e permitirá ao estudioso acompanhar neste livro seu processo de criação); Martim Vasques da Cunha, herdeiro de Tolentino, autor do texto da orelha e timoneiro do projeto; e, last but not least, Carlos Andreazza, o bravo editor que trouxe a lume o monumento.

Lançamento do "Poesia completa". São Paulo, 19 de dezembro de 2017: Auditório/ José Nêumanne, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Maria do Carmo Ducco / Carlos Andreazza, Cláudia, Isabel Moliterno, Dionísius Amêndola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha.

Lançamento do “Poesia completa”. São Paulo, 19 de dezembro de 2017: Auditório/ José Nêumanne, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Maria do Carmo Ducco / Carlos Andreazza, Cláudia, Isabel Moliterno, Dionísius Amêndola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha.

Melhor não teria a dizer sobre o livro que não seja o simples reconhecimento de que está à altura da obra que abriga pela fé, pela autenticidade, pela força, pela verdade, pela beleza e pelo compromisso ético com o que há de mais puro, cru e autêntico na arte maior. O cartapácio é o altar digno da obra que merece o mais alto posto no panteão da poesia em língua de Camões e Vieira.

José Nêumanne

  • Jornalista, poeta, escritor e autor de Solos do Silêncio

Resenha publicada no Aliás, neste domingo, 28 de janeiro de 2017.

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