Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Nêumanne entrevista Chico Pereira

Nêumanne entrevista Chico Pereira

Artista prefere Brasil

na traseira do Primeiro Mundo

a na frente do Terceiro

Artista plástico Chico Pereira acha que seria interessante ver Europa protestando contra devastação do ambiente por China, Rússia, Índia e EUA

“O Brasil está numa encruzilhada para decidir se vai ser um país de frente do Terceiro Mundo ou se vai estar na  traseira do Primeiro. Escolheria este último”, dispara Chico Pereira, diretor do Museu de Arte Popular da Paraíba, em Campina Grande. Sobre a polêmica atual entre Macron e Bolsonaro, provocou: “Seria interessante ver a França e o resto rico da Europa liderando protestos contra a China e a Rússia, e também a Índia e os Estados Unidos, que juntos formam uma imensurável onda de devastação da atmosfera e dos biomas, centenas de vezes maior que a causada pelos incêndios das florestas e matas brasileiras”. Protagonista da semana na série Nêumanne Entrevista, ele falou de tudo um muito e arriscou: “A capacidade brasileira de se expandir para o centro-oeste e para a Amazônia criou uma marca e uma força incontrolável porque cresceu independentemente de governos e de ideologias. Um Brasil paralelo que se impôs pela força da sua produção, à frente da indústria nacional. Arranjou dois inimigos: internamente, o obscurantismo da agricultura socialista e toda a cadeia política à sua disposição, e externamente, os competidores que não conseguem produzir com a mesma eficiência e o mesmo preço, incluindo aí a produção destinada ao etanol. Essa guerra ambientalista entrou nas sutilezas de interesses vários, cujas performances se passam atrás de tênues cortinas, entre elas, também, aquelas de certezas científicas e até da boa vontade franciscana”.

Identidades estudantis de Chico do admissão à universidade, do pré golpe militar à direção do Museu de Arte de Campina Grande. Foto: Acervo pessoal

Identidades estudantis de Chico do admissão à universidade, do pré golpe militar à direção do Museu de Arte de Campina Grande. Foto: Acervo pessoal

Francisco Pereira da Silva Junior, o Chico Pereira, nasceu em Campina Grande (PB) 1944. Artista plástico com atuação desde os anos de 1960, participou da instalação do Museu de Arte Assis Chateaubriand, criado pela Campanha Nacional dos Museus Regionais, inaugurado em 1967, do qual foi diretor entre 1969 e 1974. À frente desse órgão participou ativamente dos movimentos para estabelecer uma política nacional de museus voltados para a educação e a formação de público. Foi membro da diretoria da Associação Nacional dos Museus de Arte do Brasil e professor do Departamento de Artes e Comunicação da Universidade Federal da Paraíba. Nesta instituição participou da criação e da coordenação do Núcleo de Arte Contemporânea. Foi coordenador de Extensão Cultural e da Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários. Atualmente aposentado, por duas vezes foi vice-presidente executivo do Conselho Estadual de Cultura e subsecretário executivo de Cultura da Paraíba. Tem ocupado cargos e funções em instituições nacionais e internacionais de arte e arte-educação. Publicou obras nos campos das artes, do folclore e da geo-história, entre eles o livro Paraíba, Memória Cultural, em que registra a evolução cultural desse Estado desde a conquista do Rio Paraíba aos dias atuais. Foi pró-reitor de Cultura da Universidade Estadual da Paraíba e atualmente está à frente do Museu de Arte Popular da Paraíba. É membro da Academia Paraibana de Letras.

Nêumanne entrevista Chico Pereira

Nêumanne – O senhor tem, com certeza, opinião formada sobre essa guerra retórica internacional entre a política preservacionista das Nações Unidas, da França e de outros países europeus, que acusam o atual governo brasileiro de desleixo, preconceito e crimes contra a natureza, e o desenvolvimentismo, defendido com unhas e dentes pelo presidente Jair Bolsonaro e seus exércitos de Brancaleone, enfurecidos e pretendentes a donos da verdade. Quem, a seu ver, tem alguma razão a oferecer além da disputa? Ou melhor: qual dos dois lados tem mais razão?

O artista plástico Chico, ao lado dos cantores e compositores Gilberto Gil e Carlos Aranha, tropicalistas, e ainda Belchior, em tempos de canções e discussões da política das artes na Paraíba. Foto: Acervo pessoal

O artista plástico Chico, ao lado dos cantores e compositores Gilberto Gil e Carlos Aranha, tropicalistas, e ainda Belchior, em tempos de canções e discussões da política das artes na Paraíba. Foto: Acervo pessoal

Chico Pereira – Acredito que nenhum dos dois. Ou melhor, ambos falam suas verdades, querendo cada lado impor suas razões eivadas de interesses particularizados. A ONU não manda mais em nada desde que se transformou em penduricalho do Terceiro Mundo, apaziguador de conflitos armados e de catástrofes nas periferias. Seu único órgão respeitado, o Conselho de Segurança, é uma instância que serve para mediar diferenças das grandes potências, mesmo assim não consegue controlá-las por causa do veto de qualquer uma delas. Seria interessante ver a França e o resto rico da Europa liderando protestos contra a China e a Rússia, e também a Índia e os Estados Unidos, que juntos formam uma imensurável onda de devastação da atmosfera e dos biomas, centenas de vezes maior que a causada pelos incêndios das florestas e matas brasileiras. Por outro lado, o presidente Jair Bolsonaro não consegue formar uma equipe confiável e preparada para compreender essa situação, deixando-se levar pelo “ouvi dizer” ou “acho que”, ele mesmo com limitações desses conhecimentos e intoxicado pela política dos contrários, notadamente das universidades públicas, exacerbadamente politizadas, que não conseguem ser vistas como fonte de consulta, e sim de desconfiança. Onde há riqueza há cobiça. Sempre foi assim. A Amazônia, especialmente, é um tesouro vivo. Não pode ser guardada num cofre.

N – O senhor acredita nas boas intenções dos países desenvolvidos, acusados por membros do governo brasileiro de terem, por trás dos interesses pela manutenção do meio ambiente, intenções egoístas de prejudicar as exportações dos nossos produtos agrícolas, que concorrem em posição muito mais favorável com a agricultura deles, atrasada tecnologicamente em relação à nossa, utilizando desculpas politicamente corretas, mas falsas? A seu ver, que alegações contêm mais verdades?

C – Os países desenvolvidos da Europa que se colocam diante do Brasil como defensores do meio ambiente atravessaram muitas catástrofes, entre elas duas guerras devastadoras em seus territórios, sem falar nas perdas humanas irreparáveis. São experiências dolorosas que ainda hoje trazem consequências, entre elas destruições e reconstruções de fronteiras nacionais e étnicas, com consequências de confrontos armados ainda hoje perdurando. Com o surgimento da industrialização, o mundo europeu deu início à era da poluição, com graves consequências para a natureza e para o homem. Ecologia seria um termo para os nossos tempos atuais. A guerra que hoje se trava na economia de mercado, no caso do agronegócio, passa pela disponibilidade de espaço agrícola associado à tecnologia, pontos em que o Brasil bate todos de longe, incluindo os Estados Unidos, que são o maior produtor do mundo e mesmo assim, por conta da sua obesidade, ainda precisa importar grãos e proteínas para alimentar sua fome de dragão. A capacidade brasileira de se expandir para o centro-oeste e para a Amazônia criou uma marca e uma força incontrolável porque cresceu independentemente de governos e de ideologias. Um Brasil paralelo que se impôs pela força da sua produção, à frente da indústria nacional. Arranjou dois inimigos: internamente, o obscurantismo da agricultura socialista e toda a cadeia política à sua disposição, e externamente, os competidores que não conseguem produzir com a mesma eficiência e o mesmo preço, incluindo aí a produção destinada ao etanol. Essa guerra ambientalista entrou nas sutilezas de interesses vários, cujas performances se passam atrás de tênues cortinas, entre elas, também, daquelas de certezas científicas e até da boa vontade franciscana.

Durante 20 anos, Chico foi desenhista técnico e esta foto é o registro de sua atuação neste trabalho em Campina Grande em 1966. Foto: Acervo pessoal

Durante 20 anos, Chico foi desenhista técnico e esta foto é o registro de sua atuação neste trabalho em Campina Grande em 1966. Foto: Acervo pessoal

 N – Em sua adolescência, o senhor participou da ruptura de sua geração com valores, posturas  e tomadas de posição política, considerados presos a um passado morto e paralisante. O senhor tem saudade dos verões com papos políticos na pracinha, paz e amor nas areias douradas das mornas praias, da bossa-nova e do rock and roll?

C – No Museu de Arte Assis Chateaubriand, em Campina Grande, uma tela de um pintor ingênuo paraibano, cujo título, Recordar é Viver, tem imagem e de um velhinho cercado pelos netos sintonizando um rádio daqueles de válvula, possivelmente em busca de uma emissora tocando valsas ou, quem sabe, A Voz do Brasil, para ouvir o noticioso da era getulista, ainda hoje insistindo em continuar. Não importa o que fosse, essa situação marcou, para mim, um divisor de um Brasil que ainda alcancei e não me abandona, nascido que sou dos pós-guerra, tempos de enormes transformações que viriam e continuam. Até aqui sou testemunha ocular desses acontecimentos globais que saem do centro para a periferia, no passado na infância e juventude pelo cinema, na maturidade pela televisão e pelo jornal, hoje pelo mundo global da internet, onde a periferia, de forma inversa, alcança o mundo. Intensamente acompanhei desde menino a guerra fria como se estivesse nas suas decisões. O mundo dividido entre o bem e o mal (conforme o lado que  se compusesse), do socialismo stalinista e seus periféricos versus Tio Sam e seus satélites, a marcha triunfante de Mao e seus camponeses ainda repercutindo nos meados dos anos de 1950 e logo depois a Guerra da Coreia, Os barbudos de Sierra Maestra no jornal do cinema, recebendo armamentos americanos para derrubar Fulgêncio Batista, a ruptura de Tito com Stalin, o radicalismo da Albânia nas ondas curtas da Rádio Tirana, as revoluções africanas, a criação da Universidade Lumumba, em Moscou, o bip-bip do Sputnik causando espanto. “A Terra é Azul”, micropoema de Gagarin, o primeiro homem no espaço (para inveja dos americanos), Nikita Khrushchev batendo o sapato no púlpito das Nações Unidas, a crise dos mísseis e o cerco americano à ilha de Fidel, a imagem de Jacqueline apanhando pedaços do cérebro de Kennedy e a morte por tiros do assassino que assassinou o presidente americano, tanques do Pacto de Varsóvia invadindo a Hungria, a Guerra do Vietnã, a imagem de Guevara transformada em pop-star. Tudo lembranças de épocas que se sucedem, se misturam às sensações existenciais marcadas pelo rock and roll, pelos Beatles, Woodstock lamacento de precariedade sonora, da paz e amor, repercutindo no Brasil da Jovem Guarda, do tropicalismo, do Cinema Novo ainda marcado pela bossa-nova abrindo caminhos mundo afora. Paralelamente, as aventuras para derrubar o regime militar instalado em 64, a resistência ou a inércia cultural construindo seu legado, hoje revisto como patrimônio de uma época de grandes contradições ideológicas e tomada de posições políticas, cujas raízes ainda estão presas no terreno pantanoso desse passado sombrio, mas também luminoso, que persiste em permanecer. Constitui um quadro de memória indispensável à compreensão desses dias, um claro-escuro quase barroco, uma persistência de saudade alimentando o futuro.

Para Chico, "reconstruir o mundo olhando o retrovisor não dá certo." Reprodução do acervo do artista 6 – chicodepaletó - Chico, os 21 anos, em sua primeira exposição individual no hall do Teatro Municipal Severino Cabral, em Campina Grande. Foto: Acervo pessoal

Para Chico, “reconstruir o mundo olhando o retrovisor não dá certo.” Reprodução do acervo do artista

N – O senhor tem uma filha adulta e um filho ainda teenager. Com qual dos dois tem mais facilidade de se comunicar, conseguindo estabelecer uma comunicação aberta para se entenderem melhor e juntos se ajudarem a compreender o mundo e a enfrentar a vida com seus sabores e dissabores?

C – O mundo virou de ponta-cabeça. A dificuldade que o professor presencial – notadamente na escola pública – enfrenta para repassar informações diante uma plateia informatizada desorganizou ensino – aprendizagem, provocando a necessidade de uma revisão urgente dos métodos tradicionais, quando o celular, cada vez mais eficiente e vulgarizado, passou à dianteira. Na família não foi diferente. As pessoas estão se comunicando em casa pela internet. Os pais toda hora são questionados e já não são consultados como oráculos sobre a vida e o desconhecido. Tudo isso foi muito rápido e pela primeira vez a juventude encontrou um sistema de se arregimentar em diferentes “tribos” conforme suas próprias ideologias. As mídias tradicionais cada vez mais  perdendo sua eficiência, elas mesmas buscando desesperadamente sobreviver se reinventando. A comunicação entre pessoas ampliou o conceito de família e sociedade. Podemos falar de um gênero “trans-social” como padrão para explicar a enorme diversidade que hoje constitui a sociedade de cultura ocidental. Estamos reaprendendo a lidar com essa abrupta realidade. Tenho uma filha cursando o mestrado. Está no celular. Meu filho adolescente quer servir às Forças Armadas. Está no celular.

Chico, aos 21 anos, em sua primeira exposição individual no hall do Teatro Municipal Severino Cabral, em Campina Grande. Foto: Acervo pessoal

Chico, aos 21 anos, em sua primeira exposição individual no hall do Teatro Municipal Severino Cabral, em Campina Grande. Foto: Acervo pessoal

N – O senhor viveu nos chamados anos dourados do desenvolvimentismo de Juscelino, na era de chumbo da ditadura militar, na farra da abertura política, na conquista da estabilidade da moeda e, agora, na terrível crise econômica da carência, do desemprego e da desilusão. Que lições tem para transmitir aos mais jovens, que se sentem asfixiados e sem horizontes, num panorama em que a entrada no mercado de trabalho e a busca do sucesso se tornaram mais difíceis ser alcançadas, principalmente por quem não aceite sair da linha?

C – A era desenvolvimentista, dos “50 anos em 5”, famoso slogan juscelinista, trazia de volta os instintos varguistas de tirar o Brasil do atraso. Os tempos eram outros e parecia que o País, pela primeira vez, entraria na era da democracia plena para a construção de uma sociedade progressista e duradoura. A opção pela instalação de uma política industrial baseada no automóvel abriria caminho para outras oportunidades e forçaria a construção de estradas que iriam penetrando o enorme território nacional. A construção de Brasília tirou o País do litoral, desde a colonização fincado nos mangues. Foram os anos dourados do Cinema Novo, da bossa-nova, do surgimento das vanguardas artísticas e literárias, do império jornalístico impresso comandando o noticioso.  Parecia que tudo ia dar certo. Mas transferir o poder para o Planalto Central custou caro a Juscelino e ao País. Figura que se tornara ímpar, não tinha um sucessor à sua altura, que reunisse correntes conservadoras e progressistas. As contradições entre o novo e o velho, a divisão entre o nacionalismo exacerbado e o populismo inconsequente levaram Jânio Quadros à Presidência, de passagem meteórica na solidão do Planalto Central, cuja história desaguou no golpe militar de 64, justificado pelos militares e seus aliados civis como uma necessidade para tirar o País da anarquia institucional estabelecida no governo de João Goulart, situação amplamente registrada nas revisões históricas. Vivenciei esses momentos e tive dificuldade de compreendê-los naqueles instantes. Só hoje, atravessando o tempo da maturidade, consigo enxergar com mais nitidez os acontecimentos da atualidade, baseado na experiência e na frieza analítica de quem viveu intensamente essas histórias. Daí o desencanto com a realidade deste momento, de saber da necessidade de reconstrução de uma democracia eficiente no meio de tanta malandragem política e tentativa de cooptar a juventude para se engajar em rituais ideológicos mumificados, massa de manobra para permanência de privilégios à custa dos tolos e despreparados. Esses mesmos sem-horizontes, de trabalho e conhecimentos, do seu lugar ao sol, numa sociedade que parecia estar indo bem e, de repente, se enxergam deslocados do futuro promissor. Por isso mesmo tão facilmente disponíveis para carregar bandeiras que eles próprios acreditam ser deles.

Chico passeia com suas irmãs Rosália e Valdélia, em Campina Grande, no início dos anos de 1950. Foto: Acervo pessoal

Chico passeia com suas irmãs Rosália e Valdélia, em Campina Grande, no início dos anos de 1950. Foto: Acervo pessoal

N – Que papel e contribuição à atividade cultural em geral e às artes plásticas em particular têm a dar para o resgate dos valores morais, abandonados pelo socialismo da rapina e pela reação rancorosa e sem misericórdia da direita em sua luta para desalojar a esquerda dos postos de controle e de maior proeminência na sociedade?

C – As artes de modo geral são produto de épocas. São registros de opulência ou degenerescência históricas. Por meio das artes podemos ver como o Renascimento moldou seu espírito. Da mesma forma como a arte moderna foi desalojada ou restrita no mundo fascista e também do socialismo stalinista. Na atualidade contemporânea da cultura, a gigantesca produção artística em todos os campos interage e se confunde. Existe e sempre existirá uma arte engajada, esta, por tradição, sempre mais à esquerda. Não quer dizer que a produção não politizada seja de direita ou esteja a serviço do “capitalismo opressor”. Ao contrário, são as melhores expressões da liberdade de criação, o verdadeiro sentido das artes. Há momentos importantes nas artes plásticas brasileiras que contribuíram para o espírito libertário, como o Opinião (1965-1966), que por meio das obras de Antônio Dias, Rubens Gerchman, Scoteguy, Waldemar Cordeiro, Ivan Serpa, Aguilar, Hélio Oiticica, Raul Córdula, Roberto Magalhães, que entre outros, apresentaram em plena ditadura um manifesto político com alta qualidade estética e artística. O mesmo se pode dizer do teatro com Navalha na CarneGalileu GalileiO Rei da VelaEles não Usam Black-TieCemitério de Automóveis, produções que se reproduziram pelo País afora, desafiando  censura e a extrema direita. Importantes os festivais de música popular, que revelaram compositores e intérpretes como Chico Buarque, os baianos Gil, Caetano, Gal Costa e Bethânia.  Vandré, Elis Regina, Os Mutantes e muitos outros ainda hoje marcando a cena musical nacional. Paralelamente abrindo caminho à Jovem Guarda e ao Tropicalismo, moldando a música popular hoje reverenciada como o grande universo apelidado de MPB, com expressões que vão da política a puras diversões poéticas e acústicas. Enquanto isso, a disseminação do consumismo da chamada música sertaneja, do forró de plástico, das badaladas bandas e dos intérpretes que cantam e dançam a mesma coisa, ocupando os espaços não ideologizados da milionária indústria de diversão de todas as classes sociais. São realidades liquidificadas da cultura que mais expressam a realidade brasileira. Num plano mais geral, a criação de leis de incentivo de certa forma organizou ou tentou democratizar o financiamento da cultura nacional. Mas transformou-se num instrumento político de trocas e de interesses, conforme o governo de plantão. E será sempre assim, até que a sociedade como um todo alcance um patamar de independência capaz de consumir cultura como um bem social, independente de trocas de favores e privilégios.

Chico com Fernando Gabeira e o então presidente do PV na Paraíba, deputado Tota Agra, no fragor da luta para salvar o meio ambiente. Foto: Acervo pessoal

Chico com Fernando Gabeira e o então presidente do PV na Paraíba, deputado Tota Agra, no fragor da luta para salvar o meio ambiente. Foto: Acervo pessoal

N – O que restou de útil ou, pelo menos, positivo do romantismo de sua geração, que acreditava no comunismo como reação à insensibilidade desumana do capitalismo selvagem e terminou tendo de enfrentar o fracasso não apenas político e econômico, mas também moral e cívico? Qual poderá ser a saída para esse impasse, que hoje parece insolúvel para um conflito escarnecido e esganiçado entre a falsa ingenuidade da caridade e o pragmatismo desumano do salve-se quem puder?

C – Com uma infância atravessada entre a Cruzada Eucarística da minha mãe e o Partido Comunista do meu pai, fui marcado por um caráter dúbio entre a caridade vicentina e a salvação humana através do marxismo. Uma firmeza ideológica na juventude a partir das convivências e primeiras leituras políticas, mesmo sem compreender o que era dialética materialista e a mais-valia de O Capital, com sua complexa interpretação filosófica e estatística da sociedade, coisa que a grande maioria dos comunistas nunca leu ou mesmo entendeu até hoje. Conheci por dentro o comunismo e os comunistas do meu entorno, suas crenças inabaláveis — e também suas trapalhadas e seu caráter –, incluindo a de que os fins justificam os meios ou a submissão e a reprodução da secretaria-geral do centralismo democrático, inventado por Lenin, aperfeiçoado por Stalin, estendido por Mao e aplicado mundo afora. (No Brasil, o PT até que tentou reformular esse conceito por meio das chamadas tendências internas.) Para meu próprio espanto, vim a ler Casa Grande e Senzala perto dos 25 anos, por necessidade acadêmica. Era obra, como outras, do index prohibitorum do partido. Essa fé inabalável na vitória global do socialismo não batia com a realidade do mundo real, tombando com a queda do Muro de Berlim e a débâcle da União Soviética, por tabela desmoronando sem confrontações armadas. Com mais espanto, e de repente, a China de imenso cabedal humano transformada numa gigantesca economia global engolindo tudo e com uma reserva cambial que, se soltar, quebra o Ocidente. O Partido Comunista reinando absoluto e sem contestação, cujos líderes atuais aprenderam que o capitalismo é uma forma segura para tirar o País do atraso, desde que não se abra para o modelo político neoliberal. Eles bem sabem aonde chegaria a Nação, Hong Kong que a diga, com seus protestos. Com sensação do tempo perdido, mas ainda na esperança de que a crise que se abate sobre o mundo seja uma advertência, estamos navegando num oceano de imponderabilidades. Afinal, estamos todos no mesmo barco, onde cada vez mais as formas de dominação passam para mãos invisíveis, em que governos são instrumentalizados, servidores públicos cooptados, um novo conceito do que é moralidade na era de múltiplos “gêneros” sociais e individuais, que se multiplicam e se tornam difusos. Recentemente relendo o Manifesto de 48, de Marx e Engels, escrito com as limitações da época e sem imaginar que os Estados Unidos, do outro lado do mundo, iriam surgir como uma cultura e uma economia dominante por todo o século 20, vejo na histórica publicação uma coisa indissolúvel ao futuro da humanidade: o apelo à felicidade, em que todos possam usufruir a cultura o o lazer como um direito inalienável da condição existencial. Esse libelo continua como uma fonte luminosa de esperanças, mesmo que o socialismo comunista tenha fracassado e o capitalismo selvagem imperando até então continue se mimetizando.

"As artes de modo geral são produto de épocas", diz Chico. Foto: Acervo pessoal

“As artes de modo geral são produto de épocas”, diz Chico. Foto: Acervo pessoal

N – A seu ver, ainda é possível reconstruir os velhos valores da honestidade, da solidariedade e da compreensão num panorama cada vez mais restrito de leniência com a criminalidade, egoísmo e completa falta de diálogo em praticamente todos os ofícios e campos artísticos, filosóficos, esportivos e culturais? Em que bases se poderão encontrar valores capazes de substituir os que se foram esgarçando com o tempo e se perdendo nos caminhos áridos e hostis por onda a humanidade se desencaminha?

C – Reconstruir o mundo olhando o retrovisor não dá certo. Já dizia o velho Marx, afirmando que a História só se repete como farsa. Às vezes, sim! Mas numa espiral ascendente. Pode ser parecido, mas não é a mesma coisa. Não estamos a ver no Brasil da atualidade um renascimento do comunismo e do ultranacionalismo como uma novidade?  Recentemente vi nos zaps a postagem de um jovem afirmando que, se o Brasil intervier militarmente na Venezuela, ele iria lutar ao lado da Rússia a favor do país vizinho. Alguns acreditam que Putin é um autêntico bolchevique, quando, na realidade, o ex-dirigente da KGB é um beija-mão do clero ortodoxo, entregou empresas e bancos estatais aos amigos e vem se revezando no poder de forma brutal. Um novo tzar – ou um novo Stalin sem comunismo. A realidade do mundo no seu aspecto de brutalidade é a mesma, independentemente de ideologias e crenças. Basta ver a África e o Oriente Médio despedaçados. Os 40 anos de Kadafi na Líbia nadando em petróleo não tiraram o povo do atraso e da pobreza. O mesmo se vê na Síria de Bashar al-Assad, aliado da Rússia, e no Iraque da Saddam Hussein, ex-aliado dos Estados Unidos, desalojado do poder por estes e morto de forma cruel, tão cruel como foi a das suas vítimas, por ele assassinadas. A civilizada Europa tem o maior estoque de histórias cruéis espalhadas pelos quatros continentes. Hoje, como castigo, está recebendo de volta os filhos das suas crueldades. A República de Macron é a mesma que impôs seu poder ditatorial sobre a Argélia e a mesma que abriu as portas a Hitler. O mesmo se deu com o domínio da liberal Inglaterra do Ocidente ao Oriente, da civilizada Bélgica, aqui sem recordamos a fundo os estragos dos reinos cristãos da Península Ibérica nas Américas e alhures. Tudo em nome da civilização. Mas foram essas crueldades que formataram o mundo moderno, com suas conquistas. Ingenuidade imaginar que seria diferente, que o modelo de fraternidade franciscana ou socialista seria dominante, que os avanços do conhecimento técnico-cientifico e do pensamento seriam suficientes para produzir um novo homem. Tolice! Novos mesmo são os avanços da medicina, das comunicações, a robotização em tudo, da organização do trabalho em categorias altamente especializadas, da indústria da moda e da diversão, dos sistemas bancários, da arte da guerra movida a toques nas telas. A humanidade bondosa/inteligente é uma quimera. Está na gênese da criação o modelo do bicho homem com suas virtudes e seus defeitos, principais razões do seu arbítrio. Somos uma criação cósmica em andamento. Podemos dar certo ou dar errado. O tempo humano é finito  e é só nele que se pode construir o futuro. Creio que as artes, a única criação nitidamente humana, são e sempre serão um caminho para uma fraternidade universal, independentemente das diferenças que se perpetuam entre os homens.

N – Em que a miscigenação, a descontração e a vocação para a felicidade da natureza do brasileiro podem ajudar a guiar esta humanidade sem objetivo e perspectivas para o futuro próximo, no qual se possa anabolizar e revitalizar o amor, o sorriso e a flor que ainda vicejam no rancor, na carranca e na dor que nos cerca e asfixia?

C – O Brasil é um gênero único de nação. Mesmo que haja outros com características iguais de mistura de povos, religiões e crenças comuns, espaços fisiográficos e economias parecidas, não se igualam. Um algo especial de temperos culturais e sociais fez do Brasil aparentemente um lugar comum à primeira vista. Mas sua essência só pode ser compreendida quando se juntam suas diferentes faces humanas e geográficas. Único país português nas Américas, um reinado ainda em vigor cercado de Repúblicas já no final do 19. Dimensão continental com fronteiras longínquas e impenetráveis ainda nos meados do século 20. Foi difícil estabelecer suas fronteiras culturais quando, nos meados do século 18, ainda se falava uma língua geral mais de índio que de europeu, imprópria para a burocracia do reino, levando o todo-poderoso marquês de Pombal a obrigar que se falasse o português. No Estado Novo de Getúlio a imposição de uma educação unificada completou a obra pombalina. É com o paraibano Assis Chateaubriand, com  seus Diários Associados, que vai se estabelecer uma noção total de brasilidade, quando seus jornais e rádios levam às diferentes regiões do País um mesmo discurso noticioso da política, dos acontecimentos, da moda, do futebol, do entusiasmo desenvolvimentista, da cultura e das artes. Aí os brasileiros passaram a se enxergar como uma nação, e não mais apenas localizados no seu espaço regional. Mas foi a música popular que mais contribuiu para a formatação de um caráter cultural, quando pelo rádio chegou a todo canto, a partir do Rio de Janeiro, centro produtor e difusor das diferentes expressões regionais, e do samba, que passou a ser considerado como música brasileira. É na música que se podem entender os diferentes momentos da vida nacional, conforme se foi  estendendo no tempo, cujas letras e melodias foram cadastrando os momentos sociais e históricos da Nação, suas influências externas e mixagens internas, constituindo o principal legado da cultura popular, que tem na bossa-nova seu refinamento e internacionalização. Misturada ao futebol e ao carnaval, a música brasileira das diferentes raízes sincréticas foi costurando uma razão de brasilidade. É nela que a Nação pode embalar as outras artes para recompor seus sentimentos políticos, para ajudar na construção de uma democracia perene em que a cultura seja um vicejar de congraçamento entre todos.

"O mundo atual continua dicotômico como sempre foi." (Chico Pereira)

“O mundo atual continua dicotômico como sempre foi.” (Chico Pereira)

N – Qual é a serventia neste mundo pragmático, que parece ser vazio e frio, da beleza, da harmonia e do conforto espiritual que são as vocações naturais de todas as artes e da própria natureza humana que as produz?

C – O mundo atual continua dicotômico como sempre foi. Arquiteturas de habitats requintados, de designs minimalistas, de estilos pós-modernos, pop, luxos desenfreados costurados por altas tecnologias, barroquismo pós-industrial, audiovisuais estonteantes, veículos de altos requintes e eficientes desempenhos, rituais gastronômicos de altos sabores, de hospitais e clínicas luxuosos, dos condomínios blindados. E vai por aí. Mas é também o mundo favelizado e putrefato dos pobres e miseráveis, dos sem-teto, dos doentes em filas ambulatoriais, de dejetos humanos a céu aberto, dos desempregados, dos transportes públicos sujos e lotados. Prisões asfixiantes, violência vulgarizada e incorporada ao dia a dia. Não acredito, ainda nestas próximas décadas, uma solução apaziguadora. Ao contrário, vejo um mundo “Blade Runner”, robotizado, de lugares tecnologicamente sofisticados e populações subterrâneas se alimentando de substratos sintéticos, que não se intercruzam. O Brasil está numa encruzilhada para decidir se vai ser um país de frente do Terceiro Mundo ou se vai estar na  traseira do Primeiro. Escolheria este último.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique aqui.

Links de Chico Pereira:

Para ver Chico tomando posse na Academia Paraibana de Letras clique aqui.

Para ver Retrospectiva de Chico por Dyogenes Pereira clique aqui.

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