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Hitler, o Pateta e a eleição federal

Lula não sabe o que diz e os tucanos, o que fazer para derrotá-lo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pertence a uma geração acostumada a lidar com duas mães de desafetos – a santa, veneranda dona de casa a cuidar do lar, e a suja, palavrão disparado no meio de uma ofensa para responder a outra. Em Garanhuns, Santos e São Bernardo do Campo, na escola da vida, entregando roupas numa tinturaria, praticando no torno e, sobretudo, nas lides sindicais e políticas, ele aprendeu a distinguir o ícone da Madona, em que se emolduram as mães, do insulto infame reservado ao oponente numa discussão de botequim. Seu antecessor, que um dia apoiou para o Senado na luta comum contra a ditadura, Fernando Henrique Cardoso, figura de ponta do partido que se opõe ao ex-dirigente sindical, deve levar em conta essa distinção e não interpretar como uma ofensa imperdoável Sua Insolência ter comparado seus correligionários tucanos com a mais abjeta figura da cena política internacional no século 20: o cabo austríaco do Exército alemão derrotado na Grande Guerra Mundial, Adolf Hitler. Assim como as mães, os vultos históricos têm duas abordagens: a histórica e a retórica. E é o caso do mais xingado de todos eles.
Quando Lula comparou, num de seus intermináveis palpites mais infelizes que o do samba de Noel Rosa, os cabos eleitorais tucanos com os esbirros nazistas, só quis provocar os adversários do PSDB. E não pisar mais uma vez no calo histórico das vítimas do holocausto judeu. Hitler matou 6 milhões de judeus em campos de concentração e não há um só súdito da República lulo-petista ameaçado por algum oposicionista genocida no Nordeste ou em qualquer outra parte do universo. Os governistas nordestinos, paulistas, capixabas ou os demais brasileiros podem ser surpreendidos por assaltantes sem bandeira partidária, mas jamais por investidas de uma polícia política brutal e sanguinária farejando em porões e outros lugares onde se escondiam os inimigos do 3º Reich. O único problema com a parábola presidencial é que ela, mesmo sem querer – e no caso não se pode apelar para a presunção da inocência, pois Sua Insolência é reincidente –, mexeu com os brios de uma raça perseguida com esse seu leviano hábito de recorrer a ênfases sem nexo. Ao comparar uma rotina de campanha política com um massacre desumano, Lula ofendeu menos os cabos eleitorais inimigos que os judeus perseguidos. Assim como o fizera antes ao demonstrar um súbito afeto exagerado pelo persa (e não árabe) Ahmadinejad, que nega a ocorrência do holocausto, confundiu uma tragédia universal com um incômodo político corriqueiro apenas para levar uma absurda, desnecessária e duvidosa vantagem retórica.
Jesus Cristo, o profeta galileu recentemente vitimado por uma dessas tentativas de misturar ignorância com insolência, em vez de fazer um pacto pela governabilidade com Judas Iscariotes, o delator, como Lula sugeriu, aconselharia às vítimas da nova patacoada presidencial algo semelhante ao que pediu ao Pai, na cruz: “Perdoai-o, ele não sabe o que diz.” O Hitler da invectiva lulista não é o assassino serial por excelência forjado na miséria, na raiva e na frustração alemãs pela derrota na guerra, mas uma espécie de Judas a malhar, não apenas no Sábado de Aleluia, mas ao longo de toda uma campanha eleitoral.
Com sua bondade infinita, o judeu assassinado pelos romanos a pedido da cúpula do clero de seu povo certamente aproveitaria a ocasião para tentar corrigir o erro capital dos antagonistas de Lula, aproveitando-se de um diagnóstico certeiro produzido pela candidata oficial, a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, na mesma ocasião em que o presidente confundiu Jesus com Genésio, como se diz no Nordeste. Sem o jogo de cintura, a manha, o talento nem o prestígio popular do chefe e padrinho, ao qual se agarra como qualquer náufrago em potencial tentando não afundar, ela acusou seus adversários corretamente de “excesso de vaidade e de completa falta de rumo”. Em outras palavras, “eles não sabem o que fazer”.
O problema da oposição não são – ou, pelo menos, não são só – o sucesso do governo e a popularidade do presidente, mas as próprias deficiências. Seu principal candidato, o governador de São Paulo, José Serra, faz muito bem em resistir estoicamente ao lançamento de sua candidatura à Presidência da República. Não por falta de força, pois é inequívoco seu favoritismo nas pesquisas (e estas refletem mesmo o momento político atual), mas por falta de lastro. O PSDB, com uma mãozinha do DEM, quer o governo, pensa que ninguém afastará seu candidato desse destino manifesto, mas simplesmente não tem ideia de como chegar lá. E, se chegar, do que fazer para a população enfeitiçada pelo jeito populista de Lula governar aderir a um estilo de gestão que, por mais que seja bem-sucedido nos Estados que governa, com São Paulo e também Minas como exemplos, não é suficiente para persuadir a grande maioria de que se repetirá o salto dado pelo Brasil nos dois mandatos de Lulinha Paz e Amor O Cara da Silva.
A tucanada sabe que o chefe do governo em nada foi original, comparado com eles: herdou e aperfeiçoou seu projeto de rigor fiscal e, depois, copiou e aprimorou a tecnologia de compra da governabilidade. Até aí morreu o Neves, ditado popular certamente conhecido pelo pretendente Aécio. Por não haver entendido que perdeu o momento azado de mostrar ao eleitorado a própria diferença do PT de Lula, negando-se a sacrificar Eduardo Azeredo (MG) – que, ao que tudo indica, vai ser sacrificado de qualquer maneira – para limpar a própria face, quando vieram à tona as evidências de que o “mensalão” surgiu em Minas antes de ser adotado pela cúpula federal petista, o PSDB passou a merecer a desqualificação de “patético”, cunhada por Dilma. Mas nada que ver com o pathos grego, e, sim, com o tosco Pateta que o mago Disney desenhou.
© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 11 de novembro de 2009, p. A2.

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