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Fundamentalistas da transposição

O radialista Rui Dantas tem usado seu programa diário de grande audiência para convocar a organização de um bloco para atirar ovos em Elba, por ter ela tornado pública sua posição contrária à obra execrada pelos Estados banhados pelo rio, mas vendida à população nordestina pelos políticos locais como sendo a redenção da região, o fim da sede dos sertanejos.

A importância dada à transposição do rio São Francisco e o grau de violência a que chegou o debate político pré-eleitoral em torno do tema no Nordeste podem ser medidos na retirada do convite feito pelo bloco carnavalesco Muriçocas do Miramar, de João Pessoa, à cantora Elba Ramalho. Os organizadores da mais concorrida associação de foliões da capital paraibana desistiram de terem seu desfile de abertura do carnaval deste ano, na próxima quarta-feira, puxado pela mais popular cantora do Estado por não se considerarem aptos a garantir sua integridade física durante o desfile. O radialista Rui Dantas tem usado seu programa diário de grande audiência para convocar a organização de um bloco para atirar ovos em Elba, por ter ela tornado pública sua posição contrária à obra execrada pelos Estados banhados pelo rio, mas vendida à população nordestina pelos políticos locais como sendo a redenção da região, o fim da sede dos sertanejos.
Cuspindo no caneco – A polêmica teve início em 26 de outubro, data em que Elba, militante ecológica, fez emocionada defesa do São Francisco num show da ONG Onda Azul, liderada pelo baiano Gilberto Gil, ministro da Cultura, no FM Hall do Riosul, no Rio de Janeiro. Nos primeiros dias de novembro, repercutindo intenso noticiário contra a cantora, nascida em Conceição do Piancó, no sertão da Paraíba, e criada em Campina Grande, o comunicador Marcos Marinho assumiu uma vaga na Câmara Municipal da cidade e propôs moção pedindo explicações da posição dela, que é Cidadã Campinense. Sua alegação era a de que ela estaria “cuspindo no caneco em que bebeu”.
A polêmica caiu como uma luva no violento e rasteiro debate político eleitoral na Paraíba. Notória amiga do governador Cássio Cunha Lima, do PSDB, Elba passou a ser vítima preferencial do jornal e das emissoras de rádio e televisão do grupo Correio da Paraíba, de propriedade de Roberto Cavalcanti, suplente do senador José Maranhão, do PMDB, candidato de oposição, dado como favorito nas pesquisas, no pleito de outubro. O jornal do grupo noticiou na primeira página que o Comitê Estadual de defesa do Projeto de Transposição de Águas do Rio São Francisco protocolou nesta terça-feira (14) ofício ao gabinete do governador solicitando a “suspensão de qualquer pagamento para a senhora Elba Ramalho através dos organizadores das festividades carnavalescas da cidade de João Pessoa”. Ela tinha sido convidada por seu amigo Flávio Eduardo, conhecido como Fuba, compositor, vereador pelo PSB em João Pessoa e ligado ao senador Maranhão e ao prefeito de João Pessoa, Ricardo Coutinho.
Joga ovos na Elba – Fuba conseguira apoio financeiro oficial para o desfile e parte do subsídio seria usado para pagar o cachê da cantora. O radialista Rui Dantas passou, então, a conclamar a população a agredi-la, atirando-lhe ovos durante o desfile, em seu programa diário na Rádio Correio da Paraíba.
Marconi Serpa, presidente do bloco, telefonou para Gaetano Lopes, empresário de Elba, para lhe narrar o clima de animosidade na cidade e dar conta da falta de condições de garantir sua integridade física. Elba cancelou a apresentação e anunciou que em junho não fará espetáculos no São João de Campina Grande, tradição nos últimos 13 anos: se apresentará nos palcos rivais de Caruaru (PE). “Após 35 anos nos palcos da vida, é a primeira vez que vejo meu direito de cantar cerceado”, reclamou Elba, puxando o coro de jornalistas e artistas revoltados contra a politização, o “fundamentalismo” e a violência no caso.
José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde.
José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde e autor de O silêncio do delator, prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras, em 2005. Clique na capa para ter acesso à livraria virtual.

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