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Entrevista de José Nêumanne Pinto a Jean Oliveira

Entrevista de José Nêumanne Pinto a Jean Oliveira

Como você recebe este título de Cidadão Paulistano? O que São Paulo representa sentimentalmente para você?

Desde que eu morava no Rio de Janeiro e vinha passar fins de semana em São Paulo, há mais de 40 anos, curto a cidade. Depois, ela se impregnou em meu organismo como parte dele. Primeiro, aqui aprendi a profissão de jornalista e desde 1º de junho de 1970 nela tenho trabalhado ininterruptamente: Folha de S.Paulo, assessoria de imprensa do prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz, Sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo, Cineclick, Somtrês, O Estado de S. Paulo, TV Manchete, Rádio Jovem Pan, Jornal da Tarde, SBT. Nunca passei um dia desocupado nesta Pauliceia Desfigurada da obra-prima do poeta Mário Chamie, “comoção da vida” no verso de outro Mário, o de Andrade. Sempre me orgulhei de minha condição de sertanejo, de uiraunense (que já contribuiu para São Paulo com Luiza Erundina, ex-prefeita e atual deputada federal pelo PSB) e de campinense (sou também cidadão de Campina Grande, com muito orgulho e alegria). Também me orgulho muito de ser paulistano, porque aqui nasceram meus filhos Vladimir, Clarice e Cecília e meu neto Pedro. Aliás, sou também um pouco lombardo, de vez que minhas netas Stella e Anna nasceram e vivem em Milão. O título concedido por unanimidade pela Câmara Municipal, por propositura de Quito Formiga (PR), é um honroso reconhecimento do orgulho que sinto de pertencer a esta cidade acolhedora e hospitaleira.

Como São Paulo surgiu em sua vida?

Saí da Paraíba em 1969, aos 17 anos, e fui morar no Rio de Janeiro para torcer pelo Flamengo no Maracanã, ver a Mangueira desfilar na avenida e cursar comunicação. Mas um amigo de adolescência em Campina Grande, o poeta e militante negro Arnaldo França Xavier, me atraiu a viajar constantemente para São Paulo, onde passou a morar, depois de uma passagem por Brasília. Em Brasília, ele tinha conhecido o poeta Ézio Pires, que o recomendou a um amigo chamado Eurícledes Formiga. Este era de São João do Rio do Peixe, sede do município do qual Uiraúna era distrito quando nasci, em 1951. Formiga chefiava o cartório da Justiça Federal em São Paulo e me levou a Claudio Abramo, diretor de redação da Folha. Claudio me contratou na hora em que me recebeu no dia 1º de junho de 1970. Tenho, portanto, 40 anos de São Paulo dos 59 de vida. A metrópole me adotou e nunca mais me abandonou.

Perante os resultados das eleições, muitas mensagens de discriminação contra os nordestinos foram postadas no twitter, criticando a quantidade de votos na candidata Dilma nesta região do país. Como paraibano, qual sua visão deste fato?

Lamento muito que em pleno século 21 ainda haja gente tão estúpida e preconceituosa. Mas não vejo nisso grande importância. Confesso que não dou muito grande importância a este fato, apesar de condená-lo com veemência. Essa gentalha não é representativa da maioria do povo brasileiro.

Você é a favor da punição criminal, inclusive com prisão, das pessoas envolvidas neste caso de preconceito pela internet?

Sim. Disse que não dou maior importância a isso, mas acho que o melhor meio de combater esse tipo de truculência é a punição na Justiça. Todas as vítimas têm de recorrer aos direitos constitucionais de exercer livremente a cidadania com liberdade de expressão, informação, opinião e culto. No caso específico, o sagrado direito de ir e vir. Essa canalha que se pronuncia de forma preconceituosa tem de ser identificada pela polícia e julgada pela justiça na forma da lei. É para isso que existe o Estado de Direito.

O brasileiro é preconceituoso?

A São Paulo que me adotou elegeu minha conterrânea e amiga Luiza Erundina prefeita: mesmo sendo nordestina, pobre e mulher, ela derrotou nas urnas um paulistano milionário, Paulo Maluf. O Brasil acaba de eleger uma mulher de esquerda, ex-guerrilheira, presidente da República. Acho que não esses fatos não podem ser relegados a segundo plano, pois são verdadeiramente relevantes, já que põem em destaque a fúria de uma minoria fascistoide.

Voltando a falar em Dilma. Qual a sua percepção das eleições deste ano?

A eleição presidencial deste ano foi vencida pela candidatura apresentada pelo presidente Lula antes mesmo de a campanha começar. Ele teve a percepção genial (é o mais hábil político brasileiro desde que Tomé de Souza desembarcou na Bahia) de que ninguém chega à Presidência sozinho e construiu um complexo e amplo arco de alianças. Vendeu o governo de sua sucessora a todo tipo de canalha da rafameia da política brasileira, mas garantiu o comando da máquina pública à “companheirada” do PT. Enquanto isso, a oposição alienada e de sapato alto imaginou equivocadamente que poderia ganhar a disputa no debate e na propaganda politica. Lula tinha um cacife de popularidade inusitado na história do País e só comparável a momentos históricos mundiais como o da Alemanha nazista e da Itália fascista. É preciso reconhecer que ele soube muito bem se aproveitar disso para manter sua turma no poder. Para tanto, passou por cima da lei eleitoral, cuspiu no direito à igualdade de oportunidades e desprezou sem cerimônia alguma os benefícios do rodízio no poder numa democracia de verdade. Além disso, a campanha do PT no horário gratuito do rádio e da televisão foi muito melhor do que a dos oponentes, principalmente José Serra, que perdeu porque pensou que poderia chegar sozinho à Presidência, sem dever favores a ninguém. Alienados e pretensiosos, os tucanos pensaram que Serra massacraria Dilma nos debates e o candidato passou longe disso. Diante de tudo isso, foi um milagre que este tenha sido votado por 44 milhões de brasileiros, um sinal de que, apesar da enorme popularidade de Lula, que não será transferida para Dilma no governo, a não ser que ela supere todas as expectativas, inclusive as minhas, o Brasil continua irremediavelmente dividido. Divisão, aliás, que Lula explorou para derrotar os adversários.

Está otimista com o futuro do país?

Não, de jeito nenhum. O Estado brasileiro continua estroina e truculento, cada vez mais. E a sociedade está dividida. O Brasil melhorou muito de Fernando Henrique para cá e Lula também contribuiu para isso. Mas o desempenho brasileiro continua bem distante do obtido pelo resto do mundo. A desvantagem só será superada quando esta divisão acabar e não vejo no horizonte nada que indique a perspectiva desta boa notícia. Lula dividiu para ganhar. O País continuará pagando esta conta pesada por causa disso. Eu só espero que Dilma cumpra o que prometeu em seu discurso de agradecimento da vitória. Imprimi o texto, o carrego no bolso e cobrarei cada item que for desmentido pela prática do governo.

E em sua vida de escritor? Quais os lançamentos que estão sendo preparados?

Nesta semana pós-eleitoral, entreguei a meu editor, José Mário Pereira, da Topbooks, do Rio, os originais do livro O que sei de Lula. Espero que ele cumpra a promessa de lançá-lo com Lula ainda presidente por dois motivos. Um é que não quero que digam por aí que só escrevi o que escrevi porque o protagonista do livro não tinha mais poder para retrucar. O segundo é que acredito que dificilmente Dilma negará o traço fundamental do gênero humano pelo qual a criatura sempre trai o criador e, portanto, é provável que em 2 de janeiro de 2011 Lula já não venha mais a despertar a atenção e o interesse que desperta agora.

Como poeta, você acredita que o brasileiro é um bom produtor e consumidor deste gênero literário?
Poesia é um gênero marginal e quase clandestino no mercado literário brasileiro. Nem tinha como ser diferente. Afinal, de contas, este ainda é um país de muitos analfabetos e muitos mais ainda analfabetos funcionais.

Você conhece o Interior paulista?

Viajei muito pelo interior paulista nos 30 anos finais do século 20. Banhei-me nas águas que murmuram na lagoa de Cravinhos; tomei chope no Pinguim em Ribeirão Preto; visitei os canaviais de Barão Geraldo antes de meu amigo Zeferino Vaz lá construir o campus da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); vi o Partido dos Trabalhadores (PT) ser gerado em Lins; acompanhei meu professor de jornalismo JB Lemos comprando passarinhos em Boituva; rezei na basílica em Aparecida do Norte; fiz refeições em churrascarias à margem da Via Dutra viajando para São José dos Campos; frequentei a casa do publicitário Francesc Petit (o P da DPZ) em Santana do Paranaíba; comi peixe à beira do rio em Piracicaba; visitei (na companhia de Jimmy Carter, imagine) o cemitério dos confederados em Santa Bárbara do Oeste; deliciei-me com o pudim de clara da fazenda de café de meu amigo Zuza Homem de Melo em Avaré; fiz palestra em São Pedro; tomei Brahma de Agudos em Bauru; visitei usinas de álcool em Sertãozinho; cobri reuniões de bispos em Itaici. E sempre adorei transitar pelas ótimas estradas do interior paulista. Ultimamente tenho ficado preso em São Paulo, mas tenho saudade dessas andanças.

Que visão tem da vida nas pequenas e médias cidades do Estado?

O interior de São Paulo é o melhor exemplo de primeiro mundo que há no Brasil. Quem fala isso é um sertanejo nordestino que veio do semi-árido. O Brasil é meu sertão e o interior de vocês, tudo junto. Sem preconceito.
A Folha da Região tem sua sede em Araçatuba e circula em 42 cidades da região. Vai até a divisa com o Mato Grosso do Sul, tendo a Marechal Rondon (e todos aos seus pedágios) como eixo. Faz parte da APJ (Associação Paulista de Jornais) e para ela Jean Oliveira desenvolve o projeto Bate-papo Cultural, com entrevistas especiais, como esta.

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