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É fé no povo e Pé de chumbo

É fé no povo e Pé de chumbo

Político popularíssimo em Campina Grande, Paraíba, para cuja prefeitura foi eleito “uma par de vêiz”, como ele mesmo diria, em seu estilo desabusado, franco e pouco elegante no vernáculo, Severino Cabral é freqüentemente citado em minhas palestras como um mestre da práxis administrativa e do marketing político.
Excelente exemplo de sua sabedoria nesse campo foi dado no dia em que recebeu em sua casa para almoçar o embaixador dos Estados Unidos em Brasília. Antes de contar o episódio, convém adiantar que sua casa ficava permanentemente aberta à visita de seus eleitores, que entravam, iam até a cozinha, faziam as refeições e saíam com naturalidade. E também que seu filho mais velho, Milton, era diplomata de carreira e estava na embaixada do Brasil na Romênia quando o ditador comunista Nicolai Ceausescu foi derrubado por uma insurreição popular. Quer dizer: estava no cargo, mas não exatamente em Bucareste, e, sim, jogando uma partida de tênis no Country Clube, no Rio. Só por isso, já dá para perceber que não é o melhor herdeiro das manhas nem dos talentos do pai.
Pois bem, o diplomata da família levou o embaixador americano para o almoço e ficou indignado quando viu o pai ouvir o cochicho de um assessor e interromper abruptamente a conversa para sair da sala de jantar para o hall da casa. Acompanhou-o e percebeu que ele, que era um homem alto e forte, conhecido como “Pé de chumbo”, se abaixava para ouvir os apelos de uma senhora muito pobre e andrajosa.
Interpelou-o:
— Papai, como é que o senhor deixa o embaixador dos Estados Unidos falando sozinho à mesa para vir atender a essa senhora?
E o velho respondeu na bucha:
— E eu sei lá onde diacho esse homem vota. Essa mulher eu sei. Ela vota aqui. E vota em mim.

Outra vez, em visita a Salvador, ficou encantado com as linhas arquitetônicas do Teatro Castro Alves. Contratou um arquiteto, mandou que ele fosse à Bahia e copiasse o prédio, só que em dimensões reduzidas. Daí, nasceu o Teatro Municipal de Campina Grande. Na hora de lhe dar nome, chamou o assessor especial para teatro, radialista Wilson Maux, e lhe encomendou uma lista de denominações. Este espremeu os miolos e listou os literatos mais famosos da cidade e do Estado, mas isso não satisfez o chefe.
— Oh, seu Wilson, já vi que o senhor não entende nada de teatro. Nome de teatro tem de ter rima, rapaz.
— Como rima, seu Cabral?
— Rima, ora essa. Não sabe rimar? Teatro Municipal patati patatal.
— Sim, mas que nome rimaria?
— Teatro Municipal Severino Cabral, seu idiota.
— Mas, seu Cabral, o senhor nunca escreveu, dirigiu nem atuou em teatro nenhum. Por isso, não pode dar nome a um teatro.
— Que besteira, esse menino! E Plínio Lemos jogava bola?
É que o Estádio Municipal da cidade tem o nome do ex-prefeito Plínio Lemos.
Certa vez, seu principal adversário em Campina Grande, o senador Argemiro de Figueiredo, resolveu lançar contra ele numa campanha para a prefeitura um jovem deputado estadual pelo PTB, conhecido pela habilidade no uso das palavras. A sensação da campanha do rapaz, advogado em começo de carreira, eram seus discursos, todos metrificados e rimados, nos moldes dos repentes da poesia popular. Severino Cabral, que havia inovado ao contratar um marqueteiro profissional para a própria campanha e por consultar as intenções do eleitor em pesquisas, tomou conhecimento da preocupação da assessoria com o crescimento surpreendente e rápido do outro candidato.
— O rapaz é poeta, seu Cabral — justificou seu marqueteiro.
— Ora, então, o problema é fazer versos? Eu também sei fazer.
E foi anunciado aos quatro cantos da cidade que “Pé de chumbo” versejaria no palanque do distrito de São José da Mata no domingo seguinte. Ele foi, subiu ao palanque e sapecou para a multidão emudecida:
— Povo de São José da Mata,
Mata de São José: ou São José me mata
ou eu mato São José.
O silêncio de perplexidade prenunciou a derrota. O vencedor, Ronaldo Cunha Lima, seria deputado federal, senador e governador do Estado. O atual governador é seu filho, Cássio.

Severino Cabral e personalidades políticas: Getúlio Vargas e Jânio Quadros

Milton Cabral também foi governador, mas o pai, não: foi vice e seria cassado na ditadura militar, da mesma forma que o fora Cunha Lima. Na campanha para o governo do Estado – com o senador João Agripino na cabeça da chapa e ele próprio de vice -, “Pé de Chumbo” protagonizou episódios que enriqueceram o folclore político paraibano. Consta que, no palanque, um dia, surpreendeu a assessoria da campanha com uma afirmação inusitada:
— Eu e o dr. João Agripino formamos um trio…
Um assessor, pressuroso, soprou, corrigindo:
— É dupla, seu Cabral. Trio são três.
— Que besteira. Trem não anda em trio e não é dois?
Na mesma campanha (vitoriosa, por sinal), os candidatos sentaram-se para comer num restaurante do interior e pediram bife com arroz. Foram-lhes servidos dois pedaços: um maior e outro menor. Ele apressou-se em se servir do mais avantajado.
— Ora, Cabral, um homem educado pega o pedaço menor – resmungou o senador, de notório temperamento ranzinza.
— Deixa de besteira, João! Você não é um homem educado? Então, se ia ficar com o menor mesmo, está reclamando de quê?
Seus adversários contavam ainda que, certa vez, um auxiliar menos alfabetizado tentou socorrer-se dele antes de preencher um cheque de sessenta cruzeiros.
— Sessenta se escreve com esse ou com cê, seu Cabral?
— Faz dois de trinta – teria respondido, ágil e espertamente.
Em outra ocasião, seguindo conselho da assessoria para se referir ao máximo possível de interlocutores, sempre que discursasse, inaugurou um cemitério num distrito de Campina Grande, proferindo:
— Conterrâneos e subterrâneos…

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