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Discurso na posse de Fátima Bezerra na Academia Paraibana de Letras

Discurso na posse de Fátima Bezerra na Academia Paraibana de Letras

Vocês nem podem imaginar a alegria, o prazer e a honra de estar aqui na Casa de Coriolano de Medeiros encarregado de recepcionar minha amiga querida Maria de Fátima Bezerra Cavalcanti, a pedido dela. Nossa nova confreira sempre me cumulou de gentilezas e me reservou parte importante de seu coração em doses maciças de afeto e carinho. Além disso, ocupar aqui esta tribuna neste auditório para falar do tema que mais me é caro, o gênero feminino dos seres humanos e do universo vocabular, não poderia ser mais prazeroso para este velho, mas ainda devoto praticante, da veneração à mulher e à palavra.

Academia Paraibana de Letras. Nêumanne e Maria de Fátima Bezerra Cavalcanti.
Foto: wal cavalcante studio

Só que, para não perder o fio da meada, vou começar por convocar outro substantivo feminino singular comum, a vaidade, defeito que ostento com orgulho e paixão. E começo esta oração, lá vem outro substantivo com os mesmos gênero, número e modo, puxando pela memória pessoal. Há um bom par de anos, quase um decênio inteiro, tive uma experiência muito rica de terapia descritiva com um grande amigo, intelectual, médico e prosador, o baiano Humberto Marioti. E, seguindo os preceitos de sua prática psiquiátrica, nos encontrávamos às segundas-feiras cedo no escritório da casa dele para uma prática de prazer e dor, bem ao gosto de Sade e Masoch: narrar várias vezes exaustivamente um episódio tal como o lembrava, um sonho, uma sensação, um sentimento.

Daqueles encontros semanais e seminais nasceu a ideia de por essas narrativas no papel e discutir depois o resultado escrito da peripécia. Esta foi a gênese de meu romance O silêncio do delator, que viria a ganhar o prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras, de 2005 como o “melhor livro de 2004”. Lá pela metade do livro, Humberto propôs a seguinte reflexão a respeito da literatura, da humanidade e da relação entre ambas, em mais uma sequência repetitiva do gênero predominante nestas lembranças e neste discurso: se meu romance só tinha personagens calhordas, seria o gênero humano, ufa substantivos masculinos, um valhacouto de canalhas da pior espécie? Chegamos à óbvia conclusão que, apesar da prevalência quase total de cretinos, nossa condição permitia as exceções de bom caráter. E eu me propus a criar uma personagem boa. Como se sabe, personagem é uma palavra que comporta dois gêneros e, se uso o feminino aqui, é porque, evidentemente, a personagem positiva do texto foi, é, uma mulher jovem, Esmé (homônima da protagonista do encantador conto de J. D. Salinger Para Esmé com amor e sordidez), filha da melhor amante do finado professor Marçal, protagonista do livro e sua fiel confidente.

A narrativa a que me refiro tinha como objetivo principal relatar a saga de minha geração, na infância nos anos dourados, na adolescência nos anos rebeldes e na maturidade na era da frustração. Nossa geração entre 60 e 70 anos hoje foi revolucionária por vocação. Na política e nos costumes. Fomos comunistas e rebeldes. A guerrilha política desaguou no Termidor das ditaduras fascistoides dos militares latino-americanos. A proposta do amor livre facilitado pelos contraceptivos, na censura aos costumes, apoiada na crítica conservadora que atribuía à promiscuidade a disseminação da morte pela AIDS. Meu texto estava para ser o testamento de uma hecatombe por causa da guerra perdida no trono e no tálamo quando foi salvo pela bela menina luminosa que me apontou o caminho certo: o destaque positivo e vitorioso da geração dos anos 60 foi o primado feminino, o triunfo da mulher sobre o machismo em todos os campos.

Hoje parece lógico o protagonismo feminino na política, na economia, nas artes e na cultura. O Brasil, que nunca esteve propriamente na vanguarda das democracias e dos hábitos sociais, tem uma mulher na Presidência da República: Dilma Rousseff. Mesmo que a nomeação tenha sido feita por ela, não deixa de ser significativo que outra mulher, Graça Forster, presida a maior empresa do País, a Petrobrás. E mais: para não dizer que tudo é conseqüência do poder de uma só mulher, a instituição que provou não ter sido aparelhada pelos socialistas do PT, a Academia Brasileira de Letras, ao receber pela quase unanimidade dos votos um prócer adversário, quase inimigo, o professor Fernando Henrique Cardoso, também é presidida por uma mulher: Ana Maria Machado. E não por uma mulher que só tenha méritos por sua condição de fêmea. Nome consagrado na literatura infanto-juvenil, ela é uma escritora e intelectual à altura da grande maioria masculina da Casa de Machado de Assis e de Joaquim Nabuco. A ABL já foi presidida por outra mulher, Nélida Piñon. E em seu plenário brilhou a competência maternal de Rachel de Queiroz e Dinah Silveira de Queiroz como brilha hoje o talento de Lygia Fagundes Telles, Rosiska de Oliveira e da exegeta Cleonice Berardinelli, autoridade notória em Fernando Pessoa.

Maria de Fátima Bezerra Cavalcanti foi a primeira mulher a ocupar a presidência do Tribunal de Justiça do Estado, mas não é a primeira nem será a última a ocupar uma cadeira nesta Academia. Antes dela passou por aqui e nos deixou precocemente a doce Mariana Cantalice Soares. Atualmente a bancada feminina conta com mais cinco imortais: Elizabeth Marinheiro, Adylla Rabelo, Ângela Bezerra de Castro, Mercedes Cavalcanti e Maria Santiago. Seis em 40, pouco mais de dez por cento, mesmo sendo majoritária na população em geral a “minoria” feminina. É muito pouco, não é? Bem, mas as mulheres conquistarão certamente mais cadeiras, mercê de sua força, de seu encanto e de sua competência. Assim como Artemísia Gentileschi tem sua obra pintada no Renascimento reconhecida e valorizada hoje. Do mesmo ofício dela foi a mexicana Frida Kahlo, que se notabilizou como artista plástica entre monstros sagrados como os muralistas Rivera, seu marido, Orozco e Siqueiros e chocou os moralistas se tornando amante do revolucionário bolchevique Lev Trotski, ao hospedá-lo em sua vila. Revolucionária na opção sexual foi Safo, a poetisa maior que alcançou a suprema graça de entrar nos dicionários de séculos depois, seja no adjetivo safada, seja na descrição do homossexualismo feminino pelo substantivo lésbica, cuja raiz está na ilha de Lesbos, onde ela vivia em total liberdade literária e sexual. Eu reconheço que esta digressão, que nada tem que ver com nossa imortal, se prolonga demais, mas não resisto a associar a Safo outra praticante da poesia e do homossexualismo mais próxima de nosso tempo, a americana Elizabeth Bishop. E, entre tantas literatas de tão alto coturno na sua língua inglesa, tais como Elizabeth Barrett Browning, Emily Dickenson e Marianne Moore, Bishop tem subido no conceito da grande crítica mundial por uma obra que se destaca por alcançar a mais plana simplicidade pelo mais árduo trabalho de burilar o verso com paciência de chinês, como se diz. Per aspera ad astra, diziam os velhos romanos, não é verdade? Entre um verso e outro, ela produziu as mais completas e sensíveis descrições de nossa alma brasileira nos anos que passou no Rio com a amante de sua vida, a brasileira Lota Macedo Soares. O filme Flores raras, de Bruno Barreto, em cartaz no momento, é um primor de beleza e sensibilidade, características de todo ser humano que se preze, mas em especial das filhas de Eva. E permitiu que o mercado nos apresentasse a excelência de suas obras poética e epistolar, em cujo exercício a poesia é destilada e cutucada em odores nem sempre agradáveis e farpas sutis e cruéis.

Como Bishop, como a filósofa e matemática Hipátia de Alexandria, da diáspara grega na Antiguidade, como outra filósofa, Martha Nussbaum, estudiosa do pensamento moral dos gregos e das questões da justiça contemporânea, como Simone de Beauvoir, cujo livro O segundo sexo ajudou muito na descoberta que a mulher contemporânea tem feito da própria individualidade, nossa nova imortal traz a graça e a leveza da mulher para o mundo dos pensamentos e das letras. Ela é da estirpe do fértil canteiro da poesia brasileira onde floresceram obras magistrais como as de Clarice Lispector e Cecília Meireles. E também invade os claustros onde Tereza D’Ávila na Espanha e Sór Juana Inês de La Cruz no México encontravam no êxtase uma forma de conversar com Deus.

Antes que me alongue demais em novas metáforas, quero concluir essa galeria de mulheres formidáveis com a filósofa judia alemã Hannah Harendt que, após cobrir como jornalista, o julgamento de um carrasco nazista raptado em Buenos Aires pelo serviço secreto de Israel e levado para a pátria contemporânea do povo hebreu, produziu um livro fundamental sobre a compreensão da alma humana, Eichmann em Jerusalém – Relato sobre a banalidade do mal.

Maria de Fátima Bezerra Cavalcanti é traquejada em julgamentos. Criada num clã de políticos, natural da Zona do Brejo, onde a natureza se exibe vaidosa, foi para o sertão ser juíza em Pilões, que conheci na minha infância, pois meu tio Zé Pinto era gerente do DNOCS para os açudes de lá mesmo e de Mãe D’Água. Sertanejo, passei parte da infância numa casa contígua à do juiz de Uiraúna, o pernambucano Gentil da Cunha França. Posso, então, testemunhar o prestígio e o perigo que um juiz enfrenta em nossas brenhas que há pouco tempo ainda poderiam ser definidas como selvagens. Com essa vivência, posso imaginar nossa Fatinha querida decidindo querelas importantes com seu jeito firme e suave de ser, com esse seu ar de menina que impõe seus gostos fingindo estar apenas fazendo o enorme sacrifício de aceitar a obediência de seu interlocutor, seja ele um pobre roceiro metido numa briga provocada pela cachaça num dia de feira, seja o manhoso e poderoso Zé de Beija, o rei do agave que governou nosso Estado pequeno, porém decente, da Paraíba. Esta mulher, esta menina percorreu o Estado do conforto ao leste na banca de advocacia do pai, o político Waldir Bezerra Cavalcanti, ao desconforto do sertão a oeste dos anos 80 do finado século 20: Pilões, Guarabira, Rio Tinto, Bayeux. Campina Grande, ah, minha adorada terra adotiva e adotada, Campina Grande! Maria de Fátima chegou ali em 1996 e eu já estava longe, em São Paulo, enquanto ela se beneficiava da brisa maneira dos alíseos da Borborema que eu havia deixado para trás e certamente contemplava os crepúsculos rubros que Raul Córdula pintou dos contrafortes do Planalto, no Serrotão dos Guedes e no Ligeiro de Aloísio Campos. Aprovada em primeiro lugar no concurso de juiz em 1984, ela virou desembargadora oito anos depois, em 2002. Dez anos depois, se tornou a primeira mulher a presidir o Tribunal de Justiça de nosso Estado. Carreira fulgurante, construída passo a passo com naturalidade e sem saltos bruscos.

Como advogada na banca do pai, assim como depois como juíza, Maria de Fátima lidou com a palavra profissionalmente. Tolo é quem pensa que só os escritores são escravos das manhas e armadilhas da torpe prostituta que só se satisfaz quando cobra do coitado do cliente o último suspiro de sua alma, o derradeiro extrato do tutano de seus ossos – a palavra. A palavra seduz e escraviza o escritor, o sacerdote, o advogado, o promotor, o juiz, o político. Assim como a literatura, a religião, a governança e a Justiça (repararam que todas as definições estão no gênero de Fatinha?) exigem de quem as oficie veneração absoluta e absurda à expressão e à língua – e mais uma vez escasseiam por aqui as definições em masculino.

Então, Maria de Fátima construiu seu acesso a esta casa de adoradores da palavra nas petições que redigiu, nas sentenças que lavrou, nas considerações com que argumentou em favor de sua profícua obra na presidência do Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba do Norte. Só isso lhe bastaria para pleitear a vaga para a qual foi eleita por nós, seus pares. Mas ela foi além, ao escrever crônicas sensíveis de beleza literária sem rebuscamento para os jornais desta Filipéia de Nossa Senhora das Neves, onde nasceu, estudou, se formou e começou a trabalhar.

Mas não ficou nisso. Antes de cruzar os portais desta Academia, a desembargadora empreendeu uma obra literária de fôlego, cujo título já fala por si só – seu livro Guiadas pela Justiça, movidas pela Fé. Nele reverenciou mulheres que lhe serviram sempre de espelho e exemplo: sua onomástica Fátima, Kadidja e Aisha, mulheres do profeta Maomé, que inspirou e fundou o Islã, a colega juíza Shirin Ebadi, que, com uma colher, escreveu nos muros da própria cela idéias de liberdade e igualdade, Mutha Mathai, Madre Tereza de Calcutá, irmã Dulce, Zilda Arns, Heloneida Studart, Rachel de Queiroz, Nélida Pinon, Lya Luft, Margarida Cantarelli, Nancy Andrighi e Eliana Calmon. Deixei, a propósito, este nome para concluir a frase para lembrar que, não por acaso, uma mulher de têmpera, antecedeu o negro Joaquim Barbosa, hoje presidente do Supremo Tribunal Federal, na tarefa árdua, mas inescapável, de dar um mínimo de crédito à Justiça, que, entre nós, se perdeu na opção pela lerdeza e pela desigualdade, fâmula da impunidade. Neste País, onde a lei é para todos, mas a impunidade, para poucos, figuras desse quilate precisam ser lembradas como o são no apanhado paciente, embora aleatório, que nossa confreira fez em sua obra citada.

Confesso que imaginei começar estas palavras de recepção e saudação escudado na Justiça e na Fé do título de sua principal obra. Mas já que preferi outro princípio, recorro a elas para concluir. Misturando devoção cristã a atividade profissional, nossa nova confreira exerce o papel duplo de sacerdotisa da justeza e caudatária da crença. Nela a compaixão religiosa serve à imparcialidade serena que se exige de quem julga e dirime conflitos humanos. Sua serenidade é o mais contundente instrumento da decretação da justiça sem abdicar da sensibilidade humana e da fé dos julgados. Como Agostinho, bispo de Hipona, ela odeia o pecado, mas ama o pecador. E sabe que neste nosso mundo brutal em que a pena civiliza é o perdão que pode diferenciar o homem do bicho e é o amor que aprimora a vida pela capacidade do entendimento do outro, que está muito além de si mesmo. Em excelente entrevista que deu ao coleguinha Kubischek Pinheiro, a empossada disse que dedica sua obra à mulher anônima, discreta e singular, jogando seus afetos na mulher excluída e sofrida, tendo por isso mesmo, doado a renda da venda do livro às “Mulheres em situação de risco”.

Embora não possa mais ser anônima pelos méritos que construiu ao longo da vida, ela também é discreta e singular. E, na certa, por ter passado por muitas “situações de risco”, busca fé na justiça humana ao se submeter com humildade e devoção aos profundos desígnios da infinita capacidade de amar exercida por Deus.

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