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CD. Instrumental. Sofisticada simplicidade

CD. Instrumental. Sofisticada simplicidade

Mais conhecido como ‘rei dos oito baixos’, Zé Calixto tem seus discos resgatados no formato CD

Se alguém conhecia bem a sanfona era o maestro Severino Dias de Oliveira, Sivuca, paraibano de Itabaiana e cidadão do mundo. Virtuose do instrumento, no qual tocou vários gêneros, até música erudita, ele tinha uma admiração especial pelo fole de oito baixos, também conhecido como “pé-de-bode”, que definia carinhosamente como “um simples instrumento camponês”. Outro gênio de nosso cancioneiro popular, Luiz Gonzaga, pernambucano de Exu, reverenciou a também chamada gaita de duas conversas na letra de um clássico, Respeita Januário, cuja letra sintetiza a diferença crucial entre o acordeom tocado pelo Rei do Baião e a sanfoninha do pai dele: “Eu quis mangar de Januário com meu fole prateado, só de baixo, cento e vinte, botão preto bem juntinho, como nêgo empareado”. A comparação do acordeom de 120 botões pretos para fazer a harmonia e um teclado com muitos recursos de variedades e timbres com a gaita de ponto, de oito baixos, 15 vezes menos, pode ser entendida até por um leigo.

As dificuldades de execução explicam o fato de a tal  gaita diatônica estar em extinção, mesmo nas folias juninas de São João no interior do Nordeste, e de instrumentistas de primeira linha estarem sendo relegados para o segundo plano no mercado de discos e espetáculos e até nos arquivos. Há, entretanto, uma família de sanfoneiros, natural de Campina Grande, Paraíba, onde se diz que se festeja o “melhor São João do mundo”, que se empenha em resgatar o repertório esquecido do 8 soco: os irmãos Calixto. O mais conhecido deles, Zé Calixto, lançou Escadaria, cuja execução complexa remete ao Moto Perpétuo, de Paganini, e a fez conhecida como a prova de fogo para testar sanfoneiro para regionais nordestinos. É interessante observar que Escadaria foi composta pelo acordeonista gaúcho Pedro Raimundo, que Luiz Gonzaga imitou e emulou no início da carreira, antes de atender à sugestão do parceiro Humberto Teixeira, gravar toadas sertanejas e fundar a música regional nordestina.

Escadaria, pela qual Zé Calixto passou a ser reverenciado como virtuose, não faz parte do repertório dos dois CDs recém-lançados na coleção discobertas pela Tapecar. Mas estas coletâneas – Baile em sua casa e Num fole de 8 baixos – dão uma excelente idéia da riqueza melódica e da sofisticação harmônica da música sertaneja mais simples. E mantêm em circulação no mercado fonogramas de rara beleza do instrumento também conhecido como gaita de botão, de 8 baixos ou de voz trocada.

Luisinho Calixto, também um virtuoso na gaita botoneira, contou em espetáculo recente, no qual acompanhou Chico César no Auditório Ibirapuera, que faz uma jornada peripatética pelo interior nordestino para ensinar jovens músicos a afinar e tocar a a gaita de duas hilheiras. Não há no sertão lendas similares à da afinação da guitarra de blues que só o diabo conhece e ensina em troca da alma do freguês em alguma encruzilhada. Mas a arte de afinar um instrumento que emite uma nota quando o executante abre suas paletas em fole e outra quando fecha, ah, o que Luisinho Calixto ensina no semiárido é diabólico, não é?

Quem não tem o privilégio de frequentar seus cursos ou de ouvi-lo tocar (pois mora em Campina Grande) agora tem a oportunidade de conhecer sua arte e ainda se divertir muito ouvindo o irmão mais velho nos dois CDs.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pág. D7 do Caderno 2+Música do Estado de S. Paulo de sábado 29 de dezembro de 2012)

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