Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Literatura

Mário Chamie

Mário Chamie

Mário Chamie é poeta. Da Instauração Práxis, em que surgiu aclamado por intelectuais como Gilberto Freyre, até hoje, quando é estrela de primeira grandeza na literatura nacional, seu nome se destaca na produção poética. Mas ele é também um ensaísta respeitado, tendo publicado textos profundos e precisos sobre temas literários e culturais. Um de seus ensaios mais venerados é sobre Macunaíma, saga do herói sem nenhum caráter da lavra de outro Mário, o de Andrade.
Sua obra mais recente, Paulicéia Dilacerada, resultado de pesquisas e estudos iconográficos, epistolares e comportamentais do autor de Paulicéia Desvairada, tem como ponto central o xará e grande antecessor, mas não pode ser rotulada como pertencente a algum gênero literário. Tem que ver com poesia, pois reproduz alguns poemas importantes do gigante do modernismo e outros do próprio autor, que no livro assume a identidade de Máior Hacime, anagramas de seus nome e sobrenome. Mas é, acima de tudo, prosa. Nâo propriamente de ficção, pois o texto, elegante e ágil, com esmeros de ourives próprios do autor, é escrito na primeira pessoa como se o tivesse sido pelo outro Mário, num espelhamento e concomitância de vozes ou falas de ambos.
Trata-se também de um ensaio, mas elaborado de forma inusitada, pois, atribuído ao pretenso autor, reflete conceitos e idiossincrasias do escritor oculto. Máior (não no sentido de mais grande, mas no de mais experiente, como no latim e no castelhano) Hacime (a ser pronunciado com o agá aspirado, com o sotaque dos árabes, dos quais o autor descende, mas sem disfarçar a condição de topo do pódio que o anagrama trai) faz de conta que é o modernista, mas sem deixar de ser o poeta de agora.
Só por isso, o mais recente lançamento do poeta de Cajobi, tomando emprestado a dor, o perfil e os conceitos do colega nascido na Rua Aurora, entra com peso e estardalhaço na anêmica produção literária nacional de nossos dias, mais empenhada em mumificar os vivos que em extrair dos mortos geniais a seiva criadora deles.
Chamie (ou melhor, Hacime) encontrou no xará de Andrade idêntica condição múltipla: poeta, ensaísta, especialista em comunicação de massas e professor, o autor de hoje reproduz o inventor e pensador de ontem – ele mesmo poeta, romancista, folclorista, formulador de políticas culturais, animador e, pasme, um grande urbanista.
A prosa de Chamie não é ficção. Pois, afinal, não há um só pensamento expresso em suas frases, curtas e pontiagudas como punhais envenenados, que não seja da lavra do fundador do Departamento de Cultura de São Paulo e que deu o nome à Biblioteca Central, que fica ali na Rua Xavier de Toledo. Nas cartas a amigos, mais do que em qualquer outra fonte, o autor contemporâneo encontrou as raízes das mágoas e contrariedades de seu tema. Demitido por burocratas medíocres que substituíram seu protetor Fábio Prado na Prefeitura de São Paulo, o primeiro Mário destila sua amargura e seu rancor contra os principais responsáveis por seu afastamento do Departamento de Cultura e, depois, pelo arquivamento de sua política cultural, que se pretendia também a matriz de um plano urbanístico para São Paulo, na cadência rápida e certeira que o segundo Mário deu ao texto do livro. São eles: Prestes Maia, Abraão Ribeiro e Faria Lima.
Ou seja, além de incinerar o lixo literário acomodado de nossos dias, produzindo uma obra literária além e acima dos gêneros, o autor desse libelo genial traz a lume uma revelação: Mário de Andrade foi urbanista.
Da leitura de Paulicéia Dilacerada, escrito na ortografia anterior aos remendos da atual, emerge a constatação de que o gênio fundador do modernismo na literatura brasileira também foi capaz de prever a degeneração urbanística da cidade onde nasceu e foi sepultado. Chamie encontrou nas diatribes do xará de antanho contra a indigência burocrática que o afastou da coordenação do movimento cultural paulistano argumentos sólidos o suficiente para concluir que os destruidores de seus sonhos e planos também demoliram a cidade que ele imaginava ver crescer sobre bases culturalmente orgânicas e civilizadas. Um crescimento não movido por uma tacanha mentalidade provinciana, de feição quatrocentona, mas por força de nossos valores culturais sincréticos que dão vida à grande rapsódia de Macunaíma.
Mário de Andrade morreu cedo, assassinado pela estreiteza obreirista de engenheiros que soterraram sua cidade sob aço, cal, asfalto e cimento de viadutos e avenidas, hoje glorificados como sábios gestores de uma megalópole que não pode parar. O caos de 8 de setembro é o supremo feito desses “tocadores de obras” imitados por sucedâneos contemporâneos (como Paulo Maluf). O xará Chamie reuniu erudição, coragem e talento formal para ressuscitar o cadáver enterrado na Consolação, compartilhando com o leitor seu lamento e sua indignação pela degenerescência do burgo que vendeu sua alma acolhedora ao diabo do automóvel, que mora nos entulhos de uma megalópole insana.

Dia dos Pais

Dia dos Pais

O poeta, jornalista e escritor paraibano José Nêumanne Pinto foi um dos protagonistas da campanha que a agência de publicidade ?EC planejou e produziu para a Livraria Cultura. Sua foto com um livro imitando um bigode foi afixada em cubos e reproduzida em cartazes espalhados pelas lojas da empresa no Brasil inteiro. Nêumanne é cliente da livraria há 37 anos, desde as reuniões matinais de sábado com escritores, poetas e intelectuais como Marcos Rey, Mário Chamie, Lygia Fagundes Telles, Humberto Mariotti, Evandro Affonso Ferreira, Ignácio de Loyola Brandão e outros.

Na Revista Meio e Mensagem:
“A agência de publicidade ?EC foi a responsável pelo desenvolvimento da campanha da Livraria da Cultura para o Dia dos Pais. Os anúncios trazem o slogan “Deixe a cultura do seu pai crescer” e mostram um livro no lugar do bigode dos pais. Ilustram as peças, personalidades importantes de São Paulo que são clientes da livraria, como o restauranteur Walter Mancini, o artista plástico Carlos Matuck, o escritor José Nêumanne, o fotógrafo Cristiano Mascaro, além de Rodrigo de Castro e seu filho, Gabriel.”

Um gogó a serviço de um cérebro

Um gogó a serviço de um cérebro

Enquanto outros astros do cancioneiro brasileiro se afundam na mesmice e relançam velhos êxitos em roupagem nova (nem tanto!) ou se escondem da inspiração em outras formas da expressão, Raimundo Fagner lança o CD Uma canção no rádio para instigar, provocar, agradar e, ao mesmo tempo, mostrar que um ídolo popular não se equilibra apenas em cordas vocais, mas também em neurônios. Recentemente, ele tinha trazido a lume um poeta maior de suas plagas, ao musicar versos do também cearense Francisco Carvalho, cujo talento supera em muito o desconhecimento de sua obra além de Fortaleza, deixando claro que não se pode medir mérito literário só pelo reconhecimento. E não faz muito tempo assim que ele gravou um CD em total parceria com um colega compositor e intérprete, o maranhense Zeca Baleiro, mostrando que estilos singulares podem bem se compor bem ao se complementarem.
A safra 2009 da cepa de Fagner faz ressurgir a mesma parceria em verso, melodia e voz na faixa que dá título e nobreza ao disco. Esta pode ser definida sem favor nenhum como antológica, juntando-se ao que há de mais precioso e especial na história de nosso cancioneiro amoroso: Uma canção no rádio (filme antigo) destaca-se pelo brilho e pela simplicidade, provando que uma coisa tem tudo a ver com a outra. “Penso, rio, sofro, choro, deixo a vida pra depois”; “tenho um coração raso de razão” ou “que o céu me roube a luz, mas me reste a voz na noite calada” são versos que atingem o ápice da qualidade no topo da lírica brasileira. Não se pense, contudo, que o novo CD de Fagner se limita a este ponto culminante, pois, na verdade, não se trata de uma obra de altos e baixos, mas, ao contrário, de uma produção que prova que compensa um gogó de ouro recorrer a um cérebro de igual estofo.
O mesmo Fagner que mostrou ao público que lhe pede bis intermináveis para Noturno e Canteiros com quantos acordes se canta a Espanha de Rafael Alberti e que pôs o biscoito fino de Ferreira Gullar à mesa da plebe agora traz de seu garimpo particular de artistas desconhecidos prontos para a fama mais um que tem tudo para ocupar lugar de destaque na indústria fonográfica brasileira – hoje anêmica em talentos promissores. Oliveira do Ceará, humilde servente que assina três faixas no CD do astro, aborda numa delas, Martelo (parceria com Adamar e Gabriel o Pensador, que participa da gravação), a indignação e a estupefação da Nação inteira pelo contexto em que todos nós – do palco e da platéia – estamos inseridos.
O regional nordestino, é claro, faz-se presente na sapeca Flor do Mamulengo, de Luiz Fidélis (“me apaixonei por um boneco e ele ‘neco’ de se apaixonar”), e, sobretudo, em Me dá meu coração, clássico do pernambucano Accioly Neto, cuja obra mais uma vez ressuscita na voz do “almuadem” (cantor de orações no Islã) de Orós. Desta vez com o auxílio luxuoso da sonoridade de Clemente Magalhães, Leo Fernandes, Cláudio Bezz, Alexandre Prol e Rick de La Torre, do Núcleo Criativo Corredor 5: estes meninos do Rio contribuem de forma decisiva para a unidade, a qualidade e a novidade do som do CD de Fagner.

A responsabilidade da imprensa no pecado de simonal

A responsabilidade da imprensa no pecado de simonal

A publicação de reportagem especial com quatro páginas num caderno e chamada no alto da primeira página da Folha de S. Paulo do domingo 21 de junho de 2009 nos ajuda a entender um episódio doloroso e lamentável que teve como protagonista um cantor muito popular, Wilson Simonal, em plena ditadura militar. O jornal deu com grande estardalhaço foros de novidade a uma informação antiga e irrelevante, informando que pela primeira vez um documento reproduziu em suas páginas na reportagem que traz a “prova” de que o artista foi mesmo informante dos órgãos de repressão na guerra suja da ditadura militar contra os grupos de extrema esquerda que o enfrentaram armas à mão. O leitor mais atento e menos ingênuo que se deu ao trabalho de ler o texto do repórter Mário Magalhães, contudo, se deparou com a informação já sabida de todos há 35 anos: não havia ali um documento comprovando que o cantor FOI um dedo-duro, mas, sim, o registro de que ele DISSE SER informante dos órgãos de informação. Apesar de ser uma notícia requentada, pois Simonal dissera o mesmo para os meios de comunicação em plena eclosão do episódio, em 1972, o estardalhaço do jornal levou um colunista importante de um veículo concorrente, Ancelmo Góis, de O Globo, a decretar o fim definitivo do debate: “Simonal foi mesmo delator”.
E foi? Claro que sim. Se levarmos em conta que seu contador Raphael Viviani foi, de fato, sequestrado por policiais amigos dele, há, pelo menos, uma vítima conhecida de uma delação do “rei da pilantragem”. Nunca ficou provado se, afinal, o mau estado das contas pessoais do astro foram prejudicadas por sua irresponsável gastança do dinheiro ganho à farta ou resultado de desfalques feitos pelo empregado. Mas não importa se o contador o roubou, ou não. Importa, sim, que, mesmo que o tivesse roubado, este não poderia ter sido tratado da forma que o fora pelo ex-patrão. Nada justifica o que Simonal fez com o contador. Mas também, como lembram Nelson Motta, Chico Anysio, Toni Tornado e o próprio cantor no documentário Simonal – Ninguém sabe o duro que dei, de Cláudio Manoel, à exceção de Viviani, não é conhecida nenhuma outra vítima da sanha da ditadura militar sabidamente delatada por ele. O mesmo não se pode dizer de muita gente boa que não passou pelo que o ídolo passou, mesmo tendo sido comprovada a delação de vítimas fatais da guerra suja.
O documentário de Cláudio Manoel, ao contrário da citada reportagem da Folha, cujo sensacionalismo é inversamente proporcional à importância que tem como reveladora de fatos históricos, é de excepcionais qualidade, profundidade e imparcialidade. Os depoimentos esclarecem o episódio, seja pela palavra, seja pela imagem dos depoentes. Os filhos Max de Castro e Simoninha não conseguem esconder a emoção quando relatam o drama do pai. Chico Anysio pontua com sabedoria e graça a narrativa. Toni Tornado ajuda, de maneira amiga e inquisitória, a desvendar os fatos ao lançar luz sobre eles. Luiz Carlos Miele põe os pontos nos is quando diz, por exemplo, que Simonal foi o maior cantor brasileiro de todos os tempos – e é difícil negar essa evidência. A pretensão de passar imparcialidade de Ziraldo se trai na exibição das charges de seu colega de Pasquim Henfil, que vão da execração à inaceitável sugestão de suicídio. Mas não se pode negar que ele tem razão, seja ao atribuir à imprensa, antes de seu próprio jornal, responsabilidade pela satanização do ídolo, seja ao constatar corretamente que a delação é um crime imperdoável para o cristianismo, por culpa do apóstolo Judas Iscariotes, que traiu Jesus com um beijo. O cinismo de outro chefão da redação do mais importante representante da imprensa alternativa na resistência à ditadura, o chargista Jaguar, ultrapassou os limites da decência, seja quando sugeriu que a surra no contador poderia ter sido justa, seja quando disse que, da mesma forma que o protagonista do documentário, ele mesmo poderia ter morrido de cirrose. A afirmação é reforçada pela cena: ele deu o depoimento tomando chope e exibindo uma garrafa de cachaça que tem como marca o próprio nome.
José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o ex-todo-poderoso Boni, da Rede Globo de Televisão, contribui com a evidência histórica que nega a importância da “descoberta” de Mário Magalhães: se Simonal fosse mesmo um figurão do regime autoritário, este teria saído em sua defesa. E não saiu. A reação covarde e preconceituosa dos que “gelaram” o ídolo acusado de delação aparece de forma clara no depoimento do grande instrumentista Paulo Moura e também no de Boni, que eximiu de boicote as emissoras de televisão, transferindo a decisão para os responsáveis pela programação.
O documentário não inocenta Simonal. Nem poderia. Os erros cometidos por ele foram monstruosos e imperdoáveis, providenciando uma retaliação absurdamente desproporcional ao eventual delito do contador e, pior ainda, denunciando-o como “terrorista” e assumindo – ao que tudo indica, apesar da afirmação da Folha, falsamente – a condição de colaborador do aparelho policial clandestino e brutal da ditadura militar. O incrível é que, conforme o depoimento do contrabaixista Sabá, do Som3, que o acompanhava e com quem tinha grande intimidade, o cantor teria seguido essa linha absurda a conselho de seu advogado. Ele não definiu qual deles, mas é chocante lembrar que o principal defensor de Wilson Simonal era um dos ícones dos direitos humanos no Direito brasileiro à época da ditadura, Evaristo de Moraes Filho. Custa crer que um causídico com a fama que ele tinha tenha instruído o cliente a cometer erro tão estúpido. Toni Tornado insinua que possa ter havido uma “armação”. É improvável. Simonal pode ter errado por arrogância, prepotência e ingenuidade, na definição do crítico Nelson Motta. É uma hipótese mais plausível. O certo é que ele mesmo provocou sua depressão posterior ao vexame de ser processado e até preso.
Mas a covardia e o preconceito dos que não perdoaram o sucesso incrível do crioulo “folgado” contribuíram com esse erro e interromperam a carreira de um artista que fez Sarah Vaughan, a diva do jazz americano, literalmente babar a seu lado no palco, dando ambos um show inesquecível interpretando The shadow of your smile. E que regeu um coro de 27 mil pessoas no ginásio do Maracanãzinho – como ninguém o havia feito antes nem o faria depois. Foi um crime cometido pelo próprio Simonal com a cumplicidade de todos que se aproveitaram do mal entendido para fazer valer o ódio racial, a inveja social e a mediocridade pessoal. Simonal já morreu e não há mais o que fazer a respeito. Mas o jornalismo sensacionalista continua fazendo suas vítimas, como mostra o caderno especial que a Folha produziu aproveitando-se do embalo da badalação em torno do filme. Mais importante que discutir se Simonal foi, ou não, dedo-duro é debater com clareza e isenção esse pecado capital da comunicação de massas – em 1974 como hoje.

Elogio fúnebre a Zé Rodrix

Elogio fúnebre a Zé Rodrix

A primeira vez que vi Zé Rodrix na minha vida foi em 1967 na Rua Rui Barbosa, no centro de Campina Grande, Paraíba, se bem que ainda não pessoalmente, mas, sim, na tela em preto e branco do televisor de casa, pela qual acompanhava com fanatismo os festivais de Música Popular Brasileira. Então, ele fazia parte do Momento 4uatro, que acompanhou Edu Lobo e Marília Medalha em Ponteio, a canção de Edu e José Carlos Capinam que venceu o III Festival de MPB, da Record. Depois, no começo dos anos 70, quando me mudei para sua cidade natal, o Rio de Janeiro do Flamengo e da Mangueira, aprendi, cantando com ele, que “a palavra já morreu”, refrão de um sucesso do Som Imaginário. O conjunto (como se chamavam as bandas à época) acompanhava Gal Costa num show em São Paulo quando, enfim, nos conhecemos pessoalmente. Fiel a seu espírito de revolucionário folgazão, no meio do espetáculo improvisava um inesperado solo de máquina de escrever. Um leitor, que não havia gostado nada daquilo nem muito menos de meu elogio ao desempenho dos artistas, impresso na Folha Ilustrada, da Folha de S. Paulo, me telefonou para dizer que o espetáculo era tão ruim que um dos acompanhantes da cantora baiana deixava de tocar para escrever uma carta. Como o Brasil inteiro, aplaudi Elis Regina cantando Casa no campo, composição dele e de seu maior amigo, o mineiro Tavito, e batia palmas ao compasso da salsa no refrão de Soy latino-americano. Mas só nos apertaríamos as mãos graças à internet quando ele voltou a compor, ao considerar encerrada sua temporada de publicitário, na qual havia encantado o Brasil (e eu junto) com um longo jingle de um Chevrolet. Passamos a frequentar aos sábados, a musa Júlia sempre ao lado dele, as livrarias da vida – a Azteca, nas Perdizes, a Boa Vista, na Faria Lima, e, finalmente, a da Vila, na Vila Madalena. Encantava a roda formada pelo romancista Humberto Mariotti, por Aquiles Reis, do MPB4, e por seu ídolo, o poeta Mário Chamie, contando casos do tempo da luta armada, da qual participara e que lhe servira de definitiva vacina contra quaisquer tentações totalitárias e estatizantes. De volta à música pela internet, fazendo sucesso na literatura como autor de uma trilogia de romances sobre a construção do templo de Jerusalém, o Zé da Roda, como eu o chamava na livraria (sendo por ele chamado de Zé da Neuma), se havia tornado um inimigo figadal do financiamento público de obras de arte, por achar, com razão, que esta é a pior forma que os autoritários encontraram para abastardar a cultura. Cultor da canção, como autor ou exegeta, pregava aos quatro cantos que esta sua forma capsular de expressão estética tinha mais valor que livros, quadros, concertos, filmes e peças teatrais, exatamente por ser completa em sua forma sintética de comunicação. Solidário por vocação, Zé compôs sozinho e em parcerias e também cantou em bandos na condição de adolescente permanente: Joelho de Porco, com o sócio Tico Terpins, e, desde sempre, o trio de rock rural Sá, Rodrix e Guarabyra, cuja temporada de shows só foi interrompida pela visita da Indesejável das Gentes em seu refúgio no Sumaré, onde foi golpeado por um enfarte fulminante, ao lado de Júlia, como passou todos os dias dos últimos anos de sua vida. O amigo generoso e atento continuará nos provocando e incentivando onde for que nos encontrarmos. O artista talentoso e gregário deixou sementes de canto na filha mais velha, Marya, e na caçula, Bárbara. Mas ele sempre fará falta, ao encerrar, desta forma trágica, um ano de perdas, que decepou de minha vida as companhias de Toinho Alves (do Quinteto Violado), Walter Santos, J. B. Lemos, Tereza Sousa e Walter Silva Picapau. Ao lado deles, na certa, ele agora tem um encontro marcado com um rebanho de carneiros solenes pastando nos jardins do céu.

“As bombas e os punhais assinalados”

“As bombas e os punhais assinalados”

Na virada dos anos 50 para os 60 do século passado, havia uma certeza praticamente consensual: Albert Camus, autor de O estrangeiro, texto capital da ficção universal, ponto de partida para a fama, que levaria o autor francês nascido em Oran, na Argélia, a ser o mais jovem Prêmio Nobel da Literatura, passaria para a história como ficcionista, jamais como filósofo. A filosofia consagraria seu companheiro de batepapos, que depois se tornariam discussões ríspidas nos cafés de Saint Germain-des-près, em Paris, Jean Paul Sartre, pai do existencialismo e defensor ardoroso das tiranias comunistas na Rússia sob Josef Stalin e, depois, na China sob Mao Tsé-tung. No entanto, deu-se exatamente o oposto. Embora a ficção de Camus continue encantando leitores de todos os quadrantes e todos os idiomas da Terra, como acertadamente foi previsto, ao contrário do que se dizia no auge da guerra fria entre o Império do Norte e o urso soviético, suas idéias filosóficas é que sobreviveram à glasnost (transparência) russa e à queda do Muro de Berlim. Sartre, que já tivera de abandonar a devoção a Stalin em vida, depois da morte do tirano e da revelação de sua brutal tirania no relatório de Kruschev ao 20º Congresso do PCUS, em 1956, não chegou a acompanhar a dissecação das ditaduras comunistas em vários continentes, notadamente a chinesa na Ásia e a cubana na América Latina. Foi, assim, poupado do desgosto (que, na certa, teria) de ser contestado por uma quase unânime decepção que acometeu a intelligentsia ocidental após a revelação os crimes praticados (entre os quais o genocídio cambojano na ditadura de Pol Pot) em nome do destino revolucionário e socialista da classe operária, com raras e nem sempre honrosas exceções. Se tivesse sobrevivido ao reconhecimento geral de que a ética antiterrorista de Camus é hoje quase condição de sobrevivência num mundo assolado pelos homens-bomba do fundamentalismo islâmico, Sartre só teria o consolo de conservar o que se pensava que seria o legado de Camus: a extraordinária qualidade literária de sua produção de ficção ou semi (aí incluído o magnífico As palavras). Entender o que e como terminou por provocar essa inversão de valores na profecia cumprida pelo avesso é fundamental para qualquer leitor interessado em saber o que, ocupou o plano das idéias no século 20. O professor José Jackson de Carvalho, filósofo rigoroso e exegeta atento, esclarece neste livro as principais chaves da explicação deste conflito conceitual que marcou, de maneira preponderante, os debates filosófico e político no mundo neste último meio século. Seu ensaio rigoroso, mas nem por isso menos agradável de ser lido, também espalha pistas essenciais para descobrir as raízes da genial clarividência do pé preto (argelino de origem européia) que resumiu a história do poder no trajeto da humanidade pela Terra numa frase de sua peça Calígula, recentemente montada novamente em São Paulo: “as facas são as mesmas, só mudam os afiadores”. Hoje é o caso de dizer: as bombas são as mesmas, só mudam os detonadores.

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