Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Literatura

Um documentário para quebrar o silêncio

Um documentário para quebrar o silêncio

Os engenhos Corredor, onde o gênio do romance José Lins do Rego nasceu, e Tapuá, onde ele passou a infância, ambos em Pilar, na Paraíba, ruíram e agora não é mais possível visitar o universo arquitetônico que inspirou o escritor que captou de forma mais exata e inspirada a decadência dos engenhos e o advento das usinas de açúcar no Brasil. O casarão que pertenceu a André Vidal de Negreiros, herói paraibano da guerra contra a ocupação do Nordeste pelos holandeses, resistiu mais de três séculos ao tempo, mas desabou em 40 anos: ainda estava de pé quando Walter Lima Jr. fez tomadas em seu interior para Menino de Engenho, clássico do Cinema Novo, nos anos 60 do século 20, mas hoje não existe mais. Risco idêntico de desaparecer corre a fama de uma obra literária de primeira água: o ciclo de romances, crônicas e memórias – no qual se destacam o sucesso de Menino de engenho e o primor de Fogo Morto – de um prosador que não pode ser esquecido. Esta denúncia percorre as imagens e falas de um documentário, que, depois de ser exibido em festivais de prestígio, conseguiu o milagre para fitas do gênero de entrar no circuito das salas de exibição comercial no Brasil: O engenho de Zé Lins. Dirigido por Vladimir Carvalho, que nasceu em Itabaiana, cidade paraibana onde o autor de Riacho doce estudou, a obra faz revelações que já deveriam há muito tempo fazer parte do acervo crítico da academia ou da imprensa brasileira. E o simples fato de elas serem de primeira mão já denuncia o descaso, o desleixo e a inépcia dos responsáveis pela manutenção do rico e abandonado patrimônio literário do povo brasileiro.

José Lins do Rego

Zé Lins beijando a bandeira do Flamengo

Vladimir Carvalho, diretor do filme O engenho de Zé Lins

O título do documentário é expressivo porque aborda exatamente o aspecto mais revoltante e relevante do material pesquisado, filmado, gravado e editado pelo cineasta e professor universitário, que, como o autor destas linhas, tem confessa veneração, quase religiosa, pela obra do escritor tão importante quanto relegado a um injusto plano inferior. O conjunto arquitetônico desaparecido e o solo em seu redor ocupado por militantes sem-terra não têm o valor intrínseco da obra literária do homem que lá nasceu e passou a infância, mas suas ruínas denotam a incapacidade do Estado brasileiro de zelar por bens que não poderia ter deixado destruir. A casa onde nasceu outro grande escritor, da geração de Zé Lins, João Guimarães Rosa, em Cordisburgo, nos sertões do Norte de Minas Gerais, e a vendinha de seu pai, ao lado, são o exemplo oposto de como devem servir e funcionar prédios nos quais se fez história ou se produziu cultura. O turista que vai à pequena cidade conhecer a gruta de Maquiné, em seu território, tem oportunidade de ver os locais onde o autor de Sagarana nasceu, viveu e colheu as histórias e o estilo dos tropeiros e tangerinos que paravam para fazer compras e jogar conversa fora no armazém. A visita serve de esclarecimento e estímulo a serem acrescentados à leitura da fabulosa fortuna crítica sobre a grande personalidade que ali viveu seus anos de formação. Tendo sido José Lins do Rego o mais acurado retratista em palavras da decadência dos engenhos de açúcar, de cujos produtos viveu o Brasil em seus primórdios, mais falta ainda faz sua paisagem hoje às gerações que nem sabem o que foram engenhos nem aprendem que aquelas ruínas já falam de uma segunda derrocada, a das usinas, que substituíram estes engenhos.

Engenho de Tapuá, São Miguel do Taipu, Paraíba. Foto de Tiago Queiroz, Agência Estado

Contra a empáfia e a ignorância – Ao estabelecer o diálogo criativo entre as cenas coloridas por ele filmadas agora e as imagens em preto e branco gravadas em película por Walter Lima Jr. em Menino de Engenho, Vladimir Carvalho não apenas inova a linguagem do cinema documental e põe em relevo a dicotomia da obra do escritor retratado: memória e ficção. Ele também compartilha com o espectador o espanto e a revolta por ver como os agentes públicos brasileiros, escravizados pela própria ganância por poder e recursos do Erário, deixaram desabar paredes que desafiaram séculos num prazo curtíssimo comparado com o tempo em que elas permaneceram de pé. A visão do casarão que pertenceu ao herói da guerra contra a ocupação holandesa impressiona por si, mas chega a assustar mais quando posta em contraste com a filmagem do mato que o substituiu.

Só que o documentarista não berra, não brada, não esbraveja: ele apenas geme e chora, convidando o espectador à reação. Com isso, deixa no ar o medo de que seja cometido, contra a obra que aquela paisagem arquitetônica, econômica, social, geográfica e humana inspirou, um assassinato por amnésia, doença semelhante à indiferença que a desfigurou. Grave é o delito da passividade ante a derrubada de solares, senzalas e engenhos, que impede o testemunho físico do que a memória prodigiosa do escritor registrou. Gravíssimo também é o silêncio que mantém sua obra no limbo, vítima das modas acadêmicas e da ignorância dos homens públicos levados à gestão do patrimônio artístico, estético e cultural do País. É preciso resistir contra isso. E é o que Vladimir ajuda a fazer no seu filme, preenchendo a enorme lacuna da empáfia e da ignorância dos donos dos poderes da academia e da República.

 

Maceió, capital das letras – Nos depoimentos de amigos e parentes do tema de seu filme ele ilumina pontos escuros do caráter e da alma do romancista. Ao mesmo tempo, colabora para ajudar a escrever a história ainda desconhecida da melhor literatura brasileira no século 20. De uma fala do acadêmico Carlos Heitor Cony, por exemplo, extraiu uma pérola: a evidência de que Maceió, em Alagoas, foi, nos anos 30, talvez os mais fecundos de todos nesse particular, a capital da literatura brasileira. O autor de Quase memória lembrou que, quando o primeiro livro (e maior sucesso) de José Lins foi lançado, a mais populosa cidade do País, São Paulo, tinha apenas três escritores do primeiro time (Mário e Oswald de Andrade e Mennotti del Pichia), enquanto na capital alagoana conviviam com o ilustre paraibano Rachel de Queiroz, Jorge de Lima, Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda, só para ficar nos mais importantes. O carioca omitiu que, à época, no Rio, sede da editora de todos eles, a José Olympio, também não se reuniam tantos luminares das letras assim: o pernambucano Manuel Bandeira, o mineiro Carlos Drummond de Andrade e quem mais? Pode ser mera curiosidade, mas não é interessante?

Mera curiosidade certamente não é o registro do temperamento ciclotímico do tema do filme. Capaz de arroubos de euforia, costumava afundar em depressão assustadora. Os amigos (Rachel de Queiroz, por exemplo) atribuíam esse banzo às lembranças de um acidente da infância. O menino do engenho nunca esqueceu o acidente em que apertou, por acaso, o gatilho da arma de fogo que tirou a vida de um moleque de folganças nos terreiros do casarão do avô. Fica também no ar no depoimento de Edson Nery da Fonseca, maior especialista na obra do sociólogo de Apipucos, a insinuação que o romancista paraibano pode ter sido o protagonista da única experiência homossexual confessada por Gilberto Freyre. A influência do autor de Casa grande e senzala na obra retratada no documentário, contudo, debatida por Ariano Suassuna, é muito mais relevante que qualquer fofoca íntima do gênero.

Engenho Corredor, Pilar, PB, onde José Lins nasceu

Águas da glória e da desgraça – Mais relevante que tudo isso ainda é o pungente depoimento de Tiago de Mello sobre as dolorosas agonia e morte precoce do grande romancista. O poeta amazonense descreveu com detalhes a brutalidade com que o esquistossoma adquirido nos banhos nas águas poluídas do rio Paraíba (fontes de sua glória e de sua desgraça) na infância corroeu, de maneira implacável, os vasos biliares do amigo mais velho, sangrando-o e o levando à morte aos 56 anos de idade. Banhada de lágrimas e mesclada com fatos pitorescos, típicos da personalidade esfuziante e trágica do admirador de Dostoievsky, a descrição é inédita e inusitada, configurando-se uma contribuição inestimável da obra à história do gênero documental no cinema brasileiro.

Outro desses pontos altos é o depoimento de Sávio Rolim, o cinqüentão que protagonizou o mais célebre personagem da literatura de Zé Lins, Carlinhos, o menino de engenho. Com o juízo derretido pelo álcool, o ator de cenas memoráveis é filmado em sua casa miserável desfiando histórias sem nexo. Mas surpreende o espectador quando o cineasta recupera sua memória exata e aguda ao levá-lo ao engenho Tapuá, onde foram feitas as filmagens de Menino de Engenho, há 40 anos.

O capítulo dedicado ao ex-ator-mirim serve para pôr em contraste duas facetas da genialidade do tema do documentário: a força da lembrança e o gênio da fantasia. Sua obra é brilhante nos dois gêneros e soterrá-la sob os escombros da paisagem que a inspirou será um crime inafiançável contra a memória do romancista e mais ainda contra milhões de brasileiros que merecem ter acesso ao brilho que ele criou.

É fé no povo e Pé de chumbo

É fé no povo e Pé de chumbo

Político popularíssimo em Campina Grande, Paraíba, para cuja prefeitura foi eleito “uma par de vêiz”, como ele mesmo diria, em seu estilo desabusado, franco e pouco elegante no vernáculo, Severino Cabral é freqüentemente citado em minhas palestras como um mestre da práxis administrativa e do marketing político.
Excelente exemplo de sua sabedoria nesse campo foi dado no dia em que recebeu em sua casa para almoçar o embaixador dos Estados Unidos em Brasília. Antes de contar o episódio, convém adiantar que sua casa ficava permanentemente aberta à visita de seus eleitores, que entravam, iam até a cozinha, faziam as refeições e saíam com naturalidade. E também que seu filho mais velho, Milton, era diplomata de carreira e estava na embaixada do Brasil na Romênia quando o ditador comunista Nicolai Ceausescu foi derrubado por uma insurreição popular. Quer dizer: estava no cargo, mas não exatamente em Bucareste, e, sim, jogando uma partida de tênis no Country Clube, no Rio. Só por isso, já dá para perceber que não é o melhor herdeiro das manhas nem dos talentos do pai.
Pois bem, o diplomata da família levou o embaixador americano para o almoço e ficou indignado quando viu o pai ouvir o cochicho de um assessor e interromper abruptamente a conversa para sair da sala de jantar para o hall da casa. Acompanhou-o e percebeu que ele, que era um homem alto e forte, conhecido como “Pé de chumbo”, se abaixava para ouvir os apelos de uma senhora muito pobre e andrajosa.
Interpelou-o:
— Papai, como é que o senhor deixa o embaixador dos Estados Unidos falando sozinho à mesa para vir atender a essa senhora?
E o velho respondeu na bucha:
— E eu sei lá onde diacho esse homem vota. Essa mulher eu sei. Ela vota aqui. E vota em mim.

Outra vez, em visita a Salvador, ficou encantado com as linhas arquitetônicas do Teatro Castro Alves. Contratou um arquiteto, mandou que ele fosse à Bahia e copiasse o prédio, só que em dimensões reduzidas. Daí, nasceu o Teatro Municipal de Campina Grande. Na hora de lhe dar nome, chamou o assessor especial para teatro, radialista Wilson Maux, e lhe encomendou uma lista de denominações. Este espremeu os miolos e listou os literatos mais famosos da cidade e do Estado, mas isso não satisfez o chefe.
— Oh, seu Wilson, já vi que o senhor não entende nada de teatro. Nome de teatro tem de ter rima, rapaz.
— Como rima, seu Cabral?
— Rima, ora essa. Não sabe rimar? Teatro Municipal patati patatal.
— Sim, mas que nome rimaria?
— Teatro Municipal Severino Cabral, seu idiota.
— Mas, seu Cabral, o senhor nunca escreveu, dirigiu nem atuou em teatro nenhum. Por isso, não pode dar nome a um teatro.
— Que besteira, esse menino! E Plínio Lemos jogava bola?
É que o Estádio Municipal da cidade tem o nome do ex-prefeito Plínio Lemos.
Certa vez, seu principal adversário em Campina Grande, o senador Argemiro de Figueiredo, resolveu lançar contra ele numa campanha para a prefeitura um jovem deputado estadual pelo PTB, conhecido pela habilidade no uso das palavras. A sensação da campanha do rapaz, advogado em começo de carreira, eram seus discursos, todos metrificados e rimados, nos moldes dos repentes da poesia popular. Severino Cabral, que havia inovado ao contratar um marqueteiro profissional para a própria campanha e por consultar as intenções do eleitor em pesquisas, tomou conhecimento da preocupação da assessoria com o crescimento surpreendente e rápido do outro candidato.
— O rapaz é poeta, seu Cabral — justificou seu marqueteiro.
— Ora, então, o problema é fazer versos? Eu também sei fazer.
E foi anunciado aos quatro cantos da cidade que “Pé de chumbo” versejaria no palanque do distrito de São José da Mata no domingo seguinte. Ele foi, subiu ao palanque e sapecou para a multidão emudecida:
— Povo de São José da Mata,
Mata de São José: ou São José me mata
ou eu mato São José.
O silêncio de perplexidade prenunciou a derrota. O vencedor, Ronaldo Cunha Lima, seria deputado federal, senador e governador do Estado. O atual governador é seu filho, Cássio.

Severino Cabral e personalidades políticas: Getúlio Vargas e Jânio Quadros

Milton Cabral também foi governador, mas o pai, não: foi vice e seria cassado na ditadura militar, da mesma forma que o fora Cunha Lima. Na campanha para o governo do Estado – com o senador João Agripino na cabeça da chapa e ele próprio de vice -, “Pé de Chumbo” protagonizou episódios que enriqueceram o folclore político paraibano. Consta que, no palanque, um dia, surpreendeu a assessoria da campanha com uma afirmação inusitada:
— Eu e o dr. João Agripino formamos um trio…
Um assessor, pressuroso, soprou, corrigindo:
— É dupla, seu Cabral. Trio são três.
— Que besteira. Trem não anda em trio e não é dois?
Na mesma campanha (vitoriosa, por sinal), os candidatos sentaram-se para comer num restaurante do interior e pediram bife com arroz. Foram-lhes servidos dois pedaços: um maior e outro menor. Ele apressou-se em se servir do mais avantajado.
— Ora, Cabral, um homem educado pega o pedaço menor – resmungou o senador, de notório temperamento ranzinza.
— Deixa de besteira, João! Você não é um homem educado? Então, se ia ficar com o menor mesmo, está reclamando de quê?
Seus adversários contavam ainda que, certa vez, um auxiliar menos alfabetizado tentou socorrer-se dele antes de preencher um cheque de sessenta cruzeiros.
— Sessenta se escreve com esse ou com cê, seu Cabral?
— Faz dois de trinta – teria respondido, ágil e espertamente.
Em outra ocasião, seguindo conselho da assessoria para se referir ao máximo possível de interlocutores, sempre que discursasse, inaugurou um cemitério num distrito de Campina Grande, proferindo:
— Conterrâneos e subterrâneos…

As fugas do Sol

As fugas do Sol

José Maranhão

José Maranhão

Isabel Mendes da Cunha

Isabel Mendes da Cunha

“Matando a fome de um paraibano do sertão” PREFÁCIO para o livro Culinária Regional Paraíba

“Matando a fome de um paraibano do sertão” PREFÁCIO para o livro Culinária Regional Paraíba

Dona Nanita, mãe de meu pai, José de Anchieta, fazia um doce de caju escuro com uma calda espessa que matava aos bocados uma família de diabéticos. Zé Pinto, enteado dela, engendrou um método eficaz para furtar os cajus da compota sem lhe “desonerar” a calda: pescava-os com varetas de madeira, evitando que a saliva no metal azedasse o conteúdo dos potes. Minha mãe, Mundica, aprendeu a chegar ao ponto daquele maná dos deuses.
Certa feita, meu pai levou-me à lanchonete de certo Toinho, em Campina Grande, a 360 quilômetros de meu sertão de berço, para provar uma cartola, sobremesa em que o sal do queijo de manteiga e o doce da banana, ambos fritos, contrastam com a farofa de açúcar, canela e chocolate, fria e crua. Hoje degusto-a na Fina Fatia, em João Pessoa, na La Suissa, em Campina Grande, e no Leite, no Recife Velho.
Mas nem só de veneno vive a gula de um paraibano. Zezita, mãe de minha ex-mulher, Regina, prepara uma buchada de carneiro de comer de joelhos. Marisa, mãe de Magdala, minha mulher, sabe como guisar um bode. Carne de sol, só no Manoel, em Campina Grande. E não há ensopadado de caranguejo como o do Badionaldo, na Praia do Poço, em Cabedelo. Amém.

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