Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Literatura

O brilho da ribalta, por trás do refletor

O brilho da ribalta, por trás do refletor

É possível dizer de José Eduardo (Zuza) Homem de Melo que, mesmo tendo ele abandonado há muito tempo o contrabaixo, o instrumento nunca o deixou e até hoje o acompanha nas múltiplas atividades que exerceu e ainda exerce na área musical, sem mais percutir suas cordas. O contrabaixo é o responsável pela base rítmica sem a qual nenhuma execução musical consegue se manter harmônica: sem ele se instauraria o caos no universo de melodias, refrões e improvisos das bandas de jazz. Como chefe da mesa de som da TV Record na época dos grandes festivais e musicais; apresentador de um programa que se tornou ícone da programação da radiodifusão contemporânea no Brasil; produtor de festivais de jazz; crítico na imprensa; autor de ensaios sobre movimentos importantes da música popular brasileira; programador de temporadas de música em bares e restaurantes da moda; e organizador de trilhas sonoras para música ambiente, este paulistano simpático e de fala mansa se tornou uma figura capital para a compreensão e a melhor fruição do que se fez de musical no País.
Descendente de um clã de cafeicultores paulistas, herdeiro de um título de barão, contemporâneo da boêmia dos anos 40 e 50 na Paulicéia Desvairada, nosso protagonista não deixou dissipar nas nuvens de cigarro nem nos vapores etílicos das boates célebres de seu tempo de juventude os sons que produziu e, sobretudo, ouviu. Mas os incorporou e retransmitiu com tais empenho e competência que um amigo o apelidou de “o homem que tem música nas veias”, epíteto utilizado para intitular seu programa de sucesso no fim da tarde na rádio nos anos 70 e 80 do século passado e espécie de marca registrada com a qual passou a carimbar todos os trabalhos aos quais aporia sua assinatura de prestígio. A marca voltou agora na forma de título de livro, gênero no qual não é jejuno, pois já andou reunindo no formato depoimentos dos principais participantes da bossa nova e escreveu um compêndio muito interessante narrando fatos ocorridos nos bastidores dos festivais, que freqüentou como técnico de som. A diferença desta vez é que ele aparece com um coquetel de sabor original, uma fusão, para usar o jargão musical que domina. O livro que acaba de lançar mistura reminiscências de uma longa e profícua experiência de vida em torno de grandes astros do universo musical com ensaios para os quais contribuem anos de aprendizado na arte de tocar, ouvir, produzir e programar discos, espetáculos e outros eventos sonoros.
O leitor deste seu novo livro será apresentado aos mestres do jazz que povoaram a cena nova-iorquina nos anos 50. Como aluno de contrabaixo de Ray Brown, um dos maiores gênios do instrumento, Zuza viu, ouviu e às vezes até conviveu com os maiores instrumentistas e cantores daquele tempo. As lições que lhe trouxe esse aprendizado são ministradas de forma leve e agradável, num estilo que flui como prosa à beira do fogo, para o leitor interessado ou para o simples curioso. As aulas com Ray Brown e as conversas com marcos da música americana, como o trompetista Dizzy Gillespie, apenas para dar uma idéia de como são frondosas as fontes em que o autor do livro bebeu, servem de base (e aqui volta a metáfora do contrabaixo) para as análises minuciosas feitas pelo crítico dos temas que aborda. Estes podem ser as orquestras que animavam os espetáculos dos cassinos brasileiros, antes de o jogo de azar ser proibido no governo Dutra, aqui mesmo no Brasil, ou as vicissitudes dos líderes de banda na Alemanha nazista para conviver da maneira possível com a truculência dos esbirros de Hitler.
As lembranças e o conhecimento musical, acrescidos do estilo jornalístico vigoroso que privilegia os fatos importantes, servem também de apoio para o autor traçar o perfil de instrumentistas lendários, caso do chorão Jacob do Bandolim. Zuza resgata com carinho, mas sem pieguice nem protecionismo, a virtuosidade e os detalhes do comportamento do homem por trás do instrumento. Ao reproduzir cartas do músico para um amigo cantor, seu maior confidente, revela as dúvidas, anseios e aperreios de um ícone da música brasileira, cuja carreira foi prejudicada por uma série de tragédias pessoais, que ele lamenta num apurado estilo literário, inesperado, surpreendente até, num virtuose musical. Não escapam ao autor, que os repassa ao leitor, detalhes incômodos, caso da inveja que o perfilado sempre destilou do sucesso de um competidor, Valdir Azevedo, também marcado pela tragédia: este teve um dedo decepado por um cortador de grama.
Na qualidade de produtor de shows da TV Record, em seu auge, nos anos 60, Zuza teve na vida a oportunidade de trazer para o Brasil grandes nomes da canção internacional, artistas do quilate de Nat King Cole e Sammy Davis Jr. O relato dos bastidores da contratação destes intérpretes é um capítulo à parte na leitura instrutiva e divertida deste livro em que o ofício do autor passa a ser uma oportunidade para o leitor ter acesso ao brilho da ribalta, por trás do refletor, no negócio do entretenimento.

A peleja do trio pé de serra contra o forró eletrônico

A peleja do trio pé de serra contra o forró eletrônico

O paraibano Antônio Barros é um ídolo da música regional junina no Nordeste: compôs mais de 600 canções, muitas das quais foram sucessos absolutos de intérpetes como Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Três do Nordeste e Ney Matogrosso (Homem com agá). Mas isso não evitou que protagonizasse um episódio no mínimo contraditório para um artista de sua importância: foi contratado para abrir o show cuja atração principal era a banda Cascavel, da qual ele, sua parceira e mulher Cecéu e a filha dos dois, a cantora Maíra, nunca ouviram falar. No entanto, a cidade de Aroeiras, no interior da Paraíba, estava em polvorosa com a chegada da banda e ele recebeu o cachê e instruções rigorosas para deixar o palco assim que a banda chegasse. Ao fazê-lo, testemunhou o frenesi histérico com que a atração principal da noite foi recebida por seu público. O fato marcante registrou a transição do forró de pé de serra, cultuado por ele e outros grandes artistas, como Santanna Cantador, Flávio José, Nando Cordel, Dominguinhos e outros, para o forró eletrônico, produzido no Ceará.

Chico César e Richard Galliano

Pinto do Acordeon

Dominguinhos e Richard Galliano no Parque do Povo

Capitaneadas por um empresário pra lá de bem-sucedido residente em Fortaleza, bandas com instrumentos eletrificados e nomes semelhantes, formadas por instrumentistas anônimos, todos funcionários do mesmo patrão, dominam a programação musical das emissoras de rádio e televisão e reinam absolutas nos palcos do interior do Nordeste nas festas juninas. Manoel Gurgel, o imperador do forró cearense, se dá ao luxo de propor parcerias aos grandes compositores regionais, numa tentativa de cooptá-los, da mesma forma como faz com programadores de emissoras de AM e FM em praticamente todas as cidades dos nove Estados nordestinos. Mas pelo menos nisso ele ainda não obteve êxito.
Ao contrário, os representantes da música regional junina autêntica no Nordeste começam a reagir contra a invasão do forró eletrônico. E acabam de encontrar um aliado absolutamente inesperado… na Suíça. Tudo começou em Patos, no sertão e no meio do mapa da Paraíba, cidade onde se diz que se pode fritar ovos no cimento da calçada, tão quente se faz presente o sol por lá. Pierre Landolt, herdeiro de um grupo multinacional de índústrias farmacêuticas, se instalou em sua zona rural, onde estabeleceu uma fazenda para criar bovinos, ovinos e caprinos. Com os peões instalados em sua propriedade, ele aprendeu a amar os trios de forró de pé de serra formados por sanfona, zabumba e triângulo. E os apresentou a seu amigo cineasta Bernard Robert-Charrue, que, ciceroneado pelo casal de dançarinos de forró Rilávia Cardoso e Ajalmar Maia, fez o longa metragem Paraíba, meu amor, cujo título foi inspirado na canção homônima de Chico César, nascido um pouco além de Patos, em Catolé do Rocha, nas proximidades de Brejo do Cruz, berço de Zé Ramalho.

Chico César e Aleijadinho de Pombal

O cineasta suíço registrou em imagens coloridas o inesperado encontro do acordeonista de jazz francês Richard Galliano, elevado ao panteão dos maiores instrumentistas da Europa, com o sanfoneiro pernambucano Dominguinhos, herdeiro reconhecido pelo Rei do Baião e herói do europeu. O duelo entre o jazzista e o forrozeiro se deu no palco principal do lugar onde se realiza o que se chama “o maior São João do Mundo”: o Parque do Povo, em Campina Grande. O francês também acompanhou Chico César na canção-título e contracenou com dois sanfoneiros paraibanos, Pinto do Acordeon, que mora em João Pessoa, e Aleijadinho de Pombal, cidade que fica entre Patos e Catolé do Rocha.
Concluído o preito cinematográfico ao forró autêntico, em plena temporada de resistência contra o forró eletrônico de Manoel Gurgel, o resultado foi apresentado em Karlsruhe, na Alemanha. E com tal êxito que está sendo prevista ainda este ano uma “noite do forró”, no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, com os protagonistas do documentário. Um dia depois de o filme ter sido lançado no Cine Bangüê, no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa, todos estes artistas populares se reuniram com mais 50 forrozeiros na estréia do filme no auditório da Federação das Indústrias da Paraíba (Fiep), em Campina Grande. Para lá acorreram Flávio José, apontado por Dominguinhos como seu herdeiro; o patriarca Antônio Barros com suas Cecéu e Maíra; Santanna Cantador, natural de Juazeiro de Padre Cícero e com um timbre muito semelhante ao de Gonzaga; e outros astros do forró de pé de serra, para os quais a vulgaridade do duplo sentido pornográfico das “bandas” eletrônicas (como a Calcinha Preta) não é somente uma questão de decência, mas de sobrevivência.

Bernard Robert-Charrau, ladeado

por Ajalmar Maia e Rilávia Cardoso

O filme de Charrue não tem a qualidade do documentário de Wim Wenders sobre o resgate da música tradicional cubana graças ao espetáculo produzido pelo guitarrista americano Ry Cooder, Buena Vista Social Club. Mas pode ser que ele venha a se tornar no ponto de partida para o resgate da mesma autenticidade que o autor da trilha sonora de Paris, Texas evitou que se perdesse no Caribe, impedindo que o forró de pé de serra seja sepultado no sertão pelo comercialismo urbano das bandas de Manoel Gurgel.

“O poeta do incômodo brilho da jaça”

“O poeta do incômodo brilho da jaça”

Pedro Galvão não é poeta de se abrigar nos confortos da lisonja e na passividade da contemplação: seu verso, longo ou curto, nervoso ou ritmado, um tanto apocalíptico, um tanto fotográfico, mais garimpa a jaça que o brilho geométrico e ofuscante do diamante lapidado. Na condição de fazedor de poemas, diz-se amador, embora pareça mais sê-lo no exercício profissional competente, e como tal reconhecido em Belém, São Paulo, Rio e Bahia, de publicitário. Este é pago para tecer loas, vender produtos, cativar ilusões. Aquele paga para berrar a insignificância da vida, o legado inexorável da morte, a podridão em que o belo fenece, o mau cheiro das cloacas onde a lama desliza, espessa e mole, a metáfora da qual não dá para fugir, a imagem na qual tudo se decompõe. O executivo da propaganda busca nas horas úteis do dia a fagulha do gênio que ilumina na alma do comprador o desejo do consumo do bem, do serviço ou da idéia, particular e genérica, da iniciativa, do empenho e do engenho. Este é permanente: almoça e janta, se barbeia e sai, ama e rejeita, abraça e trai. O amador bissexto, não: este, em vez de se erguer, cai e chafurda na vida o que ela tem de sórdido e sublime, o paladar refinado dos melhores vinhos e as fezes pútridas em que toda a gastronomia se consome. O vendedor de slogans, frases, lemas e palpites se compraz na ordem e se realiza no gozo do fátuo que se torna essencial: o supérfluo que vira salário, o suor do rosto do salafrário. O comprador do inútil e inconsútil desprazer de se desfazer em bolhas de ar recorre à desordem, recolhe os retalhos, tritura o lixo orgânico que se dissolve no ar, por ser sólido e vulgar, sangra o infinito, arranha a dor das mãos vazias. Mãos presas à bateia na qual vale mais a areia que a pepita, mais paga a saga que o peso do raro minério vão bamburrado. Pernas cambaleantes sobre o precipício afundam na areia movediça ou simplesmente se deixam suspender no ar do último andar do último edifício, a margem de todo precipício.
Pedro Galvão é um poeta incômodo e incomodado, lida com as palavras como se elas fossem a ponta rombuda do bisturi cego ou a lâmina enferrujada do canivete que a velha prostituta da piada de salão guardou para dar à jovem clientela na velhice. No vôo de Sérgio Galvão, “todo o insuportável problema de viver”. Da mesma forma, a garça urbana, sem graça e feia, pobretã, na água suja da praça, mendiga e pesca a própria desgraça, como os outros pedintes bebuns da mesma praça, o mesmo cansaço da entrega da carcaça, “já sem vôo de vôo” e a companhia solícita e solitária do cão vagabundo correndo, fugindo da praça.
Como o profissional competente da comunicação burila lemas e encontra palavras-de-ordem para conduzir o consumidor entre as prateleiras, fazendo-o deter-se num bem, num serviço ou numa missão entre tantas embalagens, o poeta impenitente e intrometido atravessa a vida vã com a ponta fina e fria de seu punhal e o corte anguloso de sua visão penetrante. “A noite é longa e longa a madrugada” é o verso final de seu poema sobre o fogaréu nas ruas de Paris em novembro de 2005. Ele captura o invisível e revela o indizível no fecho de Dona Santa no cemitério de Viseu: “Ele esperou a filha envelhecer / e viveu dentro dela até morrer”. Ou exibe seu despudor fulgurante numa baladinha brega cantando a temeridade de ser feliz: “Vai, balada, me acompanha / e sem medo da pieguice / diz-lhe: amor de minha estranha / e tão poética vísce-/ra: – Amor do meu coração”. Sim, a poesia de Pedro Galvão é víscera, entranha e músculo. É isso e mais: o relato da volta do outro Pedro, o velho, o pai, indo para casa pelas ruas e becos de Belém, sua Belém paraoara; a recepção no céu ao colega Vinicius com todos “mijando em comum numa festa de espuma”; a constatação simples, despojada, despudorada de que “esta mulher, viva em meus braços, é poesia”; e mais, muito mais, pode crer, aposte, não desista.
Bissexto é uma ode à jaça onde brilha o diamante de uma obra primorosa como é “Vitória, em silêncio”, na qual a impotência humana diante dos mistérios da doença da musa viva e imóvel em seu leito definitivo se expressa numa linha desesperada e sintética, capaz de resumir a comunicação sigilosa e imponderável entre o humano e o divino, aliás, a oração: “Então falo com Deus. E Deus não fala”. Este soneto monolítico, esta reza indignada, este sacrifício à beira do tálamo é o resumo de Bissexto e da obra poética de Pedro Galvão: a revolta diante da necessidade e da impossibilidade do milagre imprevisto.

O percurso cúmplice de viver

O percurso cúmplice de viver

A contista Rachel de Queiroz é contundente como o que, sutil e cortante qual gume de faca para picar fumo nas feiras livres do interior do Ceará. Ela descreve a vida sem disfarce, sem dourar a pílula, com a impressionante frieza de um assassino profissional. Seus personagens são doces e perversos, agem com a cabeça ou com os bofes, chutam lata e atazanam sempre, não deixando o próximo em paz nem quando desencarnam, pois voltam sempre à vida, depois de mortos, só para azucrinar os acomodados. A prosa curta da romancista é escorreita e crua, sem subterfúgios nem tergiversações: adjetivos são dispensados sem cerimônia, prevalecendo a força dos substantivos comuns, enfileirados com argúcia e sensibilidade.
Os nomes próprios emergem de suas narrativas de impacto, que estalam na cabeça do leitor como bombinhas juninas, cada qual com sua missão sintática própria. Nada ali é gratuito ou demasiado – tudo tem função e lugar. Por mais fantástico que o conto possa parecer, ele ecoa familiar à atenção atada, infatigável, do leitor. Mesmo no minúsculo habitante da galáxia distante, recebendo a visita de curiosos gigantes terráqueos é possível encontrar a reação verossímil sem, porém, perda alguma da graça da surpresa, sem a qual a ficção, por melhor que fosse, se dissolveria. A narradora nunca se precipita, mas também não se atrasa à expectativa do leitor. Escritura e leitura andam lado a lado, como se passeassem de mãos dadas domingo no parque. Em cada frase que lhe surge, o leitor parece tropeçar no olho gaiato da autora, que se diverte, saltitante à sua frente, conduzindo-o por um labirinto que vai se iluminando à medida que ambos descortinam cada passagem do texto.
A narradora não tem piedade do soldado ferido que se arrasta, solitário, no terreno inimigo, mas também não se diverte, sadicamente, com a ingenuidade da adolescente que excita a imaginação de um batalhão. Nem se gaba de seus múltiplos dotes, seja ao manter o leitor preso na armadilha de um texto que galopa pelo tempo, contando a saga de uma mansão, teto de várias gerações de uma família, seja ao segurá-lo por um fio na reprodução do depoimento na delegacia de um rotineiro caso de preconceito e agressão. Nos dedos de Rachel, uma corriqueira partida de sinuca ganha os contornos épicos de uma batalha de vida e de morte, com seus laivos de glória e de perdimento.
Ei, você aí, do lado de fora da página, prepare-se para um percurso cúmplice e solitário sem os paparicos da lógica fácil da prosa de lantejoulas. A mão que o conduzirá por este labirinto nunca o guiará, mas lhe indicará todos os indícios de que viver é uma tarefa inútil, sórdida e sublime, merecedora de ser fruída com humildade, serenidade e inteligência. Vá, pois!

A cultura do sertão no ABC de Ariano

A cultura do sertão no ABC de Ariano

O ABC é uma modalidade do repente (poesia popular sertaneja) e do cordel, sendo basicamente usado para celebrar feitos e heróis do povo, que ouve os desafios de viola ou lê os folhetos com romances vendidos nas feiras livres do sertão. É uma prática ancestral de celebrar o heroísmo a partir de senhas, ou palavras-chave, por ordem alfabética, de A a Z. Bráulio Tavares, que conhece bem as formas literárias populares do Nordeste (assim como da ficção científica), recorreu a esse modo para fazer uma abordagem original do universo no qual se apóiam dramas e romances de seu conterrâneo Ariano Suassuna. No ano da comemoração dos 80 anos do escritor paraibano (nascido no Palácio do Governo, em 1927, ano em que seu pai, João Suassuna, era presidente da Província, que sempre lhe serviu de cenário, mesmo tendo o autor se mudado para Pernambuco, em cuja capital, Recife, foi estudar, quando sua mãe ainda morava em Taperoá), o livro de Tavares se destaca exatamente por isso.
Leitor apaixonado da poesia e do romance e espectador privilegiado do teatro de Suassuna, o escritor de Campina Grande aproveita a celebração da efeméride para revolver, de forma competente e agradável, todo o universo mítico no qual o literato pessoense ergueu seu marco, para usar outra expressão familiar aos interessados na poética popular nordestina: Marco marciano, por sinal, é o título da canção de Lenine e Bráulio que mistura a epopéia sideral com a saga sertaneja. Bráulio recorreu a um expediente interessante para facilitar a leitura do abecedário pelo leitor urbano, desacostumado à fórmula. O primeiro verbete é Acauã, nome da fazenda onde Ariano passou os primeiros anos de sua infância, com o pai ainda vivo. A fazenda, em Souza, no sertão paraibano, é histórica, pois por lá passou Frei Caneca em ferros a caminho de Recife, onde liderara malograda revolta republicana contra o Primeiro Império, e teve sua decadência registrada nas imagens de um clássico do documentário brasileiro, O país de São Saruê (título inspirado num folheto de cordel), dirigido por outro paraibano, Vladimir Carvalho.

 

Descrita no verbete João Grilo, seu protagonista, a obra-prima de Ariano Suassuna, a comédia teatral O auto da compadecida, é, como ele mesmo gosta de apregoar em suas engraçadíssimas aulas-espetáculo, a fusão de três folhetos de cordel, que leu na infância. O mais celebrado de sua prosa de ficção, A pedra do reino, do qual Luiz Fernando de Carvalho adaptou uma microssérie para a televisão, levada ao ar em junho passado, justamente quando se comemorava o aniversário do autor do romance, também se inspira (mais que isso, se molda) em formas da narrativa popular, seja cantada por violeiros e rabequistas, seja impressa nos folhetos dos poetas de bancada. O título da tese da professora Elizabeth Marinheiro sobre o romance – A intertextualidade das formas simples – remete exatamente a essa questão: trata-se de um texto de ficção construído sobre a intertextualidade, só que não das citações eruditas, como o termo complicado pode insinuar, mas, sim, das formas literárias que falam diretamente ao goto, ao gosto e ao conhecimento do povo. A forma original que Bráulio encontrou para celebrar seu ídolo foi falar das fontes em que ele bebeu para construir a obra pela qual ele se tornou conhecido e festejado no Brasil inteiro na programação do veículo popular por excelência da arte, da cultura, do entretenimento e da informação. Ao dissecar as origens dos textos nos quais o celebrado autor se inspirou, o exegeta aproveitou para trazer a lume a extraordinária riqueza da produção literária dos sertões. É conhecida da academia – e até mesmo do público leitor em geral – a militância de Ariano pela conservação das formas da cultura popular, de origem marcadamente ibérica, mas misturada com tradições indígenas e africanas. Infelizmente, contudo, só se conhece a releitura que ele tem feito, primeiro no teatro e depois na prosa de ficção, das obras seminais dessa cultura, que pode ser sepultada pela urbanização, pela tecnologia e, sobretudo, pela globalização. Bráulio faz, neste sentido, um trabalho exemplar, ao escavar, como um arqueólogo e expor à luz do dia obras de extraordinário valor, recriadas pelo engenho e pela arte de um escritor fora de série, ao qual, aliás, o autor do abecedário sempre rendeu suas homenagens, a ponto de se tornar um especialistas – para tanto convidado para participar da redação do roteiro original da microssérie para a televisão.
O último verbete foi reservado para Zélia, a bela mulher com quem o feioso dramaturgo se casou e sua paixão pela vida afora.
Seja na forma adaptada da modalidade de viola e cordel, seja na escolha das palavras para encimarem o capítulo, permitindo uma abordagem linear da vida, paixão e influências do autor-tema, Bráulio traça um painel completo de um universo rico, colorido e profícuo. Didático, mas sedutor, seu estilo introduz o leitor num universo ancestral, que se torna novo a seus olhos ávidos de informação.

Um documentário para quebrar o silêncio

Um documentário para quebrar o silêncio

Os engenhos Corredor, onde o gênio do romance José Lins do Rego nasceu, e Tapuá, onde ele passou a infância, ambos em Pilar, na Paraíba, ruíram e agora não é mais possível visitar o universo arquitetônico que inspirou o escritor que captou de forma mais exata e inspirada a decadência dos engenhos e o advento das usinas de açúcar no Brasil. O casarão que pertenceu a André Vidal de Negreiros, herói paraibano da guerra contra a ocupação do Nordeste pelos holandeses, resistiu mais de três séculos ao tempo, mas desabou em 40 anos: ainda estava de pé quando Walter Lima Jr. fez tomadas em seu interior para Menino de Engenho, clássico do Cinema Novo, nos anos 60 do século 20, mas hoje não existe mais. Risco idêntico de desaparecer corre a fama de uma obra literária de primeira água: o ciclo de romances, crônicas e memórias – no qual se destacam o sucesso de Menino de engenho e o primor de Fogo Morto – de um prosador que não pode ser esquecido. Esta denúncia percorre as imagens e falas de um documentário, que, depois de ser exibido em festivais de prestígio, conseguiu o milagre para fitas do gênero de entrar no circuito das salas de exibição comercial no Brasil: O engenho de Zé Lins. Dirigido por Vladimir Carvalho, que nasceu em Itabaiana, cidade paraibana onde o autor de Riacho doce estudou, a obra faz revelações que já deveriam há muito tempo fazer parte do acervo crítico da academia ou da imprensa brasileira. E o simples fato de elas serem de primeira mão já denuncia o descaso, o desleixo e a inépcia dos responsáveis pela manutenção do rico e abandonado patrimônio literário do povo brasileiro.

José Lins do Rego

Zé Lins beijando a bandeira do Flamengo

Vladimir Carvalho, diretor do filme O engenho de Zé Lins

O título do documentário é expressivo porque aborda exatamente o aspecto mais revoltante e relevante do material pesquisado, filmado, gravado e editado pelo cineasta e professor universitário, que, como o autor destas linhas, tem confessa veneração, quase religiosa, pela obra do escritor tão importante quanto relegado a um injusto plano inferior. O conjunto arquitetônico desaparecido e o solo em seu redor ocupado por militantes sem-terra não têm o valor intrínseco da obra literária do homem que lá nasceu e passou a infância, mas suas ruínas denotam a incapacidade do Estado brasileiro de zelar por bens que não poderia ter deixado destruir. A casa onde nasceu outro grande escritor, da geração de Zé Lins, João Guimarães Rosa, em Cordisburgo, nos sertões do Norte de Minas Gerais, e a vendinha de seu pai, ao lado, são o exemplo oposto de como devem servir e funcionar prédios nos quais se fez história ou se produziu cultura. O turista que vai à pequena cidade conhecer a gruta de Maquiné, em seu território, tem oportunidade de ver os locais onde o autor de Sagarana nasceu, viveu e colheu as histórias e o estilo dos tropeiros e tangerinos que paravam para fazer compras e jogar conversa fora no armazém. A visita serve de esclarecimento e estímulo a serem acrescentados à leitura da fabulosa fortuna crítica sobre a grande personalidade que ali viveu seus anos de formação. Tendo sido José Lins do Rego o mais acurado retratista em palavras da decadência dos engenhos de açúcar, de cujos produtos viveu o Brasil em seus primórdios, mais falta ainda faz sua paisagem hoje às gerações que nem sabem o que foram engenhos nem aprendem que aquelas ruínas já falam de uma segunda derrocada, a das usinas, que substituíram estes engenhos.

Engenho de Tapuá, São Miguel do Taipu, Paraíba. Foto de Tiago Queiroz, Agência Estado

Contra a empáfia e a ignorância – Ao estabelecer o diálogo criativo entre as cenas coloridas por ele filmadas agora e as imagens em preto e branco gravadas em película por Walter Lima Jr. em Menino de Engenho, Vladimir Carvalho não apenas inova a linguagem do cinema documental e põe em relevo a dicotomia da obra do escritor retratado: memória e ficção. Ele também compartilha com o espectador o espanto e a revolta por ver como os agentes públicos brasileiros, escravizados pela própria ganância por poder e recursos do Erário, deixaram desabar paredes que desafiaram séculos num prazo curtíssimo comparado com o tempo em que elas permaneceram de pé. A visão do casarão que pertenceu ao herói da guerra contra a ocupação holandesa impressiona por si, mas chega a assustar mais quando posta em contraste com a filmagem do mato que o substituiu.

Só que o documentarista não berra, não brada, não esbraveja: ele apenas geme e chora, convidando o espectador à reação. Com isso, deixa no ar o medo de que seja cometido, contra a obra que aquela paisagem arquitetônica, econômica, social, geográfica e humana inspirou, um assassinato por amnésia, doença semelhante à indiferença que a desfigurou. Grave é o delito da passividade ante a derrubada de solares, senzalas e engenhos, que impede o testemunho físico do que a memória prodigiosa do escritor registrou. Gravíssimo também é o silêncio que mantém sua obra no limbo, vítima das modas acadêmicas e da ignorância dos homens públicos levados à gestão do patrimônio artístico, estético e cultural do País. É preciso resistir contra isso. E é o que Vladimir ajuda a fazer no seu filme, preenchendo a enorme lacuna da empáfia e da ignorância dos donos dos poderes da academia e da República.

 

Maceió, capital das letras – Nos depoimentos de amigos e parentes do tema de seu filme ele ilumina pontos escuros do caráter e da alma do romancista. Ao mesmo tempo, colabora para ajudar a escrever a história ainda desconhecida da melhor literatura brasileira no século 20. De uma fala do acadêmico Carlos Heitor Cony, por exemplo, extraiu uma pérola: a evidência de que Maceió, em Alagoas, foi, nos anos 30, talvez os mais fecundos de todos nesse particular, a capital da literatura brasileira. O autor de Quase memória lembrou que, quando o primeiro livro (e maior sucesso) de José Lins foi lançado, a mais populosa cidade do País, São Paulo, tinha apenas três escritores do primeiro time (Mário e Oswald de Andrade e Mennotti del Pichia), enquanto na capital alagoana conviviam com o ilustre paraibano Rachel de Queiroz, Jorge de Lima, Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda, só para ficar nos mais importantes. O carioca omitiu que, à época, no Rio, sede da editora de todos eles, a José Olympio, também não se reuniam tantos luminares das letras assim: o pernambucano Manuel Bandeira, o mineiro Carlos Drummond de Andrade e quem mais? Pode ser mera curiosidade, mas não é interessante?

Mera curiosidade certamente não é o registro do temperamento ciclotímico do tema do filme. Capaz de arroubos de euforia, costumava afundar em depressão assustadora. Os amigos (Rachel de Queiroz, por exemplo) atribuíam esse banzo às lembranças de um acidente da infância. O menino do engenho nunca esqueceu o acidente em que apertou, por acaso, o gatilho da arma de fogo que tirou a vida de um moleque de folganças nos terreiros do casarão do avô. Fica também no ar no depoimento de Edson Nery da Fonseca, maior especialista na obra do sociólogo de Apipucos, a insinuação que o romancista paraibano pode ter sido o protagonista da única experiência homossexual confessada por Gilberto Freyre. A influência do autor de Casa grande e senzala na obra retratada no documentário, contudo, debatida por Ariano Suassuna, é muito mais relevante que qualquer fofoca íntima do gênero.

Engenho Corredor, Pilar, PB, onde José Lins nasceu

Águas da glória e da desgraça – Mais relevante que tudo isso ainda é o pungente depoimento de Tiago de Mello sobre as dolorosas agonia e morte precoce do grande romancista. O poeta amazonense descreveu com detalhes a brutalidade com que o esquistossoma adquirido nos banhos nas águas poluídas do rio Paraíba (fontes de sua glória e de sua desgraça) na infância corroeu, de maneira implacável, os vasos biliares do amigo mais velho, sangrando-o e o levando à morte aos 56 anos de idade. Banhada de lágrimas e mesclada com fatos pitorescos, típicos da personalidade esfuziante e trágica do admirador de Dostoievsky, a descrição é inédita e inusitada, configurando-se uma contribuição inestimável da obra à história do gênero documental no cinema brasileiro.

Outro desses pontos altos é o depoimento de Sávio Rolim, o cinqüentão que protagonizou o mais célebre personagem da literatura de Zé Lins, Carlinhos, o menino de engenho. Com o juízo derretido pelo álcool, o ator de cenas memoráveis é filmado em sua casa miserável desfiando histórias sem nexo. Mas surpreende o espectador quando o cineasta recupera sua memória exata e aguda ao levá-lo ao engenho Tapuá, onde foram feitas as filmagens de Menino de Engenho, há 40 anos.

O capítulo dedicado ao ex-ator-mirim serve para pôr em contraste duas facetas da genialidade do tema do documentário: a força da lembrança e o gênio da fantasia. Sua obra é brilhante nos dois gêneros e soterrá-la sob os escombros da paisagem que a inspirou será um crime inafiançável contra a memória do romancista e mais ainda contra milhões de brasileiros que merecem ter acesso ao brilho que ele criou.

Página 5 de 11«...34567...10...»
Criação de sites em recife Q.I Genial