Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Literatura

Hugo Leão – CD – Como é bonito ser feliz

Hugo Leão – CD – Como é bonito ser feliz

A primeira coisa que salta aos ouvidos de qualquer ouvinte de bom gosto ao ter contato com as canções de Huguinho para este CD é que ele é um autor, intérprete, arranjador e instrumentista consistente. Sua base é sólida: vem dos tempos dos Gentlemen, o conjunto (como se dizia à época, hoje se diria banda) de bailes mais competente que já houve aqui pelos lados da Parahyba do Norte, sim, sinhô! E dos tempos do raro Paêbiru. É mole ou quer mais? Ao lado de Zé Ramalho e depois o substituindo como guitarrista solo, nos Gentlemen, Huguinho ganhou prática, experiência e, sobretudo, vivência. Um artista não se faz apenas com técnica e virtuosismo (e é bom deixar claro que essas duas coisas ele exibe, e com sobras), mas principalmente comendo o pó das estradas e o usando como argamassa, o barro que serve de estofo para a vida humana. Esse barro foi amassado com sangue, suor e lágrimas e produzido a partir de sonhos alcançados ou demolidos, felicidade esfuziante ou dor pungente, bens e males espremidos pelo talento que só o artista – e mais ninguém – tem. Huguinho chega a este CD com tudo isso no acervo. E muito mais: ele não chega pedindo licença, já vem com tudo e se atira na direção da platéia com seu espírito sensível e seu coração de leão faminto, treinado nas lutas inglórias de amores conquistados ou rejeitados. Na tradição do melhor rock, ele despeja seus acordes e palavras com o vigor primevo de um primata mutante do planeta do som. É um lírico, mas não um lírico piegas do amor, do sorriso e da flor, e, sim, um bardo como aquele melhor Roberto Carlos de Se você pensa. Para dar bom dia a sua amada, ele não tem limites: transforma a lua em sol. E, como o Candeia do samba clássico gravado de forma imortal por Cartola, ele se declara perdido de si próprio, só por ter sido abandonado. Este CD não serve de trilha sonora para conversinhas descuidadas. Este CD, meu amigo leitor, foi produzido para ser ouvido com atenção, para sacudir seus ossos e manter sua alma desperta e seu coração aberto.

Luiz Geraldo DOLINO Nascimento

Luiz Geraldo DOLINO Nascimento

Luiz Geraldo Dolino é aposentado do Banco do Brasil, no qual fez carreira como especialista em comércio exterior. Ainda estava na ativa quando foi convidado pelo ministro da Indústria e Comércio do governo Itamar Franco, José Eduardo de Andrade Vieira, para assessorá-lo no assunto de sua especialidade. Conhecemo-nos então e nos identificamos pela sensibilidade artística comum. Desde então, somos bons amigos. No convívio com Carlos Drummond de Andrade, Nélida Piñon e outros expoentes da literatura brasileira, este artista plástico em tempo integral, que tem percorrido como sua arte as rotas do mundo globalizado, que conhece tão bem como bancário, sentiu-se desafiado pelo título de meu livro de poesia reunida, Solos do Silêncio. E me presenteou com esta gravura com as cores do crepúsculo do Planalto da Borborema, que tanto amo, da paixão, que move e comove minha vida e das bandeiras da Paraíba, do Flamengo, do Campinense, do Sport, times de futebol de minha devoção. Divido com você, também passageiro desta Estação, a emoção de apreciar a gravura de meu amigo, aí ao lado.

“Solos do Silêncio”, Dolino

Tentar explicar com palavras o que é representado por imagens – já foi dito e repito – é trabalho árido. É por essa razão que não devo tentar descrever uma sonata, emoção que nos contamina por meio de impactos sonoros. Os exemplos são múltiplos. No entanto, faz parte do cotidiano a leitura de textos com pretensões explicativas, que procuram tornar inteligíveis obras que pela sua natureza só se vinculam ou têm compromisso com a experiência sensorial.

Por vezes, a crítica que mais tem enriquecido a minha percepção vem de analistas que se detêm na crônica, no contexto histórico e, até mesmo, anedótico da produção artística. Os malabarismos retóricos, apreciáveis em si mesmos, agregam menos ou pouco. Entendo, portanto, que – quando capaz – para descrever o conjunto de fatos que contribuíram para a gênese de um trabalho, ninguém melhor que o seu autor, responsável final pelo delírio que resultou numa crise criativa.

Sinto-me assim autorizado a mencionar algumas passagens que eventualmente poderiam facilitar o mergulho na fantasia alheia, no caso, na minha. Para essa excursão, preciso apenas contar com a sensibilidade dos loucos que, mansamente, me prestam socorro, evitando a viagem sem volta. E, a propósito, lembro Camus, que disse certa vez já não ter amigos; tinha somente cúmplices. Em compensação, completava o escritor, o seu número havia aumentado – era toda a Humanidade.

O difícil caminho percorrido na busca de uma gramática pessoal levou-me ao encontro dos elementos gráficos de clara inspiração geométrica que são visíveis na decoração de objetos de uso cotidiano e ritualístico, assim como também no próprio corpo de nossos ancestrais indígenas. Não será um exagero afirmar que a linha curva, com a sua carga de sensualidade e sua proximidade com imagens próprias da natureza, referida aqui como paisagem, estão praticamente ausentes dessa abordagem. Os índios brasileiros cultivaram o gosto pelas formas simplificadas e estabeleceram uma linguagem capaz de expressar o seu universo simbólico por meio de um sofisticado código de formas geométricas.

Não é portanto de se estranhar que o artista brasileiro tivesse se voltado para o mundo que se acha entranhado na sua memória cultural, valendo-se desses elementos como fonte na luta pela conquista de uma linguagem individual. As formas exploradas no meu trabalho correspondem a uma ideologia que tem suas raízes em dois pólos: o da tradição estética dos povos fundadores de nossa nacionalidade e o da busca permanente de valores plásticos capazes de fixar a nossa identidade cultural, impressa numa linguagem com trânsito universal.

Reconheço que há nessa intenção uma dose importante e permanente de dedicação atenta ao contexto onde se insere a minha realidade sócio-político e cultural. Logo, estou entre esses artistas que buscam uma inserção no universo erudito, o que implica estar antenado com a produção do meu tempo, não apenas no campo das artes visuais mas de toda e qualquer manifestação criativa. Como esclarecimento adicional, digo que um caminho talvez capaz de desvendar o trânsito dos meus interesses pode ser a simples leitura dos títulos que atribuo a cada trabalho. Porém, antes de tudo, é bom deixar claro que o nome da obra é mero indicativo de sua existência e individualidade, mas que, no meu trajeto, é também um registro, uma espécie de diário de bordo.

Ao avançar nestas notas, vou me dando conta de que, de certa maneira, estou caindo na cilada que acaba por vitimar todo esforço de explicação para uma empresa com o propósito singelo de fazer a crônica de um processo criativo. Por isso sinto-me incluído entre esses artistas que, ao iniciar um trabalho, não têm outro objetivo senão o de livrar-se dele o mais rápido possível e que, ao serem chamados a justificar-lhe a origem e desenvolvimento, se vêem obrigados a recorrer a fórmulas insatisfatórias, o que me remete à condição de um pobre mágico que para revelar um truque se vale de outro.

Na verdade, não existe uma fórmula mágica para o entendimento mesmo que parcial do processo de criação. Estamos diante de um abismo que nos seduz e alucina. Mágico é, portanto, o espaço branco, vazio que nos desafia, atrai e por vezes rejeita. Nesse limite, nossos cúmplices jogam um papel fundamental, pois cabe ao espectador – grupo no qual se insere também o próprio autor diante da obra terminada – refletir sobre a função do artista, sua habilidade e talento na organização do caos.

Walter Santos – In Memoriam

Walter Santos – In Memoriam

* Senhor do Bonfim, Bahia – 07 de setembro de 1930

+ São Paulo, São Paulo – 29 de maio de 2008

Walter: manso e atento

Tudo em Walter era cordial e manso: o jeito de tocar o violão da forma natural como seus ancestrais no sertão da Bahia, caso da Vó Luzia, punham o caneco no pote para tirar água de beber, camará; a voz aveludada passando pelas cordas vocais como boiada por porteira de curral, com aquela emissão precisa, suave e sem cerimônia; a forma como tratava amados e amigos do peito, com o amor imenso e sincero de um coração fabricado e treinado somente para o afeto. Mais simples e corriqueira que tudo em Walter, porém, era sua maneira de viver a vida – passo a passo, tijolo por tijolo, a quantidade exata da argamassa, sem pressa e sem medo. Walter foi aboiar no céu com Lua Gonzaga e deixou na terra mais que o vazio de sua ausência irrecuperável a certeza inabalável de que será atento como sempre, pondo o ouvido absoluto a serviço de Deus: nunca mais o coro dos anjos desafinará e isso na certa vai nos trazer um pouco mais de paz cá.

Quando Cabrinha desligava o motor da luz

Quando Cabrinha desligava o motor da luz

A lembrança mais nítida de minha infância no sertão é que os dias eram extremamente luminosos e as noites recebiam uma espessa cobertura de breu. O sol tinha uma luminosidade ofuscante num céu cujo azul pálido, desmaiado, quase transparente, nunca vi reproduzido em parte nenhuma do mundo. Era mais fácil conviver com o calor abrasador e a secura do ar que com aquele brilho humilhante. De noite, quando eu era menino, a cidade ainda não tinha eletricidade de hidrelétrica, a luz de Paulo Afonso, como se dizia. Foi uma grande conquista, talvez a maior de todas, a ventura de girar o interruptor e ver a lâmpada acender, mas ainda mais ter uma geladeira, uma vitrola ou um simples rádio elétrico funcionando a qualquer hora. Até então, tínhamos de nos contentar com o “motor da luz” – um gerador a Diesel que o maquinista Cabrinha acionava às 18 horas e desligava às21. O desligamento era precedido de três sinais: um apagão rápido, depois dois, três, antes de, enfim, vir a treva.

José de Anchieta Pinto, com o motorista Zé Campina, exibindo orgulhoso o “jandaia”, vulgo “gemecê”, caminhão Chevrolet 1958

Meu pai, Anchieta Pinto, era caminhoneiro e me lembro bem do orgulho com que se exibia ao se deixar fotografar na frente de um Chevrolet (dizia-se “gemecê”) , que ele chamava de Jandaia. Viajava muito para o “Sul” – Rio e São Paulo – e mamãe, Mundica Ferreira Pinto, ficava sozinha conosco: éramos quatro, depois cinco, depois seis, sete, afinal. Assim que Cabrinha acionava o motor, o pároco, o cônego Antônio Anacleto, também ligava o alto-falante da matriz de Jesus, Maria, José. A característica era a Ave Maria, de Gounod. Em seguida, com sua voz característica e gozada, o vigário recitava um trecho em homenagem à Virgem Maria. Afinal, era a Hora do Ângelus. Mas era também a hora do acerto de contas dele com a comunidade. Era algo mais ou menos assim: “Seis horas, hora do Ângelus, hora da Ave Maria, hora de todos nós rezarmos contritos a Deus e pedirmos a intercessão da mãe de Jesus Cristo, Nosso Senhor, para nos redimir de nossos pecados. Hora de você, Cabrinha, cabra safado, vir consertar a difusora da igreja, pois eu já lhe paguei pelo serviço que você não fez”

Na verdade, Cabrinha era apenas o maquinista: ligava e desligava o motor. Quem cuidava dele para evitar os blecautes, dos quais, confesso, não me lembro, era o gênio local da mecânica, Zéu Fernandes, um mago dos motores e proprietário do único automóvel do qual me lembro bem àquela época: a “fobica” de Zéu. Nele fiz meus primeiros passeios de carro na estrada poeirenta e esburacada ligando a Fazenda Rio do Peixe, onde nasci, e a cidadezinha de Belém do Arrojado, vulgo Uiraúna, a légua e meia, nove quilômetros de distância, como minha mãe registrou no “Álbum do Bebê”.

Zéu Fernandes, o mago da mecânica e dono do primeiro automóvel de Uiraúna, a “fobica”, posa ao lado do motor da luz, que o maquinista Cabrinha acionava diariamente em Uiraúna

Na primeira infância, já morando na “rua”, como se dizia, quando o eletricista cobrado pelo padre desligava a luz e a treva descia, com meu pai viajando, íamos tomar a fresca na calçada da Rua Nova e mamãe, que tinha estudado na Escola Normal de Cajazeiras, dizia de cor versos de Castro Alves. Até hoje posso citar de cor trechos do Navio Negreiro: “existe um povo que a bandeira empresta pra cobrir tanta infâmia e cobardia e deixa-a transformar-se nesta festa em manto impuro de bacante fria. Meu Deus, meu Deus! Mas que bandeira é esta que impudente na gávea tripudia? Auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança, estandarte que a luz do sol encerra e as promessas divinas da esperança, tu, que após a guerra foste hasteada dos heróis na lança, antes te houvessem roto na batalha que servires a um povo de mortalha”. Lindo, não? E que ritmo maravilhoso! Atribuo meu ouvido de tuberculoso para a palavra a essas noites escuras em que a brisa não vinha, mas o calor era refrescado pelos alíseos do mar da Bahia nos ritmos dos versos de Antônio Frederico, que morreu tão moço, coitados de nós, que perdemos tanta poesia! Considero “que a brisa do Brasil beija e balança” o mais lindo verso da língua portuguesa, que me perdoem Camões e Pessoa! E até hoje acho que o baiano foi o maior poeta brasileiro de todos os tempos. Lembro-me também que mamãe dizia O livro e a América – “criado pelas grandezas, pra crescer, criar subir” etc. Não há espaço para citar o poema todo.Também teria de recorrer ao livro: não me lembro dele como do Navio Negreiro. Mas me recordo ainda bem que achava muito engraçado quando ela recitava: “lá brada César morrendo”. E a cena trágica do assassínio do imperador romano lembrada pelo poeta era substituída na minha memória infantil pelo louco Labrada, que era fanático por automóveis e andava a pé como se estivesse dirigindo um, reproduzindo com a boca, a língua e a garganta os ruídos do motor e torcendo os braços como se dirigisse ou passasse marcha. Labrada era o contínuo do cabaré de Cirilo Félix, que tocava na sua casa de putas um fole de oito baixos comandando um conjunto tosco intitulado Cirilo Félix e seus cabras da peste, uma evidente homenagem ao maior sanfoneiro de oito baixos da época, Abdias, líder de Abdias e seus cabras da peste. Sabia que uma puta se chamava Escurinha e era negra, claro. Mas esse não era um assunto para crianças.

Os sete filhos de Mundica Ferreira Pinto: José Nairton, José Noaldo, José Neudson, Nicéa Mary, Mundica Ferreira Pinto, José Nilton, José de Anchieta Filho e José Nêumanne

Ainda era um menino bobo quando papai resolveu aventurar-se nos negócios e abriu uma sorveteria num ponto na Rua do Comércio, defronte ao mercado. Era uma operação comercial obviamente ruinosa, pois papai nunca tinha feito um picolé na vida e não havia eletricidade permanente. Ele teve de importar um sorveteiro de Cajazeiras, Ezequias, e montar um conjunto de gerador e dínamo a Diesel para manter a consistência e a temperatura dos sorvetes. Meu tio Raimundo, médico formado em Recife, sugeriu o nome em homenagem a um lugar muito pouco frio, Alabama, o Estado sulista americano, e o nome pegou: Sorveteria Alabama. Mais do que dos sorvetes de Ezequias, que eram bons, mas não havia uma variação muito grande de sabores, talvez pela escassez de oferta de matéria-prima nas feiras de domingo, lembro-me da “radiola”, uma vitrola enorme que ficava no meio do salão. Miltinho cantava “cara de palhaço, pinta de palhaço” e eu achava engraçadíssimo porque “pinta”, para nós, era o órgão genital masculino, vulgo pênis. Havia também um long playing que o magnífico pianista e intérprete americano Nat King Cole gravou para o público latino-americano, cantando em espanhol e até em português. É um disco maravilhoso e desde sempre aquele negro simpático com chapeuzinho é meu cantor favorito.

Campina Grande, Paraíba. Foto de Ubiracy Vieira Veloso

Já estava em plena adolescência quando foi adicionado ao repertório da sorveteria (que, na era de Paulo Afonso, sob a direção de Nozinho, passou a se chamar Sorvelanches Canaã) o LP O inimitável, de Roberto Carlos – “de que vale tudo isso se você não está aqui?” Mas aí o negócio de sorvetes de meu pai já tinha derretido e eu me mudado para Campina Grande para estudar no Instituto Redentorista Santos Anjos. A inocência da infância ficou boiando no ar na companhia das mensagens sonoras que Peta lia antes dos sucessos musicais que tocava até o motor da luz ser desligado.

A mesma chanchada, com outros canastrões

A mesma chanchada, com outros canastrões

Na Revolução de 1930, dizia-se antigamente, a Paraíba entrou com o cadáver (de João Pessoa), Minas Gerais com as tropas e o Rio Grande do Sul ficou com o poder (Getúlio Vargas). Nesta peça teatral A Manha do Barão, o cadáver é gaúcho, mas não se trata de uma retaliação ou de uma vendetta tribal e, sim, da reencarnação da alma de Aparício Torelly, ou simplesmente Apporelly, o combativo humorista sulino que atazanou os espíritos autoritários no começo do século 20. É desta reencarnação de Apporelly que trata o texto teatral de Ipojuca Pontes, o não menos combativo jornalista, dramaturgo e cineasta paraibano, que vive há muito tempo no Rio de Janeiro. Para esta reencarnação ser adequada, e é, era preciso que corpo e cavalo de macumba tivessem algumas características comuns e afinidades notórias. E têm: Apporelly e Ipojuca se assemelham mais do que faria supor apenas levar em conta seus nomes fora do comum. Ambos desenvolveram, ao longo de sua vida, um instinto natural para auscultar a alma humana no que ela tem de mais sórdido e mais sublime. Esse instinto os leva a rejeitar o ridículo, tido por muitos como inevitável e por alguns até como lugar comum. Autor e tema recusam pratos feitos e gostam de entrar na cozinha para saber como são preparadas as refeições a serem servidas ao grande público: nesta metáfora culinária, o comunista Apporelly, que se comprazia em denunciar a estúpida nudez real, e o liberal Ipojuca, que adora rasgar desbotadas fantasias ideológicas, são comparáveis com agentes da vigilância sanitária que descobrem e combatem ratos fugidos do porão e escondidos entre panelas, abrigados no calorzinho da pasmaceira generalizada e da inércia dos fracos, que os fortes incentivam e financiam. No Brasil de Vargas, o Barão de Itararé, pseudônimo adotado como uma lembrança permanente das glórias falsas de uma batalha fictícia, era a consciência crítica do “puxassaquismo” oportunista, o rebenque em riste, pronto a expulsar os vendilhões da frente dos sepulcros caiados, territórios dos coros do “amém, sim, senhor”, expressão favorita do Brasil governado pelos donos dos cavalos amarrados no obelisco. No País de Lulinha da Silva, a pátria do “nunca antes”, onde o sono dos nababos, assegurado pelo financiamento público à privada financeira, não é perturbado pelo ronco da barriga dos pobres, que têm garantido proteína à mesa e um picadeiro mambembe de muito mico e pouco siso, Ipojuca brada no deserto. Sitiado pelos beneficiários da farra generalizada, que não se cansa de fustigar, queimado pelo sol tropicalista e apontado como se fosse o capeta para os que babam na barba divina de Marx e embebem de lágrimas o dólmã de seu profeta Fidel, o autor deste monólogo feliz faz bem em ressuscitar a manha e os aforismos do antecessor, reconstituindo para o leitor/espectador meio século da atribulada bagunça nacional. E o faz bem porque recupera a graça, a irreverência e o humor corrosivo do Barão num texto leve, fluído e de facílima assimilação, todo tecido nas tiradas do inimigo da “ditabranda” de Getúlio Vargas. À luz das mazelas atuais, em que o peixe da imoralidade pública é vendido na feira livre da falsa ética, Ipojuca convoca o fantasma do Barão para ele deixar claro que a chanchada de ontem é a mesma de hoje, só mudando os canastrões que, em vez do “amém, sim, senhor”, se louvam no “tá tudo dominado, companheiro”.
É ler e conferir.

O brilho da ribalta, por trás do refletor

O brilho da ribalta, por trás do refletor

É possível dizer de José Eduardo (Zuza) Homem de Melo que, mesmo tendo ele abandonado há muito tempo o contrabaixo, o instrumento nunca o deixou e até hoje o acompanha nas múltiplas atividades que exerceu e ainda exerce na área musical, sem mais percutir suas cordas. O contrabaixo é o responsável pela base rítmica sem a qual nenhuma execução musical consegue se manter harmônica: sem ele se instauraria o caos no universo de melodias, refrões e improvisos das bandas de jazz. Como chefe da mesa de som da TV Record na época dos grandes festivais e musicais; apresentador de um programa que se tornou ícone da programação da radiodifusão contemporânea no Brasil; produtor de festivais de jazz; crítico na imprensa; autor de ensaios sobre movimentos importantes da música popular brasileira; programador de temporadas de música em bares e restaurantes da moda; e organizador de trilhas sonoras para música ambiente, este paulistano simpático e de fala mansa se tornou uma figura capital para a compreensão e a melhor fruição do que se fez de musical no País.
Descendente de um clã de cafeicultores paulistas, herdeiro de um título de barão, contemporâneo da boêmia dos anos 40 e 50 na Paulicéia Desvairada, nosso protagonista não deixou dissipar nas nuvens de cigarro nem nos vapores etílicos das boates célebres de seu tempo de juventude os sons que produziu e, sobretudo, ouviu. Mas os incorporou e retransmitiu com tais empenho e competência que um amigo o apelidou de “o homem que tem música nas veias”, epíteto utilizado para intitular seu programa de sucesso no fim da tarde na rádio nos anos 70 e 80 do século passado e espécie de marca registrada com a qual passou a carimbar todos os trabalhos aos quais aporia sua assinatura de prestígio. A marca voltou agora na forma de título de livro, gênero no qual não é jejuno, pois já andou reunindo no formato depoimentos dos principais participantes da bossa nova e escreveu um compêndio muito interessante narrando fatos ocorridos nos bastidores dos festivais, que freqüentou como técnico de som. A diferença desta vez é que ele aparece com um coquetel de sabor original, uma fusão, para usar o jargão musical que domina. O livro que acaba de lançar mistura reminiscências de uma longa e profícua experiência de vida em torno de grandes astros do universo musical com ensaios para os quais contribuem anos de aprendizado na arte de tocar, ouvir, produzir e programar discos, espetáculos e outros eventos sonoros.
O leitor deste seu novo livro será apresentado aos mestres do jazz que povoaram a cena nova-iorquina nos anos 50. Como aluno de contrabaixo de Ray Brown, um dos maiores gênios do instrumento, Zuza viu, ouviu e às vezes até conviveu com os maiores instrumentistas e cantores daquele tempo. As lições que lhe trouxe esse aprendizado são ministradas de forma leve e agradável, num estilo que flui como prosa à beira do fogo, para o leitor interessado ou para o simples curioso. As aulas com Ray Brown e as conversas com marcos da música americana, como o trompetista Dizzy Gillespie, apenas para dar uma idéia de como são frondosas as fontes em que o autor do livro bebeu, servem de base (e aqui volta a metáfora do contrabaixo) para as análises minuciosas feitas pelo crítico dos temas que aborda. Estes podem ser as orquestras que animavam os espetáculos dos cassinos brasileiros, antes de o jogo de azar ser proibido no governo Dutra, aqui mesmo no Brasil, ou as vicissitudes dos líderes de banda na Alemanha nazista para conviver da maneira possível com a truculência dos esbirros de Hitler.
As lembranças e o conhecimento musical, acrescidos do estilo jornalístico vigoroso que privilegia os fatos importantes, servem também de apoio para o autor traçar o perfil de instrumentistas lendários, caso do chorão Jacob do Bandolim. Zuza resgata com carinho, mas sem pieguice nem protecionismo, a virtuosidade e os detalhes do comportamento do homem por trás do instrumento. Ao reproduzir cartas do músico para um amigo cantor, seu maior confidente, revela as dúvidas, anseios e aperreios de um ícone da música brasileira, cuja carreira foi prejudicada por uma série de tragédias pessoais, que ele lamenta num apurado estilo literário, inesperado, surpreendente até, num virtuose musical. Não escapam ao autor, que os repassa ao leitor, detalhes incômodos, caso da inveja que o perfilado sempre destilou do sucesso de um competidor, Valdir Azevedo, também marcado pela tragédia: este teve um dedo decepado por um cortador de grama.
Na qualidade de produtor de shows da TV Record, em seu auge, nos anos 60, Zuza teve na vida a oportunidade de trazer para o Brasil grandes nomes da canção internacional, artistas do quilate de Nat King Cole e Sammy Davis Jr. O relato dos bastidores da contratação destes intérpretes é um capítulo à parte na leitura instrutiva e divertida deste livro em que o ofício do autor passa a ser uma oportunidade para o leitor ter acesso ao brilho da ribalta, por trás do refletor, no negócio do entretenimento.

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