Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Literatura

Machado e a picareta

Machado e a picareta

José Nêumanne

Pareceu à autora Patrícia Secco uma ideia genial, um ovo de Colombo: apresentar ao Ministério da Cultura (MinC) projeto para simplificar algum texto de um grande escritor, contratar uma equipe, instalar um dicionário no computador e trocar palavras que não sejam familiares ao linguajar contemporâneo por outras mais fáceis para o leitor comum entender. Pois não é que o MinC autorizou que ela captasse recursos da Lei Rouanet para editar 300 mil livros e distribuí-los gratuitamente por bibliotecas e instituições do Brasil? Simplificar um gênio pode dar um dinheirinho – mais, por exemplo, do que escrever livros infanto-juvenis dos quais ninguém ouviu falar. Ela escreveu 200. Dane-se a mutilação do estilo do gênio, que vá para o inferno a turma que não aceita essa tentativa politicamente correta de popularizar um escritor difícil só por elitismo.

A primeira vítima foi apenas o maior escritor brasileiro de todos os tempos, o mulato carioca do morro do Livramento Joaquim Maria Machado de Assis. A sra. Secco não quis saber de desafios como Memórias Póstumas de Brás Cubas. E mandou sua equipe trocar “sagacidade” por “esperteza” na edição simplificada de O alienista, que, por essas artes do destino, desmascara a verdadeira intenção do projeto, que é atualizar a escrita do bruxo do Cosme Velho. Alienista era a palavra usada no século 19 para definir médicos que cuidam de “alienados mentais”. Quando estes passaram a ser dados como simples doidos, a profissão mudou de denominação para “psiquiatra”. Hoje seria “terapeuta”. Mas quem diabo leria um livro prosaicamente intitulado de O terapeuta? A sra. Secco manteve o “alienista” e não perdeu a pose.

Vociferou: “ “A ideia do projeto não é facilitar os textos, mas facilitar o acesso à leitura. Fiz uma transposição da linguagem da época para a linguagem atual. Fiquei muito chateada com as reações, porque o projeto só visa levar Machado a quem não conhece. Não é fazer com que ele deixe de ser Machado, fazer grandes modificações. É para que o leitor não fique parado ou derrapando”.
Depois do “terapeuta” vem A pata da gazela, de José de Alencar. E sabe Deus quantas mais outras falsificações literárias em nome da divulgação de textos clássicos, mas difíceis. O nome disso é picaretagem. E o único jeito é algum parlamentar mais letrado acabar com a farra de picaretas do gênero tombando primeiro Machado depois outros escritores que merecem usar esta denominação de ofício. Tipificar esse tipo de malandragem como crime já seria mais difícil, embora se devesse.

Jornalista, poeta e escritor
(Revista Imprensa, Junho de 2014, Página 19)

Pesquisador registra em livro cultura paraibana

Pesquisador registra em livro cultura paraibana

Três eventos culturais promovidos esta semana pela Universidade de São Paulo (USP) celebram a produção cultural de um pequeno e remoto Estado nordestino: a Paraíba. O mais importante escritor e dramaturgo paraibano, Ariano Suassuna, foi homenageado no Paço das Artes (Avenida da Universidade, 1), na Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira, na 17ª Semana de Arte e Cultura, no contexto da realização de mesas de debate sobre o papel das universidades públicas na Preservação do Patrimônio Material e Imaterial do Brasil. Depois da homenagem, o autor do Auto da Compadecida participou da abertura de uma exposição de 13 artistas contemporâneos e conterrâneos dele no Centro Universitário Maria Antônia (Ceuma), que funciona na antiga sede da Faculdade de Filosofia, na rua Maria Antônia, 294, no bairro da Consolação.

Hoje, às 19 horas, um destes artistas expostos, Chico Pereira, professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e ex-subsecretário estadual de Cultura, lançará no mesmo Paço, no câmpus da USP, seu livro Paraíba – Memória Cultural. Contratado há oito anos por uma editora de João Pessoa, a Grafset, para escrever um livro didático sobre a história da cultura paraibana, o artista, nascido em Campina Grande, a 120 quilômetros da capital, encontrou em seus próprios arquivos informações e material iconográfico suficientes para produzir uma verdadeira enciclopédia sobre a produção de arte e cultura no Estado, desde a descoberta do rio Paraíba do Norte até os dias de hoje.

Impresso com requinte pela Gráfica Santa Marta, concorrente da Grafset no setor de impressão, o livro resultou de um esforço monumental que exigiu do autor muita informação, transpiração e inspiração. Quem folheia suas 300 páginas chega a duvidar que tenha sido obra de um homem só, e não de uma diligente equipe de enciclopedistas. Os exemplares vendidos em São Paulo a R$ 100 são os últimos da primeira edição lançada em maio em João Pessoa e Campina Grande, sinal de seu êxito comercial e de crítica e aquisição por entidades acadêmicas. Chico Pereira informou que autoridades da área cultural de outros Estados o têm procurado com a intenção de produzirem obras similares. O sucesso, as consultas para novas obras do gênero e a preparação de uma segunda edição corrigida e revisada têm impedido o autor de cumprir o acordo feito com a editora de que, publicada a enciclopédia, reuniria as mesmas informações no livro didático planejado originalmente.

(Publicado no Caderno 2 do Estado de S. Paulo quinta-feira 20 de setembro de 2012, Pág. D7)

No Sabático: “O cangaço longe da armadilha do mito”

No Sabático: “O cangaço longe da armadilha do mito”

Reeditado, Guerreiros do Sol, de Frederico Pernambucano de Mello, desmonta teses como a da ‘face solidária’ de Lampião

Várias circunstâncias favoreceram a divulgação da imagem romântica dos cangaceiros que infestaram o sertão nordestino no início do século 20. A sobrevivência no semiárido os forçava a usar trajes apropriados para sobreviver aos garranchos, carrapichos e espinhos da caatinga e esse costume, adotado hoje pelos artistas em cena, por exemplo, os diferenciava de bandidos comuns e lhes deu uma marca visual definida. A facilidade com que fugiam dos cercos policiais, ajudados pela topologia do terreno e da vegetação do sertão e também pela corrupção, lhes propiciava uma espécie de aura que funcionava quase como uma licença para delinquir.

Esses grupos de bandoleiros surgiram numa região remota e sem lei na qual os coronéis latifundiários reinavam sem prestar contas ao Estado e em territórios sem estradas e difíceis de serem percorridos até mesmo por animais de montaria. Deslocavam-se quase sempre a pé, guiados pelo conhecimento do terreno em que pisavam, que nem sempre os agentes da lei conheciam. Moviam-se também numa cultura peculiar que lhes facilitava a ação. O semifeudalismo vigente consagrou como legítimos e corriqueiros costumes bíblicos, como a vingança, praticada conforme a lei de talião (“olho por olho, dente por dente”), que não respeitava a justiça comum. Crimes de honra, cometidos por pais que puniam com a morte mancebos atrevidos que ousavam desvirginar suas filhas donzelas, também tidos como useiros e vezeiros, serviam de pretexto para esconder a brutalidade numa região inóspita de sol inclemente, água escassa e secas periódicas.

Logo  chefes de bandos se tornaram mitos que protagonizavam notícias sensacionalistas, romances de aventura e folhetos de cordel. O Cabeleira foi imortalizado no romance de Franklin Távora, de 1876. Antônio Silvino tornou-se célebre como o inglês Robin Hood, o australiano Ned Kelly e o americano Billy the Kid. O mais famoso de todos eles foi Virgolino Ferreira da Silva, pernambucano de Serra Talhada e imortalizado nos meios de comunicação e no romanceiro literário e popular como Lampião, o Rei do Cangaço.

A lenda em torno de sua saga serviu a vários senhores. Na onda do banditismo social, consagrada pelo britânico Eric Hobsbawn, sociólogos marxistas o tornaram o vingador dos pobres nos latifúndios. Cangaceiros e Fanáticos, de Rui Facó, é um exemplo dessa falácia, que chegou a extremos como a tentativa de estabelecer um paralelo entre cangaceiros e guerrilheiros de Christina Matta Machado em As Táticas de Guerra dos Cangaceiros.

Guerreiros do Sol

Frederico Pernambucano de Mello, do Instituto Joaquim Nabuco, é fiel aos fatos e respeita as leis da lógica, da sensatez e da clareza. Com serenidade e competência, desafia a mitologia do cangaço social, desfazendo “verdades” inventadas por biógrafos oficiais e

analistas de esquerda. Quem lê seus livros vê-se tem acesso a relato e análises de fatos e não de lendas. O pretexto de Lampião se juntar ao grupo de Sinhô Pereira, em cujo comando depois ganharia fama, era vingar-se de um inimigo malvado de sua família. Pernambucano lembra que a vingança nunca foi consumada e, no fim, o cangaceiro e os desafetos de sua grei se reconciliaram. Em Guerreiros do Sol, livro em muito boa hora reeditado pela Girafa Editora, o especialista desarma a armadilha do banditismo social, mostrando sua face violenta e nada solidária. Os cabras de Lampião roubavam em proveito próprio e nunca dividiram seu butim com os pobres.Até tombar na gruta de Anjico, no sertão de Sergipe, o Rei do Cangaço sobreviveu graças à cumplicidade dos “coiteiros” que o abrigavam, protegiam e informavam a peso de ouro e recorrendo a estratagemas de esperteza incomum. Recebeu a patente fajuta de capitão das mãos do Padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço de Juazeiro do Norte, Ceará, outro mito popular sertanejo, para perseguir a Coluna Prestes, que ziguezagueava pelo sertão que seu bando percorria. Espertamente, tanto os militares rebelados quanto os rudes bandoleiros se evitavam pelas veredas do semiárido para não terem de se confrontar.O autor mostra também como a vida aventureira, ao ar livre, enfrentando volantes das polícias estaduais, atraiu muitos jovens de famílias abastadas, que, a exemplo do que ocorre hoje, nas metrópoles do século 21, se tornavam criminosos profissionais em busca de fortuna e emoção. Este foi o caso do paraibano Chico Pereira, pai do padre, professor e escritor do mesmo nome, que escreveu um dos mais precisos e sensíveis textos sobre esse aspecto romanesco do cangaço, Vingança, não, cujo título revela a decisão da família de não fazer o que mandava o figurino da honra sertaneja: vingar a morte do ascendente morto.

Em Guerreiros do Sol reluz a luz do sol do semiárido para dissipar as névoas de lenda e fantasia sobre o falso cangaço  social.

 

GUERREIROS DO SOL Autor: Frederico Pernambucano de Mello Editora: Girafa (512 págs., R$ 55)

O Estado de S. Paulo, sábado 16 de junho de 2012, Sabático, p. S06.

Mário Chamie. Um testamento de plena liberdade

O título do livro – Neonarrativas Breves e Longas – já diz tudo. A um ano dos 50 do lançamento deLavra Lavra, seu quarto livro, com o qual “instaurou”, verbo que usava para tratar do assunto, a poesia práxis, e dos 30 de sua maior obra como administrador público de cultura, o Centro Cultural Vergueiro, Mário Chamie deixou de publicar poemas, que continuava escrevendo, para entregar-se à prosa. Que prosa? Em seus dois últimos lançamentos literários – o anterior foi Pauliceia Dilacerada –, ele abandonou a condição extremada de poeta para se tornar uma espécie de domador e encantador de palavras, pássaros que deixou de engaiolar em versos ou em quaisquer outros gêneros – ensaios, romances, novelas, contos, seja lá o que forem. No ano passado, os críticos e jurados de concursos literários se viram em palpos de aranha para definir Pauliceia. Seria narrativa biográfica do inferno astral vivido por outro poeta Mário, o de Andrade, depois de demitido do Departamento Cultural da Prefeitura de São Paulo, ou ensaio sobre os efeitos literários do impacto negativo produzido pela demissão na produção do autor de Amar, Verbo Intransitivo? Em última instância, poderia até ser uma novela ou um romance breve com tintas historiográficas a respeito do célebre homônimo. Leia mais…

“As fugas do sol”, poemas em ebook

“As fugas do sol”, poemas em ebook

Coletânea dos 30 poemas do CD “As Fugas do Sol”:

01. DISCURSO – 02. O ENCONTRO DE CRISTINO COM VIRGOLINO NA VIOLA DE SEU RAIMUNDO – 03. DESAFIO DE VIOLA REPENTINA E GUITARRA CÉTICA – 04. TRÍPTICO MARINHO – 05. POEMINHA – 06. VAMOS BEBER A TARDE? – 07. ÔMEGA – 08. FUGA DE BAQUE – 09. TECHNICOLOR – 10. NA CASA AVOENGA – 11. SERESTA SERTANEJA – 12. A SEARA DE SARAMAGO – 13. BARCELONA III – 14. BARCELONA VI – 15. BARCELONA XVII – 16. BARCELONA XIX – 17. , – 18. BORBOREMA 9 – 19. BORBOREMA 10 – 20. BORBOREMA 12 – 21. BORBOREMA 13 – 22. BORBOREMA 23 – 23. BORBOREMA 24 – 24. BORBOREMA 25 – 25. LUA NO LAGO – 26. MADEIRO – 27. DECOMPOSIÇÃO DA FOLHA – 28. GARATUJAS DE BAR – 29. POEIRA DE ESTRELAS – 30 BYE

 

 

. Para ouvir os poemas em MP3, clique aqui!

CD “As fugas do sol”, poesia

CD “As fugas do sol”, poesia

APRESENTAÇÃO

Conheço José Nêumanne desde os tempos em que tínhamos poucos anos e muitíssimos sonhos. Pernambucano de nascimento e infância, adolesci na Paraíba, em pleno fervor cultural dos anos 1960. Foi nessa época que vi Nêumanne pela primeira vez, vindo de Uiraúna via Campina Grande, ar maroto de quem recém escapara do Seminário, tendo nas mãos as chaves de todos os prazeres do mundo – principalmente as da poesia, a grande sedutora dos jovens daquele tempo. Embora já encaminhados para a música (eu) e para o jornalismo (ele), tínhamos em comum a paixão pela palavra poética, o que fazia com que minha casa, em Tambiá, fosse também freqüentada por João Cabral, Bandeira, Baudelaire, Augusto dos Anjos, Lorca Mallarmé e muitos outros mestres, soberanos de nossos corações e mentes. A poesia também nos acendeu muitas outras paixões: com ela, fustigamos tiranos, derrubamos incontáveis governos, descobrimos o cinema e a boemia, Joyce e a literatura de cordel, Stockhausen e os repentistas nordestinos, Pixinguinha e todos os batutas da MPB – ou seja, as obas coisas que estavam no mundo e que nós precisávamos aprender, como diria Paulinho da Viola. Tudo isso a poesia nos ensinou, pois, como toda sedutora, ela foi também uma grande mestra.

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