Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Literatura

Pesquisador registra em livro cultura paraibana

Pesquisador registra em livro cultura paraibana

Três eventos culturais promovidos esta semana pela Universidade de São Paulo (USP) celebram a produção cultural de um pequeno e remoto Estado nordestino: a Paraíba. O mais importante escritor e dramaturgo paraibano, Ariano Suassuna, foi homenageado no Paço das Artes (Avenida da Universidade, 1), na Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira, na 17ª Semana de Arte e Cultura, no contexto da realização de mesas de debate sobre o papel das universidades públicas na Preservação do Patrimônio Material e Imaterial do Brasil. Depois da homenagem, o autor do Auto da Compadecida participou da abertura de uma exposição de 13 artistas contemporâneos e conterrâneos dele no Centro Universitário Maria Antônia (Ceuma), que funciona na antiga sede da Faculdade de Filosofia, na rua Maria Antônia, 294, no bairro da Consolação.

Hoje, às 19 horas, um destes artistas expostos, Chico Pereira, professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e ex-subsecretário estadual de Cultura, lançará no mesmo Paço, no câmpus da USP, seu livro Paraíba – Memória Cultural. Contratado há oito anos por uma editora de João Pessoa, a Grafset, para escrever um livro didático sobre a história da cultura paraibana, o artista, nascido em Campina Grande, a 120 quilômetros da capital, encontrou em seus próprios arquivos informações e material iconográfico suficientes para produzir uma verdadeira enciclopédia sobre a produção de arte e cultura no Estado, desde a descoberta do rio Paraíba do Norte até os dias de hoje.

Impresso com requinte pela Gráfica Santa Marta, concorrente da Grafset no setor de impressão, o livro resultou de um esforço monumental que exigiu do autor muita informação, transpiração e inspiração. Quem folheia suas 300 páginas chega a duvidar que tenha sido obra de um homem só, e não de uma diligente equipe de enciclopedistas. Os exemplares vendidos em São Paulo a R$ 100 são os últimos da primeira edição lançada em maio em João Pessoa e Campina Grande, sinal de seu êxito comercial e de crítica e aquisição por entidades acadêmicas. Chico Pereira informou que autoridades da área cultural de outros Estados o têm procurado com a intenção de produzirem obras similares. O sucesso, as consultas para novas obras do gênero e a preparação de uma segunda edição corrigida e revisada têm impedido o autor de cumprir o acordo feito com a editora de que, publicada a enciclopédia, reuniria as mesmas informações no livro didático planejado originalmente.

(Publicado no Caderno 2 do Estado de S. Paulo quinta-feira 20 de setembro de 2012, Pág. D7)

No Sabático: “O cangaço longe da armadilha do mito”

No Sabático: “O cangaço longe da armadilha do mito”

Reeditado, Guerreiros do Sol, de Frederico Pernambucano de Mello, desmonta teses como a da ‘face solidária’ de Lampião

Várias circunstâncias favoreceram a divulgação da imagem romântica dos cangaceiros que infestaram o sertão nordestino no início do século 20. A sobrevivência no semiárido os forçava a usar trajes apropriados para sobreviver aos garranchos, carrapichos e espinhos da caatinga e esse costume, adotado hoje pelos artistas em cena, por exemplo, os diferenciava de bandidos comuns e lhes deu uma marca visual definida. A facilidade com que fugiam dos cercos policiais, ajudados pela topologia do terreno e da vegetação do sertão e também pela corrupção, lhes propiciava uma espécie de aura que funcionava quase como uma licença para delinquir.

Esses grupos de bandoleiros surgiram numa região remota e sem lei na qual os coronéis latifundiários reinavam sem prestar contas ao Estado e em territórios sem estradas e difíceis de serem percorridos até mesmo por animais de montaria. Deslocavam-se quase sempre a pé, guiados pelo conhecimento do terreno em que pisavam, que nem sempre os agentes da lei conheciam. Moviam-se também numa cultura peculiar que lhes facilitava a ação. O semifeudalismo vigente consagrou como legítimos e corriqueiros costumes bíblicos, como a vingança, praticada conforme a lei de talião (“olho por olho, dente por dente”), que não respeitava a justiça comum. Crimes de honra, cometidos por pais que puniam com a morte mancebos atrevidos que ousavam desvirginar suas filhas donzelas, também tidos como useiros e vezeiros, serviam de pretexto para esconder a brutalidade numa região inóspita de sol inclemente, água escassa e secas periódicas.

Logo  chefes de bandos se tornaram mitos que protagonizavam notícias sensacionalistas, romances de aventura e folhetos de cordel. O Cabeleira foi imortalizado no romance de Franklin Távora, de 1876. Antônio Silvino tornou-se célebre como o inglês Robin Hood, o australiano Ned Kelly e o americano Billy the Kid. O mais famoso de todos eles foi Virgolino Ferreira da Silva, pernambucano de Serra Talhada e imortalizado nos meios de comunicação e no romanceiro literário e popular como Lampião, o Rei do Cangaço.

A lenda em torno de sua saga serviu a vários senhores. Na onda do banditismo social, consagrada pelo britânico Eric Hobsbawn, sociólogos marxistas o tornaram o vingador dos pobres nos latifúndios. Cangaceiros e Fanáticos, de Rui Facó, é um exemplo dessa falácia, que chegou a extremos como a tentativa de estabelecer um paralelo entre cangaceiros e guerrilheiros de Christina Matta Machado em As Táticas de Guerra dos Cangaceiros.

Guerreiros do Sol

Frederico Pernambucano de Mello, do Instituto Joaquim Nabuco, é fiel aos fatos e respeita as leis da lógica, da sensatez e da clareza. Com serenidade e competência, desafia a mitologia do cangaço social, desfazendo “verdades” inventadas por biógrafos oficiais e

analistas de esquerda. Quem lê seus livros vê-se tem acesso a relato e análises de fatos e não de lendas. O pretexto de Lampião se juntar ao grupo de Sinhô Pereira, em cujo comando depois ganharia fama, era vingar-se de um inimigo malvado de sua família. Pernambucano lembra que a vingança nunca foi consumada e, no fim, o cangaceiro e os desafetos de sua grei se reconciliaram. Em Guerreiros do Sol, livro em muito boa hora reeditado pela Girafa Editora, o especialista desarma a armadilha do banditismo social, mostrando sua face violenta e nada solidária. Os cabras de Lampião roubavam em proveito próprio e nunca dividiram seu butim com os pobres.Até tombar na gruta de Anjico, no sertão de Sergipe, o Rei do Cangaço sobreviveu graças à cumplicidade dos “coiteiros” que o abrigavam, protegiam e informavam a peso de ouro e recorrendo a estratagemas de esperteza incomum. Recebeu a patente fajuta de capitão das mãos do Padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço de Juazeiro do Norte, Ceará, outro mito popular sertanejo, para perseguir a Coluna Prestes, que ziguezagueava pelo sertão que seu bando percorria. Espertamente, tanto os militares rebelados quanto os rudes bandoleiros se evitavam pelas veredas do semiárido para não terem de se confrontar.O autor mostra também como a vida aventureira, ao ar livre, enfrentando volantes das polícias estaduais, atraiu muitos jovens de famílias abastadas, que, a exemplo do que ocorre hoje, nas metrópoles do século 21, se tornavam criminosos profissionais em busca de fortuna e emoção. Este foi o caso do paraibano Chico Pereira, pai do padre, professor e escritor do mesmo nome, que escreveu um dos mais precisos e sensíveis textos sobre esse aspecto romanesco do cangaço, Vingança, não, cujo título revela a decisão da família de não fazer o que mandava o figurino da honra sertaneja: vingar a morte do ascendente morto.

Em Guerreiros do Sol reluz a luz do sol do semiárido para dissipar as névoas de lenda e fantasia sobre o falso cangaço  social.

 

GUERREIROS DO SOL Autor: Frederico Pernambucano de Mello Editora: Girafa (512 págs., R$ 55)

O Estado de S. Paulo, sábado 16 de junho de 2012, Sabático, p. S06.

Mário Chamie. Um testamento de plena liberdade

O título do livro – Neonarrativas Breves e Longas – já diz tudo. A um ano dos 50 do lançamento deLavra Lavra, seu quarto livro, com o qual “instaurou”, verbo que usava para tratar do assunto, a poesia práxis, e dos 30 de sua maior obra como administrador público de cultura, o Centro Cultural Vergueiro, Mário Chamie deixou de publicar poemas, que continuava escrevendo, para entregar-se à prosa. Que prosa? Em seus dois últimos lançamentos literários – o anterior foi Pauliceia Dilacerada –, ele abandonou a condição extremada de poeta para se tornar uma espécie de domador e encantador de palavras, pássaros que deixou de engaiolar em versos ou em quaisquer outros gêneros – ensaios, romances, novelas, contos, seja lá o que forem. No ano passado, os críticos e jurados de concursos literários se viram em palpos de aranha para definir Pauliceia. Seria narrativa biográfica do inferno astral vivido por outro poeta Mário, o de Andrade, depois de demitido do Departamento Cultural da Prefeitura de São Paulo, ou ensaio sobre os efeitos literários do impacto negativo produzido pela demissão na produção do autor de Amar, Verbo Intransitivo? Em última instância, poderia até ser uma novela ou um romance breve com tintas historiográficas a respeito do célebre homônimo. Leia mais…

“As fugas do sol”, poemas em ebook

“As fugas do sol”, poemas em ebook

Coletânea dos 30 poemas do CD “As Fugas do Sol”:

01. DISCURSO – 02. O ENCONTRO DE CRISTINO COM VIRGOLINO NA VIOLA DE SEU RAIMUNDO – 03. DESAFIO DE VIOLA REPENTINA E GUITARRA CÉTICA – 04. TRÍPTICO MARINHO – 05. POEMINHA – 06. VAMOS BEBER A TARDE? – 07. ÔMEGA – 08. FUGA DE BAQUE – 09. TECHNICOLOR – 10. NA CASA AVOENGA – 11. SERESTA SERTANEJA – 12. A SEARA DE SARAMAGO – 13. BARCELONA III – 14. BARCELONA VI – 15. BARCELONA XVII – 16. BARCELONA XIX – 17. , – 18. BORBOREMA 9 – 19. BORBOREMA 10 – 20. BORBOREMA 12 – 21. BORBOREMA 13 – 22. BORBOREMA 23 – 23. BORBOREMA 24 – 24. BORBOREMA 25 – 25. LUA NO LAGO – 26. MADEIRO – 27. DECOMPOSIÇÃO DA FOLHA – 28. GARATUJAS DE BAR – 29. POEIRA DE ESTRELAS – 30 BYE

 

 

. Para ouvir os poemas em MP3, clique aqui!

CD “As fugas do sol”, poesia

CD “As fugas do sol”, poesia

APRESENTAÇÃO

Conheço José Nêumanne desde os tempos em que tínhamos poucos anos e muitíssimos sonhos. Pernambucano de nascimento e infância, adolesci na Paraíba, em pleno fervor cultural dos anos 1960. Foi nessa época que vi Nêumanne pela primeira vez, vindo de Uiraúna via Campina Grande, ar maroto de quem recém escapara do Seminário, tendo nas mãos as chaves de todos os prazeres do mundo – principalmente as da poesia, a grande sedutora dos jovens daquele tempo. Embora já encaminhados para a música (eu) e para o jornalismo (ele), tínhamos em comum a paixão pela palavra poética, o que fazia com que minha casa, em Tambiá, fosse também freqüentada por João Cabral, Bandeira, Baudelaire, Augusto dos Anjos, Lorca Mallarmé e muitos outros mestres, soberanos de nossos corações e mentes. A poesia também nos acendeu muitas outras paixões: com ela, fustigamos tiranos, derrubamos incontáveis governos, descobrimos o cinema e a boemia, Joyce e a literatura de cordel, Stockhausen e os repentistas nordestinos, Pixinguinha e todos os batutas da MPB – ou seja, as obas coisas que estavam no mundo e que nós precisávamos aprender, como diria Paulinho da Viola. Tudo isso a poesia nos ensinou, pois, como toda sedutora, ela foi também uma grande mestra.

Leia mais…

Um brasileiro como eu, você e o Zé Mané da esquina [Antônio Ermírio de Moraes]

Um brasileiro como eu, você e o Zé Mané da esquina [Antônio Ermírio de Moraes]

Uma das maiores pragas do Brasil – comparável à saúva dos tempos de Jeca Tatu e à corrupção e ao crime organizado atuais – é a mentalidade lotérica que assola nossa sociedade. Muitos brasileiros (é sempre perigoso generalizar, mas também seria ingenuidade não reconhecer isso) têm a ilusão de que é possível ganhar tudo o que precisa para viver com conforto de uma vez só e não têm paciência para ir construindo paulatinamente e acumulando os bens resultantes do trabalho duro aos poucos. Apesar da proibição do jogo de azar no governo Dutra, após o colapso do Estado Novo de Vargas, aposta-se o tempo todo no Brasil. Faz isso o comerciante que explora o turista nas praias durante o verão; o vendedor de bondes que sonha com o grande golpe; o aposentado viciado em bingos, que teimam em funcionar, apesar de ilegais; o batedor de carteiras; ou o assaltante profissional. Mas também o empresário dependurado nas tetas do Estado, o funcionário público que cria dificuldades para vender facilidades, o viciado nos pregões da Bolsa e os milhares de pré-adolescentes que acorrem às peneiras dos times de futebol ou aos programas de calouro em busca de glória e fortuna fáceis. Este não é um caráter exclusivamente nacional, mas havemos de convir que aqui a impunidade crônica e a desigualdade abjeta do “manda quem pode, obedece quem juízo”, adicionada ao “me engana que eu gosto”, prosperam mais que em outros países, onde se prefere dar duro no presente, investindo no pra frente, a só sonhar com o futuro. Esta mentalidade malsã fundou a República do mensalão, do cartão corporativo e do “levar vantagem em tudo”, de interesse da elite dominante, que enche as próprias burras para distribuir com os apaniguados, dá sombra e água fresca aos devotos do bezerro de ouro do mercado financeiro e fornece esmolas de proteínas aos miseráveis. Antônio Ermírio de Moraes é, portanto, um brasileiro na contramão. Herdeiro de uma tradição de riqueza que ganha foros simbólicos, não se insere nestes padrões do ganho fácil, da escravização às aparências e às facilidades que nossa sociedade patrimonialista concedeu a seus ascendentes e permite aos descendentes. Na pátria da cigarra, resolveu ser formiga: virou uma espécie de símbolo do homem que produz, um estrangeiro num território favorável aos lances de dados e hostil ao suor. Por isso mesmo, não deu certo na política, atividade em que se pratica a promoção pelo demérito e se considera a falta de escrúpulos e o desprezo ao mérito vantagens insuperáveis. O fato de ter sucesso nos negócios fala bem das empresas e obras beneméritas que administra, da família e dele mesmo, mas também do Brasil. Afinal, se ele dá certo, por que outros de nós, comprometidos com a solidez das construções, feitas tijolo a tijolo, com argamassa no meio, também não daríamos? Um homem respeitado pelo que faz vale muito numa terra em que a inveja pelo êxito alheio só é superada pela adoração dos aventureiros bem-sucedidos. A vida real, sem fantasia, do empresário, do dramaturgo, do benemérito Antônio Ermírio de Moraes é um investimento num País melhor, que dorme embaixo das roletas e acima das propinas. Tê-lo como exemplo é a prova de que nem tudo é jogo, nem tudo é acaso e que o possível é possível, num ambiente em que nos acostumamos a sonhar com o improvável, embalados por um acomodamento covarde e oportunista. É a constatação de que o antropólogo francês Claude Levi-Straus não estava com razão, pelo menos não tinha a razão inteira, ao afirmar que o Brasil passou da barbárie para a decadência sem conhecer a civilização. Há, como afirmava o gênio da raça Gilberto Freyre, sementes de uma civilização nos trópicos nos empreendimentos do Grupo Votorantim, na medicina de excelência do Hospital da Beneficência Portuguesa e não apenas nestes exemplos, que podem não ser muitos, mas também não são de exceção. Pois, afinal, Antônio Ermírio de Moraes é um brasileiro comum, como eu, você e o Zé Mané da esquina, que percorre a pé quilômetros de casa para o trabalho duro e, mesmo sem conviver com a fortuna nem com a glória, não se deixa seduzir pelo tilintar das fichas do “cassinão” em que alguns querem transformar nossa pátria.

Página 3 de 1112345...10...»
Criação de sites em recife Q.I Genial