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No Blog do Nêumanne: Audálio, o audaz sereno

No Blog do Nêumanne: Audálio, o audaz sereno

Conheci Audálio Dantas quando eu tinha 9 anos e li suas reportagens na revista O Cruzeiro sobre Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo, um dos maiores sucessos do mercado livreiro e desde então só o admirei

Audálio Dantas foi meu primeiro herói no jornalismo. Em 1960, eu tinha nove anos e meu pai, caminhoneiro, sempre trazia exemplares de O Cruzeiro com reportagens que encantavam meus olhos já míopes retratando o mundo distante e misterioso do Sul Maravilha. Nestas revistas, entre O Amigo da Onça, de Péricles, e a Última Página, de Rachel de Queiroz, deparei-me com a saga de uma mineira moradora na imensa São Paulo ignota, em cujo barraco na favela do Canindé, movido de argúcia e sem pieguice, um repórter atento, sensível e de estilo elegante descobriu anotações de um diário, depois editado em livro e transformado num dos maiores êxitos do mercado brasileiro em todos os tempos,Quarto de Despejo. Era Audálio.

Só tive o prazer de conhecê-lo e a sorte de conviver com ele muito tempo depois, quando acompanhei sua eleição para a presidência do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo numa disputa histórica em que um grupo independente de profissionais de imprensa afastou da direção do órgão uma diretoria que não resistia a pressões vindas do alto da torre dos carros de combate da ditadura militar. Era um tempo de repressão braba e logo meu herói de infância se materializou numa figura admirável para um iniciante no mesmo ofício. Então em plena flor dos 24 anos de idade, em 1975.

Para conquistar minha devoção, ele não se vestiu de super herói nem de mártir da revolução socialista contra a brutal repressão da guerra suja do regime duro contra a guerrilha armada do extremo oposto, que não lutava para instalar uma democracia no Brasil, mas, sim, para substituir a tirania de direita por outra, de sinal invertido. Audálio sempre foi esquerdista, mas também um democrata capaz de respeitar e admirar quem não comungasse de suas ideias, desde que nele descortinasse talento e simpatia bastantes para desfrutar de sua prosa macia e de sua postura firme como garimpeiro de fatos em letras e mestre no ofício.

Naquela quadra, ele enfrentou uma dura batalha. Vladimir Herzog, nosso colega, dirigia o Departamento de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo quando foi levado para uma delegacia de policia onde funcionava o  DOI-Codi, órgão clandestino que executava a política de tortura e execuções dos comandantes militares no poder. E ali foi assassinado. Vlado, como era conhecida a vítima, não militava na guerrilha, mas simpatizava com o Partido Comunista, que se posicionava contra a luta armada. E foi levado ao martírio como bucha de canhão numa guerra intestina entre oficiais graduados pelo poder federal. Um grupo de generais da linha dura, chefiados por Sílvio Frota, ministro do Exército do presidente Ernesto Geisel, encontrou na militância de esquerda dos subordinados do chefe deles um pretexto para solapar o plano de abertura do grupo palaciano, cujo principal ideólogo era o chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva. O alvo do sequestro e tortura, que terminou em morte, era José Mindlin, bibliófilo e industrial milionário, então secretário de Cultura do Estado, et pour cause, responsável pela nomeação do jornalista para o posto de comando. Com isso, Geisel não conseguiria, como pretendia, fazer do então governador de São Paulo, o civil Paulo Egydio Martins, seu sucessor. E, de fato, não conseguiu. Numa sessão de torturas, Vlado morreu e logo seus algozes fizeram circular a falsa notícia de que se havia enforcado. Foi a gota d’água para o cálice de fel transbordar e a resistência à ditadura organizou-se em torno de três chefes religiosos: o arcebispo católico, dom Paulo Evaristo, cardeal Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo James Wright, realizaram um culto ecumênico pela alma do morto na Sé, em pleno centro de São Paulo de Piratininga. O rabino autorizou que Vlado fosse sepultado no território comum dos filhos de Judá, e não no reservado para os suicidas, claro desafio à versão mal costurada do regime opressor. Como presidente do sindicato dos colegas do mártir, Audálio foi, ao mesmo tempo, audaz e sereno, sem se deixar tomar por repentes de ira nem por sintomas de covardia. O resto é história: a sociedade percebeu que o governo, que combatia os inimigos armados, também perseguia os arautos da liberdade, e lentamente corroeu as entranhas do regime, que ruiu.

Desses tempos para cá, dois outros pontos costuraram nossa relação pessoal. Ambos somos cidadãos de Campina Grande, na Paraíba. Eu nasci em Uiraúna, no alto sertão, e, desde a infância, amo a Rainha da Borborema como se, mais que madrasta acolhedora, ela fosse minha segunda mãe. Audálio veio à luz em Tanque d’Arca (Alagoas), pequena como minha cidade natal. Sua conexão com minha terra adotiva foi estabelecida por um amigo de infância dele, Joaquim Manuel Barbosa, enfermeiro celebrado, marido de Maria, figura popular na cidade, e pai de políticos atuantes no Estado.

Em 2011, publiquei um perfil nada lisonjeiro do político mais popular da História do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que nunca admirei, O que sei de Lula (Topbooks, Rio). Embora não tenhamos conversado sobre isso, sei também que Audálio, que nos deixou para sempre na tardinha fria, depois de um dia de sol morno, de 30 de maio, continua tendo nosso personagem comum como um herói do povo, do qual ele, Audálio, sempre foi rebento fiel e devoto. Certo é que os melhores e mais ternos momentos de meu livro sobre seu tema foram copiados de uma das obras literárias mais comoventes, de tanta beleza que contém, que li na vida inteira, O menino Lula, escrita por Audálio, meu herói de ofício desde minha própria meninez.

Na bagagem que Audálio leva para cruzar o rio na canoa de Caronte carrega de mim uma lágrima, um lamento, um aceno e um sorriso triste deste que ainda encontra humor nas presepadas de que se lembra, mas ele nunca mais repetirá.

Jornalista, poeta e escritor

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No Aliás do Estadão: O rendez-vous do sórdido com o sublime

No Aliás do Estadão: O rendez-vous do sórdido com o sublime

Poesia Completa é um livro à altura do fino ofício de Alberto da Cunha Melo

O volume de mil páginas provoca o primeiro impacto: como pode o pernambucano de Jaboatão dos Guararapes Alberto da Cunha Melo ter sido um poeta tão produtivo e copioso nos 65 anos em que viveu? Impacto ainda maior terá o leitor, habituado ou não à arte do romano Horácio (seu ícone e cânone), ao percorrer cada uma delas e nada encontrar que considere jaça. Há ainda, no caso desta Poesia Completa, a inserção do gesto criador, do labor exaustivo do autor, permitindo o acesso a poemas inacabados, esboços ou exercícios poéticos, alguns intocados há décadas: belos diamantes brutos, ainda não lapidados.

poesia completaA poesia publicada em vida do autor foi louvada por críticos respeitáveis. Destaco dentre eles o poeta e professor paraibano Hildeberto Barbosa Filho, que parafraseou Johannes Pfeiffer em Introdução à Poesia: “devido à sua verdade, esta poesia é necessária; devido à sua beleza, é beatificante!” Alberto foi sociólogo e jornalista competente e pontual, mas revelava que essas atividades apenas lhe serviam como fonte de sobrevivência e, algumas vezes, de leitmotiv de seus poemas. Uno e indivisível, é poeta, e a terceira pessoa do singular rege o verbo no presente do indicativo, porque sua poesia atravessa o tempo e ganha uma dimensão que, apesar de todas as honras e gratificações em vida, ainda carece de maior reconhecimento a seu mérito.

A primeira vez que vi falarem dele foi em entrevista de Bruno Tolentino nas páginas amarelas da Veja. O implacável avaliador lançou-o às alturas de maior nome da poética nacional desde João Cabral de Melo Neto. A fé em Bruno me levou a adquirir os livros de Alberto, todos editados no Recife, berço de Cabral e Bandeira, sem penetração no Sudeste. O faro fino do editor Pedro Paulo de Sena Madureira, meu sócio na Girafa Editora, permitiu que a obra imensa e singular circulasse nas metrópoles a bordo de uma edição caprichada e magnífica de O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos. Os adjetivos usados descendem, mais do que do entusiasmo deste autor, da concessão do prêmio para o melhor livro de poesia dado pela Academia Brasileira de Letras em 2007. Debilitado, o poeta não foi à Casa de Machado de Assis recebê-lo e me honrou, como editor, pedindo para representá-lo.

Alberto da Cunha Melo, no lançamento do livro "O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos". Recife: A Girafa, 2006.

Alberto da Cunha Melo, no lançamento do livro “O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos”. Recife: Girafa Editora, 2006.

Certa vez, Astier Basílio, precoce candidato a Arthur Rimbaud de Campina Grande (na comparação feita por Alberto e glosada por outro pernambucano, Jomard Muniz de Britto, que indagou quem seria, então, o Paul Verlaine da Borborema), pôs-me nas mãos um exemplar da edição artesanal de 200 exemplares numerados de Yacala, à beira do balcão do Café Aurora, na Praça da Bandeira, em Campina. Exórdio, o primeiro dos 140 poemas reunidos, sacudiu minha alma como um vagalhão na tempestade: “Levamos fogo, não esponjas, / ao trono sujo de excremento, / disputando o mesmo vazio / de uma estrela no firmamento; // jarros negros e estrelas, tudo / é uma busca de conteúdo; // ou somos renúncia ou cobiça, / atravessando esses planaltos / feitos de cinza movediça; // mas todos estamos em casa, / como os voos dentro das asas”.

Manuscrito da segunda versão do "Exórdio", do livro "Yacala"/ Alberto da Cunha Melo exibe uma matriz de chumbo do seu livro "Yacala". Recife, Gráfica Olinda, 1999.

Manuscrito da segunda versão do “Exórdio” do livro “Yacala”/ Alberto da Cunha Melo exibe uma matriz de chumbo do seu livro “Yacala”. Recife, Gráfica Olinda, 1999.

A emoção desse rendez-vous do sórdido com o sublime se repetiu ao reunir-me a um grupo de atentos e devotos espectadores que lotaram o auditório da Livraria da Vila no lançamento paulistano da obra magna. Entre os presentes, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, professora de literatura, mulher, viúva, a mais completa e mais autorizada crítica (o que permitiu ao poeta conviver com a própria exegeta e permitirá ao estudioso acompanhar neste livro seu processo de criação); Martim Vasques da Cunha, herdeiro de Tolentino, autor do texto da orelha e timoneiro do projeto; e, last but not least, Carlos Andreazza, o bravo editor que trouxe a lume o monumento.

Lançamento do "Poesia completa". São Paulo, 19 de dezembro de 2017: Auditório/ José Nêumanne, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Maria do Carmo Ducco / Carlos Andreazza, Cláudia, Isabel Moliterno, Dionísius Amêndola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha.

Lançamento do “Poesia completa”. São Paulo, 19 de dezembro de 2017: Auditório/ José Nêumanne, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Maria do Carmo Ducco / Carlos Andreazza, Cláudia, Isabel Moliterno, Dionísius Amêndola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha.

Melhor não teria a dizer sobre o livro que não seja o simples reconhecimento de que está à altura da obra que abriga pela fé, pela autenticidade, pela força, pela verdade, pela beleza e pelo compromisso ético com o que há de mais puro, cru e autêntico na arte maior. O cartapácio é o altar digno da obra que merece o mais alto posto no panteão da poesia em língua de Camões e Vieira.

José Nêumanne

  • Jornalista, poeta, escritor e autor de Solos do Silêncio

Resenha publicada no Aliás, neste domingo, 28 de janeiro de 2017.

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No Blog do Nêumanne: Os três enes de meu nome

No Blog do Nêumanne: Os três enes de meu nome

A história secreta da epígrafe no livro póstumo de Ariano, da lavra deste tosco do Semi-árido ao lado de nobre lusitano

Em 1995, meu amigo (e de quem seria, depois, sócio) Pedro Paulo de Sena Madureira, então editor da Siciliano, me fez uma proposta irrecusável: escrever um roman-à-clef (ou seja, um romance a partir de um fato real, mas com personagens com nomes fictícios) sobre o escândalo daquele momento, o roubo feito pelos “anões do orçamento”. Era pegar ou largar. Peguei e não larguei, escrevi.

O livro foi publicado sob o título Veneno na Veia, mas nunca faltou gaiato que mudasse a sílaba fechada por aberta para transformá-lo em Veneno na Véia. Fazer o quê? Certo é que foi publicado e fez algum sucesso de vendas. Por conta disso, a professora Elizabeth Marinheiro, minha confreira nas Academias de Letras de Campina Grande (ALCG) e da Paraíba (ALPB), me convidou para falar dele num seminário sobre literatura que ela promovia no Teatro Municipal de Campina Grande. Escrevi, fui e voltei para casa sem prestar muita atenção naquele texto.

Muitos anos depois, estava escrevendo um editorial já em cima da hora para o Jornal da Tarde, quando a secretária, Cleuza, me chamou ao telefone para atender a outro ilustre confrade na ALPB, Ariano Suassuna. A conversa ao telefone estendeu-se mais do que eu devia e podia manter. Fui obrigado a interrompê-lo.

– Para o que mesmo você está me telefonando? – questionei.

– Então, você está me dispensando? – perguntou, queixoso.

– Não se trata de dispensa. Estou escrevendo um editorial, está em cima da hora para concluí-lo e só atendi porque era você – justifiquei-me.

– É que eu preciso saber se você realmente disse num seminário de literatura em Campina Grande que seu romance mais recente não era de aventuras, mas, sim, o de nossa desventura. Isso encaixa perfeitamente num capítulo de um livro que estou ultimando, aquele que estou escrevendo há 30 anos, e achei que poderia usá-lo. Você permite? – pediu.

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– Ora, Ariano, por que você não…? E soltei o palavrão. Ele reagiu:

– Então, você não autoriza, não, é?

– Homem, esse menino, você acha que eu teria o topete de proibir que você usasse uma frase minha em epígrafe? Só se eu estivesse doido. Faça o que quiser da frase. Nem precisa dizer que ela é minha…

Aí, ele me respondeu com um palavrão mais cabeludo do que o que eu tinha empregado. E ficamos por isso.

Mais um tempo transcorreu e fui à sua casa na Graça, no Recife, convidá-lo para minha posse na nossa ALPB. Nosso encontro estava marcado para as 4 da tarde e temi que ele não pudesse me receber desde que vi o time do Internacional de Porto Alegre, com Tite de técnico, tomando café no hotel onde eu estava hospedado. Então, disse à moça que me recebeu ao portão de sua bela casa senhorial.

– Vim aqui só entregar um convite. Posso deixar e ir embora.

A moça entrou e voltou, misturada sua voz com a narração do jogo Sport X Internacional na transmissão da TV.

– Seu Ariano mandou o senhor entrar.

Entrei, esperei-o um pouco, ele saiu do quarto deixando o televisor ligado e veio logo com a bronca:

– Quer dizer que você vem a minha casa e não quer nem se encontrar comigo, seu malcriado, seu mal ouvido, seu mal educado?

– Não quis atrapalhar seu jogo. Lembra-se de quando nos conhecemos que você me mostrou assoviando sua versão do hino do Sport?

– Sim. Mas estou mesmo precisando falar com você. Não sei se vai dar para ir para sua posse, pois tenho muito trabalho na Secretaria de Cultura do governo do Estado de Pernambuco. E preciso muito esclarecer uma coisa daquela sua epígrafe em meu futuro livro.

– Qual é a dúvida?

– Quantos enes tem teu nome?

– Três.

– Como três?

– Sim, três. Ene-e-u-eme-a-ene-ene-e. Não são três?

– Mas tu és safado desde que te conheço…

Referia-se à noite em que o abordei, em 1967, à porta do Teatro Popular do Nordeste (TPN), quando me apresentei a ele, a sua mulher, Zélia, a seu amigo Hermilo Borba Filho, dono do teatro, e à mulher deste, Leda, à espera do show Memórias de dois cantadores, com Edir e Teca. E estão aí Edir Lima, o Edy Star, que mora em São Paulo e acaba de lançar CD novo, e Teca Calazans, que hoje vive em Paris, que não me deixam mentir.

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Conduziu-me ao quarto contíguo, com cama e máquina de costura, sobre a qual repousavam os originais de seu mui aguardado romance em letras caprichosamente desenhadas em folhas de papel almaço pautado. Nelas brilhavam, graciosamente, os três enes do meu nome composto.

A prova de que escrevo a verdade está na página 343 do romance O Jumento Sedutor, lançado numa caixa e à disposição em todas as livrarias do País. A epígrafe, com a frase da qual não me lembrava mais – nem tinha como, pois não acho o texto da palestra – foi registrada por ele:

“Não é bem um Romance-a-chave, mas clara e decididamente também o é. Certamente não é um Romance-de-aventuras, mas, com certeza absoluta, posso defini-lo como o Romance da nossa desventura. Um Romance-de-gancho, pendurado nas paredes de nossas livrarias como carne em açougue” (José Nêumanne Pinto, aliás, o Zé dos três enes)

Acima fulgura outra epígrafe, da lavra de Almeida Garrett:

“Neste despropositado e inqualificável Livro, não é que se quebre, mas enreda-se o fio das histórias e das observações por tal modo que, bem o vejo, só com muita paciência se pode deslindar e seguir tão embaraçada Teia”.

Ou seja, o danado do Ariano não apenas pôs mesmo a minha frase,como a juntou com outra de Garrett. Isso me lembrou a tarde em que, a convite da poeta Eunice Arruda, fiz uma palestra, e nem me lembro mais  sobre o quê, ao lado do professor de jornalismo Ivan Teixeira, da Universidade de São Paulo (USP), e nela mofei da mania de Luiz Inácio Lula da Silva flexionar advérbios como menos, que este muitas vezes prefere chamar de menas.

O catedrático abespinhou-se:

– Você sabia que o conde Almeida Garrett também flexionava advérbios?

– Não sabia. Mas tenho certeza de que não foi com Garrett que Lula aprendeu a usar menos na forma feminina inexistente menas.

Dificilmente Ariano, eleitor de Lula, riria de minha piada. Mas juro que, ao contrário do que eu esperava, o público do auditório da Biblioteca Mário de Andrade naquela tarde distante rolou de rir, como se fosse mais uma das tiradas do dramaturgo mais engraçado do teatro brasileiro.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, domingo, 31 de dezembro de 2017)

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Resenha no Aliás, do Estadão: O mártir que morreu três vezes

Resenha no Aliás, do Estadão: O mártir que morreu três vezes

Livro relata a saga de Che Guevara, morto em Cuba, Congo e Bolívia

A paixão assemelha-se a um farol sobre um penhasco cuja iluminação provém de fogo vindo do mais imo do núcleo da Terra. No mar revolto o náufrago pode encontrar nele o rumo da pedra que evite seu afogamento ou, se olhar fixo em sua direção, perder a rota e afundar no pélago. Foi com esse pensamento entre luminoso e tétrico que dei por finda a leitura de As Três Mortes de Che Guevara, de Flávio Tavares.

Final. Corpo do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara exposto publicamente em 10 de outubro de 1967, em Vallegrande, na Bolívia

Final. Corpo do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara exposto publicamente em 10 de outubro de 1967, em Vallegrande, na Bolívia

Só a biografia do autor já recomenda vivamente a leitura. Tavares é um jornalista competente e provado nas batalhas da reportagem cotidiana. Pousou em território mexicano por circunstâncias fortuitas: militante da esquerda armada, sob a égide do socialismo moreno do caudilho Leonel Brizola, também ele gaúcho, foi preso, condenado e torturado nas masmorras da ditadura militar até ter seu nome contemplado entre os guerrilheiros trocados pela vida do embaixador americano Charles Elbrick,  sequestrado por um grupo de românticos aventureiros da Dissidência do Partido Comunista Brasileiro na Guanabara, com a ajuda e as armas da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Embarcou apátrida para Cuba e de lá foi para o México, onde iniciou carreira bem-sucedida de correspondente internacional do jornal Excelsior, fixando-se depois em Buenos Aires, de onde também produziu reportagens como correspondente deste Estado. De sua experiência nos porões da ditadura brasileira extraiu uma obra-prima da literatura da saga guerrilheira, Memórias do Esquecimento, cujo primoroso estilo foi chamado de “Notas de Subterrâneo, de Dostoievski, na América do Sul”, pelo argentino Ernesto Sábato, de inconteste autoridade em matéria de prosa. E não se trata de um elogio descabido.

Com esse cabedal, o autor escreveu Meus 13 dias com Che Guevara, deixando claro desde então que, se Brizola era seu chefe, seu herói era o argentino que conhecera numa reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Montevidéu, em 1961. Ao conhecimento e ao currículo o autor acresceu uma ideia-mãe genial, ao propor o relato das três mortes do mártir-mor da esquerda nos anos 60. A primeira ocorrera em Havana, quando o velho amigo e companheiro de Sierra Maestra Fidel Castro se viu obrigado a se livrar dele para não criar mais problemas com o patrão soviético, que Che havia preterido em prol do inimigo chinês. A segunda se deu no Congo, uma aventura suicida e surrealista em busca de um ideal perdido no continente africano. A terceira, e definitiva, teve lugar num ermo perdido dos Andes bolivianos, onde foi executado. Desde então, sua imagem passou a ser confundida com a do Cristo morto, quadro de Mantegna exposto na Pinacoteca de Brera, em Milão, repetido na imagem da máscara mortuária do guerrilheiro abatido na selva sul-americana.

Alusão. ‘Lamentação sobre o Cristo Morto’ (1475-78), de Mantegna. PINACOTECA DE BRERA/MILÃO

Alusão. ‘Lamentação sobre o Cristo Morto’ (1475-78), de Mantegna. PINACOTECA DE BRERA/MILÃO

Ao longo da narrativa o fogo da paixão de Tavares alumiou o naufrágio de Che Guevara relatado num estilo literário irretocável. Mesmo um leitor afeito à descrição do mártir como um assassino serial bruto e implacável, que Guevara também foi, não se pode queixar em minuto algum da narrativa em que o romantismo da fé se mistura  com a decepção do devoto com a teimosia de “fé cega, faca amolada” do protagonista. Este recusou conselhos sábios de guerrilheiros africanos e nunca pareceu perturbar-se com as evidências de que o velho companheiro Fidel Castro o condenaria à morte para se livrar do estorvo vivo. E, ato contínuo, aproveitar-se de sua transformação em ícone eterno de uma revolução que trocara o romantismo pela boçalidade, investindo na hagiografia de um companheiro sacrificado pela causa comum.

Foto de arquivo. Estadão.

Foto de arquivo. Estadão.

O capítulo sobre o Congo poderia servir de roteiro para um filme de aventuras à feição de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, talvez mais atraente do que a produção sobre a viagem de motocicleta do herói quando jovem. A estupidez inimaginável de nunca ter percebido que caíra numa armadilha quando, tendo aprendido quéchua, foi abandonado numa remota região boliviana em que se falava guarani poderia servir de inspiração a Jorge Semprún, autor do romance A Segunda Morte de Ramón Mercader, em cujo título Tavares se inspirou.

As Três Mortes de Che Guevara provoca uma leitura apaixonante por tudo o que há de verdade e emoção na vida de um líder que alcançou o poder por caminhos improváveis e encontrou a morte pela obstinação cega e inconsequente de um espírito aventureiro, rebelde e autocomplacente.

José Nêumanne Pinto

  • Jornalista, poeta e escritor

Print da página do Aliás, do Estadão.

Resenha publicada  no caderno Aliás no Estadão, em 12 de novembro de 2017.

No Blog do Nêumanne: Nascido para chefiar (texto e áudio).

No Blog do Nêumanne: Nascido para chefiar (texto e áudio).

Mauro Guimarães era um jornalista tão completo que morreu enquanto o ofício definha

Mauro Guimarães era pau pra toda obra em matéria de jornalismo. Devoto de Gutenberg, escrevia artigos sobre política com um estilo límpido e sem floreios. Seus textos críticos eram construídos argumento a argumento, informação sobre informação, palavra por palavra. Eram, sobretudo, caprichados. Caprichadíssimos. Escrevia como Ademir da Guia jogava: lento, calculista, sem firulas nem arroubos. Nada de sentimentalismos. Na medida, para não cansar nem seduzir o leitor com brilharecos ou citações desnecessárias.

Paulista de Jaboticabal, filho de seu Florindo, corretor de café, e de dona Maria, mestra-escola, começou muito cedo na profissão, carregando gravadores pesados da Rádio Paulista em dupla com um amigo que atravessou a vida inteira deste: João Batista Lemos. Não há memória de suas reportagens ou transmissões radiofônicas ou de televisão. Teve desde muito cedo aproveitado seu talento para liderar grupos e chefiar equipes. Como diretor de departamento, convivia no mesmo diapasão com os colegas e os patrões – Victor Costa, na Rádio Nacional e TV Paulista; Wallace Simonsen, na TV Excelsior de São Paulo; João Saad, na Rádio e depois na TV Bandeirantes; Roberto Marinho, na Rádio e depois na TV Globo; a Condessa Pereira Carneiro e seu genro, Maneco Brito, no Jornal do Brasil. Dirigiu, ainda, o jornalismo da TV Manchete, em São Paulo. E, nos anos 70, foi secretário de Comunicação do governo Abreu Sodré

A paixão pela crônica política, traduzida em artigos publicados nas páginas de Opinião dos jornais pelos quais passou, levou-o ao convívio amigo com poderosos gestores públicos. À mesa do restaurante do Four Seasons, no Hotel Othon, na Praça do Patriarca, em São Paulo, participou da conspiração tecida por Thales Ramalho e Roberto Gusmão para fazer de Tancredo Neves presidente da conciliação nacional no desmanche da ditadura, na eleição indireta do Colégio Eleitoral. Tancredo morreu antes de assumir, mas ele tinha acesso como poucos ao gabinete do sucessor, José Sarney.

Na época da consolidação empresarial da imprensa e dos meios eletrônicos de comunicação, poucos profissionais talentosos tinham como ele conhecimento de causa e respeito pela publicidade, pelo processo industrial e pela administração dos veículos. O toque dessa versatilidade tornou-o importante na consolidação empresarial da Rede Globo e na fixação da vocação pelo jornalismo da Bandeirantes. Dirigiu o Jornal do Brasil no ápice do prestígio do diário nas bancas e no mercado, ao lado de seu parceiro de todas as horas, Walter Fontoura.

Seu instinto de chefiar equipes e a amizade com titãs empresariais o aproximaram muito de Omar Fontana, da Sadia e Transbrasil. Com Mauro e Luis Salles na agência de publicidade dos irmãos, Alcides Tápias, da Febraban, e Rolim Amaro na TAM chegou a dar sua contribuição como executivo experimentado com o trato da notícia e da opinião.

Sem seu talento para chefiar nem organizar, segui-lhe a sombra carreira afora e, quando o negócio da comunicação começou a fraquejar, ele definhou, fiel a seu ofício até morrer em casa, em Santos, aos 80 anos, deixando Tereza Francisca, sua mulher da vida inteira, os filhos Marjan, Guilherme e Rodrigo e cinco netos. Tentarei viver de seu exemplo.

José Nêumanne Pinto

*Jornalista, poeta e escritor

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Para ler o perfil de Mauro na coluna Mortes da Folha clique no link abaixo:

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/02/1854655-mortes-jornalista-discreto-vagaroso-e-de-texto-perfeito.shtml

 

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No Blog do Nêumanne: De volta ao curral onde jaz meu umbigo

No Blog do Nêumanne: De volta ao curral  onde jaz meu umbigo

Lembranças do vaqueiro Eloi e seu patrão Chico, meu avô

O primeiro ponto de referência de minha vida foi a porteira do curral em frente à casa de meu avô materno, onde nasci. Afinal, foi lá que enterraram meu cordão umbilical. Desde muito cedo me contaram isso. Desde muito cedo me acostumei a tirar os paus que impediam a saída das reses e a entrada dos vaqueiros. Nunca tive um gibão, nunca uma perneira, nunca um bornal pra encher de farinha seca e pedaços de rapadura que amoleciam ao sol. O velho Chico Ferreira também não usava os trajes dos meeiros de confiança que apartavam seu gado vacum, levavam-no cedo para o pasto e, ao anoitecer, o traziam para ruminar no leito macio e quente de bosta de vaca. Ao que me lembre, meu avô, magro e míope, muito míope, usava camisas e calças de tecido rústico, sempre muito limpas, com cheiro de sabão de pedra, anis e goma de mandioca, usada para passá-las.

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Eu, gorducho, meio inseguro sobre coxas grossas e pernas bambas, acordava muito cedo para tomar meu café. Carregava com zelo um copo de vidro grosso no qual jorrava o leite gordo da teta que o dono ordenhava com calma, paciência e um amor que exalava por todos os seus poros. Ali era o pai de minha mãe, sua primogênita, o sogro de meu pai, seu sobrinho, ao mesmo tempo seu compadre, pois tinha sido padrinho de meu irmão um ano mais novo.

Foto de mamãe, meu tio Quincas e meu irmão Neudson na Fazenda Rio do Peixe, onde nasci.

Foto de mamãe, meu tio Quincas e meu irmão Neudson na Fazenda Rio do Peixe, onde nasci.

O líquido branco e morno já era despejado sobre o café, que dona Quinou Moreira, minha avó, havia feito na primeira hora, antes de a barra alumiar de rubro e o sol surgir luminoso, forte, quente e ameaçador. Quando meus pais se mudaram para a cidade, um vilarejo à época, o leite chegava em baldes e era fervido no fogão de lenha por minha mãe, Mundica, que o passava de tigela em tigela até atingir minha temperatura favorita, um pouquinho mais quente do que o leite mugido.

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Até seu Chico morrer, e eu tinha apenas 6 anos, contudo, meu desjejum era no curral, ao qual só tinha acesso depois de pisar o chão que ocultava os restos em decomposição de meu cordão umbilical. Isso era muito cedo e o dia se alongava, de forma preguiçosa e lenta, até que eu me juntava ao ancestral para a cerimônia mais esperada do dia. Sentávamo-nos os dois na calçada alta e esperávamos a chegada do rebanho. Ao som dos chocalhos, o sol desmaiava aos poucos, desmanchando-se em cor de sangue. Aquela longa conversa muda entre o velho e a criança se reproduz até hoje em minhas lembranças e em meus gostos.

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Às vezes, muito raramente, o ancião esticava o braço torrado da soleira na direção do ocidente e me mostrava nuvens carregadas ao perder de vista no horizonte:

– Veja, esse menino. Está chovendo em Souza. Pode ser que amanhã chegue por aqui. Estamos precisados.

Quando o dia morria, ouvíamos a voz da mulher, vinda da cozinha:

– Traga o menino pra dentro, seu Chico. É hora da ceia.

O idoso (e ele morreria tão cedo) sacava, então, sua peixeira e a amolava numa pedra, depois rapava uma rapadura que seus empregados traziam da Baixa Verde, sua propriedade no Rio Grande do Norte, onde nascera parte de sua prole, inclusive minha mãe. Despejava a rapadura rapada no prato fundo, acrescentava coalhada e soro. E os dois – o ancestral e parte de sua descendência – comíamos solenemente, em silêncio. Gostaria muito de um dia me lembrar da voz daquele homem tão íntimo de mim naquele tempo, mas ele foi e com ele levou a lembrança de seu timbre amável. Cruzava as pernas, sentava-me no colo e, antes de pitar um cigarro de palha, depositava a criança quieta no banco de madeira ao lado de uma mesa longa, à qual somente nós dois tomávamos assento. Minha avó comia na cozinha, de pé, ao lado do fogão, depois que os pratos dos homens estavam lavados, postos para a água escorrer logo ali ao lado.

Avós paternos Chico Ferreira e Quinô Pinto

Avós paternos Chico Ferreira e Quinô Pinto

Dormíamos em redes, ele no quarto com a mulher, eu na sala, insone pelo tique-taque do pêndulo do relógio de parede que dava os minutos e tocava as horas, contadas em algarismos romanos fora do padrão: quatro era IIII, não IV, como no império dos Césares se grafava. De onde algum desavisado teria tirado essa ideia de subverter o IV com que Marco Aurélio fazia suas contas na Antiguidade longínqua?

Quando chovia, contudo, eu dormia bem, embalado pelo ronco pesado de minha avó, as bátegas açoitando as telhas da casa antiga e o ranger dos armadores submetidos ao peso do velho se balançando para conciliar o sono. Uma vez, já adolescente, morto o avô, a avó surda e implicante ainda viva por um bom tempo, escrevi um poema sobre esta cena doméstica. É o único de todos os meus poemas que sei de cor. E tem o fecho mais comum, menos interessante, mas que me emociona até me levar aos prantos. O poema intitula-se “Na casa avoenga”. E termina com um verso súbito e impaciente: “eta emoção!” Só que o ritmo dos versos não lembra as noites de chuva e paz ou de ronco e vigília. Mas, sim, sempre, a chegada da boiada de volta ao curral, onde apodrece o cordão que me ligava ao ventre materno antes do parto complicado de que vim ao mundo.
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Não sei por que, vou morrer sem saber, talvez nasça de novo e ainda não aprenda por que, com mil e seiscentos diachos, como praguejava seu Chico Ferreira, me senti pessoalmente agredido pelos bondosos defensores dos animais, pelos burocratas do Estado do Ceará que, a poucos quilômetros do alpendre da casa onde minha mãe me pariu, proibiram a vaquejada. Um ministro do Supremo Tribunal Federal me fez a suprema desfeita de decepar um pedaço da infância, a lembrança afetuosa que tinha do pai de minha mãe, com os quais, ele e ela, compartilho feições bem parecidas. Senti-me um irmão distante de Aldo Rebelo quando ele escreveu, na mesma página onde rabisco linhas sobre política no Estadão velho de guerra e paz, um protesto assim lírico e manso como o meu contra a medida Segundo Aldo, esta matou o vaqueiro e o sertanejo, os heróis da saga da conquista dos ermos pelas patas das boiadas da Casa da Torre, dos Garcia d’Ávila, na Bahia.zn5

Lendo o noticiário posterior sobre o pretexto do conflito em torno da vaquejada, que teria ajudado a derrubar Marcelo Calero do Ministério da Cultura, que era contra, e da penada com que o presidente Temer a recolocou no altar da cultura popular, aproximei-me de novo de meu avô materno. E me senti de novo o bebê que Levina, filho de seu Natan, pesou na balança de pesar algodão de meus ancestrais e depois banhou pela primeira vez com sabonete Vale Quanto Pesa. Moradora de meu bisavô coronel, ela era mulher de Eloi, vaqueiro tresmalhado que chegou de Monte Santo, Bahia, onde o beato Conselheiro perdeu a vida para adentrar a lenda.

Ilustração de Marcos Pê

Ilustração de Marcos Pê

Quem sabe essa lembrança com gosto de leite recém-ordenhado no sertão do Rio do Peixe me consiga o perdão dos defensores dos animais, embora talvez seja impossível convencê-los de que, por mais que se esforcem, nunca cuidarão de uma rês ou uma rã tão bem como um vaqueiro do sertão. Seja como for, este idoso com o umbigo amarrado ao curral do avô sempre lhes será grato por terem eles permitido voltar à infância amputada por causa do episódio sem nexo nem razão da proibição da vaquejada. Tengo, lengo, tengo, lengo, tengo, ê boi.

José Nêumanne

José Nêumanne Pinto, poeta, escritor e jornalista, nasceu na Fazenda Rio do Peixe, em Uiraúna, Paraíba.

Imagens:
01. Ilustração de Marcos Pê
02. Recortes do vídeo da reportagem da TV Tambaú feita pelo jornalista José Vieira Neto sobre a vida do Jornalista e escritor José Nêumanne Pinto – 5 de maio de 2007.

 

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