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No Aliás do Estadão: O rendez-vous do sórdido com o sublime

No Aliás do Estadão: O rendez-vous do sórdido com o sublime

Poesia Completa é um livro à altura do fino ofício de Alberto da Cunha Melo

O volume de mil páginas provoca o primeiro impacto: como pode o pernambucano de Jaboatão dos Guararapes Alberto da Cunha Melo ter sido um poeta tão produtivo e copioso nos 65 anos em que viveu? Impacto ainda maior terá o leitor, habituado ou não à arte do romano Horácio (seu ícone e cânone), ao percorrer cada uma delas e nada encontrar que considere jaça. Há ainda, no caso desta Poesia Completa, a inserção do gesto criador, do labor exaustivo do autor, permitindo o acesso a poemas inacabados, esboços ou exercícios poéticos, alguns intocados há décadas: belos diamantes brutos, ainda não lapidados.

poesia completaA poesia publicada em vida do autor foi louvada por críticos respeitáveis. Destaco dentre eles o poeta e professor paraibano Hildeberto Barbosa Filho, que parafraseou Johannes Pfeiffer em Introdução à Poesia: “devido à sua verdade, esta poesia é necessária; devido à sua beleza, é beatificante!” Alberto foi sociólogo e jornalista competente e pontual, mas revelava que essas atividades apenas lhe serviam como fonte de sobrevivência e, algumas vezes, de leitmotiv de seus poemas. Uno e indivisível, é poeta, e a terceira pessoa do singular rege o verbo no presente do indicativo, porque sua poesia atravessa o tempo e ganha uma dimensão que, apesar de todas as honras e gratificações em vida, ainda carece de maior reconhecimento a seu mérito.

A primeira vez que vi falarem dele foi em entrevista de Bruno Tolentino nas páginas amarelas da Veja. O implacável avaliador lançou-o às alturas de maior nome da poética nacional desde João Cabral de Melo Neto. A fé em Bruno me levou a adquirir os livros de Alberto, todos editados no Recife, berço de Cabral e Bandeira, sem penetração no Sudeste. O faro fino do editor Pedro Paulo de Sena Madureira, meu sócio na Girafa Editora, permitiu que a obra imensa e singular circulasse nas metrópoles a bordo de uma edição caprichada e magnífica de O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos. Os adjetivos usados descendem, mais do que do entusiasmo deste autor, da concessão do prêmio para o melhor livro de poesia dado pela Academia Brasileira de Letras em 2007. Debilitado, o poeta não foi à Casa de Machado de Assis recebê-lo e me honrou, como editor, pedindo para representá-lo.

Alberto da Cunha Melo, no lançamento do livro "O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos". Recife: A Girafa, 2006.

Alberto da Cunha Melo, no lançamento do livro “O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos”. Recife: Girafa Editora, 2006.

Certa vez, Astier Basílio, precoce candidato a Arthur Rimbaud de Campina Grande (na comparação feita por Alberto e glosada por outro pernambucano, Jomard Muniz de Britto, que indagou quem seria, então, o Paul Verlaine da Borborema), pôs-me nas mãos um exemplar da edição artesanal de 200 exemplares numerados de Yacala, à beira do balcão do Café Aurora, na Praça da Bandeira, em Campina. Exórdio, o primeiro dos 140 poemas reunidos, sacudiu minha alma como um vagalhão na tempestade: “Levamos fogo, não esponjas, / ao trono sujo de excremento, / disputando o mesmo vazio / de uma estrela no firmamento; // jarros negros e estrelas, tudo / é uma busca de conteúdo; // ou somos renúncia ou cobiça, / atravessando esses planaltos / feitos de cinza movediça; // mas todos estamos em casa, / como os voos dentro das asas”.

Manuscrito da segunda versão do "Exórdio", do livro "Yacala"/ Alberto da Cunha Melo exibe uma matriz de chumbo do seu livro "Yacala". Recife, Gráfica Olinda, 1999.

Manuscrito da segunda versão do “Exórdio” do livro “Yacala”/ Alberto da Cunha Melo exibe uma matriz de chumbo do seu livro “Yacala”. Recife, Gráfica Olinda, 1999.

A emoção desse rendez-vous do sórdido com o sublime se repetiu ao reunir-me a um grupo de atentos e devotos espectadores que lotaram o auditório da Livraria da Vila no lançamento paulistano da obra magna. Entre os presentes, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, professora de literatura, mulher, viúva, a mais completa e mais autorizada crítica (o que permitiu ao poeta conviver com a própria exegeta e permitirá ao estudioso acompanhar neste livro seu processo de criação); Martim Vasques da Cunha, herdeiro de Tolentino, autor do texto da orelha e timoneiro do projeto; e, last but not least, Carlos Andreazza, o bravo editor que trouxe a lume o monumento.

Lançamento do "Poesia completa". São Paulo, 19 de dezembro de 2017: Auditório/ José Nêumanne, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Maria do Carmo Ducco / Carlos Andreazza, Cláudia, Isabel Moliterno, Dionísius Amêndola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha.

Lançamento do “Poesia completa”. São Paulo, 19 de dezembro de 2017: Auditório/ José Nêumanne, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Maria do Carmo Ducco / Carlos Andreazza, Cláudia, Isabel Moliterno, Dionísius Amêndola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha.

Melhor não teria a dizer sobre o livro que não seja o simples reconhecimento de que está à altura da obra que abriga pela fé, pela autenticidade, pela força, pela verdade, pela beleza e pelo compromisso ético com o que há de mais puro, cru e autêntico na arte maior. O cartapácio é o altar digno da obra que merece o mais alto posto no panteão da poesia em língua de Camões e Vieira.

José Nêumanne

  • Jornalista, poeta, escritor e autor de Solos do Silêncio

Resenha publicada no Aliás, neste domingo, 28 de janeiro de 2017.

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No Blog do Nêumanne: Os três enes de meu nome

No Blog do Nêumanne: Os três enes de meu nome

A história secreta da epígrafe no livro póstumo de Ariano, da lavra deste tosco do Semi-árido ao lado de nobre lusitano

Em 1995, meu amigo (e de quem seria, depois, sócio) Pedro Paulo de Sena Madureira, então editor da Siciliano, me fez uma proposta irrecusável: escrever um roman-à-clef (ou seja, um romance a partir de um fato real, mas com personagens com nomes fictícios) sobre o escândalo daquele momento, o roubo feito pelos “anões do orçamento”. Era pegar ou largar. Peguei e não larguei, escrevi.

O livro foi publicado sob o título Veneno na Veia, mas nunca faltou gaiato que mudasse a sílaba fechada por aberta para transformá-lo em Veneno na Véia. Fazer o quê? Certo é que foi publicado e fez algum sucesso de vendas. Por conta disso, a professora Elizabeth Marinheiro, minha confreira nas Academias de Letras de Campina Grande (ALCG) e da Paraíba (ALPB), me convidou para falar dele num seminário sobre literatura que ela promovia no Teatro Municipal de Campina Grande. Escrevi, fui e voltei para casa sem prestar muita atenção naquele texto.

Muitos anos depois, estava escrevendo um editorial já em cima da hora para o Jornal da Tarde, quando a secretária, Cleuza, me chamou ao telefone para atender a outro ilustre confrade na ALPB, Ariano Suassuna. A conversa ao telefone estendeu-se mais do que eu devia e podia manter. Fui obrigado a interrompê-lo.

– Para o que mesmo você está me telefonando? – questionei.

– Então, você está me dispensando? – perguntou, queixoso.

– Não se trata de dispensa. Estou escrevendo um editorial, está em cima da hora para concluí-lo e só atendi porque era você – justifiquei-me.

– É que eu preciso saber se você realmente disse num seminário de literatura em Campina Grande que seu romance mais recente não era de aventuras, mas, sim, o de nossa desventura. Isso encaixa perfeitamente num capítulo de um livro que estou ultimando, aquele que estou escrevendo há 30 anos, e achei que poderia usá-lo. Você permite? – pediu.

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– Ora, Ariano, por que você não…? E soltei o palavrão. Ele reagiu:

– Então, você não autoriza, não, é?

– Homem, esse menino, você acha que eu teria o topete de proibir que você usasse uma frase minha em epígrafe? Só se eu estivesse doido. Faça o que quiser da frase. Nem precisa dizer que ela é minha…

Aí, ele me respondeu com um palavrão mais cabeludo do que o que eu tinha empregado. E ficamos por isso.

Mais um tempo transcorreu e fui à sua casa na Graça, no Recife, convidá-lo para minha posse na nossa ALPB. Nosso encontro estava marcado para as 4 da tarde e temi que ele não pudesse me receber desde que vi o time do Internacional de Porto Alegre, com Tite de técnico, tomando café no hotel onde eu estava hospedado. Então, disse à moça que me recebeu ao portão de sua bela casa senhorial.

– Vim aqui só entregar um convite. Posso deixar e ir embora.

A moça entrou e voltou, misturada sua voz com a narração do jogo Sport X Internacional na transmissão da TV.

– Seu Ariano mandou o senhor entrar.

Entrei, esperei-o um pouco, ele saiu do quarto deixando o televisor ligado e veio logo com a bronca:

– Quer dizer que você vem a minha casa e não quer nem se encontrar comigo, seu malcriado, seu mal ouvido, seu mal educado?

– Não quis atrapalhar seu jogo. Lembra-se de quando nos conhecemos que você me mostrou assoviando sua versão do hino do Sport?

– Sim. Mas estou mesmo precisando falar com você. Não sei se vai dar para ir para sua posse, pois tenho muito trabalho na Secretaria de Cultura do governo do Estado de Pernambuco. E preciso muito esclarecer uma coisa daquela sua epígrafe em meu futuro livro.

– Qual é a dúvida?

– Quantos enes tem teu nome?

– Três.

– Como três?

– Sim, três. Ene-e-u-eme-a-ene-ene-e. Não são três?

– Mas tu és safado desde que te conheço…

Referia-se à noite em que o abordei, em 1967, à porta do Teatro Popular do Nordeste (TPN), quando me apresentei a ele, a sua mulher, Zélia, a seu amigo Hermilo Borba Filho, dono do teatro, e à mulher deste, Leda, à espera do show Memórias de dois cantadores, com Edir e Teca. E estão aí Edir Lima, o Edy Star, que mora em São Paulo e acaba de lançar CD novo, e Teca Calazans, que hoje vive em Paris, que não me deixam mentir.

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Conduziu-me ao quarto contíguo, com cama e máquina de costura, sobre a qual repousavam os originais de seu mui aguardado romance em letras caprichosamente desenhadas em folhas de papel almaço pautado. Nelas brilhavam, graciosamente, os três enes do meu nome composto.

A prova de que escrevo a verdade está na página 343 do romance O Jumento Sedutor, lançado numa caixa e à disposição em todas as livrarias do País. A epígrafe, com a frase da qual não me lembrava mais – nem tinha como, pois não acho o texto da palestra – foi registrada por ele:

“Não é bem um Romance-a-chave, mas clara e decididamente também o é. Certamente não é um Romance-de-aventuras, mas, com certeza absoluta, posso defini-lo como o Romance da nossa desventura. Um Romance-de-gancho, pendurado nas paredes de nossas livrarias como carne em açougue” (José Nêumanne Pinto, aliás, o Zé dos três enes)

Acima fulgura outra epígrafe, da lavra de Almeida Garrett:

“Neste despropositado e inqualificável Livro, não é que se quebre, mas enreda-se o fio das histórias e das observações por tal modo que, bem o vejo, só com muita paciência se pode deslindar e seguir tão embaraçada Teia”.

Ou seja, o danado do Ariano não apenas pôs mesmo a minha frase,como a juntou com outra de Garrett. Isso me lembrou a tarde em que, a convite da poeta Eunice Arruda, fiz uma palestra, e nem me lembro mais  sobre o quê, ao lado do professor de jornalismo Ivan Teixeira, da Universidade de São Paulo (USP), e nela mofei da mania de Luiz Inácio Lula da Silva flexionar advérbios como menos, que este muitas vezes prefere chamar de menas.

O catedrático abespinhou-se:

– Você sabia que o conde Almeida Garrett também flexionava advérbios?

– Não sabia. Mas tenho certeza de que não foi com Garrett que Lula aprendeu a usar menos na forma feminina inexistente menas.

Dificilmente Ariano, eleitor de Lula, riria de minha piada. Mas juro que, ao contrário do que eu esperava, o público do auditório da Biblioteca Mário de Andrade naquela tarde distante rolou de rir, como se fosse mais uma das tiradas do dramaturgo mais engraçado do teatro brasileiro.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, domingo, 31 de dezembro de 2017)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/os-tres-enes-do-meu-nome/

 

Resenha no Aliás, do Estadão: O mártir que morreu três vezes

Resenha no Aliás, do Estadão: O mártir que morreu três vezes

Livro relata a saga de Che Guevara, morto em Cuba, Congo e Bolívia

A paixão assemelha-se a um farol sobre um penhasco cuja iluminação provém de fogo vindo do mais imo do núcleo da Terra. No mar revolto o náufrago pode encontrar nele o rumo da pedra que evite seu afogamento ou, se olhar fixo em sua direção, perder a rota e afundar no pélago. Foi com esse pensamento entre luminoso e tétrico que dei por finda a leitura de As Três Mortes de Che Guevara, de Flávio Tavares.

Final. Corpo do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara exposto publicamente em 10 de outubro de 1967, em Vallegrande, na Bolívia

Final. Corpo do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara exposto publicamente em 10 de outubro de 1967, em Vallegrande, na Bolívia

Só a biografia do autor já recomenda vivamente a leitura. Tavares é um jornalista competente e provado nas batalhas da reportagem cotidiana. Pousou em território mexicano por circunstâncias fortuitas: militante da esquerda armada, sob a égide do socialismo moreno do caudilho Leonel Brizola, também ele gaúcho, foi preso, condenado e torturado nas masmorras da ditadura militar até ter seu nome contemplado entre os guerrilheiros trocados pela vida do embaixador americano Charles Elbrick,  sequestrado por um grupo de românticos aventureiros da Dissidência do Partido Comunista Brasileiro na Guanabara, com a ajuda e as armas da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Embarcou apátrida para Cuba e de lá foi para o México, onde iniciou carreira bem-sucedida de correspondente internacional do jornal Excelsior, fixando-se depois em Buenos Aires, de onde também produziu reportagens como correspondente deste Estado. De sua experiência nos porões da ditadura brasileira extraiu uma obra-prima da literatura da saga guerrilheira, Memórias do Esquecimento, cujo primoroso estilo foi chamado de “Notas de Subterrâneo, de Dostoievski, na América do Sul”, pelo argentino Ernesto Sábato, de inconteste autoridade em matéria de prosa. E não se trata de um elogio descabido.

Com esse cabedal, o autor escreveu Meus 13 dias com Che Guevara, deixando claro desde então que, se Brizola era seu chefe, seu herói era o argentino que conhecera numa reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Montevidéu, em 1961. Ao conhecimento e ao currículo o autor acresceu uma ideia-mãe genial, ao propor o relato das três mortes do mártir-mor da esquerda nos anos 60. A primeira ocorrera em Havana, quando o velho amigo e companheiro de Sierra Maestra Fidel Castro se viu obrigado a se livrar dele para não criar mais problemas com o patrão soviético, que Che havia preterido em prol do inimigo chinês. A segunda se deu no Congo, uma aventura suicida e surrealista em busca de um ideal perdido no continente africano. A terceira, e definitiva, teve lugar num ermo perdido dos Andes bolivianos, onde foi executado. Desde então, sua imagem passou a ser confundida com a do Cristo morto, quadro de Mantegna exposto na Pinacoteca de Brera, em Milão, repetido na imagem da máscara mortuária do guerrilheiro abatido na selva sul-americana.

Alusão. ‘Lamentação sobre o Cristo Morto’ (1475-78), de Mantegna. PINACOTECA DE BRERA/MILÃO

Alusão. ‘Lamentação sobre o Cristo Morto’ (1475-78), de Mantegna. PINACOTECA DE BRERA/MILÃO

Ao longo da narrativa o fogo da paixão de Tavares alumiou o naufrágio de Che Guevara relatado num estilo literário irretocável. Mesmo um leitor afeito à descrição do mártir como um assassino serial bruto e implacável, que Guevara também foi, não se pode queixar em minuto algum da narrativa em que o romantismo da fé se mistura  com a decepção do devoto com a teimosia de “fé cega, faca amolada” do protagonista. Este recusou conselhos sábios de guerrilheiros africanos e nunca pareceu perturbar-se com as evidências de que o velho companheiro Fidel Castro o condenaria à morte para se livrar do estorvo vivo. E, ato contínuo, aproveitar-se de sua transformação em ícone eterno de uma revolução que trocara o romantismo pela boçalidade, investindo na hagiografia de um companheiro sacrificado pela causa comum.

Foto de arquivo. Estadão.

Foto de arquivo. Estadão.

O capítulo sobre o Congo poderia servir de roteiro para um filme de aventuras à feição de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, talvez mais atraente do que a produção sobre a viagem de motocicleta do herói quando jovem. A estupidez inimaginável de nunca ter percebido que caíra numa armadilha quando, tendo aprendido quéchua, foi abandonado numa remota região boliviana em que se falava guarani poderia servir de inspiração a Jorge Semprún, autor do romance A Segunda Morte de Ramón Mercader, em cujo título Tavares se inspirou.

As Três Mortes de Che Guevara provoca uma leitura apaixonante por tudo o que há de verdade e emoção na vida de um líder que alcançou o poder por caminhos improváveis e encontrou a morte pela obstinação cega e inconsequente de um espírito aventureiro, rebelde e autocomplacente.

José Nêumanne Pinto

  • Jornalista, poeta e escritor

Print da página do Aliás, do Estadão.

Resenha publicada  no caderno Aliás no Estadão, em 12 de novembro de 2017.

No Blog do Nêumanne: Nascido para chefiar (texto e áudio).

No Blog do Nêumanne: Nascido para chefiar (texto e áudio).

Mauro Guimarães era um jornalista tão completo que morreu enquanto o ofício definha

Mauro Guimarães era pau pra toda obra em matéria de jornalismo. Devoto de Gutenberg, escrevia artigos sobre política com um estilo límpido e sem floreios. Seus textos críticos eram construídos argumento a argumento, informação sobre informação, palavra por palavra. Eram, sobretudo, caprichados. Caprichadíssimos. Escrevia como Ademir da Guia jogava: lento, calculista, sem firulas nem arroubos. Nada de sentimentalismos. Na medida, para não cansar nem seduzir o leitor com brilharecos ou citações desnecessárias.

Paulista de Jaboticabal, filho de seu Florindo, corretor de café, e de dona Maria, mestra-escola, começou muito cedo na profissão, carregando gravadores pesados da Rádio Paulista em dupla com um amigo que atravessou a vida inteira deste: João Batista Lemos. Não há memória de suas reportagens ou transmissões radiofônicas ou de televisão. Teve desde muito cedo aproveitado seu talento para liderar grupos e chefiar equipes. Como diretor de departamento, convivia no mesmo diapasão com os colegas e os patrões – Victor Costa, na Rádio Nacional e TV Paulista; Wallace Simonsen, na TV Excelsior de São Paulo; João Saad, na Rádio e depois na TV Bandeirantes; Roberto Marinho, na Rádio e depois na TV Globo; a Condessa Pereira Carneiro e seu genro, Maneco Brito, no Jornal do Brasil. Dirigiu, ainda, o jornalismo da TV Manchete, em São Paulo. E, nos anos 70, foi secretário de Comunicação do governo Abreu Sodré

A paixão pela crônica política, traduzida em artigos publicados nas páginas de Opinião dos jornais pelos quais passou, levou-o ao convívio amigo com poderosos gestores públicos. À mesa do restaurante do Four Seasons, no Hotel Othon, na Praça do Patriarca, em São Paulo, participou da conspiração tecida por Thales Ramalho e Roberto Gusmão para fazer de Tancredo Neves presidente da conciliação nacional no desmanche da ditadura, na eleição indireta do Colégio Eleitoral. Tancredo morreu antes de assumir, mas ele tinha acesso como poucos ao gabinete do sucessor, José Sarney.

Na época da consolidação empresarial da imprensa e dos meios eletrônicos de comunicação, poucos profissionais talentosos tinham como ele conhecimento de causa e respeito pela publicidade, pelo processo industrial e pela administração dos veículos. O toque dessa versatilidade tornou-o importante na consolidação empresarial da Rede Globo e na fixação da vocação pelo jornalismo da Bandeirantes. Dirigiu o Jornal do Brasil no ápice do prestígio do diário nas bancas e no mercado, ao lado de seu parceiro de todas as horas, Walter Fontoura.

Seu instinto de chefiar equipes e a amizade com titãs empresariais o aproximaram muito de Omar Fontana, da Sadia e Transbrasil. Com Mauro e Luis Salles na agência de publicidade dos irmãos, Alcides Tápias, da Febraban, e Rolim Amaro na TAM chegou a dar sua contribuição como executivo experimentado com o trato da notícia e da opinião.

Sem seu talento para chefiar nem organizar, segui-lhe a sombra carreira afora e, quando o negócio da comunicação começou a fraquejar, ele definhou, fiel a seu ofício até morrer em casa, em Santos, aos 80 anos, deixando Tereza Francisca, sua mulher da vida inteira, os filhos Marjan, Guilherme e Rodrigo e cinco netos. Tentarei viver de seu exemplo.

José Nêumanne Pinto

*Jornalista, poeta e escritor

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/nascido-para-chefiar/

Para ler o perfil de Mauro na coluna Mortes da Folha clique no link abaixo:

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/02/1854655-mortes-jornalista-discreto-vagaroso-e-de-texto-perfeito.shtml

 

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

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No Blog do Nêumanne: De volta ao curral onde jaz meu umbigo

No Blog do Nêumanne: De volta ao curral  onde jaz meu umbigo

Lembranças do vaqueiro Eloi e seu patrão Chico, meu avô

O primeiro ponto de referência de minha vida foi a porteira do curral em frente à casa de meu avô materno, onde nasci. Afinal, foi lá que enterraram meu cordão umbilical. Desde muito cedo me contaram isso. Desde muito cedo me acostumei a tirar os paus que impediam a saída das reses e a entrada dos vaqueiros. Nunca tive um gibão, nunca uma perneira, nunca um bornal pra encher de farinha seca e pedaços de rapadura que amoleciam ao sol. O velho Chico Ferreira também não usava os trajes dos meeiros de confiança que apartavam seu gado vacum, levavam-no cedo para o pasto e, ao anoitecer, o traziam para ruminar no leito macio e quente de bosta de vaca. Ao que me lembre, meu avô, magro e míope, muito míope, usava camisas e calças de tecido rústico, sempre muito limpas, com cheiro de sabão de pedra, anis e goma de mandioca, usada para passá-las.

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Eu, gorducho, meio inseguro sobre coxas grossas e pernas bambas, acordava muito cedo para tomar meu café. Carregava com zelo um copo de vidro grosso no qual jorrava o leite gordo da teta que o dono ordenhava com calma, paciência e um amor que exalava por todos os seus poros. Ali era o pai de minha mãe, sua primogênita, o sogro de meu pai, seu sobrinho, ao mesmo tempo seu compadre, pois tinha sido padrinho de meu irmão um ano mais novo.

Foto de mamãe, meu tio Quincas e meu irmão Neudson na Fazenda Rio do Peixe, onde nasci.

Foto de mamãe, meu tio Quincas e meu irmão Neudson na Fazenda Rio do Peixe, onde nasci.

O líquido branco e morno já era despejado sobre o café, que dona Quinou Moreira, minha avó, havia feito na primeira hora, antes de a barra alumiar de rubro e o sol surgir luminoso, forte, quente e ameaçador. Quando meus pais se mudaram para a cidade, um vilarejo à época, o leite chegava em baldes e era fervido no fogão de lenha por minha mãe, Mundica, que o passava de tigela em tigela até atingir minha temperatura favorita, um pouquinho mais quente do que o leite mugido.

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Até seu Chico morrer, e eu tinha apenas 6 anos, contudo, meu desjejum era no curral, ao qual só tinha acesso depois de pisar o chão que ocultava os restos em decomposição de meu cordão umbilical. Isso era muito cedo e o dia se alongava, de forma preguiçosa e lenta, até que eu me juntava ao ancestral para a cerimônia mais esperada do dia. Sentávamo-nos os dois na calçada alta e esperávamos a chegada do rebanho. Ao som dos chocalhos, o sol desmaiava aos poucos, desmanchando-se em cor de sangue. Aquela longa conversa muda entre o velho e a criança se reproduz até hoje em minhas lembranças e em meus gostos.

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Às vezes, muito raramente, o ancião esticava o braço torrado da soleira na direção do ocidente e me mostrava nuvens carregadas ao perder de vista no horizonte:

– Veja, esse menino. Está chovendo em Souza. Pode ser que amanhã chegue por aqui. Estamos precisados.

Quando o dia morria, ouvíamos a voz da mulher, vinda da cozinha:

– Traga o menino pra dentro, seu Chico. É hora da ceia.

O idoso (e ele morreria tão cedo) sacava, então, sua peixeira e a amolava numa pedra, depois rapava uma rapadura que seus empregados traziam da Baixa Verde, sua propriedade no Rio Grande do Norte, onde nascera parte de sua prole, inclusive minha mãe. Despejava a rapadura rapada no prato fundo, acrescentava coalhada e soro. E os dois – o ancestral e parte de sua descendência – comíamos solenemente, em silêncio. Gostaria muito de um dia me lembrar da voz daquele homem tão íntimo de mim naquele tempo, mas ele foi e com ele levou a lembrança de seu timbre amável. Cruzava as pernas, sentava-me no colo e, antes de pitar um cigarro de palha, depositava a criança quieta no banco de madeira ao lado de uma mesa longa, à qual somente nós dois tomávamos assento. Minha avó comia na cozinha, de pé, ao lado do fogão, depois que os pratos dos homens estavam lavados, postos para a água escorrer logo ali ao lado.

Avós paternos Chico Ferreira e Quinô Pinto

Avós paternos Chico Ferreira e Quinô Pinto

Dormíamos em redes, ele no quarto com a mulher, eu na sala, insone pelo tique-taque do pêndulo do relógio de parede que dava os minutos e tocava as horas, contadas em algarismos romanos fora do padrão: quatro era IIII, não IV, como no império dos Césares se grafava. De onde algum desavisado teria tirado essa ideia de subverter o IV com que Marco Aurélio fazia suas contas na Antiguidade longínqua?

Quando chovia, contudo, eu dormia bem, embalado pelo ronco pesado de minha avó, as bátegas açoitando as telhas da casa antiga e o ranger dos armadores submetidos ao peso do velho se balançando para conciliar o sono. Uma vez, já adolescente, morto o avô, a avó surda e implicante ainda viva por um bom tempo, escrevi um poema sobre esta cena doméstica. É o único de todos os meus poemas que sei de cor. E tem o fecho mais comum, menos interessante, mas que me emociona até me levar aos prantos. O poema intitula-se “Na casa avoenga”. E termina com um verso súbito e impaciente: “eta emoção!” Só que o ritmo dos versos não lembra as noites de chuva e paz ou de ronco e vigília. Mas, sim, sempre, a chegada da boiada de volta ao curral, onde apodrece o cordão que me ligava ao ventre materno antes do parto complicado de que vim ao mundo.
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Não sei por que, vou morrer sem saber, talvez nasça de novo e ainda não aprenda por que, com mil e seiscentos diachos, como praguejava seu Chico Ferreira, me senti pessoalmente agredido pelos bondosos defensores dos animais, pelos burocratas do Estado do Ceará que, a poucos quilômetros do alpendre da casa onde minha mãe me pariu, proibiram a vaquejada. Um ministro do Supremo Tribunal Federal me fez a suprema desfeita de decepar um pedaço da infância, a lembrança afetuosa que tinha do pai de minha mãe, com os quais, ele e ela, compartilho feições bem parecidas. Senti-me um irmão distante de Aldo Rebelo quando ele escreveu, na mesma página onde rabisco linhas sobre política no Estadão velho de guerra e paz, um protesto assim lírico e manso como o meu contra a medida Segundo Aldo, esta matou o vaqueiro e o sertanejo, os heróis da saga da conquista dos ermos pelas patas das boiadas da Casa da Torre, dos Garcia d’Ávila, na Bahia.zn5

Lendo o noticiário posterior sobre o pretexto do conflito em torno da vaquejada, que teria ajudado a derrubar Marcelo Calero do Ministério da Cultura, que era contra, e da penada com que o presidente Temer a recolocou no altar da cultura popular, aproximei-me de novo de meu avô materno. E me senti de novo o bebê que Levina, filho de seu Natan, pesou na balança de pesar algodão de meus ancestrais e depois banhou pela primeira vez com sabonete Vale Quanto Pesa. Moradora de meu bisavô coronel, ela era mulher de Eloi, vaqueiro tresmalhado que chegou de Monte Santo, Bahia, onde o beato Conselheiro perdeu a vida para adentrar a lenda.

Ilustração de Marcos Pê

Ilustração de Marcos Pê

Quem sabe essa lembrança com gosto de leite recém-ordenhado no sertão do Rio do Peixe me consiga o perdão dos defensores dos animais, embora talvez seja impossível convencê-los de que, por mais que se esforcem, nunca cuidarão de uma rês ou uma rã tão bem como um vaqueiro do sertão. Seja como for, este idoso com o umbigo amarrado ao curral do avô sempre lhes será grato por terem eles permitido voltar à infância amputada por causa do episódio sem nexo nem razão da proibição da vaquejada. Tengo, lengo, tengo, lengo, tengo, ê boi.

José Nêumanne

José Nêumanne Pinto, poeta, escritor e jornalista, nasceu na Fazenda Rio do Peixe, em Uiraúna, Paraíba.

Imagens:
01. Ilustração de Marcos Pê
02. Recortes do vídeo da reportagem da TV Tambaú feita pelo jornalista José Vieira Neto sobre a vida do Jornalista e escritor José Nêumanne Pinto – 5 de maio de 2007.

 

Na APL, falando de Chamie

Na APL, falando de Chamie

Intervenção de José Nêumanne Pinto em reunião do Círculo de Leitura da Academia Paulista de Letras na noite da quinta-feira 26 de novembro de 2015

É uma honra para minha mulher, Isabel, e para mim atendermos a este convite do organizador deste Círculo de Leitura das quintas-feiras na Academia Paulista de Letras, Antônio Clementin, e compor esta mesa neste ilustre plenário ao lado dos acadêmicos Anna Maria Martins e Mafra Carbonieri, além da coordenadora das palestras, Raquel Naveira. Este estado de graça se amplia com o público seleto que veio para cá, no meio do qual peço vênia para destacar as presenças dos acadêmicos José de Souza Martins, lenda viva da sociologia brasileira, professor da USP e de Cambridge, e José Gregori, ex-ministro. Chamo a atenção de todos vocês para o fato de estarmos na Academia Paulista de Letras, à qual Mário Chamie, tema de nosso encontro, pertenceu, o que o honra e honra também a Academia pela dimensão da obra do grande poeta que o paulista de Cajobi foi.

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Vim para cá cioso da missão de falar de Paulicéia Desvairada, texto em prosa da última fase da obra de Chamie. Sou fá absurdo deste livro, mas já avisei tanto a Clementin quanto a Raquel, a Anna e a Mafra, que preferia falar mais genericamente do autor, com quem tive um convívio profícuo e proveitoso para lhes dar a oportunidade de conhecer alguns detalhes da vida e da escrita de Chamie. Ocorre que não sou crítico literário, mas repórter e cronista da vida política e tive a oportunidade rara de conviver, primeiro como fã e depois como amigo íntimo do poeta. Acompanhei a escritura do livro a ser debatido com a intimidade que eu tinha com Mário. Por isso mesmo, pedi licença a eles e agora peço a vocês para lhes dar algumas pinceladas que creio poderem ajudar na leitura crítica dele.
Para começar, venho lhes dizer que as duas pessoas das quais mais sinto falta ao tê-las perdido são meu pai e Mário Chamie. Este foi um intelectual que eu sempre respeitei muito e com quem tinha grande afinidade na discussão de temas estéticos, políticos e gerais. Conheci Mário em minha adolescência em Campina Grande, quando presidia o Cineclube Glauber Rocha. Nesta condição, fiz contato com cineclubistas de João Pessoa, capital de nosso Estado da Paraíba, onde Isabel e eu nascemos. Eles conviviam com a Geração Sanhauá de poetas que receberam a influência da Instauração Práxis, liderada por Mário – entre eles meu amigo Marcus Vinicius de Andrade, maestro, que ficou de vir aqui me ouvir, mas foi impedido por compromissos profissionais. Antes, contudo, de chegar a Mário mantive correspondência com um discípulo carioca dele, Armando Freitas Filho, cujo endereço me foi dado por Marcus. E estabeleci correspondência com Mário, eu em Campina Grande, um adolescente de 16 anos, e ele um poeta consagrado e maduro, morando em São Paulo e liderando um movimento poético de vanguarda. Só pra vocês terem idéia de como sou velhinho mesmo, ainda era o Mário de Lavra Lavra, no princípio de sua atuação conceituada na Poesia Práxis.
Então, quando travei contato com Mário por carta, ele me mandou Lavra Lavra e o livro todo me causou um impacto muito grande – em especial, o poema Arado. Peço licença para lê-lo para vocês

Arado

Ora, o início arar o que se ara. Áspero,
a lâmina fez seu corte exato. Revolve e limpa
o campo e seu lavrado. Na fome de seu aço
faz a fome do roçado. A pedra e o barro, a árvore
e a grama, o rio e a erva, a lâmina faz da terra a
sua receita: outra fêmea pronta para a seiva.

Este poema do Mário está, até hoje, presente em tudo que eu faço: nos meus artigos de jornal, nos meus poemas. Tudo que eu escrevo na vida tem a influência basal desse poema. Quando o li, o primeiro ímpeto foi escrever pro poeta. Armando Freitas me deu o endereço dele e, então, lhe escrevi. Uma ousadia de adolescente: eu só tinha dezesseis anos.

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Muito tempo depois, nos encontramos aqui em São Paulo e ele disse que guardou a carta que lhe escrevi e, então, ele teve a oportunidade de ver sua influência na minha obra quando nos reencontramos. Eu, adulto, ele mais adulto ainda (pra fazer um típico trocadilho do Mário, ele mais adúltero ainda). Aconteceu o seguinte: eu me apaixonei por Barcelona, escrevi 24 poemas sobre Gaudí e Barcelona e tive uma idéia de levar esses poemas para Francesc Petit, na intenção de que ele me conseguisse alguém que os vertesse para o catalão. Mas, para a minha surpresa, Petit, catalão, barcelonês, não falava nem escrevia em sua língua materna. Quem fazia isso era Inês, a mulher dele, brasileira de Catalão, Goiás. Então, pra vocês verem, sempre vivi realmente num circo, num parque de diversões de palavras e conceitos. Daí, o Petit me disse: “José, eu não entendo nada desse negócio de poesia, mas tem um amigo meu, o Mário Chamie, que sabe tudo. Pede pra ele fazer um parecerzinho pra mim de seus poemas. Mário demorou tanto pra fazer esse parecer, ou melhor, pra ler os meus poemas que eu escrevi um livro, Barcelona, Borborema, com 25 poemas sobre Barcelona e 25 poemas sobre Campina Grande, terra natal de Isabel e adotiva minha. Mário escreveu um posfácio consagrador quando aprontei o livro. Só então, percebe claramente que, vaidoso como ele eram fez isso porque observou todo o meu caminhar na poesia a partir desse poema dele, Arado.
Quando Mafra, Anna, Antônio Clementin e Raquel me falaram desta oportunidade de conversar com vocês, eu peguei um exemplar de uma belíssima edição comemorativa do centenário do lançamento num resgate maravilhoso feito pela FUNPEC-Editora, de professor Francisco moura Duarte, um craque da edição e amigo de Mário, lá de Ribeirão Preto. É uma edição caprichada. E agora mesmo, eu peguei a edição cuja capa é a cara do Mário. Pois ela não tem uma imagem, registra somente essas palavras: “Não resta dúvida de que Lavra lavra se tornará um marco na história da poesia brasileira. Atribuo-lhe grande importância. É uma realização. Finalmente chegamos à poética da nova concepção da poesia. Cada poema tem o mesmo tempo, uma linha de rigidez e de elasticidade . O leitor entra ali e gira como um manipulador da obra. As Geórgicas da era industrial. O autor desse texto é, ninguém mais, ninguém menos que Murilo Mendes e este grande poeta mineiro sabia da intimidade de Mário com Virgílio e em geral com a poesia clássica greco-romana.
A contracapa desta edição comemorativa é de outro gênio, maior até que Murilo, Gilberto Freyre. Por falta de tempo resumi o texto ainda maior do pernambucano, que foi colega de Mário no Conselho Nacional de Cultura. Eis o resumom que trouxe pra vocês: “A originalidade de Mário Chamie é plural. Não se repete. Tão diversa se apresenta. Nunca se banaliza. Seu verso incisivo é unicamente seu. Não apresenta parentesco com o de nenhum outro poeta. Através do Mário eu vim a conhecer o Abgar Renault, que escreveu uma coisa muito parecida sobre outro livro de Mário, A Quinta parede, muito posterior a Lavra Lavra. E Abgar escreveu o seguinte: “A Quinta parede oferece uma poesia sem antepassados nacionais ou estrangeiros. Não existe semente que a explique, é autônoma, é poesia absolutamente nova no universo poético brasileiro e, por igual, no conjunto estrangeiro de que tenho conhecimento.”
Quando Petit me reapresentou a Mário, fiquei bravo com este porque levou tempo demais para dar seu parecer. Depois eu o perdoei, até porque me deu tempo para escrever um livro. O livro foi editado, infelizmente não saiu como eu queria, porque eu preferia uma edição trilíngue, em português, castelhano e catalão. Mas saiu a edição é muito bonita com um trabalho gráfico de Petit sobre Barcelona e Campina Grande. E, aí, eu passei a freqüentar uma das coisas mais terríveis que já inventaram na história da humanidade, que era um ninho de cobras que se reuniam em torno da personalidade ímpar de Mário Chamie: Zé Rodrix, Evandro Ferreira, Humberto Mariotti, Aquiles Reis e o Magro, do MPB 4. Marcus Vinicius de Andrade, Marcos Rey e Cyro del Nero faziam parte dessa turma. Alguns deles, como ele, já viajaram sem volta. De todos Mário foi quem fez muita falta, como o faz meu pai, porque o poeta me parecia uma repetição mais velha de mim mesmo. Meu amigo Carlos Brickman costuma dizer que, na calada da noite, costumo ir ao Butantã instilar veneno na língua e o grande cuidado das pessoas que me cercam é evitar que eu morda a língua. Minha mulher, por exemplo, passa a noite com um olho aberto e outro fechado para evitar que isso aconteça. Ela adquiriu esse hábito com o pai, que é pistoleiro, e lhe ensinou a técnica de dormir fechando apenas um olho. Ela faz isso porque, se eu morder a língua, aí será morte instantânea. Mário teve uma grande virtude pra mim, que era ser temperamental, como muito bem disse Mafra, e, mais do que temperamental, ácido, corrosivo, impaciente e irreverente, como eu sou desde menino. Como dizia minha sábia avó paterna, dona Nanita, eu sou maluvido. Quem quiser saber o que significa pergunte a Isabel.
Acho que a grande fase do Mário é a fase final de sua vida, quando ele refinou sua impaciente irreverência. Apesar de também ser muito fã da fase inicial, da Instauração Práxis, acho mais importante a última, esta que se encerra com Pauliceia Dilacerada, A Palavra inscrita, Neonarrativas breves e longas… A respeito destes livros eu quero aqui contar uma intimidade pra vocês. Vou lhes fazer uma confidência: somente duas pessoas sabiam que um câncer havia condenado nosso poeta à morte, o que ocorreria dois anos depois da revelação feita pelo médico. Fomos Lina, a filha única dele, e eu. Neste período, um grupo de intelectuais, do qual nós fazíamos parte, freqüentava a Livraria da Vila, na Vila Madalena. Este mesmo grupo formou-se originalmente na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na esquina da Avenida Paulista e da Rua Augusta, mudando-se depois para a Azteca, nas Perdizes. Esse grupo, do qual há pouco citei alguns nomes, divertia-se muito com os trocadilhos deles. Não sei se vocês conheceram essa faceta dele, muito provavelmente Anna Maria Martins se lembrará de pelo menos dois: “dos Mários o menor” (ele era bem baixinho) e “há Mários que vêm para o bem”.
Anna está me soprando aqui que ele detestava o concretismo. Pois é. Eu me lembrei muito do Mário quando assisti recentemente a uma das maiores canalhices, uma das maiores sabujices, que testemunhei alguém que se diz intelectual fazer na minha vida inteira. Isabel poderá lhes confirmar isso. No meio desta terrível crise moral, econômica e política, na qual o Brasil está afundado e a população inteira sofre com empresas fechando as portas e três mil trabalhadores perdendo o emprego todo dia, o poeta concretista Augusto de Campos foi ao Palácio do Planalto receber uma medalha e bajulou essas sra. Desdilma, aquela que, para nossa desdita, está sempre a se desdizer. No discurso de agradecimento, ele cometeu dois erros brutais mostrando desconhecimento da história e das instituições. Erros que José Gregóri, o mestre Cézar Benevides, que foi reitor da Universidade de Mato Grosso do Sul, e o grande José de Souza Martins, que deu aula em Cambridge, jamais aceitariam.
Primeiro, ele disse que Desdilma era uma heroína, à época da ditadura militar, por ter lutado pela democracia, fazendo, então, parte de seu panteão particular. O cara é um analfabeto. E mentiu. Na verdade, a guerrilheira Dilma Vana Rousseff Linhares lutou, sim, contra uma ditadura militar de direita, mas para implantar outra, de esquerda, não uma democracia. Isso já está plenamente estabelecido na historiografia por depoimentos mais confiáveis de seus antigos companheiros da luta armada. Fernando Gabeira tem escrito fartamente sobre isso. Franklin Martins, seu companheiro de guerrilha, partido e governo, reconheceu esta verdade elementar no depoimento ao documentário Utopia e Barbárie, que Sílvio Tendler dirigiu, teoricamente sobre a utopia ideológica, mas na prática óbvio material de propaganda da campanha de dona Desdilma em 2010. Embora na mesma ocasião, tenha dito outro absurdo quando garantiu que a ditadura durou menos graças á luta dele e de seus companheiros, como Dilma. Mentira! A barbárie autoritária, ao contrário, durou mais por causa da ação deles, por mais generosa e solidária que possa terem tentado ser. Esta é minha opinião. Quem não concorda tem todo o direito de discordar.
O segundo erro diz respeito aos dias de hoje. O poeta bajulou Desdilma, por uma insignificante honraria concedida por um governo agonizante, ao dizer que ela resiste bravamente a uma tentativa golpista de desalojá-la do poder. Na verdade, não há nenhum processo de impeachment aberto contra ela. E, se houver, é contemplado na Constituição e, portanto, faz parte do Estado Democrático de Direito. O imbecil nem sequer foi informado de que o primeiro presidente eleito pelo voto direto, quando a democracia ainda vivia sua fase infantil, digamos assim, Fernando Collor, foi impedido com a atuação do PT de Lula e do PDT brizolista em que Dilma militava. Collor, doido de pedra, foi substituído por Itamar Franco, tido como um “mineirinho” tolo, quando, na verdade, foi o responsável pela maior revolução social da História do Brasil, o Plano Real. Eu, que participei da derrubada de Collor, posso lhes garantir que impeachment não provoca nenhum trauma às instituições do Estado Democrático de Direito: naquela ocasião, tiramos um canalha, ladrão e louco do poder e o substituímos por um cara que entrou pela porta da frente na história do Brasil.
Ao ouvir, portanto, Augusto dizer tanta besteira, fazendo um discurso tão imbecil e tão calhorda, lembrei-me que Mário sempre me disse isso e eu dava um desconto sabendo da briga de juventude dele com os concretistas e de seu temperamento irado e parcial. Mas aquela nauseabunda solenidade palaciana mostrou que nosso poeta lembra mesmo a figura de Albert Camus pelo fato de ambos terem tido razão 30 anos antes de esta razão se configurar e se afirmar na História.
E sobre o Mário pesam algumas aleivosias, algumas calúnias, que se cristalizaram ao longo do tempo. Ao ser informada de que eu viria aqui lhes falar do velho amigo, uma amiga mais recente comentou em e-mail comigo: “pena que fosse malufista”. Malufista Mário nunca foi. Convivi com Mário dos meus 16 aos meus 64 anos e nunca ouvi dele qualquer elogio a Maluf. Por que esse engano prosperou? Por que essa calúnia é repetida incessantemente até por gente que não o conheceu? Vamos esclarecer: Mário foi secretário de Cultura da Prefeitura de São Paulo, escolhido por Reinaldo de Barros, nomeado pelo então governador Paulo Maluf. E, como secretário, foi o responsável por uma obra lapidar na gestão cultural paulistana: o Centro Cultural São Paulo. Não é uma obra monumental como o Theatro Municipal, mas uma obra para facilitar acesso do povo à produção cultural. Acusar Mário de malufista por causa disso seria equivalente a chamar Carlos Drummond de Andrade de fascista por ter trabalhado com Gustavo Capanema no Ministério da Educação do Estado Novo getulista. E certamente CDA não deixou de ser o grande poeta e o grande cara que sempre foi por causa desse trabalho.
A única coisa aproveitável daquela nojeira em palácio é que eu descobri que Desdilma não é disléxica como eu imaginava. Ela é concretista. No caso, com o perdão de quem aqui seja fã dela, é concretina.
Mas voltemos ao Mário. Seu humor corrosivo, com que detratava inimigos como os concretistas, se manifesta muito no que ele escreveu. Em Neonarrativas breves e longas há histórias imperdíveis que ele contava recorrentemente pra seus interlocutores. Por exemplo: voltando ao ódio que ele tinha pelos irmãos Campos. Eu não sei se alguém aqui já leu Neonarrativas. De qualquer maneira, peço licença para contar uma história protagonizada pelo irmão do Augusto, Haroldo. Mário era delegado em Olímpia, no interior de São Paulo e morava na delegacia. Durante alguns dias, foi obrigado a dividir a moradia com um roceiro preso por causa de uma desavença corriqueira com um vizinho de cerca ou de pasto. Pois ele contava, com a maior cara de pau do mundo – e repetiu em curtíssima narrativa impressa no livro (na certa para não perder muitas páginas com o desafeto) que teve pena do matuto e resolveu soltá-lo, mas, para isso, precisava de um pretexto. Pegou, então, um poema de Haroldo e lho deu para ler, prometendo-lhe liberdade imediata se o preso interpretasse o texto para ele. O homem, contava ele, desistiu antes de ler a metade. Preferia ficar preso. Então, essa história é uma história tipicamente do humor do Mário. Até no título: Doutor, prefiro a prisão.
Esta neonarrativa me lembra uma piada que eu fiz à época. Eu lhe contei que aprendi hebraico para ler o Gênesis no original, pois seria mais fácil do que ler a tradução do Haroldo.
No mesmo livro, há também uma história que ele nos contava com muita graça. Jorge Luís Borges tinha ganho a Bienal Latino-Americana de Literatura e, quando veio receber o prêmio, foi ciceroneado por Mário a pedido do Ciccillo Matarazzo. No almoço comemorativo no Fasano, no Conjunto Nacional, Ciccillo ficou muito entusiasmado ao receber um telefonema em que um assessor do general presidente da época agendando uma visita de Borges. Todos aplaudiram e este cochichou para Mário:
– Qué pasa?
Mário, então, lhe contou.
– Ah, que pena! No puedo. Mañana es el cumpleanos de mamacita – disse Borges, num fio de voz.
Tonitroante, repleta de palavrões, a voz de Ciccilo se impôs:
– Que merda! O presidente recebe o filho da puta e o cara não vai porque é aniversário da mamãezinha.
Ele conta também que ele foi encarregado de ciceronear em São Paulo o poeta italiano Giuseppe Ungaretti. Então, ele se dispôs a levar o mais rápido que podia ao diretor do Masp, Pietro Maria Bardi, patrício do visitante. Não conseguiu. Um não aceitava cumprimentar o outro.
– Aquele fascista, não.
E vice-versa.
A frase intitulada o causo.
É claro que o episódio com Haroldo não aconteceu. Contá-la foi uma sacanagem do Mário. Não sei se as outras aconteceram mesmo ou não. Para mim, não importa saber. Este tipo de prosa ao qual Mário se dedicou no fim da vida é muito borgiano. Acho que ele explorou uma vertente da literatura, que está se tornando uma grande escola literária a ser seguida neste século 21. Acho que os caminhos da produção literária no século 20 se bifurcaram. De um lado, Joyce é modelo para os experimentalistas dispostos a esgotar a linguagem, e foi neste lado que se engajou Chamie da Instauração Práxis. De outro, os borgianos que adotam o ilusionismo. Ao ler seus contos, fica difícil estabelecer ali o que é verdade e o que não é. É o caso do prosador idoso de Neonarrativas. E acho mais: Mário radicalizou além do Borges. Nós sabemos que tudo o que Borges escreveu era fantasia exagerando a realidade por conta de sua imensa cultura, muito difícil de ser acompanhada por gente comum, como vocês e eu. Quando alguém lê Mário não fica sabendo o que é verdade, o que é memória e o que é mentira ou simplesmente sacanagem dele. Não é ficção, não é documentário, não é crônica, não é reportagem, mas é tudo junto e misturado, como dizem os jovens hoje em dia.
E, por fim, o grande livro, que eu considero a obra principal do Mário é exatamente Pauliceia Dilacerada, que vocês estão discutindo aqui no Círculo de Leituras. Lavra Lavra é fundamental no meu fazer poética. Eu gosto muito de Caravana Contrária e até gostaria de lhes dizer alguma estrofe coisa deste livro fantástico, que Mário registrou em CD numa finíssima produção de nosso amigo comum Marcus Vinicius de Andrade. Mas acho Pauliceia Dilacerada uma obra-prima, a obra maior de Chamie.
A grande fixação do Mário era a palavra: ele era um feiticeiro da palavra. E o menino de Cajobi sempre foi encantado com São Paulo, com que se desencantaria ao perceber o que a obra dos engenheiros – Prestes Maia e Faria Lima – destruiu os sonhos modernistas de Mário de Andrade. Esse jogo de espelhos (a bênção, São Jorge Borges) em que Mário é Mário assim como Mário é Mário, acrescentado à ideia engenhosa do anagrama Máior para seu alter ego no livro. Mário Máior é uma sacada incrível de vaidade, talento e pose. Aliás, o alter ego se dividia, pois ele também se espelhava no outro Mário, que tanto admirou, apesar de ter conhecido, convivido e admirado mais Oswald, o outro Andrade modernista de São Paulo.
Ao escrever este livro, Mário encarnou Mário de Andrade. E assumiu a luta, o desespero e a angústia de Mário ao ver a cidade utópica modernista da Vila Quirial e dos Campos Elíseos ser destruída pela sanha dos engenheiros que deturparam o projeto do poeta na direção do Departamento de Cultura. De fato, foi absurdo. Eu amo muito São Paulo. Eu sou de Uiraúna, fui criado em Campina Grande, terra de Isabel, morei no Rio, sou Flamengo e Mangueira, mas já vivo aqui há 45 anos, tenho três filhos e um neto paulistanos e eu mesmo me considero paulistano, como o caipira de Cajobi que aqui homenageamos e o paulistano da Rua Aurora que ele encarnou no livro que comentamos. O texto é o registro da angústia de Mário e de Máior, do desmoronamento do sonho do modelo urbano que um teve e o outro viu ser destruído, como pode testemunhar Mafra Carbonieri, este outro caipira que adotou São Paulo, como Mário e como eu, que, vindo do sertão do Rio do Peixe, sou pau de arara.
Mas antes de chegar ao fim eu gostaria de fazer mais observações sobre a vida de Mário Chamie sem referências ao livro aqui comentado. Tenho um grande amigo italiano, Giovanni Ricciardi, tradutor para italiano de obras da literatura brasileira. Ele fez a que eu considero melhor entrevista que Mário Chamie deu na vida. E tenho uma ligação familiar com a Itália. Sou um sertanejo e tenho três netos lombardos. Muitos aqui, como Mafra, são descendentes de italiano, eu sou ascendente. Voltando ao Ricciardi, ele conta na entrevista coisas fundamentais para entender Mário e Pauliceia Dilacerada. Por exemplo: os pais de Mário quando chegaram da Síria falavam árabe e francês, não falavam português. Vieram para Cajobi e não encontraram a parente que pensavam que estava lá. Tiveram de se virar. Eram pessoas letradas e tiveram de plantar para comer. O próprio Mário, criança, arrastou cobra pros pés com a enxada, como se diz lá na terra de Isabel. Ele contou a Ricciardi que a mãe lia a Bíblia em francês. Ele não entendia nada pois usava o português com os amiguinhos de sua idade, mas sentia a cadência, o ritmo, a melodia das palavras da língua lida pela mãe. A língua de Rimbaud e de Voltaire, seus ancestrais literários. E ele incorporou essa cultura francesa. E incorporou também na intransigência seu orgulho de ser descendente de árabes. Isso está registrado num poema magnífico de Caravana Contrária:

Auto-estima

Sou Chamie, venho de Damasco.
Franco-egípcio
é meu passado.
Sírio sou helenizado.
Na intimidade, fazia um trocadilho vulgar: sou sírio, mas sou sério.

A respeito disso Aníbal Augusto Gama fez um poema muito bonito, tendo Mário como protagonista. O título é Encantador de serpentes do livro Herança Jacente. E há uma estrofe que reza:

Em Cajobi, escutou,
ao ângelus da tarde,
a mãe que lhe declamava,
em árabe, a história dos reis barbudos
que penduravam a harpa
nos salgueiros de uma escarpa.

Aqui pra nós, que versos, hein, Anna!? Se eu alguma vez tivesse feito versos bonitos assim nem cumprimentaria vocês.
A partir disso aí também arranquei um poema muito bonito dele – A natureza da coisa, de Horizonte de esgrimas e peço licença a vocês pra ler um trecho aqui já com o tempo estourando.

Amor é a força viva da dor.
Mas a dor de amor
é a força viva do amor,
sombra que morre sem passar,
sol que nasce sem se por.

Eu escolhi este poema para não deixar passar a impressão de que Mário não era capaz de lirismo. Era, sim. Quando soube que eu vinha aqui lhes contar de Mário, o poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, grande exegeta de Drummond, me escreveu: “aqui pra nós, esse Mário era um cara complicado, não era?”. Respondi ao amigo: “Era, não. Mário não era complicado. Era assim como eu, simples. O que ele era – e eu também sou – é encrenqueiro. Ou, como se diz em inglês numa palavra mais exata, troublemaker”. Eu sou assim, procuro a confusão: se encontro um grupo em paz, procuro criar ali um dissenso, uma cizânia, como se dizia no tempo da ditadura militar. Mas sou lírico. E Mário também. Este poema mostra o grande lírico que ele foi. Como este outro que vou ler agora:

Vamos poetizar o poema

Vamos poetizar o poema
e perfumar sua flor
que por dentro
do poema
a flor isenta.

Coisa pétrea
ou coisa seca,
vamos perfumar
essa flor
na placenta do poema
que a penetra como luz
que por dentro
se arrebenta.

A luz do poema
é a voz
que o poema inventa.
Vamos poetizar
essa voz
que a luz do poema
engendra.

O Mário tinha uma mania. Quando ele fazia uma coisa muito bonita, ele a anotava com aquela letrinha bonitinha que ele tinha e lia pra mim. Depois, suspirava e completava: “isso está tão bonito que não pode ter sido escrito por mim”. De vez em quando, banco Mário – e está apu Isabel que não me deixa mentir – e digo o mesmo. Mas até hoje não consegui ainda fazer para ela os poemas lindos que ele escrevia, não é, Isabel?
Mesmo já tendo ultrapassado os 20 minutos a que prometi me limitar a Anna Maria Martins, eu gostaria de tomar mais um pouco de seu tempo para lhes falar de facetas do Mário que não podem esquecidas. Quando eu vinha pra cá, meu editor, José Mário Pereira, insistiu muito comigo para que eu lhes contasse que um querido amigo dele, José Guilherme Merquior, adorava Mário. Procurei e encontrei uma citação ainda do tempo de Práxis, que acho que tem de ser lida para que se tenha uma compreensão completa da obra e da personalidade do poeta de Cajobi. Escreveu Merquior:
“Em seus livros, a linguagem experimental em vez de se comprazer nos ensinamentos gratuitos, dá sempre a palavra ao objeto”.
Antes de terminar, eu gostaria de fazer um registro sobre a jumentice brasileira, que mais atormentou nosso poeta. Um grande amigo comum nosso, o etimologista catarinense Deonísio da Silva, escreveu um elogio fúnebre muito bonito para Mário. E dele eu tirei um episódio revoltante que os dois protagonizaram. “Certa vez me retirei de uma banca de concurso numa universidade porque estava tudo combinado entre quatro dos cinco membros para ele perder a única vaga em disputa. Por ter sido secretário de Cultura da prefeitura da capital à época em que Paulo Maluf governava o Estado, sequer tocaram nos livros e artigos que comprovavam seu curriculum vitae. O resultado é que meu gesto desconcertou tanto os outros membros que não aprovaram ninguém e foi feito novo concurso”. Essas bestas causaram grande dissabor a nosso Mário, mas também enorme prejuízo aos estudantes. Uma filha e uma sobrinha minhas estudaram com Mário na Escola Superior de Propaganda e Marketing em São Paulo e o endeusavam como professor. Era, disparado, o melhor de todos, conforme o julgavam todos os alunos que passaram por suas classes na escola.
E, para concluir de vez, aí sim, vou ler mostrar para vocês um resumo de Mário no livro que contém sua poesia completa, Objeto selvagem. A capa é típica do bom gosto visual do poeta, casado a vida inteira com Emilie, libanesa de origem e mestra-mor do design no Brasil. Com ela teve a filha única Lina, que, embora muito parecida fisicamente com a mãe, era toda Mário. Clarinetista, professora, virou cineasta e fez uma obra-prima de completa originalidade, Tônica Dominante, na qual não filmou um roteiro de ficção nem fez um documentário, mas um filme-poema, baseado em A fábula de Anfion, de João Cabral de Melo Neto, e no Madrigal melancólico, de Manuel Bandeira.
Viro o livro e leio o poema da contracapa que resume tudo o que aqui conversamos:

Objeto selvagem

No espaço do campo, passa o homem e sua miragem.
No espaço da cidade, dorme o homem em sua passagem.
No espaço da consciência, gera o vírus a sua voragem.
Por todos esses espaços, de surda força indomável,
passa o espaço da palavra com a sua selva sem margem.
Na selva dessa paisagem, no centro de sua arena,
age a força do poema, meu objeto selvagem.

Puta que o pariu, como é bonito, como é completo, como é tudo!

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