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Política

Artigo da coluna no Grupo Ric de Comunicação: Autogolpe de Bolsonaro em marcha

Artigo da coluna no Grupo Ric de Comunicação: Autogolpe de Bolsonaro em marcha

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Autogolpe de Bolsonaro em marcha

José Nêumanne

Com leniência do Exército, parte do Centrão comprada e empresários à espera de ajuda, capitão desafia STF

Exemplos de autogolpes na História não faltam ao ocupante do principal gabinete do Palácio do Planalto professores. Adolf Hitler era primeiro-ministro num cambalacho de partidos na República de Weimar quando mandou pôr fogo no Reichstag (parlamento alemão). E se aproveitou da senectude do presidente Paul von Hindenburg para se tornar o Führer (condutor, em português). Com a condescendência do rei Vittorio Emanuele II, o fascista Benito Mussolini usou pobreza e mágoa da Itália, abandonada pelos aliados ricos que venceram a Grande Guerra, para tomar o poder como duce (guia, em português). Deu na Segunda Guerra Mundial. No Brasil, Getúlio Vargas seguiu seus passos e trocou a presidência constitucional pela chefia da ditadura do Estado Novo, em 1937.

Ignorante em praticamente tudo, o presidente Jair Bolsonaro, investido do maior poder republicano com uma votação com mais de 57,7 milhões de votos no segundo turno, deu a dica que faltava para a marcha que Jânio Quadros tentou encetar em 1961 e malogrou. No meio da maior crise sanitária da História, na perspectiva de uma recessão econômica que superará até o craque da Bolsa de Nova York em 1929 e em plena crise política provocada por ele mesmo com o afastamento de Mandetta e Moro do Ministério, ele confessou que levou o País à iminência de um caos institucional. Proibido de trocar o diretor-geral da Polícia Federal, órgão do Estado, e não do governo, muito menos da assessoria pessoal do presidente, para o compincha de seus filhotes malandros, Sua Insolência, em pleno isolamento, insultou o ministro do Supremo Tribunal Federal que interrompeu sua tentativa de intervir na polícia judiciária para blindar o clã. Acusou Alexandre de Moraes de ter dado uma “canetada” de natureza política violando a Constituição, que, dias antes, declarou que encarnava.

Ingredientes para o autogolpe não faltam. Militares juram amor à Constituição, mas fazem vista grossa para seus crimes, como a adesão ao comício pedindo “intervenção militar com Bolsonaro já” no Dia do Exército (19 de abril), à frente do QG do Exército. A quebra de hierarquia, violando a Constituição, foi praticamente autorizada pela Força. Enquanto acusava o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de dar golpe e a pandemia da covid-19 planta cadáveres pelo país inteiro, ele começou a comprar à luz do dia próceres do Centrão, com dois objetivos. Um é evitar que com três quintos dos votos em plenário seja votado um dos mais de 30 processos de impeachment na Casa. Tudo indica que conseguirá. O outro, livrar-se e blindar seus três filhos mais velhos, 01, 02 e 03, o trio nota zero, de incriminação na CPMI das fake news e em processos instaurados pelo STF para investigar o “gabinete do ódio”. Por enquanto, não parece fácil. Será?

*Jornalista, poeta e escritor

(Artigo da coluna semanal no Grupo Ric Mais)

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No Blog do Nêumanne do Estadão: O autogolpe do capitão de milícias

No Blog do Nêumanne do Estadão: O autogolpe do capitão de milícias

José Nêumanne

Quem pensa que tirará a própria casquinha da ditadura em marcha de um mau militar pode tirar cavalo da chuva, pois nela só terão vez a própria família e seus servos cegos, mudos e eunucos

Não pense o incauto leitor que é mera coincidência a sucessão de fatos dos últimos meses na surrealista cena política nacional. Chegou da China a infecção viral terrivelmente contagiante que abate a economia, estressa a sociedade e encerra inocentes numa prisão domiciliar que parece eternizar-se. O presidente sem escrúpulos de uma República insana aproveita-se da ocasião para cometer, como lhe convém no momento, um autogolpe que inverte o secular conceito leninista de Um Passo Adiante, Dois Passos Atrás, estratégia resumida em livro do líder comunista russo Vladimir Ilitch Ulianov lançado em maio de 1904 – há, portanto, 116 anos.

O bolchevique (majoritário, em russo) Lenin teve de esperar 13 anos para chegar ao poder numa “ditadura do proletariado” em seu país, mas o império soviético (de soviete, palavra russa equivalente a sindical) durou 69 anos, 62 depois de sua morte, em 1924. Jair Messias Bolsonaro ganhou a disputa eleitoral presidencial em 2018, 30 anos após haver negociado sua saída impune do Exército nacional, acusado de indisciplina e condenado por terrorismo num cambalacho espúrio para evitar que a própria ficha maculasse a imagem da Força. Sua marcha calculista de recuperar dogmas da ditadura militar, que enlutou a República tupiniquim de 1964 a 1985, contou com a musculatura da própria astúcia e a acomodação comodista dos chefes das instituições que poderiam atrapalhar sua chegada ao objetivo de um desfile na base de dois passos adiante e um passo atrás.

Sua marcha triunfal rumo ao Planalto, condomínio que comanda, legitimamente, com autorização de mais de 57,7 milhões de eleitores patrícios, contou com o próprio desprezo pela vida alheia e um golpe de sorte que infelicita a humanidade em peso, e o Brasil em doses cavalares: o novo coronavírus chinês. Como muito corretamente disse o cronista esportivo e militante de esquerda Juca Kfoury, ninguém pode alegar que o desconhecia. O capitão reformado, de fato, nunca precisou esconder-se na clandestinidade para proclamar seus princípios mortíferos. Em palestra para um grupo da mais abonada elite financeira nacional foi aplaudido com entusiasmo ao descrever sua operação de desfavelização: distribuir de helicóptero, sobrevoando favelas, ditas comunidades pelos politicamente corretos, panfletos avisando aos cidadãos de bem que saíssem. E, em seguida, invadi-las, atirando para matar. Com mais de um ano de mandato presidencial, descreveu sua tática para enfrentar a covid-19, que mobiliza o planeta: permitir o máximo contágio para eliminar idosos e imunizar os sobreviventes. E, como sofismou no domingo 3 de maio, “muitos perderão suas vidas também, mas é uma realidade, e nós temos que enfrentar”.

Esperar do autor de uma frase como essa algum escrúpulo equivale a atirar-se na cratera de um vulcão para refrescar a pele no verão. Os discursos do deputado por 28 anos com louvores ao capitão PM-RJ Adriano Nóbrega, chefe miliciano na periferia carioca, foram ouvidos, gravados e reproduzidos, em 2005. Recentemente apontado pelo Ministério Público como chefe da milícia do Rio das Pedras e articulador do Escritório do Crime, o maior grupo de matadores de aluguel do Rio, Adriano, há 15 anos, já havia sido condenado por homicídio, antes do pronunciamento de Jair Messias, pai de Flávio, no plenário da Câmara. O então parlamentar do PP afirmou ter comparecido ao julgamento do PM, segundo ele, um “brilhante oficial”. Fiel à inversão da tática leninista, ele nunca recuou nem se desculpou por esse “deslize”. Assim como o filho 01, que disse ter ido à prisão condecorar o miliciano por ser este não um homicida condenado, mas um herói da PM. Da mesma forma, o pronunciamento de “seu Jair” ao votar pelo impeachment da petista Dilma Rousseff em 2016 foi um elogio público a outro notório assassino, o torturador Brilhante Ustra, este impune.

Em 2017, pré-candidato a presidente, ele declarou sem medo de ser feliz: “Sou capitão de artilharia. Minha especialidade é matar”. Não consta, contudo, que jamais tenha participado de um combate na vida, nem mesmo os encetados por seu chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno Ribeiro, contra miseráveis haitianos.

Agora, ambos protegem as instalações de um gabinete dito do “ódio”, de onde partem disparos virtuais para assassinar reputações, não de adversários e inimigos, mas de ex-amigos e apoiadores que ousaram discordar das trairagens do chefão. Os projéteis não matam na hora, mas podem ter efeito retardado, como o ataque súbito que causou uma queda e a morte de um ex-auxiliar que virou desafeto, Gustavo Bebianno.

Outra vítima de execuções virtuais do “gabinete do ódio”, a ex-líder do governo no Congresso, deputada federal Joice Hasselmann, atualmente líder do PSL na Câmara, deu um depoimento devastador sobre a atuação de um dos irmãos nota zero, o 02, Carlos Bolsonaro, nesse escritório clandestino no Palácio do Planalto. Desde então, tem sido alvo preferencial dos fuzilamentos. Fazem-lhe companhia o ex-juiz da Operação Lava Jato Sergio Moro e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moras. Moro ousou denunciar publicamente a interferência do presidente na nomeação para diretor-geral da Polícia Federal de seu segurança na parte final da campanha eleitoral Alexandre Ramagem. Moraes alegou “desvio de finalidade” nessa nomeação depois que o próprio chefe do governo confessou cada um dos sete delitos que cometeu, de acordo com a denúncia do ex-ministro da Justiça. O próprio denunciado desqualificou o ex-juiz da Lava Jato como “Judas”, comparando-se dessa forma com Jesus Cristo, em mais um arroubo de imodéstia, cometido depois de ter parodiado Luís XIV com a frase “Eu sou a Constituição”.

No domingo 19 de abril, Dia do Exército, à frente do QG da mesma Arma, Sua Insolência, lixando-se para o isolamento entre governantes mundiais – que comandam o “fique em casa” contra o novo coronavírus – e na política brasileira, avisou que a paciência acabou e não aceitará interferências fora da Constituição exclusiva que ele, sozinho, promulgou.

Nestes últimos dias, a insana república do diz-me-diz relaciona suas reações absurdas ao desespero causado pela aproximação das investigações feitas pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito e do STF de seu trio de filhotes nota zero. No entanto, a segunda manifestação por ele abençoada ocorreu sem nenhuma prisão em flagrante dos vândalos que agrediram o excepcional repórter fotográfico do Estado Dida Sampaio com socos e pontapés. E os alvos do “gabinete do ódio” continuam sendo alvejados sem punição alguma de seus covardes algozes.

Por enquanto, as reações limitam-se a cochichos anônimos da elite dos 400 oficiais de alta patente das Forças Armadas dependurados nos cabides de emprego da generosa máquina de devorar recursos e exterminar reputações da mais alta cúpula da República que não se dá ao respeito. Os ministros do STF, insultados pelas tropas de assalto do nazibolsolulofascismo invocam adjetivos a gosto da retórica sem ação de Cármen Lúcia, Luís Roberto Barroso, Luiz Fux, Gilmar Mendes, Celso do Mello e Marco Aurélio Mello. Os outros, então, nem “tchuns”.

As notas oficiais cheias de boas intenções lembram, como pontuou editorial deste jornal, a sentença suicida de ACM decretando, juntamente com FHC, o sangramento do “porco” Lula na reeleição de 2006. Que garantiu ao PT mais 12 anos, abreviados pelo impeachment de Dilma, de assalto ao erário. Enquanto o capitão de milícias, sem a graça do sargento Leonardo Pataca do genial romance de costumes de Joaquim Manuel de Almeida, compra com dinheiro suado do pagador de impostos a adesão desavergonhada do condenado por corrupção Roberto Alcaguete Jefferson, o “gabinete do ódio” pega, mata e come, como o carcará de João do Vale. E os democratas covardemente acomodados desfilam adjetivos de ocasião com efeito similar ao óleo de cobra que Jair Bolsonavírus vende na Praça dos Três Poderes com placebos como pílula do câncer e cloroquina.

O calculista da morte reduzida a estatísticas tem tudo para ganhar a competição com os covardes vocacionais em sua corrida do autogolpe anunciado com a cumplicidade do ministro da Justiça, André Mendonça, mestre na arte de bajular chefes, exaltando o cadete Cavalão na modalidade da profecia.  E do procurador-geral da República, Augusto Aras, lobo pastorando cordeiros do Ministério Público. Os dois, os filhos e os agressores de profissionais da informação para salvar vidas em carreatas da morte sentar-se-ão à extrema direita do “Bessias” da morte alheia.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 4 de maio de 2020)

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Artigo da coluna do Ric Mais: Moro sai do governo atirando

Artigo da coluna do Ric Mais: Moro sai do governo atirando

 

 

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Moro sai do governo atirando

 

Ex-juiz delatou Bolsonaro, ao comunicar saída do governo jogando artefatos nucleares no mandato dele

 

Com Moro deixa o governo Bolsonaro a ilusão do combate à corrupção Foto: Dida Sampaio/Estadão

Com Moro deixa o governo Bolsonaro a ilusão do combate à corrupção
Foto: Dida Sampaio/Estadão

O ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro disparou uma saraivada de bombas atômicas contra o presidente da República, Jair Bolsonaro, em pronunciamento no qual comunicou seu pedido de demissão do cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública. Por exemplo: acusou-o de praticar duas vezes falsidade ideológica, ao violar o Código Penal e, ao mesmo tempo, cometer crimes de responsabilidade, passíveis de abertura de processo de impeachment pela Câmara para ser julgado no Senado, no ato da demissão do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. “Demissão a pedido”, definiu o decreto assinado por ele e pelo ainda então ministro, Moro. No pronunciamento pela manhã, o ex-ministro disse que não o assinou e o demitido lhe garantiu que nunca pediu demissão. Na resposta dada no fim da tarde, em discurso confuso de 43 minutos, chamado de “coletiva”, o chefe mentiu ao dizer que o ex-diretor-geral da PF comunicou seu pedido de saída por cansaço numa reunião virtual com superintendentes. E a reunião foi cancelada para os seus participantes acompanharem a fala de Moro.

O ex-subordinado fez acusações gravíssimas contra o ex-chefe. Contou que ele lhe disse querer mudar a chefia do órgão de Estado para poder ter acesso a relatórios sigilosos de investigações da PF. Para impedir que isso ocorra sob a nova direção da instituição, o relator dos inquéritos autorizados para devassar fake news e o comício subversivo de domingo à frente do QG do Exército pelo Supremo Tribunal Federal – STF –, ministro Alexandre de Moraes, determinou que os delegados encarregados sejam mantidos. Bolsonaro reconheceu que, de fato, recebe relatórios de informações secretas das Forças Armadas e outras repartições, e não vê por que não possa fazê-lo com a PF. Em que Moro mentiu?

O procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu ao STF um inquérito específico sobre tais acusações para atestar se Bolsonaro realmente cometeu crimes de que foi acusado, entre eles advocacia administrativa, ou se Moro praticou denunciação caluniosa. Como dizem os comentaristas esportivos, agora é ver quem tem mais vasilhame para trocar.

A opção é impeachment ou autogolpe. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, terá uma semana, por decisão do decano do mesmo STF, Celso de Mello, para por, ou não, em votação a autorização, por três quintos dos deputados, para abrir o impeachment. Para conquistá-los, Bolsonaro fez do Planalto balcão para comprar com dinheiro público parlamentares do centrão, que tem maioria no plenário. Assim, evita imitar Dilma, que topou briga com Cunha e perdeu. E repete Temer, que comprou os votos necessários, mas jogou fora a oportunidade de entrar na História como um presidente de respeito.

*Jornalista, poeta e escritor

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Artigo no Estadão nesta quarta-feira: Polícia Federal, uma santinha de pau oco

Artigo no Estadão nesta quarta-feira: Polícia Federal, uma santinha de pau oco

Alçar PF ao altar, como fizeram Bolsonaro e Moro em bate-boca, é ledo engano

Emendar a Constituição com tradições ou ambições corporativistas, como escolha do procurador-geral da República e autonomia administrativa e financeira da Polícia Federal (PF), não garante combate lícito e justo ao crime e à corrupção nem as torna preceitos do Estado de Direito. Tal discussão, que parecia vencida depois da autorização ao presidente Jair Bolsonaro para nomear o procurador Augusto Aras chefe do Ministério Público Federal (MPF) sem que este fizesse parte da lista tríplice encaminhada pelos colegas ao chefe do governo, é reaberta na rumorosa troca do diretor-geral da polícia judiciária da União. As revelações de abusos feitas pelo ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro ao ex-chefe não bastam para legitimar demandas de autonomia dos servidores da instituição.

São abjetas e próprias de um governante que ignora o significado em cada uma de suas letras do termo “impessoalidade”, previsto no Texto Magno, as alegações do ocupante do mais poderoso posto da República. Mais chocante do que o relato de crimes de responsabilidade e outros delitos previstos no Código Penal, a serem usados num processo de impeachment pelo Senado sob a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), ou numa ação penal de apelo à mesma Corte, em ambos os casos com prévia autorização de três quintos da Câmara dos Deputados, foi a forma desrespeitosa como o alvo reagiu. A confirmação abusiva de que a demissão de Maurício Valeixo da direção da PF atendia a uma intervenção política, traduzida pelo eufemismo “interagir”, foi assumida na expressão de desprezo com que ele respondeu à questão em rede social: “E daí?”. O capitão de gravata encerrou o assunto da nomeação do chefe de uma instituição de Estado com o refrão do samba-canção de sucesso de Miguel Gustavo, cujo subtítulo parece profético: “Proibição inútil e ilegal”. E o estilo cafona (que lhe é peculiar) de sertanejo sofrência em queixumes de bolero piorou algo que já parecia cheirar mal.

A resposta dura a essa afronta será dizer: e daí é que acusador e acusado incorreram num erro comum aos dois e generalizado ao tratarem tanto o MPF quanto a PF como se fossem instituições acima das fraquezas humanas. Esse é um engano sesquipedal, principalmente por ter sido cometido por um político que passou 28 anos no Legislativo e por um magistrado de longa carreira que se tornou para alguns um herói nacional e para suas vítimas, um réprobo em batidas de martelo.

Márcio Thomaz Bastos, que também foi ministro da Justiça (de Lula), rotulou a PF de “republicana” para fantasiá-la de instituição acima das querelas partidárias e esconder o fato notório de que nas gestões do PT a repartição pública foi usada para proteger aliados e perseguir adversários, na era pré-Carlos Bolsonaro. A briga pelo acesso aos segredos de inquéritos que devassam práticas criminosas da prole presidencial não dota o departamento de uma imagem de madeira maciça. Ela é a versão envernizada da santinha de pau oco usada por contrabandistas de ouro de Minas colonial para a metrópole.

A PF autônoma à época do PT, louvada por Moro, era apenas uma instituição indisciplinada, com virtudes e defeitos da alma humana dos seus membros, remunerados pelos cidadãos. O louvável trabalho executado por agentes que participaram com ele da Lava Jato não apaga as evidências de sórdidas batalhas intestinas e episódios de indisciplina em outras operações. Se o deputado Eduardo Bolsonaro tivesse dado expediente de rotina no departamento, em vez de fazer carreira política à sombra de papai, recebendo sem trabalhar em gabinete do PTB de Roberto Jefferson, que ora volta a servir ao clã, poderia ter informado a Jair que a associação de delegados que deste cobra autonomia institucional, funcional e financeira vive às turras com outras duas, de agentes e peritos. Autonomia para qual, caras-pálidas? E para quê?

Se o delegado Alexandre Ramagem não tivesse construído sua biografia de policial em cargos decorativos no Parlamento e na Agência Brasileira de Inteligência (quanta inteligência!), talvez pudesse ter informado ao chefão que queixas de cansaço de Valeixo em reunião com superintendentes não justificariam o “a pedido” do decreto de sua demissão. Se nem nisso ele foi capaz de ajudar, como poderia saber que a gestão quase impossível da direção-geral passa mesmo é pela habilidade para fugir ao naufrágio no mar dos cardumes de tubarões? Estes ainda disputam carniça na condição de viúvas de Tuma, PT-raiz dos tempos de Paulo Lacerda, PT grã-fino liderado por Luiz Fernando Corrêa (fiel ao legado de Bastos), PSDB de Marcelo Itagiba e bolsonaristas, que ainda não são capazes de garantir a realização dos sonhos de blindagem dos filhotes pelo dono (provisório) da caneta Bic. Como diria Romário, o craque, não o delegado dos inquéritos que assombram as noites no Palácio da Alvorada, os últimos “chegaram ainda agora e já querem se sentar perto da janela”.

E tem mais: nenhuma instituição armada pode ser autônoma, porque representaria um risco para a liberdade, valor fundamental.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na pág.A2 do Estado de S. Paulo na quarta-feira 29 de abril de 2020)

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No Blog do Nêumanne no Estadão: O coronavírus como arma política

No Blog do Nêumanne no Estadão: O coronavírus como arma política

José Nêumanne

Após demitir a ciência no combate à covid-19 no Brasil, Bolsonaro usa a pandemia como aliada política, vendendo óleo de cobra de que não pode haver impeachment durante crise sanitária

“O comportamento do presidente bateu de frente com a ciência, com o SUS e com a vida. Aí ficou impossível, porque nenhum de nós podia sair das nossas prerrogativas. Ele resolveu substituir o ministro, não o Mandetta. Ele exonerou foi a ciência.” A frase, de autoria do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, proferida em evento do Movimento Brasil Livre (MBL) pode parecer choro de perdedor, mas não tinha como ser mais exata. Ao usar o poder hierárquico, garantido pela Constituição, de demitir o ministro, qualquer um que fosse ele, Jair Messias Bolsonaro mostrou-se coerente em relação a seu comportamento na maior crise sanitária recente da História do País e na promessa de maior depressão econômica da nossa História, quiçá da Terra inteira.

Em março, o capitão de gravata aproveitou mais uma ocasião para bajular seu ídolo, Donald Trump, que definiu a covid-19 como “gripezinha”. E mesmo com o novo coronavírus fazendo um estrago trágico absurdo, que forçou vários administradores municipais a usarem câmaras refrigeradoras para conservar cadáveres e, assim, evitar uma crise local de sepultamentos, ele nunca levou a pandemia a sério. Aproveitou a oportunosa ensancha que lhe foi dada por ela para triturar adversários políticos de uma eleição a ser disputada em dois anos e sete meses e ainda transferir para governadores de Estado e prefeitos a responsabilidade pela crise econômica, que será tanto mais grave quanto maior for o número de vítimas da doença maligna. De fato, ele não desautorizou o ministro que ganhava popularidade administrando o combate ao contágio da forma mais eficiente que podia, tendo em vista as enormes deficiências do serviço público do Brasil. Mas, sim, o conhecimento.  Agarrado à lorota que lhe permitiu escapar da responsabilização pelo desastre econômico após a passagem do microrganismo, ele rasgou recomendações da autoridade sanitária planetária e foi coerente com sua pregação do ignorantismo tirando o chefe da pasta encarregada de seu comando para se travestir de sacerdote de Tânatos, deus grego da morte.

Esse não foi o único pecado mortal cometido pelo chefe do Executivo federal nos últimos dias, terríveis para o Brasil e a humanidade em geral. Aproveitou-se da concentração do noticiário dos meios de comunicação em torno do vírus vindo da China para matar (sua paixão) dois coelhos numa cajadada só: livrou-se de um policial incômodo que o faz perder o sono com a perspectiva de seus filhos investigados serem denunciados, ganhando de lambujem o afastamento de outro ministro popular, forçando atitudes que não teria coragem de adotar na normalidade.

E mais: imediatamente depois disso passou a usar a atual tragédia sanitária e a eventual depressão econômica que ela produzirá para evitar quaisquer movimentos institucionais que ameacem sua condição de ocupante do maior poder da República com o argumento de tornar caos institucional a urgência de salvar vidas. Não imagine o incauto leitor que houver nessa crise, em particular quem considere seu governo acima de qualquer outro bem vital da democracia, que este está sendo o mais sórdido de seus movimentos. Ao mau militar que negociou sua retirada do Exército no mais baixo grau do oficialato para evitar escândalo que constrangesse seus então comandantes encostou seu barrigão de “atleta” no balcão do palácio para comprar seu salvo-conduto de permanência no poder com verbas públicas oferecidas ao centrão, conjunto de organizações partidárias criminosas dedicadas ao furto do erário precário.

Antes de pagar, conseguiu provas incontestes de que sua tática surtiria efeito. Roberto Jefferson, cujo currículo é emporcalhado pela dupla condição de corrupto condenado, em cumprimento de pena vigente, e delator de seus companheiros de quadrilha, providenciou em passado distante emprego público para seu filho 03, Eduardo, em gabinete de Brasília, enquanto frequentava aulas no Rio. Acabou de visar o passaporte dele para ficar. De olho no Ministério do Trabalho, talvez para dá-lo de presente à filha, Cristiane Brasil, impedida pela Justiça de servir de cambalacho com Dilma, do PT. Talentoso advogado de criminosos do Estado do Rio, o prócer não se esquivou de aderir à luta contra o impeachment do baluarte da nova política, que apodreceu antes da velha, contrariando as leis da finitude na biologia com uma declaração bombástica: “O presidente só sai à bala”. Não se sabe se isso era garantia de vida ou ameaça de morte. É um pacto de sangue entre malandros que se entendem e por isso não se sabe se um ou outro cumprirá o pactuado.

Jefferson foi a cereja do bolo. Neste há ingredientes tão podres quanto ele. Acorreram ao balcão Valdemar Costa Neto, do PL, como Jefferson usando tornozeleira após passagem por cela, e Ciro Nogueira, atual presidente do partido da joia da coroa da corrupção pátria, Paulo Maluf. Arthur Lira, personagem da devassa da Operação Lava Jato, aceitou dar prova inquestionável de sua adesão num selfie que mandou para a mulher. Candidato à sucessão, na presidência da Câmara, de Rodrigo Maia, mais novo inimigo da saraivada de tuítes e zaps disparados do “gabinete do ódio”, comandado por Carlos Bolsonero, o incendiário que torra as mais sólidas reputações do País. Como, no momento, a reputação do ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça e da Segurança Pública Sergio Moro. Outro pretendente a terceiro na linha sucessória presidencial, Marcos Pereira, teve prometida preferência na disputa, mas o encontro não foi filmado e o parceiro de buraco ficou sabendo que o ainda poderoso chefão o rifou, temendo ser traído, obsessão de todo traidor contumaz.

A agenda do Palácio do Planalto na vigência desta “nova” nova política, que apodreceu e desmilinguiu antes de envelhecer, traz novidades interessantes. Pelo centrão também foi ao balcão o deputado Wellington Roberto, que protagonizou a falsificação da assinatura do senador Jorginho Mello e do presidente de seu partido, o PL, Valdemar Costa Neto, numa votação simbólica, ou seja, só de líderes. Ele levou experiência antiga na prática de ilícitos. Na infância, segundo contam amigos da família, ajudava o pai a diminuir o peso de sacas de açúcar, fórmula bem-sucedida para engordar o patrimônio familiar. Não à toa, dias depois a assinatura do então ministro da Justiça, Sergio Moro, foi falsificada no decreto em que foi demitido o então diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo.

Dois outros frequentadores do balcão, Efrahim Moraes, conhecido em seu Estado como Éfraquim, do DEM de Maia e Alcolumbre, e Baleia Rossi, líder do MDB de Renan Calheiros, saíram afinados com a canção favorita dos cetáceos. Pediram juízo por causa do coronavírus. Sua Insolência não retirou sua negação à pandemia, pois covid-19 é gripezinha, resfriadinho, e o impeachment dele não pode ser votado por causa da prioridade nacional de combater o coronavírus. Efrahim e Baleia exageram no bolsonarismo de balcão e tornaram-se mais desumanos do que ele.

Gilberto Kassab, dono do PSD, também foi honrado com uma visita ao balcão do capitão. A presença, como sempre, discreta, do ex-prefeito de São Paulo, que foi ministro de Dilma até o dia da votação do impeachment dela e de Temer no primeiro dia do governo depois do “gópi”, deve ter propiciado boas perspectivas para o Messias da “nova” farsa, que apodrece, mas não fenece. Este votou nos três julgamentos de impeachment a que compareceu: para defenestrar Collor, que renunciou diante do inelutável, Dilma e Temer. Só o paulista sobreviveu às tentativas de Rodrigo Janot, então procurador-geral e seu inimigo. Para isso contou com a ajuda de toda essa tropa que o atual presidente convocou para se salvar e, assim, se tornar o único beneficiado pelo coronavírus do planeta.

Minha avó dizia que quem tem padrinho não morre pagão. O presidente desta tresloucada República em que o ignorantismo é prova de sabedoria desempenha função primordial para mostrar que quem marca, tange e toca um gado cego, idólatra e fiel consegue ir sobrevivendo. Mesmo com todas as evidências de delitos contra o Código Penal e crimes de responsabilidade, que pululam como o vírus que veio de Wuhan no testamento do juiz paranaense à saída de seu governo. Mesmo que seu óleo da cobra não tenha salvado milhares da covid-19. Isso não prova que não houve tragédia, mas, sim, dois são mais do que três nos quintos do inferno.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 27 de abril de 2020)

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Coluna semanal para o site Ric: Sob o comando de Bacamarte

Coluna semanal para o site Ric: Sob o comando de Bacamarte

 

Artigo da semana passada para a coluna do Ric Mais

 

 

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Sob o comando de Bacamarte

José Nêumanne

À espera da realização do milagre brasileiro da produção de testes rapidíssimos que detectam, remédios que curam e até uma vacina contra covid-19, Bolsonaro emula O Alienista

 

O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, o astronauta Marcos Pontes, anunciou no setor de pesquisas da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, que o Brasil se prepara para testar rapidamente casos de covid-19 e remédios para curá-la. Isso está para acontecer nos próximos dias, enquanto a vacina pesquisada no Brasil foi prevista para ser testada no ano que vem. Com o desdém com que a pesquisa científica tem sido tratada no Brasil recentemente – em especial durante o governo de que faz parte -, será o feito mais espetacular da História do Brasil. Ou seria?

O astronauta brasileiro, que conheceu o cosmos em passeio numa nave russa, está mais perto do folclore do que das sofisticadíssimas ciências exatas. No momento em que ele fazia o anúncio, o mundo foi informado que as maiores potências científicas – EUA, Comunidade Europeia, China e Rússia – estão numa corrida desesperada contra o novo coronavírus, que é tido como muito perigoso, até porque não se deixa conhecer. Nenhum epidemiologista com carreira de respeito aventura-se sequer a dar informações básicas sobre o desempenho do microrganismo que abala o mundo e produzirá brevemente uma verdadeira revolução em hábitos e costumes. De certeza, só se sabe que, por causa dele, a economia mundial sofrerá um abalo que agora já está sendo comparado com o craque da Bolsa de Nova York em 1929. Se não for ainda pior.

Se esses medicamentos produzidos em nossos laboratórios ganharem a corrida contra ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina, isso na certa vai produzir um enorme alívio e também uma surpresa fenomenal. E o ministro Pontes ganhará renome mundial pelo simples fato de haver revelado em primeira mão tal perspectiva. Por enquanto, o único elogio que pode ser feito ao astronauta brasileiro é o de que pelo menos ele tem mais juízo do que o chefe que o nomeou para uma pasta na qual pousou de paraquedas. Na entrevista em que anunciou o inesperado milagre de Santa Dulce dos Pobres, ele defendeu o isolamento social, adotado por governadores e prefeitos brasileiros, que, por isso mesmo, têm sido execrados pelo presidente Jair Bolsonaro, que pôs o País, já em guerra contra a pandemia universal, numa destrutiva, desnecessária e nociva guerra eleitoral, de olho na eleição presidencial marcada para outubro de 2022, ou seja, a dois anos e sete meses do anúncio de seu subordinado. Que pode ser uma notícia excepcional, em todos os sentidos da palavra, ou simplesmente uma barriga cometida por um leigo disputando um lugar ao sol no noticiário no qual tem merecido um lugar secundário, embora ocupe um posto relevante no governo federal neste mundo que venera a ciência e a tecnologia de ponta.

Neste instante, em que o presidente da República assusta a Nação tentando forçar o fim do isolamento social, não deixa de ser meritório que ele tenha tomado a posição correta, apoiada por praticamente todos os governantes do mundo, regidos pela Organização Mundial da Saúde, da ONU. Afinal, o presidente da República, que já tinha atuado como se fosse mais um “homem da cobra”, vendendo mezinhas caseiras em feiras livres e praças públicas, como “pílula do câncer” e diaxiclorofina, em combate permanente que todo preguiçoso ignorante trava contra o conhecimento científico, que exige inteligência, paciência e dedicação, figura entre as quatro exceções de um mundo obediente ao “fique em casa” em todas as línguas. A conceituadíssima revista britânica The Economist já o tinha comparado com três histriões do combate contra a medicina e o conhecimento científico em geral. São eles: o presidente da Bielorrússia, república que fazia parte da extinta União Soviética, Aleksander Lukashenko, que recomendou saunas e vodca contra o novo coronavírus. No Turcomenistão, outra ditadura de um herdeiro asiático do georgiano Josef Stalin, o mandachuva Gurbanguly Berdymukhamedov, que proibiu o uso do termo “coronavírus” no país. E o ex-guerrilheiro e ditador comunista da Nicarágua, Daniel Ortega, organiza aglomerações como no fim de semana da Páscoa e, como o primeiro citado, ainda mantém em atividade as ligas esportivas, mas não é visto há mais de um mês. Em texto de opinião assinado por um comitê editorial do Washington Post, jornal que revelou aos EUA e ao mundo, os papéis do Pentágono, contando bastidores da intervenção dos EUA no Vietnã e o escândalo Watergate, que derrubou o presidente Richard Nixon, escrachou o “mito” dos bolsonaristas sob o título “Líderes arriscam vidas minimizando o coronavírus. Bolsonaro é o pior”.

Neste país, que enfrenta a covid-19 com mísero total de testes, e aproxima-se do colapso do sistema público de saúde nesta segunda quinzena de abril e em maio, Bolsonaro, que tem como principal bandeira administrativa o rearmamento, torna-se na vida real êmulo de Simão Bacamarte (arma de fogo hoje inexistente), psiquiatra inventado pelo gênio da raça Machado de Assis na novela O Alienista, que solta os presos do manicômio fictício que dirige e nele aprisiona os sãos. Só se for confirmada a notícia que deu, seu astronauta favorito provará que o chefão tem razão.

*Jornalista, poeta e escritor

(Artigo para coluna semanal do grupo Ric Mais Comunicação)

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