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Política

Coluna semanal do Ric Mais: Marinho complementa Moro

Coluna semanal do Ric Mais: Marinho complementa Moro

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Marinho complementa Moro

José Nêumanne

Em entrevista e depoimentos, ex-aliado de Bolsonaro amplia alcance das acusações de ex-juiz

O empresário carioca Paulo Marinho, que emprestou sua casa para a gravação de programas da campanha de Jair Bolsonaro à Presidência, contou a Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que o primogênito do chefão, Flávio, respondeu à questão feita pela Nação sobre motivos pelos quais o capitão é obcecado pela superintendência da Polícia Federal (PF) no Rio. O filhote dito 01 contou-lhe que três assessores dele ouviram de um delegado bolsonarista da PF que a Operação Furna da Onça foi deflagrada depois do segundo turno da eleição para não prejudicar o então candidato do PSL à Presidência. Marinho contou aos jornalistas que apresentou “elementos” (provas) em dois depoimentos à PF. Não havia dúvida de que Moro não mentiu ao acusar e, ao fingir defender-se, o próprio presidente comprovou tudo. Mas a entrada desse personagem novo acabou por dar toda a razão ao ex-ministro da Justiça e tornar as tentativas de responder do senador mera galhofa.

O corpo mole da Procuradoria-Geral da República (PGR) transforma o dublê de advogado Augusto Aras em “puxa-saco presidencial” de uma republiqueta de bananas (egressas do Vale do Ribeira, onde JB nasceu) se continuar se negando a oferecer denúncia sobre o chefe do Poder Executivo, apesar de todas as evidências. À saída do segundo depoimento, um dos inquiridores do empresário deu mais uma razão a essa hipótese ao declarar aos repórteres que o Ministério Público Federal não poderia investigar a denúncia de O Antagonista de que contas bancárias do acusador foram devassadas “informalmente” pelo Coaf, hoje órgão do Banco Central, sob comando do PR. Afinal, a devassa teria sido “informal”. O sub-relapso é Eduardo Benones, fiel à linha do relapso-mor.

Pelo que já se sabe do caso, é possível que sejam instalados com urgência, no Senado, processos de impeachment do presidente, do senador das milícias e do “puxa-saco presidencial”. Para os dois primeiros, a Câmara terá de autorizar, com dois terços dos votos. Para comprar o terço de votos necessários para os dois primeiros escaparem de punição o principal denunciado desembolsa no momento R$ 86 bilhões de orçamentos de FNDE, Banco do Nordeste, Codevasf e Dnocs. A famiglia Bolsonaro nunca teve dificuldade para usar dinheiro público em proveito próprio. No rastro da denúncia de Marinho foi publicado que um dos assessores de Flávio que conversaram com o vazador bolsonarista da PF, o advogado Victor Granado Alves, recebeu R$ 500 mil do PSL, cujo diretório no Rio era presidido pelo primeiro filhote, na base de R$ 40 mil por mês, subtraídos do Fundo Partidário, para honrar honorários privados do clã. Como o partido não está sob controle da famiglia, não será impossível comprovar esse dano ao erário.

  • Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: Marinho encalacra Bolsonaro de vez

No Blog do Nêumanne: Marinho encalacra Bolsonaro de vez

José Nêumanne

Entrevista de empresário cria quatro problemas novos para presidente: é verossímil, revela crimes gravíssimos, encaixa-se em fatos notórios e permite cassação de sua chapa na Justiça Eleitoral

A entrevista do empresário Paulo Marinho à colunista Mônica Bergamo, publicada na Folha de S.Paulo de domingo 17 de maio, tem um efeito de bomba de hidrogênio sobre o destino do presidente da República, Jair Bolsonaro, e, em consequência, de suas vítimas, cidadãos brasileiros.

Bolsonarista de primeira hora, com relevantes serviços prestados ao vencedor do pleito presidencial, entre os quais a cessão de sua mansão no Rio para servir de quartel-general da comunicação da campanha da chapa formada por dois militares, o próprio e o vice, general Hamilton Mourão, o entrevistado contou um fato de inegável verossimilhança. Disse que o filho do capitão, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, lhe contou que um delegado da Polícia Federal (PF) vazou a informação sigilosa de que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) encaminhou à Operação Furna da Onça, da Lava Jato, relatório sobre movimentação de R$ 1,2 milhão em contas do caixa informal do clã, Fabrício Queiroz.

No relato, Marinho ofereceu, de lambujem, mais quatro testemunhas: o ex-coronel Miguel Braga, chefe de gabinete do 01 de Jair, hoje senador; a funcionária Val Meliga, de sua total confiança e irmã de dois milicianos presos na Operação Quatro Elementos; e os advogados Victor Alves, que até hoje trabalha no gabinete do senador, e Christiano Fragoso. De acordo com o entrevistado, o encontro do primogênito do presidente com ele e Christiano Fragoso, que ele mesmo havia indicado ao então presidente eleito para cuidar do caso, ocorreu na quinta-feira 13 de dezembro de 2018 na casa que serviu de estúdio na campanha deste.

A versão apresentada pelo filho 01 do presidente foi de que o ex-coronel Braga, o advogado Victor e a funcionária Val foram ao encontro marcado por telefone com o policial à porta da sede da PF na Praça Mauá.  O delegado ­– que, segundo a repórter Thaís Oyama, do UOL, autora do livro Tormenta, contendo bastidores do governo federal, atende por um apelido, e não é o ex-segurança do presidente depois do atentado em Juiz de Fora, Alexandre Ramagem – narrou-lhes sobre “milhões movimentados” por Fabrício Queiroz, que administrava o gabinete do 01 na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), apontados pelo Coaf como suspeita “movimentação ilícita”.

O delegado disse ainda que a operação estava sendo adiada para depois do segundo turno para não prejudicar o então deputado federal na eleição presidencial pelo PSL. E sugeriu que fossem demitidos Fabrício, do cargo de “assessor parlamentar 3” que ocupava no gabinete da Alerj, e sua filha Natália, que era “secretária parlamentar” no gabinete do pai.

Pai e filha foram demitidos em 15 de outubro. Esse fato particular viria a conhecimento público após a publicação pelo Estadão do primeiro furo jornalístico sobre o episódio, em 6 de dezembro, com a revelação do documento do Coaf e do inquérito do Ministério Público (MP) e da PF em reportagem de Fábio Serapião no blog de Fausto Macedo. O escândalo, contudo, não mobilizou os políticos a ponto de adiar a posse da chapa vencedora nem de perturbar os primeiros 500 dias do governo federal. Apesar das desculpas esfarrapadas que sempre inspiram notas oficiais da família presidencial tentando defender o indefensável. Argumentos estúpidos como o do senador alegando que a publicação motivava prejudicar a gestão do pai presidente. E o conto de carochinha sobre um depósito de Fabrício na conta de Michelle, sua mulher, como pagamento de parcela de uma dívida do assessor com ele. Que caradura!

Só que o caso pôs em evidência suspeitas conexões de pai, filho e seu trêfego espírito de porco com as milícias que disputam com o tráfico de drogas o poder paralelo na periferia miserável do Rio. Fabrício, que serviu na brigada de paraquedistas com Jair Messias e se tornou amigo íntimo dele e conviva de churrascos e pescarias, é suspeito de ter prestado serviços a milicianos. E não é a única conexão entre a família do presidente e tal prática criminosa. O 01 condecorou o capitão miliciano da Polícia Militar Adriano da Nóbrega com a Medalha Tiradentes, da Alerj, alegando tê-lo como herói do Bope. Mas o “comendador” já estava, na ocasião, preso por homicídio. Nessa condição também teve o privilégio de contar com o deputado Bolsonaro em seu julgamento, o que propiciou ao parlamentar um emocionado discurso em sua defesa na tribuna da Alerj. Mais tarde, “seu” Jair viu-se enredado na execução da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, por ser vizinho de condomínio dos acusados da execução do crime pela polícia estadual, Ronnie Lessa e Élcio Queiroz.

  O capitão miliciano foi assassinado covardemente por tropas policiais baianas com ajuda de agentes da polícia estadual fluminense, em Esplanada (BA). Até agora os agentes do governador Wilson Witzel e o MP do Rio não revelaram os mandantes do assassinato da vereadora do PSOL e de seu motorista, em 14 de março de 2018. Nada também têm a dizer sobre a eventual queima desse arquivo em 9 de fevereiro de 2020.

Aliás, o MP do Rio nunca explicou por que Fabrício Queiroz ainda não depôs no inquérito cuja abertura foi adiada, conforme a elucidativa e definitiva entrevista de Marinho, que acaba de fornecer uma peça aparentemente pequena do quebra-cabeça que foi escondida da sociedade brasileira nestes últimos anos, apesar de todas as evidências do envolvimento do clã Bolsonaro. Agora chegou a hora da elucidação total de um caso horrendo e mantido oculto por desfaçatez e falta de caráter de todos. É uma caixa de Pandora da qual o empresário carioca entregou a chave. Para ser aberta se demanda mais vergonha na cara do que coragem.

A Nação exige comportamento diferente do oportunista procurador-geral da União. Augusto Aras, que tem poupado o presidente da República com tanto zelo que passa a merecer a mudança da denominação de seu alto cargo de procurador-geral da República para “puxassaco-presidencial”. Depois que Bolsonaro prestigiou e apoiou manifestantes golpistas pela terceira vez, um à frente do QG do Exército e dois na Praça dos Três Poderes, ele “passou o pano”. Mas pode recuperar o terreno perdido se  aproveitar a oportunosa ensancha dada por Paulo Marinho e incluir sua entrevista no inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a seu pedido, para investigar as graves acusações feitas pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro contra o ex-chefe. Para isso teria de apensá-la pelas evidências oferecidas pelo clã no poder republicano. Fatos, apenas fatos.

As questões são óbvias. Por que Bolsonaro disse que seu sonho era fazer do presidente da Agência Brasileira de Inteligência (quanta estupidez!), Alexandre Ramagem, diretor-geral da PF? Por que nomeou para esse posto o obscuro lugar-tenente dele, Rolando (Lero) Alexandre de Souza, após ter tido o sonho interrompido pelo ministro do STF Alexandre de Moraes? Seria Fabrício Queiroz a pessoa à qual se referiu ao tentar impedir que ferrassem (perdão pelo eufemismo) sua família e seu “amigo”?

O depoimento de Marinho não surpreende. Este autor já se referia ao saco de gatos briguentos que é a PF (petistas de Paulo Lacerda, tucanos de Marcelo Itagiba e viúvas de Romeu Tuma) no livro O que Sei de Lula (Topbooks), editado em 2019. No artigo Polícia Federal, uma santinha de pau oco, publicado no Estadão em 29 de abril passado, constatei as novas alas de petistas grã-finos liderados por Luiz Fernando Corrêa, discípulo de Márcio Thomaz Bastos e o mais longevo diretor-geral da história da instituição, e bolsonaristas, agora, ao que parece, sob a batuta de Alexandre Ramagem. A entrevista, talvez provocada pelo risco de seguir o destino do capitão ex-herói do Bope ou de um enfarte como o que calou seu amigão Gustavo Bebianno, mas também por uma respeitável coragem de enfrentar suas responsabilidades, que dá lógica e possivelmente consequências a fatos que não deviam mais ser escondidos da cidadania.

Assim como é o caso do vídeo de uma reunião com 40 pessoas, nem todas altas autoridades, em que o governo Bolsonaro, que acompanha, impassível, a morte de 16 mil brasileiros, mostra não ter honra, juízo, empatia e pudor para administrar esta crise sanitária, econômica, política e social. E usada criminosa e covardemente como estelionato eleitoral. Seja qual for a sentença – anulação da chapa pelo Tribunal Superior Eleitoral, condenação por crime de responsabilidade no Senado ou comum pelo STF –, sua impunidade envergonha mais o Brasil do que os nefastos frutos dessa safra de ódio, despudor e desmandos.

·        Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 18 de maio d3e 2020)

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Coluna semanal do Ric Mais: O bajulador-geral da República

Coluna semanal do Ric Mais: O bajulador-geral da República

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O bajulador-geral da República

José Nêumanne

Procurador-geral volta aos tempos de dublê de advogado para servir a quem pode levá-lo ao STF

Qualquer advogadozinho de porta de cadeia – até mesmo o rábula petista que ora ocupa a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) – se daria por mais que satisfeito com as provas que o presidente da República, Jair Bolsonaro, dá para justificar todas as acusações feitas contra ele por Sérgio Moro. Era de imaginar, então, que o ex-advogado e atual procurador-geral, Augusto Aras, não perderia o expediente para buscar pelo em ovo no parecer encaminhado ao decano daquela instituição, ministro Celso de Mello, ao fazer considerações aleatórias sobre temas que não são de sua alçada. E pior: para as quais não dispõe de prova nenhuma.

Primeiro, ausentou-se da sessão para a qual foram convidados o Ministério Público Federal (MPF), que chefia, a Advocacia-Geral da União (AGU), à qual parece prestar serviços extraordinários, o acusador Sergio Moro e sua defesa, demonstrando nítido desinteresse pelo assunto em pauta. E, depois, produziu esta pérola: “O procurador-geral da República não compactua com a utilização de investigações para servir, de forma oportunista, como palanque eleitoral precoce das eleições de 2022”. Atribuiu ao acusador a pecha de fazer uso eleiçoeiro de suas denúncias. De lambujem, despachou contra a degravação do vídeo, aproveitando para fazer sibilinas críticas ao relator pela rapidez com que toca o inquérito.

Assim, confirma a avaliação deste autor de que ele é disponível aos interesses de velhos amigos do PT, como José Dirceu. E cumprirá a autoanistia empreendida por quem o nomeou para o cargo, Jair Bolsonaro, desmascarando a sub-reptícia aliança de interesses entre lulopetismo e nazibolsofascismo. Diz-se que o ex-PGR Geraldo Brindeiro foi “engavetador-geral”. Se for coerente com seu parecer, o baiano Aras, filho do petista Roque, maçaneta de Chico Pinto, que frequentava a casa do chefe da segunda seção do Exército em Salvador, a quem revelava nomes e atos de adversários da ditadura militar, arquivará as acusações contra o atual presidente. O despacho de arquivamento não poderá ser anulado pelo relator, pois a decisão final não cabe ao juiz, mas a ele. Ainda assim, as forças democráticas não assoladas pela covardia terão de cobrar do Senado punição cabível para adverti-lo de que o Ministério Público, elevado pela Constituição de 1988 a “quarto poder” de fato, nunca deveria ser chefiado por um “bajulador-geral da República”. Até para os varões desta República se redimirem do aval que deram a quem joga no lixo a imagem positiva que sua corporação tem no povo que paga seus polpudos vencimentos.

E é por isso que aquele que pode indicá-lo para o lugar do decano no STF aposta no destino de país tribal transaariano para nossa desafortunada Pátria amada, mãe gentil.

*Jornalista, poeta e escritor

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No Estadão desta quarta-feira: A democracia apodrece na república dos poltrões

No Estadão desta quarta-feira: A democracia apodrece  na república dos poltrões

José Nêumanne

Bolsonaro dá sinais de que quer autogolpe, mas falsos democratas só reagem em notas inócuas

Em 19 de abril, Dia do Exército, o presidente da República tomou café com os filhos 01, 02 e 03 e foi ao Quartel-General da Força, à frente do qual discursou para manifestantes que carregavam cartazes, entre os quais um clamava: “Intervenção militar já com Bolsonaro”. O ato reivindicava novo Ato Institucional n.º 5 para fechar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF). Ali, entre acessos de tosse, afirmou: “Eu estou aqui porque acredito em vocês”. A Polícia do Exército garantiu a segurança dos presentes. E nenhum golpista foi preso em flagrante. O procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu e o STF autorizou inquérito para investigar quem organizou, financiou e compareceu ao ato, mas omitiu o nome dele. Ninguém foi processado e preso por ter violado a Lei da Segurança Nacional, incorporada à ordem legal vigente. No dia seguinte, parodiou Luís XIV: “Eu sou a Constituição”.

Em 30 de abril, proibido de empossar na chefia da Polícia Federal (PF) Alexandre Ramagem, seu segurança na campanha e amigo de seu filho 02, por liminar dada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, Bolsonaro chamou a decisão de “canetada política”, em insulto inédito de chefe de um Poder a ocupante de outra instituição sediada na Praça dos Três Poderes.

Em 3 de maio, profissionais da saúde protestaram em silêncio naquela praça contra a inércia do governo federal em relação à pandemia de covid-19. Marluce Gomes fez parte do grupo de bolsonaristas que reagiu à manifestação e insultou uma de suas participantes: “Quando a gente sente o cheiro de quem não passou perfume, a gente entende o tipo de pessoa que você é”. Identificada pelo Conselho Federal de Enfermagem, ela foi processada. Na terça-feira 5, ela iria ao cercadinho, que o chefe do governo usa como tribuna de fala do trono, para homenageá-lo em altos brados. No ataque aos heróis populares, que, ao contrário do “Mito”, arriscam a vida para enfrentar o contágio do novo coronavírus, ela teve a companhia de Renan Sena. Este agrediu um manifestante e é empregado de uma empresa que presta serviços ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (!), de Damares Alves, por R$ 20 milhões. O empresário Gustavo Gayer completa o trio identificado. Não há notícia de que seu idolatrado condottiere os tenha recriminado.

No dia seguinte, domingo 4 de maio, Sua Excelência voltou a se dirigir a manifestantes antidemocráticos da rampa do Palácio do Planalto, símbolo do poder nesta insana República. Mais uma vez, os golpistas não foram abordados pela polícia, cujo superior hierárquico é Ibaneis Rocha, advogado trabalhista e governador do Distrito Federal, que decretou isolamento social e passou um fim de semana em Maceió (AL), com um grupo de amigos. Uma vez mais, o procurador-geral da República não incluiu o nome de Jair Messias no inquérito, autorizado pelo STF.

Na segunda-feira 8 de maio, o chefe do Poder Executivo arrebanhou um grupo de dirigentes de associações sindicais de industriais, que compareceu a seu gabinete para cobrar medidas por ele prometidas três semanas antes à Confederação Nacional da Indústria para uma saída organizada do isolamento social. Em vez de lhes dar satisfação, liderou uma caravana até o outro lado da praça, numa réplica da Marcha sobre Roma, com que Benito Mussolini instalou a ditadura fascista na Itália, em 1922. Foi recebido pelo amigão Dias Toffoli na presidência do STF e este lhe avisou que a responsabilidade sobre o pedido dos empresários era do presidente da República, e não da Justiça. A invasão da cúpula do Judiciário foi transmitida ao vivo em live em rede social.

Ontem, por decisão do decano do STF, Celso de Mello, autoridades e advogados representando o presidente da República, a PGR, a PF, o STF e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro viram o vídeo de uma reunião do tal Conselho de Governo, com 30 membros, como parte do inquérito aberto a partir de acusações que o ex-auxiliar lhe havia feito ao pedir demissão. Não faltam vexames: o presidente ameaçando o ex-ministro de demissão, o ministro da (falta de) Educação insultando as homenageadas no domingo 10 pelos membros do STF, o chanceler acusando a China de ter usado o novo “comunavírus” para dominar o mundo e o chefão de todos cobrando de Moro não ter falsificado o atestado de óbito de um agente da Polícia Rodoviária Federal morto por covid-19.

Sua obsessão em debochar da pandemia chegou ao extremo de anunciar um churrasco no sábado 9 de maio, quando o total oficial de óbitos ultrapassou 10 mil. E depois dizer que foi um anúncio fake para desmoralizar repórteres “idiotas”. E passeou de jet ski no Lago Paranoá, enquanto a princesa Sofia, da Suécia, atendia pacientes de covid-19 num hospital em Estocolmo.

Apavorada, a Nação pergunta até quando falsos pais da Pátria, que deviam defender o Estado de Direito com fatos, vão se abrigar em notas oficiais inócuas, enquanto ele inspira canalhas que chutam ataúdes e desonram a Bandeira Nacional hasteada a meio mastro em luto pelas vítimas de um genocida ignorante, perverso e insensível.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo na quarta´feira, 13 de maio de 2020

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No Blog do Nêumanne: Nostálgicos da ditadura

No Blog do Nêumanne: Nostálgicos da ditadura

José Nêumanne

Como Bolsonaro, muitos de seus apoiadores hoje têm saudade de uma ditadura em que eles não viveram, mas têm mesmo ideário de classe média que apoiou o golpe e nos anos de milagre econômico

Durante algum tempo, enquanto o presidente da República, Jair Bolsonaro, mantinha Sergio Moro no Ministério e Paulo Guedes não corria riscos, acreditei que ele havia sido eleito por seus apoiadores a qualquer custo, mas a maioria dos votos seria devida à onda antipetista e ao apoio à Lava Jato. Isso me dava à convicção de que ele seria obrigado a conviver, até a tentativa de se reeleger em 2022, com o ex-juiz e o economista da linha de Chicago no primeiro escalão da própria administração. Minha análise estava contaminada por uma visão crítica parcial e pouco inteligente de que seria insignificante a parcela do eleitorado de viúvas do regime tecnocrático e militar que foi dono absoluto do poder durante o maior período de exceção ao longo de toda a República.

Eu estava redondamente enganado e dou minha mão à palmatória simbolicamente, como dava fisicamente nos tempos em que estudava com uma amiga de minha mãe, professora, dona Nenudes, antes de começar o primário no Grupo Escolar Jovelina Gomes, em Uiraúna, no sertão da Paraíba, em meados e final dos anos 50. Quando assistia às manifestações de rua em 2013 contra o desastre administrativo de nossa insana República, na Avenida Paulista, e pelo impeachment de Dilma Rousseff, do PT, em 2016, desdenhava da pífia participação dos que pregavam a volta dos militares ao poder, relegada aos espaços menos ocupados da massa reunida.

Agora, contudo, a realidade se impõe e urge ter humildade para perceber, enfim, que o capitão reformado numa combinação “mandrake” com os comandantes das Forças Armadas para evitar que a pecha de indisciplinado e terrorista que iria recair sobre ele prejudicasse a imagem “gloriosa” que os fardados tinham, e têm, de si próprios. Em de seu livro O Cadete e o Capitão, sobre a vida de Bolsonaro na caserna, o grande repórter Luiz Maklouf Carvalho relatou o episódio mais vergonhoso da História da nada gloriosa “justiça militar” em todos os tempos. O capitão, obcecado pela ambição de ganhar mais, assinou um artigo no semanário Veja sobre os baixos soldos, tornando-se, com isso, um herói da baixa oficialidade e um elemento perigoso para o alto oficialato. Passou a manter contato com a repórter Cássia Maria, a quem contou seu plano terrorista de explodir bombas em quartéis e na adutora do Rio Guandu, no Rio de Janeiro, onde morava. Fê-lo sob garantia de anonimato e, em confiança, entregou à repórter um croqui de próprio punho do projeto. A repórter quebrou o compromisso e deu nome aos bois, baseada na ética humanista que ele não admitia: não havia sentido em manter o anonimato de autores de um atentado em que vidas humanas corriam risco.

O livro de Maklouf é indispensável para o conhecimento dessa faceta do protagonista do caos sanitário, político e econômico que o Brasil enfrenta agora. Quem não puder ir à livraria comprá-lo pode encontrar no YouTube duas excelentes entrevistas em que o autor narra com precisão e graça o momento capital da obra, qual seja, o julgamento do atual presidente pelo Superior Tribunal Militar (STM). Condenado nas instâncias administrativas iniciais por 3 a 0, saiu da prisão administrativa para enfrentar a alta corte e ganhar por 9 a 4. O incrível é que o resultado foi fundamentado nos mesmos quatro laudos grafotécnicos de seu desenho. No primeiro julgamento ele foi condenado porque dois laudos confirmaram que o gráfico era dele e os outros dois eram “inconclusivos”. Ou seja, 2 a 0. Os ministros do STM, entretanto, acolheram sua tese absurda, em defesa de próprio punho, de que os dois laudos inconclusivos o favoreciam. Portanto: 2 a 2. E ele foi anistiado por nove ministros nomeados durante o regime militar a quatro indicados após a redemocratização. Por trás disso havia um acordo de “cavalheiros” de que ele sairia da Força pela porta dos fundos, mas sem tugir nem mugir.

A absolvição jogou-o na militância política, em que instalou seu posto avançado de “viúva da ditadura”, não a de 1964, mas a instaurada após o endurecimento de 1968. Em dois anos como vereador no Rio e 28 na Câmara dos Deputados, pendurou na parede de seu gabinete de legislador a fotografia de todos os generais que ocuparam o poder na ditadura. Com um discurso de extrema direita, contra o aborto e a favor da mais dura repressão policial, elogiou o miliciano Adriano da Nóbrega da tribuna depois de acompanhar no tribunal pessoalmente o julgamento deste sob a acusação de homicídio de um guardador de carros. Elogiou o golpe do coronel Hugo Chávez, na Venezuela, em entrevista ao Estado, mantendo sempre a mesma retórica armamentista e a favor da repressão. No voto a favor do impeachment da petista Dilma Rousseff, manifestou de forma candente sua admiração pelo torturador-símbolo da repressão: o coronel Brilhante Ustra.

Na semana passada, recebeu e homenageou no gabinete da Presidência da República o tenente-coronel Sebastião Rodrigues de Moura, vulgo Major Curió, encarregado pelo governo federal de gerir o fabuloso garimpo de Serra Pelada, em Marabá, no Pará. A antiga vila de garimpeiros é hoje uma cidade batizada em sua homenagem, Curionópolis. Estive em Serra Pelada e do próprio ouvi o relato circunstanciado sobre os cinco militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) que ele fez questão de executar pessoalmente, gabando-se ao encenar os momentos de desespero e agonia vividos por suas vítimas desarmadas. Esses espetáculos de humor macabro faziam grande sucesso entre homens que, como o próprio Bolsonaro e seu pai, sonhavam com a conquista máxima de “bamburrar” ouro na Torre de Babel em que foi desmontada a montanha que virou lago.

Meu colega no Jornal do Brasil Hugo Studart, professor da Universidade de Brasília (UnB), fez uma pesquisa detalhada da guerrilha do PCdoB no Araguaia e no livro Borboletas e Lobisomens descreveu minuciosamente algumas das execuções que o então capitão Curió fez com as próprias mãos e pistola. Foi o caso de Antônio Theodoro de Castro, o Raul. Na narrativa de Studart, o capitão dirigiu-se àquele e lhe disse: “Nem adiantou ser valentão, pois vai morrer como cachorro” (gíria usada pelos militares referindo-se a delatores que serviam de guia às tropas na selva). E como Laurenti Beria, o carrasco de Stalin que fazia questão de atirar na nuca de dissidentes do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), disparou à queima-roupa na cabeça do guerrilheiro. A outro, com codinome Simão, perguntou: “Você gosta da floresta? “Gosto” “Então, fique nela”. Antes de morrer, a vítima deu um berro de terror, ouvido à distância.

          Para quem não conhece a história em profundidade talvez seja difícil entender como esse tipo de relato de horror pode agradar pessoas comuns. A verdade é que o golpe militar de 1964 teve muito apoio de uma parte da elite e da classe média, que participou de uma “marcha de Deus pela família” contra o governo de João Goulart, que assumiu a Presidência depois que Jânio Quadros tentou dar um golpe e renunciou, frustrando seu eleitorado conservador e anticomunista.

Os anos 1970 foram a época do chamado “milagre econômico” e a repressão política também propiciou uma segurança maior aos cidadãos comuns que não se envolviam com política, principalmente com a aventura dos grupos armados de esquerda que queriam derrubar o regime sem armas nem apoio popular. Muitos pais passaram para seus filhos essa visão nostálgica, presente até hoje, de uma época de paz social sem agitação sindical e em que policiais como Sérgio Fleury matavam esquerdistas e também participavam de grupos de extermínio de bandidos comuns.

O capitão Cavalão dos tempos da caserna é caudatário dessa nostalgia e isso lhe garante os 30% de eleitores fiéis que pouco ligaram para a demissão de Moro e nada se perturbarão com a eventual retirada de Guedes do Ministério. Ou da ministra Tereza Cristina, da Agricultura, que é a avalista do agronegócio, que mantém o Brasil na crise econômica.

Isso lhe dá aval para negociar a alma com os fisiológicos do Centrão e se entregar à tutela de Roberto Jefferson, corrupto condenado e apenado no mensalão e alcaguete de seus companheiros de bando. E a certeza de que já está no segundo turno da eleição de 2020, de preferência contra Lula. A ponto de dizer, como o fez neste fim de semana a um crítico de seu governo que o abordou: “Ficarei no governo até 2027”.

Isso, é claro, vai depender da dimensão do caos social que vem aí, misturando a pandemia com a inércia de um presidente mandrião, que, em plena e assustadora crise, passeia de jet ski no Lago de Paranoá, como se estivesse num fim de semana de paz e prosperidade de sua fantasia.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 11 de maio de 2020)

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Coluna semanal do Ric Mais: Cavalão audaz contra lengalenga covarde

Coluna semanal do Ric Mais: Cavalão audaz contra lengalenga covarde

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Cavalão audaz contra

lengalenga covarde

 

José Nêumanne

Enquanto a covid-19 se aproxima do pico, Bolsonaro usa industriais para pressionar STF

Há três semanas a Confederação Nacional da Indústria (CNI) pediu ao presidente Jair Bolsonaro que anunciasse um plano nacional para a volta da produção e da economia, depois do abandono controlado do isolamento social no combate à covid-19. Dirigentes de associações de setores industriais procuraram-no para saber se tinha algo a informar a respeito. Faziam-no sob o impacto do anúncio pelo ministro da Saúde, Nelson Teich, de que o total diário de mortos pelo novo coronavírus poderia ultrapassar o primeiro milheiro. As autoridades nada têm de novo a dizer, pelos motivos de não terem ideia de quando a pandemia chegará ao pico nem do que fazer.

Enquanto o próprio chefe do Poder Executivo é apontado, pela respeitada revista científica britânica The Lancet, como o maior problema que o Brasil enfrenta na tragédia sanitária vivida pela humanidade, ele usa a urgência do combate à doença como aliada na luta política. Ele e os governadores estaduais, especialmente o de São Paulo, João Doria, e do Rio, Wilson Witzel, visam exclusivamente à eleição presidencial de daqui a dois anos e cinco meses e terçam armas midiáticas. Em vez de apresentar a seus interlocutores um projeto concreto, o capitão de milícias ofereceu uma visita surpresa ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, seu único “chapinha” na Corte, para cobrar dele algo que não pode.

A grosseria, o desconhecimento dos próprios limites como chefe de Poder, que obrigatoriamente tem de estar em harmonia com os outros dois, e o vício de transferir a própria irresponsabilidade para alguém próximo são miuçalhas diante do alto risco da metáfora encenada para seus perfis sociais. O capitão absurdamente anistiado por nove militares saudosos do golpe militar extinto, mas nunca enterrado, atravessou a Praça dos Três Poderes literal e simbolicamente na terceira estação da via-crúcis do Estado de Direito nestes tristes trópicos. A primeira foi o comício golpista à frente do QG do Exército no Dia do Exército, com cartazes pela intervenção militar com ele no poder e pelo Ato-5, para fechar as sedes do Legislativo e do Judiciário. A segunda, o bis encenado na parte de baixo da rampa do Palácio do Planalto. E a terceira é a melhor tradução tupiniquim da Marcha da Insensatez – De Troia ao Vietnã, de Barbara Tuchman.

A reação do anfitrião, Dias Toffoli, foi pífia, como, aliás, a de todos os outros pretensos heróis que defendem a democracia no Legislativo e nas Forças Armadas, que parecem mais coniventes do que conscientes. A Nação morre afogada no seco e, moribunda, assiste ao torneio entre a audácia do Cavalão terrorista e indisciplinado das casernas e a covardia de quem, em vez de enfrentá-lo, usa redes sociais para cuspir retórica inócua.

*Jornalista, poeta e escritor

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