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Política

Artigo do Blog do Nêumanne: E tudo está no seu lugar mesmo?

Artigo do Blog do Nêumanne: E tudo está no seu lugar mesmo?

Ao comemorar vitória sobre oposição, Marun cantou Tudo está no seu lugar., mas talvez nem tudo esteja

“O deputado federal Carlos Marun (PMDB-MS), relator da CPI mista da JBS e defensor de primeira hora do presidente Michel Temer, está sendo processado por improbidade administrativa quando era presidente da Agência de Habitação Popular de Mato Grosso do Sul (Agehab). Em denúncia do Ministério Público Estadual, aceita pela Justiça, Marun é acusado, com outros 13 réus, de causar lesão ao erário em valores estimados em R$ 16,6 milhões.”

O parágrafo acima não foi escrito pelo autor deste texto, mas tem as credenciais de qualidade e veracidade do repórter Luiz Maklouf de Carvalho. E o aval, dado em 26 de setembro de 2017 por este Estado mais que centenário, cuja credibilidade foi amealhada mercê de suas lutas contra a escravidão, pela República, pela Constituição em 1932, contra o Estado Novo e contra a ditadura militar, que ajudou a deflagrar. Lá se vão 72 dias desde então e ela pode ser reproduzida praticamente na íntegra. A única substituição a fazer é a do cargo do parlamentar. Nestes primeiros dias da semana ele encerra o serviço que faz para o chefe Temer para desacreditar o trabalho nada defensável de Rodrigo Janot na tentativa de investigar o presidente. Sem, evidentemente, convencer ninguém de que o chefe do governo tem razão em proclamar a própria inocência na conversa que manteve com o réprobo Joesley Batista, da JBS, no porão do Palácio do Jaburu. O encontro só ocorreu por ter este berrado o codinome Rodrigo, prenome do então estafeta de confiança do presidente, que trocaria logo depois o gabinete do Palácio do Planalto pelo próprio lar no qual cumpre prisão domiciliar por haver sido filmado correndo com uma mala na qual foram encontrados R$ 35 mil a menos que os proclamados R$ 500 mil, depois também devolvidos ao dono desconhecido, que nunca surgiu para recolher a bufunfa e depositá-la num banco, sempre depois, como sói acontecer com correntistas normais, de justificar e provar a origem. Trata-se de Rodrigo Rocha Loures, deputado afastado após haver protagonizado a piada pronta: o cenário do vídeo é a Pizzaria Camelo, confirmando o ditado popular de que neste país malfeitos tendem a terminar em pizza.

Concluída a tarefa inglória, o ex-presidente da Agehab de Mato Grosso do Sul dedicar-se-á à outra, talvez mais árdua: articular o eufemismo dos eufemismos, de preferência pronunciado entre mesóclises e apodos, a dita base do governo. Sua missão será garantir os três quintos – 308 dos 513 votos de deputados federais e 47 dos 81 senadores – para aprovar a reforma da Previdência. Ou seja, lá o que for que esta tenha virado depois de devidamente pasteurizada por providências atenuadoras patrocinadas pelo relator Arthur Maia, sob a vigilância do chefe-mor e a débil aprovação de Henrique Meirelles.

O réu por improbidade administrativa vai realizar o sonho de consumo dos colegas que pertencem ao soit-disant Centrão, que, em troca de sua fidelidade canina, farão tudo o que o mestre desejar para minorar no que for possível o enorme sacrifício a ser feito pelo contribuinte para bancar mais uma vez, com a ajuda do alarido da esquerda que perde, mas não desanima, o déficit previdenciário nas contas públicas. Ele comandará o ambicionado gabinete onde se articulam as relações ditas institucionais (nem sempre confessáveis, ainda que se tornem públicas) do Poder Executivo com o Legislativo. Quando a chefia da Casa Civil era ocupada no primeiro governo Lula pelo comissário José Dirceu, o encarregado da tarefa era Valdomiro Diniz, flagrado em vídeo achacando o bicheiro goiano Carlinhos Cachoeira. Este foi condenado. E Dirceu também, embora goze no momento do privilégio de sambar de tornozeleira na mansão em que se diverte com a mulher e a filha enquanto cumpre pena por furto qualificado. Valdomiro perdeu o poder, o cargo e a fama, mas desliza sorrateiramente pelo anonimato nas quadras de Brasília.

Tendo o cargo recebido nome pomposo e poder real, assumiu-o no governo Temer o amigo do peito do chefe Geddel Vieira Lima. Filho do ex-deputado Afrísio e irmão do deputado Lúcio, o listado como “Carainho” no propinoduto da Odebrecht era chamado de suíno nos bancos da escola de que saiu qualificado de in-su-por-tá-vel por pelo menos um colega célebre, o poeta Renato Russo, aquele do Legião Urbana. Geddel meteu-se em palpos de aranha. Na Secretaria de Governo e amigo do “home”, chamou na chincha o ministro da Cultura, Marcelo Calero, para forçar a liberação pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de certo edifício de luxo que ultrapassava gabaritos e tinha contabilidade pouco ortodoxa na Bahia de Todos os Santos, alguns nem tanto. Calero perdeu o emprego, mas logo Geddel se enredou na própria teia e também dançou. Na cela chorou como um bebê inconformado e foi premiado pela loteria dos habeas corpus do Supremo Tribunal Federal (STF). Mas logo perderia a liberdade porque a Polícia Federal (PF) atribuiu ao clã Vieira Lima a propriedade de um apartamento que serviu de depósito para R$ 51 milhões em cédulas. Foi preso de novo e as investigações incriminaram a mãe, dona Marluce, e o mano deputado, levando o relator do caso no STF, o ministro Luiz Edson Fachin, a interditar a obra do edifício que, antes de ser construído, derrubou dois ministros. Que obra, hein?

No gabinete do Planalto o amigo-em-chefe instalou outro baiano, o tucano Antônio Imbassahy, formado nas hostes do dr. Antônio Carlos Magalhães e atualmente sob a égide do tucanato de fina plumagem. O chefe de todos recebeu a sugestão de aliados leais do tal Centrão de trocá-lo por alguém mais confiável e correligionário, o deputado de primeiro mandato Carlos Marun, para tornar viável o que até agora parece no mínimo incerto: aprovar a emenda constitucional da reforma da Previdência. O tucano ficou furioso, disse que dali não saía, dali ninguém o tirava e Aécio Neves foi a palácio exigir tratamento digno para os seus. Imbassahy foi, então, mantido até sexta, 8, véspera da convenção do PSDB, na qual o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, foi feito presidente nacional do partido e seu presumível candidato à Presidência da República em 2018. Mas há quem diga que quem ainda mandava e desmandava era o presidiário, não o ministro.

Carlos Marun não é um anônimo. Ele se destacou como feroz defensor de Eduardo Cunha quando o ex-presidente da Câmara dos Deputados e também ex-deputado, ainda filiado ao PMDB, seu amigo e protetor, entrou na alça de mira das operações de combate à corrupção. Organizou uma festa de aniversário do “Caranguejo” da Odebrecht com uísque e bolo de chantilly. Foi o único colega a discursar em defesa do mestre e um dos dez minguados votos que ele teve no plenário contra a cassação do mandato. Visitou o padrinho na cadeia, cobrando a passagem do contribuinte. Flagrado em pleno delito bajulando o amigo dileto, devolveu o dinheiro da passagem. E, quando isso aconteceu, já era o homem de confiança do chefe geral. Nessa condição, cantou Tudo está no seu lugar, sucesso de Benito de Paula, a cuja letra original ele acrescentou que a oposição nunca vai ganhar.

Agora, Sua Excelência assume a Secretaria de Governo com a dura responsabilidade de aprovar a reforma. Não vai ser fácil. Qualquer jejuno em matemática, caso do autor destas linhas, é capaz de prever que o Centrão tem força para derrotar qualquer emenda constitucional e, por isso, condição de chantagear. Mas, ao contrário do que os governistas esperam, faltam-lhe votos para aprovar, mesmo por pequena margem. A respeito da acusação, cuja notícia abriu este texto, tudo o que ele teve a dizer a Maklouf foi publicado no segundo parágrafo da reportagem, para sua defesa: “Estou me defendendo, e tenho certeza de que o processo resultará na minha absolvição”. Omitiu, é claro, as evidências que policiais, promotores e juiz possam ter a seu favor, como ele acredita e profetiza piamente.

Resta ainda saber até que ponto ele atenderá à expectativa de convencer 457 parlamentares a se deixarem seduzir por seu estilo truculento, que o colunista da Folha Bernardo de Mello Franco definiu como de “um pitbull no palácio”. Só aí se saberá se, enfim, de fato “tudo está no seu lugar”. Ou nem tudo?

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, na segunda-feira 12 de dezembro de 2017)

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No Blog do Nêumanne: Crime em nome da lei

No Blog do Nêumanne: Crime em nome da lei

Uma sequência de erros judiciais fica impune por indiferença de Cármen, Dodge e Segóvia

O ano de 2018 não será marcado por conflitos ideológicos ou por embates entre populismo e choque do capitalismo. Seus 365 dias serão lembrados pela guerra sem sono e sem quartel dos cem parlamentares investigados e seus aliados suspeitos no Poder Legislativo contra a sociedade indignada, que não poderá cochilar diante dos truques e armadilhas dos detentores do foro de prerrogativa de função para manterem a jabuticaba envenenada e escaparem do martelo pesado de Sérgio Moro, em Curitiba, Vallisney de Souza Oliveira, em Brasília, e Marcelo Bretas, no Rio. Com a ajuda da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal  (MPF) na investigação dos crimes de colarinho-branco, que continuam desgraçando a gestão pública nestes tristes trópicos de Lévi-Straus.

O Estado de Direito à brasileira terá reforçada, então, sua natureza peculiar de consagrar como heróis da liberdade não os profissionais da resistência política civil aos abusos das autoridades constituídas para exercerem o monopólio da força, mas os agentes portadores de insígnias que vasculham suas casas, seus escritórios e até seus gabinetes em busca de indícios comprometedores de práticas ilícitas. Há uma razão forte para isso: a República é presidida por um daqueles cidadãos em seu estranho dialeto juridiquês que, entre circunlóquios e golpes de mãos, traçam trilhas para fugir do pão, pão, queijo, queijo de explicações lógicas que possam ser facilmente entendidas. A plebe tem todas as razões do mundo para desconfiar desses finórios. Et pour cause, a polícia que mata pobres e pardos na rua, em vez de protegê-los dos delinquentes que ocupam o território onde vivem. Mas, mesmo truculenta, ela tem sido elogiada nas mesmas manifestações populares que execram os elegantes mandatários feitos gestores por decisão da maioria dos sufrágios populares.

Nessa condição, policiais viram mocinhos de capa e espada, promotores públicos tornam-se justiceiros munidos de powerpoints e juízes são tratados como deuses do Olimpo especial das varas dos crimes de colarinho- branco. Antes o altar foi ocupado por Joaquim Barbosa. Hoje Moro, Vallisney e Bretas são as bolas da vez rumo à caçapa para onde encaminham gatunos das receitas estatais. Pouco importa para eles, que não abrem mão de privilégios de jeito e maneira, se os gastos que tornam inviáveis as escritas contábeis da autoridade que recolhe e paga também fogem ao uso racional pelos excessos dos cabides de emprego, dos vencimentos além do teto e, sobretudo, dos penduricalhos nos porta-chapéus das delegacias, promotorias e fóruns, onde todos são julgados de acordo com uma lei que varia para cada caso.

Recentemente, até a próspera prole do metalúrgico-modelo teve seus telefonemas grampeados por federais, que o chefe imediato, Márcio Thomaz Bastos, chamava de “republicanos”, num desafio à altura inatingível onde, no trono, se postava o prestimoso pai, chefe de todos os chefões, Luiz Inácio Lula da Silva. É que a PF, à época, se dividia em grupos sob os auspícios de diferentes correntes: os tucanos de Marcelo Itagiba, os herdeiros de Romeu Tuma, os petistas de Paulo Lacerda, etc. Hoje os repórteres que frequentam os gabinetes dos agentes e delegados reportam a existência de uma nova geração que aposta no conhecimento das leis e na isonomia dos investigados. Por uma feliz coincidência, os velhos promotores e juízes também foram substituídos por jovens que se orgulham de seus princípios de fé na justiça e na ordem. É bom, mas a ordem elevada a extremos chega a virar repressão pela repressão e a justiça pode esconder-se nos porões quando se modifica numa espécie de profissão de fé de meras convicções. Isso produz um efeito perverso na mudança da velha democracia grega num novo cavalo de Troia, em cujo ventre crenças se metamorfoseiam em verdades absolutas, como no jogo de luzes e sombras que fazia a graça de “As aparências enganam”, seção semanal de Carlos Estêvam no Cruzeiro dos anos 30 a 60. em que a luz iluminava a tragédia que parecia comédia à sombra. Ou vice-versa.

Excelente reportagem de Luiz Maklouf Carvalho no Estado de domingo 3 de dezembro revela como é preciso vigiar para evitar abusos de autoridade. Muito embora também não se deva permitir que a ausência dessa vigilância facilite a fuga dos delinquentes perfumados pelos desvãos dos tribunais de juízes que escondem nas dobras de suas togas penas de ganso prontas para promoverem a impunidade de seus afilhados de casamento. O repórter comparou a tragédia do ex-reitor da Universidade de Santa Catarina (UFSC) Luiz Carlos Concellier de Olivo, o Cau, com a saga de Josef K, perseguido pela lei implacável e sombria na criação de ficção do maior romancista do século 20, o judeu tcheco Franz Kafka. A abertura de O Processo, o romance que virou clássico de cinema na versão irretocável de Orson Welles, ressurge na abertura do texto no jornal: “Alguém devia ter caluniado Luiz Carlos Cancellier de Oliveira, porque foi preso numa manhã, sem que houvesse feito alguma coisa de mal”.

No entanto, nem Kafka seria capaz de descrever o frio roteiro de Florianópolis: Cau foi preso pela Polícia Federal, na Operação Ouvidos Moucos, em 14 de setembro. Era investigado, sem saber, pela delegada Érika Mialik Marena, ex-coordenadora da Operação Lava Jato em Curitiba, e depois da Ouvidos Moucos, em Florianópolis. Fora denunciado pelo corregedor-geral da UFSC, Rodolfo Hickel do Prado, que não omitiu à polícia sua condição de desafeto do denunciado pela mesquinha razão de que este, para economizar gastos na instituição, subtraíra uma gratificação de R$ 1 mil de seu holerite mensal. A PF usou 115 agentes para prender os sete denunciados, entre os quais Cancellier, encaminhado, como se condenado fora, à penitenciária. “Teve os pés acorrentados, as mãos algemadas, foi submetido, nu, à revista íntima, vestiu o uniforme de presidiário e ficou em uma cela na ala de segurança máxima”, descreveu Maklouf. Dezoito dias depois, jogou-se do sétimo andar de um shopping na capital catarinense. Tudo começou numa investigação corriqueira sobre um programa de educação a distância. A PF informou em manchete em seu site que a Operação Ouvidos Moucos combatia desvios de R$ 80 milhões. A delegada reconheceu que esse total era a soma dos repasses do Ministério de Educação para a UFSC ao longo de dez anos (de 2005 a 2015), sendo que Cancellier assumiu a reitoria em maio de 2016.

Maklouf não conseguiu ouvir o  delator Prado, que não atendeu ao celular que a instituição forneceu como sendo se sua propriedade. Conforme Maklouof, ao voltar de uma viagem a Portugal, Cancellier mandou abrir um inquérito, pedido pelo professor  Gerson Rizzatti, e afastou Prado até a conclusão, mas o juiz federal Osny Cardoso Filho não o autorizou. A vice-reitora Alacoque Erdmann, no cargo, foi visitada pelo superintendente da Controladoria-Geral da União (CGU) no Estado, Orlando Vieira de Castro, e pelo procurador da República André Bertuol. Depois da visita, ela revogou a portaria. O repórter não conseguiu falar com ela, nem Bertuol e Cardoso. E registrou que o siteJornalistas Livres deu conta de uma sentença contra Prado por calúnia e atos de violência contra a ex-mulher e moradores de um prédio do qual foi síndico. Em 25 de novembro último, o juiz Marcelo Volpato de Souza arquivouar o inquérito da morte do reitor, louvando-se do parecer do procurador Andrey Cunha Amorim, concluindo por suicídio. E atribuindo o gesto à humilhação de que Chancellier foi vítima.

Tudo foi convenientemente sepultado sem que a presidente do Conselho Nacional de Justiça, Cármen Lúcia, tenha perguntado à juíza federal Juliana Cassol por que autorizou a prisão. Não há também notícia do interesse da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, em saber de Bertuol o que motivou o pedido de prisão. Também a delegada federal tem a esclarecer sua atuação, no mínimo, imprudente. Mas o diretor-geral da PF. Fernando Segóvia, parece mais interessado em garantir privilégios para os colegas na reforma da Previdência, negociando diretamente com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o Botafogo do propinoduto da Petrobrás, e em esgrimir com os procuradores na luta pelo poder nos inquéritos dos acusados. Para quê? Pelo visto, para nada!

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 5 de dezembro de 2017)

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No blog do Nêumanne: A volta dos que não foram

No blog do Nêumanne: A volta dos que não foram

Presidente da Câmara manda no Ministério das Cidades e presidiário Cunha na Secretaria do Governo de Temer

A um ano do turno definitivo das eleições gerais de 2018, o cidadão brasileiro tem presenciado um circo de horrores na cúpula federativa da República brasileira, com lances dignos da tragédia mais deslavada e da comédia mais escrachada.

Na interminável novela da indecisão do PSDB quanto a continuar servindo a Temer ou renunciar, o quarteto ministerial tucano foi reduzido a trio com a renúncia de Bruno Araújo, pernambucano que deu o voto capital pelo impeachment de Dilma, um gesto simbólico, e saiu de fininho do Ministério das Cidades. Para o lugar dele o chefe do governo não pestanejou e nomeou o obscuro membro do baixíssimo clero da Câmara dos Deputados Alexandre Baldy. Este adentrou a Esplanada dos Ministérios recomendado por circunstâncias genealógicas e de proximidade: é primo de Elsinho Mouco, marqueteiro do Planalto com pouco talento e menor senso de oportunidade por adotar como slogan do mandato-tampão o lema positivista de Auguste Comte Ordem e Progresso, inscrito na Bandeira Nacional. Destarte, sendo este tido como muito chegado ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a fome juntou-se à vontade de comer, como já diziam os mais antigos. Laços familiares e interesses em votações no Congresso eliminaram uma anotação desagradável de sua biografia: nos velhos tempos de Waldomiro Diniz e das relações promíscuas entre o governo Lula, as loterias e a contravenção penal, foi descrito no relatório final de uma CPI como “o garoto de ouro de Carlinhos Cachoeira”, o bicheiro de Goiás de Demóstenes Torres e dos irmãos da JBS.

Não é algo que se possa definir como boa estirpe, mas em nada se compara com similar episódio referente a outro posto estratégico do primeiro escalão: sem as verbas polpudas da pasta desprezada por Araújo, a Secretaria de Governo, que, segundo as más línguas, continua sendo tocada por gente de confiança do baiano Geddel Vieira Lima, embora seja comandada por outro baiano, o tucano Antônio Imbassahy,

E foi aí que a porca torceu o rabo. Imbassahy gostou do emprego e quer ficar na poderosa esplanada. Mesmo que lhe seja destinada uma pasta ocupada por uma correligionária, a juíza também baiana Luislinda Valois, transferida para o pelourinho de uma aposentadoria de R$ 32 mil com a perda do Ministério dos Direitos Humanos.

Mas Aécio Neves, o Mineirinho do departamento de propinas da Odebrecht, tomou as dores do deputado e exigiu de Temer “dignidade” na hora de desalojar as aves de rica plumagem do ninho fofo do poder federal. Como a História registra, o PSDB perdeu a eleição presidencial para Dilma Rousseff, soit-disant “work alcoholic”, e seu vice, empossado depois do alívio do impeachment dela.

Diante do súbito brio do derrotado neoaliado, Temer cedeu e, em nome da ira sagrada de que se viu assomado depois de ler na Coluna do Estadão a confirmação do convite a Carlos Marun para o posto que comanda as negociações entre Planalto e Parlamento, ele o pôs no congelador até o próximo dia 9. Essa é a data para a qual está marcada o convenção do PSDB em que se escolherá o substituto do neto de Tancredo na presidência. E, assim, a Nação conhecerá se, afinal, o partido se aliará ou se separará do chefe dos chefes, Temer.

Isso se deu no instante em que o Tribunal Federal da 3.ª Região (TRF-3) recusou os embargos impetrados pelo ex-governador de Minas Eduardo Azeredo, acusado dos crimes de lavagem de dinheiro e peculato, cometidos na eleição estadual de 1998, no esquema conhecido como mensalão tucano. A denominação deriva do fato de ter sido imitado depois pelo PT no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência e tendo como operador o mesmo Marcos Valério de Souza, o único condenado nos dois processos que ainda está preso. Azeredo, por exemplo, continua solto, enquanto Zé Dirceu samba em casa de tornozeleira no calcanhar.

Delatado por Joesley Batista, a quem pediu R$ 2 milhões “para pagar a um advogado”, Aécio foi protagonista da famigerada reunião do Supremo Tribunal Federal em que a presidente Cármen Lúcia desempatou a seu favor a votação para lhe permitir sair de casa à noite. E frequentar durante o expediente o plenário do Senado. Foi nessa condição de usuário do direito constitucional de ir e vir que foi a Temer exigir que seu partido seja tratado com dignidade, o que só merecerá se fechar questão a favor da reforma da Previdência.

A tal dignidade tem prazo de validade. Até o dia 9 Imbassahy fica, mas no dia 10 Marun assume. Tendo acompanhado a lealdade canina do nobre parlamentar a seu ex-presidente e sempre chefe, Eduardo Cunha, recolhido à cela da Lava Jato em Curitiba, a Nação vê aproximar-se o dia em que o Caranguejo da Odebrecht partilhará parte do poder do chefe de Estado no semiparlamentarismo adotado e assumido por Temer com Rodrigo Maia.

Essa é mais uma ironia da deusa Clio, que comanda do alto do Olimpo nosso destino sorvendo goles de néctar. Com 3% de popularidade, o presidente da República ficou no posto em troca de votos comprados de deputados que evitaram o desabamento da espada de Dâmocles sobre seu pescoço e por mercê do medo do tal do mercado de vê-lo substituído pelo filho de Cesar e dona Mariangeles Maia. E enquanto Rodrigo Botafogo (no jargão do propinês) comanda o destino das cidades, Carlos Cunha (ou Eduardo Marun?) tece os fios de Ariadne no reino desencantado das cumbucas do povo: uma posta, outra emborcada, ambas mandando.

O cara do Cunha assumirá o posto para evitar a derrota anunciada da reforma da Previdência. Quem o nomeará se esqueceu de que o Centrão pode derrotá-la, mas não tem força para participar de sua improvável vitória. Este jornal já informou que dois terços das aposentadorias não seriam afetadas pela nova versão da reforma. Nem isso, contudo, parece fácil de ser aprovado.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.2A do Estado de S. Paulo na quarta-feira 29 de novembro de 2017)

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No Estadão desta quarta-feira: Circo de horrores no Planalto Central

No Estadão desta quarta-feira: Circo de horrores no Planalto Central

 

Baldy, indicado por Maia, assumiu Cidades; e Marun, leal a Cunha, irá para governo dia 10

A um ano do turno definitivo das eleições gerais de 2018, o cidadão brasileiro tem presenciado um circo de horrores na cúpula federativa da República brasileira, com lances dignos da tragédia mais deslavada e da comédia mais escrachada.

Na interminável novela da indecisão do PSDB quanto a continuar servindo a Temer ou renunciar, o quarteto ministerial tucano foi reduzido a trio com a renúncia de Bruno Araújo, pernambucano que deu o voto capital pelo impeachment de Dilma, um gesto simbólico, e saiu de fininho do Ministério das Cidades. Para o lugar dele o chefe do governo não pestanejou e nomeou o obscuro membro do baixíssimo clero da Câmara dos Deputados Alexandre Baldy. Este adentrou a Esplanada dos Ministérios recomendado por circunstâncias genealógicas e de proximidade: é primo de Elsinho Mouco, marqueteiro do Planalto com pouco talento e menor senso de oportunidade por adotar como slogan do mandato-tampão o lema positivista de Auguste Comte Ordem e Progresso, inscrito na Bandeira Nacional. Destarte, sendo este tido como muito chegado ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a fome juntou-se à vontade de comer, como já diziam os mais antigos. Laços familiares e interesses em votações no Congresso eliminaram uma anotação desagradável de sua biografia: nos velhos tempos de Waldomiro Diniz e das relações promíscuas entre o governo Lula, as loterias e a contravenção penal, foi descrito no relatório final de uma CPI como “o garoto de ouro de Carlinhos Cachoeira”, o bicheiro de Goiás de Demóstenes Torres e dos irmãos da JBS.

Não é algo que se possa definir como boa estirpe, mas em nada se compara com similar episódio referente a outro posto estratégico do primeiro escalão: sem as verbas polpudas da pasta desprezada por Araújo, a Secretaria de Governo, que, segundo as más línguas, continua sendo tocada por gente de confiança do baiano Geddel Vieira Lima, embora seja comandada por outro baiano, o tucano Antônio Imbassahy,

E foi aí que a porca torceu o rabo. Imbassahy gostou do emprego e quer ficar na poderosa esplanada. Mesmo que lhe seja destinada uma pasta ocupada por uma correligionária, a juíza também baiana Luislinda Valois, transferida para o pelourinho de uma aposentadoria de R$ 32 mil com a perda do Ministério dos Direitos Humanos.

Mas Aécio Neves, o Mineirinho do departamento de propinas da Odebrecht, tomou as dores do deputado e exigiu de Temer “dignidade” na hora de desalojar as aves de rica plumagem do ninho fofo do poder federal. Como a História registra, o PSDB perdeu a eleição presidencial para Dilma Rousseff, soit-disant “work alcoholic”, e seu vice, empossado depois do alívio do impeachment dela.

Diante do súbito brio do derrotado neoaliado, Temer cedeu e, em nome da ira sagrada de que se viu assomado depois de ler na Coluna do Estadão a confirmação do convite a Carlos Marun para o posto que comanda as negociações entre Planalto e Parlamento, ele o pôs no congelador até o próximo dia 9. Essa é a data para a qual está marcada o convenção do PSDB em que se escolherá o substituto do neto de Tancredo na presidência. E, assim, a Nação conhecerá se, afinal, o partido se aliará ou se separará do chefe dos chefes, Temer.

Isso se deu no instante em que o Tribunal Federal da 3.ª Região (TRF-3) recusou os embargos impetrados pelo ex-governador de Minas Eduardo Azeredo, acusado dos crimes de lavagem de dinheiro e peculato, cometidos na eleição estadual de 1998, no esquema conhecido como mensalão tucano. A denominação deriva do fato de ter sido imitado depois pelo PT no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência e tendo como operador o mesmo Marcos Valério de Souza, o único condenado nos dois processos que ainda está preso. Azeredo, por exemplo, continua solto, enquanto Zé Dirceu samba em casa de tornozeleira no calcanhar.

Delatado por Joesley Batista, a quem pediu R$ 2 milhões “para pagar a um advogado”, Aécio foi protagonista da famigerada reunião do Supremo Tribunal Federal em que a presidente Cármen Lúcia desempatou a seu favor a votação para lhe permitir sair de casa à noite. E frequentar durante o expediente o plenário do Senado. Foi nessa condição de usuário do direito constitucional de ir e vir que foi a Temer exigir que seu partido seja tratado com dignidade, o que só merecerá se fechar questão a favor da reforma da Previdência.

A tal dignidade tem prazo de validade. Até o dia 9 Imbassahy fica, mas no dia 10 Marun assume. Tendo acompanhado a lealdade canina do nobre parlamentar a seu ex-presidente e sempre chefe, Eduardo Cunha, recolhido à cela da Lava Jato em Curitiba, a Nação vê aproximar-se o dia em que o Caranguejo da Odebrecht partilhará parte do poder do chefe de Estado no semiparlamentarismo adotado e assumido por Temer com Rodrigo Maia.

Essa é mais uma ironia da deusa Clio, que comanda do alto do Olimpo nosso destino sorvendo goles de néctar. Com 3% de popularidade, o presidente da República ficou no posto em troca de votos comprados de deputados que evitaram o desabamento da espada de Dâmocles sobre seu pescoço e por mercê do medo do tal do mercado de vê-lo substituído pelo filho de Cesar e dona Mariangeles Maia. E enquanto Rodrigo Botafogo (no jargão do propinês) comanda o destino das cidades, Carlos Cunha (ou Eduardo Marun?) tece os fios de Ariadne no reino desencantado das cumbucas do povo: uma posta, outra emborcada, ambas mandando.

O cara do Cunha assumirá o posto para evitar a derrota anunciada da reforma da Previdência. Quem o nomeará se esqueceu de que o Centrão pode derrotá-la, mas não tem força para participar de sua improvável vitória. Este jornal já informou que dois terços das aposentadorias não seriam afetadas pela nova versão da reforma. Nem isso, contudo, parece fácil de ser aprovado.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.2A do Estado de S. Paulo na quarta-feira 29 de novembro de 2017)

 

Nesta quarta, no Estadão: Em busca da impunidade perdida

Nesta quarta, no Estadão: Em busca da impunidade perdida

Para manter mandato e foro, nossa casta política aposta tudo em leis em proveito próprio

De hoje, aniversário do golpe militar que “proclamou” a República, em diante, a camarilha dirigente dos negócios públicos prosseguirá em seu ingente esforço para ter de volta a impunidade que, na prática, tem gozado, mercê de foro e de outros privilégios acumulados em 128 anos legislando prioritariamente em proveito próprio.

Com a chancela de uma Constituição promulgada pelo Congresso abusado e abusivo, nossa privilegiada casta dirigente se viu imprensada na parede pelo povo, que em 2013 foi às ruas reclamar de seus maus-tratos à sociedade explorada, humilhada e espoliada. No ano seguinte, graças à renovação dos quadros de agentes concursados da Polícia Federal (PF) e de procuradores da República e juízes federais treinados para combater crimes de colarinho-branco, como lavagem de dinheiro, teve início a Operação Lava Jato,

A união de esforços de corporações divididas internamente e rivais entre si – PF e Ministério Público Federal – levou aos juízes de primeiro grau e, em consequência, às celas do inferno prisional tupiniquim, até então exclusivas de pretos, pobres e prostitutas, uma clientela, branca, poderosa econômica e politicamente e abonada (em alguns casos, bilionária). Como nunca antes na História deste país, no dizer do ex-presidente em cuja gestão a total perda de proporções e do mínimo de sensatez produziu o maior escândalo de corrupção da História, ora nos é dado ver os príncipes de grandes firmas corruptoras tomando banho de sol nos pátios das prisões.

O foro privilegiado, que reserva o julgamento de 22 mil (ou 55 mil?) otoridades (em mais um desses absurdos colapsos de estatística a serviço de meliantes de luxo) à leniência do Supremo Tribunal Federal (STF), mantém um placar absurdo de 118 condenados em primeira instância pela Lava Jato contra zero (isso mesmo, zero) apenado no último e mais distante tribunal do Judiciário. Em caso extremo e inédito, o presidente da República só pode ser acusado por delitos cometidos no exercício do cargo.

Com pânico de perder com o mandato os privilégios, a borra política nacional permitiu-se abrir mão de anéis para manter os longos dedos das mãos que afanam. Mas nestes três anos e oito meses de Lava Jato alguns fatos permitiram a seus maganões investir contra essa progressiva redução da impunidade. A chapa vencedora em 2014, Dilma-Temer, foi absolvida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por excesso de provas. E quando o leniente STF sai um milímetro da curva que interessa aos congressistas, estes logo o reduzem à posição de última defesa de suas prerrogativas de delinquir sem ser perturbados. Até Aécio, derrotado na eleição e guindado ao governo Temer, mantém-se “impávido colosso” no ninho.

Na negociação pelo impeachment da desastrada Dilma, Jucá, o Caju do propinoduto da Odebrecht, definiu “estancar a sangria” como meta de seu grupo, alcunhado pelo ex-procurador-geral Janot de “quadrilhão do PMDB”, para o comparsa Sérgio Machado, cuja delação tem sido contestada. Embora isso esteja sendo confirmado pelas Operações Cadeia Velha e Papiro de Lama, no Rio e em Mato Grosso do Sul, desmascarando os dignitários peemedebistas Picciani e Puccinelli.

Faltam provas, alegam. Mas sobram fatos. Com alguns votos tucanos e todos do Centrão, que defendeu tenazmente Eduardo Cunha, a maioria da Câmara mandou para o lixo investigações contra Temer pedidas por Janot ao STF. O presidente até agora não citou um fato concreto para se defender das acusações de corrupção passiva, obstrução de Justiça e organização criminosa, meio ano após ter sido divulgada a gravação de sua conversa com um delinquente que usou identidade falsa para adentrar o palácio. E agora se sente à vontade para trocar na Procuradoria-Geral da República, em causa própria, o desafeto Janot por Raquel Dodge, indicada pelo parceiro de convescotes em palácio Gilmar Mendes, do STF.

Caso similar é o de Fernando Segóvia, cujo currículo fala por si. No Maranhão, tornou-se comensal e afilhado do clã Sarney. E não deve ter sido a atuação de adido na África do Sul que inspirou Padilha a lutar por sua nomeação. Ao assumir, sem o aval do chefe direto, o ministro Jardim, ele prometeu mudanças “paulatinas” na Lava Jato e reconheceu que terá atuação política. Atuação política na chefia da polícia que investiga os políticos? Hã, hã! O velho Esopo diria que se trata do caso da raposa disposta a assumir a segurança do galinheiro. Mas a fábula é antiga!

Enquanto Segóvia, o “tranquilo”, assume o paulatino como pauladas em subordinados e pagantes, o chefe do governo tenta obter a própria superimpunidade por meios sibilinos. Seu advogado Carnelós pediu toda a vênia possível a Fachin para convencê-lo a desistir de encaminhar Cunha, Geddel, Henriquinho, Rodrigo da mochila e Joesley, entre outros, para a primeira instância de Moro e Vallisney. E assim evitar que surjam delitos desconhecidos em seus depoimentos ou delações dos quais o chefe não tomaria conhecimento no gozo de sua indulgência plena com data marcada para terminar: janeiro de 2019.

Na manchete do Estado anteontem, Pauta-bomba no Congresso põe em risco ajuste fiscal, a reportagem de Fernando Nakagawa e Adriana Fernandes, de Brasília, relata o perdão das dívidas dos ruralistas, depois da dispensa de multas e pagamentos de parlamentares empresários, seus sócios e compadres em outro Refis amigo. E, segundo o texto, a Lei Kandir será alterada. Sem despesas, mas com graves danos ao combate à corrupção, vêm, depois deste feriado, a lei do abuso de autoridade e a redução das punições da Ficha Limpa, só para quem a tiver violado após sua vigência. Rogai por nós!

Na adaptação da obra-prima de Proust, Em Busca do Tempo Perdido, a memória não tem o olor das madeleines, mas dos miasmas de uma República apodrecida, convenientemente distante do Brasil real, que não a suporta mais.

José Nêumanne Pinto

Jornalista, poeta e escritor

(Publicada na Pag2A do Estado de S. Paulo da quarta-feira 15 de novembro de 2017)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/miasmas-do-planalto/

No Blog do Nêumanne: A pane mental no Texas

No Blog do Nêumanne: A pane mental no Texas

Na ditadura havia crime e corrupção como agora, mas a censura impedia que o País soubesse

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o ataque a tiros que deixou 26 pessoas mortas numa igreja no Texas no domingo, é uma questão de “saúde mental” e o acesso às armas nos EUA não é o problema. Ele também enviou suas condolências aos parentes das vítimas e ressaltou que os EUA “sempre são mais fortes quando estamos unidos”. Se o diagnóstico for certo, seu autor e propagador tem cometido graves erros. De acordo com o despacho da correspondente do Estado, Cláudia Trevisan, as vítimas frequentavam a Primeira Igreja Batista de Sutherland Springs, comunidade de 640 habitantes a 50 quilômetros de San Antonio. O número de mortos representa 4% da população local. Outras 20 pessoas estão em hospitais da região com ferimentos de distinta gravidade. Segundo a polícia, a idade dos mortos varia de 5 a 72 anos.
Salta da frase do republicano a evidência de que ele pretendeu, em primeiro lugar, descaracterizar a chacina como ato terrorista e, em segundo lugar, desconectá-lo da possibilidade de ter resultado da liberdade que qualquer cidadão tem de adquirir armas de fogo no país. Feita no Japão, no outro lado do mundo, contudo, a frase só expressa mesmo a indiferença do chefe de governo da maior potência militar, política e econômica do planeta à morte dos cidadãos, que são o núcleo e a essência da democracia, sob cuja vigência atuam governo e sociedade civil com regras de convívio estabelecidas desde a chamada Revolução Americana, realizada, assim como a Revolução Francesa, no século 18, mas de natureza completamente oposta a esta. Hoje há até mesmo uma tendência dos historiadores e cientistas políticos a marcar uma diferença fundamental entre ela e a Inglesa, do século 17, de um lado, e, de outro, a citada na França e a da Rússia, cujo centenário não foi celebrado na pátria-mãe do socialismo no dizer de Stalin, mas o está sendo por comunistas do resto do mundo.
A insensibilidade do bilionário Trump na chefia da nação foi várias vezes citada em episódios como o da viúva do herói de guerra, que detectou não ódio, mas algo do mesmo gênero – descaso e desinteresse –, no telefonema que o inquilino da Casa Branca lhe deu para, em tese, lamentar a terrível perda. Nem por isso convém desperdiçar a oportunidade de notar e registrar que a forma como o presidente combate o terrorismo é absolutamente inadequada, seja no quesito direitos humanos, seja na eficácia dos métodos empregados para deter o passo dos inimigos.
O mais gélido dos chefes de governo – mas não ele – daria mais valor à perda de vidas humanas do que à natureza do atentado que as vitimou. Há algo que, certamente, escapa à percepção monolítica do mais poderoso político mundial. O assassínio dos ciclistas em Manhattan foi de inspiração terrorista fanática e, como tal, assusta muito, pois demonstra a fragilidade das defesas de uma potência como a americana em relação a esse tipo de prática suicida de inspiração religiosa fundamentalista. Outra coisa é a atitude tresloucada do atirador do Texas, um veterano de guerra, em mais uma demonstração do efeito arrasador das intervenções militares americanas no planeta sobre a população do país. O resultado de ambas, contudo, é devastador, seja pela loucura, seja pelo fanatismo. E o aspecto espetaculoso de chacinas sempre produz um efeito cascata macabro.
Quando comentei no Jornal Eldorado o atentado contra a ciclovia em pleno centro da metrópole das metrópoles, cosmopolita por definição e natureza, critiquei duramente a reação, que considerei inábil e inadequada, de Donald Trump reforçando a ideia de que o melhor caminho para combater o terrorismo é a retaliação, o olho por olho, dente por dente da Bíblia, a lei de talião. Muita gente me criticou mais duramente em respostas nas redes sociais, dizendo que ele está certo e que há que ser duro com o terror. É claro que há que ser duro contra o terror, mas não ser duro de forma indiscriminada contra todos os cidadãos muçulmanos, porque o terror mais comum pode até ter hoje inspiração fundamentalista muçulmana, mas não é só por isso e nem sempre foi assim.
O atentado terrorista de um nacionalista sérvio provocou a 1;ª Grande Guerra Mundial. Os separatistas bascos aterrorizaram a Espanha por anos. Albert Camus escreveu textos antológicos e atuais contra o terror anticolonialista de sua pátria, a Argélia. A retaliação proposta por Trump é estulta por isso tudo e também porque – repito o que disse na rádio e por isso fui repelido – ela parte da ignorância da situação. E joga, sim, gasolina na fogueira. O correto é ser duro contra o terror, mas sem abrir mão da tolerância religiosa, da liberdade individual e de outras conquistas da civilização ocidental. Os ventos fortes que o governo Trump está plantando têm produzido de volta tempestades que atingem cidadãos americanos aleatoriamente, seja por novos atentados terroristas, seja produzidos por loucura pessoal. Não venho aqui afirmar: eu avisei. Apenas reforçar minha opinião de que a truculência covarde do terrorismo aleatório não será contida com a incompetência aleatória de quem usa como arma de guerra apenas o “quem com ferro fere com ferro será ferido”.
Acho também que as condenações que recebi por ter criticado Trump podem dar uma excelente oportunidade para discutirmos essa onda de direita radical que toma conta da política brasileira, como nunca antes tinha acontecido no País. E ela leva ao paroxismo de uma nostalgia da ditadura militar, que sempre chamo de longa noite do arbítrio.
Tive oportunidade de ver análises objetivas, tranquilas e lúcidas produzidas sobre o tema por Fernando Gabeira em seus artigos neste Estado na sexta-feira e no Globo de domingo. Ele mostrou como a insensatez populista, oportunista e criminosa do PT de Lula e Dilma terminou produzindo uma reação inusitada no lado oposto do espectro ideológico por uma direita cega, vingativa e muito pouco inteligente.
Domingo tive a oportunidade de ver na GloboNews que essa direita pouco afeita à lógica e à leitura chama de globolixo, um debate esclarecedor no programa de debates Painel, apresentado por William Waack e com a participação dos intelectuais Roberto Romano e Luiz Felipe Pondé, filósofos, e Luiz Sérgio Henriques, tradutor de Antonio Gramsci, o italiano que fez a cabeça dos comunistas brasileiros dos anos 40 aos 60. Aconselho que esquerdistas, direitistas e liberais lúcidos (que os há) o procurem no Google para assistir e se informar. Aprendi muito no debate.
Em seguida, tive a oportunidade de ver, no mesmo canal, um documentário sobre a brutalidade com que os ditadores militares brasileiros dizimaram, sem nenhum motivo justo ou até lógico, um dos poucos exemplos de capitalismo bem-sucedido nestes tristes trópicos, a Panair do Brasil. Essa obra nefasta do regime autoritário tecnocrático militar levou 5 mil famílias brasileiras ao desemprego. A ditadura reprimiu, torturou e derramou sangue de inimigos e de inocentes. É lamentável que ainda haja quem tenha saudade disso, como se fosse a panaceia para os males trazidos à sociedade brasileira por filhos dessa própria ditadura.
E também que tenha, neste momento de paroxismo da violência e da decadência do Rio levado à disputa da prefeitura daquela cidade em segundo turno por fenômenos da utopia regressiva religiosa de Crivella e da outra do legado revolucionário obsoleto e ineficiente de Freixo. Agora as pesquisas aparecem com a repetição desse mesmo antagonismo apontando um falso, mas perigoso, momento decisivo entre Lula e Bolsonaro. O caminho para escapar dessa assustadora fuga pelo regresso está no abandono da egolatria e da estadolatria e no avanço da sociedade na solução dos problemas, que são imensos. Lembro, como fez Luiz Sérgio Henriques no Painel, o exemplo luminoso do dirigente Lula Maranhão, do Partido Comunista Brasileiro, propondo e fazendo profícuo e democrático diálogo com e entre os cardeais dom Eugênio Sales, conservador do Rio, e dom Paulo Evaristo Arns, progressista de São Paulo.
A diferença mais notória entre a ditadura e hoje é que agora temos violência nas ruas e corrupção na máquina pública. Na ditadura também havia crime comum, mas associado ao pior de todos, a truculência do Estado. O exemplo da Panair, lembrando na canção Conversando no Bar, de Milton Nascimento e Fernando Brant, é apenas um. Os que ora sonham com esse inferno feito paraíso não sabem porque não viveram ou porque, se testemunharam, não ficaram sabendo, por causa da mão pesada da censura.

José Nêumanne
• Jornalista, poeta e escritor
(Publicado no Blob do Nêumane, Política, Estadão, na segunda-feira 6 de novembro de 2017)
Para ler no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, clique no link abaixo:
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