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Política

No Blog do Nêumanne: Escondendo a covid do povo

No Blog do Nêumanne: Escondendo a covid do povo

José Nêumanne

General intendente na Saúde suspende boletim diário da pasta sobre total de contágios pelo novo coronavírus e Bolsonaro comemora Jornal Nacional não ter como informá-los ao público

O Estado de Direito, vigente há 32 anos na forma de Constituição aprovada por representantes da cidadania, foi violentado de forma desrespeitosa e cínica pelo ministro da Saúde, o roliço general intendente Eduardo Pazuello, que interrompeu a comunicação diária de dados de contágios e óbitos da covid-19. A infâmia foi comemorada de forma pueril e estúpida pelo chefe dele, o presidente da República, Jair Bolsonaro, que, num de seus ominosos contatos com adoradores no chiqueirinho montado à frente do Palácio da Alvorada, disse: “Acabou matéria do Jornal Nacional”. E depois chamou a Globo, que veicula o telejornal citado (e explicitamente prejudicado), de “TV Funerária”.

Celebrada como batalha vencida contra inimigo jurado, a rede de televisão aberta monopolista de audiência, na guerra eleitoral da covid, a ordem foi executada com fé cega, faca amolada pelo general boboca, que executou o serviço sujo por crassa ignorância. E resultou em crime brutal contra direito elementar de cada cidadão brasileiro. Pretendente a proprietário exclusivo da liberdade de expressão, conceito que usa e de que abusa para defender acusados de divulgar mentiras para executar reputações de inimigos e louvar seus falsos feitos oficiais, o chefe do governo não sabe da missa um terço, como rezava minha avó.

A liberdade de expressão não é um produto nobre dos meios de comunicação ou exclusivo do ofício de comunicadores. Ao contrário. É um dos direitos humanos fundamentais em qualquer Estado de Direito que se preze. E que também deveria ser prezado por quem se proclama, como é seu caso, defensor do único regime político realmente popular, que é a democracia, palavra egressa do grego que significa “governo do povo”. A liberdade de expressão, informação ou opinião é um direito público, e não uma arma política individual. Ou seja, o usuário do conceito pétreo de qualquer Constituição, incluída a nossa, é o cidadão. O que ele e seu intendente sabujo não conhecem, por interesse ou deficiência intelectual de analfabetos funcionais que são, é que a ordem vigente neste país desde 1988 admite que até seus inimigos, como eles, por exemplo, o exerçam apenas porque a cidadania exige pluralidade de ideias.

No entanto, essa liberdade de um tipo de governo que admite até desaforo (caso das manifestações fascistoides animadas pelo chefe do Poder Executivo diante de edifícios que abrigam instituições do Estado, como o Quartel-General do Exército e os Palácios do Planalto e da Alvorada) não permite caneladas que os impeçam de continuar sua marcha, com a qual o povo brasileiro é comprometido e de que não quer abrir mão.

A liberdade, em toda a ampla extensão do significado dessa palavra sagrada, não é uma permissividade do Estado que a pratica, mas um dever inelutável, uma obrigação indispensável de seguir e manter, tal como expressa o juramento que o capitão reformado fez em sua posse na Presidência da República. Esse exercício é de tal forma exigido que, ao longo dos anos, o configuram em leis ordinárias os membros do Poder Legislativo, eleitos pelo povo da mesma forma que ele, como vive a repetir, pretendendo assim executar todos os Poderes prometidos pelos populistas, sem regras nem limites, tal como faz questão de executar e exibir. É o caso da lei da transparência, também vigente neste país, que não é a senzala da “casa grande” da famiglia Bolsonaro nem a latrina da caserna da qual ele foi convidado a se retirar por indisciplina e terrorismo, e não deveria esquecer-se disso. No caso particular de mais essa lei, que o capitão cloroquina e o general contabilista desafiam como se fosse um dever de casa, exige a divulgação de informações de interesse público que sejam “primárias, íntegras, autênticas e atualizadas”.

No episódio específico da violação da transparência e do direito do público à informação pela providência totalitária tomada pelos dois, há ainda uma agravante. Outro preceito constitucional dá a qualquer cidadão brasileiro o direito à vida e também este é inalienável, precedendo em valor até o da liberdade e o de ir e vir, de que, de forma irresponsável, ele tem lançado mão contra governadores e prefeitos que pretenderam evitar o colapso do sistema público de saúde de seus Estados e municípios.

Ao contrário do que seu mesquinho individualismo doentio pode fazer-lhe crer, não foi por vaidade, exibicionismo ou vontade de brilhar na foto que seu primeiro ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, liderou a equipe em entrevistas coletivas diárias em horário adequado à melhor absorção pelo público pagante, detalhando estatísticas e informações sobre a pandemia: 17 horas. O desempenho do Estado brasileiro na prevenção à circulação do novo coronavírus foi de um ridículo comum no desgoverno de sua excelência. No quarto mês da ameaça crescente da covid-19, o cidadão (e não súdito) brasileiro conviveu com a incompetência de gestão de governos federal, estaduais e municipais, que não providenciaram a compra de testes e de equipamentos indispensáveis para permitirem ao sobrecarregado Sistema Único de Saúde (SUS) cumprir, com dificuldade e heroísmo, a obrigação de manter a higidez de todos os brasileiros.

No entanto, Mandetta nunca negou outro insumo fundamental, a informação, que não é, nunca foi, exclusivo de nenhum veículo, por mais poderoso que possa ser. Mas de todos. As informações que Mandetta e sua equipe deram não serviam apenas para aumentar a audiência ou leitura desses veículos, consequência natural não da histeria detectada pela limitada inteligência do chefão, mas da necessidade comum de tomar conhecimento de tudo o que pudesse ser feito para evitar a contaminação.

O arrivista Nelson Teich, bem-sucedido empresário da área da doença privada, e não da saúde pública, desprezou a prática apenas como concessão à vaidade e à cegueira do chefe máximo. Mas também terminou caindo por não poder emprestar sua assinatura de médico à vocação dele de homem da cobra de feiras livres, a prometer a cura mágica pela cloroquina, que não evitou a mortandade que se abateu sobre o povo brasileiro. Como já tinha feito antes com a tentativa de empurrar goela abaixo de cada um o placebo (que consulte o dicionário e saberá o que é) da “pílula do câncer”.

Agora temos o general guarda-livros, que gosta de falar em logística (aliás, dane-se sua logística). E este cede a seus caprichos. Ainda assim, não sendo médico nem tendo encontrado nenhum profissional das ciências médicas disponível para satisfazer sua altiva ignorância, não firmou o protocolo do medicamento para lúpus, malária e reumatismo, mas promulgou um édito absurdo, que seria cômico se não fosse trágico.

O permanente ministro provisório, de plantão até o fim dos efeitos deletérios da pandemia e da depressão econômica inigualáveis, deu sua contribuição à catástrofe, que parece não ter limite nem fim, de sua gestão com um dedo de ridículo impagável. O bilionário Carlos Wizard é tão absolutamente absurdo em sua falta de “senso de loção”, como dizia minha tia Maria, que queria proibir a importação de mais respiradores. E prometeu recontar e reduzir o número de mortos, feito que nem seus inspiradores da ditadura militar conseguiram com a epidemia de meningite que abalou o País no fim do século passado.

Da obra inesquecível do paspalho ficou, contudo, essa herança que o conduzirá ao opróbrio (será necessária mais uma consulta ao “pai dos burros”) histórico de não ter respeitado alguns direitos elementares que os homens veneram desde que observavam as sombras da fogueira na caverna de Platão. O coronavírus nega a suas vítimas acompanhar seus entes queridos na agonia, confraternizar na despedida dos velórios e contar com amigos em número suficiente para levarem o ataúde até a sepultura. O desgoverno de sua excelência acrescenta a isso a mágica macabra de um ilusionista que tenta se esconder no sobrenome inglês de tal desumanidade que retira seus mortos queridos até da estatística.

 Não omitirei a sentença genial do substituto legal eventual do capitão, o general Hamilton Mourão, seu companheiro de chapa na vitoriosa campanha eleitoral de 2018. “O governo não quer esconder os mortos. É só somar”, sapecou o conselheiro Acácio dos bivaques. Isso poderia, pelo menos, ter servido de alerta ao titular. O Tribunal de Contas da União, a Câmara e o Senado anunciam a criação de plataformas para substituírem a Intendência da Saúde na tarefa que pode ser cumprida por algoritmos de computador. E os meios de comunicação também farão isso.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicada no Blog do Nêumanne na segunda-feira 8 de junho de 2020)

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Artigo para coluna da Ric Mais: A sinhá escravista e o general covarde

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A sinhá escravista e o general covarde

José Nêumanne

Mulher do prefeito socialista leva filho negro

da doméstica à morte e ministro da Saúde foge à luta

Mirtes Santana, funcionária-fantasma da prefeitura de Tamandaré (PE), levou cãozinho da patroa, Sari Corte Real, mulher do prefeito, Sérgio Hacker, a passeio e deixou o filho, Miguel Otávio, de cinco anos a seu cuidado. O garoto sentiu falta da mãe e, para não ser perturbada enquanto fazia as unhas, a primeira-dama do município onde fica a bela praia dos Carneiros, o levou ao elevador. O menino não conseguiu marcar o andar e ela apertar o botão do nove. Ao se abrir a porta, ele saiu, subiu no equipamento do ar condicionado e caiu 35 metros. Foi socorrido, morreu e sinhô e sinhá foram ao velório chorar. Mas imagens do condomínio revelaram o crime da sinhazinha: homicídio culposo, sem intenção de matar, decretou a compreensiva polícia do partido fundado por Miguel Arraes, ícone da esquerda brasileira. E cobrou módica fiança de R$ 20 mil.

Como diz o professor de Direito da USP Modesto Carvalhosa, que assinou um belíssimo artigo intitulado Racismo e amor na página 2 do Estadão, neste país não há discriminação, mas servidão. Foi o que ocorreu no edifício luxuoso, confirmando conseqüências da forma como aqui se aboliu a escravidão, há 132 anos, apontadas pelo genial abolicionista Joaquim Nabuco, nascido no engenho Maçangana, no mesmo Pernambuco.

No dia 4 de junho de 2020, quando o Brasil tomou conhecimento do trágico recorde diário de 1.473 novos óbitos registrados em 24 horas, esta Pátria cruel e escravista atingiu a marca de  34.021 vidas perdidas pela covid-19. Passou a Itália e ficou em terceiro lugar no mundo inteiro. Justamente nesse dia, o permanente ministro provisório do governo do capitão cloroquina, general Eduardo Pazuello (vulgo pançudo) desertou do campo de batalha contra a pandemia para se esconder vai saber onde. Recentemente, ele foi visto ao lado do chefe sobrevoando manifestações fascistóides golpistas na Esplanada dos Ministérios. Mas na hora de explicar seu malogro como intendente, função militar que ocupa na pasta que deveria cuidar da doença, ele desertou da trincheira, sorrateiramente.

Em seu perfil no Facebook, o Exército brasileiro, em que o permanente ministro provisório milita, registrou uma frase célebre de um guerreiro histórico, o corso Napoleão Bonaparte, sobre sua função: “Um exército marcha sobre seu estômago”. Incapaz de ajudar Estados e prefeituras que combatem pra valer o contágio do novo coronavírus, o oficial da ativa preferiu sumir a deixar as tropas avançarem sobre seu ventre. No começo do combate à endemia, envergando um colete do SUS, o então ministro da área, Luiz Henrique Mandetta, dava explicações sobre os resultados funestos da falta de testes e de leitos de UTI minuciosa e diariamente. Pazuello prefere fugir à luta escondido no próprio silêncio.

*Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: O chute ideológico da direita chula

No Blog do Nêumanne: O chute ideológico da direita chula

José Nêumanne

Bolsonaro quer dar autogolpe, como Hitler, Mussolini e Getúlio, mas não se inspira neles nem no golpe de 1964, e, sim, em Ku Klux Klan,  Chávez e Frota, que tentou derrubar Geisel

Parece que o presidente Jair Bolsonaro ainda não percebeu. Mas conseguiu um feito pelo avesso, que antes era impossível de ser imaginado: ao estrebuchar (e não apenas espernear) contra Celso de Mello e Alexandre de Moraes, ele uniu o Supremo Tribunal Federal (STF), que até agora parecia fadado a uma eterna divisão em seis a cinco. Espectadores atentos de entrevista do ministro Gilmar Mendes à GloboNews, domingo, notaram o tom respeitoso e prudente dele ao se referir ao desafeto jurado Luís Roberto Barroso. E, fora do convívio no “pretório excelso”, tratou o alvo favorito de seus vitupérios, o ex-ministro Sergio Moro, usando palavras e modos educados em tom cordial, imaginem.

No sábado, o “capitão cloroquina” foi alvo de uma saraivada de pitos jurídicos do normalmente polido decano do STF, que dias antes fora execrado em nota estúpida do chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, general Augusto Heleno Ribeiro. O procurador egresso de Tatuí, cidade paulista conhecida pelos pendores musicais de seus filhos, normalmente autor de votos longos e barrocos, usou uma linguagem direta (e até desabrida) contra o dito magistrado número um da República, chegando a abusar de letras capitais, que em internet, correspondem a gritos. Na mensagem, dirigida a amigos pelo WhatsApp, comparou os disparates verbais de seu recente oponente ao comportamento do maior vilão do século 20, o michê austríaco Adolf Hitler, responsável pelo maior malogro da reputação de bons soldados dos alemães, ao mergulhar numa aventura insana declarando guerra ao mundo.

Mello, relator do inquérito pedido pelo procurador-geral da República, o chapinha Augusto Aras, para investigar acusações que Moro fez a Bolsonaro, afirmou que, guardadas as proporções, “parece estar a eclodir no Brasil” o “ovo da serpente, à semelhança do que ocorreu na República de Weimar (1919-1933) … É PRECISO RESISTIR À DESTRUIÇÃO DA ORDEM DEMOCRÁTICA, PARA EVITAR O QUE OCORREU NA REPÚBLICA DE WEIMAR”, lembrando que, eleito chanceler, o nazista rompeu com a democracia, rasgando a Constituição de Weimar e “impondo ao país um sistema totalitário de poder”. Antes, Sua Insolência decretara “acabou, porra!”, referindo-se a outro ministro do STF, Alexandre de Moraes, que mandara fazer buscas e apreensões em gabinetes, escritórios e residências de bolsonaristas suspeitos de executarem assassinatos de reputações de ex-aliados e inimigos do chefão. Aos berros, como costuma se dirigir a interlocutores reais e imaginários, havia dito que ordens absurdas da Justiça não devem ser cumpridas.

De fato, há semelhanças entre o autogolpe do primeiro-ministro da República de Weimar e o projeto de poder total de Bolsonaro. Derrotada numa guerra que iniciara para realizar um projeto de conquista territorial, humilhada pelo Tratado de Versalhes e empobrecida, a antes próspera e orgulhosa Alemanha achou no artista frustrado a oportunidade para a revanche contra os tradicionais inimigos franceses e britânicos. À saída da crise, provocada pela roubalheira das lideranças políticas, o Brasil elegeu um presidente para afastar o PT do poder e dar continuidade ao combate à corrupção. Como Hitler, Bolsonaro teve a ascensão facilitada pela covardia das elites civis, pela ganância de um empresariado viciado em boa vida e pela oportunidade dada aos militares de recuperarem o orgulho ferido pela imagem destroçada por práticas abomináveis contra civis indefesos.

Parlamentar do baixíssimo clero por 30 anos, com desempenho para o qual a definição de medíocre equivale a uma medalha de demérito, cujo ponto alto foi a aprovação da maior picaretagem da medicina no País, a “pílula do câncer”, o negacionista, terraplanista e armamentista é produto e objeto de vários enganos. Um deles é sua falsa veneração pela ditadura militar, retratada na parede de seu gabinete na Câmara dos Deputados com as fotos oficiais dos cinco generais que ocuparam o poder nos 21 anos de tirania. Não é segredo para ninguém que sua saída do Exército foi negociada para evitar um escândalo. Pilhado na realização malsucedida de um atentado à bomba em quartéis e na adutora do Rio Guandu pela pouco altruísta causa do aumento do próprio soldo, foi corretamente definido por Geisel como “mau militar”, em documento histórico de valor inegável.

O general tinha motivos razoáveis para dar a definição, pois sabia do pendor terrorista e do comportamento indisciplinado do oficial. “Revolucionário” em 1930 e 1964, o quarto presidente da ditadura tinha também um desconfiômetro aguçado. O herói militar do capitão era o coronel Brilhante Ustra, torturador e assassino que homenageou ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff. Outro altar em seu panteão era de  Sebastião Rodrigues de Moura, vulgo Major Curió, recentemente celebrado em seu gabinete e que sempre se jactou de ter executado com a própria pistola cinco guerrilheiros presos, manietados e desarmados do PCdoB, na insana aventura da revolução comunista que seria deflagrada dos confins do vale do Rio Araguaia, no Centro-Oeste do Brasil. A dupla participou de uma das tentativas de golpe mais ridículas da História do Brasil. Eram fiéis discípulos do general Sylvio Frota, ministro do Exército de Geisel e que tentou impor o próprio nome à sucessão presidencial, mas foi preterido em benefício de João Figueiredo. Ustra e Curió eram dois dos 12 oficiais mandados por Frota ao aeroporto de Brasília para esperar os comandantes dos Exércitos, mas não conseguiram, porque foram ludibriados pelo general Fernando Bethlem, que também era frotista, mas aceitou substituir o malogrado sedicioso no Ministério do Exército.

Também fazia parte do golpe malogrado o capitão Augusto Heleno Ribeiro de Almeida, que era ajudante de ordens de Frota e fez parte dos apóstolos enganados pelo ex-parceiro na recepção aos comandantes. Esse, contudo, não é o único momento polêmico da vida do oficial. Ele foi condenado pelo Tribunal de Contas da União por irregularidades na compra de equipamentos para um torneio esportivo do Exército. Foi também substituído no comando da tropa da ONU no Haiti por ter comandado um massacre num bairro miserável de Porto Príncipe. Desde então, tem o então presidente Lula na pior conta. O que não o impediu de aceitar fazer parte da equipe do Comitê Olímpico Brasileiro, que, presidido por Arthur Nuzman, participou da escolha do Rio para sediar a Olimpíada de 2016. E só deixou o emprego no dia em que o chefe foi preso, ao ser flagrado no escândalo de corrupção de que resultou tal decisão.

O signatário da nota grosseira ameaçando com “consequências imprevisíveis” o fato de Celso de Mello ter mandado apreender o celular do amado chefe (o que é falso), completa, então, a constatação de que a nostalgia de Bolsonaro pela “gloriosa revolução de 1964” não passa de uma farsa. Faltou uma fotografia na parede do gabinete do deputado multipartidário na Câmara: do golpista fracassado Sylvio Frota.

É louvável a bravura com que Mello tem defendido a democracia do autogolpe que Bolsonaro pretende dar, mas nega, alegando que não teria sentido fazer a ruptura (como anunciou seu filho Eduardo, o 03) por já estar no poder. Há, é claro, inúmeros exemplos disso na História, tais como Hitler, Mussolini e Getúlio Vargas. Pois a própria palavra que indica golpe em si mesmo não teria sentido se alguém não recorresse a esse extremo em busca do poder absoluto, como Jânio Quadros tentou, e fracassou, em 1961.

Mas o empregador de parentes de milicianos, defensor de mentiras fascistoides e de armar o povo para se defender da “ditadura” de seus inimigos se inspira em ídolo mais próximo. Em entrevista a este Estadão em 1999, disse que o bolivariano Hugo Chávez era uma “esperança para a América Latina” e gostaria muito que essa filosofia chegasse ao Brasil, “Acho ele (sic) ímpar. Pretendo ir à Venezuela e tentar conhecê-lo. (…) Chávez não é anticomunista e eu também não sou. Na verdade, não tem nada mais próximo do comunismo do que o meio militar”. Para ele, o venezuelano o “remetia ao marechal Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura militar. “Acho que ele vai fazer o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força. Só espero que a oposição não descambe para a guerrilha, como fez aqui”, completou.

Em 2002, confessou ter votado em Lula. E indicou para ministro da Defesa José Genoíno e Aldo Rebelo, ambos do PCdoB e que sobreviveram ao Major Curió. Esse é o típico chute ideológico de nossa direita chula, com tochas e máscaras como seus inspiradores da Ku Klux Klan cabocla, os 30 que se dizem 300 de Esparta e marcharam sábado, em Brasília.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 1 de junho de 2020)

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Artigo para coluna da Ric Mais: Autogolpe de Bolsonaro ainda é no gogó

Artigo para coluna da Ric Mais: Autogolpe de Bolsonaro ainda é no gogó

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Autogolpe de Bolsonaro ainda é no gogó

José Nêumanne

Prioridade do presidente é se dar bem e enfraquecer instituições para exercer poder absoluto

Muitos meios de comunicação deixaram de frequentar o chiqueirinho diante do Palácio da Alvorada, onde o presidente Jair Bolsonaro recebe fiéis devotos e os vê agredirem repórteres. Chamou de entrevista o monólogo do rancor. Mas alguém ousou fazer uma pergunta e ele não berrou o “cala a boca” de vez anterior, mas deixou claro que, na modalidade cloroquina de entrevistas, perguntas nunca interrompem suas arengas de baixo calão.

Aos berros, como aprendeu na casa paterna e os usa para tornar o Brasil uma republiqueta de bananas do Vale do Ribeira, onde foi criado, deu a própria versão do “diga ao povo que fico” do príncipe Dom Pedro ao ser convocado a voltar para Lisboa. “Acabou, porra!”, resumiu o recado ao Supremo Tribunal Federal (STF). Tradução social: “Ordens absurdas não se cumprem”. Defendia bandidos que pagam ou são pagos para disparar mentiras em redes sociais, inspiradas no “gabinete do ódio” do filhote 02.

À tarde, na live das quintas dos infernos, disse que pretende nomear o procurador-geral da República, hoje na prática “puxa-saco oficial do presidente”, para a terceira vaga que preencherá no STF. Mas só dois ministros se aposentarão na vigência de seu mandato atual (quem lhe garante que haverá outro?). Ué, na hipótese de algum dos remanescentes desaparecer. Lembrou aí desaparecidos na ditadura ou uma nova forma de assassinato de milícias da periferia do Rio, onde mora? Quem vai saber? Certo é que Augusto Aras lhe tem prestado excelentes serviços no cargo para o qual o nomeou, à revelia das listas tríplices dos procuradores. O petista baiano, como deixou claro o chefão, tem-lhe prestado bons serviços.

Bobocas como o autor deste texto imaginavam que isso seria feito mesmo, mas não às escâncaras. Será que o fez por escassez de inteligência ou falta de finura no trato institucional? Tanto faz. Pois no dia seguinte o leão de comédia da Metro baliu como cordeiro em pele de lobo ao falar para o público amestrado, respondendo a um admirador sobre abertura de escolas. “A decisão das escolas cabe aos governadores e prefeitos”, afirmou, fugindo a essa e outras oportunidades de criticar o STF. Dá para entender Bolsonaro? Perfeitamente. Ele sempre dá dois passos à frente e um para trás com o objetivo de solapar as instituições e dar um autogolpe. Na proclamação desse golpe do gogó, falou em “armas da democracia”.

Mas os generais Hamilton Mourão, seu vice, e Augusto Heleno Ribeiro, chefe de sua segurança pessoal, deixaram claro que os fardados armados não apoiarão golpe algum. O general Santos Cruz, amigo desde a Academia Militar de Agulhas Negras, que vilmente expulsou do Palácio do Planalto , renegou o devaneio. Aí, ele afinou. E miou, que besta ele não é.

*Jornalista, poeta e escritor

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Artigo na página Opinião do Estadão: A milícia anunciada por um governo com gângsteres

Artigo na página Opinião do Estadão: A milícia anunciada por  um governo com gângsteres

Em reunião mafiosa, Bolsonaro avisa

que armará bandos contra seus ‘inimigos’ eleitos

Quando o vídeo da reunião do Conselho de Governo de 22 de abril teve o sigilo levantado, inocentes inúteis adotaram a definição do gabinete do ódio bolsonarista de que a bala de prata teria virado traque junino: “Ufa, a prova material da interferência política de Jair Bolsonaro na Polícia Federal, denunciada por Sergio Moro, não foi exibida!”.

Nenhum figurão da República deu importância a uma personagem relevante do inquérito, a deputada Carla Zambelli, que havia oferecido uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) ao então ministro da Justiça. Antes de ser divulgado o vídeo, ela definiu: “Moro caiu porque é desarmamentista”. Nem sequer lhe foi dedicado um muxoxo de “tolinha”. Pois não é que a atual pomba-correio do presidente da República na Câmara dos Deputados e na Secretaria Especial de Cultura tinha razão? Meninos, eu vi. Basta ver e ouvir o que seu “mito” que mente disse.

Segue transcrição oficial: “Como é fácil impor uma ditadura no Brasil. Como é fácil. O povo tá dentro de casa. Por isso que eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui! Que é fácil impor uma ditadura”, esbravejou o chefão. E frisou: “Eu peço ao Fernando (Azevedo e Silva, ministro da Defesa) e ao Moro que, por favor, assinem essa portaria hoje”, disse o “senhor Constituição” na reunião em que, ao contrário do agendado, não se discutiu a reconstrução da economia pós-pandemia. A não ser por discursos “kaftianos” (apud Weintraub) do “posto Ipiranga” da economia. Tudo numa linguagem que não foi de prostíbulo de porto nem de botequim pé-sujo, mais respeitáveis, mas das reuniões da Máfia de Chicago, sob o taco de beisebol de Al Capone, durante a Lei Seca nos Estados Unidos.

O “capitão cloroquina” fez aí referências explícitas a dois ministros e sobre elas o advogado-geral da União, José Levi do Amaral Júnior, nem se importou em inventar a mentira deslavada do pito na segurança pessoal, assumida pelos generais palacianos, de que tratava, em linguagem de chulé, de crimes que o procurador-geral da República, Augusto Aras, nem sequer se quis dar ao luxo de ver e ouvir na sessão prévia para as partes. No dicionário limitado de um, União, que inclui o Legislativo e o Judiciário federais, é sinônimo exclusivo de “meu chefe” (que o chama de “meu advogado”). O que é algo de pouca relevância, de vez que este se diz dono da voz do povo. E o outro, ao que parece, não se esforça para investigar algum eventual crime do usuário da caneta BIC capaz de alçá-lo ao “pretório excelso”.

Em 23 de abril, um dia depois, a portaria que Bolsonaro cobrou, e para a qual Zambelli chamou a atenção, foi publicada. O volume autorizado, que era de 200 cartuchos por ano, passou a ser de até 300 unidades por mês, a depender do calibre do armamento. A nobre parlamentar deve estar bem informada sobre o assunto, pois é casada com o coronel da PM cearense Aginaldo de Oliveira, egresso da corporação que pode ter lembrado ao capitão de milícias seus tempos de terrorista condenado e depois absolvido pela Justiça Militar. Então, foi-lhe permitido pelo Exército alterar provas do atentado a bomba que preparava contra quartéis e a adutora do Rio Guandu em sua luta obsessiva para melhorar o próprio soldo. Isso levou o ex-presidente Ernesto Geisel a chamá-lo de “mau militar”. Por sinal, a simpatia do chefe da famiglia Bolsonaro pelo motim recente da corporação do marido da devota fã ficou patente.

É claro que também confessou crime de interferência política, que levou os generais palacianos e o advogado-geral da União a agirem de má-fé, os três primeiros em depoimento no inquérito aberto pelo procurador-geral da República com autorização do STF e o último na defesa oficial do chefe do Executivo nessa mesma investigação.

A confissão de querer armar bandos contra o Estado de Direito foi adicionada à de interferir na polícia judiciária para ajudar o filho 01 e um amigo (Fabrício Queiroz) e à da existência de um serviço clandestino de informação pessoal. Os atos lembram os fasci di combattimento (grupos de combate) do fascismo do italiano Benito Mussolini. Mas pela linguagem usada e pelo passado de quem os comete têm mais que ver com as milícias da periferia do Rio, com as quais o idealizador do armamentismo cobrado de Moro se identifica. Ele saudou o tenente Adriano da Nóbrega, do Escritório do Crime, como herói do Bope, quando este já tinha sido condenado por homicídio. E mandou o filho 01 condecorá-lo com a medalha mais importante do Legislativo fluminense. A esse respeito comentou o citado ministro da Defesa, em abril de 2019: “A milícia começou numa intenção de proteger as comunidades. Na boa intenção. Começou com uma intenção de ajudar, mas desvirtuou. Desvirtuou e são bandos armados”. Que flor de ingenuidade!

Mas mais grave do que isso é que nossos falsos pais da Pátria passam ao largo de óbvias ameaças ao Estado de Direito. Incluindo-se aí as vítimas da milícia chavista de direita: João Doria, Wilson Witzel e Bruno Covas, ungidos da mesma consagração pelo voto popular em que se justifica o capo di tutti capi.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Página A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 27 de maio de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Nada de ideologia, é delinquência

No Blog do Nêumanne: Nada de ideologia, é delinquência

José Nêumanne

Há quem acredite que existe uma ala ideológica do governo Bolsonaro, que teria protagonizado reunião exibida em vídeo, mas, de fato, o que salta aos olhos são crimes do chefão e dos chefetes

Muitos comentaristas e cronistas das atividades políticas no Brasil acostumaram olhos e ouvidos do público assaltado à existência de um ente imaginário que chamam de “ala ideológica do governo Bolsonaro”. A oportunidade dada pela liberação do sigilo judicial da reunião do tal Conselho de Governo realizada em 22 de abril e vista por quem se habilitou um mês depois, por decisão do decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, deu a todos, comunicadores e receptores da mensagem, o azo de descobrirem dois fatos elementares. Primeiramente, os ditos “ideológicos” mereceram do chefão, Jair Bolsonaro, aprovação às vezes manifestada em sonoras gargalhadas. Em segundo lugar, “ideologia” neles em nada se equipara às definições da palavra usada no embate político desde os tempos da luta entre girondinos e jacobinos na Revolução Francesa. Não se realizou em momento nenhum das duas horas de vídeo uma manifestação da primeira definição de ideologia no Dicionário Aurélio, o mais consultado no Brasil: “ciência da formação das ideias; tratado das ideias em abstrato; sistema de ideias”. Ou houve?

Vamos tirar aqui a prova dos noves. Que ideologia está por trás dos três mais graves crimes cometidos pelo chefão de todos os chefetes reunidos naquela assembleia, que em nada lembra a ágora do debate em Atenas, na Grécia antiga? Que crença ou conjunto de crenças de algum sistema pode justificar a interferência do presidente da República na nomeação do superintendente da Polícia Federal (PF) no Rio de Janeiro para blindar de investigação parentes e amigos dele? Em que ponto na história das ciências políticas se destina à esquerda ou à direita, definição ideológica clássica da luta política desde os tempos dos embates entre Danton e Robespierre, que lhe sirva para determinar aos ministros da Justiça e da Defesa que liberem a venda de armas de fogo a cidadãos para receberem à bala policiais que cumprirem determinações sanitárias emanadas de prefeitos e governadores, tão eleitos pelo voto popular quanto o autor da sugestão? Em que livros de teoria ou prática da ciência política se confere ao chefe do poder democrático instalar um serviço clandestino próprio de informações, à margem do que é determinado por lei?

Pode-se argumentar que os bandos armados não são inusitados na luta por poder. O partido nacional-socialista do austríaco Adolf Hitler na Alemanha de Weimar criou as Sturmabteilungs (operações tempestade, popularmente conhecidas como as tropas de assalto SA). O socialista italiano Benito Mussolini chegou ao poder obtendo a autorização do covarde rei Vittorio Emanuelle para seus fasci di combattimento, que assassinaram outro socialista, Giacomo Mateotti, abrindo caminho para a marcha contra Roma e a tomada do poder real pelos fascistas no Parlamento. Mas aqui não estamos falando de política, e sim de poder, o que é o caso das milícias populares de Hugo Chávez e agora Nicolás Maduro na Venezuela, de Daniel Ortega na Nicarágua e de Pablo García na Colômbia. As milícias populares de Bolsonaro não podem ser confundidas com as de inspiração esquerdista acima citadas, mas são em tudo e por tudo antidemocráticas e, portanto, contra o exercício da democracia na política.

“Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”, disse, em curtíssima intervenção, o ministro da (falta de) Educação, Abraham Weintraub, irmão de Arthur, que se considera representante em Brasília do “ideólogo”-mor da famiglia Bolsonaro, Olavo de Carvalho. O programa de fechar o órgão máximo do Judiciário, bandeira dos bolsonaristas de raiz, entre eles o ministro que confunde Kafka com kafta, e depois prender por nada seus componentes do poder de nossa republiqueta das bananas do Vale do Ribeira, onde viveu o magistrado supremo, como se diz no formalismo do poder republicano, não está previsto em nenhum manual decente de política, por mais ideológico que seja. É apenas um crime previsto no Código Penal e na Lei de Segurança Nacional, abrigada na Constituição em vigor. É, portanto, o ânimo criminal, e não ideológico, que inspira o idiota que comanda a pasta mais importante do País e não disse uma palavra a respeito dela na ocasião.

Muitos termos chulos foram usados pelos membros do chulé da extrema direita, mas nenhum foi pronunciado na fala do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Nada, contudo, foi tão pornográfico como o que fez numa rara menção à gravíssima crise sanitária provocada pelo novo coronavírus. “O meio ambiente é o mais difícil de passar qualquer mudança infralegal em termos de infraestrutura, instrução normativa e portaria, porque tudo que a gente faz é pau no Judiciário, no dia seguinte. Então para isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”, disse, sem tugir nem mugir. Entre Weintraub e ele, o ex-ministro da Saúde Nelson Teich retorceu-se em evidente desagrado, que, na certa, o levou a desertar da patota imunda. Fez bem. O recorde de derrubada da Floresta Amazônica demonstra que as palavras do ministro, condenado por improbidade em primeira instância por ato administrativo no governo do tucano Alckmin no Estado de São Paulo, não foram semeadas em vão.

Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, também se referiu à terrível crise sanitária vivida no Brasil. “A pandemia vai passar, mas governadores e prefeitos responderão processos e nós vamos pedir inclusive a prisão de governadores e prefeitos. E nós tamo (sic) subindo o tom e discursos estão chegando. Nosso ministério vai começar a pegar pesado com governadores e prefeitos. Nunca vimos o que está acontecendo hoje”, disse, bem ao estilo terrivelmente evangélico que encanta o bajulado pornógrafo-chefe. Sua inspiração não pode ter sido do evangelho do amor, mas, provavelmente, do gabinete do ódio, chefiado pelo filho 02 do chefão da União, Carlos Bolsonaro. É inimaginável que ela tenha aprendido esse tipo de delinquência vulgar com Jesus Cristo na goiabeira. Mais fácil terá sido em seu ofício de coletora de dízimos do que em manuais de política, democracia e coisa pública (res publica em latim).

Um silêncio eloquente na reunião foi o do chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno Ribeiro de Almeida, a quem o “capitão da cloroquina” teria dirigido as queixas mais duras (na verdade, o vídeo provou que eram contra Moro), numa estúpida versão fantasiosa bolada por ele e dois colegas de farda e galões no Palácio do Planalto, Walter Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos. Não se sabe se para esconder a vergonha da mentira desmascarada antes de ser contestada, ele deixou para aparecer na sexta-feira 22 de maio assinando de próprio punho uma nota golpista de ameaça ao decano do STF, por ter este encaminhado a seu amado chefe aviso de que consultara o procurador-geral da República, Augusto Aras, sobre notícia-crime de que é alvo.

O autor do crime contra a Lei de Segurança Nacional, assinada por João Figueiredo no último governo da ditadura e incorporada à Constituição, já foi condenado por um crime menor, de intendente. O Tribunal de Contas da União o flagrou em compra irregular de equipamentos esportivos numa olimpíada do Exército. O general, que foi gravado cantarolando “se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão”, também foi obrigado a deixar discretamente a sinecura de que gozava no Comitê Olímpico Brasileiro assim que seu chefe e protetor, Arthur Nuzman, foi preso sob a acusação de ter participado da compra da escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016.

A experiência “ideológica” do arapongão do Palácio foi o golpe frustrado do general Sylvio Frota, de quem era ajudante de ordens como capitão, contra Ernesto Geisel. O grupo, a que também pertenciam os assassinos e torturadores Brilhante Ustra e Major Curió, escalado pelo chefe para receber os comandantes de tropas no aeroporto foi enganado por um “frotista”, general Fernando Bethlem, que recebeu os quatro-estrelas à saída da escada dos aviões em que chegaram para a posse deste.

Hoje o acusado de crimes contra humanidade no Haiti é estrela “frotista” dos generais empregados pelo capitão na produção de gosto similar ao linguajar chulo da reunião, intitulada “a volta dos que não foram”. E o que é grave: ninguém parece querer impedir que fiquem pendurados no cabide de altíssimos cargos com as garras fincadas no filé mignon do poder da triste república dos sem-coragem nem vergonha.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 25 de maio de 2020)

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