Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Política

No Blog do Nêumanne: Honestidade e garantismo de araque

No Blog do Nêumanne: Honestidade e garantismo de araque

José Nêumanne

Afastamento de Witzel do governo do Rio põe em xeque duas tradições inabaláveis da hipocrisia na política e na gestão do Estado no Brasil: probidade a toda prova e pleno direito de defesa

O escândalo em torno da atuação do governador do Estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que culminou em processo de impeachment na Assembleia Legislativa e seu afastamento do cargo por 180 dias pelo Superior Tribunal de Justiça, expõe duas farsas na vida pública nacional. A primeira são as juras de lisura na manipulação do erário tendo como base a falta de prática na política. E a outra, a falsa imparcialidade dos ministros das altas Cortes, garantida pela profusão de habeas corpus concedidos a protagonistas de casos escabrosos de desvios de recursos públicos.

Fuzileiro naval e paraquedista militar de origem, juiz de carreira e marinheiro de primeiríssima viagem em disputa de votos, Wilson Witzel nadou de braçada em mares revoltos da eleição estadual fluminense em 2018. Na disputa apoiou e foi apoiado por outro “azarão” nas eleições gerais: Jair Bolsonaro apostou no antipetismo, no combate à corrupção e na necessidade da reforma da máquina pública como armas de persuasão do eleitor. Com diferenças: ele era realmente iniciante, enquanto o capitão proibido de frequentar a escola de formação de majores, ao contrário, disputou a Presidência após dois anos na Câmara Municipal do Rio e 28 na Câmara dos Deputados. De lambujem, este ainda exibia na bagagem um filho deputado estadual que se tornaria senador, outro, reeleito deputado federal e mais um, vereador desde os 17 anos. Toda a descendência tem sustento garantido sem demissão e perda de renda. E com foro privilegiado.

Ambição de ambos e amadorismo do ex-juiz os separaram. Mesmo encarando evidências cabulosas de participação e proteção em esquema de peculato nos gabinetes de dois filhos e no próprio, administrados por ex-colega na brigada de paraquedistas do Exército, o subtenente PM do Rio Fabrício Queiroz, que protagoniza inquérito no Ministério Público do Estado (MP-RJ) em que figuram depósitos vultosos em dinheiro vivo de um chefão de milícia e empresa que agenciava préstimos de pistoleiros profissionais, o capitão PM do Rio Adriano Magalhães da Nóbrega.

Tudo isso, contudo, está imerso num mar tão poluído quanto a Baía da Guanabara, de dejetos morais que não vêm à tona talvez por causa do peso do material orgânico disponível. Sua reação estúpida a questionamentos sobre depósitos de pelo menos R$ 89 mil reais feitos pelo operador do sistema e sua mulher, Márcia Aguiar, em contas da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, é tratada de forma jocosa por seus asseclas, como o suspeitíssimo líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros, e com cínico descaso pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia, que mantém em gaveta trancada mais de 30 processos de impeachment.

Sem capivara similar, Witzel embriagou-se com o ineditismo de seu sucesso eleitoral e apostou todas as fichas em charme inexistente para afundar num pântano que não cuidou de evitar. Como os Bourbons desprezados por Talleyrand, ele fez questão de repetir tudo o que cinco de seus antecessores no Palácio Guanabara fizeram de errado, entre eles o recordista preso por pilantragem, Sérgio Cabral, Mas não deu a mínima atenção aos péssimos resultados penais colhidos pelo inspirador. Como se fartou de citar o copioso noticiário sobre o caso, é acusado de ter lavado dinheiro na contabilidade do escritório de advocacia da mulher, Helena Witzel, assim como foi feito antes com Adriana Ancelmo. As investigações também descobriram que, a exemplo de Cabral, os aliados de Witzel usaram doleiros do Uruguai para movimentar os recursos do esquema. O sistema incluiu ainda cofres e viaturas de uma transportadora de valores, a Fenixx, para guardar o dinheiro, repetindo mais uma vez o grupo de Cabral, que recorria aos serviços da transportadora TransExpert, evitando com isso que o dinheiro passasse pelo sistema bancário oficial. Essa foi a fórmula usada por Cabral e repetida por Witzel para receber e depositar propinas em dinheiro vivo. Método, aliás, similar ao de que é acusado um de seus maiores apoiadores na campanha e hoje inimigo mortal, Flávio, o primogênito de Bolsonaro.

Até agora, contudo, todas as evidências que pesam contra o ex-aliado de campanha, produzidas e vazadas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), não causaram o efeito explosivo das revelações da Operação Placebo, que ainda tem a agravante de ter desvendado a malversação de verbas empregadas no combate à pandemia de covid-19. Pois isso adiciona desumanidade à falta de prática e ao desleixo estúpido. O previsível desenrolar dos acontecimentos é a perda do cargo de Witzel retirar de suas mãos o único trunfo importante para enfrentar o inimigo poderoso na Federação: a direção do MP-RJ, que vai ser substituída em janeiro de 2021. A troca pode explicar, embora não justifique, a comemoração da famiglia Bolsonaro da desgraça do paraquedista que não soube esperar sua vez no topo da nova carreira.

Por enquanto, a única carga d’água capaz de alterar o sabor pleno do chope da vitória do aliado que virou inimigo é a prisão do pastor Everaldo Dias Pereira, acusado pela Operação Lava Jato de ter recebido R$ 6 milhões da Odebrecht para dar uma mãozinha amiga a Aécio Neves (PSDB) num debate presidencial na TV em 2014. Ou seja, dois anos antes de ter batizado Bolsonaro (o que também faria com Witzel) no Rio Jordão e quatro antes da eleição dos dois. Mas quem vai prestar atenção nisso? Os bolsonaristas ditos de raiz, ou seja, que vivem enterrados no próprio fanatismo, acreditam piamente que quem o povo elege nunca mais pode perder o mandato, a não ser na eleição seguinte. Embora seu “mito” (ou seja, minto) tenha enterrado os eleitos Collor e Dilma com seus votos e agora trate de sepultar Witzel, eleito com seu apoio em troca de apoiá-lo mesmo tendo a ele faltado a total garantia de seu direito de defesa.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 31 de agosto de 2020)

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Artigo no Estadão desta quarta-feira: Sorte, a fada madrinha do subtenente PM Queiroz

Artigo no Estadão desta quarta-feira: Sorte, a fada madrinha  do subtenente PM Queiroz

José Nêumanne

Quantos viveram na periferia do Rio,

foram ao STF e ganharam habeas corpus?

O mineiro Fabrício Queiroz não dispõe de uma moeda número um do Tio Patinhas, não nasceu em berço de ouro nem pertence à seleta casta dos gatunos da politicagem e da burocracia. Nem do foro privilegiado, que evita penas. Sua sorte foi cruzar com o capitão Jair Bolsonaro na Brigada dos Paraquedistas da Vila Militar do Exército, no Rio de Janeiro. Não pode ser acusado de calculista: em 1984 nada prenunciava o futuro poder político do amigo, cuja carreira militar seria interrompida quatro anos depois. Mesmo tendo sido absolvido por nove a quatro pelo Superior Tribunal Militar (STM) da acusação de terrorismo por ter planejado atentados a bomba contra quartéis e a adutora do rio Guandu. O deslize levou o general Leônidas Pires Gonçalves a proibi-lo de continuar cursando a Escola Superior de Aperfeiçoamento de Oficiais (Esao) e isso o impediu de ser promovido a major. E inspirou o ex-presidente Ernesto Geisel a chamá-lo de “mau militar”, que “desejava um golpe”, em depoimento publicado em livro organizado por Maria Celina d’Araújo e Celso Castro, da Fundação Getúlio Vargas, em 1993.

Então o capitão se aventurava por um campo que seria mais profícuo para seu amigo do que a PM do Rio de Janeiro: a política. Em artigo assinado na revista Veja em 1986, O salário está baixo, reivindicando melhora do próprio soldo, Jair Bolsonaro deu o pontapé inicial no jogo sujo da velha política. Da vereança no Rio, herdada pela ex-mulher Rogéria Braga e pelo segundo filho, Carlos, então com 17 anos, iria para a Câmara dos Deputados, onde militou no baixíssimo clero por 28 anos até ludibriar a opinião pública e chegar à Presidência da República, montado em antipetismo, combate à corrupção, à criminalidade e aos privilégios de parlamentares e executivos da máquina pública, bandeiras abandonadas para voltar ao cômodo abrigo do foro para ele e os três filhos adultos, garantido pelos privilégios da casta que sufoca o País.

Assim, Queiroz foi premiado com um bom lugar à sombra, definido pelo ex-aliado Major Olímpio (PSL-SP) como “gerente financeiro” da famiglia presidencial. A concessão do habeas corpus desautorizando a ordem do ministro Félix Fischer, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, incorporou esse “ofício” de aderente do clã do mais poderoso da hora. Para desautorizar o relator do STJ o eterno prevento do STF pretextou falta de contemporaneidade em suas tentativas de destruir provas e ameaçar testemunhas, denunciadas pelo Ministério Público (MP) do Rio. E desprezou a mesma exigência, feita por Fischer, para atestados médicos idôneos de sua condição de enfermo, que se jactava de festinhas no falso escritório de advocacia de Frederick Wassef, então advogado do primogênito do capitão paraquedista. Além de ter sido flagrado com uma lata de cerveja na varanda do apartamento que lhe serve de prisão. O foro de aderente explica acesso e sucesso do pedido de um suspeito cuja classe social não predomina nas estatísticas dos requisitantes de habeas corpus no “pretório excelso”. E estende-se à mulher, que, foragida, só voltou para casa após a benemérita prisão domiciliar com tornozeleira concedida pelo presidente do STJ, João Otávio Noronha, notório pretendente à quarta vaga das duas que serão preenchidas pelo presidente de plantão.

Talvez ela não se deva à facilitação da fidelidade do acusado pelo MP do Rio de operar esquema de peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa do “chefão” desta, Flávio Bolsonaro. Mas a uma guerra que Mendes iniciou quando o ex-juiz da Operação Lava Jato, Sergio Moro, ousou condenar tucanos. O inimigo mortal do latrocínio socialista tornou-se, então, feroz detrator dos “lavajatistas”, termo  cunhado por Augusto Aras, o mais recente oficial do exército que, no comando dos três Poderes da República, labuta na tarefa de permitir um eventual segundo turno da eleição presidencial de 2022 entre Bolsonaro e Lula, sem Moro.

A reputação deste sobreviveu ao conta-gotas ácido do site The Intercept Brasil e aos petardos do “gabinete do ódio” instalado a 30 metros do escritório do presidente. Mas agora a munição do paredão aguarda uso no paiol do STF, sob vigilância de Toffoli, Lewandowski e Mendes. Caso falhe a eventualidade de condenar a parcialidade de Moro, que poderá abrir caminho para a licença para Lula disputar o pleito pessoalmente ou por prepostos, prepara-se no Congresso, sob as bênçãos de Alcolumbre e Maia e o medo de punição da caterva de Centrão, PT e outros pretendentes ao tiro de misericórdia, a quarentena de oito anos para juízes e procuradores disputarem eleições. O detalhe da desfaçatez é ser esse prazo idêntico ao dado a bandidos condenados.

A volta de Bolsonaro ao Centrão, criado por Eduardo Cunha para depor Dilma, consagra-se na escolha de Ricardo Barros, ex-líder de Fernando Henrique, ex-vice-líder de Lula e Dilma e ex-ministro (da “Saúde”) de Temer, embaixador da caridade bolsonarista à mágica e trágica Beirute. Na escolha pesou sua militância declarada pela impunidade sabuja.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na pag. A 3 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 19 de agosto de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Cúmplices secretos do estuprador

No Blog do Nêumanne:  Cúmplices secretos do estuprador

José Nêumanne

A exibicionista profissional Sara Giromini, seu “mito”, Jair Bolsonaro, e quem protege o anonimato do estuprador da sobrinha de dez anos que engravidou se associam a este no crime hediondo

A história é tão horripilante que simplesmente ao ver o título da notícia o impulso emocional é fugir dela, não querer nem saber. Uma menina de 10 anos foi engravidada após ter sido estuprada pelo tio. Escapar do horror do caso, contudo, não é possível. Simples assim. Urge encará-lo. Pelo simples fato de que é real e da realidade ninguém escapa, embora seja possível fugir da verdade inexorável dos fatos. Sim. Existem pedófilos, seres humanos abjetos que abusam sexualmente de crianças indefesas. O caso dessa menina do Espírito Santo é comum, mas não se encerra em si mesmo. A criança era abusada sexualmente pelo parente, irmão de algum de seus pais, havia quatro anos, ou seja, desde os 6 anos de idade. E a biologia nos torna a todos, culpados e inocentes, vulneráveis à eventualidade da gravidez de uma mulher que ainda não chegou à adolescência, mas já está em plena puberdade. No caso específico, neste país nada especial, o episódio tem consequências que podem ser consideradas iguais ou até piores do que o fato em si e suas causas.

O desenlace trágico, por implicar a perda da vida da criança gerada, produz resultados talvez tão terríveis quanto o crime imperdoável de um nefasto ser humano, se é que pode ser definido com essas duas palavras quem praticou o crime horrendo. Mas, infelizmente, esse inexorável fruto de uma violência sexual contra uma criança, mesmo inevitável pelas circunstâncias de tudo, não apaga as abominações praticadas pelos exploradores da miséria humana e suas convicções religiosas e morais.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com todos os defeitos que tem, protege, pelo menos teoricamente, o direito à privacidade e ao anonimato da primeira vítima, a menor violentada. Além da dor inocente da perda do filho prematuro e não desejado, do trauma com que terá de conviver pelo resto da vida, a pequena capixaba também foi submetida à violação do próprio direito ao esquecimento. Nunca esse conceito, tão desejado em nossos tempos de quebra permanente da privacidade, foi tão necessário quanto o dela. Mas seu nome foi estampado nos paredões de fuzilamento das redes sociais, essas maravilhosas e abomináveis máquinas de distribuição rápida e massiva de dádivas e penas. Certa fanática do exibicionismo egocêntrico e insano, chamada Sara Fernanda Giromini, se autointitula Sara Winter, em homenagem a uma mulher de trajetória deplorável, espiã nazista de nobre e rica estirpe britânica, cujos membros frequentavam a intimidade do maior herói da paz dos tempos modernos, o primeiro-ministro Winston Churchill, literato de talento, orador respeitável, estadista e guerreiro iluminado. Tudo o que essa senhora persegue é a notoriedade, bezerro de ouro da sociedade submetida ao primado da glória, não nos campos de batalha, mas no fuzilamento cruel e covarde de reputações pelos logaritmos dos computadores. Caçadora de prestígio pelo caminho mais fácil da perversão, ela foi feminista soit-disant de esquerda e depois virou militante totalitária de direita, conectada com a tragédia torpe do racismo, da violência e da fratura da inocência. Foi em busca dessas migalhas apodrecidas do cruento banquete nazi-fascista que ela pretendeu liderar um grupo que se apelidou de 300 do Brasil, em homenagem aos 300 heróis do general espartano Leônidas, que enfrentou o poderoso exército do rei persa Xerxes no desfiladeiro de Termópilas, na Grécia antiga. Nunca passaram de 30 e, mesmo assim, ela, que bem merece ser comparada com o zero à esquerda que faltou à direita, em todos os sentidos, se jacta da ignomínia, a pretexto de banalizar o sagrado conceito da liberdade de expressão, garantida em Estados de Direito como o nosso. Por isso desafiou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Morais ao pugilato tremendo e participou de um bombardeio da sede da mais alta instituição jurídica com fogos de artifício. Com justiça, foi presa. Por descuido da toga máxima, solta. Agora mostrou que a segunda decisão foi temerária. No gozo de imerecida liberdade, violou a lei, a infância e a inocência, rasgando o ECA, ao revelar em letras capitais o nome da vítima. Talvez por se sentir aliada, e cúmplice, do estuprador, não mencionou seu nome, como, aliás, ninguém o fez até agora, em omissão conivente. Preferiu açular grupos de fanáticos da fé a ameaçarem a paz e a vida de pacientes do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, no Recife. Convocados por seu chamamento, arruaceiros abortistas e antiabortistas tentaram invadir o hospital, cujo endereço, também em letras capitais, foi por ela revelado. Tanto os vândalos da Comunidade Católica Porta Fidei, que insultaram o médico, Olímpio Barbosa, que fez a cirurgia para preservar a vida sã da pequena mãe de “aborteiro” *e a ela de “assassina”), covarde e cruel infâmia, quanto seus adversários deveriam ficar em casa. Em vez de contribuírem para a arruaça, preservando o inocente (no sentido jurídico) direito à paz e ao anonimato que o tio canalha tentou roubar da sobrinha. Vídeos que circulam na internet, assim como os que foram retirados do ar da lavra da fanática exibicionista, mostram a confusão. São provas de que o descumprimento da violação denunciada pelo advogado Ariel de Castro, especialista em direitos da infância e juventude consultado por Universa, segundo o UOL, estupra o artigo 17 do ECA e o 286 do Código Penal, que proíbe incitar publicamente à prática de crime.

Cúmplice do estuprador anônimo, assim como o são algumas autoridades e certos meios de comunicação que não o identificaram como deveriam, Sara Fernanda Giromini não merece a liberdade que usufrui por omissão da Justiça, acomodada e lerda. E para ser mais convincente em sua atual pose de estadista de araque, que interpreta sem convicção nem talento, o presidente Jair Bolsonaro já deveria ter, no mínimo, parado de defender e avalizar esses asseclas, que dizem segui-lo e tentam imitá-lo.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, na segunda-feira 17 de agosto de 2020)

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No Blog do Nêumanne: A volta eterna dos que nunca vão

No Blog do Nêumanne: A volta eterna dos que nunca vão

José Nêumanne

Bolsonaro pode ter cometido muitos crimes que justifiquem seu impeachment, mas isso dificilmente ocorrerá mercê do instinto de sobrevivência de quem como ele quer impunidade por seus delitos

“O mito é o nada que é tudo”, verso do poema Com quantos mitos se faz uma realidade?, do gênio português Fernando Pessoa, poderia ser a epígrafe deste texto. Mas este autor preferiu explicitá-lo na abertura do primeiro parágrafo para dele retirar qualquer aspecto acadêmico. Aqui se constatam fatos, não conceitos.

Mito é a palavra ideal para definir o presidente Jair Bolsonaro, não por seu sentido místico, religioso ou mesmo de fábula, mas, sim, pelo significado corriqueiro do vocábulo dicionarizado: mentira. Por isso, seus adversários introduzem o ene no meio para lhe dar o sinônimo exato, embora, em sua má-fé ignorante, pouco ilustrados o usem como antônimo.

É sabido que o capitão cloroquina cometeu grosseiro estelionato eleitoral por ter ludibriado o cidadão com a ilusão de que ele seria um político acima de qualquer suspeita, algo raríssimo, encarregado de renovar a política corrupta brasileira, fortalecendo o combate à corrupção, ou seja, a Lava Jato. O estelionato foi confirmado pela nomeação do ex-juiz Sergio Moro para o Ministério da Justiça e da Segurança Pública. Mas o único presidenciável com chances em 2018 sem conexão com a bilionária corrupção das empreiteiras e estatais tem raízes fincadas no mais rastaquera e abjeto, embora menos volumoso, método de dilapidação do erário. A quebra do sigilo do faz-tudo da famiglia, Fabrício Queiroz, expôs todas as evidências de que, por intermédio da própria mulher, Michelle, e do primogênito, Flávio, ele pode ter um elo íntimo com quatro tipos de malversação das verbas públicas: peculato (contratação de funcionários-fantasmas, que devolvem a parlamentares praticantes a parte do leão de seus vencimentos), corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Tudo oculto sob o eufemismo íntimo da rachadinha, máscara cômoda do furto sistemático.

Qualquer dúvida a esse respeito pode ser dirimida depois do oportuno vazamento da investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre a prática assumida por seu antigo companheiro na Brigada de Paraquedistas, o subtenente PM Fabrício Queiroz. A mera constatação de depósitos de R$ 89 mil de Fabrício para Michelle, desmascarando o “mito” do empréstimo que ele usou como argumento para justificar a parte deles revelada no relatório do Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf), não fala nada bem da lisura do casal presidencial. A enxurrada de insultos emanados do “gabinete do ódio”, chefiado por outro filho, Carlos, bastará para dar força à convicção de quem se lembrar do conceito antigo de que “desculpa de cego é feira ruim e saco furado”. Como o saco furado é o bolso do empobrecido e desfavorecido pagador de impostos, este é que faz as vezes do deficiente visual. A feira ruim manifesta-se na cegueira dos fanáticos que apelam para as quantias mais volumosas de ex-colegas do filho nota zero um na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), ou até na ausência de zeros à direita comparada com quantias bilionárias obtidas criminosamente com as propinas do Departamento Estrutural da Odebrecht e de outras empreiteiras corrupteiras. “É troco de igreja”, segundo um presumível blogueiro fantasma cognominado de João Oliveira. Houve até quem fizesse a conta: R$ 750 por mês. Como se a quantia, presumivelmente mixuruca, desqualificasse o roubo, não o gatuno.

Ao nomear André Mendonça, preposto de Dias Toffoli, ex-advogado do Partido dos Trabalhadores (PT), para a Advocacia-Geral da União (AGU) e depois para a pasta da qual expulsou Moro, antes de tentar destruir a reputação do ex-juiz da Lava Jato, Bolsonaro garantiu a própria imunidade para seu rebanho. E mostrou que não vacilaria em retomar o caminho da volta, do qual ninguém se perde, como ensinava José Américo de Almeida, ao atirar a lista tríplice dos procuradores federais no lixo. E ao nomear para a Procuradoria-Geral da República (PGR) Augusto Aras. Enquanto este age como seu despachante pessoal, ele buscou antigos companheiros do Centrão (“não fica um, meu irmão”, general Heleno?), para garantir os dois quintos necessários de votos para impedirem o impeachment e a abertura de um inquérito penal na Câmara dos Deputados. Então, fechou o círculo de ferro, que o mantém a salvo das assombrações noturnas no Alvorada de 100 mil brasileiros mortos por culpa de sua total indiferença e absurda falta de inteligência na pandemia.

Pouco lhe importa a implacável lógica aristotélica que desnuda o peculato pela movimentação financeira da filha de Fabrício, Nathália, que recebeu R$ 774 mil da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) em seis anos, tendo devolvido R$ 622 mil ao pretenso patrimônio paterno. Poucas filhas terão sido tão pródigas com seus genitores como o foi a moçoila. Mais fantástico ainda será atribuir à filhota o dom da ubiquidade, ao treinar o galã global Bruno Gagliasso (por R$ 900) ou dar aulas presenciais nas academias Body Tech, North Fitness e Sport Solution, no Rio, honestamente, com o suor de seus músculos (R$ 22 mil), enquanto era secretária lotada no gabinete de papai Jair na Câmara dos Deputados, no Planalto Central do País. Com esse feito, igualou os milagres dos santos católicos ubíquos Padre Pio, Martinho de Porras, Dom Bosco, São Francisco Xavier e Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa). Pai e filha foram demitidos dos gabinetes do hoje senador e do atual presidente. Acreditar que foi mera coincidência ter acontecido isso no momento em que o clã fora avisado por um federal alcaguete, como contou ao Ministério Público o empresário Paulo Marinho, é dar-lhes o benefício da profecia.

O mínimo de zelo pelo patrimônio público será investigar até o fim as causas da “generosidade” miliciana dos R$ 400 mil depositados em espécie, sem origem comprovada, pelo capitão PM Adriano Magalhães da Nóbrega na conta de Queiroz.  Afinal, quem nunca vai sempre pode voltar.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 10 de agosto de 2020)

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No Estadão desta quarta-feira: O pastor André Mendonça serve a três senhores

No Estadão desta quarta-feira: O pastor André Mendonça  serve a três senhores

Para ministro, Lula foi o único presidente eleito

do e para o povo e Bolsonaro é profeta

“Ninguém pode servir a dois senhores” é uma exortação de Jesus cujo significado revela a exclusividade exigida por Deus aos seus servos. O próprio Cristo explica por que não se pode servir a dois senhores. Está no Evangelho de Mateus (6:24): “Porque ou há de aborrecer-se de um e amar o outro, ou se devotará a um e desprezará o outro”. O ministro da Justiça e da Segurança Pública, André Luiz de Almeida Mendonça, certamente já deve ter meditado muito sobre essa prédica. E não tanto por frequentar a igreja presbiteriana Esperança de Brasília, mas por causa das vicissitudes de sua carreira no serviço público, na qual teve a oportunidade de servir não a dois, mas a três senhores: Dias Toffoli, Lula da Silva e Jair Bolsonaro.

Sua Excelência começou na profissão como advogado da Petrobrás. De lá saiu para fazer carreira fulgurante na Advocacia-Geral da União (AGU). Em 2002 era procurador-seccional da União no norte do Paraná, e, em artigo na Folha de Londrina, saudou a primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República, sob o título O povo se dá uma oportunidade. “Neste momento histórico nos deparamos com a realidade revelada nas urnas: temos o primeiro presidente eleito, do povo e pelo povo”, cravou sem medo de ser feliz.

Não foi propriamente um preito à verdade, pois o ex-líder sindical é, na verdade, filho de Genival, que ganhava a vida como estivador no Porto de Santos, operário braçal, mas com privilégios notórios nas relações de trabalho. Não era um potentado, como Epitácio Pessoa, um estancieiro, como Getúlio Vargas, um militar de alta patente, como Eurico Dutra, nem mesmo um acadêmico, como Fernando Henrique Cardoso. Mas não se pode dizer, por exemplo, que Juscelino Kubitschek de Oliveira não vinha de um lar humilde, sendo, como era, filho de dona Júlia, professora primária e viúva, que sustentou dois filhos com muito sacrifício.

Não se sabe que importância teve esse texto na predileção por ele do advogado Dias Toffoli, que sempre atuou a serviço do Partido dos Trabalhadores (PT) como assessor jurídico das bancadas da legenda de Lula na Assembleia Legislativa paulista e na Câmara dos Deputados. Mas ninguém duvidará da gratidão do subordinado ao advogado-geral da União nomeado pelo ex-presidente petista para o Supremo Tribunal Federal (STF), cargo no qual nunca deixou sem apoio o antigo subordinado da AGU. Mendonça, especialista em gratidão radical, organizou o livro Democracia e Sistema de Justiça, em parceria com um colega do ex-chefe no “pretório excelso”, Alexandre de Moraes, para comemorar os dez anos de atuação daquele (isso mesmo!) no STF.

Dias Toffoli indicou-o ao presidente Jair Bolsonaro, que o nomeou para chefiar a AGU antes da própria posse, em dezembro de 2018, último mês do governo Temer. No cargo apoiou o padrinho em tudo: deu parecer favorável ao inquérito contra os inimigos do STF, relatado pelo já citado Alexandre de Moraes, e ao indefensável banquete de vinhos três vezes premiados com medalhões de lagosta, pago pelo pagador de impostos.

Promovido ao Ministério da Justiça, o teólogo presbiteriano, definido como favorito à vaga do decano Celso de Mello no STF em novembro próximo, por ser “terrivelmente evangélico”, ungiu o chefe do governo qualificando-o de “profeta no combate à criminalidade”. E mostrou com canetadas magistrais que não há incompatibilidade em servir aos petistas Lula e Toffoli sem deixar de ser prestativo a Jair Bolsonaro, presidente que venceu a eleição por ter prometido expulsar o PT do poder. Aboletado no lugar que antes era ocupado pelo ex-juiz que condenou seu ídolo à prisão por corrupção, Mendonça não se negou a assinar um esdrúxulo pedido de habeas corpus para fanáticos bolsonaristas que participaram de atos públicos reivindicando o fechamento do STF e do Congresso Nacional, enquadrados por seu parceiro nas loas a Toffoli, Alexandre de Moraes. E usou a Secretaria de Operações Integradas, criada pelo antecessor, Sergio Moro, para devassar a vida de 579 servidores federais que se manifestaram publicamente contra arreganhos fascistas de apoiadores de seu chefe atual, o capitão Bolsonaro.

O uso de métodos que lembram antigos (mas não aposentados) esbirros da ditadura militar em seu Serviço Nacional de Informações pode parecer uma traição a seus mais antigos senhores do PT, mas não é bem assim. Lula sempre se confessou admirador de Adolf Hitler. E Toffoli, que já conseguiu mandar o benfeitor de volta ao lar, doce lar, hoje tem como prioridade número zero um retirar o ex-juiz Sergio Moro, que condenou o petista, do caminho do novo parceiro para a reeleição, já que talvez seja impossível permitir que o próprio ex-sindicalista dispute a eleição. Ou seja, pode até ser que os três senhores a que Mendonça serve frequentem a mesma comunidade religiosa que cultua o poder pelo poder: o bolsopetismo. E à noite, antes de se persignar para dormir o sono pesado dos injustos, o pastor seja terrível e evangélico ao mesmo tempo, justificando-se como um humilde cumpridor da labiríntica e férrea vontade divina.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 5 de agosto de 2020)

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No Blog do Nêumanne: A patota do consórcio anti-Moro

No Blog do Nêumanne: A patota do consórcio anti-Moro

José Nêumanne

Condenados petistas, aliados e tucanos de mensalão e petrolão unem-se com procurador-geral escolhido por Bolsonaro, Dias Toffoli e caterva contra candidatura do ex-juiz

Na semana passada a Operação Lava Jato e Sergio Moro foram alvos de artilharia pesada do procurador-geral da República, Augusto Aras, e do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli.

Em live com advogados que tiveram seus clientes como alvos do maior combate à corrupção já visto neste país, Augusto Aras determinou que “agora é a hora de corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure”. Ele afirmou ainda que é preciso acabar com os excessos e comparou os 350 terabytes da Operação Lava Jato de Curitiba com os 150 terabytes dos processos no Ministério Público Federal (MPF). Esses terabytes de Curitiba não deveriam surpreender o PGR. Não surpreenderiam, por exemplo, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que considerou a corrupção praticada somente pela Odebrecht como o maior caso de suborno internacional da História.

O Brasil foi tomado por uma organização criminosa (Orcrim) com divisão de tarefas estabelecida, estrutura ordenada e em caráter permanente. Na prática, um conluio reforçado. Diferentemente de outros regimes em que a lei é alterada para servir a objetivos do partido no poder, o governo petista atuava fora da lei, em conluio com alguns empresários do setor privado, administradores públicos e parte da classe política, e nele todos levavam seu pedaço. Havia um exército de mercenários com as empreiteiras corrupteiras em posição de destaque. A Orcrim atuava em conjunto com o PT e os agentes e parceiros pelo cargo e pelo dinheiro, criando a maior organização criminosa de que se tem notícia na História do País.

Nem o dinheiro dos trabalhadores escapou desse conluio. Recentemente tive acesso à delação premiada do figurão petista Antônio Palocci. Ele revela um esquema gigantesco escondido, pilotado pelos ex-presidentes de fundos de pensão de empresas estatais: Sérgio Rosa, da Previ, Wagner Pinheiro, da Petros, e Guilherme Lacerda, da Funcef, ex-sindicalistas e fundadores do PT. Eles desviaram recursos dos trabalhadores para a perpetuação do partido no poder e, principalmente, para enriquecer.

Para se eleger o populista de direita Jair Bolsonaro privilegiou na campanha o combate à corrupção e a Lava Jato, chegando ao ponto de nomear o ex-juiz federal Sergio Moro ministro da Justiça. Mas ele logo mudaria de ideia quando as investigações da Polícia Federal (PF) passaram a visar seu primogênito, Flávio Bolsonaro, o “nota zero um”. Aí passou a ter como prioridade absoluta interferir na PF. O ex-juiz da Lava Jato não admitiu isso e pediu demissão. Esse ataque à Lava Jato também tem outro objetivo: fragilizar Sergio Moro, que é um forte candidato à Presidência da República em 2022.

Com os ataques à Lava Jato e a Moro, Augusto Aras agrada a Bolsonaro com o objetivo notório de ser nomeado para uma vaga no STF. Trata-se do tradicional mercado persa das nomeações.

E não para aí. O governo e o ministro Dias Toffoli estão preparando um projeto que retira poder do Ministério Público nos acordos de leniência e o passa para a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Advocacia Geral da União (AGU), órgãos subordinados ao presidente da República.

Desde que demitiu Moro do ministério, Bolsonaro e seus filhos têm usado o gabinete do ódio, com sede a 30 metros de sua sala e sob a chefia do filho nota zero dois, Carlos, para reduzir a pó a reputação do ex-juiz. Tudo o que ali foi elaborado para crucificar Santos Cruz, seu amigo desde a academia militar, e o advogado que costurou sua candidatura, Gustavo Bebianno, para lembrar os casos mais absurdos, parece truque infantil comparado com o que foi feito contra o paranaense. O resultado, porém, é nulo. Repetindo, aliás, o mesmo malogro, seja do PT, seja do site The Intercept Brasil, do ianque Glenn Greenwald, que não conseguiu enganar ninguém com suas forçadas de barra. O ex-ministro continua, impávido colosso, como um mineral imenso e pesado, imune ao ácido fétido pingado sobre sua superfície por inimigos sem escrúpulos.

Mas o consórcio de Aras, Toffoli, Mendonça, Bolsonaro, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, presidentes da Câmara e do Senado, não se dará facilmente por vencido. Seu novo plano é tirar do zero, nota perfeita para a falta de consciência dessa corja, um antigo projeto antilavajatista (para usar o neologismo de Aras) que inventa uma quarentena de oito anos para juízes e procuradores que queiram disputar mandatos nas eleições populares. O detalhe cruel do sórdido projeto, com aparente verniz garantista de araque, é a isonomia com o prazo dado aos condenados, a ser aplicado a quem ouse condená-los. Qualquer brasileiro de boa-fé pode apoiar uma quarentena desse gênero, mas tal apoio só será justo se forem feitas algumas correções no projeto que já tramita no Congresso, sob a égide do deputado Fabinho Trad, por mera coincidência, é claro, primo de Luiz Henrique Mandetta, preferencial pretendente à Presidência da República pelo DEM, partido de Maia, Alcolumbre e Onyx Lorenzoni. Convém que se aumente o prazo para condenados e se incluam na quarentena militares da ativa e da reserva, policiais e ocupantes de cargos poderosos nos três Poderes da República insana. E mais: acabar com a farra da reeleição de parlamentares a perder de vista e do abuso do significado da palavra nepotismo com a permissão de candidaturas de parentes de primeiro grau de politiqueiros em geral. Afinal, a lógica que limita Francisco também deve limitar Chico. Pois é.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, segnda-feira 3 de agosto de 2020)

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