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Política

No Blog do Nêumanne: Esse drible Ronaldinho aprendeu com Lula

No Blog do Nêumanne: Esse drible Ronaldinho aprendeu com Lula

Em vez de se defender de crimes de que é acusado, ex-presidiário acusa promotores e juízes que o denunciaram e condenaram de abuso de autoridade, e ex-craque o imita fora do campo no Paraguai

Ronaldo de Assis Moreira é de uma geração de craques posterior à dos heróis de uma torcida só, seja por terem atuado durante quase toda carreira num único time, seja por terem sido responsáveis por grandes conquistas de determinada equipe. Não que isso seja uma novidade. À época do semiamadorismo ocorreu com um gênio que poucos sobreviventes viram nos gramados, numa época em que seus feitos eram contados em textos de jornais e transmissões de rádio, de vez que a televisão não era sequer projeto. Esse foi o caso daquele que, apesar de poucos terem testemunhado seu desempenho, é quase unanimemente considerado o maior de todos antes do surgimento de Pelé, aos 17 anos, na Copa da Fifa na Suécia. O carioca Leônidas da Silva, o homem borracha acrobata que inventou a bicicleta, foi campeão estadual por Vasco, Fluminense, Botafogo, Flamengo e São Paulo e artilheiro do Mundial de 1938 na França.

Com o profissionalismo e a negociação de passes, Ademir de Menezes e Roberto Dinamite sempre foram identificados como ídolos do Vasco; Garrincha, do Botafogo; Pelé, do Santos; Dida e Zico, do Flamengo; e Baltazar, do Corinthians — embora tenham vestido outras camisas veneradas pela torcida. O mercado global de hoje mudou essa exclusividade na idolatria e os deuses dos estádios passaram a ser venerados em várias paróquias. Ronaldinho Gaúcho, seu nome de guerra, começou no Grêmio de Porto Alegre, mas atuou em clubes de massa rivais, como Flamengo e Atlético Mineiro, e brilhou em grandes campeões internacionais, caso do Barcelona. Estreou na seleção brasileira numa Copa América com um gol antológico, descrito por Robson Morelli em sua brilhante coluna do Estado publicada nesta segunda-feira 9 de março. E sagrou-se campeão mundial na Ásia com uma jogada que o goleiro britânico atribui a mero acaso.

Talvez inspirado na própria capacidade de criar lances improváveis, como a falta que cobrou jogando na rede a bola por baixo da barreira, que pulou na certeza de que, como todos os outros, ele cobraria pelo alto, numa partida do Flamengo contra o Santos de Neymar na Vila Belmiro, o artista tem praticado atitudes improváveis fora dos estádios. Assim como o atacante que o substituiu como o melhor do País atualmente na seleção brasileira, o acima citado, essas atuações arriscadas no mundo dos negócios surpreendem muito mais para o mal do que para o bem. A fama que ganhou com a bola nos pés não o tem livrado de consequências nefastas em problemas judiciais que insiste em resolver com habilidade de malabarista e falsa ingenuidade, que engana apenas os mais crédulos.

A exemplo do ídolo que ainda atua, Neymar Júnior, Ronaldo de Assis Moreira complicou-se com problemas tributários na contabilidade recheada de zeros à direita e administrada por um parente muito próximo e também colega de ofício – no outro caso, Neymar, o pai; no dele, Roberto de Assis, o irmão. Assis, como se tornou conhecido o também ex-profissional do futebol sem o talento, a fama e a fortuna do mano mais novo, como ele lançado no Grêmio de Porto Alegre, é seu parceiro em lances contábeis que desafiam as leis fiscais. O mais antigo de que se tem notícia data de 2015, quando os irmãos Ronaldo e Roberto de Assis foram autuados por crime ambiental pela construção sem autorização de um trapiche (ou píer), plataforma para ancoragem de barcos de pesca ou turismo, no Lago Guaíba, no seu Estado natal do Rio Grande do Sul, em área de preservação natural. Pilhada em ilícito por descumprimento de lei ambiental, a dupla foi condenada a pagar R$ 8,5 milhões ao Estado.

Habituada a dar dribles em sequência com a bola sobre a relva, a dupla de ex-craques fez um acordo com a Justiça, mas não o honrou. E, quando foi autorizada a quebra do sigilo das contas bancárias declaradas pelos dois para ressarcimento da multa, foi encontrado um saldo de apenas R$ 24,36 em suas contas bancárias declaradas. E mais: o embarcadouro estava hipotecado e em seu passivo já havia uma grande dívida. Resultado: o passaporte do ídolo foi retido para que não deixasse o País sem antes resolver a falcatrua que pretendeu perpetrar.

O fantástico astro da pelota também se envolveu num episódio de estelionato explícito. Segundo noticiou o UOL, ele “virou réu em ação cível coletiva por pirâmide financeira”. A empresa 18K Ronaldinho é acusada de haver lesado 150 clientes, que o acionam na Justiça cobrando R$ 300 milhões por danos financeiros e morais. Ainda conforme apurou e publicou o UOL, a empresa “dizia fazer marketing multinível e prometia rendimentos de até 2% ao dia, além de prêmios como um Porsche Panamera, a quem comprasse pacotes que iam de US$ 30 a US$ 12 mil (aproximadamente, de R$ 130 a R$ 52 mil). A promessa era auferir rendimento de operações na criptomoeda Bitcoin”.

Agora testemunhas de momentos históricos – como na estreia na seleção nacional e seu gol no Japão contra a Inglaterra –, entre as quais o autor destas linhas, foram surpreendidos com a notícia de que ele e o irmão e empresário passaram o último fim de semana (7 e 8 de março) num presídio da Direção de Apoio Técnico do Grupamento Especializado da Polícia Nacional do Paraguai, em Assunção. A primeira acusação é de que os dois entraram no país com passaportes falsos. Depois de um recuo da Justiça paraguaia, ambos foram mantidos presos a pedido do promotor Osmar Legal, encarregado de inquéritos judiciais pelo crime, muito banal na América Latina contemporânea, de lavagem de dinheiro.

Em sua passagem brilhante pelo gigante Barcelona, Ronaldo de Assis Moreira ganhou o direito de usar um real passaporte espanhol. Consta de seu prontuário recente que tentou usá-lo para embarcar em Guarulhos para algum destino longe do Brasil, onde está encalacrado. O documento ficou retido pelo agente encarregado de revistá-lo no embarque.

Os jornais desta segunda-feira noticiaram a reação furibunda e revoltada de seu advogado brasileiro, Sérgio Queiroz, segundo quem “Ronaldo e Roberto não sabiam que (o documento que usaram) era irregular, tanto que o apresentaram livremente, podendo apresentar apenas o documento de identidade”. Sem se referir à hipótese de os ex-craques estarem sendo investigados, não mais só pela entrada com documentos falsos no país vizinho, mas também por crime, mais grave, de lavagem de dinheiro, o advogado definiu a detenção como “ilícita, ilegal e arbitrária”.

Um leitor por gosto, hábito e obrigação profissional, como é o caso do autor deste texto, já testemunhou esse tipo de atuação de advogados grã-finos à cata de argumentos que podem emocionar torcedores apaixonados, mas dificilmente ultrapassam obstáculos policiais ou jurídicos em investigações de quaisquer crimes, em especial os financeiros. Quem já não leu os da lavra dos defensores dos réus da Operação Lava Jato, entre os quais o ex-presidiário Lula? Na narrativa deles, as alegações do Ministério Público são sempre fantasiosas e com motivação pouco recomendável. Como, por exemplo, o PowerPoint da força-tarefa de Curitiba no momentoso processo do apartamento de cobertura, com propriedade atribuída ao petista, no Guarujá, tema de recurso apresentado pelos advogados ao Conselho Nacional do Ministério Público.

O torcedor apaixonado de futebol, propagador de metáforas futebolísticas de pouca graça e gosto duvidoso, condenado em três instâncias por 13 juízes, desembargadores e ministros de altos tribunais a zero, hoje está livre, leve e solto. Disponível até para visitar o ex-craque no presídio paraguaio. E faria essa visita em mais um passeio fora do Brasil para se permitir andar pelas ruas de Assunção autografando ou posando para selfies ao lado de fãs e livre dos insultos eventuais que o mantêm preso, embora livre, no apartamento de luxo em que vive em São Bernardo do Campo. Lula poderia, então, cobrar pessoalmente do ídolo de tantas torcidas o pagamento de royalties pela invenção desse drible na legislação financeira. Afinal, o deus dos estádios terá sido apenas mais um a tentar imitá-lo na instrução à iracunda defesa binacional. Talvez não o livrasse de cumprir pena no exterior, mas ao menos seria motivo de uma boa história para contar aos bisnetos.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 9 de abril de 2020)

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No Estadão desta quarta-feira: A crise na representação que ainda assola o País

No Estadão desta quarta-feira: A crise na representação  que ainda assola o País

Maia serve a DEM e PCdoB e Alcolumbre foi eleito num pleito de 82 votos e 81 eleitores

Está em plena ebulição no Planalto Central do Brasil uma luta aberta entre os Poderes Executivo e Legislativo em torno da liberação de R$ 46 bilhões, R$ 31 bilhões ou R$ 15 bilhões para emendas parlamentares que beneficiarão prefeitos e governadores estaduais sem necessidade de fiscalização. Na prática, é uma queda de braço na qual quem puder mais chorará menos. Qual das partes tem mais legitimidade para decidir sobre o Orçamento da União? Eis a questão, a ser definida por três princípios básicos da democracia: todo poder emana do povo e em seu nome é exercido, todos são iguais perante a lei e cada cidadão, um voto.

Em teoria, nem deveria ser aberta a polêmica. Afinal, sabe-se que o Poder que realmente representa a sociedade não é o Executivo, que executa leis e orçamentos, nem o Judiciário, que, como determina o próprio nome, julga se a ordem dada está, ou não, dentro da lei e fiel à Constituição. Certo? Não necessariamente. Afinal, no rigor matemático dos fatos o único Poder com mandatário escolhido na base de cada cidadão, um voto é o Executivo. Seja federal, estadual ou municipal. Em mandatos de quatro anos, que só podem ser repetidos uma vez, os chefes de governos federal, estaduais e municipais passam por processos eleitorais de dois turnos para que se garanta sua legitimidade. Na aferição dos votos nas urnas eletrônicas não há dúvidas: garantida a igualdade de condições na disputa, toma posse o eleitor mais votado.

O mesmo não se pode dizer da escolha para a composição do Parlamento de 513 deputados federais e 81 senadores. Os primeiros são eleitos pelo sistema de voto proporcional. Os últimos preenchem três vagas, com oito anos de mandato, dois num pleito e um no outro, e podem ser reeleitos para todo o sempre, amém.

No caso da dita Câmara Alta o cidadão não é representado nem em teoria. Afinal, o plenário dos seniores (do latim “mais velhos”, mas nem sempre) representa cada Estado da Federação por absurdos mandatos de oito anos, inexistentes no modelo do qual a democracia brasileira só imitou o exemplo teórico, o dos Estados Unidos da América, inventados pelos pais fundadores, no que interessava diretamente à oligarquia monarquista que deu o golpe da República em 1889. Senadores americanos têm mandatos de quatro anos e a chamada Casa dos Representantes, modelo de nossa Câmara federal, de dois. O modelo adotado ao norte do Rio Grande contempla a condição especial da história de sua independência de um conjunto de colônias.

A Federação, essencial para os inspiradores, é uma ficção que nunca se justificou nos 131 anos de nossa insana República. O sistema bicameral é uma excrescência tropicalista do Atlântico Sul, herdada do império dos Bourbons, que ruiu 11 anos antes da chegada do século 20. Na República à brasileira dos barões da monarquia que se adaptaram ao novo regime imposto por militares irredentos e positivistas autoritários, o Senado do império derrubado virou uma tal câmara de revisão, que tem servido ao longo deste século de instituições surrealistas. Mas o que revê o Senado e o Senado revê o quê?

No cotidiano sujo do truco do poder, o mando é executado pelo chefe do Executivo, quando este tem força política. Ou, quando não tem ou a perde, pela Câmara dos Deputados. Em teoria, essa é a prática mais aproximada do cidadão. Mas a composição de seu plenário o nega.

Deputados federais e estaduais e vereadores municipais são escolhidos por um regime do “me engana que eu gosto”. No processo herdado da Constituição de 1946 o voto proporcional deu o mando às elites dirigentes dos Estados atrasados sobre os eleitores mais numerosos dos Estados mais ricos. O voto de um acriano em São Paulo tem um poder 13 vezes menor na escolha de seu representante do que o de um mineiro em Roraima. A distorção matemática foi ampliada pela Constituição fajuta dos militares em 1967 e da dita, mas nunca provada, “cidadã” da soi-disant Nova República. No meio disso, o tal pacote de abril dos generais Geisel e Golbery destruiu de vez a representação, criando senadores indiretos, “biônicos”, uma versão exacerbada que não vingou do que são, no fundo, os eleitos.

O Brasil oficial (apud Machado de Assis), que briga pelos bilhões do bolso furado dos pagadores de impostos, é uma aberração que cospe na lógica de Aristóteles e dos tomistas, pois só 7% dos deputados ganharam eleições com o número de votos depositados nas urnas: e são chamados de “puxadores de votos” – como Enéas, Tiririca e Janaina Paschoal. Os restantes 93% dependem do quociente eleitoral de seus partidos e coligações para serem diplomados. Os beneficiários dessa distorção se elegem chefões do Poder dito “representativo” com apoio de opostos, caso de Rodrigo Maia, elevado à presidência da Câmara pelo DEM de Onyx Lorenzoni e pelo PCdoB do Orlando “Tapioca” Silva. Davi Alcolumbre, do remoto Amapá, lançado pelo onipresente ministro da Cidadania de Bolsonaro (que ironia!), venceu o alagoano Renan Calheiros numa fraude de 81 eleitores e 82 votos.

Quem esse chinfrim teatro do absurdo representa?

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Página A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 4 de março de 2020)

No Blog do Nêumanne: Brasil, carnaval e crise

No Blog do Nêumanne: Brasil, carnaval e crise

Maia vem, Lula vai e o mundo, assustado com coronavírus, não teria mais a fazer do que discutir parlamentarismo tropical e chorar com Lula seus queixumes de falso injustiçado?

São Paulo não é mais o túmulo do samba da metáfora do carioquíssimo Vinicius de Moraes. Com 15 milhões de pessoas, aqui foi festejado o maior carnaval do País, superando, imaginem só, Rio, Salvador e Recife. Quem diria! Mário de Andrade, meu paulistano símbolo, conterrâneo de meus quatro filhos e do neto mais velho, ensaiou um passo de frevo no Largo do Arouche, com o solo da Pauliceia Dilacerada, de outro poeta Mário e paulista amigo (de Cajubi), o Chamie, sacudido certamente pela mexida que o poeta de Orfeu do Carnaval solfejou debaixo do chão sobre o qual desfilou a campeã Viradouro. Pois é, seu Mé! Quem caiu fora foi outro carioca, que dizem que nasceu no Chile, Rodrigo Maia.

No meio dos blocos dos sujos, sem o mela-mela rude dos entrudos de antanho, o filho de um descendente dos Maias de Catolé do Rocha e casado com a enteada de Moreira Franco, o “gato angorá” de Brizola, de quem papai César era guru econômico nos anos em que morei no Rio de Janeiro, escafedeu-se para a Espanha. Em Madrid foi recebido por Felipe VI, rei local, filho daquele que mandou o novo deus das esquerdas, Hugo Chávez, calar a boca, em palácio, honraria de deixar boquiaberto o avô Epitácio entre uma refrega e outra contra os Suassunas de João e seu filho Ariano.

O que fazia Sua Excelência na Castela dos reis Fernando e Isabel, enquanto Pindorama deixava de ouvir surdos e cuícas na Marquês de Sapucaí para repercutir a diatribe pesada do chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo Bolsonaro, general Augusto Heleno Ribeiro? Este chamou impropriamente de “chantagem” a tentativa do deputado Domingos Neto (PSD-CE), relator do Orçamento da União, de reservar alguns bilhões para emendas parlamentares. Emendas pra lá de especiais, pois seriam destinadas diretamente pelos nobres pares do turista aprendiz a prefeitos e governadores de sua laia, como diria o capitão Bolsonaro, sem fiscalização de órgão algum. O general, por óbvio, errou. Não se trata de mera chantagem. É, como diria a voz do povo, uma punga.

O circo pegou fogo, como aquela tragédia que enlutou nas páginas da revista O Cruzeiro, do rei Chatô, Niterói, terra do quase sogro de Maia, Moreira Angorá, lugar onde, segundo Stanislaw Ponte Preta, “urubu voa de costas”. O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, internado em hospital para operar o quadril, esperou Bolsonaro compartilhar no WhatsApp um post sobre manifestação nas ruas dia 15 a favor dele e contra o Congresso, pobre Congresso, para lhe descer o pau: “O presidente não está à altura do cargo”. É, pode ser. Mas estaria Mello, que não renuncia ao posto para cuidar das cadeiras, à altura do dele? Será?

Pelo sim, pelo não, melhor deixar a pergunta sem resposta, de vez que um coleguinha do decano, o ministro, digamos, caçula Alexandre Savonarola de Moraes, pode bater o martelo para inutilizar a mão do escriba. Saulo Ramos, que fez o desfavor ao País de indicar ao chefe Sarney o nome do procurador paulista para servir por muitos anos à elite política dirigente na cúpula do Judiciário, pode até discordar, mas verdade seja dita: o que tinha Maia a explicar aos 74 mil eleitores que o puseram na Câmara, e quase não conseguiram, sobre o que fazia tão longe da mesma mesa à qual o senador Auro de Moura Andrade despachou a renúncia de Jânio sem pôr para votar e o ministro do STF de Rincão (SP) Sydney Sanchez presidiu a votação do Congresso que apeou o alagoano Collor do poder maior? Pois então, que missão oficial tão espinhosa o afastou do exercício de único brasileiro autorizado a começar o processo para depor Bolsonaro, com seus mais de 57 milhões de votos, quase mil vezes os dele?

Perdoe o leitor — que, segundo meu primeiro chefe de reportagem, JB Lemos, é o verdadeiro patrão (e padrão) para um jornalista que se preze –, mas primeiro convém perguntar que missão oficial o dr. Maia cumpria em terras longe do mar em Espanha? Um tuíte inoportuno da Embaixada do Brasil o delatou, dando conta de que fora à Península Ibérica debater parlamentarismo em território brasileiro. Golpe, dirão seus adversários impenitentes. Afinal, quem seria beneficiário de parlamentarismo capaz de tornar o capitão rainha da Inglaterra, a não ser ele próprio? Ah, mas a Embaixada na Espanha sumiu com a prova, apagou o tuíte, ora vejam só!

E Maia voltou para participar daquele momento histórico da tunga dos bilhões que o general Heleno chamou de chantagem e o degas aqui, de mera punga. Ou tunga. Ou qualquer coisa que não seja propriamente motivo para fazer o carnaval da consagração paulistana em meio à crise.

Maia veio e Lula foi. O ex-presidiário foi a Paris em voo de carreira, que só frequenta para o exterior. Domésticos são evitados para que não haja encontros desagradáveis com vítimas da roubalheira comandada pelo PT em seus oito anos de desgoverno e mais oito de indigestão nacional sob o poste Dilma e o parceiro Temer. Não ria. Quem paga as despesas é você, pagador de impostos. O secretário executivo da Secretaria-Geral da Presidência, Antônio Carlos Paiva Futuro, escalou quatro assessores para acompanhar o ex-presidiário no périplo europeu. São eles Valmir Morais da Silva, Elias dos Reis, Carlos Eduardo Rodrigues Filho e Misael Melo da Silva. O quarteto ganhou um passeio a Paris, Genebra e Berlim por conta do chamado erário, também conhecido como viúva, de comprovada e generalizada generosidade. Pergunta-se: que tipo de assessoria quatro servidores da Secretaria-Geral, ocupada pelo apadrinhado de Bolsonaro Jorge Oliveira, poderão prestar àquele que vive chamando o chefe de todos de “miliciano” e outros substantivos não menos ofensivos? Jorginho, que Bolsonaro indicará para o STF, tê-los-á instruído sobre outros atributos?

Então, vejamos. O condenado por 13 juízes, desembargadores e ministros por crimes que atingem o patrimônio público, tais como corrupção e lavagem de dinheiro, recebeu da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, o título de cidadão parisiense. Ou seja, teve chance de voltar a insultar o chefe do governo, que lhe impôs uma margem de 10 milhões de votos de vantagem ao humilhar nas urnas seu mais recente poste de plantão, Fernando Haddad. O que farão os assessores de Futuro, o número 2 de Jorginho, que com carteirinha de Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) novinha em folha deverá substituir Marco Aurélio Mello, o primo de Collor, no STF, em julho do ano que vem? Em que temas poderão ter-se especializado no serviço público para ajudarem o condenado e culpado a maldizer o País e sua Justiça?

Já na condição de cidadão parisiense, monsieur Silva, que não deve ter encontro marcado com o inspetor Javert, que perseguia Jean Valjean em Os Miseráveis, de Victor Hugo, participou de uma manifestação pública pelo “Lula livre”. Terá sido o quarteto assessório nomeado pelo sub de Jorginho — segundo Eduardo Bolsonaro, o mais leal servidor de “seu” Jair —  encarregado de convencer os participantes de que a libertação polêmica do novo cidadão da Cidade Luz é apenas um conto policial da direita brasileira? Pois seu acompanhado continua preso em seu apartamento luxuoso em São Bernardo do Campo, de vez que pelo menos no Brasil não consegue sair à rua sem ouvir um insulto ou uma queixa…

Em seguida, a comitiva voa para Genebra, na Suíça, onde o ex-chanceler Celso Amorim recebeu seus vencimentos de diplomata para falar mal do país que lhe paga os proventos mensais. De que servem, então, os asseclas do dr. Futuro a seu protegé? Para apresentar ao filho de dona Lindu os chefões religiosos com os quais tinha encontro agendado? Ou guardaram sua assessoria, paga a precioso ouro dos desempregados por Lula, para dar-lhe argumentos e provar ser injustiçado pela pátria ingrata num encontro em Berlim com sindicalistas do resto do mundo?

O pretexto para o pagamento do turismo de maledicência do ex-sindicalista, presidente e presidiário é uma portaria que já deveria ter sido revogada. Que lealdade é essa do major da PM, que está para ser alçado a ministro do STF, que não serve para evitar esse tipo de vexame para o Brasil? Ou será que Jorginho estava ocupado demais em instruir Bolsonaro a dar mancadas públicas com sua malfadada assessoria jurídica, para cuidar dessas miuçalhas? Por essas e outras o país do carnaval e da crise não se satisfaz com as próprias patacoadas e voa para o exterior para propagá-las.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 2 de março de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Tiroteio no curral dos Gomes em Sobral

No Blog do Nêumanne: Tiroteio no curral dos Gomes em Sobral

José Nêumanne

Duelo de retroescavadeira e pistola em quartel no Ceará exibe resultados funestos de conluio entre populismo e impunidade, que prejudica cidadãos comuns e democracia, que devia lhes servir

Indiferença, desinteresse e um grau repugnante de desumanidade caracterizam a reação pública nacional diante da crescente violência no Estado do Ceará. Esta atinge prioritariamente os cidadãos, em especial os desvalidos, e mantém livres, leves e soltos políticos vorazes, corruptos e maus gestores. A crise da Polícia Militar cearense com os governantes do PT e seus asseclas do PDT não é exclusiva da Unidade da Federação nem resulta apenas da realidade interna. Mas uma grossa camada de pó e fumaça na cena do conflito toma conta do restante do País, como se fosse uma fatalidade, que põe os beneficiários à distância da responsabilização criminal e da punição eleitoral.

A Constituição de 1988 proíbe greves no serviço público, em especial em casos em que agentes da lei portem armas e exerçam na prática das ruas, cujos ecos não chegam aos palácios, sob a indiferença generalizada dos que se arvoram na condição de monopolistas da consciência nacional. Os parlamentares, que, neste momento, disputam com o Executivo o domínio sobre fatias bilionárias do Orçamento da União, sem controle algum, para poderem usar apenas o próprio arbítrio para administrar as chamadas emendas individuais, nunca moveram uma palha para regulamentar essa restrição. E se aproveitam das brechas abertas por sua indiferença e seu insidioso cinismo para levarem vantagem na narrativa partidária e na disputa dos votos de cidadãos e vítimas.

Nessa regra geral parece não haver exceções. O estopim da dinamite de brutalidade que explodiu no Estado de José de Alencar foi aceso pela covardia, incompetência gerencial e incapacidade de enxergar um palmo adiante do nariz do partido chamado de Novo e de seu governador de Minas, Romeu Zema. Esse senhor, dos baixos da pusilanimidade cívica, concedeu um reajuste inviável de 46% aos PMs do Estado de Tiradentes. O aumento é ínfimo para cobrir as reais necessidades da tropa policial, incapaz de manter a ordem necessária para que ele governe a contento. Mas qualquer aluno do curso primário em Alfenas será capaz de perceber que seu Estado, quebrado, não tem condição de honrá-lo.

Mas o ocupante do posto pelo qual Juscelino Kubitschek passou fez o mais fácil a seu alcance. Pois pelo menos não faltou à aula de Sociologia Política no curso de Administração que ensina que a União sempre socorre Unidades Federativas em estado falimentar. A Pátria amada, idolatrada, salve, salve, não deixará os colegas contemporâneos do alferes morrerem de fome. Essa conta oportunista sempre ficou ao alcance dos governadores e foi paga por gestores federais escravos da demagogia militante.

No entanto, nunca nenhum deles se atreveu a romper esse círculo vicioso, seja por cálculo oportunista, seja por confiança comodista de que o destino manifesto de provedor-geral da República sempre será exercido além dos limites do Estado. O disparo de Zema no próprio pé, jogando no lixo a “novidade” de sua proposta de gestor, mais um irresponsável como os demais, passa ao largo, como sempre passou, das obrigações de seus colegas espertalhões, que deixam mofando nas gavetas a Lei de Responsabilidade Fiscal e o exemplo dado pelo santista Mário Covas em São Paulo de que a prioridade deve ser sanear financeiramente o Estado.

O Ceará de padre Cícero e Floro Bartolomeu, que deram ao bandido mais famoso do Nordeste, Lampião, uma falsa patente de capitão do Exército para combater a Coluna Prestes, sob a também falsa promessa de enfrentar a peregrinação iniciada sob o comando do general Miguel Costa, tem uma tradição de rotina sangrenta. Durante os governos do PDT dos irmãos Ferreira Gomes, do feudo de Sobral, e do PT de Camilo Santana, essa tradição foi radicalizada pela farsa da leniência disfarçada de tolerância. Uma rápida, e até preguiçosa, consulta ao Google velho de guerra alcançará a constatação dessa evidência: em 30 de maio de 2019, Cadu Freitas, do G1 da terra natal do beato Antônio Conselheiro, que enfrentou a República em Canudos (BA), descreveu: “O número de mortes provocadas por agentes da segurança pública no Ceará cresceu 439% entre 2013 e 2018, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). No início da série histórica, foram contabilizados 41 assassinatos por agentes do Estado; já no ano passado, o total foi de 221. O crescimento percentual estadual, em números gerais, é maior do que o ocorrido no Brasil, que teve aumento de 178,4%”. Quem acreditar na justificativa de defender os direitos humanos dos jagunços fardados da terra de Iracema na certa também aposta na inocência e na perseguição de Lula. Fazer o quê?

A entrada dos irmãos Ferreira Gomes, caudatários da política dos coronéis da Guarda Nacional desde a República Velha, incorporou à prática da violência pitadas de cinismo e cafajestice. Da dita “república de Sobral” a elite coronelista interiorana incorporou a essa tragédia de pólvora e sangue um típico componente de farsa de ocasião. O ridículo em série misturou componentes de ficção de A Peste, de Albert Camus, e Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, e cenas de chanchada da Atlântida na Copacabana dos anos 50. Na quarta-feira 19 o ex-governador Cid Gomes tentou atropelar com uma retroescavadeira uma malta de PMs amotinados, de capuz, derrubando o portão do quartel em que se abrigaram. A óbvia tentativa de assassinato em massa tinha conotações de piada de caserna, mas, de fato, configurou crime previsto no Código Penal. Se o invasor frustrado não for processado e preso por isso, o Brasil terá assumido a condição de satélite da truculência irresponsável e desmedida dos fanfarrões de Sobral, que se destacam por tratar política como briga de rua.

Para isso contribuíram socos e pontapés retóricos trocados pelo vereador do Rio Carlos Bolsonaro, o ex-ex-tudo Ciro Gomes, irmão do meliante, e o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), coadjuvante estridente da guerra que a esquerda sem votos pretende mover contra o governo constitucional. “‘Vambora’, Ciro. Já estou indo para Sobral, me espera aí!”, diz Randolfe em vídeo em cima de um trator. “(Randolfe) quer passar por cima de crianças e mulheres com o pessoal do nariz nervoso e lambedor de beiço do Ceará”, comentou Carlos. A esses golpes de MMA abaixo da linha da cintura o irmão mais velho do valentão da retroescavadeira reagiu como dele se espera, é claro. “Libélula deslumbrada, nós aqui no Ceará somos e seremos o pior pesadelo de sua família de canalhas, milicianos e peculatários corruptos. Quanto dinheiro roubado o Queiroz depositou na conta da mulher de seu pai, o canalha maior?”, reagiu o fracassado expelido no primeiro turno da eleição de 2018 pelo eleitor previdente. E o incauto terceiro pulou fora, que não é besta. Randolfe saiu de fininho temendo que seu fio de voz se perdesse nos berros do ex-componente da base da Arena, partido da ditadura: “Fiz um vídeo, em clima de carnaval, em que me solidarizava com a luta do senador licenciado Cid Gomes”, escreveu no Twitter. Ou seja, tentou se escafeder do boteco antes que o conflito entre Sobral e Barra da Tijuca produza um duelo sangrento no curral dos Ferreira Gomes. A guerra eleitoral no Amapá não leva a esses extremos, mas também é pródiga em mentiras pusilânimes.

Rodrigues, intrometido inconveniente, que entrou na briga sem ser chamado, trouxe valiosa compreensão da falsidade como arma política. Foi solidário aos rebelados, tratados como “desertores”, que é mesmo o que são, pelo governador petista, aliando-se aos cowboys sobralenses. Mas contra motins. Então, façamos chegar aos pubs festivos da esquerda a realidade das vaquejadas cearenses. Os PMs rebelados não são grevistas, mas promoveram um motim, cujo resultado pode ser contabilizado no total das inocentes vítimas de morte da guerrilha da retroescavadeira: pelo menos 122 da quarta-feira 29 do insano ato do coronelzinho Cid ao domingo 23 do debate entre o mano Ciro e Carlos, o filhinho do capitão.

Pela paz desses filhos de Deus sacrificados por incúria e indiferença gerais, urge tomar decisões. Processar o senador licenciado por tentativa de assassinato. Em seguida, localizar e prender suas vítimas eventuais, uma das quais atirou nele. Nunca anistiar desertores, contrariando a chusma de ex-oficiais de PM que ocupam Legislativo e Executivo federais. Um deles, o ex-major Jorge Oliveira, Jorginho para o clã Bolsonaro, cujo chefe anunciou que o nomeará para o Supremo Tribunal Federal, mesmo sendo bacharel em Direito há apenas 13 anos. E nada de intervenção federal no Estado. O PT precisa pagar pelo menos por seus erros de gestão, já que o STF se exime de pôr na cadeia seus excelentíssimos dirigentes, no caso de Lula pelo assalto impune ao erário.

·        Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 24 de fevereiro de 2020)

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Coluna semanal do Nêumanne: Brasil, república de cafajestes

Coluna semanal do Nêumanne: Brasil, república de cafajestes

José Nêumanne
Coluna semanal, distribuída pela Ric para vários jornais

Condenado por 9 a 0 em três instâncias, Lula passeia em Roma e Brasília posando de herói, socialista Coutinho é absolvido e fica solto e Bolsonaro insulta repórter na maior cafajestice

Parecia chanchada da época gloriosa de Oscarito e Grande Otelo nos velhos tempos da Atlântida. Ladrão e lavador de dinheiro julgado e condenado por nove magistrados, juiz, desembargadores e ministros, o ex-presidente Lula tinha um interrogatório marcado com o juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, no âmbito da Operação Zelotes, em 11 de fevereiro último. Pediu para faltar ao compromisso, pois o papa Francisco o receberia no Vaticano no dia 13. Poderia ter viajado no dia 12 à noite, pois não faltam aviões de carreira para Roma nem empresários milionários dispostos a pagar velhos favores, ou conquistar futuros prováveis, dispostos a embarcá-lo num jatinho particular para recolhê-lo em Brasília e deixá-lo no aeroporto mais próximo da Praça de São Pedro.

Difícil mesmo era o bispo de Roma justificar o compromisso, marcado pelo amigo do amigo, condição lembrada pela empreiteira corrupteira Odebrecht para adotar como codinome do ilustríssimo advogadinho do PT alçado pelo mesmo Lula ao pináculo do Judiciário, Dias Toffoli. Em território brasileiro, dizem, vive a maior população católica cá da Terra. E a maioria dos brasileiros maiores de idade e aptos a votar elegeu presidente um obscuro parlamentar da direita, o capitão reformado Jair Bolsonaro, pelo simples fato de representar a esperança da população de afastar os gatunos travestidos de socialistas (et pour cause) por todos os séculos, amém, das chaves dos cofres do erário, preenchidos pela suada poupança de todos. O pontífice argentino e esquerdista, já havia resistido à tentação de vir ao Brasil para prestigiar a festa de uma negrinha, Nossa Senhora Aparecida, porque as instituições republicanas, constatados o crime e o pecado contra o oitavo mandamento (“não furtarás”) presente nas tábuas da lei, haviam decretado a aposentadoria perene e o ostracismo eterno ao Ali Babá de Caetés.

Mas o sumo pontífice recebeu e se permitiu fotografar pelo retratista oficial do líder da esquerda estelar pousando a caridosa mão habituada a empunhar o cajado simbólico de pastor do pescador Pedro sobre a fronte do condenado que nunca se arrependeu de seus crimes. E, depois, ainda manifestou sua satisfação por ter propiciado um périplo do gatuno pelas ruas da Cidade Eterna, num ato falho em que omitiu o fato de que seu dileto filho pródigo não frequenta aviões de carreira nem vias públicas, no lado de lá do Atlântico, para evitar insultos dos cidadãos que roubou.

De volta da Europa, o líder sindical que vendia greves e dirigente político que fazia favores remunerados a empreiteiros corruptores por América e África deu-se ao luxo de conduzir seus companheiros de rapina e fortuna a salões de hotéis de alto luxo para combinar a volta ao comando dos cofres públicos nas próximas cruzadas de engana-povo.

Trata-se de um caso espantoso, mas jamais singular. O socialista paraibano Ricardo Coutinho, protagonista de vídeos exibidos nos noticiários da televisão cobrando propinas de um lobista da Cruz Vermelha gaúcha, passou pela capital federal na mesma semana da visita do petista para ser ouvido pela direção de seu partido, o PSB de Miguel Arraes e Eduardo Campos, sobre os passos a dar para enganar os incautos nas eleições municipais deste ano e na presidencial e estadual de 2022.

Acusado de ter amealhado fortuna pessoal de R$ 130 milhões (o que significa que tungou dos cofres de um dos Estados mais pobres do Brasil, a Paraíba, pelo menos R$ 1,3 trilhão), sua insolência insolentíssima recebeu a grata (para ele) notícia de que continuará gozando de liberdade para conduzir os destinos da Orcrim Ricardo Coutinho com o mesmo pulso de ferro com que liderava o Coletivo Ricardo Coutinho, à época em que começou carreira política sob a sigla do PT do mesmo Lula. A 6.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça manteve a decisão de soltura de que gozava com a condição de cumprir restrições que somente um néscio total acredita que serão fiscalizadas a contento pelas autoridades responsáveis.

Enquanto a esquerda comemorava em silêncio o patético desfile dos zumbis políticos Silva e Coutinho, a direita se refestelava em gargalhadas ao ouvir o inédito insulto desferido pelo inimigo de ambos, futuro adversário na eleição presidencial de 2022, Jair Bolsonaro, à repórter da Folha de S.Paulo Patrícia Campos Mello. Nunca o calão foi tão baixo no alto poder concedido ao ex-oficial pelo voto popular milionário.

A jornalista publicou uma reportagem implausível atribuindo a vitória eleitoral do presidente a disparos de WhatsApps nunca comprovados. Mas, talvez por ser usuário frequente da postura de acusar sem ter prova da acusação, Sua Insolência jogou a excelência do comportamento na vala comum e apelou para a ignorância (aliás, nunca uma expressão foi usada de forma tão precisa quanto esta). O pai do senador Flávio Bolsonaro, que distribuiu no Twitter vídeo apócrifo de um cadáver identificado não por suas notórias feições, mas por um esparadrapo nas costas com as inscrições Adriano Magalhães, fez a versão sangrenta do mesmo espírito que comandou a piada do pai, consagrando uma das práticas mais empregadas no buliçoso clã presidencial – a cafajestice.

 A maioria dos brasileiros deplora as atitudes de cafajestes e não as pratica, mas convive pacificamente sob o comando de gente como Lula, Coutinho, Jair e Flávio, que usam o baixo calão no bélico discurso político como se isso representasse um diferencial para o alto da glória, nunca para baixo da linha da cintura.

*Jornalista, poeta e escritor

 

 

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No Estadão desta quarta-feira: As memórias assassinadas de um ex-capitão de milícias

No Estadão desta quarta-feira: As memórias assassinadas de um ex-capitão de milícias

O silêncio forçado do bandido Adriano

é recebido com alívio por  criminosos  ocultos

O presidente da República, Jair Bolsonaro, tem feito das tripas coração para evitar que o primogênito, Flávio, responda por seus atos quando deputado estadual no Rio de Janeiro. Conseguiu dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, presidente, e Gilmar Mendes a interrupção do inquérito do Ministério Publico sobre movimentação atípica de verbas de seu gabinete pelo ex-assessor Fabrício Queiroz. Como a decisão foi tomada ao arrepio da lei, o plenário paralisou-a por 9 a 2, tendo Gilmar e Toffoli mudado seus votos. Agora resolver assumir publicamente que mandou o filho condecorar o miliciano Adriano da Nóbrega com a Medalha Tiradentes, a mais importante do Legislativo do Estado fluminense.

“Para que não haja dúvida. Eu determinei. Manda pra cima de mim”, disse, sábado 15, na inauguração da alça que liga a ponte Rio-Niterói à Linha Vermelha, no Rio. O fato data de 2005, quando o atual chefe do governo era deputado federal e seu filho senador, deputado estadual. Ou seja, não havia subordinação oficial deste ao pai, que, na ocasião, criticou da tribuna da Câmara a condenação do então tenente PM por homicídio do guardador de carros Leandro dos Santos Silva, 24 anos. “Naquele ano (2005) era herói da Polícia Militar. Como é muito comum, um PM quando está em operação mata vagabundo, traficante”, disse. De fato, Adriano comandou a operação em que o flanelinha foi morto, mas não atirou na vítima. Solto em 2006, foi absolvido em 2007. Havemos de convir que daí a ser herói da PM distam muitas léguas-luz.

Sábado ele fez referência ao fato de o suspeito de ter participado da execução de Marielle Franco não ter passado pelo trânsito em julgado para ser considerado culpado. E assim o exige o STF em nova jurisprudência, que tornou inútil a condenação em segunda instância para permitir que um condenado comece a cumprir pena.

O Bope, como é público e notório, tornou-se uma espécie de ai-jesus da repressão policial ao banditismo mercê do sucesso de público e crítica do filme Tropa de Elite, de José Padilha. A ironia do episódio é que o herói na tela é o capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, astro máximo da esquerda estelar, que execra a violência de qualquer ação policial e justifica o crime contra inocentes como resultado de injustiça social.

A ironia atinge o paroxismo ao se acrescentar que Moura é baiano como Rui Costa, governador de seu Estado. Foi lá que o herói que virou chefe de milícia, atividade criminal similar, mas oponente do tráfico de droga nos morros cariocas, foi cercado e fuzilado por 70 policiais locais e fluminenses (chefiados por Wilson Witzel).

O tiroteio foi evitado no domingo 9 de fevereiro em Esplanada (BA), cujo cemitério fora construído pelo beato Conselheiro a caminho de Canudos. Duas balas certeiras eliminaram o risco, temido pelos “bravos” que o cercaram pela habilidade no manejo do gatilho de arma capaz de produzir rajadas de tiros, de o assediado atirar. Setenta contra um, no caso, seria covardia, mas foi só cálculo. Pois a adoção num cerco de execução sob a inspiração do lema dos néscios – “bandido bom é bandido morto” –, de fato, serviu mesmo foi para emudecer um arquivo capaz de sujar a reputação de muitos meliantes vivos e poderosos.

A guerra suja da política expôs estupidez similar. Bolsonaro apontou o dedo em riste para o mando do PT de Costa. Este também adotou um tom falangista: policiais têm direito de salvar sua própria vida quando atacados, “mesmo que os marginais tenham laços de amizade com a Presidência”.

O eco dos disparos verbais com o passar dos dias deverá ser depositado nos paióis para a guerra já declarada entre os protagonistas deste faroeste caboclo até que o campo de batalha mude do roteiro do beato massacrado há mais de cem anos para os palanques em 2022. O silêncio forçado do ex-falso herói abatido produzirá o conforto e o consolo de bandidos secretos que operam por trás do palco na encenação diária da gestão pública sobre os inocentes explorados pelos maus costumes políticos.

Este artigo é publicado a 23 dias do segundo aniversário da execução da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. Pressionada pela cobranças internacionais, a polícia de Witzel, o mais novo inimigo jurado da reeleição de Bolsonaro, dificilmente terá chegado ao que realmente interessa: quem mandou matá-los. Afinal, executantes do crime, apontados na investigação, são gafanhotos cujo estrago não se compara ao poder mortal dos mandantes que os contrataram para eliminá-los. A impossibilidade de contar com informações que poderiam ser dadas pelas memórias do ex-capitão de milícias certamente contribuirá – e muito – para adiar essa identificação para as calendas gregas.

Pouco mais de um ano depois desse assassinato, dois prédios desabaram, matando 24 pessoas em Muzema, no Itanhangá, no Rio, onde Marielle atuava. Além do saldo fatal, ecoa a frase infeliz do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, a respeito do tema deste texto: “A milícia começou numa intenção de proteger as comunidades. Na boa intenção. Começou com uma intenção de ajudar, mas desvirtuou e são bandos armados”.

Adriano tinha informações que foram apagadas perto do cemitério construído pelo Conselheiro: um bandido morreu para livrar muitos outros .

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pág. A 2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 19 de fevereiro de 2020)

 

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