Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Política

No Estadão desta quarta-feira: STF, um monstro de 11 cabeças e 2 lados

No Estadão desta quarta-feira: STF, um monstro de  11 cabeças e 2 lados

Ao desafiar decisão da maioria do Supremo, Mello reforça adere à perseguição contra Lula

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello disse, em entrevista à Rádio e Televisão de Portugal (RTP), que a prisão de Lula é ilegal e também que o presidenciável petista é inelegível.

A declaração de Sua Excelência, levada ao ar na sexta-feira 23 de junho, produziu impacto e estranhamento. A Nação está abalada pela plena vigência de uma crise política, econômica, financeira e ética que amargura 24 milhões de brasileiros sem emprego, perspectivas nem esperança, segundo informação dada por uma das poucas instituições do Estado nacional que ainda se pode orgulhar de gozar de prestígio e credibilidade, o IBGE. Isso se agrava com a expectativa da realização a 106 dias da sentença (no sentido semântico, não no jurídico) de eleições gerais – para presidente, governadores, Câmara dos Deputados, Senado Federal e Assembleias Legislativas – com prognósticos imprevisíveis e preocupantes.

Nesse panorama, o sujeito da frase é o principal elemento de perturbação de um cenário, embora não seja, justiça lhe seja feita, o único. Presidente mais popular da História da República, conforme recentes levantamentos de pesquisa de opinião pública, deixando para trás figuras mitológicas como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, mantém confortável dianteira nos levantamentos de intenção de votos para o pleito de 7 e 28 de outubro.

Se não fosse – como é – impedido de disputar o pleito, por encarnar boas lembranças de bonança, que seus devotos dissociam da desgraceira atual, por ela produzida, ou por emular Gulliver em ambiente de pigmeus, Lula é um espantalho entre abutres. Alguns querem devorá-lo, seja porque governará contra seus interesses oligárquicos, seja por terem consciência da catástrofe incomparável que seria a repetição do desgoverno da demagogia populista e devoradora de recursos públicos. Mas ainda se prostram a seus pés políticos, burocratas e sanguessugas de academia, cultura e artes expulsos do opíparo banquete da espoliação do erário.

No mítico Raso da Catarina do sertão de místicos e cangaceiros, o ministro Mello surge como um misto do beato Antônio Conselheiro e do cabra Corisco com o cajado da Constituição na mão canhota e o martelo de juiz na direita. Na semana encerrada com seu aparente golpe no cravo e outro na ferradura, seus colegas aliados na Segunda Turma cuspiram nas inúmeras evidências e “coincidências” de depoimentos de delatores premiados para negar, por cinco a zero, punição ao casal Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo. As batatas da vitória foram devoradas no festim (com toda a razão) de crentes do padim Lula, que atribuíram à notícia o condão mágico de abrir a cela que confina o profeta e anula a profecia.

A decisão, mais do que evidente, inevitável, de Fachin de transferir para o plenário o julgamento da tentativa da defesa do petista de cancelar a condenação do réu, decidida em primeira e segunda instâncias (por unanimidade), verteu fel no chope da vitória num jogo que nunca foi, nem tinha como ser, preliminar. O relator da Lava Jato não podia deixar de fazê-lo, dando sequência à decisão tomada pela vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), desembargadora Maria de Fátima Freitas Labarrère. Da mesma forma, o presidente da Segunda Turma do STF, Ricardo Lewandowski, que ninguém em sã consciência acusaria de antilulista, nada poderia fazer de diferente do que fez: desmarcou a sessão (anteriormente agendada para ontem) na qual tal pedido seria votado.

Nessa guerra, em que se permitem adiamentos, recursos e chicanas vigentes no Judiciário, que parecem nunca ter fim, o advogado de Lula “estranhou” que Labarrère tenha tomado a decisão às vésperas da reunião já marcada no STF. Ou seja, à falta de fatos e, agora, até de argumentos, restou a Cristiano Zanin exigir do Judiciário que submeta o calendário à conveniência de seu cliente.

No fragor dessa batalha é que o ministro Mello transportou para além-mar sua guerrilha particular, ao lado dos companheiros de turma Lewandowski, Gilmar, Celso e Toffoli, que soltam presidiários de colarinho-branco aos magotes, contra decisão do colegiado pleno do STF, que autoriza a prisão de condenados em segunda instância. Ao fazê-lo, o douto membro da colenda Corte a desafia, sobrepondo com arrogância às decisões majoritárias desta as próprias convicções ou os interesses, sejam lá quais forem, pessoais. Destarte, ele confirma o veredicto pouco lisonjeiro sobre a mais alta instância judiciária manifestado pelo especialista Joaquim Falcão, da FGV: o de que não há um STF uno, mas um conjunto desarmonioso de 11 cabeças. Ou seja, uma conjunção de Hidra, o monstro mitológico que habitava a lagoa de Lerna – com corpo de dragão e nove cabeças de serpente, cujo hálito era venenoso e que podiam se reproduzir –, com o deus romano Jano, de duas faces, uma olhando para a frente e a outra, para trás.

“Processo, para mim, não tem capa. Processo, para mim, tem unicamente conteúdo. Eu não concebo, tendo em conta minha formação jurídica, tendo em conta a minha experiência judicante, eu não concebo essa espécie de execução”, declarou Mello. A frase dá definitivamente eco ao discurso dos arautos do profeta de Vila Euclides, segundo os quais este é vítima de uma perseguição contumaz de elites exploradoras que controlam a polícia, o Ministério Público e as duas instâncias iniciais do Judiciário. Ao fazê-lo, o ministro adere à campanha difamatória do Partido dos Trabalhadores (PT), que não tem alternativa ao presidiário mais popular do País para disputar a eleição presidencial, no pressuposto de que toda a Justiça se resume ao plenário fracionado da corte real, entendida a palavra como de reis, e não da realidade.

E sem perder o hábito de confundir só para contrariar, repetiu o Conselheiro Acácio, ao reafirmar o óbvio ululante da inelegibilidade de Lula.

(Publicado na página A2 do Estado de S. Paulo quarta-feira 26 de junho de 2018)

No Estadão desta quarta-feira: País sequestrado por um condenado preso

No Estadão desta quarta-feira: País sequestrado por um condenado preso

Lula lidera pesquisas porque escolheu sucessores ineptos e desmoralizou oposição

Os resultados da última pesquisa Datafolha, publicada domingo pela Folha de S.Paulo, não podem ser considerados definitivos para prenunciar a apuração da eleição de daqui a quatro meses porque representam um retrato atual, como sempre, nunca uma profecia exata. E também porque revelam agora uma decisão que muitos cidadãos ainda estão por tomar. Configuram, contudo, e ao que parece de forma cristalizada, tendências que dificilmente mudarão, pois refletem uma situação antiga, crônica, lógica e irrefutável.

Os 30% de preferência pelo soit-disant presidenciável do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, impressionam por dois motivos. Antes de tudo, porque ele foi condenado em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, a 12 anos e 1 mês por corrupção e lavagem de dinheiro. E é inelegível. Em segundo lugar, por cumprir pena em Curitiba e, portanto, não ser disponível para participar de comícios, carreatas e até, conforme presume quem tem bom senso, gravar pronunciamentos para a propaganda nada gratuita no rádio e na televisão. O comportamento inusitado da Justiça, permitindo-lhe um dia a dia não vivido por outro preso comum – e ele é apenas mais um –, pode pôr em questão a segunda afirmativa. Mas, por enquanto, prever a continuação dessa anomalia, vencidos os prazos legais para o registro de candidaturas, não é realista.

A fidelidade de quase um terço do eleitorado brasileiro ao carisma do mais popular líder político e mais famoso presidiário do País, a esta altura do campeonato, confirma uma evidência e nega uma lenda urbana. O primeiro lugar no ranking atesta que a emoção é decisiva no ato de digitar o número do pretendente na máquina de votar. E o petista é, disparado, o único dos que se apresentaram à liça a despertar a paixão do cidadão, seja por afeto, seja por repulsa. Mas também, por paradoxal que pareça, o voto em quaisquer nível social e escolaridade é decidido pelo estômago e pelo bolso.

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso”, resmungará o leitor aflito, citando o repetido verso de Olavo Bilac. Afinal, além de condenado, Lula responde na Justiça a mais seis processos criminais, que, juntos, o desmascaram na chefia de uma organização criminosa que levou a Petrobrás à falência, quebrou as contas públicas, esfolou a economia a ponto de gerar 24 milhões de desempregados e desiludidos, conforme o confiável IBGE, e indicou os dois presidentes mais desastrados e, por isso mesmo, mais impopulares da História: a companheira petista Dilma Rousseff e o cúmplice Michel Temer, do PMDB. Sem Temer, Dilma não teria sido eleita. Sem os votos do PT, Temer não seria presidente.

É aí que entra neste raciocínio a negação de que o brasileiro não tem memória, uma lenda antiga e frágil. Os apressadinhos, que, conforme ensinava vovó, comem cru ou sapecado, arguirão que, ao desprezarem os dados da realidade que fazem de Lula um réprobo, e não os quindins de iaiá, os brasileiros que vegetam abaixo da linha da pobreza não têm memória mesmo e ponto final. Alto lá! História é uma coisa, memória é outra. A História é objetiva, relata fatos indesmentíveis, questiona mitos aparentemente indestrutíveis. A memória é subjetiva. Cada um tem a sua. A lembrança dos fatos ao redor é sempre imprecisa e traiçoeira. A recordação dos benefícios pessoais é permanente. Os que asseguram que votarão em Lula têm a memória gostosa dos tempos de ouro do crédito fácil e do acesso à proteína barata sobre a mesa da família.

A História revela que a inflação acabou, o poder de compra da moeda permitiu o acesso das famílias pobres ao consumo inatingível, por obra e graça do Plano Real, do câmbio flutuante e da Lei de Responsabilidade Fiscal, sob a égide do tucano Fernando Henrique. Mas a memória ressuscita o crédito farto e fácil e é isso que segura Lula no topo das pesquisas.

Detratores de institutos de opinião poderão até constatar que os índices recentes não se confirmarão. Mas dificilmente as tendências serão desmentidas. A principal delas é a novidade que ameaça surgir do panorama visto da pinguela sobre a fossa: a disseminação generalizada de que político nenhum presta mesmo e, então, o melhor é escolher um entre tantos condenados que no passado mais recente lhes “encheram o bucho”, como se diz em meu Nordeste de origem, região tida como baluarte lulista. Sabe o “rouba, mas faz”? Pois…

Em 2013, a população foi à rua protestar contra tudo e no ano seguinte reelegeu Dilma e Temer, dois precipícios para a tragédia. Em 2016 o eleitor surrou o PT porque a Lava Jato levou o partido aos tribunais e às prisões. Presos em Curitiba estão todos os chefões petistas: o próprio Lula, Zé Dirceu e Palocci. E, pior de tudo, três ex-tesoureiros – Delúbio, Vaccari e Paulo Ferreira – tiveram o mesmo destino. Há quem lembre diante desse fato que a organização criminosa, vulgo quadrilha, se afigura na forma da lei com a reunião de mais de quatro membros. Ou seja…

Em 2014 o PSDB fez de Aécio Neves a esperança anti-PT para pelo menos metade da sociedade, que não cai na lábia do profeta de Vila Euclides. O neto de Tancredo Neves, ilusão da Nova República abatida pela septicemia, contudo, protagonizou a maior frustração política da nossa História. Denunciado por um suspeito de ter enriquecido pelo compadrio de Lula e asseclas, gravado anunciando a morte do primo, caso este o delatasse, o mineiro poderia ter passado em branco pela inutilidade que protagonizou em seu mandato de senador pelo Estado mais habilidoso do Brasil. Mas fez muito pior, ao mostrar que seu adversário-mor comprou até a oposição fajuta em que ele mandava.

Lula nem precisará candidatar-se para encarnar o paradoxo deste país surreal, que mantém sob sequestro em sua cela de preso comum: beneficia-se por ter escolhido sucessores que quebraram o Brasil e pagou à oposição para anulá-la.

*José Nêumanne – Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página 2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 13 de junho de 2018)

No Blog: Nêumanne entrevista Juca de Oliveira

No Blog: Nêumanne entrevista Juca de Oliveira

Falta de rumo resume tragédia brasileira hoje, diz Juca de Oliveira

 

“Estamos sitiados 24 horas por dia”, lamenta o ator, autor e diretor de sucesso no teatro, na televisão e no cinema em depoimento pungente e antenado

À pergunta que lhe foi feita sobre qual tema sugeriria a Shakespeare, de quem interpretou recentemente O Rei Lear, para escrever uma tragédia no Brasil atual, o ator, autor e diretor de teatro, cinema e televisão Juca de Oliveira não hesitou em escolher a falta de rumo, preterindo desespero, desesperança e descrédito. Ex-estudante de Direito nas Arcadas, ele definiu o vilão Natanael, que encarnou na telenovela O Outro Lado do Paraíso, como um “anjo de candura”, comparado com juristas famosos que ganham fortunas para garantir a impunidade de delinquentes de colarinho-branco nesta crise atual, que lhe parece a mais grave que já viu na vida.
José de Oliveira Santos, o Juca de Oliveira, nasceu em 1935 em São Roque, na Grande São Paulo. Saiu da Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, para ingressar na celebrada Escola de Arte Dramática. No Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) participou de encenações antológicas como A Semente, de Gianfrancesco Guarnieri. No Teatro de Arena fez Eles Não Usam Black-tie, do mesmo Guarnieri. Na TV Tupi protagonizou a pioneira telenovela Nino, o Italianinho, tornando-se muito popular. No teatro brilhou em 60 peças, entre as quais comédias de grande público, como Caixa 2 e Meno Male, de sua autoria. No cinema participou do elenco de clássicos como O Caso dos Irmãos Naves. , de Luiz Sérgio Person. Ocupa a cadeira n.º 8 da Academia Paulista de Letras. É casado com Maria Luiza (Zu) de Oliveira, com quem tem uma filha, Isabela.

Nêumanne entrevista Juca de Oliveira

Juca de Oliveira diante da bilheteria, segundo ele garantia da liberdade do artista de teatro. Foto: SAO PAULO SP 05/04/2018

Juca de Oliveira diante da bilheteria, segundo ele garantia da liberdade do artista de teatro. Foto: SAO PAULO SP 05/04/2018

N – A caminhada da sociedade brasileira atual, que parece sadomasoquista ou até suicida para alguns comentaristas, inclusive este escriba que lhe pergunta, tendo em vista o apoio popular a uma chantagem da qual ela própria foi vítima e agora paga o alto custo de seu resgate, não faz lembrar o suicídio e imolação dos filhos de Jasão por Medéia, na tragédia grega de Eurípedes, citada por João Emanuel Carneiro em Avenida Brasil, telenovela na qual o senhor interpretou o vilão Santiago, e, antes disso, adaptada por Chico Buarque e nosso saudoso amigo Paulinho Pontes em Gota d’Água?

JdeO – Tenho 83 anos e jamais vivi um momento político-social-econômico tão tenso, quase beirando a tragédia, como você bem lembra ao se referir à Medéia, de Eurípides. Mas mesmo no destino trágico de Medéia, que traída por Jasão resolve vingar-se matando a rival, o pai e os próprios filhos, há o germe positivo da liberação da mulher de sua eterna submissão. É uma restiazinha de esperança que afasta por algumas horas a insônia desencadeada por essa caminhada suicida e sadomasoquista – como tão bem você definiu. Porque (torço pra ser verdade) a crise gera o nascimento de novas lideranças, a solução dos problemas e a evolução da sociedade.

N – Que lições o senhor acha que nosso Brasil aprendeu e quais não parece sequer ter percebido, ao permitir que aconteça algo como a pane seca e a crise de abastecimento destes últimos dias?

J – A gênese da pane seca e da crise do desabastecimento está na maior estupidez cometida pelo ser humano: a desativação das ferrovias no Brasil, um país continental, que, por razões óbvias, deveria escoar a sua enorme produção agropecuária por linhas férreas. Segundo meu cunhado Julião Capitão, alto funcionário da Sorocabana, já falecido, o transporte por ferrovia, em alguns casos, chega a ser 100 vezes mais barato que por rodovia! Tudo começou no governo Juscelino, com a opção política pelo chamado modal rodoviário, uma decisão absolutamente equivocada, na contramão do correto desenvolvimento de países continentais. A aprovação de projetos industriais para a fabricação de caminhões e automóveis em território brasileiro, como se sabe, só foi possível com a condição de que desativássemos as ferrovias para evitar a concorrência. Fui testemunha dessa tragédia quando gravamos na Amazônia a maravilhosa minissérie Mad Maria, do Benedito Ruy Barbosa, direção de Ricardo Waddington, sobre a desativação da Madeira-Mamoré, que nos levaria de Porto Velho a Guajará-Mirim, divisa com a Bolívia. Fomos para gravar uma história sobre uma tragédia histórica e acabamos vivenciando a tragédia. Trabalharam conosco uns 400 figurantes de Rondônia, de Abunã e outros vilarejos à margem da ferrovia desativada. Eram ribeirinhos dos afluentes e igarapés do Madeira e Mamoré, ex-fazendeiros do sul, ex-garimpeiros, camponeses, todos ligados visceralmente à história da ferrovia. Durante dois meses falamos diariamente com esses companheiros, apaixonadamente dedicados à gravação das cenas da minissérie, todas muito difíceis. Por que esse empenho e dedicação tão fora do comum entre figurantes? Porque – e aí estava a tragédia – eles não participavam de uma obra de ficção. Eles efetivamente acreditavam que reconstruíam com os atores a ferrovia à qual a vida deles continuava acorrentada mais de cem anos depois. A impressão que me deu era de que eles resgatavam de sobre os dormentes os 6 mil mortos, amigos e parentes, pais, avós, bisavós, que ali haviam perdido a vida de forma heroica e ao mesmo tempo inútil. Arrancaram os trilhos, desmontaram as locomotivas – raras obras-primas de engenharia – e venderam tudo por quilo a um negociante paulista, num ato de suprema ofensa a milhares de homens que deram sua vida em prol do “progresso e do avanço tecnológico”…

Arquivo 29/07/1969 - Variedades JT - Juca de Oliveira. Foto Divulgação

Arquivo 29/07/1969 – Variedades JT – Juca de Oliveira. Foto Divulgação

N – Seu último desempenho no teatro foi o monólogo do O Rei Lear, de William Shakespeare, adaptado pelo poeta Geraldinho Carneiro e dirigido por Elias Andreato. Se um dia o autor lhe aparecesse em sonho e lhe pedisse que sugerisse um tema para uma tragédia póstuma nestes tristes trópicos, o senhor indicaria desespero, desesperança, descrédito ou falta de rumo?

J – A querida e saudosa Bárbara Heliodora, nossa maior especialista em Shakespeare, cunhou uma das mais brilhantes sínteses sobre o significado universal do teatro: “O Teatro é o documentário da História”. Quando li a frase tive um insight: ao ler ou ver uma peça acabamos conhecendo a realidade do país de origem do dramaturgo que a escreveu. Pode ser Romeu e Julieta, de Shakespeare, ou Eles Não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri. Por meio delas teremos um documentário de um pedaço da história da Inglaterra e do Brasil. Portanto, se ele me solicitasse essa sugestão hoje (quem sou eu para sugerir algo ao maior dramaturgo da História?), eu diria: senhor Shakespeare, sou seu maior fã, eu o conheço razoavelmente e sei que, independentemente do que eu opinar como tema, o senhor escreverá sobre a nossa atual FALTA DE RUMO…

N – Na televisão o senhor fez muitos papéis marcantes e eu tomo a liberdade de citar como tema o de João Gibão, em Saramandaia, de Dias Gomes, Ícaro envergonhado de suas asas e que por isso as esconde sob o gibão de couro. O que no Brasil evita que, diante do quadro cada vez mais trágico, o senhor tire o gibão e voe de vez em asas de avião para um lugar menos inóspito no mundo? Ou esse Xangri-Lá, na verdade, não existe?

J – Viajei razoavelmente para o exterior, como todo caipira, sempre com o objetivo de conhecer melhor as pessoas, ver as cidades, os museus, as catedrais, os palácios e, principalmente, o teatro desses países que visitei. Mas jamais tive vontade nem interesse em ir embora daqui. Adoro o Brasil, mesmo no auge de suas sucessivas crises. Sou caipira do interior, de São Roque, adoro São Roque, vivi parte da minha vida numa fazenda em Itapira, adoro Itapira, adoro a natureza, os animais, a floresta, os bichos, o florescer, o outono, a queda das folhas, o inverno, a queda dos frutos e o vingar das suas sementes. Pra dar uma ideia, na minha peça A Flor do Meu Bem Querer (modéstia à parte, um grande sucesso) uma das personagens, o Nhô Roque, genialmente feito pelo Genésio de Barros, fala com o futuro marido da sua neta, o Jacinto, que está partindo para uma viagem à Europa. Essa fala de Nhô Roque dá a ideia de por que, pra mim, o Xangri-lá é por aqui mesmo…
“Nhô Roque: Não, Jacinto, num vai pa Oropa, bobo, vai pa Itapira! Ni Itapira tudo mundo gosta docê! Sua tia Larina faiz paçoca de carne seca pocê, paçoca que ocê gosta! Fazê o que na Oropa? Lá ninguém conhece ocê, nem a língua queles fala ocê entende! Vai pa Itapira, bobo!”

Juca de Oliveira contracenando com Vida Alves, atriz que fez história no início da televisão no Brasil. Foto: Divulgação

Juca de Oliveira contracenando com Vida Alves, atriz que fez história no início da televisão no Brasil. Foto: Divulgação

N – Recentemente o senhor contracenou com Sérgio Guizé, que interpretou João Gibão no remake de Saramandaia e foi o protagonista de O Outro Lado do Paraíso, telenovela de Walcyr Carrasco, na qual o senhor interpretou um dos maiores de todos os muitos vilões da história, o superadvogado Natanael. O senhor percebe, no atual cenário político brasileiro, um jurista em quem identifique alguma coisa cuja atuação lembre aquela ficção, que fez imenso sucesso de público?

J – Vários juristas. Fico curioso com o comportamento profissional de famosos advogados criminalistas cujos clientes lhes pagam honorários de até R$ 8 milhões. Natanael, o vilão, meu personagem em O Outro Lado do Paraíso, estaria entre eles, claro, se intuísse que a advocacia criminalista se tornaria tão rentável no futuro do País. E eles se multiplicaram! Antes da Lava Jato eram cerca de 40 as grandes bancas de criminalistas, concentradas em São Paulo e no Rio. Hoje esse número dobrou. O novo mercado foi esticado para Brasília e Curitiba, claro, e com o aprofundamento das investigações da Lava Jato ele emprega aproximadamente 1.200 advogados. Que crimes teriam cometido seus clientes para tão altos honorários? As acusações variam entre pagamento de propinas, evasão de divisas, caixa 2 para partidos políticos, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, crimes financeiros, corrupção, enfim. Mas, ora, se os crimes são roubos, assaltos aos cofres públicos, desfalques, os honorários dos advogados não deveriam ser devolvidos para ressarcimento da sociedade? Estudei Direito na São Francisco com os saudosíssimos Miguel Reale e Gofredo da Silva Teles, entre outros mestres inesquecíveis. Não cheguei a me formar por ter optado pela Escola de Arte Dramática, mas estudei o suficiente para saber que a maioria dos profissionais que atuam na Lava Jato seria reprovada por esses e outros mestres das Arcadas. Agora mesmo os doleiros Juca Bala e Claudio de Souza não acabam de denunciar um grande advogado por exigir propina para não denunciar clientes? O meu Natanael é um anjo de candura diante dessa turma.

N – Do alto de seus 83 anos de idade, nascido no Brasil sob os efeitos da Revolução dos Tenentes de 1930, o senhor testemunhou o putsch do Estado Novo de Getúlio em 1937, a redemocratização de 1946, o suicídio do mesmo Vargas em 1954, a renúncia de Jânio em 1961, o golpe da “redentora” de 1964, o recrudescimento da ditadura em 1968, a morte de Tancredo Neves em 1985, os impeachments de Collor em 1992 e de Dilma em 2016 e os protestos dos movimentos anárquicos de rua em 2013. A seu ver, o momento atual é tão, mais ou menos grave e importante do que esses aqui lembrados?

J – Este momento me parece o mais grave de todos. Não apenas para nós, brasileiros. O mundo está ameaçado. Veja, há uma queda geral da produtividade mundial, na qual estamos envolvidos. Também uma precária utilização das novas tecnologias nos sistemas de produção e o envelhecimento crescente da população, com a consequente diminuição na faixa dos economicamente ativos. O aumento do endividamento do País faz com que recursos que seriam usados em investimentos sejam destinados a pagar dívidas. Estamos também enfrentando mudanças climáticas, o que provoca o aquecimento global, os desastres naturais, a escassez de água e a sua contaminação no mar e em quase todos os nossos rios. No momento não estamos conseguindo sequer conter a disseminação dos agrotóxicos até mesmo nos produtos hortifrutigranjeiros.

Juca de Oliveira ensaiando, em 1972, Um Edifício Chamado 200, de seu amigo Paulo Pontes, com direção de José Renato. Foto: Arquivo/AE

Juca de Oliveira ensaiando, em 1972, Um Edifício Chamado 200, de seu amigo Paulo Pontes, com direção de José Renato. Foto: Arquivo/AE

N – O senhor foi um dos protagonistas, com Raul Cortez, do clássico do cinema novo O Caso dos Irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person. O senhor acha que um erro judiciário tão grave como aquele e, sobretudo, a truculência do policial interpretado por Anselmo Duarte ainda ocorrem em nossos tempos? O enredo do filme não lembra episódios contemporâneos, como o massacre do Carandiru e a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes?

J – Sim, lembra. A violência continua. Se compararmos com o erro judiciário do filme do Person, as coisas pioraram muito. O índice de assassinatos, o aumento escancarado da violência, o contrabando crescente de armas altamente sofisticadas. O domínio dos traficantes sobre várias comunidades. A impossibilidade do livre trânsito do cidadão, do trabalhador. Já não podemos sair à noite. Perdemos o direito de andar livremente. Somos reféns permanentes.

Em 2007, Juca de Oliveira falou em audiência pública para debater regras para classificação indicativa da TV no Ministério da Justiça. Foto: Ed Ferreira/AE

Em 2007, Juca de Oliveira falou em audiência pública para debater regras para classificação indicativa da TV no Ministério da Justiça. Foto: Ed Ferreira/AE

N – Leitor voraz e atento, autor, ator e espectador de teatro, cinema e televisão, ouvinte de música, qual a sua opinião sobre o atual panorama da produção da cultura nacional? Estamos nos melhores ou nos piores momentos de sua história? E quais são as perspectivas para o futuro?

J – A cultura nacional vive hoje um dos piores momentos da sua história. Mas prefiro me fixar no péssimo momento do nosso teatro. Depois de quase 60 anos como profissional de teatro concluí que o maior responsável pelo fenômeno é a Lei Rouanet, embora os objetivos culturais da sua criação tenham sido louváveis. Não se deve dar dinheiro ao artista. O Estado deve criar condições para o desenvolvimento cultural do País, mas não dar dinheiro ao artista. O ator e a atriz ganham o seu dinheiro com a sua arte. Quanto mais próximos da perfeição chegarem, maiores serão o sucesso e a recompensa do seu público. Ele ou ela sente a recompensa quando confere o dinheiro da bilheteria em longas temporadas de até dois, três, quatro anos em cartaz. E sempre nos orgulhamos dessa independência. Porque é a independência econômica que nos garante a independência ideológica para o livre exercício da nossa arte através dos séculos. O teatro é uma atividade, uma profissão movida pela paixão. Quando alguém dá dinheiro ao ator, mata a paixão com que ele se atira à realização dos seus sonhos e projetos e o acorrenta. Se há o dinheiro da lei, não foi a paixão, não foi o resultado do seu trabalho que lhe deu o salário, que agora – isso é trágico – não vem mais da bilheteria. Nosso querido e genial Antonio Fagundes, que não faz espetáculos pela Lei Rouanet e fica anos em cartaz com suas produções, disse em recente entrevista: “Se o ator vive só de patrocínio, a bilheteria não interessa mais… Não perceberam que o teatro está morrendo”. É sabido que Shakespeare escrevia com os dois olhos na caixa registradora e foi um excepcional empresário, lotando teatros de 2 mil lugares, cinco dias por semana. Se em Stratford houvesse a Lei Rouanet, ele não teria escrito nem uma das suas 38 peças e o mundo seria infinitamente mais ignorante. Os dramaturgos em todo o mundo ganham um percentual de 10% do que arrecada a bilheteria. Como depois da Rouanet o resultado da bilheteria se tornou quase zero, espetáculos dois dias por semana, às vezes apenas um, temporadas ridiculamente curtas, não há mais estímulo para o surgimento de novos autores de teatro, os que menos ganham na era da Rouanet. E o mais incompreensível: é um fenômeno brasileiro. A Argentina, para citar um vizinho mais pobre, tem um teatro excepcional, uma verdadeira Broadway bombando seis dias por semana, com 400 peças em cartaz.

Juca de Oliveira em cena com Bibi Ferreira em comédia da autoria dele, Às Favas com os Escrúpulos. Foto: Antonio Milena/AE

Juca de Oliveira em cena com Bibi Ferreira em comédia da autoria dele, Às Favas com os Escrúpulos. Foto: Antonio Milena/AE

N – O que mais o incomoda e o que mais o senhor celebra em nosso cotidiano de agora?
J – A insegurança nas ruas é o que mais incomoda em nosso cotidiano agora. Eu caminho todos os dias. Tenho 83, velho que não anda desanda… Há pouco tempo, quando eu ia sair pra caminhar, minha mulher me advertia: “Olha, não fale no celular andando pela calçada que eles te levam o celular! Passam de bicicleta e vupt!”. Alguns dias depois, quando estou de saída, ela novamente: “Olha, acho melhor não levar o celular porque agora eles descobrem o celular no bolso, fingem um esbarrão e te tomam”. Bom, deixei o celular em casa e saí andando. Esta semana vem ela de novo: “Juca, acho melhor você não andar mais porque agora estão fazendo arrastão tipo ‘perdeu, mano, passa tudo’!” O negócio vai ficando difícil! Ainda bem que tenho minha mulher, que me adverte: “Olha, é mais seguro você parar o carro, no farol, atrás do carro do meio. Eles estão preferindo assaltar os carros das beiradas”… É horrível. No passado, quando acabava o espetáculo no Arena ou no TBC, todo o santo dia, lá pelas 11 da noite, trocávamos a roupa no camarim e íamos andando para o inesquecível restaurante Gigetto, ponto de encontro de todos os atores e atrizes de São Paulo e do Rio quando em excursão por aqui… Acabado o jantar, lá pelas 2, 3 horas da madrugada, em grupinhos, íamos em direção ao prédio do Estadão, comprávamos o jornal do dia seguinte com os carregadores na oficina e rumávamos para o Jeca, esquina da São João com Ipiranga, sempre andando, e lá ficávamos até as 4 da manhã bebericando um cafezinho e discutindo as notícias do jornal. … E aí voltávamos pra casa, a maioria andando… Acabou, estamos sitiados 24 horas por dia. E o que eu mais celebro é um drinque com minha mulher, minha filha, os amigos queridos e jogar conversa fora. E também os encontros com meus queridos confrades e confreiras, às quintas feiras, na Academia Paulista de Letras.

N – O que foi feito hoje dos sonhos e ilusões de seus tempos de galã de Nino, o Italianinho, de Geraldo Vietri e Walther Negrão, na Tupi, cujos últimos capítulos acompanhei ao chegar a São Paulo, em 1970?

J – Estou com 83 anos. Continuo com meus sonhos. Sonhando muito e trabalhando muito. Estou escrevendo mais uma peça de teatro e aguardando o chamado da Globo para mais um trabalho na televisão. Cheguei mais ou menos ao meio da peça, ainda tenho bastante trabalho pela frente. Terminada a peça, farei uma leitura para alguns colegas, leitura para qual você já está convidado, voltarei para o computador para reescrever até que uma das próximas leituras me satisfaça. Como nós, de teatro, sabemos, escrever é reescrever… Bom, adorei bater esse papo com você. Até.

N – Inté.

Nêumanne entrevista Juca de Oliveira. 8a. edição da Série 10 Perguntas.

Nêumanne entrevista Juca de Oliveira. 8a. edição da Série 10 Perguntas

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No Blog do Nêumanne: Privatizar a Petrobrás já!

No Blog do Nêumanne: Privatizar a Petrobrás já!

Com  a petroleira recuperada pela gestão de Parente, a elite política dirigente de esquerda, Centrão e direita se apronta para promover nova rapina total em seus cofres

Quem leu a reportagem de Consuelo Dieguez, na revista PiauíO Petróleo depois da festa, em setembro de 2012, foi devidamente informado de que a política de óleo e gás do país era, à época, uma zorra total, uma enorme bagunça. E tudo levava a crer que boa coisa não sairia de qualquer investigação minimamente bem feita da intimidade de nossa maior estatal, a Petrobrás. Aparentemente a partir de um relato do militante baiano Haroldo Lima, do PCdoB, comunista da linha albanesa, revoltado com sua demissão da presidência da Agência Nacional do Petróleo (ANP), a repórter ouviu a empresa, os órgãos oficiais do setor e o mercado privado para traçar um quadro terrível do caos em que resultou a política populista e incompetente de Lula, que, segundo Lima, mandava sem ser questionado no Conselho de Administração da Petrobrás por intermédio de três pessoas com direito a voto no colegiado: a própria fonte, Dilma Rousseff, que era chefe da Casa Civil, e Sérgio Gabrielli, então presidente da estatal.

O texto de Consuelo Dieguez nunca mereceu a leitura atenta que deveria ter provocado principalmente em setores que têm responsabilidade de decisão na vida nacional. O Poder Legislativo passou ao largo. O Judiciário, preocupado apenas com a elegância das togas de seus membros e do estilo nem sempre escorreito dos jurisconsultos, não prestou a mínima atenção. Do Executivo nada se podia esperar, pois, afinal, um dos principais alvos da verrina do velho comunista, Dilma Rousseff, presidiria o País por mais quatro anos, após reeleita dois anos depois. A Associação dos Engenheiros da Petrobrás e os sindicatos dos petroleiros – com mãos e pés atados pela inércia provocada pela cegueira ideológica – jamais abandonariam sua adesão traidora aos novos exploradores que espoliavam o patrimônio público, que tanto pretendem defender do capitalismo neoliberal, também passaram ao largo do tema. No que foram imitados por órgãos da sociedade, como o chamado mercado, a oportunista Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e, por que não dizer, os meios de comunicação – todos com vistas, ouvidos e corações voltados para temas mais óbvios e menos árduos. Inútil será reclamar das múmias paralíticas dos tribunais de contas, do Conselho de Valores Mobiliários e dos órgãos fiscalizadores do governo, tais como o Banco Central, a Receita Federal, as agências criadas para evitar que o alfanje dos Poderes da República e a musculatura esmagadora das grandes empresas capitalistas que apertam o pescoço do cidadão, exposto às intempéries e aos humores de seus opressores. Fez-se sobre o assunto, que se provaria ainda mais grave do que até os mais atentos tinham dificuldade de perceber, um silêncio que ajudou a estimular a incompetência e a desonestidade de gestores estatais no mando do butim.

O que desvendou a rapina exercida pelo controle dos sócios do poder – PT, PMDB, PP, PRB, PTB, PDT, PCdoB, PSD e outros inúmeros satélites desses planetas – foi a conjunção de fatores estranhos ao mundo da subpolítica, que terminaram por solapar as bases podres do esquema. O FBI americano foi um dos atores indiretos da revelação da tragédia cabocla. Ao investigar a sofisticada engenharia financeira da Al Qaeda, grupo terrorista que demoliu em ataques aéreos o World Trade Center, em Nova York, a polícia federal americana deparou-se com a descoberta de que a corrupção, até então negligenciada, provocava mais prejuízos do que o crime organizado do tráfico de drogas e armas. Essa conclusão e o resultado da investigação da Operação Mãos Limpas, na Itália, levaram as autoridades mundiais a assinarem acordos de colaboração mútua no combate à malversação dos cofres estatais nas democracias ocidentais. O Brasil incluído. Sob Fernando Henrique, Lula e Dilma, foram aprovadas leis fundamentais para o combate aos delitos de colarinho-branco. Destacam-se o avanço fundamental da delação premiada, instituto sem o qual é praticamente impossível algemar mãos que contam dinheiro e a sofisticação cada vez mais refinada da investigação da lavagem de capitais, necessária para devassar delitos mui engenhosamente mascarados.

No Brasil, o avanço no combate a esses crimes nas altas cúpulas republicanas foi favorecido com a perda de controle da Polícia Federal (PF) pelas autoridades às quais são subordinadas. À época dos governos federais tucanos, grupos de agentes ligados a Paulo Lacerda trabalharam em parceria com procuradores federais como Luiz Francisco de Souza, vulgo Torquemada, e Guilherme Shelb, em acusações de maracutaias de adversários. Outros agentes, remanescentes da gestão do delegado Romeu Tuma ou ligados aos tucanos, caso de Marcelo Itagiba, que ascendeu à Câmara dos Deputados, denunciaram “vacilos” de oponentes, como Roseana Sarney, no Maranhão, e até Lula, na Presidência da República.

Sem conexões no mundo político, uma geração de hoje quarentões na PF, no Ministério Público Federal e na Justiça Federal, com independência garantida por conquistas corporativas inscritas na Constituição de 1988, preparou-se para investigar o que antes não era possível fazer. Foi nesse cenário que, em março de 2014, o inquérito iniciado num posto de gasolina em Brasília, usado como ponta final do sistema de doleiros encarregados de lavar o dinheiro dos gatunos da subpolítica, caiu nas mãos de um juiz federal paranaense, que, por coincidência, voltava de uma assessoria à ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), para o comando da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba – Sergio Moro. As delações premiadas de doleiros e ex-dirigentes da Petrobrás guiaram as lupas dos agentes da lei para os altos escalões do empresariado e da gestão pública.

O “petrolão”, esboçado no texto premonitório de Consuelo Dieguez, levou a inéditas prisões de empreiteiros (entre os quais o maior de todos, Marcelo Odebrecht) e de políticos de uma aliança multipartidária, que incluiu corruptos da ditadura (Paulo Maluf) e a direção do Partido dos Trabalhadores. No momento em que este texto é escrito, cumprem pena em celas o ex-presidente Lula, os ex-ministros Zé Dirceu e Palocci e quatro ex-tesoureiros petistas, entre eles o da época do “mensalão”, Delúbio Soares.

Quando ainda tinha o P de partido no nome, o MDB do constitucionalista de Tietê (SP), Michel Temer, adquiriu um bom lote de ações dessa empresa criminosa. No entanto, o desastre completo da gestão de Dilma Rousseff, fruto das descomunais ignorância e falta de compostura de seu criador, Lula, levou à solução constitucional da posse do ex-vice, que, na composição do governo provisório, teve de assumir o compromisso de evitar o completo naufrágio do Brasil no poço de lama com a reconstrução do patrimônio, do poder de barganha e do crédito da estatal que tinha perdido no saque dos desgovernos anteriores quase tudo. Para cumprir a tarefa foi convocado o mesmo executivo que tinha administrado os apagões elétricos do segundo governo tucano de Fernando Henrique. Pedro Parente cumpriu a tarefa até que, neste ano eleitoral, a política de preços da empresa, inevitável no resgate da dívida absurda e da desconfiança generalizada no País e no mundo, tomou dele a chave do cofre.

A saída de Parente da presidência da Petrobrás foi mais uma prova dada pelo governo Temer, depois do pedido de demissão de Maria Sílvia Bastos da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), de que no Brasil não há alternativa à privatização. A Petrobrás quase quebrou e na hora H o contribuinte suou sangue para salvá-la da bancarrota. Mas no primeiro choque de realidade, novamente com as burras cheias, a empresa voltará inevitavelmente a atrair a cobiça dos políticos gatunos de sempre, que voltarão a saqueá-la com volúpia até o próximo escândalo, de cujo rescaldo terá de sair nova salvação a custo de sangue, suor e lágrimas do contribuinte, que, ele mesmo, não se cansa de ser roubado até o último centavo. Pois a grande maioria rejeita privatizá-la. A opção é uma só: privatização já ou corrupção para sempre.

  • José Nêumanne. Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 4 de junho de 2018)

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Nesta quarta-feira no Estadão: No Brasil do quem pode grita mais e chora menos

Nesta quarta-feira no Estadão: No Brasil do quem pode  grita mais e chora menos

Direita bárbara e esquerda cínica tentam usar o caos para acabar com Estado de Direito

Caminhoneiros autônomos, transportadoras de cargas e empresas que possuem frotas movidas a diesel sequestraram o Brasil, recorrendo apenas a bloqueios rodoviários para impedir a distribuição de combustíveis e alimentos . E o débil e inerme desgoverno lhes doará R$ 13,5 bilhões em sete meses, sacados dos impotentes cidadãos. Mas esse não é o preço mais alto a ser cobrado da Nação pelas carretas paralisadas: há um golpe em pleno curso por ditaduras acalentadas por bandos irresponsáveis da direita bárbara e da esquerda cínica. A primeira exige intervenção militar e a segunda, Lula livre e presidente de novo. Quem vai ganhar? Melhor não apostar. O prezado leitor certamente perderá, no mínimo, o valor da aposta.

O apressadinho de cotovelos apoiados na janela da frente de casa pode até imaginar: “A culpa é do Temer, então, que ele se dane”. É mesmo? Vamos aos fatos. O autor destas linhas tem 67 anos de idade e é do tempo do trem de ferro e das eclusas permitindo a navegação de balsas e barcaças pelas inúmeras bacias hidrográficas brasileiras. Tinha 4 anos quando o mineiro Juscelino Kubitschek, descendente de checos e telegrafista de origem profissional, apostou todas as nossas fichas no modal rodoviário. Desde que o simpático pé de valsa de Diamantina deixou o governo, há 57 anos, as ferrovias enferrujaram-se, o transporte hidroviário é um sonho distante e as rodovias são um imenso buraco com bordas asfaltadas, à exceção das privatizadas a custo de pedágio.

Durante a ditadura militar, que cassou os direitos políticos de Juscelino, Jânio e Jango, o general Ernesto Geisel teve a oportunidade de aprender, com a crise da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), que a opção do inventor dos “50 anos em 5” tinha sido uma roubada. Mas nem os catalogados no Almanaque do Exército nem os civis da Nova República ou eleitos pelo povo, tucanos e petistas, recuperaram trilhos e vias navegáveis. Alguns preferiram encher os bolsos, saqueando todas as “burras” da República.

Os cobradores da fragilidade do desgoverno abúlico, incompetente e inconsequente de Temer apontam-no como o responsável pelo caos. As ratazanas que roeram os cofres da viúva sob desmandos de Lula e Dilma, do PT, sejam os da esquerda populista ou os da velha cleptocracia herdeira dos coronéis da Guarda Nacional do Império convocados à rapina, votaram no constitucionalista de Tietê vice da tatibitate Dilma Rousseff, que nasceu em Minas e se criou nos pampas de Getúlio e Brizola. Em 2014 o “mercado” financeiro sufragou Aécio Neves, ora acusado de ter cobrado propina para se fingir de oposição, e com o impeachment de Dilma, em 2016, afagou as mãos de Temer, em que antes escarrava.

A posse do legítimo sucessor da rainha da quebra do decoro vernacular permitiu o paradoxo a que a Nação se submete há dois anos: sem forças para “estancar a sangria”, meta que o presidente do MDB, Romero Jucá, esperava atingir assim que Temer pusesse as mãos no leme da embarcação à deriva, o grupo no poder não consegue usá-lo como teria de fazê-lo.

E não há como. O “quadrilhão do PMDB”, ainda com P, de que foi acusado o grupo ora no poder pelo ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, caiu na rede da devassa da maior roubalheira da História. Metade dos acusados e investigados está na cadeia e em simulacros para os quais é enviado quem goza das graças dos mui generosos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello: Eduardo Cunha, Henriquinho Alves, Rodrigo Loures e Geddel Vieira Lima, o petiz chorão de mãinha Marluce.

A outra metade, o trio desesperança Temer, Eliseu e Moreira, ficou no palácio e no poder por cumplicidade da Câmara dos Deputados e mercê da farta distribuição de merendas orçamentárias a suspeitos do Centrão. E da debilitação do que só se chama de governo por falta de nome adequado.

O desempenho do desgoverno foi muito abaixo de medíocre no caso. O chefe da Agência Brasileira de Inteligência (???), general Sérgio Etchegoyen, nada informou sobre a encrenca a vir. No quarto dia o presidente entregou carros que não rodam por falta de gasolina e comemorou a noite da indústria, paralisada por não dispor de combustível. O ministro de Minas e Energia, Moreira Franco, sumiu e ressurgiu falando grosso. E Padilha fez um acordo com líderes que nem os caminhoneiros reconhecem.

No sétimo dia, o chefe do Executivo mentiu. Disse que o governo negociou “desde o início”. De quê? Gabou-se dos “sacrifícios” do cidadão, como se fossem do governo, que não anunciou corte de gastos ou privilégios de partidos e políticos, mas, sim, privilégios para transportadoras e autônomos. Buzinas e sons de panelas vazias evitaram que fosse ouvido. Ninguém perdeu: a redução de 46 centavos no preço do diesel não chega às bombas, segundo disse o presidente do Sincopetro, José Gouveia, em entrevista à Rádio Eldorado.

Temer tinha ameaçado, antes, usar a força, mas exibiu um revólver de brinquedo. O ministro da Defesa, general Silva e Luna, apelou para o bom senso dos chantagistas. O Comando Militar do Sul usou um tom de entregador de flores, não de garante da lei. O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, pôs a Polícia Federal à caça dos mandantes do locaute, mas o que disse, pelo visto, não assustou ninguém.

Com o Legislativo agindo como clube privado de parlamentares, e não um Poder que representa o povo, como de hábito, e o STF embuçado na retórica vazia da presidente Cármen Lúcia, as vivandeiras de quartéis, de que falava Castelo Branco em 1964, ressurgiram munidas de bandeiras e besteiras. Ao lado delas rosnaram “valentinhos” de esquerda, caso do preso mais famoso do Brasil, Lula, que se manifesta pela voz sem eco do líder do partido na Câmara, José Guimarães.

No país do quem pode grita mais e chora menos, estamos no mato acuados pela matilha.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Página 2 do Estado de S. Paulo quarta-feira 30 de maio de 2018)

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No Blog do Nêumanne: Nada de “palmada no bumbum”

No Blog do Nêumanne: Nada de “palmada no bumbum”

Único do governo Temer a falar da revelação da CIA sobre autorização de Geisel para executar “subversivos perigosos”, Jungmann diz que Exército é “ativo democrático do Brasil”, mas não é o que História mostra

A rigor, o memorando do diretor da CIA William Colby ao secretário de Estado dos EUA em 1974, Henry Kissinger, informando que o presidente Ernesto Geisel adotou a política do antecessor, Emílio Médici, de executar “subversivos perigosos” não devia provocar surpresa nem estupor. O documento, encontrado no computador pelo pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Matias Spektor, só confirmou que Geisel e o chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) que nomeou e seu sucessor em 1979, general João Figueiredo, sabiam que inimigos da guerra suja eram executados, depois de torturados, nos porões da polícia e das Forças Armadas. Negar o truísmo equivaleria a imaginar que Lula, Dilma e Temer ignoravam o saque aos cofres públicos nos 16 anos de mandarinato do conluio PT-PMDB. Mas não dá para negar o valor histórico do achado.

Assim que os meios de comunicação a publicaram, duas reações a ela se tornaram públicas. Em entrevista a Rubens Valente, da Folha de S.Paulo, a ex-coordenadora da Comissão Nacional da Verdade (CNV), advogada Rosa Cardoso, lamentou que o documento não tenha sido repassado, entre outros, ao órgão, que foi constituído pela ex-presidente Dilma Rousseff para apurar os crimes cometidos à época do regime instalado em 1964 e endurecido depois de 1968. Ela reconheceu que o tal memorando não altera as principais conclusões da comissão, mas representa uma importante confirmação.

Na mesma sexta-feira 12 de maio, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, que no atual governo federal representa o apoio parlamentar do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), cuja denominação atual é Partido Popular Socialista (PPS), disse que essa revelação não abala o “prestígio” do Exército. Para ele, tal prestígio “se encontra nos mesmos níveis. Por uma razão muito simples: as Forças Armadas são um ativo democrático do País”. Ninguém mais no governo falou. Nem o comandante dessas Forças Armadas, o presidente Michel Temer.

Ao abordar a dubiedade das autoridades americanas em relação à ditadura militar brasileira, Rosa Cardoso denunciou o cinismo da Casa Branca, que não deu informações pedidas e escondeu sob o sigilo de seus órgãos de informação a proteção dada a tiranias brutais pela maior democracia do Ocidente. A segunda metade do mandato de Geisel no Brasil coincidiu com a primeira do governo do democrata Jimmy Carter, que alardeou uma política externa favorável aos direitos humanos nos países aliados. Mas isso em nada mudou as relações mantidas com o regime dos brasileiros na era Geisel, em cuja gestão foram assassinados no DOI-Codi o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manuel Fiel Filho.

O silêncio obsequioso de Temer, oculto no elogio basbaque do encarregado de lidar com polícias e bandidos, falou mais alto do que a ignorância deste em História do Brasil. Se o “ativo democrático” vivesse em casernas, as instituições democráticas do Segundo Império não teriam sido abaladas pela “questão militar”. E a insana República não seria inaugurada pela traição do alto oficialato do Exército, que a proclamou, da forma como a conhecemos, e deportou a família do imperador derrubado.

Obra de oficiais positivistas, a República conviveu desde o início com a tirania do vice Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro. Depois, vieram a Revolução dos Tenentes, em 1930, e a intentona sob a égide do capitão Luiz Carlos Prestes, em 1935. Esta pretextou o putsch de 1937, instituindo o fascismo à gaúcha do Estado Novo para evitar uma eleição presidencial em marcha e manter Getúlio Vargas no poder, sob tutela dos generais Gois Monteiro e Eurico Dutra. O “ativo democrático” inspirou ainda a tentativa malograda de evitar a posse do vice constitucional João Goulart em 1961 e seu segundo movimento, ao derrubar o mesmo Jango e assumir a ditadura explícita no AI-5, de 1968.

O chefe federal de polícia referia-se à inércia militar que, sob a Constituição de 1988, mantém leal obediência aos mandatários civis, mesmo com os abusos por estes cometidos nos recentes escândalos de corrupção Apesar dos arreganhos nostálgicos da direita dita chucra, que clama por nova intervenção fardada, antes nas ruas e hoje nas redes sociais, os comandantes têm limitado a expressão de seu “ativo democrático” a “palmadas no bumbum” dadas por generais de pijama ou enigmas da lavra de portadores de estrelas na farda e comando de tropas.

O porta-voz da bajulação do generalato, na verdade, cumpriu uma antiga postura de presidentes civis temerosos de se tornar vítimas de uma súbita quartelada. A José Sarney podia-se desculpar por ter assumido o poder pela morte do titular Tancredo Neves e sob a bênção explícita do general Leônidas Pires Gonçalves, que entronizou o vice inesperado para evitar surpresas nefastas de uma escolha popular na sucessão do morto. Foi mais uma intervenção fardada, só que desarmada, para garantir que a paz reinasse sobre torturadores e seus chefes, garantidos pela anistia de mão dupla. Fernando Collor e Itamar Franco viraram a página e deixaram vítimas e carrascos em paz. Fernando Henrique deu uma de dois de paus por conveniência.

Lula é fã de Geisel e nem seria porque, ao estatizar a ponto de criar a República Socialista Soviética do Brasil, título da série de reportagens pautada por Ruy Mesquita no Jornal da Tarde, o general acumulou milhões em cofres e deu oportunidade para o furto de Lula e seus asseclas. Dilma Rousseff, que se jacta de ter sido torturada, não se deu ao trabalho sequer de exigir retratação de seus comandados do Exército pelo soco desferido pelo capitão Benoni Albernaz, que teria quebrado seus dentes no DOI-Codi.

Como Temer não tem poder para exigi-lo, os comandantes das Forças Armadas deveriam pedir-nos desculpas para se mostrarem à altura do “ativo democrático” que o comunista Jungmann ora lhes atribui.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Página A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 16 de maio de 2018)

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