Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Política

No Estadão desta quarta-feira: Bolsonaro investe contra a palavra, a vida e a verdade

No Estadão desta quarta-feira: Bolsonaro investe contra  a palavra, a vida e a verdade

José Nêumanne

Presidente não cumpre as próprias promessas,

sabota vacina e ataca meios de comunicação

Gestão Bolsonaro completa 2 anos sem cumprir promessas. Esta é a manchete deste jornal no último dia 21. O texto de Vinícius Valfré relaciona os 12 principais temas da campanha eleitoral que levou o capitão à vitória, todos abandonados no governo.

Já no início da gestão havia deixado de lado promessas de palanque, como privatizações, reforma tributária e apoio à Lava Jato. Para completar, em abril livrou-se de uma promessa pessoal: o ex-juiz Sergio Moro, símbolo da operação contra a corrupção. Outro pilar da lorota para seduzir liberais crédulos, o “posto Ipiranga” na economia, Paulo Guedes, ficou na equipe, mas nenhuma bandeira sua foi desfraldada de fato. “Reformas desidratadas foram encaminhadas ao Congresso sem uma articulação política capaz de viabilizá-las. A simplificação de tributos e a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até cinco salários nunca saíram do papel”, registrou Valfré.

Ele nomeou para cargos poderosos membros do Centrão, indicados por políticos acusados de receber propina, em troca de apoio em eventual processo de impeachment e outros assuntos de interesse pessoal e familiar. Prestigiou as pautas prioritárias para seu eleitorado fiel da extrema direita, o direito de matar dos policiais (presunção de ilicitude), o afrouxamento de limites de velocidade no trânsito e a suspensão de decretos de rastreamento de armas. O principal lema da campanha – “O Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” – foi trocado por “aos meus filhos tudo, aos inimigos o rigor da lei”. Disse que era “a Constituição”, superando o rei francês Luís XIV, que se definia como “o Estado”. E que os R$ 89 mil depositados pelo acusado pelo Ministério Público do Rio de ser miliciano Fabrício Queiroz e sua mulher, Márcia Aguiar, para a consorte, Michelle, são irrisórios para configurarem propina. Confessou, sem querer, querendo, ser corrupto.

Para não ter de responder pelos crimes que tem cometido, recorre ao dublê de advogado pessoal de sua famiglia e procurador-geral da República, Augusto Aras, que faz das tropas coração para livrá-lo do escândalo da Agência Brasileira de Informação (Abin), órgão de Estado que usou em proveito próprio e de sua ninhada. Ficou claro, em furo dos jornalistas Guilherme Amado, da Época, e Fábio Leite, da Crusoé, que a agência de informação foi utilizada para ajudar Flávio Bolsonaro a escapar da denúncia da prática de peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, em seu gabinete na Assembleia do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Segundo Aras, a denúncia é “grave”, mas tem de ser “provada”. A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia determinou que as procurasse em investigação e lhe deu 30 dias para informar as providências que terá tomado. Para ela, a Abin só pode fornecer dados quando comprovado o interesse público da medida e sob controle do Judiciário, ficando vedado o repasse de informações de inteligência com objetivo de atender a interesses pessoais ou privados.

A Abin substituiu o Sistema Nacional de Informações (SNI), da ditadura militar, criado pelo general Golbery do Couto e Silva e extinto por Fernando Collor. Foi criada por lei no governo Fernando Henrique, em 1999, a pretexto de fornecer ao presidente da República e a seus ministros informações e análises estratégicas, oportunas e confiáveis, necessárias ao processo de decisão. Mas, na prática, foi, sob FHC, inicialmente, manipulada por Sérgio Motta para perpetuar no poder seu partido, o PSDB.

Usada desde sempre para fins políticos, protagonizou desvios de conduta em vários escândalos nacionais. O mais notório foi o grampo no Supremo, em 2007, sob a égide do PT de Lula: chefiados pelo delegado Paulo Lacerda, arapongas da Abin fizeram escutas ilegais no gabinete de vários ministros e do então presidente do STF, Gilmar Mendes. Por isso o delegado, que também dirigiu a Polícia Federal (PF), e sua diretoria foram afastados.

Outro delegado federal, Alexandre Ramagem, que participou da segurança do candidato Bolsonaro depois do atentado em Juiz de Fora, instalou na agência aqueles que o próprio presidente definiu como sua agência pessoal de informação na fatídica reunião de 22 de abril, cujo vídeo foi visto por todos, por decisão do então decano do STF, Celso de Mello. Se investigar mesmo, Aras poderá deparar-se com o esquema executado, segundo a Crusoé, por um delegado da PF, Marcelo Bovernet, pelo agente Flávio Antônio Gomes, chefe da Abin em São Paulo, e pelo papiloscopista João Paulo Dondelli, diretor de Projetos Especiais do Ministério das Comunicações.

Na sexta-feira 18 de dezembro, Bolsonaro foi à formatura de novos policiais militares do Estado do Rio, que formam o que ele chamou de “milícias populares” na reunião acima referida. Na ocasião, assumiu o compromisso de que não deixará de cumprir o que sempre prometeu contra a verdade e a vida e a favor da mentira e da morte, adotando como inimigo comum a busca da realidade: “Essa imprensa jamais estará do lado da verdade, da honra e da lei. Sempre estará contra vocês. Pensem dessa forma para poderem agir”. Ao estilo bem lulista de ser, como lhe convém.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo da segunda-feira 21 de dezembro de 2020)

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No Blog do Nêumanne: A malandragem impune dos agressores covardes

No Blog do Nêumanne: A malandragem impune dos agressores covardes

José Nêumanne

O jogador branco que gritou “cala a boca, negro”, o parlamentar paulista que apalpou a colega no plenário da Alesp e o juiz que depreciou a Lei Maria da Penha valem-se da impunidade

Em 8 de dezembro último, a partida pela Liga dos Campeões da Europa entre o PSG de Paris e o Istambul Basaksehir foi suspensa aos 23 minutos do primeiro tempo, depois que o atacante Demba Ba, do time turco, acusou o quarto árbitro, o romeno Sebastian Coltescu, de ter feito ofensas racistas ao ex-jogador camaronês Pierre Webó, membro da comissão técnica do clube turco. Os jogadores dos dois times, entre eles o brasileiro Neymar Jr., saíram do campo e só voltaram a jogar no dia seguinte. O episódio repercutiu muito no mundo inteiro, também no Brasil, é claro.

A maneira como as duas equipes se comportaram foi apontada como exemplo a ser seguido na luta contra o racismo, uma das pragas que assolam os estádios de futebol em todos os quadrantes. Doze dias depois, em prélio pela 26.ª rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol da Primeira Divisão, o armador Gerson, do Flamengo, acusou o meia Índio Ramires, do Bahia, de lhe ter dito, aos 7 minutos do segundo tempo: “Cala a boca, negro”. Câmeras e microfones da transmissão não captaram o insulto. Mas as imagens mostram que o ofendido disse algo ao árbitro do jogo, o paulista Flávio Rodrigues de Souza, que não lhe deu atenção e continuou apitando, como se nada tivesse acontecido de extraordinário. Mas, insatisfeito, o ofendido tentou tomar satisfações do agressor, que foi defendido por seu treinador, Mano Menezes, demitido depois do apito final por causa do mau desempenho do time que treinava.

O comportamento do soprador de apito, que havia alegado a manutenção do próprio controle sobre a disputa para expulsar, aos 9 minutos do primeiro tempo, o atacante do time anfitrião, Gabriel Barbosa, por haver-lhe dirigido um palavrão à distância, lembrou em tudo e por tudo outro episódio lamentável, três dias antes, no plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). Durante a sessão, a deputada Isa Penna, do PSOL, foi abraçada por trás pelo colega Fernando Cury, do Cidadania, que levou a palma da mão à lateral de seu seio. A parlamentar empurrou o intruso sob o olhar indiferente do presidente da Casa, Cauê Macriz, do PSDB, que não tomou nenhuma atitude para, pelo menos, repreender o agressor, cujo hálito, segundo a agredida, cheirava a álcool. Ela disse ainda que ouviu comentários de um grupo atrás dela a respeito de seu corpo. O partido do deputado suspendeu-o do exercício de cargos de sua direção. A vítima psolista informou que apelaria à polícia e à Justiça para punir a agressão na forma da lei. O colega ousado prometeu dar “sua versão” assim que fosse convocado pelos companheiros do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e pela Alesp a fazê-lo.

A esses dois episódios, gravíssimos sob todos os pontos de vista, é possível ainda acrescentar um terceiro, denunciado pelo site Papo de Mãe. Ele reproduziu nas redes sociais áudio em que um juiz, não identificado, debochou da Lei Maria da Penha durante audiência da autora da causa num processo de guarda de menor e pensão alimentícia, na presença do ex-casal, de um promotor de Justiça e duas advogadas.

“Se tem Lei Maria da Penha contra a mãe (sic), eu não tô nem aí. Uma coisa que eu aprendi na vida de juiz: ninguém agride ninguém de graça”, disse o magistrado, que também debochou das medidas protetivas. E em outro momento chegou a declarar que, ainda que o agressor fosse “um figo podre”, a “escolha” havia sido da vítima e ela “não tem mais 12 anos”. Além de ter ameaçado tirar a guarda do menor da mãe, a “otoridade” ainda apelou à sua experiência de julgamentos na Vara de Família de São Paulo para assegurar que nunca viu ou ouviu agressão sem causa.

Nos três casos citados repete-se o abuso de autoridade do árbitro, responsável por garantir a realização da partida disputada dentro das regras do jogo, não para satisfazer o próprio senso de superioridade, e do magistrado. Em nome de sua posição superior à dos participantes da agressão, o árbitro de futebol, o juiz de “direito” (direito de quê, de quem?) e o presidente da Alesp agiram como se a omissão fosse o exercício de sua superioridade. Esses casos e outros similares se enraízam na cultura escravagista e machista da História do nosso país, o último a abolir a escravidão no Ocidente — de forma incompleta, resultando no dito “racismo estrutural”, como advertiu o grande abolicionista Joaquim Nabuco. E o voto feminino só foi permitido no Rio Grande do Norte em 1927, 105 anos após a Independência e 38 após a proclamação da República.

O “cala a boca, negro” do colombiano, que se acha no direito de considerar cidadão de segunda categoria um brasileiro por causa da cor de sua pele, e o “tô nem aí” do juiz, servidor público encarregado de aplicar as leis da República de conformidade com sua sesquipedal ignorância, são similares ao abraço forçado da fêmea indefesa pelo macho alfa. Os três fatos têm raízes históricas, mas é preciso reconhecer que a colega Vera Magalhães tem razão, ao escrever no artigo publicado no Estadão em 16 de dezembro último, Boçalidade contagiosa: “Mais que o vírus, é o comportamento indigno do presidente que se alastra”.

O árbitro Flávio Rodrigues de Souza, o técnico Mano Menezes, os colegas de time do colombiano Índio Ramires e os de Gerson, presidente e deputados da Alesp e a cúpula do Judiciário paulista são todos cúmplices daquilo que se pode definir como a malandragem impune dos agressores covardes. Só respiraremos o ar puro de uma democracia de verdade, que não se limite a eleições e solenidades de posse, quando todos puderem repetir a ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia ao se referir à liberdade de expressão: cala a boca, nunca mais, brancos e machos sem penas a cumprir.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 21 de dezembro de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Não há vacina nem cura para estupidez

No Blog do Nêumanne: Não há vacina nem cura para estupidez

José Nêumanne

Uma semana após Shakespeare ter sido vacinado e no dia em que norte-americanos são imunizados da covid na gestão Trump, brasileiros não sabem se se livrarão da pandemia nem de Bolsonaro

Com sol nas janelas, os brasileiros começam a semana com esperança no coração. Uma senhora chamada Margaret, como Thatcher, e um William Shakespeare contemporâneo tomaram no dia 8 a primeira dose das duas a que os britânicos têm direito da vacina da Pfizer, norte-americana, em consórcio com a Biontech, alemã, pensando cicatrizes da 2.ª  Guerra Mundial. Nesta segunda-feira, 14 de dezembro, 538 membros do Colégio Eleitoral dos Estados Unidos escolheram Joe Biden sucessor de Trump confirmando o rodízio como valor democrático. Enquanto isso, vacinas da parceria citada começaram a ser injetadas do Atlântico Norte ao Pacífico, da fronteira com o Canadá à margem norte do Rio Grande, em gigantesca operação de logística, aí sim no sentido lato da palavra.

Mas a esperança mora muito longe, no rico, desenvolvido e precavido Hemisfério Norte, que se prepara para um inverno de imunização, enquanto essa tarefa não é cumprida no Brasil, em mais um verão sob um capitão de milícias e um general da passiva (apud Ruy Castro). Este aprendeu em alguma cantina de caserna que o Norte e o Nordeste do Brasil têm inverno à mesma época que o deles, em calendário muito esquisito. O ocupante da pasta, que nunca usou maleta de médico, divulgou um “programa nacional de imunização” (?) em que despreza o calendário gregoriano, que desde 1582 substitui o juliano, elaborado pelo  colega romano Caio Júlio César. “Seria irresponsável darmos datas específicas para o início da vacinação, porque depende de registro em agência reguladora”, disse o tenente-coronel da reserva Élcio Franco, Conselheiro Acácio-geral do Ministério da Saúde, com cofiado, mas nada confiável, cavanhaque de coronel da Guarda Nacional dos tempos do imperador. Com o tom usado por comandantes das Forças Armadas na ditadura militar, de triste memória de chumbo, sangue e mordaça, mas venerada pelo chefão do Poder Executivo, Jair Bolsonaro, que o instalou como número dois do clubinho de usuários de pijamas no QG da luta contra a covid, em que o certo seria usar jalecos, não admite discordância.

Nem do Supremo Tribunal Federal (STF), pois a divulgação do vídeo desaforado do “pijamado” de plantão coincide no tempo com o prazo de 48 horas exigido pelo relator da ação, que cobrou datas de começo e fim da aplicação do imunizante, Ricardo Lewandowski. Pela barbicha do profeta, diriam os 22% de brasileiros que não querem ser vacinados, em nome do livre-arbítrio imposto pelo chefão do ambulatório cujos atendentes nunca manejaram espátulas nem bisturis. Quem confia em sua habilidade em manejar armas de ofício? O que era bom para os Estados Unidos, segundo o chanceler Juraci Magalhães, não é mais bom para o Brasil tratando-se da saúde do povo.

Francamemte, o quase general Franco é mais um arauto escalado pelo charlatão da cloroquina para dar a má notícia de que boas novas do império do Norte não têm vez nestes trágicos trópicos, que nem Lévi-Strauss seria capaz de descrever e analisar. Donald, o charlatão-mor que indicou a cloroquina mágica ministrada pelo fâmulo ao sul do Rio Grande, faz questão de gastar bilhões em vacinas e passar para a História como o estadista que derrotou o novo coronavírus chinês. O pato dele, Jair, não está nem aí para a cor da chita e mandou excluir a Coronavac ­- parceria da chinesa Sinovac com o Instituto Butantan, que, segundo o general da passiva Pazuello, não é de São Paulo (seria da Austrália, soldado sem combate nem medalha de bravura?) – da relação de fornecedores da prevenção, aceita e aplicada no Reino Unido e nos Estados Unidos.

O passivo Pazuello protagoniza vexames que só não são comparáveis à exposição picareta de terno e vestido presidenciais da posse em próprio público. Atribuiu a autoria do enxundioso e vazio “programa federal de imunização”, com a chancela médica do áulico ortopedista Ronaldo Caiado, a uma plêiade de especialistas convocados para uma palestra, entre os quais alguns reconhecidos e renomados. Os pretensos autores da fake news já negaram sua cumplicidade, mas o Ministério dos reservistas na Saúde já avisou que eles não têm poder de veto sobre o que não assinaram.

Numa demonstração de que a saúde do povo é, para ele, desprezível, o capitão de Artilharia (cuja “modalidade é matar”) rebaixa gradualmente a chefia de órgãos técnicos para os quais não têm “notório saber”, de general para duas patentes abaixo. Este mês o tenente-coronel (reservista) Jorge Kormann, que foi, segundo o próprio Currículo Lattes, “assessor de gestão e planejamento estratégico no Hospital Militar de Área de Porto Alegre” (!), será submetido a sabatina do Senado para ocupar na Anvisa o posto da farmacêutica Alessandra Bastos. O fundador e primeiro presidente da agência, Gonzalo Vecina, manifestou esperança, no vídeo da semana da série Nêumanne Entrevista, no Blog do Nêumanne no portal do Estadão, de que o usuário de pijama e boquinha seja reprovado na sabatina do Senado. O bem-intencionado desejo do respeitado epidemiologista choca-se com a realidade dos fatos: o contra-almirante médico Antônio Barra Torres foi aprovado na sabatina da Comissão de Assuntos Sociais do Senado por 34 votos a 7, ou seja, teve quase cinco vezes a maioria dos votos necessários para assumir o posto ora ocupado pela farmacêutica Alessandra Bastos. Na Anvisa há um ano, nomeado em janeiro e aprovado em outubro, o oficial da reserva da Marinha participou sem máscara nem isolamento social de manifestação contra o STF e o Congresso Nacional e a favor de uma eventual intervenção militar chefiada pelo colega da reserva que o nomeou.

Com a ocupação de cargos técnicos da saúde por fardados que não frequentam mais quartéis, mas clubes (círculos) militares sem comando, Bolsonaro dá sinais de carência de inteligência e excesso de maldade ao instalar não a militarização do ministério que descuida da pandemia, mas a tomada de poder por oficiais de pijama, sem jaleco nem bastão para travar uma guerra prestes a ser perdida por todos nós. A medicina não tem solução para esse desvario: não há vacina nem remédio para prevenir ou curar baixo QI ou desumanidade, mesmo que sejam explícitas e confessas.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne no Portal do Estadão da quarta-feira 15 de dezembro de 2020)

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No Estadão: STF apenas suspendeu o golpe sujo no Congresso

No Estadão: STF apenas suspendeu o  golpe sujo no Congresso

José Nêumanne

Aliviada, Nação deve temer outros

que virão como conchavo da cúpula dos três Poderes

A apertada vitória – por 6 a 5 e 7  a 4 – da democracia, garantida pela Constituição, que desautorizou a reeleição dos presidentes do Senado e do Congresso, David Alcolumbre, e da Câmara, Rodrigo Maia, deve ser recebida com alívio. Mas não pode ser comemorada como definitiva. Não apenas pela margem, mas principalmente por circunstâncias e motivações do placar vitorioso.

Critica-se muito, e com toda a razão, a votação virtual, quase nunca virtuosa, de turmas e plenário do Supremo Tribunal Federal (STF). No caso, contudo, não é de todo improvável que o resultado fosse o inverso, ou talvez com um pouco mais de folga, se ela tivesse sido presencial. Os repórteres responsáveis pela cobertura do Judiciário não se enganaram quando previram a aprovação do relatório de Gilmar Mendes, que abriu larga margem na quinta-feira e só foi revertido no domingo à noite, no fechamento (ainda provisório) da questão. Protegida pelo anonimato de fonte, a posição  de ministros que votaram a favor da questão apresentada pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), sob a égide do delator do mensalão, Roberto Jefferson, não a assumiram, mas expressaram, em confiança, explicitamente.

Talvez numa sessão presencial esses ministros não tivessem mudado sua opção por mais um abandono de seu dever funcional de manter a letra da Carta Magna com a intenção de impor uma nova derrota humilhante ao presidente da República, Jair Bolsonaro, que só queria o impedimento da reeleição do filho de César Maia. A péssima repercussão desse lance de xadrez, contudo, os fez perceber que o motivo real do golpe poderia ser, de fato, seus membros não se arriscarem à abertura de processos de impeachment por algum deputado que ocupasse o lugar do atual presidente, que já deu provas de não estar disposto a abrir o processo contra o chefe do Executivo, e também contra alguns deles.

A reação à virada de mesa com o tabuleiro junto, da forma como foi feita, serviu para lhes mostrar que votar a favor do atropelamento da ordem constitucional vigente terminaria por dar mais força ao relator Gilmar. E reduzir o poder institucional do presidente neste biênio, Luiz Fux. A quem, aliás, restou decidir, em voto de Minerva. Ainda que tais conjeturas não passem de conversa de “perus” (que rondam rodadas de pôquer sem mexer nas cartas nem apostar), a votação à distância, tal como feita, permitiu pôr em questão algumas conclusões apressadas a respeito do comportamento nada ético dos componentes atuais do pretório que nada tem de excelso.

Alguns ingênuos incautos que acreditam em duendes na floresta e desconhecem a sabedoria popular, que reconhece que de boas intenções os cemitérios são lotados, reproduzem a baboseira de que a natureza vitalícia do posto supremo reduz a gratidão dos afilhados pela própria escolha por seus padrinhos. Com pressa natural em marinheiros de primeira viagem, o noviço da grei, Kassio Nunes Marques, fez tudo o que o patrono, Jair Bolsonaro, mandou e o padrinho, Gilmar Mendes, abençoou: retirar Maia do páreo e nele manter o fiel Alcolumbre. A vitaliciedade não garante a lealdade, mas interesses comuns inspiram obediência de afilhados. Toffoli, Ricardo Lewandowski e Alexandre de Moraes seguiram o relator com a desfaçatez própria de quem se sabe inalcançável pela cobrança cidadã.

Gilmar não se tornou adversário impenitente do combate à corrupção por zelo pela Constituição, mas por amor à própria gula. Toffoli é o principal avalista da aliança sórdida de Bolsonaro, seu amigo recente, e Lula, seu paraninfo desde sempre, de lhes garantir condições para disputarem segundo turno, conveniente, quiçá indispensável, para ambos, em 2022. Chegou a votar contra a própria decisão monocrática que interrompeu por seis meses as investigações de crimes financeiros contra o erário para evitar que Flávio Bolsonaro e Gilmar fossem investigados. Lewandowski associou-se a Kátia Abreu para permitir a Dilma Rousseff disputar (e perder feio) eleição para o Senado em Minas. Moraes nunca se desculpou por ter decretado censura vexatória à revista Crusoé para acudir o então presidente do STF, que lhe deu plenos poderes para investigar, julgar, condenar e punir a ousadia de publicar um documento de fé pública.

O decano Marco Aurélio Mello abriu a dissidência óbvia em favor do pedido do PTB e da letra constitucional, não por amor à plebe difusa e, para ele, ignara, que desprezou ao soltar o traficante André do Rap e ratificar seu voto na oportunidade de mudá-lo. Rosa Weber apegou-se à literalidade da regra, assim como antes dera voto decisivo para negar a possibilidade de prender condenado em segunda instância. Na presidência do STF, Cármen Lúcia permitiu a Renan Calheiros cuspir na decisão da Corte de desalojá-lo da linha sucessória presidencial.

Em 12 de julho, Bolsonaro terá mais uma chance de nomear um ministro do Supremo para chamar de seu. E este poderá dar o voto decisivo em eventual embate a se tornar necessário para enfrentar o acordão dos três Poderes pela impunidade dos compadritos desta republiqueta do conchavo.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página A 2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 9 de dezembro de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Gestão Bolsonaro despreza a vida

No Blog do Nêumanne: Gestão Bolsonaro despreza a vida

José Nêumanne

Presidente é, no mínimo, leniente com violência criminosa ao abolir rastreamento de armas compradas no comércio e liberar velocidade assassina em vias a pretexto de combater ‘indústria de multas’

Em 30 de julho passado, o Estadão publicou reportagem no noticiário policial intitulada Botucatu vive madrugada de terror com assaltos a agências bancárias, explosões e tiroteios. José Maria Tomazela, correspondente no interior paulista, informou: “Um suspeito foi morto e dois policiais ficaram feridos durante ataques de uma quadrilha com 40 integrantes; ação criminosa teve início por volta das 23h30 de quarta-feira, 29”.  Foram roubados R$ 2 milhões. Na terça-feira 1.º de dezembro, 30 homens fortemente armados puseram Criciúma (SC) em pânico, de madrugada, imobilizaram a Polícia Militar (PM), que não prendeu nenhum membro da quadrilha, apenas quatro cidadãos comuns que recolheram dinheiro no asfalto. Na madrugada seguinte, ocorreu em Cametá (PA) fato idêntico em todos os detalhes, menos dois: a quadrilha arrombou um cofre sem dinheiro e deixou um refém morto, na fuga.

Isso tudo é uma vergonha. Vergonha ainda maior porque não são  episódios isolados nem fortuitos. Há tempos organizações criminosas se aproveitam de deficiências de segurança de cidades interioranas, usando a estratégia que ficou conhecida como “novo cangaço”. É uma forma de glamourizar folclorizando iniciativas criminosas brutais com as quais buscam compensar a queda dos lucros provocada pela pandemia da covid-19. Seja como for, ninguém tem ouvido mais a cantilena de autoelogio do presidente Jair Bolsonaro e de seus comparsas sobre a “brava e eficiente” atuação do ministro da Justiça, André Mendonça. Segundo ele, superando o que diz ter sido fiasco do antecessor, o ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro. Que o capitão usou como trunfo para conquistar votos contra a corrupção na eleição presidencial em que emergiu do baixíssimo clero no Congresso Nacional para o posto com o poder maior nesta insana república de trevas.

A expressão “novo cangaço” é usada, como lembrou o jornalista Artur Dapieve no programa Estúdio i, da GloboNews, como eufemismo. Folhetos de cordel, filmes de aventuras, incluído um premiado em Cannes, O Cangaceiro, de Lima Barreto, análises marxistas de “especialistas”, como Rui Facó (Cangaceiros e Fanáticos), canções de domínio e sucesso públicos e outros produtos de consumo de massa já se tinham encarregado de amenizar a brutalidade absurda dos cabras de Jesuíno Brilhante, Lampião e Corisco, tornando-a saga de aventuras e até de  heroísmo. Algo similar ao que é feito agora com o carinhoso diminutivo “rachadinha” para tornar o crime de que é acusado o primogênito do presidente, Flávio, mais palatável do que contratação de servidores fantasmas, peculato, ou seja, desvio de dinheiro público para proveito privado, extorsão, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

As invasões noticiadas e outras têm contado com a facilidade de as Polícias Militares não as combaterem como deveriam, o que, às vezes, não fazem por lhes faltarem homens e armas. Estas, modernas e pesadas, usadas nos assaltos, são geralmente furtadas dessas forças e também do Exército, o que ressalta a ineficiência de sua guarda para que se limite à defesa da sociedade. O silêncio das autoridades públicas que comandam as PMs e também do governo federal, que as trata como milícias populares armadas, é criminoso. Além de incentivar o uso de armas de fogo, seja imitando revólveres com os dedos, seja obstruindo os instrumentos de controle do comércio legal de armas de fogo no País. Em abril passado, a procuradora Raquel Branquinho afirmou, em ofício encaminhado ao Ministério Público Federal, que o presidente Jair Bolsonaro tinha violado a Constituição ao determinar ao Exército a revogação de portarias que facilitavam o rastreamento de armas e munição.

Em reação a tais portarias, publicadas pelo Exército em 17 de abril no Diário Oficial da União (DOU), o presidente escreveu em rede social que determinara a revogação das providências tomadas pela autoridade regular para rastrear armas adquiridas legalmente. Para a procuradora, há elementos que apontam a interferência de Bolsonaro em atos exclusivos do Exército. Na opinião dela, o episódio representa uma situação extremamente grave e tem o potencial de agravar a crise de segurança pública no País. Pela lei, ela informou, compete ao Comando Logístico do Exército Brasileiro fiscalizar produtos controlados, como armas e munições. O general Eugênio Pacelli, à época em que dirigia a Fiscalização de Produtos Controlados (DFPC) do Exército e determinou a adoção das normas por ela citadas, escreveu carta de despedida a colegas defendendo-as. Exonerado, havia ido para a reserva, conforme o DOU de 25 de março.

O deputado do baixíssimo clero que discursou na tribuna da Câmara em homenagem a Adriano da Nóbrega, quando este foi condenado e preso por homicídio e era suspeito de comandar a milícia de Rio das Pedras, nunca deixou de louvar o uso de revólveres e fuzis para “justiçamento”.

Da mesma forma, a queda de um ônibus irregular, dirigido por um motorista sem habilitação, em João Monlevade (MG), revela outra constante no discurso político e na ação do capitão de Artilharia, que admitiu ser seu ofício matar. Convém lembrar ainda a colisão de caminhão com ônibus, com 42 vítimas na manhã de 25 de novembro, no quilômetro 172 da Rodovia Alfredo de Oliveira Carvalho, em Taguaí, perto de Avaré (SP).

A proibição de rastreamento de armas legais e a redução da punição de motoristas infratores que provocam acidentes trágicos por abuso de velocidade em vias públicas ou rodovias, no mínimo, não recomendam Jair Bolsonaro como gestor público e justificam seu afastamento do cargo.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 7 de dezembro de 2020)

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Artigo no Estadão desta quarta-feira: A ignorância racista de Bolsonaro e Mourão

Artigo no Estadão desta quarta-feira: A ignorância racista de  Bolsonaro e Mourão

José Nêumanne

Ao negarem legado racista da escravidão,

presidente e vice se revelam seus arautos

Na quinta-feira 19, os brancos Giovane Gaspar da Silva, de 24 anos, policial militar temporário e, segundo a Polícia Federal, sem registro nacional para atuar como segurança, e Magno Braz Borges, ambos funcionários da Vector Segurança, mataram o soldador negro João Alberto Silveira Freitas. O massacre no estacionamento de uma loja do Carrefour em Porto Alegre provocou protestos a partir do dia seguinte, feriado da Consciência Negra em vários municípios brasileiros, incluindo São Paulo.

O presidente Jair Bolsonaro e seu vice, Hamilton Mourão, ambos da reserva do Exército, execraram esses protestos. “No Brasil não existe racismo”, pontificou o general. O capitão foi além ao comentar o fato, sem citar o nome da vítima, em suas redes sociais e em discurso em reunião virtual do G-20, afirmando que o Brasil é um país miscigenado e “foi a essência desse povo que conquistou a simpatia do mundo.” Disse ainda: “Contudo há quem queira destruí-la e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de ‘luta por igualdade’ ou ‘justiça social’. Tudo em busca de poder”. E mais: “Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos, atentam não somente contra a Nação, mas contra nossa própria História. Quem prega isso está no lugar errado, seu lugar é no lixo”.

Aprendi no curso primário do Grupo Escolar Jovelina Gomes, em Uiraúna (PB), que a escravidão dos indígenas foi meio dominante de produção agrícola e extração mineral na colônia, usado por colonizadores brancos desde a descoberta até o século 18, quando o marquês de Pombal o extinguiu. Os bandeirantes paulistas, grandes heróis da conquista dos territórios aquém da imensa costa, recorreram à prática nos séculos 16 a 18: Fernão Dias e Raposo Tavares são cultuados em nomes de escolas. O crudelíssimo Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, conhecido pela crueldade na captura dos nativos, é cultuado da mesma forma.

Proibidos pela coroa portuguesa de escravizar índios, os brasileiros entraram num dos capítulos mais infames da História da humanidade: o tráfico de escravos importados da África. Em compensação, aqui existiu um dos movimentos políticos de maior nobreza: o abolicionismo. Negros, como José do Patrocínio, e brancos, como Joaquim Nabuco, edificaram o que de mais nobre o gênero humano produziu no meio de tantos réprobos, como o mulato Chachá, riquíssimo mercador de escravos nascido na Bahia e morador durante a maior parte de sua vida em Angola, onde se aproveitava dos costumes das tribos locais para viver à tripa forra, como descreveu com brilho o poeta Alberto da Costa e Silva.

Nas noites de breu do sertão, ouvi na récita de cor de minha mãe, Mundica Ferreira Pinto, os versos inspirados de outro baiano, Castro Alves, narrando o horror desse comércio em seu poema antológico Navio Negreiro: “E existe um povo que a bandeira empresta/ Pr’a cobrir tanta infâmia e cobardia!…/ E deixa-a transformar-se nessa festa/ Em manto impuro de bacante fria!…/ Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,/ Que impudente na gávea tripudia?!/ …Silêncio!… Musa! chora, chora tanto/ Que o pavilhão se lave no teu pranto…// Auriverde pendão de minha terra,/ Que a brisa do Brasil beija e balança,/ Estandarte que a luz do sol encerra,/ E as promessas divinas da esperança…/ Tu, que da liberdade após a guerra,/ Foste hasteado dos heróis na lança,/ Antes te houvessem roto na batalha,/ Que servires a um povo de mortalha!…”. E Freitas seria massacrado na data dedicada a essa bandeira.

Joaquim Nabuco, vulgo Quincas, o Belo, político e diplomata abolicionista, marcaria sua passagem como autor da obra-prima literária Um Estadista do Império e condenou de forma implacável o modo irresponsável como a princesa regente Isabel aboliu a escravatura. Os negros forros saíram de senzalas humilhantes para o degredo do desemprego, da mendicância, da discriminação e da miséria como regra. Isso, é claro, não impediu a genialidade de afrodescendentes, como o maior dos escritores brasileiros, Machado de Assis, parceiro de Nabuco na criação da Academia Brasileira de Letras, Lima Barreto e Cruz e Souza, entre tantos outros. Também tinham origem na África tribal escravagista o engenheiro André Rebouças e o maior esportista brasileiro de todos os tempos, simplesmente Pelé.

Jair Bolsonaro, descendente de colonos italianos, não tem autoridade política nem pessoal para insultar, como o fez, brasileiros sensíveis que sabem que o legado histórico da escravidão negra assombra a realidade brasileira ainda hoje. Nada, portanto, o autoriza a considerar “lixo” o patrício que condene o abominável massacre de Porto Alegre como resultado dele. Ao eliminar o nome da vítima de sua manifestação execrável, ele deu força à expressão Homem Invisível, da lavra do norte-americano Ralph Ellison, como a mais completa definição de racistas que se escondem como “daltônicos”, entre os quais ele e seu vice-presidente, orgulhosos da própria ignorância e executantes de uma política que ignora a História para reproduzir suas infâmias.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estadão da quarta-feira 25 de novembro de 2020)

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