Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Política

Artigo no Estadão: O bandido Adriano e a famiglia Bolsonaro

Artigo no Estadão: O bandido Adriano  e a famiglia Bolsonaro

José Nêumanne

MP do Rio desvenda relações promíscuas

entre ex-faz-tudo de Flávio e milícia carioca

As patranhas que envolvem o escândalo no gabinete do senador Flávio, primogênito do presidente Jair Bolsonaro, quando era deputado estadual começam na denominação íntima da prática criminosa investigada pelo Ministério Público (MP) do Rio: “rachadinha” ou “rachid”. Para chamar delitos por sua gravidade real urge usar nomes com que os define o Código Penal: peculato (uso de dinheiro público para proveito pessoal), corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Os seis anos da Operação Lava Jato familiarizaram o brasileiro com o que se faz em Casas Legislativas do País por parlamentares de todos os entes federativos e sem exceção de legendas. Ou seja, contratar por vencimentos superiores à média servidores dispensados do expediente e obrigados a entregar parte do que ganham aos empregadores.

O filhote 01 do fundador da “nova política” é acusado de chefiar malfeitores que atuaram em seus quatro mandatos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Conforme o MP do Rio, cuidava disso o ex-subtenente da Polícia Militar (PM) fluminense Fabrício Queiroz, preso numa operação conjunta das Polícias Civis do Rio e de São Paulo com autorização do juiz Flávio Itabaiana e supervisão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Esta se tornou necessária pelo expediente a que recorreu o dono da casa, onde foi encontrado o acusado, de pôr na parede a placa do escritório de advocacia Wassef & Sonnenberg (nome da cidade polonesa de um campo de concentração nazista e sobrenome da prima e sócia). Imagens do vídeo produzido pelas autoridades revelam a associação entre tirania, representada por um cartaz referente ao AI-5, sigla com que se sintetiza a ditadura militar, e a Máfia, simbolizada pelo boneco de Tony Montana, personagem do filme Scarface, gângster cruel de Miami na Lei Seca.

A biografia profissional do dono do imóvel que serviu de cativeiro ao protagonista do escândalo acrescenta a essas referências a atuação do ex-advogado do presidente da República e de seu filho senador em denúncias de infanticídios. Frederick Wassef era devoto da seita satânica Lineamento Universal Superior (LUS), liderada por Catarina de Andrade, autora do livro Deus, uma Grande Farsa, acusada e inocentada por falta de provas do desaparecimento de dois garotos de 6 anos em Guaratuba (PR), em 1992. Ele também advogou para Catarina, indiciada como mentora intelectual de 18 homicídios de meninos com idades entre 8 e 14 anos, de 1989 a 1993, no Pará e no Maranhão. Segundo os autos, os assassinatos faziam parte de um ritual de “magia negra”. Desses, cinco corpos não foram encontrados, três sobreviveram mutilados e 11 foram assassinados e castrados em Altamira (PA).

Wassef, que se jacta de ter dado ao deputado Bolsonaro a ideia de se candidatar à Presidência, obteve liminar do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, paralisando por seis meses as investigações financeiras do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para beneficiar Flávio e outros. Mas o plenário anulou seus efeitos. Com isso foi retardada, mas não impedida a investigação do MP do Rio, que contém imagens de Fabrício pagando boletos de escolas das filhas e mensalidades de planos de saúde do chefe na Alerj.

O inquérito resultou na prisão preventiva do ex-companheiro de pescarias do presidente na casa do ex-advogado da famiglia Bolsonaro, desnudando a relação de Fabrício com o capitão Adriano da Nóbrega, chefão da milícia do Rio das Pedras e do Escritório do Crime. O depósito de mais de R$ 400 mil em dinheiro vivo do miliciano na conta do ex-faz-tudo do 01 soma-se agora às manifestações de simpatia do presidente e do senador pelo criminoso executado na Bahia. Jair, então deputado federal, prestigiou seu julgamento por homicídio e ordenou que o filho o condecorasse com a Medalha Tiradentes na cela onde vivia. Flávio ainda manifestou seu apreço por Adriano à época de sua morte, ocasião em que Fabrício se disse muito triste por ter perdido um amigo.

Embora peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa sejam tipificações penais muito graves, elas não são comparáveis à conexão com milícias, grupos mafiosos que espoliam comunidades pobres e matam quem atravessar o seu caminho. Nunca foi secreta a generosidade com que o presidente e o senador transformaram seus gabinetes em associações assistencialistas de familiares “desamparados” de milicianos, empregando-os sem exigir que trabalhassem. Foi o caso de Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano. Outra beneficiária da caridade com chapéu alheio (dinheiro público) do clã presidencial, Márcia Aguiar, mulher de Fabrício, é agora foragida da Justiça.

Com mais de 1 milhão de casos e de 50 mil mortos pela covid-19, aos quais o presidente Jair Bolsonaro nunca deu a mínima atenção, tratando a pandemia como um “resfriadinho”, a crise sanitária e a depressão econômica são usadas por líderes das instituições democráticas como pretextos para não fazerem o que urge ser feito: fora, Bolsonaros. Fazem o que de pior pode acontecer com o Brasil.

*Jornalista, poeta e escritor

(Artigo publicado na Página A2 do Estadão na quarta-feira, 24 de junho de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Weintraub fugiu com ajuda do chefe

No Blog do Nêumanne: Weintraub fugiu com ajuda do chefe

José Nêumanne

Ex-ministro da Educação escapou da quarentena imposta pelos EUA a passageiros embarcados no Brasil usando passaporte diplomático por cargo do qual já tinha sido exonerado

Quando Abraham Weintraub embarcou no avião de carreira que o levaria para Miami, na Flórida, com escala em Santiago do Chile, não era mais o bolsonarista de nome e sobrenome estrangeiros que o presidente da República, Jair Bolsonaro, havia escolhido para o lugar de Vélez Rodríguez, que fracassara no Ministério da Educação. Mas um extremista da direita com militância fiel a serviço de seus projetos políticos lunáticos. Pronto até para assumir a liderança em eventual disputa para ocupar o posto do chefe do governo, caso qualquer circunstância tire o “mito” do comando das milícias virtuais. Por enquanto, não há perspectiva nenhuma de que essa substituição seja necessária, mas uma vista d’olhos sobre o panorama na República não será realista se considerar impossível o afastamento do mais poderoso chefão. Nenhum dos mais de 30 processos  guardados na mesa de Rodrigo Maia na presidência da Câmara está na iminência de ser usado. Mas não faltam ações contra a chapa Bolsonaro-Mourão no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF) contra arroubos autogolpistas dele; E previsíveis abalos que podem surgir da evolução do inquérito do Ministério Público (MP) do Rio de Janeiro sobre a suspeita gestão financeira do ex-subtenente da Polícia Militar (PM) do Rio Fabrício Queiroz no gabinete do então deputado na Assembleia Legislativa fluminense Flávio, o 01 de Bolsonaro.

As circunstâncias que produziram a súbita e espetacular vitória do capitão reformado do Exército na eleição presidencial de 2018 também provocaram a emergência de novos milionários de votos nas disputas por vagas no Congresso na mesma ocasião. Não há, contudo, nenhum parlamentar do Partido Social Liberal (PSL), legenda pela qual ele se elegeu, que tenha reunido cacife suficiente para ocupar o lugar, incluindo na lista seus herdeiros biológicos, Flávio, Eduardo e Carlos, rematados presepeiros da política, dos costumes e das redes sociais, e que mais contribuem para a ruína do pai do que para sua eventual sucessão.

Weintraub saiu do anonimato absoluto para o almejado lugar de delfim do mais bem-sucedido representante da minoria ruidosa da nostalgia dos tempos de fausto econômico da ditadura militar por causa de sua completa comunhão em pensamentos, palavras e obras com essa militância. Mais que Bolsonaro, que não frequenta nem os cursos do horoscopista na Virgínia, tamanho é seu desprezo pela mínima instrução, ele emergiu das hostes que nos “cursos” do mestre-sala das redes sociais, aprendendo rudimentos da grosseria pré-iluminista que o fizeram surfar nos mares de criacionismo, do terraplanismo, do culto à ignorância explícito e da letal negação da ciência.

Mais do que o chefe do bando, cuja ignorância não lhe permite sequer confundir Kafka com kafta e cuja preguiça evita que cometa erros crassos de grafia, como imprecionante em vez de impressionante, pois atribui a outros semialfabetizados a redação de seus posts no Twitter, Weintraub consagrou-se como burro-símbolo da incultura tupiniquim. Nada mais apropriado, portanto, do que lhe confiar o comando do Ministério da Educação para executar a missão explícita de deseducar as futuras gerações e prepará-las para contrair o neofascismo inculto e mal comportado. Se conseguiu no prazo o que o instinto de sobrevivência do comandante da nau lhe permitiu, isso só saberemos ao longo do tempo em que continuar durando a entrega de nossa Pátria ao bando de anjos da morte e agentes do mal que tratam vacina como origem de doença e pelejam para destruir o legado civilizatório de Galileu, Newton, Fleming e Shakespeare.

Bolsonaro, com sua vocação para vingança e ódio, e no culto à desordem sob suas ordens absurdas, sentiu o calor da fogueira nos fundilhos quando viu Weintraub nos braços de meia dúzia de gatos-pingados que o alçaram aos próprios ombros, raros, mas parrudos, à saída da Polícia Federal (PF) após o depoimento exigido pelo STF, cujos 11 membros ele chamou de “vagabundos”. Merecedor ou não do insulto, elogio, se comparado com o baixíssimo calão reinante no bolsonarismo, o time de togados deu-lhe o caminho de saída para a glória fora do governo ao negar o habeas corpus que pediu. E era plausível, de vez que sem armas nem fogos de artifício à mão, ele não usou mais do que a palavra, a que lhe dá direito o preceito inviolável da liberdade de expressão. Certo é que o STF não o proibiu de sair do País nem mandou recolher seu passaporte diplomático, o que foi comparado pelo desembargador Wálter Maierovitch com um “chapéu”, o mais desmoralizante drible do futebol.

Sem ordem de captura no computador do embarque da PF no aeroporto de Guarulhos, ele voou para Miami, sonho de consumo dos militantes do “ignorantismo” absoluto da dita “ala ideológica” do governo, a maior ofensa semântica a qualquer ideologia que preze a definição, por mais violenta e totalitária que seja. O discurso e a ação dos nazistoides, aliás, não autorizam o uso da expressão para definir supremacia do preconceito sobre empatia e desprezo à vida, manifestado na ausência da máscara, que se tornou uma espécie de desafio à higiene e à vida durante a pandemia, que já contaminou 1 milhão e fez mais de 50 mil vítimas de morte de uma população sem defesa ante táticas de extermínio dos gabinetes do ódio e da adoração onanista de armas e munições. Nos ombros de um bando inferior em número aos 17 racistas que imitaram a Ku KIux Klan levando trevas na ponta de suas tochas à sede do poder republicano, sob a chefia de Sara Giromini, Weintraub viveu seu momento de glória, similar ao incrível emprego ao qual Bolsonaro o destinou no Banco Mundial, em Washington, ao custo de R$ 115 mil mensais, pagos por nós.

A exoneração “a pedido” de Weintraub do MEC exigiu um enorme constrangimento do mercurial presidente da República. Evidentemente constrangido, posto no lugar de coadjuvante sob o protagonismo do subordinado, Bolsonaro participou de uma live, forma de comunicação favorita da extrema direita negacionista nacional, em que até um “abracinho” de despedida foi dado em mais uma provocação às recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), não obedecidas pelo Brasil — além de Nicarágua, Turcomenistão e Bielo-Rússia. Ali, o mestre de cerimônias referiu-se a seus 18 anos de Banco Votorantim (BV). Em entrevista coletiva, seu desafeto Rodrigo Maia lembrou ironicamente que o BV havia quebrado. “Digo apenas que o Banco Votorantim NUNCA quebrou e que existe até hoje. A afirmação dele é uma MENTIRA. Tive a honra de trabalhar lá. Comecei como liquidante (boy) e cheguei a diretor estatutário. Fui economista chefe, ranqueado várias vezes no Top5”, escreveu Weintraub a um seguidor que se referira ao fato. De fato, a instituição financeira ainda existe, só que desde 2009 está incorporada pelo Banco do Brasil num pacote público federal de socorro a bancos em má situação financeira. Votorantim, como se sabe, sempre foi uma marca poderosa, mas no setor industrial.

 O detalhe sórdido da exoneração de Weintraub, contudo, passa longe da discussão inócua sobre a débil saúde da instituição financeira em que fez carreira. A articulação traduz a expressão criada pelo colega Octavio Guedes, da GloboNews, pois é típica peça da “estética de milícia”, reinante em Rio das Pedras, cujo chefão miliciano era o também capitão, só que da PM-RJ, Adriano Magalhães da Nóbrega, executado na Bahia por policiais baianos e fluminenses. No prédio conhecido como “Máscara Negra”, no centro de Brasília, foi recebido pelo diretor-geral da PF, Rolando Alexandre de Souza, e depois entregou o depoimento por escrito, para não responder a perguntas. À saída, foi recebido por meia dúzia de admiradores que o carregaram nos ombros e isso decretou sua despedida do MEC.

Weintraub embarcou na noite da sexta 19. A demissão só seria publicada no Diário Oficial na edição extra de sábado 20, ao meio-dia, quando já tinha passado pelos trâmites de migração no aeroporto. Segundo o advogado constitucionalista Marcellus Ferreira Pinto, em entrevista ao UOL, ele pode ser considerado ilegal pela lei americana e acabar deportado dos Estados Unidos se tiver utilizado o passaporte diplomático de ministro. “Para o direito brasileiro ele é ministro até sábado, quando [o pedido] é publicado no DO (Diário Oficial). Para o direito americano, não. Se pediu exoneração na quinta-feira, já não é ministro desde então” explicou.

Resta-nos pagar para ver, com a vênia de São Tomé.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Artigo publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 22 de junho de 2020)

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Artigo para a coluna da Ric Mais: Fabrício: do cativeiro à cela

Artigo para a coluna da Ric Mais: Fabrício: do cativeiro à cela

O Grupo Ric de Comunicação põe à disposição de emissoras de rádio e jornais impressos ou em edição virtual três podcasts de três minutos cada e um artigo por semana. Interessados em publicar este material original deve entrar em contato com mash.leonardo@gruporic.com.br

Fabrício: do cativeiro à cela

José Nêumanne

Operação Anjo pode desvendar ligações perigosas

entre tentativa de autogolpe de Bolsonaro e ação de milícias

O faz-tudo de Flávio na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Fabrício Queiroz, foi encontrado após longo e estranho sumiço. Ficou por um ano no cativeiro na casa confortável de Frederick Wassef, que se diz advogado dos Bolsonaros, pai e filho, mas tem jeitão e atua como faz-tudo atual da famiglia. Da paradisíaca Atibaia para o infernal complexo prisional de Gerinicó, em Bangu, a viagem de volta do sargento reformado da PM/RJ ao submundo da periferia de São Sebastião do Rio de Janeiro prenuncia uma rosário de dissabores para o presidente da República com novas informações que transcenderão à rachadinha.

As conexões do capitão com as milícias, que dominam bairros miseráveis da periferia da ex-Cidade Maravilhosa, foram até agora relegadas à eventualidade da simpatia e limitadas às coincidências. O discurso do deputado federal na Câmara criticando a condenação do tenente do Bope Adriano da Nóbrega por homicídio e a ordem para o primogênito condecorá-lo com a medalha Tiradentes argumentando que era herói popular, quando ele já era bandido passaram em brancas nuvens para aqueles que os adoradores do “mito” chamam de “isentões”. O ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, disse que as milícias nasceram para o bem, mas depois se tornaram grupos armados, não mereceu sequer uma repreensão. As reações indignadas da famiglia Bolsonaro à queima de arquivo do fuzilamento do capitão Adriano foram minimizadas, como se houvesse algum laivo de humanidade naquela gentalha sempre desumana.

Mas agora veio o Ministério Público do Rio contar que Fabrício foi preso porque foi descoberto seu plano de fugir com a família, compartilhado com o “herói” do Bope que virou chefão da milícia do Rio das Pedras. E revelar que a transformação dos gabinetes de Jair, Flávio e Carlos em sedes de associação de proteção de famílias desamparadas de milicianas pode não ser mero interesse eleitoral, mas ilícito meio de vida.

O depoimento de Fabrício Queiroz, muitíssimo esperado em 18 meses desde a revelação de suas movimentações atípicas do Coaf pode, quem sabe, elucidar de forma definitiva que o projeto de armar o cidadão que Bolsonaro revelou na reunião do desgoverno pornô em 22 de abril é o ensaio  de um autogolpe. E precisa ser interrompido já, antes que seu decreto liberando totalmente a aquisição de munição, agora não mais rastreada pelo Exército, cumprindo cega e surdamente ordens de um governante insano e desumano pela falta de consciência de sua condição de instituição de estado, arme seu ensaio de autogolpe.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Artigo da coluna semanal para grupo Ric Mais Comunicação)

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Artigo para coluna da Ric Mais: Só nos resta a Justiça Eleitoral

Artigo para coluna da Ric Mais: Só nos resta a Justiça Eleitoral

O Grupo Ric de Comunicação põe à disposição de emissoras de rádio e jornais impressos ou em edição virtual três podcasts de três minutos cada e um artigo por semana. Interessados em publicar este material original deve entrar em contato com mash.leonardo@gruporic.com.br

Só nos resta a Justiça Eleitoral

Aras inclui delírios de Bolsonaro no parecer ao STF.

E há rastros de Maia em futuras concessões de TV

José Nêumanne

Alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) por óbvia interferência na Polícia Federal (PF) para perseguir inimigos políticos em processos rápidos e letais, o presidente Jair Bolsonaro levantou duas muralhas da China contra tudo o que possa incomodá-lo ou a seus filhotes. No mesmo dia, quinta-feira 11, feriado de Corpus Christi, os responsáveis por eventuais denúncias que possam dar início a investigações sobre suspeitas para lá de “robustas”, como está na moda dizer agora, estão sob seu absoluto domínio.

O procurador-geral da República (PGR), Augusto Aras, numa peça rocambolesca e barroca, em que diz o que desdisse, mentiu ao acusar o relator do inquérito sobre fake news (benévolo eufemismo anglófono para mentira), o ministro do STF Alexandre de Moraes, de tê-lo excluído do processo. O acusado desmentiu e ele calado estava e ficou. Sem denúncia do PGR, nem o último Poder a decidir, o Judiciário, terá como propor à Câmara dos Deputados a abertura de impeachment, nem mesmo abrir ação por violações do Código de Processo Penal. Mas Aras foi além, ao misturar veículos de comunicação com quadrilhas do gabinete do ódio na indústria de mentiras que prospera nas redes sociais. A mistura de liberdade de expressão com esse crime só pode ter sido inspirada pelo asqueroso papel de advogado-auxiliar do capitão de milícias que o intruso incorporou sem pudor algum. Esperar que denuncie quem o nomeou equivale a esquiar no sertão, como  descreve o intendente-chefe da Saúde, Pazuello do planisfério terraplanista.

No dia em que o mundo jurídico tropeçou no pedregulho do petista que comanda o Ministério Público Federal (MPF), o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, a quem Bolsonaro atribuiu a liderança de um golpe contra ele e caberia abrir processo de impeachment, confessou que fora “avisado” da nomeação de Fábio Faria, seu correligionário do Centrão, para o Ministério das Comunicações. Ou seja, o genro do concessionário de TV Sílvio Santos terá o poder de conceder canais. Com todas essas blindagens garantindo a impunidade do pretendente a Chávez de Pindorama, só resta um caminho para a punição dos crimes que não se cansa de repetir, como o de invadir UTIs para fotografar leitos “vazios”: os processos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pelo uso criminoso de mentiras, distorcendo a vontade popular no voto. Eia, SUS!

*Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne do Estadão: O submundo mental do capitão enxofre

No Blog do Nêumanne do Estadão: O submundo mental do capitão enxofre

José Nêumanne

Bolsonarismo é vulgaridade indecente, carola, estúpida e ignorante das piores heranças de Mussolini, Hitler, Franco, Frota e Chávez, com métodos de Ku Klux Klan, milícias e tráfico de drogas

Quando o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, advertiu que nossa democracia de 1988 corre o risco de dar ao capitão Jair Messias Bolsonaro oportunidade similar à que foi permitida pela Constituição de Weimar ao ex-prostituto Adolf Hitler, não faltou quem lhe erguesse o dedo. Caso do vice-presidente Hamilton Mourão, useiro em fazer citações oportunas de ocasião para arrotar erudição sem, contudo, dispor de verniz cultural com um centímetro de espessura. Na ativa, o general foi afastado pelo comandante do Exército, Eduardo Villas Boas, do Comando Militar do Sul por haver autorizado homenagem ao torturador e assassino Brilhante Ustra. E reincidiu em indisciplina e impropriedade por ter, na chefia da burocratíssima Secretaria de Economia e Finanças do Exército, aventado eventual intervenção militar no governo Temer, tendo sido punido pelo ministro da Defesa, o civil Raul Jungmann. Agora, vice-presidente eleito pelo voto popular no titular da chapa, recriminou o citado ministro do STF em artigo publicado no EstadãoOpinião e princípios (3/6, A2). Nele lhe atribuiu “tomar por modelo de protesto político a atuação de uma organização nascida do extremismo que dominou a Alemanha no pós-1.ª Guerra Mundial e a fez arrastar o mundo a outra guerra. Tal tipo de associação, praticada até por um ministro do STF no exercício do cargo, além de irresponsável, é intelectualmente desonesta”.

Não se sabe se por cegueira seletiva ou vontade excessiva de não parecer “mau caráter”, como o definiu o “pensador” do gabinete do ódio, Carlos Bolsonaro, no Twitter, após artigo anterior (Limites e responsabilidades, de 14/5), ignorou a passeata dos “300 (de fato, 30) pelo Brasil” no sábado 30 de maio. Liderados pela golpista Sara Fernanda Giromini, que usa publicamente o codinome Sara Winter, em homenagem a uma espiã nazista (sabia que espionagem é crime de guerra, general?), um punhado de tresloucados mascarados e empunhando tochas marchou pela Esplanada dos Ministérios. Qualquer pessoa que tenha lido algo diferente das apostilas distribuídas nas escolas militares saberia que a pantomima tinha duas óbvias referências. Saiba o vice-presidente que em 30 de janeiro de 1933, quando o austríaco Adolf Hitler foi nomeado chanceler do Reich pelo debilitado presidente Paul von Hindenburg, Josef Goebbels, ministro da Propaganda nazista, realizou um dos mais espetaculares atos de coação na República de Weimar: uma marcha noturna de 20 mil camisas pardas da tropa de assalto do partido nazista, a SA (Sturmabteilung). Goebbels, para refrescar a memória de Mourão, é o autor do texto lido pelo melhor ex-secretário de Cultura do governo segundo o próprio, Roberto Alvim.

A marcha das tochas dos “30 pelo Brasil” traz outra marca cultural dos caras-pálidas supremacistas, cujas manifestações contra a democracia, criminalizadas pela Lei de Segurança Nacional, passaram em branco pelo desatento escriba fardado. Este autor se refere aos enforcamentos de negros por grupos encapuzados da Ku Klux Klan no sul racista dos EUA.

Referências a outro tirano europeu do século passado, o italiano Benito Mussolini, são feitas pelo titular da chapa vencedora na eleição de 2018. Além do gosto por frases alheias que o duce  usava (como a infeliz comparação entre leão e cordeiro), o capitão, que nunca chegou a major sob condenações por indisciplina e terrorismo, montou o cavalo da PM de Brasília, numa imitação jeca do chefe fascista. Sem falar na grotesca caminhada dos empresários pidões contra o STF, imitação ridícula e desproporcional à Bolsonaro da Marcha sobre Roma, do mesmo inspirador.

O generalíssimo espanhol Francisco Franco entra no rol dos antecessores da direita chula tupiniquim sob o comando do capitão cloroquina pelo apelo hipócrita à fé cristã, paralelo que também poderia ser feito com o português Antônio Salazar. Constante infrator no uso pecaminoso do nome de Cristo, o titular do time em cujo banco de reservas se senta Mourão desafia conceitos de verdade (o célebre versículo do evangelista João) e amor ao próximo, que ele entende como o mais próximo, quais sejam, familiares (em especial filhos) e amigos, citados na reunião, em 22 de abril, de produção das narrativas pornográficas de um desgoverno de cusparadas, caneladas e impropérios.

Exemplo notório de sua estupenda falta de empatia foi a conclamação às devotas reses do rebanho “terrivelmente evangélico” para que invadam UTIs com doentes graves de covid-19 para filmar leitos vazios e lhe mandar de volta para que possa intervir na Polícia Federal e comandar a Agência Brasileira de Inteligência (ou melhor, falta de). E, assim, transferir os cadáveres de quem não sobreviver para o colo de governadores e prefeitos que, segundo Bolsonaro, devem ser mais combatidos do que o próprio “comunavírus” (apud Ernesto Araújo), que em atletas barrigudos como ele só produzem sintomas de “resfriadinho”.

Com 3 mil militares sob sombra e champanhe do erário, Bolsonaro e Mourão, convidados a se retirar da ativa por chefes disciplinadores, mas compassivos, vendem aos analfabetos funcionais que adoram o bezerro de ouro bíblico a ideia de que pretendem reviver a doce vida da ditadura militar de 1964/68. É mentira, pois o quarto presidente militar, Ernesto Geisel, chamou o capitão enxofre (que a “véia do alho” diz que cura a covid-19) de “mau militar”. O currículo de Mourão não sobreviveria à severidade do ex-presidente. Os militares dependurados no cabidão, ora compartilhado pelo Centrão, são frotistas. O herói de presidente e vice, Ustra, o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno Ribeiro, e o tenente-coronel Sebastião Rodrigues Moura, vulgo Major Curió, eram frotistas de carteirinha. E, como tal, golpistas frustrados.

Pode ser que o vice Mourão tivesse um pouco de razão se não levássemos em conta a abertura de O 18 Brumário de Luís Bonaparte (de 1852): “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Pois as similitudes entre Bolsonaro-Mourão Mussolini, Hitler e Franco são a farsa bufa tentando repetir a tragédia do extermínio. Para isso se baseia numa versão mais próxima do que Weimar e a Itália entre guerras. Mas nem o circo mambembe é original. O exemplo mora no outro lado da fronteira: a dupla Chávez-Maduro, que jogou a sólida democracia elitista e corrupta venezuelana de Rómulo Betancourt e Rafael Caldera, depois da ditadura militar de Pérez Jiménez, no esgoto da História.

Não custa repetir o que este Estadão publicou há 21 anos, quando Hugo Chávez assumiu o poder pela primeira vez para criar o bolivarianismo, populismo de esquerda aparentado do PT e congêneres: Em entrevista, Bolsonaro disse acreditar que ele faria no país vizinho o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força: “Ele não é anticomunista e eu também não. Na verdade, não tem nada mais próximo do comunismo do que o meio militar. Nem sei o que é comunismo hoje em dia”. O então deputado também disse que gostaria de ir à Venezuela para tentar conhecer Chávez, que considerava uma figura “ímpar”. E revelou: “Quero passar uma semana lá e ver se consigo uma audiência”.

Neste momento, em que comprou o Centrão com nosso dinheiro  para se garantir no poder contra as evidências dos crimes de responsabilidade que tem cometido contra a saúde da população e a higidez das instituições, Bolsonaro se garante com o rábula de  púlpito que nomeou para poder interferir à vontade no Ministério da Justiça. No sábado 13 de junho, à noite, o mesmo grupo “30 pelo Brasil” imitou a estratégia de intimidação de traficantes de drogas e milícias da periferia miserável do Rio de Janeiro, ao disparar fogos de artifício contra o prédio do STF. A Polícia Militar do Distrito Federal, que goza os reajustes assegurados pelo atraso da assinatura dele no compromisso em que os governadores aceitaram congelar os vencimentos de servidores, fez vista grossa ao atentado. Assim como o procurador-geral da República, Augusto Aras, investido como seu advogado e bajulador. E o ministro da Justiça, André Mendonça, transferiu seus crimes para os quase 58 milhões de eleitores que o sufragaram: “Devemos respeitar a vontade das urnas e o voto popular”.

Resta-nos contar com a ironia de Clio, deusa da História, manifestada quando reservou ao general Sylvio Frota uma nota de rodapé  na história suja da ditadura militar. E que esse zumbi não ressurja dos escombros desta tragédia recente e do submundo mental do desumano capitão enxofre de alho cru por falta de memória e caráter dele e de muitos.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicada no Blog do Nêumanne na segunda-feira 15 de junho de 2020)

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Opinião no Estadão desta quarta-feira: A pior crise do Brasil é Jair Bolsonaro

Opinião no Estadão desta quarta-feira: A pior crise do Brasil é Jair Bolsonaro

José Nêumanne

Mais maligno que pandemia, recessão e desgoverno, juntos, é o presidente

Intriga o sentido da expressão “tempestade perfeita”, que poderia ser confundida com calmaria. Mas é o inverso do que a ideia da perfeição sugere: a conjunção dos efeitos perversos de temporais coincidentes, como no descontrole do contágio do novo coronavírus provocando uma crise sanitária inusitada, o início e o agravamento da perspectiva da mais profunda recessão econômica de nossa História e a incapacidade de gestão estatal. A cereja do bolo de veneno é a ocupação do mais elevado poder republicano por um cidadão perverso, paranoico, paleolítico e cujo cérebro paira entre ignorância total e insanidade mental.

O Brasil repete-se na perda constante das oportunidades oferecidas pela conjuntura internacional. A pandemia de covid-19 exacerba essa característica de um país que não se livrou do estigma da escravidão como meio de produção. O vírus velocíssimo e até agora indestrutível, egresso do Extremo Oriente, tornou-se planetário ao devastar vidas e poupanças do continente europeu. O fato de o País estar sob a linha do Equador nos permitiu tomar conhecimento de sucesso e insucesso no combate à praga. Mas não dispomos de testes para seguir o exemplo da Coreia do Sul e até hoje não temos a mínima ideia matemática da velocidade da transmissão e da letalidade da nova doença. No fim da semana passada, a incontinência verbal de um bilionário sem juízo nos livrou de sua decisão de nossa retirada do competitivo mercado de respiradores mecânicos para evitar o colapso do sistema da saúde. Até agora evitado pela eficiência do Sistema Único de Saúde (SUS), o patinho feio de nosso horrendo serviço público.

A existência rara de fina inteligência no governo federal premiou nossa Pátria desleixada com a raridade de um ministro de Saúde, Luiz Henrique Mandetta, reunindo credibilidade e popularidade para evitar que as deficiências estruturais e a indigência intelectual de nossas elites reduzissem a índices intoleráveis infecção e letalidade de uma doença que desafia os mais privilegiados cientistas da humanidade. Mas o chefe do Executivo, eleito por 57 milhões, 796 mil e 986 votantes no segundo turno, submeteu-o a humilhações e o demitiu por inveja e paranoia. O primeiro absurdo, demissão do ministro da Saúde em plena subida do contágio do vírus, foi repetido na demissão do segundo, Nelson Teich, em menos de um mês. E por motivo ainda mais fútil: a insubmissão à prescrição de uma panaceia particular, a cloroquina, repetindo o que, como parlamentar, fizera antes com outra picaretagem, a “pílula do câncer”.

Empenhado em fazer valer maluquices de um pornógrafo de rede social e de financiadores de disparos de fake news, Jair Bolsonaro escoiceou ciências médicas e lógica plana ao trocar a coordenação do combate ao microrganismo por uma surrealista dicotomia inexistente entre vidas e negócios. Essa sandice apavorante levou ao comando da guerra virológica Eduardo Pazuello, general da intendência (que, segundo Napoleão Bonaparte, “segue” as tropas, não as lidera), com deficiente compreensão de biologia elementar, como a posição do coração no corpo. E conseguiu superar a própria incapacidade de entendimento básico de administração pública ao nomear para a secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos do ministério Carlos Wizard, bilionário irresponsável que, disposto a impor sua fé criacionista, anunciou a suspensão da compra de respiradores, um crime. E insultou a inteligência da Nação e a honra dos secretários estaduais de Saúde, anunciando a adulteração das estatísticas de casos e óbitos de covid-19 e adicionando um delito de responsabilidade ao rosário de penas do presidente da República e do roliço intendente da Saúde.

A melhor frase sobre essa rematada demência é da lavra do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ): “Um ministério que tortura números cria um mundo paralelo para não enfrentar a realidade dos fatos”. Os atos antibolsonaristas de domingo, desafiando recomendações sanitárias, cumpriram, porém, o papel essencial de mostrar que a seita nazibolsolulofascista, criacionista, terraplanista, “ignorantista” e assassina não é dona das ruas. Mas este não é mais momento de meras belas palavras. A Pátria precisa que mandatários do poder em nome do povo assumam seu dever de atirar o capitão à procela imperfeitíssima no mar, adotando a visão profética do poeta Alberto da Cunha Mello: “A tempestade desse barco é seu próprio comandante”.

A ordem constitucional vigente, da qual a democracia não pode abrir mão, mesmo ante a perspectiva atroz de um golpe policial-militar de milícias populares chavistoides anunciadas por Jair Messias na reunião de porão de Máfia de Chicago durante a lei seca, não tem como repetir a solução de 1919. Na República Velha, Delfim Moreira, o vice psicopata do presidente reeleito morto (Rodrigues Alves), foi isolado sob a regência de Afrânio Mello Franco até a chegada de Epitácio Pessoa, que derrotou Ruy Barbosa na eleição presidencial a bico de pena. Mas coragem e lucidez poderão achar o correto caminho legal para expurgar o capitão tempestade.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página A2 do Estado de S. Paulo quarta-feira 9 de fevereiro de 2020)

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