Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Política 2011

Deixem Gisele e a Hope em paz

Tentativa de censurar campanha publicitária de lingerie é violência autoritária contra o direito do público de ser informado, de forma leve e criativa, de produtos e serviços a seu dispor

 

Seria trágica, se não fosse apenas ridícula, a tentativa que tem sido feita pela presidente Dilma Rousseff e por sua ministra de Políticas para Mulheres, Iriny Lopes, com apoio público, dado por escrito, da senadora Marta Suplicy (PT-SP), para tentar censurar o anúncio de lingerie da Hope protagonizado pela modelo Gisele Bündchen. Antes, é conveniente esclarecer por que censura. Costuma-se limitar o campo da agressão à liberdade de expressão ou de crimes contra a opinião plural a notícias, editoriais e artigos publicados pela imprensa ou transmitidos por rádio e TV. A publicidade veiculada pelos meios de comunicação é, muitas vezes, vista como algo comercial, portanto menos nobre, e, por isso, não mobiliza muitos defensores. Trata-se de um preconceito que resulta da ignorância: as liberdades garantidas pelo Estado Democrático de Direito não existem para assegurar o que profissionais de comunicação têm a dizer ou escrever, mas, sim, o que o público tem de saber. Não se trata de um preceito de cima para baixo, mas de baixo para cima. E ele inclui, obviamente, a ampla, geral e irrestrita prerrogativa da cidadania de receber informações sobre produtos, bens e serviços que quer adquirir.

O comercial da Hope e a modelo Gisele Bündchen, que o protagonizou, estão sendo vítimas de violência arbitrária, pois nem o produto nem a protagonista da campanha publicitária em nenhum momento ofendem ou ferem nenhum ser humano, do sexo masculino ou feminino. A cruzada contra eles parte de gente autoritária e de maus bofes. Só isso!

Ela se insere numa mania politicamente correta cuja pretensão, em última instância, é limitar a comunicação entre pessoas às manias, idiossincrasias e complexos de grupos que se fingem de ofendidos para não ter de recorrer à Psicanálise para lidar com traumas. Estes devem ser resolvidos sem necessidade de intervenções brutas e pouco inteligentes, caso dos recursos que têm sido dirigidos ao Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) para tirara campanha do ar.

Entende-se que a ministra Lopes e a senadora Suplicy não devem ter lá muitos afazeres que lhes ocupem o tempo, o que lhes permite perturbar nossa paz. Mas não dá para perceber que motivação tem a presidente Dilma Rousseff, que vive a se gabar do próprio apreço pela total liberdade da comunicação, para descer de seu pedestal e entrar nessa picuinha de comadres ranzinzas e desocupadas. Em vez disso, ela deveria ter mandado a subordinada e pedido à correligionária para intensificarem esforços buscando proteger as vítimas de preconceitos de todos os tipos que são agredidas nas ruas e precisam de ajuda e apoio.

 

Bastidores Líderes© Jornal da Tarde, sexta-feira, 7 de outubro de 2011, p. A2

O Brasil de hoje é o Maranhão de 1966

Político brasileiro se elege em nome de faxina para fazer leis que mantêm maus costumes

 

Nesta semana, este Estadão ainda não se livrou da censura imposta pelo Judiciário às notícias a respeito da Operação Boi Barrica, na qual a Polícia Federal (PF) investigou negócios suspeitos da família Sarney. Esta também foi aliviada com a notícia de que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) invalidou as provas que a referida autoridade policial levantou na dita investigação. O YouTube revelou a cinéfilos e interessados em política um curta-metragem de propaganda feito pelo baiano Glauber Rocha, ícone do Cinema Novo e da sétima arte no Brasil, por encomenda do então jovem governador do Maranhão, registrando o início de uma carreira política que, contrariando as previsões mais otimistas, o levou à Presidência da República. E a um poder, na presidência do Senado, que ora lhe permite substituir no Ministério do Turismo um indicado, Pedro Novais, afastado por suspeita de corrupção e evidências de má gestão, por outro, Gastão Vieira, cuja única virtude notória é a de ser mais um ilustre desconhecido e leigo nos assuntos da pasta a assumi-la.

O filme de Glauber Rocha, Maranhão 66, suscitou um debate inócuo em torno das intenções e dos verdadeiros interesses do cineasta e da notória sagacidade do político profissional que patrocinou um comercial da própria posse e terminou por financiar um documentário vivo e cru da dura realidade do País e de seu Estado miserável. Questionou-se se o cineasta foi leal a seu patrocinador ou se se aproveitou do patrocínio dele para, com imagens chocantes, denunciar o abismo existente entre o discurso barroco do empossado e a revoltante miséria de seu eleitorado. Também foram levantadas dúvidas sobre o papel do protagonista do filme no relativo ostracismo em que a obra mergulhou, não merecendo a fortuna crítica que obras como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe viriam a ter. Glauber foi um militante de esquerda, mas aderiu à ditadura em seus estertores quando voltou ao Brasil, chegando a chamar o ideólogo da intervenção militar contra a pretensa República sindicalista, general Golbery do Couto e Silva, de “gênio da raça”. O Sarney por ele filmado era da “bossa nova” da UDN, com tinturas pink, mas aderiu ao regime autoritário e, depois, se afastou dele para entrar na chapa que lhe pôs fim no colégio eleitoral.

Personagem e autor podem, assim, alinhar-se na galeria das “metamorfoses ambulantes” em que Luiz Inácio Lula da Silva se introduziu, inspirando-se em Raul Seixas, para justificar na prática sua adesão ao lema de Assis Chateaubriand, segundo o qual “a coerência é a virtude dos imbecis”. Mas, com todo o respeito às boas intenções de quem entrou no debate, não é a incoerência do material do curta-metragem que interessa, e sim exatamente o contrário: a permanência das práticas denunciadas com a imagética bruta da fita sob a gestão do orador inflamado e empolado, que as usava para detratar seus antecessores, dos quais assumiu os mesmos vícios ao tomar-lhes o lugar nos braços do povo que, “bestializado”, na definição de José Murilo de Carvalho, o ouvia e aclamava.

O autor deste texto é glauberiano de carteirinha: presidi o Cine Clube Glauber Rocha em Campina Grande um ano depois de o curta ter sido produzido, mas nunca me interessei por ele. Graças ao mesmo YouTube que trouxe de volta obras-primas perdidas da música para cinema no Brasil, como as trilhas de Sérgio Ricardo para Deus e o Diabo na Terra do Sol e de Geraldo Vandré para A Hora e a Vez de Augusto Matraga, Maranhão 66 emergiu. E despertou o debate errado: não importa se Glauber exaltou ou execrou Sarney nem se este foi elogiado ou ludibriado pelo cineasta contratado. Interessa é perceber a genialidade da peça cinematográfica no que ela tem de mais poderoso: a constatação de que a cena de um homem fazendo um penico de prato antecede outra em que urubus sobrevoam um lixão, ao som da retórica barroca e vazia de um demagogo, retratando o Maranhão daquela época e, sem tirar nem pôr, o Brasil de agora.

Sarney, que preside o Senado e o Congresso e põe no Ministério do Turismo de Dilma Rousseff quem lhe apraz, é o símbolo vivo do Brasil em que, no poder, o PT da presidente, associado ao saco de gatos do PMDB do senador pelo Amapá, mantém incólume “tudo isso que está aí” e que Lula prometeu a seus devotos exterminar. O problema do filme feito para exaltar a esperança no jovem político que assumiu o poder prometendo mudar tudo não é ter seu diretor traído, ou não, o acordo feito com o financiador ao expor as mazelas que ele garantiu que acabaria e não acabou. A tragédia é que nada mudou.

E não é o caso só de Sarney. A vassoura com que Jânio Quadros varreria o Brasil terminou sendo posta atrás da porta do Palácio do Planalto para expulsá-lo do poder. O caçador de marajás Fernando Collor foi defenestrado sob a acusação de ter executado com desenvoltura as práticas daninhas que usou como chamarizes para atrair eleitores incautos e, depois do período sabático fora do poder, voltou ao Congresso para bajular os novos guardiães dos cofres da viúva. E estes também desempenharam com idêntico cinismo o papel de restauradores da moralidade que engrossaram o caldo sujo da malversação do erário, primeiro, sob Luiz Inácio Lula da Silva e, depois, sob Dilma Rousseff, cuja meia faxina em nada fica devendo aos arroubos de falso moralismo de antanho.

Desde sempre, vem sendo cumprida a verdadeira missão dos políticos no poder no Brasil sob qualquer regime e com qualquer bandeira partidária: “O Estado brasileiro usa as leis para manter os maus costumes”, definiu, magistralmente, o antropólogo Roberto DaMatta na entrevista das páginas amarelas da Veja desta semana. Foi por isso que aqui se inverteu o aforismo de Heráclito de Éfeso: o rio em que nos banhamos tem sido emporcalhado a jusante por quem promete limpar a água – Sarney, Jânio, Collor, Lula, Dilma, etc.

Bastidores Líderes© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 29 de setembro de 2011, p. A2

Por que a PF não busca quem matou Toninho?

Um suspeito silêncio cerca a morte do amado prefeito que denunciou bandidos perigosos

 

No sábado passado, enquanto o mundo inteiro se preparava para prantear as quase 3 mil vítimas do terrorismo fundamentalista em Nova York, outra efeméride fúnebre passou em brancas nuvens pelos céus deste nosso Brasil varonil. Os dez anos da execução do então prefeito de Campinas, Antônio Costa Santos, não foram lembrados com a indignação com que deveriam tê-lo sido, neste momento em que até a presidente Dilma Rousseff definiu como “positiva” (a seu assessor palaciano Gilberto Carvalho) a mobilização popular contra a corrupção, no Dia da Pátria. A omissão passou a ser mais uma evidência acumulada de que os antigos romanos tinham razões de sobra para constatar que sic transit gloria mundi (assim passa a glória mundana).

Afinal, a vítima não era um anônimo qualquer. O compositor e intérprete de sucessos musicais Chico César, seu amigo pessoal e testemunha de muitos dos comícios e outras manifestações de apreço dos campineiros, garante nunca ter visto amor tão genuíno como o que estes demonstravam explicitamente pelo líder, baleado na noite de 10 de setembro de 2001 quando manobrava à saída do estacionamento de um shopping center. A cidade que ele administrava não é propriamente um vilarejo insignificante, o que poderia justificar a lápide fria que foi posta não apenas sobre seu corpo, mas também sobre a obra de um dirigente político que denunciou, com coragem, o banditismo em suas mais diversas formas, entre as quais as da política e da governança pública. É possível até argumentar que seus assassinos se beneficiaram do fato de a execução ter ocorrido justamente na véspera dos atentados contra as torres do World Trade Center. Mas mesmo essa desculpa é pálida, para não dizer amarela, como definia minha avó Nanita, que pontificava do alto de sua vetusta sabedoria doméstica: “Desculpa de cego é feira ruim e saco furado”.

O certo é que só o acaso não justificaria ou, em última instância, perdoaria o silêncio de cemitérios que se impôs sobre o assassínio do líder que teria acrescido ao apelido familiar Toninho a expressão “do PT” para não ficar dúvida quanto ao partido a que pertencia o mártir na luta contra o crime. Nem para deixar que os dez anos de negaças e incúria das autoridades públicas os despejem no oblívio.

Toninho 13, assim conhecido por causa do número de suas postulações a cargos no Executivo municipal de sua cidade, não era decerto um militante apreciado e totalmente aprovado pelo comando do partido, como o era outra vítima de morte dada como acidental, nunca devidamente esclarecida, Celso Daniel. O campineiro chegou a ser demitido da Secretaria de Obras de Jacó Bittar, amigo do padim Lula e pai dos sócios do filho do profeta de Garanhuns, a exemplo do que também ocorreu com o ex-guerrilheiro Paulo de Tarso Venceslau, que não chegou a ser morto pelas denúncias que fez, mas sobreviveu a dois atentados na Rodovia do Trabalhador. E não escapou do expurgo partidário por insistir em não compactuar com a omissão cúmplice da direção partidária.

Quando Celso Daniel foi baleado, quatro meses depois de Toninho, tinha saído da prefeitura de Santo André para coordenar o programa presidencial na campanha, que terminaria vitoriosa, de Luiz Inácio Lula da Silva. Com sua morte, o posto foi ocupado por Antônio Palocci, abatido dos mais altos postos da Esplanada dos Ministérios não por balas de pistoleiros, mas por acusações de agressões à ética que iam desde a invasão do sigilo bancário de um pobre caseiro até a multiplicação do patrimônio pessoal sem renda que a justificasse. Só por aí já dá para imaginar o destino glorioso que poderia ter tido o moço do ABC, se não houvesse morrido.

De qualquer maneira, há semelhanças entre as vítimas. O amado e corajoso líder campineiro denunciara grupos poderosos de corruptos públicos e privados na comissão parlamentar de inquérito (CPI) que investigava o narcotráfico. E o preparado quadro de Santo André também protagonizava um escândalo em que o produto da propina, segundo dois irmãos dele, fora transportado em malas entregues ao mesmo Gilberto Carvalho que acabou de ouvir Dilma elogiar as manifestações contra o esbulho, tendo como destinatário o então presidente nacional petista, José Dirceu. Todos os personagens dos casos citados, é claro, negam envolvimento e este último tem negado muito mais, de vez que é acusado de chefiar um bando organizado que movimentava recursos públicos e privados na compra de apoio parlamentar.

A polícia civil, chefiada por adversários do PT no poder no Estado de São Paulo, logo incriminou o sequestrador Andinho, dado como o matador de Toninho. Da mesma forma, concluiu que um menor teria acertado a testa de Daniel a oito metros de distância no escuro da madrugada numa mata em Itapecerica da Serra. Em ambos os casos, o comando petista não discutiu a conclusão dos subordinados de tucanos e contestou familiares dos mortos, indignados com as óbvias falhas nas investigações.

Há pouco tempo, um júri popular começou a condenar alguns participantes da execução do prefeito sequestrado. A promessa feita por Lula, candidato no palanque, em Campinas, em 2002, de mandar a Polícia Federal (PF) investigar o assassinato do prefeito baleado na direção do carro nunca foi cumprida. Márcio Thomaz Bastos, indicado para assessorar juridicamente a família do morto, Tarso Genro, Luiz Paulo Barreto e José Eduardo Martins Cardoso, no comando da pasta à qual está subordinada a PF, não moveram uma palha para cumprir essa vã promessa de seu líder supremo.

O mínimo que se pode questionar neste décimo aniversário da execução de Toninho do PT é por que nunca ninguém das cúpulas petista e federal se interessou em saber se tem razão a polícia paulista, que acusa Andinho, ou o sequestrador, que sempre negou a autoria do crime.

 

Bastidores Líderes© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 14 de setembro de 2011, p. A2

Nêumanne Pinto. Briga de Nordestinos

BRASÍLIA EM DIA

O pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva, um operário bem articulado, e o paraibano José Nêumanne, o jornalista que cobria suas atividades, já foram amigos, mas não têm mais vínculos de amizade como antes, muito pelo contrário. Anfitriões bem-informados estão evitando que os dois sejam convidados para o mesmo evento social, porque são líquidos que não se misturam, nem mesmo para brindar.

Faz sentido essa precaução. As boas relações entre os dois ficaram no passado. No presente, não faz sentido colocá-los na mesma mesa porque não se sentiriam confortáveis, compartilhando o mesmo espaço.

A ponte entre os dois foi dinamitada depois do lançamento do livro “O que eu sei de Lula”, há uma semana, em São Paulo, com agenda para a próxima semana, em Brasília.

Para o escritor, Lula é um fenômeno político, como também pessoal, o que explica seu sucesso na política, eleito duas vezes presidente da República. Acrescentou que o ex-presidente conquistou uma popularidade e “com isso execrou e demonizou Fernando Henrique Cardoso, pela obra que ele considerou herança maldita, mas que, na verdade, foi o verdadeiro sucesso dele”. O perfil que o autor faz de Lula “é a expressão exata do cidadão brasileiro comum, ignorante, arrogante, de levar vantagem em tudo para se dar bem”. Nêumanne acrescenta mais: “O Lula, na verdade, é um Macunaíma, um herói sem nenhum caráter, no sentido que o Mário de Andrade quis dar ao seu herói”.

Nêumanne revela também que Lula critica a imprensa por algumas razões, que ele até enumera: por comodismo, reação ao fato de a imprensa vigiá-lo, “por ignorância e, também, um pouco por ingratidão”.

Lendo a entrevista que segue, faz sentido os anfitriões evitarem que os dois compareçam à mesma festa.

Por: Marcone Formiga

 

 

 

– Por que o senhor resolveu escrever um livro desmistificando o ex-presidente Lula?

– O Lula é a maior prova da força, da pujança e da sobrevivência do capitalismo, porque nenhum outro regime teria como presidente um retirante, miserável, do interior do sertão semi-árido de Pernambuco, que transformasse o país em uma das maiores economias políticas do mundo, e também o maior líder político do mundo, o que mais atrai a atenção dos outros países, e um presidente que terminou o seu segundo mandato com 80% de aprovação!…

– O Lula é um líder, ou chegou na hora certa?

– É inexistente, em qualquer outro tipo de regime, uma pessoa como ele – apenas no capitalismo. Lula foi o mais importante político do Brasil de todos os tempos, porque conseguiu algumas coisas impossíveis, como por exemplo, unir a esquerda em torno dele, que sempre foi conservador, com a proeza de unir em torno de um programa de governo de esquerda, em troca de verbas orçamentárias, a escória da política brasileira… Tornou assim possível, viável, um governo de esquerda, que em condições anteriores, sempre faliu diante da resistência da direita conservadora.

– Afinal, é líder ou um fenômeno político?

– O Lula é um fenômeno político e, também, é um fenômeno pessoal. Isso é que deve explicar o seu sucesso, o fato de ele ser o líder político mais importante do Brasil. Afirmo isso até como elogio, porque eu não considero ser um bom político, um elogio no Brasil, porque, geralmente, são pessoas que não têm nenhum escrúpulo para atingir o seu objetivo – que é estar no poder, conquistar e ficar nele. Essa condição do Lula depende, basicamente, da sua humanidade e não da sua mitologia.

– Consta em Brasília que ele ficou deslumbrado com o poder. O senhor concorda?

– Todos ficam deslumbrados com o poder. Ninguém está preparado para o poder e nem para a fama!… O Lula é um fenômeno muito interessante exatamente por ter vindo de tão baixo, e ter ido tão alto, e agir sempre com muita naturalidade com esse poder que ele conquistou ao longo dos anos. O Lula deve esse poder a virtudes fundamentais nele. Uma delas é a capacidade de comunicação. Nunca antes na história desse país o povo conduziu ao cargo máximo de poder um representante autêntico, que sempre foi um intermediário, um bacharel, de preferência. O líder político mais importante do Brasil, sem dúvida nenhuma, foi Fernando Henrique Cardoso, porque fez uma revolução social com o Plano Real. Mas, para fazer justiça, ele e os seus companheiros deixaram o plano de estabilidade da economia na gaveta, e o Lula se aproveitou do seu plano econômico.

– O que aconteceu?

– Lula conquistou uma popularidade – e não apenas isso – e com isso execrou e demonizou FHC, pela obra que ele considerou herança maldita, que, na verdade, foi o verdadeiro sucesso dele. Mas, sem muita culpa do Lula, porque os principais responsáveis pelo isolamento e o ostracismo do Fernando Henrique foram os seus próprios companheiros tucanos – sem falar nele mesmo – porque nenhum deles tem a noção do que fizeram para o povo, e não tem como comunicar isso ao povo, por falta do mínimo de talento de comunicação.

– Ele perdeu ou não o capital ético que tinha no passado, antes do poder?

– Não é novidade no Brasil que se roube no governo, e também não é novidade que se use o moralismo como forma de se chegar ao poder. Antes do PT, Fernando Collor já fez isso, Jânio Quadros também, mas todos deram com os burros n’água. A diferença do PT é que ele permaneceu, então, com o capital ético do PT. A verdadeira conquista do Lula, que é a conquista do poder em si, foi a possibilidade de nomear uma sucessora, sem a menor condição de ganhar a eleição. Tudo isso supera qualquer capital ético que eles possam ter. Na verdade, o capital ético, seja do PT, seja do Jânio Quadros, ou do Collor, é uma tentativa hipócrita de enganar trouxa. Não há capital ético, e sempre que se apelou para o moralismo, com raras exceções, o povo não entrou nessa, porque o próprio povo não é ético.

– Como explicar o surgimento desse fenômeno político?

– Eu demonstro no meu livro que o Lula é a expressão exata do cidadão brasileiro comum, ignorante, arrogante, e que gosta muito de ser ignorante, de levar vantagem em tudo, para se dar bem. O Lula, na verdade, é um Macunaíma, um herói sem nenhum caráter, e acrescento um pejorativo à palavra “sem nenhum caráter”, no sentido que o Mário de Andrade quis dar ao seu herói. Um herói que não tem uma convicção firme de nada, aquilo que ele se chama mesmo, o próprio Lula se denomina uma metamorfose ambulante. Talvez essa seja a melhor definição antropológica do herói Macunaíma e dos seus representantes vivos, entre os quais, o Lula.

– Voltando ao capital ético…

– (antes de completar a pergunta, Nêumanne vai logo respondendo).

– O capital ético que o PT teve é uma farsa, é um engodo, que vários partidos políticos já tiveram antes e, o principal deles, a UDN, que deu com os burros n’água. Essa história de capital ético não tem nenhum sucesso eleitoral. Sempre alertei para o que circula na internet, notícias que os filhos do Lula estão ficando ricos, mas o eleitor comum acha uma grande virtude dele, porque ele é um excelente pai… (risos).

– Quais foram os erros dele durante o primeiro governo e o segundo?

– A biografia do Lula é uma sucessão de erros que deram certo. Eu conto, para a grande surpresa de alguns leitores, que o Lula era visceralmente contra um apoio à volta dos exilados aqui. Um general cobrou apoio, mandou Claudio Lemos procurá-lo, para conseguir o apoio dele, e ele não deu. Mas 27, 28 anos depois, colocou esses exilados todos no governo, ao lado dele. Também afirmava que Tancredo Neves e Paulo Maluf eram farinha do mesmo saco, o que é um absurdo sob qualquer ponto de vista. Puniu os seus colegas petistas, que votaram no colégio eleitoral do Tancredo, em uma decisão absurda, mas, no entanto, o Lula superou o Tancredo em matéria de conciliação, porque o Tancredo fez uma ampla conciliação quando venceu a eleição e se deixou fotografar ao lado da escória da política brasileira…

– Quais?

– O Severino Cavalcante, o Jader Barbalho, abençoando-os. Inclusive criei uma expressão que o nomeou como “Perdoador Geral da República”. Agora, essa condição o Lula já tinha utilizado antes, quando ele uniu as facções sindicais com seu enorme poder de conciliação no Bar da Tia Rosa, lá em São Bernardo do Campo. Foi essa mesma saliva do bar, misturada sempre com um pouco de álcool, que ele utilizou para conciliar a esquerda, quando fundou o PT. Ninguém deve se esquecer de que quando Lula fundou o PT, a esquerda brasileira só conseguia se juntar nas celas das cadeias. Mas o Lula conseguiu juntá-los fora das celas e usá-los, quando a esquerda achasse necessário. O José Dirceu não confessa isso, mas achava que o Lula seria o instrumento de sua chegada ao poder. Mas, na verdade, o Zé Dirceu é que foi o instrumento de organização que o Lula utilizou, primeiro para controlar o partido e, depois governar o país com uma qualidade absurda, que reúne hoje, de uma ponta a outra, da extrema esquerda até o Fernando Collor de Mello, que execrava o Lula e o Lula o execrava…

– Por que não voltar aos erros do Lula…

– Bom, voltando ao relatório dos erros do Lula, o maior deles foi quando o Fernando Henrique Cardoso lançou o Plano Real e ele e o PT foram contra. Oito anos depois, não teve nenhum pudor ao usar as conquistas decorrentes do Plano. O que caracteriza o Lula não é o erro, errar, todos erram, os romanos já diziam, ‘errar é humano’. O que diferencia o Lula de nós, pobres mortais, é que ele tem uma enorme capacidade de capitalizar, utilizar, e usufruir dos erros que cometeu. O Lula é uma sucessão permanente de erros que sempre terminam dando certo para ele.

– Por exemplo.

– A Dilma Rousseff pode ter sido o grande erro, mas está começando a dar certo para ele, e não verei nenhuma surpresa se ele for carregado nos braços do povo em 2014 para assumir o lugar dela…

– No começo do primeiro governo o presidente Lula afirmou que levaria a elite a abaixar a cabeça. Isso foi uma demonstração de prepotência dele?

– Tem que ver como o Lula usa essa palavra. O que ela significa no dicionário, o que significa na cabeça dele… Na verdade, não existe nem a palavra elite, porque a palavra que existe na cabeça dele é “zelites”. “Zelites” é uma coisa claramente definida como qualquer adversário dele e de seus cúmplices que estão no poder. O Lula submeteu as elites, as fez abaixarem a cabeça, e não é prepotência, mas verdade mesmo. Nunca, nem na ditadura militar, nem na época do Milagre Brasileiro, a oposição foi tão ruim, tão impotente e tão incompetente quanto nos dois governos Lula, e nos primeiros oito meses do governo Dilma. Ou seja, ele conseguiu realmente fazer com que as “zelites”, os inimigos dele, abaixassem a cabeça. Conseguiu que o Mão Santa não se reelegesse, assim como Marco Maciel. Pode ser que a qualidade da política brasileira tenha perdido bastante, mas ele marcou no seu revólver de pistoleiro todas essas baixas como conquistas.

– Nunca no Brasil os bancos tiveram tanto lucro quanto no governo dele. Como o senhor vê isso?

– Essa é a prova da genialidade do Lula como estrategista!

– O que ele fez, então?

– Encheu o cofre dos bancos de dinheiro e colocou proteína na mesa do trabalhador. Liberando dinheiro aos banqueiros, como nem Fernando Henrique, que sempre foi um puxa-saco de banqueiros, fez, o Lula impediu que os principais capitalistas do Brasil financiassem as campanhas de seus inimigos. Colocando proteína na mesa do trabalhador, ele conseguiu a sua eleição e de quem ele quis, como demonstrou no caso de Dilma Rousseff. Ele fez uma espécie de sanduíche, no qual a classe média se sentiu oprimida, diminuída, perdendo completamente o seu poder, e também a sua capacidade de competir no Brasil. Hoje, o Brasil é um país controlado pelos plutocratas e pelos líderes populares, principalmente líderes sindicais, todos eles em torno do padrinho Lula…

– O mensalão passou, mas uma pergunta que não quer calar: o presidente deixou rolar… Ou não?

– Claro que deixou rolar! Eu falei outro dia que ele é o “Perdoador Geral da República”, simplesmente porque utilizou velhos bordões latinos para justificar a completa desfaçatez. Na dúvida, a favor do réu, desde que o réu seja meu. O réu inimigo passou a ser perseguido pelos aparelhos policiais do Estado. Não foi mentira a tentativa de transformar a Polícia Federal em uma polícia republicana, um órgão de perseguição de adversários políticos manobrados por grupos que a controlam, entre os quais o grupo do Lula, mas não apenas ele…

– Ele usou a PF como braço do poder?

– Sim, o Lula no poder estabeleceu um pacto com a Polícia Federal para que ela se transformasse em um braço de poder, mas um braço de poder através da intimidação, através da gravação de telefonemas bloqueados, com ou sem a autorização de um juiz, o verdadeiro estabelecimento de um Estado de força e de uma política mafiosa, aos quais sucumbiram, inclusive, companheiros recalcitrantes.

– Como?

– É o caso de Antonio da Costa Santos, que ficou conhecido como “Toninho do PT”, de Celso Daniel e do único sobrevivente, Paulo de Tasso Venceslau, que foi expulso do PT porque denunciou falcatruas em prefeituras petistas. Acrescento que o Paulo de Tasso não foi premiado com a vida. O PT, ou seja, quem for, mandou matá-lo duas vezes, mas ele sobreviveu a dois atentados na Rodovia do Trabalhador, depois de ter denunciado mal feitos do PT, confirmados por uma comissão formada pelo atual ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e também pelo professor Paulo Singer e o promotor Hélio Bicudo.

– O que fez o Hélio Bicudo?

– O promotor Hélio Bicudo brigou com o PT por ter batido com a língua nos dentes, revelando também que essa comissão aprovou as denúncias de Paulo de Tasso. Mas o Lula jogou as denúncias no lixo, o José Eduardo Martins Cardozo preferiu prosseguir com a nomenclatura petista, Paulo Singer se escondeu e a palavra do Hélio Bicudo foi desconsiderada, porque ficou inimigo do PT…

– O senhor que conhece bem o presidente Lula pode responder ou não. Afinal, ele ficou arrogante ao conquistar o poder?

– Eu me espantaria se ele não ficasse, até eu ficaria, com o poder que ele teve. Mas isso acontece com grandes jogadores de futebol, com os astros do rock, e, sobretudo, com os poderosos da política, que controlam muitas verbas, enriquecem com muita facilidade, alteram o seu patrimônio rapidamente, exercendo o poder de vida ou de morte sobre outras pessoas. Veja bem, estamos falando de sangue correndo, de dinheiro passando de bolsa em bolsa. Assim, é muito improvável que um homem, por mais estrutura psicológica e estrutura educacional que tenha não se deixe embriagar por esse tipo de poder. O poder absoluto corrompe absolutamente e o poder consensual mais ainda. O Lula hoje é um poder consensual no Brasil.

– Como assim?

– Ninguém imagina nenhuma estrutura política no Brasil sem o Lula. Esses dias, por exemplo, saiu nos jornais, que o José Dirceu, acusado de formação de quadrilha e por furto de dinheiro público,estava no Supremo Tribunal Federal, recebendo em seu quartel-general ministros de Estado, líderes de bancadas partidárias e dirigentes de estatais, com o topete de soltar declarações, depois disso, de que ele é um dirigente político importante – como se isso não fosse uma denúncia contra o sistema partidário no Brasil. Como pode ser um dirigente político importante, um réu, em um caso de furto de dinheiro público, que está sendo julgado e não foi ainda sentenciado no STF? Como é que pode Ministros de Estado frequentarem o quartel-general, como comprovam os relatos da revista, impunemente, sem que a chefe de governo tenha sequer conhecimento disso. Eu nem levo em conta a afirmação da revista Veja de que ele está trabalhando contra a Dilma, não me importa isso.

– Qual é a explicação?

– Um ministro de Estado não pode ser recebido por um réu do STF, acusado de formação de quadrilha, em uma democracia que tenha vergonha. E a presidente Dilma demonstrou não ter autoridade nenhuma ao não punir nenhum dos seus ministros que foram ao encontro de Zé Dirceu. Mas não pelo fato de Zé Dirceu querer combatê-la -não interessa se o Zé Dirceu está trabalhando a favor dela ou contra. O que interessa é que ele é réu e deve se comportar como tal. A grande pergunta que não quer calar – e que a Veja errou quando mudou o foco, ao só provar que todo mundo foi lá conversar com ele – mas faltou o seguinte: o que é que faz o presidente da Petrobras, o líder do governo e o ministro dos projetos sociais, no quartel-general de um sujeito acusado de formação de quadrilha e em crime de furto de dinheiro público?

– No poder, o Lula criticava a imprensa, mas ele chegaria a tanto se não fosse o apoio dos jornalistas? Ou a imprensa é uma “Geni” para ele?

– O Lula critica a imprensa por alguns motivos: por comodismo, reação ao fato de a imprensa vigiá-lo, por ignorância e, também, um pouco por ingratidão. Acontece o seguinte, uma das circunstâncias que legitimam o meu trabalho sobre ele é que eu participei de uma grande revolução da imprensa brasileira. Quando o conheci, em 1975, tinha assumido a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo e Diadema, hoje o ABC. O sindicalismo era assunto de jornal popular de polícia, aquele que você aperta e sai sangue. O colunista de imprensa que o Lula mais bajulava era um cara chamado Zé Nunes, que fazia a coluna de um jornal chamado “Notícias Populares”, um jornal policial editado na época, pela Folha de S. Paulo, dirigido pelo francês Jean Mellé, que conquistou muita fama pelos títulos que criava, como “Violada no Auditório”, quando o Sérgio Ricardo jogou o seu violão no auditório do Festival da Record, ou o “Cachorro fez mal a moça”, quando a moça comeu um cachorro quente e passou mal. Eu sou de uma geração de jornalistas – eu, Ricardo Kotsho, na Folha, Mino Carta, na Isto é, Clovis Rossi, na Folha, Evaldo Dantas Ferreira, no jornal O Estado de S. Paulo – nós somos de uma geração de jornalistas que tirou o sindicato das páginas dos jornais popularescos – esses que se espremer, sai sangue – para as páginas nobres da economia e da política dos grandes jornais.

– Afinal, o ex-presidente Lula tem passado, presente ou futuro?

– O Lula nada de braçada, porque além de ser absolutamente fora de série, não tem escrúpulo nenhum, o que o faz ser maior ainda. A maior definição do Lula foi cunhada pelo companheiro de chapa dele, o Leonel Brizola, em uma eleição, afirmando que ele era capaz de pisar no pescoço da mãe para subir. Estava certo, até porque o Lula usou a mãe, inclusive, como objeto de culto, para subir na vida e na política!…

O GLOBO

O GLOBO

‘Lula não é de esquerda, é um conservador’

Jornalista, que lançou livro sobre o ex-presidente, diz que ele recusou proposta de Golbery de apoiar volta dos exilados

Observador privilegiado da ascensão do ex-presidente Lula, desde os tempos de líder sindical, o jornalista e escritor José Nêumanne Pinto defende em seu livro “O que sei de Lula”, lançado na semana passada, a desmistificação do petista como revolucionário e representante da esquerda. Considera Lula o maior político da História do país, mas diz que, na essência, ele é um “conservadoraço”.

Nêumanne acompanhou, como repórter, a rotina de Lula no tempo das greves no ABC paulista. Os dois foram amigos, mas, com a eleição de Lula, a relação acabou.

– Sempre me rebelei com a imagem feita ao longo do tempo e pensei: tenho o privilégio de conhecer bem o assunto, a origem, a saga dele e o fato de ele nunca ter sido revolucionário de esquerda.

 

NÊUMANNE PINTO: “O Lula foi o primeiro cara que uniu a esquerda, mesmo sem ser de esquerda”

Silvia Amorim
Qual a maior revelação que o livro traz?

JOSÉ NÊUMANNE PINTO: É que Lula não é de esquerda, é um conservador e grande conciliador.

O senhor questiona o mito em que ele se transformou. O que o fez chegar a essa conclusão?

NÊUMANNE: Isso não é uma opinião. Eu mostro isso com episódios. Entre 1978 e 1979, eu fui procurado pelo Claudio Lembo, presidente da Arena na época, porque ele tinha uma missão. O general Golbery do Couto e Silva queria fazer a volta dos exilados e queria apoio do Lula. A reunião foi em um sítio do sindicato, e lá eu ouvi o Lula dizer: “Doutor Claudio, fala para o general que eu não entro nessa porque eu quero que esses caras se danem. Os caras estão lá tomando vinho e vêm para cá mandar em nós?” O Lula falava que a Igreja tinha dois mil anos de dívidas com a classe trabalhadora e que não resolveria em dois anos. Com os estudantes, dizia que poderia fazer um pacto: eles não encheriam o saco do sindicato e o sindicato não encheria o deles. Isso tudo eu vi, ninguém me contou. Ele é um conservadoraço. Nunca foi revolucionário.

E a história dele com o PT?

NÊUMANNE: Costumo usar a seguinte imagem para ilustrar a história da esquerda na vida dele. Pense numa cebola. O núcleo da cebola é o homem. O resto é casca ideológica e política construída ao longo do tempo. O meu objetivo era descascar essa cebola e chegar ao homem, porque eu acho que o segredo do sucesso do Lula é a condição humana dele, a origem, o ambiente familiar, a carreira no sindicato e, sobretudo, dois talentos, que não têm nada a ver com ideologia. O primeiro é o talento que ele tem de se comunicar. O segundo é que Lula é o maior de todos os conciliadores da História do Brasil. O Lula conseguiu um milagre. Quando eu conheci o Lula, falava-se muito que a esquerda brasileira só se reunia na cadeia, porque eram todos inimigos. E o Lula foi o primeiro cara que uniu a esquerda, mesmo sem ser de esquerda.
Qual dessas caraterísticas é, na sua opinião, a responsável por torná-lo, como o senhor diz, o maior político do Brasil?

NÊUMANNE: Ele é o maior político brasileiro e não considero isso, necessariamente, um elogio. Você sabe o que é o político brasileiro? É o cara que faz qualquer coisa para ficar no poder, e isso é o Lula. A primeira vez que eu usei essa expressão, o (ex-governador José) Serra me chamou e disse que Getulio Vargas era o maior político que o país tivera. Falei: “Serra, o Getulio meteu uma bala no peito por causa de uma corrupçãozinha por causa de um segurança do pai dele. O Lula administrou uma quadrilha chamada mensalão e a oposição não tem um cara para enfrentá-lo na eleição. Nunca houve um conciliador como Lula”.

Isso foi aprendido ou é inato?

NÊUMANNE: É inato e foi desenvolvido. Quando conheci o Lula, ele não tinha noção desses talentos. Nas primeiras entrevistas que fiz com ele, na época do sindicato, ele era terrível, despreparado. Fui vendo, aos poucos, ele se transformar num cara genial, no meu melhor entrevistado. O talento de conciliador ele descobriu no bar da Tia Rosa, em frente ao sindicato em São Bernardo do Campo, onde fazia as negociações quando sindicalista. O PT que Lula fundou é a soma dos sindicalistas autênticos, a Igreja progressista e a esquerda armada.

Todos esses setores tinham como plano usá-lo para chegar ao poder, mas foi ele quem acabou usando todos eles?

NÊUMANNE: Defendo isso no livro. Primeiro, o Golbery pensou que ia dominar o Lula. A Igreja tentou usá-lo, mas, na primeira oportunidade, ele jogou a Igreja para escanteio ao escolher José Alencar para vice, representante de um partido evangélico.

E o ex-ministro José Dirceu?

NÊUMANNE. Lula usou o Zé Dirceu. O PT era esfacelado, e o Lula não tinha domínio sobre o PT. O Zé Dirceu é quem tinha e deu o domínio a Lula. Na primeira chance que ele teve, despachou o Zé Dirceu. Eu sempre achei que o projeto do Lula era o Palocci (ministro da Fazenda na gestão Lula).

O senhor diz que Lula não mudou tanto nesses quase 40 anos. Em que ele continua o mesmo?

NÊUMANNE: Apesar de ele dizer que é uma metamorfose ambulante, ele não mudou. Usa os mesmos métodos. No palanque, nos tempos do sindicalismo, a primeira coisa que aprendi foi o método dele. Ele botava dois companheiros para defender teses diferentes: um a favor de manter a greve e o outro contra. Ele olhava a reação do povo e decidia. Esse é o cara que colocou Dirceu versus Palocci. Ele governa na cizânia. Tem a sabedoria ancestral de dividir para reinar. Um repórter da revista “Playboy” perguntou a ele quais eram as duas maiores personalidades do século XX. Ele disse Gandhi e Hitler. Um pacifista e um assassino. Isso é ele.

Acredita que ele voltará a disputar a Presidência?

NÊUMANNE: Cada dia mais eu me convenço de que esse é o plano dele.

Há algo que o senhor sabe sobre Lula e não está no livro?

NÊUMANNE: Tem coisas que não posso provar e, se escrevo, ou vou para a cadeia ou tomo um tiro.

 

 

Acompanhe os comentários diários do programa DIRETO AO ASSUNTO
de José Nêumnne Pinto para Rádio Jovem Pan, no Facebook
No blog, tudo que você quiser saber sobre o lançamento:
Tudo o que sei de Lula

Agora nem confissão condena malfeitor

Acusação de ministro a colegas da bancada que representa
no primeiro escalão é uma confissão

Ao pretender livrar-se de um questionamento insistente sobre a faxina que andou fazendo em seu primeiro escalão, demitindo às pencas funcionários de dois ministérios, dos Transportes e da Agricultura, os ministros inclusive, a presidente Dilma Rousseff decretou para pôr fim à conversa: “Combater a corrupção não pode ser programa de governo”. Trata-se, ao mesmo tempo, de uma obviedade e de um truísmo. Seria, de fato, absurdo tornar a demissão de gatunos no governo um objetivo estratégico programado. Lutar contra a corrupção, contudo, é uma rotina que nunca deve ser abandonada por um bom gestor. A cada descoberta de qualquer malfeito, o malfeitor tem de ser punido com rigor, para impedir que a exceção se torne regra e o intolerável passe a ser inexorável. A prioridade, ela garantiu, será sempre “combater a miséria”. A menos que a miséria à qual se referiu seja a pobreza de quem ocupa cargos públicos para se locupletar, uma coisa nada tem que ver com a outra: a probidade administrativa não é inimiga da exclusão social. Ao contrário, quanto menor for a rapina do Tesouro, mais recursos públicos haverá para financiarem programas de inclusão social.

Sua Excelência só deveria ter feito tal afirmação se pudesse apoiá-la não na confiança ou na esperança, nem mesmo na convicção, mas na certeza de que os focos de furto de seu governo se limitassem às áreas que se pensa que ela saneou expulsando da Esplanada dos Ministérios Alfredo Nascimento, do PR, e Wagner Rossi, do PMDB, na companhia de vários asseclas. Tudo indica que não é bem assim. Seu ministro do Turismo, Pedro Novais (PMDB-MA), aquele que pagou uma conta de motel com dinheiro público em São Luís, encontrou uma boa justificativa para fazer vista grossa ao que se faz de errado nas proximidades de seu gabinete, ao reconhecer num de seus depoimentos no Congresso a probabilidade de haver irregularidades na gestão orçamentária de sua pasta sem que ele saiba. Acatou, com isso, o exemplo do macaquinho que não vê, não ouve nem fala e radicalizou a convicção do antecessor e padrinho da presidente, Lula da Silva, que nunca soube e, por isso, jamais puniu. A lei Novais é mais abrangente: nenhum subordinado cometeu delito algum se o chefe dele não tomou conhecimento.

Mas – como, infelizmente, tem ocorrido no Brasil nesta quadra – a sentença de Novais logo perdeu sentido quando assomou à cena o baiano Mário Negromonte, correligionário do paulista Paulipetro Maluf. Ele trava uma encarniçada luta pelo poder não nos corredores palacianos, como se deveria esperar num regime presidencialista que um dia já foi qualificado de monárquico, mas, sim, nos intestinos da bancada de seu partido governista, o PP. Acusado publicamente de ter criado uma versão pepista do episódio alcunhado de “mensalão”, ou seja, de propor cargos ou mesada de R$ 30 mil a colegas da bancada federal em troca do apoio deles a seu pleito de impedir que seus adversários internos lhe arranquem da mão a pasta conquistada, o ministro não se limitou à óbvia negação como defesa: partiu para o ataque em entrevista a O Globo na qual recorreu ao exemplo bíblico de Caim contra Abel, avisando que, “em briga de família, irmão mata irmão e morre todo mundo” e profetizando: “Isso vai virar sangue”. Pior ainda: acusou vários colegas de partido de não terem currículo ou carreira, mas “folha corrida”.

Ninguém protestou ou desmentiu o desabafo do ministro, que se esqueceu de uma premissa básica: ele não foi convocado para a pasta por seu notório saber sobre urbanismo nem pela eventual admiração de Dilma, tida como “gerentona” e assim vendida por Lula ao eleitorado, por sua capacidade de gestor. Nada disso. Negromonte é mais um dos frutos do pomar da governabilidade. Ele está no primeiro escalão do governo para que a chefe deste possa contar com seus colegas de partido nas votações de projetos que interessem ao governo federal no Congresso. Em nosso presidencialismo de coalizão, o ilustre baiano representa exatamente aqueles seus companheiros que ele acusa de serem fichados pela polícia. Não será, por isso, fora de propósito considerar a afirmação de Sua Excelência uma confissão. Ainda assim, contudo, a chefe não o demitiu. Nem sequer lhe puxou as orelhas.

Nos últimos dias especulou-se muito sobre a possibilidade de nas hostes do lulismo explícito reinar a desconfortável sensação de que a propalada faxina de Dilma, cujo ímpeto de limpeza despertou o apaixonado apoio do senador Pedro Simon (PMDB-RS) e de mais alguns gatos-pingados no Congresso, causaria danos à imagem do paraninfo da presidente. Algumas evidências explicavam a futrica: três dos quatro ministros demitidos este ano por suspeitas de corrupção, Antônio Palocci, da Casa Civil, além de Alfredo Nascimento e Wagner Rossi, forem herdados do padrinho pela afilhada. Aliás, o quarto, que não foi acusado de furto, mas de excesso de sinceridade, ou seja, escassez de hipocrisia, Nelson Jobim, da Defesa, também fazia parte do mesmo legado.

Fosse futrica ou verdade, certo é que o súbito abandono da vassoura surpreende. E aponta para um avanço nefasto. Muito se furtou em governos anteriores a Lula, inclusive nos que se apresentaram como faxineiros, Jânio Quadros, Fernando Collor e os generais do Almanaque. Mas “nunca antes na história deste país” nenhum chefe de governo se atribuiu com tanto entusiasmo o papel de “perdoador-geral da República” como o fez o ex-dirigente sindical. Se Negromonte não for demitido, ficará a impressão de que a gestão de Dilma tornará inócua a única atitude que tem levado delinquentes à condenação. Antigamente só os réus confessos eram condenados. Tendo Negromonte confessado de forma indireta ao acusar seus pares, agora nem mesmo a confissão levará alguém para trás das grades. É a impunidade plena, geral e irrestrita?

 

Bastidores Líderes© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 31 de agosto de 2011, p. A2

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