Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Política 2010/2009

O banquete das migalhas de Sarney e Temer

PMDB pode fingir que tem força, mas ninguém precisa acreditar nela

O PMDB está em festa: três meses depois de ter comemorado um amplo triunfo nas eleições municipais de outubro de 2008, entra em 2009 refestelado nas presidências da Câmara e do Senado. Ou seja, fez barba, cabelo e bigode! Como 11 entre 10 comentaristas políticos em atividade na imprensa, no rádio e na televisão consideram que os pleitos municipais de 2008 foram o vestíbulo e da composição das Mesas dirigentes das duas Casas do Congresso Nacional se tece o capacho (nunca antes uma palavra foi tão bem usada em todos os sentidos, modéstia inclusa) da eleição de 2010, enfim, estará o partido da resistência civil à ditadura militar pronto para assumir o poder na República, do qual foi apeado pela vontade do povo desde que José Sarney saiu do Palácio do Planalto. Mas esta será uma afirmação tão autêntica quanto a natureza peemedebista do “novelho” presidente do Senado.
O caso é que o PMDB não ganhou as eleições municipais. A aritmética de sua vitória renega aquele princípio matemático segundo o qual não é correto somar laranjas com bananas, pelo fato elementar de que, ao serem somadas, laranjas não passam a ter gosto de banana e vice-versa. Não se pode falar em vitória nacional de um partido num pleito municipal, seja na Suíça ou no Paraguai. Quanto mais num país do tamanhão do nosso! Mesmo tendo vencido a eleição no segundo maior município do País, São Sebastião do Rio de Janeiro, com um candidato tão puro-sangue quanto o maranhense do Amapá, o ex-tucano Eduardo Paes, e ainda que faça parte da coligação vencedora no maior de todos, São Paulo de Piratininga, desde os primórdios da disputa, nada há a ser comemorado pelo PMDB. Ou melhor: há, sim! Composto por gatos e sapatos que não se entendem nem se toleram, o PMDB tem mais é de cantar vitória para valorizar o próprio peixe. Os outros dirigentes políticos que tratem de separar a verdade da falsidade para não comprarem gato por lebre. Nós outros, que não temos cargos a distribuir nas províncias nem na capital, é que nada temos a ganhar numa festa em que o penetra se comporta como anfitrião e este se finge de morto só para dele tirar o pior.
O domínio do Poder Legislativo pelo maior aliado do governo, seja qual for o governo, não diz respeito à cidadania, tampouco à disputa decisiva que se dará em 2010, quando forem disputados os governos estaduais e a maior joia da coroa, a Presidência. Aí, o PMDB ganhará o prêmio que merece no cenário político nacional: o Oscar de coadjuvante de qualquer vencedor de uma eleição de verdade. Ora, dirão os “idiotas da objetividade”, Itamar Franco militou no PMDB e foi presidente da República. Sim, mas a situação atual não pode ser comparada com a da Nova República, quando Sarney reinava no Planalto e o dr. Ulysses dava as cartas na Praça dos Três Poderes. Como Sarney, saído da cúpula do partido que servia à ditadura, a Arena, para ser vice de Tancredo, que voltara ao PMDB após have ter fundado o PP com o arqui-inimigo Magalhães Pinto, Itamar era vice – do ressurecto Collor – e, portanto, desembarcou na Presidência sem um mísero votinho que sequer aquecesse o chá das 5 das velhinhas inglesas. Agora mandando de novo no Congresso e sem candidato à Presidência, o PMDB se manterá mordomo, mas tão cedo não vai ser castelão.
A vitória de Sarney no Senado e de Michel Temer (SP) na Câmara só confirma a velha vocação que o Parlamento tem no Brasil de bem servir aos senhores do Poder Executivo. Assim foi sempre, à exceção da chamada Nova República, quando o multipresidente do partido, da Constituinte e da Câmara amarrou seu cavalo no mastro da bandeira e deixou ao noviço maranhense as pompas e circunstâncias dos toques de corneta no Alvorada. Em nossa meia-democracia das urnas, o poder popular expresso pelo voto, legítima manifestação de soberania, é atenuado, ou melhor, moderado, como já se dizia no Segundo Império, pelo método de representação escolhido.
O voto proporcional para a Câmara dos Deputados, na qual em teoria o poder popular seria exercido por representação, evita cuidadosamente a interferência do cidadão incômodo. O truque para escamotear a possibilidade de intromissão do populacho nas decisões tomadas pelas elites dirigentes da burguesia patronal, da casta sindical e das cúpulas partidárias também é facilitado pela forma como funciona o Senado Federal. A igualdade aritmética das bancadas de Estados díspares em tamanho, população e importância econômica ajuda a diluir o poder popular num caldo grosso e insípido de interesses paroquiais e ambições classistas. Sarney e Temer passam a ser os encarregados de mexer essa poção.
Isto pode ser muito bom para eles e para os cupinchas que dividirão com ambos as mordomias deste poder de fancaria. Mas nada significa nem para o poder real, que será disputado daqui a dois anos, nem para a cidadania, que se manifestará nas urnas e, depois, se recolherá ao silêncio, “bestializada”, como definiu o historiador José Murilo de Carvalho, até a eleição seguinte, em 2014. Em 2010, e depois de quatro em quatro anos, a cidadania escolherá seu chefe e este terá entre seus poderes os instrumentos de cooptação dos parlamentares que, na mesma ocasião, a mesma cidadania escolher. É melhor que o arbítrio das ditaduras civis e militares de antanho. Pode até ser melhor que as farsas passadas do Império moderado ou das eleições de bico de pena da República Velha. Ninguém duvida. Mas é algo bem diferente de uma democracia de verdade, com instituições impessoais, Poderes autônomos, recall e transparência na gestão e, sobretudo, na manipulação dos bens públicos.
O PMDB tem o direito de festejar as migalhas no banquete dos poderosos de verdade. Nós, não! Ainda temos um imenso deserto de homens e ideias a percorrer.

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira 04 de fevereiro de 2009, p.A2

O dr. Tarso e o lar, amargo lar, de Lara

Para nosso ministro da Justiça, quando os fatos e os direitos das outras pessoas renegam os argumentos que lhe são fornecidos pela própria ideologia, pior para fatos, direitos e pessoas

Pode-se criticar o ministro da Justiça, Tarso Genro, pelo estilo tortuoso com que fala e escreve, por não levar em conta os pareceres, o que deveria fazer antes de tomar decisões importantes, e, até por isso, decidir errado. Mas nem seus críticos mais ferozes deixam de reconhecer que mais que os obsessivos homens de fé cuja vida a História registra ele tem convicções muito firmes. Nada o abala naquilo que ele tem de mais sagrado: a interpretação da vida real, não segundo os acontecimentos, mas, sim, as idéias que cultiva.
Tomemos o caso do boxeador cubano Erislandy Lara. Ele e seu companheiro de equipe no Panamericano do Rio de Janeiro Guillermo Ringondeaux fugiram da delegação de seu país e se refugiaram numa praia, na expectativa de lutar profissionalmente na Alemanha. Surpreendidos pela Polícia Federal (PF) brasileira, foram ambos embarcados num jatinho particular de volta ao lar, amargo lar. Aos críticos recalcitrantes do longevo tirano Fidel Castro e de seus queridíssimos amigos no governo brasileiro Sua Excelência respondeu com uma explicação singela: voltaram porque quiseram, ou melhor, porque pediram. E, assim, só teríamos mesmo de nos orgulhar de viver num país em que a polícia existe não para prender delinqüentes, mas para devolver nostálgicos estrangeiros ao doce convívio familiar. Os mais intransigentes dos críticos certamente dirão que melhor fariam nossos federais se se ocupassem em reprimir o contrabando e dizimar as quadrilhas do tráfico de drogas. Mas ninguém discordará que a captura de boxeadores fujões, por mais pegada que eles tenham, compromete menos a integridade física de nossos agentes da lei que os fuzis de mira telescópica dos traficantes dos morros.
Erislandy Lara fugiu de casa. E da Europa e dos Estados Unidos tem repetido insistentemente que não pediu para voltar, mas foi convencido a isso pelas más notícias de Cuba que os agentes brasileiros reproduziam com a mesma eficiência com que impediam seus contatos com a imprensa. Isso não impede, porém, que o ministro Genro continue afirmando que os boxeadores voltaram para Cuba a pedido, e não por uma nada livre nem espontânea pressão.
Então, não é de estranhar que, na concessão de asilo a Cesare Battisti, as convicções ideológicas de Sua Excelência considerem nulas as evidências de que a Itália é uma República democrática; a Justiça italiana tem uma tradição que vem do tempo dos Césares; e a confirmação de suas penas por um tribunal em Estrasburgo retire delas quaisquer laivos de perseguição. Porque, para Tarso Genro, “contra argumentos não há fatos”. E, se os fatos não confirmam suas ideias, danem-se os fatos.

© Jornal da Tarde, publicado no Jornal da Tarde, terça-feira 3 de fevereiro de 2009, p. 2A

Lobos que perdem as rugas, mas nunca a manha!

 

A maior artífice do terceiro mandato é a corte de áulicos que sustenta Lula

 

Muitos têm sido os exemplos recentes da natureza eleiçoeira de nossa democracia: a 20 meses de eleições, não há agente público neste país que não tenha armado sua jogada para as disputas de 2010, mas nenhum deles expõe suas cartadas aos olhos da multidão.
A emenda à Constituição pondo fim à reeleição e aumentando o mandato presidencial para cinco anos, por exemplo, resolve um problema interno do PSDB, que, como de hábito, tem dois candidatos fortes que se esmeram em enfraquecer um ao outro, na esperança de que o eleitor os resgate no processo eleitoral. Os governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas, Aécio Neves, têm interesse na matéria, que passou pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, já que ela seria uma forma de um garantir ao outro a possibilidade de, preterido agora, candidatar-se em seis anos. Gente precavida! Será? Só uma alma ingênua e ignorante de nossa Realpolitik desprezaria a possibilidade de o pretendente de hoje, se galgar o poder com a regra, mudá-la e ressuscitar a reeleição em 2014: o único cânon imutável do mandonismo brasileiro é o de abolir todas as normas perenes. Se enxergassem um palmo além da própria ambição, os dois tucanos perceberiam que tal lei ainda vige. E mais: o presidente do PPS, deputado Roberto Freire (PE), tem apregoado a todos os ventos (e em todos os desertos) que este casuísmo é incentivado pelos governistas, empenhados em abrir uma brecha, seja para um novo mandato para Lula (com mais cinco, e não quatro anos), seja para esticar o atual em mais 12 meses, usando a tática do “se colar, colou”.
Nem a velhinha de Taubaté ignora o sonho de Sua Excelência Excelentíssima de não sair do trono. Para começo de conversa, será subestimar o engenho político de Lula não perceber que, se fossem francas suas afirmações de que não pretende ficar, ele teria apontado em sua grei alguém com mais chances de derrotar Serra ou Aécio que a ex-guerrilheira Dilma Rousseff. Ora, direis, a cirurgia plástica a que ela se submeteu é o primeiro indício de que há um projeto para valer em torno dela. Difícil será resistir a dois comentários cínicos a respeito: pode ser que a operação tenha amenizado as feições da chefe da Casa Civil, mas dizer que a embelezou será um caridoso exagero retórico; e, se mudança no visual levasse à vitória em eleições, a venerada Dercy Gonçalves e Marta Suplicy não perderiam uma sequer. Cirurgias plásticas mais bem-sucedidas que as feitas nas citadas já teriam tornado a primeira-dama, dona Marisa Letícia, nossa própria versão da argentina Cristina Kirchner. E ainda: se falta de formosura levasse à perda de voto, o presidente da República não teria vencido as eleições que venceu. Igualmente o sucesso eleitoral recente de José Serra não pode ser justificado pelos “belos” olhos emoldurados por suas fúnebres olheiras. Num rasgo excepcional de boa vontade, é possível recorrer ao precedente Pitta para vislumbrar alguma chance de, sendo realmente a candidata in pectore do presidente, a chefe da Casa Civil, sem liderança alguma no partido mandante, o PT, ser o mais recente e surpreendente poste de sucesso na democracia brasileira.
Há, contudo, um obstáculo maior para Dilma que o favoritismo de Serra e o charme de Aécio: é a ânsia de ficar – se não de Lula, pelo menos dos componentes da aliança que se refestela no poder. O chefe do governo não se cansa de negar a vontade de voltar a disputar uma eleição, mas não há força humana (e, ao que parece, nem divina) que o faça descer do palanque. Está certo que ele fez vazar na imprensa que desautoriza a mão-de-gato do fim da reeleição, pondo, assim, ponto final nesta manifestação de neocontinuísmo. Mas logo foi à Venezuela e, a pretexto de apoiar seu compadre Hugo Chávez, abusou dos próprios conhecimentos sobre a cultura do país vizinho para defender a reeleição ilimitada deste, enquanto o povo de lá assim o desejar. A teoria, transplantada para o lado de cá da fronteira, encontra a versão para o português da nova ortografia na boca do presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, sempre disposto a exibir sua condição de serviçal das ambições cortesãs. Por falar nisso, nunca o chefe do governo brasileiro desautorizou a emenda constitucional que permitiria a segunda reeleição, da lavra de seu amigo do peito Devanir Ribeiro, também do PT paulista.
Mesmo, contudo, se noçço líder cultivasse a mais rara das virtudes entre gestores públicos – a sinceridade –, remanesce contra a hipótese Dilma uma das manifestações políticas mais permanentes de nossos regimes, sejam civis ou militares: o queremismo. Foi esta vontade de querer manter alguém para continuar mamando nas tetas da viúva que, em 1950, devolveu o poder ao ex-ditador deposto Getúlio Vargas e ampliou os mandatos dos generais Castelo Branco e João Figueiredo, na vigência da ditadura militar de 1964, e do civil José Sarney, antes que a inflação reduzisse a pó a popularidade gozada por seu simpático bigode. Hoje, entre os beneficiários de uma eventual prorrogação por um, quatro ou cinco anos do statu quo lulista, o vice que a diverticulite levou ao topo faz parte da casta que planeja, nas catacumbas do poder, a preservação do chefe e a cristianização (que jogou o pessedista mineiro Cristiano Machado no lixo da história na eleição em que Getúlio venceu Eduardo Gomes) da “megagerenta” que não virou miss.
Casuísmo, queremismo e cristianização: nossos políticos adotam o conselho do príncipe Salina, protagonista de O Gattopardo, de Giuseppe di Lampedusa, de fingir que querem mudar para que nada mude. Como o lobo da ditado, eliminam as rugas, mas nunca perdem a manha. E, como sabem que Albert Camus tinha razão ao pôr na boca de Calígula (em cartaz em São Paulo) que as facas “continuam as mesmas, só mudam os afiadores”, seu único projeto é continuar afiando.

 

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira 21 de janeiro de 2009, p.A2


Crítica aos ardis anunciados

Políticos conspiram contra a vontade do povo para tirar proveito

Dois recentes institutos da democracia brasileira serão postos em xeque em 2009: a eleição em dois turnos e a reeleição.
A primeira o será pela jurisprudência, a ser fixada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) quando, findo o recesso, em fevereiro, reabrir os trabalhos com o julgamento do governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, que produzirá efeitos sobre processos similares contra seus colegas do Maranhão, Jackson Lago, e de Santa Catarina, Luiz Henrique. Se Cássio for cassado (e isso sinalizar solução idêntica para os outros dois), a legislação eleitoral indica que seu sucessor será o segundo colocado na disputa – no caso paraibano, o senador José Maranhão. Tudo parece muito simples, porque a tradição eleitoral brasileira sempre foi a da disputa num turno só e isso permite a substituição do primeiro pelo segundo, deste pelo terceiro e daí em diante. Só que no segundo turno o eleitor toma uma decisão definitiva e, aí, não é o caso de falar em segundo colocado, mas em derrotado. Ou seja, o eleitor escolheu entre um e outro e a posse do preterido por interferência judicial implica contrariar a vontade popular expressa nas urnas. Não podendo ser empossado o vice, também réu no mesmo processo eleitoral, evidencia-se uma lacuna a ser preenchida pelo Poder Judiciário na interpretação de uma lei incompleta. Que fazer? Entregar o cargo ao presidente da Assembleia? Convocar eleições para o cumprimento da metade do mandato até as eleições seguintes? Isso não foi previsto pelo legislador apressado na hora de criar uma norma que revolucionou a escolha do mandatário pelo voto direto – norma, aliás, aprovada na prática. Cabe repensar o sistema eleitoral preenchendo esta lacuna para evitar que o STF tenha de optar entre a impunidade eventual e o intolerável menosprezo à manifestação majoritária do eleitorado.
Menos sutil e mais grave é a discussão no Congresso do projeto que acaba com a reeleição e estica os mandatos executivos de quatro para cinco anos. O golpe de aumentar o mandato é vil, acintoso e não é inédito. O Congresso já o aplicou no governo Castelo Branco, o primeiro da ditadura militar, que foi justificada como uma necessária intervenção para evitar uma quebra de regras democráticas por uma eventual República sindicalista e terminou por nos impingir dois decênios de arbítrio. E também já foi adotado a pretexto de reorganizar o calendário eleitoral.
A justificativa que se dá ao golpe agora é callhorda: trata-se de uma tentativa de “reparar o erro cometido pelo Congresso ao se deixar comprar para aceitar a proposta continuísta do ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso”. Se já é um absurdo sem conta tentar reparar um erro cometendo outro, mais absurdo isso se torna pelo fato de se basear em acusações não comprovadas e agressões à lógica dos fatos. Não há provas de que Fernando Henrique tenha comprado a reeleição e, se provas houvesse, seria o caso de levá-las à Justiça e o ex-presidente e os parlamentares que ele tivesse comprado ao banco dos réus, passíveis de duras penas. Em vez disso, vem-se com essa conversa de enganar trouxa para atender aos interesses dos poderosos do momento, com a cumplicidade de próceres da oposição, também tentados pela possibilidade de tirar proveito na tramoia.
Tramoia, sim! É até admissível discutir a sutileza do argumento, antes exposto, sobre a interferência eventualmente descabida da Justiça ao alterar a vontade popular empossando um candidato derrotado para punir o vencedor e condenando por extensão o eleitor que o escolheu. Mas a extinção do instituto da reeleição será o resultado de um golpe sórdido das elites dirigentes da política nacional contra a cidadania sem voz. O fato de Lula ter sido reeleito presidente, apesar de o PT sempre haver discordado da reeleição, e de seus correligionários denunciarem com estardalhaço e poucas provas a compra dos votos dos parlamentares que a aprovaram é a evidência mais cabal de que – seja qual for seu vício de origem – a oportunidade de manter o governo que aprova e afastar o governante que reprova tem sido usada com sabedoria pelo cidadão. O exemplo de Lula é o mais forte, mas não é único: as últimas eleições municipais são riquíssimas em comprovações de que a possibilidade de manter um bom mandatário tem sido bem aproveitada pelos eleitores brasileiros. O caso de São Paulo é exemplar: o paulistano optou entre dois gestores cujas obras já haviam sido por eles conhecidas e vivenciadas. Ou seja: a democracia pode mesmo ser definida como o menos pior dos sistemas políticos escolhidos pelo homem para governar suas comunidades. E deve ser aperfeiçoada.
Não é de todo descabida, ainda, a hipótese de uma mão-de-gato repousar sob as almofadas destes ardis anunciados contra a democracia para tornar viável a terceira reeleição consecutiva de Lula – por cavilosa omissão. Os políticos empregam seu engenho e arte para manter o poder com mais empenho e zelo até do que para chegar a ele. Não faltam astúcia e vontade a Lula e a seus companheiros de gestão e, se há um momento favorável para legislar em proveito próprio, é este em que o prestígio popular do chefe do governo bate recordes no País – a ponto de chamar a atenção do mundo, como demonstra sua colocação, inédita para brasileiros, entre os homens mais influentes do planeta, conforme a revista americana Newsweek. A entrevista do deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) atribuindo à vontade do povo a proposta indecente de ruptura constitucional é mais uma demonstração da necessidade de desarmar as arapucas com que tentam transformar a democracia, árdua conquista de todos nós, em pretexto para permanência no poder de um grupinho cujas ambições não têm limites.

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira 7 de janeiro de 2009, p.A2

Um vexame para o bem

O vexame do Congresso, que produziu textos conflitantes autorizando a videoconferência em interrogatórios na justiça criminal, poderá ser relevado se Lula sancionar o melhor e vetar o outro
A notícia da existência de dois textos conflitantes à espera da sanção presidencial sobre o mesmo tema – e um tema de importância capital para a cidadania, a autorização legal para usar videoconferência em depoimentos em processos penais – é, ao mesmo tempo, alvissareira e vergonhosa.
Alvíssaras para deputados e senadores que aprovaram algo que é, ao mesmo tempo, óbvio e salutar. A necessidade da autorização legal para juízes interrogarem acusados sem precisar que estes se desloquem dos lugares onde vivem – celas de prisões – para as salas de audiência nos fóruns criminais é evidente. Não faz sentido manter uma tropa de 2 mil policiais militares fortemente armados e uma frota para escoltar e transportar presos de um lado para outro a pretexto de lhes dar pleno direito de defesa. Pois a videoconferência permite a realização do interrogatório à distância sem os riscos à segurança provocados por tais deslocamentos nem violações das prerrogativas dos acusados, que podem manter contato com seus advogados sem restrições. Ao legislar sobre o assunto autorizando a justiça a se beneficiar da tecnologia de ponta para evitar o perigo provocado por eventuais confrontos das escoltas dos presos transportados para interrogatórios com os asseclas destes, o Congresso dá uma demonstração, que infelizmente não tem sido muito comum (como deveria ser), de também legislar em favor do cidadão representado pelos parlamentares, e não apenas dos interesses de seus membros.
Infelizmente, esta lei de alta relevância foi elaborada de forma irregular, pois no mesmo dia, 17 de dezembro, foram aprovados dois textos conflitantes – um pelo Senado e outro pela Câmara -, ambos encaminhados à sanção presidencial. O episódio resulta da pressa das votações feitas a toque de caixa antes do recesso das festas de fim de ano e demonstra certo descaso pela grave e capital tarefa de deputados e senadores de legislarem para promover o bem comum.
Trata-se, contudo, de um vexame que não produzirá efeitos negativos de monta, caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha o cuidado, que os parlamentares não tiverem, de mandar sua assessoria pesar os pós e contras dos dois projetos de lei para vetar um e sancionar apenas o melhor: aquele que de fato atender aos interesses da cidadania e à economia do Estado sem ferir nenhum dos direitos elementares de defesa plena que os réus em processos penais devem gozar num Estado de Direito que se preze. E que o episódio grotesco na história de nossa ainda recente democracia sirva de exemplo a todos os mandatários e servidores nos três Poderes da República para que prestem mais atenção no que fazem. Afinal, todas as leis votadas nos plenários do Congresso produzem efeitos para o bem ou para o mal na vida dos cidadãos e, por isso, merecem atenção redobrada de seus autores. Em especial uma como esta, que trata do mais delicado e relevante dos temas: a vida de todos nós.

© Jornal da Tarde, publicado no Jornal da Tarde, terça-feira 6 de janeiro de 2009, p. 2A

Batalha do Rio confirma profecia de Nabuco

Batalha do Rio confirma profecia de Nabuco

Retomada de territórios controlados pelo tráfico causa-lhe prejuízos, mas não acaba com violência
Os jornais noticiaram neste fim de semana a denúncia anônima da fuga do traficante Alexandre Mendes da Silva, o Polegar, de uma das 16 “comunidades” do Complexo do Alemão, na Penha, zona norte do Rio, na mala de uma viatura policial a serviço da delegacia de Cabo Frio, no litoral fluminense. Com presteza inusitada, a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro distribuiu uma nota na qual tentou pôr ponto final ao vexame, que contraria a saga de heroísmo de que se revestiu a “histórica reocupação” pela sociedade nacional, representada pelo Estado Democrático de Direito, de territórios que vinham sendo governados na prática por bandos criminosos. Reza a declaração oficial: “As investigações feitas pela Polícia Civil apontam que a denúncia anônima feita por telefone à Ouvidoria do Ministério Público, de que o traficante Alexandre Mendes da Silva, o Polegar, e um comparsa teriam fugido do Morro do Alemão, em um carro da delegacia de Cabo Frio, é falsa. Mesmo assim, a polícia vai continuar apurando a denúncia para dar total transparência ao trabalho da Polícia Civil.” É claro que a denúncia pode ter sido de fato “falsa” e um profissional de comunicação responsável, como pretende ser o autor destas linhas, não tem autoridade alguma para contestar a conclusão dos investigadores. Mas até este quase “Velhinho de Uiraúna” tem obrigação de pedir mais explicações aos solertes investigadores do caso. Pois o teor lacônico da nota não condiz com a enxúndia com que o assunto tem sido tratado pelas autoridades policiais nos últimos dias.
Para começo de conversa, a Polícia Civil fluminense não ocupa propriamente os primeiros degraus no pódio das instituições confiáveis desta República. Então, conviria que deixasse para se pronunciar oficialmente quando tivesse mais informações sobre o caso. Por exemplo: teria, de fato, alguma viatura posta à disposição do distrito policial de Cabo Frio circulado pelas vielas do território conflagrado, passando pelos bloqueios montados por colegas ou pelas tropas federais que os ajudaram na operação? Houve razão funcional para que isso ocorresse? E, se nenhum veículo a serviço de delegacia distante percorreu os becos das favelas do Alemão, por que cargas d’água o anônimo teria feito a tal denúncia? É possível que estas questiúnculas deixem de ser respondidas, sob a alegação de que as tropas que libertaram as populações de decênios de jugo do crime têm mais o que fazer do que dar atenção a um jornalista ranzinza.

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