Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Política 2008/2007

Alvíssaras para a sensata humildade de Lula

Alvíssaras para a sensata humildade de Lula

Que tal o exemplo da saúde e da educação para todo o Ministério?

É alvissareiro que, 4 anos, 2 meses e 15 dias após ter assumido o primeiro governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha abandonado a retórica arrogante e autocomplacente do “nunca antes na História deste país” e adotado um discurso mais humilde. Ao lançar o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), com o objetivo construtivo de avaliar o desempenho das escolas de todo o País (incluindo as que ensinam a crianças a partir de 6 anos) e estabelecer um sistema de metas a partir dos resultados obtidos, ele reconheceu que a rede escolar no Brasil vive “o pior dos mundos”. Não houve uma autocrítica (afinal, sua primeira administração teve participação nesse desempenho trágico e isso não foi reconhecido explicitamente). Mas o reconhecimento (apesar de óbvio) da situação já é um passo à frente para quem sempre fez questão de falar como um Dr. Pangloss ao analisar a própria obra.
Mais ainda se se levar em conta que, depois de passar o primeiro mandato atirando farpas na oposição, Sua Excelência agora pediu apoio a ex-ministros da Educação, como Paulo Renato Souza, Murilo Hingel e Cristovam Buarque, que ele próprio demitiu de forma desonrosa pelo telefone. E o fez reconhecendo, num rompante inesperado, que não era, entre os presentes à solenidade, a pessoa mais qualificada para discutir a melhoria do ensino. Isso torna sua promessa de se empenhar para mudar a realidade escolar mais passível de ser cumprida do que outras feitas no passado, ao sabor de campanhas eleitorais, sobre palanques nos quais ele gosta de subir até para evitar o desconforto de seu gabinete.
A eventual infelicidade na marca do cavalo-de-batalha do projeto – o exame para avaliar o desempenho das escolas para alfabetizar crianças, rumo que contraria o histórico e vão empenho de alfabetizar adultos – tem um lado positivo. O diminutivo “provinha” caracteriza um certo carinho, impróprio para o rigor que deve inspirar qualquer tipo de avaliação, ainda que se trate do desempenho escolar de crianças estreantes na escola. Ou, o que pode ser pior, denotar uma ainda mais inadequada depreciação de seu valor. Mas isso também conota uma benéfica desatenção aos cânones do marketing político, que têm sido prioritários nesta gestão federal petista.
Tais críticas perdem relevo, ainda, diante da importância de outro conceito construtivo enunciado pelo presidente nas declarações feitas de improviso durante o lançamento de um programa do qual um dos raros aspectos infelizes é a definição de “PAC da educação”. Pela iniciativa de pegar o touro da ignorância à unha e pelo cheiro de efetividade que as medidas anunciadas na semana passada têm, a comparação com a colcha de retalhos feita a gosto dos marqueteiros políticos do tal Programa de Aceleração do Crescimento é inexata e injusta. Em mais uma rápida entrevista, ocasião em que costuma escorregar em palpites nada inspirados, Sua Excelência justificou a permanência do ministro da Educação, Fernando Haddad, e a escolha do médico fluminense José Gomes Temporão para o Ministério da Saúde. Segundo ele, “na saúde, se você brincar, é morte. Na educação, é analfabeto.”
Por mais deselegante que seja do ponto de vista semântico, a sentença contém uma verdade elementar que pode evitar o naufrágio do segundo governo Lula nas duas áreas citadas e, na certa, também teria efeitos profícuos nas outras, caso seu chefe supremo tomasse a sábia decisão de estendê-la ao primeiro escalão inteiro. A escolha de cidadãos probos e de notórios saber e experiência no setor a cargo de cada Ministério deveria ser uma regra administrativa usada para o preenchimento de toda a equipe de governo. Ninguém discorda da importância capital da saúde e da educação. Mas por que não estender esse critério da competência técnica e da honorabilidade pessoal para todas as áreas da administração federal? Se este critério já tivesse sido adotado, talvez fosse evitado o mico Odílio Balbinotti. Aliás, se perguntar não ofende, lá vai a pergunta: quem usa laranjas não pode ser ministro, mas pode legislar, é?
Lula pode argumentar – e não deixará de ter razão – que para governar, nesta nossa democracia, é necessário assegurar um mínimo de governabilidade, palavrão esquisito que pode ser traduzido na prática por obter apoio nas votações de interesse da sociedade na Câmara e no Senado. É sensato reconhecer a responsabilidade dos líderes partidários no samba do crioulo doido em que se têm transformado as reformas ministeriais no Brasil desde a instauração desse regime esquisito que mescla presidencialismo monárquico com parlamentarismo leviano.
Com o aval do eleitorado em outubro, o controle do Congresso reafirmado pela escolha de Renan Calheiros (PMDB-AL) e de Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a presidência do Senado e da Câmara e o respaldo com que conta no Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente da República não tem por que depender da improvável compreensão dos dirigentes do fragmentado quadro partidário nacional. É de duvidar que um presidente de partido se negasse a apresentar-lhe candidatos de ilibada reputação e indiscutível competência para a pasta reivindicada, se ele simplesmente não abrisse mão disso. O exemplo que ele deu fortalece essa hipótese: o novo ministro da Saúde é um especialista respeitado e faz parte da cota do PMDB, comemorada como “espetacular” pelo presidente do partido aliado, Michel Temer (SP).
Como sonhar não é passível de multa da Super-Receita, talvez seja o caso de imaginar que a súbita e surpreendente demonstração de humildade de Lula no lançamento do PDE, na semana passada, possa um dia render um fruto de mais proveito para todos: o fim do loteamento da Esplanada dos Ministérios entre políticos nem sempre honestos e quase sempre jejunos nas pastas que assumem.

 

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 21 de março de 2007.

Quem é que tem mais direito à vida?

Quem é que tem mais direito à vida?

Em vez de só justificar o algoz o Estado deveria era proteger a vítima

Há uma semana, em Pernambuco, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva perpetrou uma rima pobre e infeliz ao definir a tragédia da violência como mera “questão de sobrevivência”. Como aquela do Raimundo com o “vasto mundo” do poema de Carlos Drummond de Andrade, além de capenga, ela não é solução para nada. Pois, por mais que as condições de vida do agente da violência sejam duras, e ninguém vai ser impiedoso a ponto de negá-las ou não notá-las, não há justificativa ética para alguém eliminar outrem para obter um prato de comida ou um par de tênis. Nem isso deveria justificar o gesto fatal nem o presidente e tantos outros que militam em partidos ditos de esquerda e pretendem exercer a compaixão pelos pobres e desvalidos da Terra têm condições de explicá-lo. O Direito admite ser legítimo alguém, para evitar morrer, matar. Mas estender a legítima defesa ao extremo de tornar a morte alheia um meio de subsistência é um absurdo humano, moral, lógico e jurídico.
Não será justo atribuir esse deslize presidencial, o mais infeliz entre muitos, a uma manifestação de desumanidade, descaso e insensibilidade à dor de milhões de vítimas da brutalidade nossa de cada dia. Ele não é carola, mas notoriamente católico, como milhões de nós. Portanto, deve ter ouvido algumas vezes que o verdadeiro seguidor da palavra de Jesus Cristo oferece uma face quando o inimigo esbofeteia a outra. O trecho do Evangelho de Lucas que trata do perdão é talvez o mais belo do Novo Testamento inteiro. Mais que belo, ele instituiu o princípio do amor, desconhecido à época e magnificamente tratado por São Paulo, particularmente ao pregar a prioridade da caridade sobre todas as virtudes, na Primeira Epístola aos Coríntios. O amor é lindo, o amor constrói, foi a caridade descrita e defendida pelo apóstolo que fundou a civilização ocidental moderna. Mas até este belo conceito precisa ser relativizado para que seja possível o convívio social civilizado, fora da barbárie, cujas trevas as Escrituras Sagradas ajudaram a dissipar.
E é em nome dessa civilização do amor e, sobretudo, do direito sagrado e inviolável à vida humana que este escriba pretende nestas linhas alertar para a importância do que Lula falou sobre tema tão profundo, mas de forma tão ligeira. Pois a palavra do presidente ecoa uma série de mitos e preconceitos que, em nome dos nobres sentimentos em relação aos desvalidos e excluídos, termina por ocultar as verdadeiras motivações da mão que fere, apedreja, tortura e mata.
Sua Excelência e muita gente boa que milita em seu partido ou serve em seu governo acreditam ser possível inserir muitos dos protagonistas dos crimes brutais que envergonham o gênero humano no primado da necessidade. Não o crêem por mal, mas crêem mal. O que motivou a rima infeliz foi a execução do menino João Hélio Fernandes, de 6 anos, arrastado preso ao cinto de segurança do carro roubado da mãe em ruas de subúrbios do Rio. Presos os malfeitores, sua condição social de brasileiros remediados, com lares estruturados, alguns deles membros de famílias que freqüentam templos de seitas cristãs, ditas evangélicas, na moda na periferia das metrópoles nacionais, renegou a falsa noção de que os autores de atos brutais assim teriam de ter sido expulsos de famílias desfeitas e despejados diretamente em calçadas e sarjetas.
Recentemente, o mapa do crime no Brasil detectou a interiorização da ação delinqüente, desafiando a crença comum de que o caos metropolitano é a única cultura em que sobrevivem os micróbios da endemia da estupidez humana. É claro que a violência urbana existe. Como persistem os conflitos rurais. Mas o crime hoje é um negócio como outro qualquer, uma indústria do lucro, da qual usufrui não apenas quem viola a lei, mas também quem teoricamente tem a obrigação de reprimi-lo. A excelente reportagem de Marcelo Auler anteontem, na capa do caderno Metrópole, sobre os lucros auferidos pelas milícias nas favelas cariocas, não deixa dúvidas quanto a isso.
Assim sendo, o que as palavras do chefe do governo, autorizado pelo voto popular a permanecer no comando do Estado, devem provocar, mais que repúdio, será um debate sobre o que as motivou. Mortos João Hélio e Alana Ezequiel, de 13 anos, colhida por uma bala perdida num tiroteio entre policiais e bandidos em território do samba, esta na mesma idade em que, em São Paulo, Priscila Aprígio se tornaria paralítica, os políticos falam em exumar das gavetas do Congresso cem projetos que ali jazem. Mais que reduzir a maioridade penal, contudo, urge discutir por que é politicamente correto admitir o direito que se dá ao bandido, venha de que ambiente social vier, de dispor da vida alheia como meio para a própria subsistência. Por que homens de bem, como o presidente da República, seu ministro da Justiça, vários governadores de Estado e parlamentares vivem a tentar entender a motivação de quem aperta o gatilho, sem dar a mesma atenção a quem o disparo priva das dores e dos prazeres da existência?
Como se queixou o colega Alexandre Garcia em comentário para a TV, o malogro de nosso Estado de Direito no exercício que lhe cabe do monopólio da força legítima por delegação da sociedade se deve ao fato de este se empenhar na luta contra o crime, entidade vaga e mais difícil de ser atingida, e não no combate ao criminoso. Aí está o nó górdio da questão capital: em vez de só se esforçarem para entender o brasileiro que mata para viver, nossos estadistas deveriam evitar que aumente o número das vítimas de sua violência. E, sobretudo, respeitar os milhões de heróis anônimos que, enfrentando as mesmas vicissitudes dos que delinqüem, vivem honesta e pacificamente do suor do próprio rosto, o que, aliás, também preconizava o santo padroeiro desta metrópole cruel.

 

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 07 de março de 2007.

E o suor da paz?

E o suor da paz?

Recentemente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos ensinou que, às vezes, “a violência é uma questão de sobrevivência”. Sua Excelência gosta de umas parábolas, não direi bíblicas, para não ofender o estilo dos evangelistas, mas quase todas meio enigmáticas, como convém a um gênio da comunicação com o povo da rua, que é o caso dele. Esta, de fato, mais parece uma charada rimada que propriamente uma fábula. Seja o que for, seja como for, com rima e tudo, ela é uma bofetada. Pois, mais uma vez, como sempre quando um populista de esquerda fala, isso soa como justificativa do dedo que aperta o gatilho, e não como um jeito compassivo de pensar a ferida que sangra ou mesmo de afagar o parente da vítima, enxugar sua lágrima e lhe dar alguma razão para ainda acreditar na justiça dos homens e no Estado.
Será que a bala que paralisa os membros de Priscila Aprígio, de 13 anos, ferida num entrevero entre bandidos e policiais na porta de um banco garantiu a vida de seu atirador? É claro que, quando alguém lê uma frase infeliz, como a do presidente escolhido direta e soberanamente por milhões de brasileiros, apenas mais um palpite sem nexo no meio de uma porção deles, pensa logo no risco à vida das vítimas. Mas é preciso pensar também no destino dos milhões de brasileiros que comem o pão amassado pelo diabo para sobreviver sem recorrer à violência: eles elegem os cidadãos para a gestão dos negócios públicos e são obrigados a tomar conhecimento diariamente da luta que estes travam para que seja natural o direito dos que usam a violência como meio de vida, e não o de quem ganha a vida com o suor pacífico.

 

© Jornal da Tarde, terça-feira, 06 de março de 2007.

A quem importa a anistia de José Dirceu?

A quem importa a anistia de José Dirceu?

 

Para ser herói da democracia, não basta ter lutado contra a ditadura

 

 

 

Nestes dias em que as chamadas “flores do recesso” (no jargão da política, temas irrelevantes alçados às manchetes pela inatividade parlamentar) já estão murchas, duas falácias percorrem o Brasil do Oiapoque ao Marajó, ou melhor, do Chuí à Lagoa dos Patos, como diria “nosso guia”. Uma tenta dar relevo institucional à anistia solicitada ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo ex-deputado José Dirceu (PT-SP), cujo mandato foi cassado pelos colegas no ápice de um escândalo inadequadamente batizado de “mensalão” e mais inadequadamente ainda expurgado do debate político e da memória popular. A segunda justifica tal pedido pela pretensa impropriedade da punição imposta e também pelos relevantes serviços prestados à democracia pátria pelo ex-chefe da Casa Civil e ex-presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), no qual milita o presidente da República.

 

Ao contrário do que proclamam os próceres contra e a favor e do que propaga o noticiário, esse assunto não é de interesse público. É, sim, um pleito meramente pessoal, restrito a seu protagonista e ao grupo de aliados, amigos e apadrinhados, que têm interesse direto nas fatias de poder que possam alcançar por intervenção dele. O fato de muitos sócios desse clube privado e exclusivo ocuparem postos de importância no topo de qualquer um dos três Poderes republicanos não dá a essa reivindicação foros de coisa pública, muito menos republicana. Não interessa também se ela é justa ou não. Este raciocínio não comporta juízo de valor, mas a plana constatação de que não chega a ultrapassar os muros que cercam os quintais das casas desse varão e de seu séquito.

 

José Dirceu foi processado politicamente, sim, mas na forma da lei: sua punição decorreu de longo, acalorado e divulgado processo, durante o qual os princípios elementares de defesa de seu direito de cidadão foram amplamente contemplados e obedecidos. Chegou a ser defendido, de forma denodada, embora inusual, por um aliado da importância do então presidente do STF, Nelson Jobim, que em sessão histórica, mas de triste memória, daquela corte abandonou o martelo do julgador para se abrigar na toga de defensor. No fim de tal processo, foi condenado à pena máxima, não de morte, mas da catalepsia política, com a perda dos direitos eleitorais, cassados junto com o mandato parlamentar, que já estava por findar. Prova de que essa pena não é definitiva a fornece todo dia no Senado o alagoano Fernando Collor, que foi impedido de cumprir parte considerável do mandato presidencial para o qual fora eleito e, depois, de concorrer a eleições ao longo de um decênio, mas agora representa seu Estado no Senado da República. Ou seja: José Dirceu não é um cadáver político; no máximo, um urso que terá de hibernar por dois mandatos.

 

O apenado atribui a condenação à perseguição de desafetos. Não se lhe pode negar o direito de pensar assim. Embora a votação de sua sentença tenha sido feita num plenário composto por colegas de ofício mais propensos à proteção corporativista que à punição exemplar e para os quais os desejos do Poder Executivo, no qual havia exercido, até havia pouco, cargo de relevo, sempre tiveram peso considerável. Contra sua presunção é possível argüir que, se a decisão de seus pares foi de caráter político, deu correta prioridade ao interesse da instituição, cuja imagem se encontrava arruinada por crimes escabrosos de má gestão, dos quais foi apontado como mandante. Se não se produziu até hoje prova na Justiça comum contra ele, o mesmo pode dizer Collor, que ele próprio, na Câmara, ajudou a derrubar da Presidência, mas nunca foi condenado pela Justiça a cumprir pena. Não há uma instituição no Estado de Direito em vigência neste país que possa ter sofrido alguma interferência maléfica da decisão em pauta. Portanto, seu pleito pode até ser justo, mas é exclusivamente dele.

 

Da mesma forma que nenhuma instituição republicana foi ferida pela decisão da Câmara, contestada por José Dirceu, padece de qualquer relação com os fatos históricos o argumento de que ele merece o perdão pelos relevantes serviços prestados à luta pela democracia conquistada pela sociedade brasileira. No dia em que foi julgado, ele se alçou, na peroração de defesa, à condição paulina de “combatente do bom combate”. Faltaram ao então líder do PSDB – sempre próximo do microfone de apartes, mas aparentemente pouco habilitado para usá-lo -, Alberto Goldman (SP), informações suficientes para lhe perguntar sobre o combate a que se referia o réu. Não há registro histórico de ter ele participado de qualquer enfrentamento, ao contrário de sua sucessora na Casa Civil, Dilma Roussef, que realmente arriscou a vida: ele não pode, a rigor, reivindicar a condição de “companheiro de armas” dela, como o fez na transmissão do cargo.

 

Quanto à qualidade desse combate, é possível dizer que ele foi bom por ter sido contra a ditadura militar de direita, que sufocava as liberdades democráticas e torturava seus inimigos. É, contudo, controverso venerá-lo só por isso como herói da democracia. Pois, ainda que houvesse empunhado armas para combater a tirania, como alega que fez, mas tendo apenas sido treinado em Cuba – e, não se sabe como terá usado tal aprendizado esfregando a barriga no balcão da loja da família da mulher no interior do Paraná -, não o teria feito para implantar no País o Estado de Direito. Mas, sim, uma ditadura de sinal oposto à militar, de direita. Segundo mostrou a experiência histórica de Stalin, Mao e Fidel Castro, sobre cujo dólmã ele derramou copioso pranto nostálgico, porém, nada indica que esta seja necessariamente menos brutal ou mais condescendente com os contraditórios – aos quais ele agora apela, com legitimidade, para voltar à cena antes de cumprir a pena inteira.

 

 

 

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007, Opinião, página A2


Bicudos e cegos

Na penúltima eleição da Câmara, capitaneada pelo então prefeito de São Paulo, José Serra, a quem seu líder Alberto Goldman (SP)se ligou, após militar no comunismo e no qüercismo, a bancada federal do PSDB apelou para a necessidade de consagrar o princípio da proporcionalidade e sufragou o intragável candidato governista à Presidência da Câmara, Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) no primeiro turno. Isso levou o alto tucanato a cometer um suicida crime de lesa-pátria, que foi fazer do líder do baixo clero, Severino Cavalcanti (sem partido-PE), o segundo sucessor constitucional do presidente da República. E nem a posterior eleição de Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para o posto bastou, contudo, para abalar as convicções proporcionalistas desses emplumados, toscos e tontos pretendentes a oponentes.
Por incrível que pareça, diante da opção entre a História e o fisiologismo rasteiro, o PSDB voltou a apelar para o critério matemático (agora absurdo, pois a maior bancada é do PMDB, e não do PT) para participar da entrega definitiva do Poder Legislativo ao Executivo, sob controle dos adversários petistas. Conduzido por uma nostalgia esquerdóide, que o torna súdito do engano, e por cálculos paroquiais, que vão de liberação de verbas do PAC à eleição da Assembléia Legislativa, o atual governador de São Paulo patrocinou a articulação para liquidar a vitória apertada do ex-líder do governo Arlindo Chinaglia (PT-SP) na Câmara. Isso mostra que, por mais aliados “aloprados “que perturbem o sono do presidente Lula no segundo mandato, este poderá sempre contar com a oposição, incapaz de enxergar um palmo além do bico.

 

© Jornal da Tarde, terça-feira, 6 de fevereiro de 2007. Opinião, p. 2

A volta de Lula à sua praia: o palanque

A volta de Lula à sua praia: o palanque

O presidente não precisava fazer comício para aprovar o PAC

 

O cientista político Leôncio Martins Rodrigues, da USP e da Unicamp, especializou-se, primeiro, no movimento sindical brasileiro e, depois, na formação de nossos partidos políticos. Poucos especialistas têm o cabedal de conhecimentos de que ele dispõe a respeito, não apenas na teoria, mas também na prática: freqüentou o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC quando ele ainda era apenas de São Bernardo e Diadema e a intimidade do mais notório de seus presidentes, Luiz Inácio da Silva, quando este era Lula, o Metalúrgico. É ainda um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e, embora viesse a se afastar da militância partidária, nunca deixou de acompanhar seus movimentos sísmicos, por dever acadêmico: acaba de lançar mais um livro sobre a origem social dos deputados federais brasileiros. Recentemente, esse especialista detonou uma bomba de efeito retardado ao dar entrevista ao repórter deste Estado Gabriel Manzano Filho, na qual atribui, com todas as letras, ao êxito do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) o condão de servir de cavalo-de-batalha para o presidente da República se lançar à sexta disputa pelo cargo máximo que ocupa, após ter sido derrotado três e vencido duas vezes. Será mesmo?
Arriscado é imaginar o que passa pela cabeça de um homem, em especial quando se trata de decisão tão complexa e com tantas implicações, sobre a qual dificilmente ele se sentirá à vontade para comentar até com a mulher, os filhos e assessores mais próximos. Principalmente pelo fato de ela exigir a ruptura com uma opinião que ele nunca escondeu: Lula e o PT sempre se opuseram à reeleição e contra ela lutaram de maneira denodada, antes de seu adversário Fernando Henrique obter a anuência do Congresso para disputá-la, em 1998. A respeito podem ser feitas duas observações. A primeira é de que a negação à recondução de mandatários ao poder era um hábito tão arraigado na cultura política nacional que nem os militares ousaram desafiá-lo, promovendo um rodízio na chefia do Executivo e criando, para isso, um complicadíssimo método de consulta ao Almanaque do Exército. Mas bastou Fernando Henrique achar que o mandato de quatro anos era curto para executar o que pensava fazer na chefia do governo para o Congresso adotar no Brasil o sistema americano da reeleição única e ele disputar e ganhar o segundo pleito consecutivo. Lula e o PT espernearam muito na ocasião, mas perderam a emenda e a eleição de 1998. E quando chegou sua vez de se submeter ao recall (o que é, na realidade, a reeleição entre nós), Lula usou as próprias convicções e as de seu partido contra a prática mais como manobra para fingir que estava em dúvida do que como reiteração de um dogma de fé.
A segunda observação é que, comparadas com as de Fernando Henrique há oito anos, as chances de Lula convencer os parlamentares a lhe darem a oportunidade de disputar o posto pela terceira vez consecutiva hoje são bem mais factíveis. Primeiramente, o tabu do mandato único caiu. Em segundo lugar, nem seu antecessor tucano nem outro presidente na conturbada História de nossa República jamais receberam o apoio que o atual presidente tem no Congresso para conseguir uma emenda autorizando nova recondução ao cargo. E o Supremo Tribunal Federal (STF), caso o assunto (controvertido, é claro) lhe seja submetido, também não se destaca pela independência exagerada em relação à chefia do Executivo. Não lhe será difícil concretizar, pois, o que o professor Leôncio diz que ele almeja: quatro anos de bonança econômica para reivindicar mais um mandato.
Tudo isso, contudo, poderia não passar de um exercício vazio e inócuo de futurologia política se não houvesse o próprio presidente arregaçado as mangas e saído a campo para fazer aquilo que mais gosta de fazer e também mais sabe praticar: desde que subiu no palanque de Vila Euclides para conduzir greves, há 35 anos, nunca mais se soube que ele tenha descido de algum. E agora, para não fugir ao costume de encontrar a primeira oportunidade para fugir do gabinete e correr para qualquer palanque que lhe montem, seja onde for, ele já começou sua peregrinação de convencimento da população sobre os bons ventos que soprarão em seus lares se o tal do PAC der certo.
A aprovação do PAC não depende do povo, mas dos congressistas. Portanto, a insistência de Lula nesses comícios e o uso franco por ele de uma retórica populista e eleiçoeira para falar de seu programa não deixam dúvida nenhuma de que este será seu maior instrumento para fazer o sucessor. Pode ser outrem – algum petista, como a chefe da Casa Civil, Dilma Roussef; aliado, como o deputado Ciro Gomes (PSB) ou o governador Sérgio Cabral (PMDB); até oposicionista, como o mineiro Aécio Neves (PSDB). Mas quem se sente capaz de jurar que não seria ele próprio? A cruzada pela redenção do País pelo PAC contém ingredientes retóricos que esses eventuais tubos de ensaio eleitorais não estão habituados a empregar, pelo menos com a competência que o presidente vem mostrando ter. Ao garantir, em palanque, que o “PAC troca o consenso de Washington pelo do sertão”, é mais provável que ele não se refira a qualquer dos citados ou outros aqui esquecidos, mas sim a uma personagem que o marqueteiro Duda Mendonça criou e ele tem interpretado de forma eficiente: a do pobre retirante excluído e marginalizado pela zelite empedernida.
Como o escorpião da fábula, que ferroa o sapo mesmo sabendo que morrerá na travessia do rio, por não saber nadar, Lula tem plena noção de que o palanque é sua praia. E dificilmente ou seus cúpidos aliados ou seus tíbios adversários lhe imporão suficientes obstáculos que matem esse seu sonho dourado antes que ele chegue são e salvo a suas tépidas areias.
© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 07 de fevereiro de 2007, Opinião, página A2

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