Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Política 2008/2007

Em julgamento o “abre-te Sésamo”

A Justiça, diz-se, tarda, mas não falha.

A Justiça, diz-se, tarda, mas não falha. Os procuradores federais do Distrito Federal levaram dois anos e meio para requerer à Justiça a punição de figurões do governo Lula e ex-dirigentes do partido do presidente, o PT, acusados de comprar a adesão de parlamentares da base de apoio para projetos de interesse oficial. Mas, afinal, o fizeram e pediram, no começo desta semana, a abertura de cinco ações de improbidade administrativa contra 37 dentre os tidos como beneficiários do tal “mensalão” – termo impróprio pelo qual se tornou conhecido o esquema. Antecipando-os, aliás, o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, já havia oferecido denúncia contra 40 ditos “mensaleiros” e esta vai ser julgada a partir de hoje pelo Supremo Tribunal Federal.
Da delação do ex-amigo Roberto Jefferson, então presidente nacional do PTB, partido da base aliada, até hoje muita água passou por baixo da ponte e, segundo dizia Heráclito de Éfeso, nunca ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas, embora tenha ido ao mesmo rio. Da cabeça raspada do publicitário Marcos Valério, acusado pelo delator de principal operador do indigitado método, brotaram cabelos encanecidos, mas nunca pelas preocupações com a vida, pois ela segue mansa como dantes: este jornal revelou, domingo, que ele se tornou um próspero fazendeiro em sua Minas natal.
Não se pode dizer também que o professor de Matemática que virou tesoureiro do PT, Delúbio Soares, tenha muitas queixas do destino, mesmo tendo sido o único punido por seu partido. Não mais é visto pelos corredores do Planalto, como nos tempos em que passava cigarrilhas acesas por debaixo da mesa para o padrinho presidente. Mas é tratado como celebridade em sua terra natal, Buriti Alegre (GO), onde no domingo 12 de agosto subiu no palanque montado para receber o governador goiano, Alcides Rodrigues Filho (PP), depois de fazer parte da comitiva que o recepcionara no aeroporto.
Silvinho Pereira, célebre pelo jipão Land Rover de R$ 79 mil que lhe foi presenteado por uma fornecedora da Petrobrás, foi afastado da secretaria-geral do PT, mas hoje circula num Toyota Fielder, um pouquinho mais barato (de R$ 65 mil), só que, pelo menos, pago com o suor do próprio rosto: residente em Ilhabela, ele administra uma empresa de eventos, que tem a mesma estatal em sua carteira de clientes, e constrói uma pousada.
O ex-guerrilheiro José Genoino, flagrado por uma câmera de elevador ao lado do irmão, o deputado estadual cearense José Nobre Guimarães, antes de um assessor deste ser pilhado pela polícia com dólares escondidos na cueca, no Aeroporto de Congonhas, elegeu-se deputado federal. À época das acusações, explicou sua assinatura de presidente nacional do PT como um descuido de boa-fé de companheiro. Os brasileiros, que vivem sob a égide de leis de cuja redação participa, podem fazer pouco além de rezar e torcer para que ele tenha mais atenção ao escrevê-las.
Do lote de absolvidos pelos magnânimos companheiros deputados e perdoados pela majestática generosidade do chefe do governo, o Professor Luizinho não conseguiu repetir a proeza de Genoino, mas promete começar tudo de novo, e de baixo, como vereador em Santo André. Esta cidade do Grande ABC ganhou notoriedade política e criminal depois do seqüestro e assassínio do prefeito petista Celso Daniel.
Entre os raros punidos pelos colegas deputados, destacam-se dois. O acusador, Roberto Jefferson, voltou às origens de criminalista, com o mesmo talento que o levou, primeiro, ao Povo na TV e, depois, à tribuna da Câmara dos Deputados, de onde defendeu a permanência de Fernando Collor na Presidência da República e exigiu a saída de José Dirceu da Casa Civil. Embora dispondo de um único cliente, acusado de homicídio, não consta que Jefferson tenha sofrido uma redução de patrimônio pessoal que lhe tire a paz e o sono.
O mesmo pode ser dito do protagonista do escândalo, José Dirceu, que, embora tendo perdido o poder formal com a demissão da Casa Civil e a cassação do mandato e a perda dos direitos políticos pela Câmara, não parece contar com menos força informal. O moço de Passa Quatro, que se celebrizou como combatente contra a ditadura menos pelo sangue que nunca fez jorrar em conflitos com a repressão e mais pelo que ensopou a camisa do colega morto por ele hasteada como uma bandeira numa passeata estudantil, é um self made man de fazer inveja a Sebastião Camargo, da Camargo Corrêa, e Rolim Amaro, da TAM. Os meios de comunicação, que ele acusa de “partidários” em entrevista à Playboy que está nas bancas, continuam a lhe dar importância, como fica comprovado pela referida entrevista.
Dirceu é o símbolo do que passará a ser julgado na maratona de três sessões do STF, a partir de hoje: ele representa como poucos a devoção de um grupo de profissionais da revolução ao elementar princípio religioso da unção. Este amolda o lema adotado por Artur Bernardes – “aos amigos, tudo; aos inimigos, o rigor da lei” – ao princípio stalinista segundo o qual, “se o inimigo não tiver defeito, inventa-se; se o camarada não tiver defesa, perdoa-se”. Este estilo de fazer política e governar a República – expresso no acintoso perdão incondicional do PT aos próprios militantes às vésperas da sessão do STF – está agora para ser julgado. O Supremo não julgará apenas se os 40 acusados compraram de fato a adesão de parlamentares aos pleitos oficiais. Mas também decidirá se a vontade majoritária do eleitorado dá a um grupo de ungidos o poder de condenar e absolver apenas a seu bel-prazer.
Talvez não seja exagerado concluir que, além da definição do Brasil como o “país da impunidade”, se decidirá se as instituições podem evitar que alguns usufruam o fruto do suor de todos com um mero “abre-te, Sésamo”.

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 22 de agosto de 2007, p. A2, Opinião

Doutor Pedalada

Como jogador do Internacional de Porto Alegre, Didi Pedalada não deixou lembranças similares às de craques como Tesourinha, Flávio, Falcão ou Alexandre Pato. Seu nome entrou mesmo para a história como o agente do Dops gaúcho que seqüestrou os uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz, que os tiranos brasileiros entregaram de mão beijada aos colegas uruguaios.
As ditaduras militares no Cone Sul foram extintas, mas esse tipo de colaboração internacional, não! Agora mesmo, a zelite petista que manda no País despachou de volta para Cuba, a pedido do ditador Fidel Castro, os boxeadores Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que tentaram trocar o Paraíso socialista pelo inferno do capitalismo selvagem. Mas foram impedidos pela Polícia Federal, sob o comando do causídico gaúcho Tarso Genro.
Sua Excelência foi rápido e rasteiro para mandar seus Didis Pedaladas de agora localizarem e prenderem os “desertores”, conduzidos ao jatinho especial que o Comandante enviou ao Brasil para tornar efetiva a deportação decretada pelo governo dos amigos companheiros. E não lhe faltou cara-dura para mandar seus assessores contarem que o governo não tinha como impedi-los de voltar a Cuba, porque eles nem sequer pediram refúgio.
A presteza da deportação dos pugilistas contraria a tradição brasileira de abrigar assaltantes como o inglês Ronald Biggs e colegas de Fidel, caso do paraguaio Alfredo Stroessner. Mas, desta vez, Lula nem pode dizer “nunca antes neste País”, pois os militares já o tinham feito. Agora é torcer para que os deportados não tenham pior destino que os uruguaios. Afinal, eles sobreviveram.

© Jornal da Tarde, quinta-feira, 02 de agosto de 2007

Quem paga a conta vaia Lula

Governo dá pão a pobres e dinheiro a ricos e a classe média é que banca

Nos últimos dias, nós, os 160 milhões de brasileiros, temos recebido a graça de ser informados de umas tantas e quantas notícias – umas estranhas, outras animadoras, várias delas surpreendentes – dadas pela elite que nos dirige lá do distante e inacessível Planalto Central do País.
Informou-nos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que o Criador, em sua suprema magnanimidade, o dotou de duas orelhas, por uma das quais escuta as vaias e por outra os aplausos de seus súditos. É preciso ter cuidado com as orelhas, como alertou o colega jornalista e escritor de talento Renato Pompeu, pois elas costumam ter ouvidos e nem todas são tão seletivas quanto Sua Excelência diz serem as dele. O certo é que, entre os aplausos dos correligionários encantados com seu desempenho e os apupos de seus detratores, não teve o chefe do governo republicano disponibilidade para escutar o clamor rouco das ruas quanto ao Caos Aéreo Nacional, sobre o qual ele próprio já havia escrito e publicado. O Boeing da Gol desabou sobre a Amazônia desmatada e ele não ouviu o estrondo. Os passageiros, em franca desobediência civil aos conselhos de sua ministra sexóloga, não relaxaram nem gozaram na longa espera dos vôos que não partiram. Aí o Airbus da TAM explodiu no prédio da companhia e, depois de uma semana de silêncio, o ruído da explosão ultrapassou as vidraças e os tapetes do poder e chegaram a seus ouvidos, pelo visto apenas uma semana após o fato, pois foi este o prazo para que ele, enfim, falasse sobre o que ouvira.
A reação presidencial às vaias do público do Maracanã na abertura do Pan foi mais rápida, mas não menas alienada. Entrou para a História como o primeiro presidente anfitrião daquela competição a não saudar os atletas visitantes e deixou de ser vaiado pessoalmente (ele o foi, in absentia, de qualquer forma) para ouvir o descontentamento de um público normalmente menos hostil, em Natal. Em seu estilo desabusado de sempre, o máximo prócer atribuiu o protesto à ingratidão dos ricos, cujos bolsos seu governo nunca se cansou de encher, conforme cândida confissão que ele próprio fez em mais uma escala da única aeronave que permite a seu usuário não tomar conhecimento dos maus bofes dos controladores de vôo nem dos jogos de mercado das companhias aéreas. Nunca antes na História um presidente foi tão sincero e tão preciso. De fato, as estatísticas confirmam sua afirmação: os podres de ricos o estão sendo cada vez mais graças à generosidade de uma política econômica que os favorece com toda a franqueza.
Lula erra, contudo, quando trata seus primeiros beneficiários como ingratos. É pouco provável que houvesse um único representante da fina flor da burguesia nacional nas arquibancadas do “maior do mundo” naquela noite em que se cunhou a maldosa sentença segundo a qual “quem tem boca vaia Lula”. Rico não vaia. Primeiro, porque de fato não pode ter queixas da generosidade federal. Depois, porque tem à mão meios melhores para conseguir o que almeja. Com a facilidade com que se corrompe e a dificuldade com que se pune um corrupto no Brasil contemporâneo, seria estúpido quem preferisse defender os próprios interesses no desconforto das arquibancadas de um estádio. Quem vaiou o presidente foi a classe média e teve os melhores motivos para isso. Afinal, a fórmula genial encontrada pelo chefe da Nação – dinheiro nos bolsos dos ricos e comida nos pratos dos miseráveis – tem um lado negativo, como tudo na vida: o sacrifício da classe média, convocada para pagar a conta. Empobrecida, submetida à violência das ruas e obrigada a pagar pelos serviços que o Estado não presta, esta se fez ouvir do jeito que pôde. E conseguiu o que queria. O presidente que não tomou conhecimento do mensalão, do falso dossiê dos “aloprados”, da longa espera dos passageiros de avião e da dolorosa tragédia dos parentes das vítimas do desastre da TAM, ao ouvir a vaia, foi, enfim, informado, pelo menos, de sua existência. No último fim de semana, este jornal registrou o reconhecimento por uma das poucas bocas que têm acesso aos ouvidos do chefe, a de Luiz Dulci, hierarca da elite petista reinante, de que a classe média está insatisfeita com os rumos do País. Pode a oposição, débil e desnorteada como sempre, imaginar que se trata de um truísmo vulgar. Não é. É um fato da maior relevância o PT no pudê reconhecer que a classe média existe e está longe, muito longe, do Paraíso.
Não que isso resulte em alguma coisa. Pois este governo, se sabe, é bom de falar, mas péssimo de ouvir e, mais ainda, de fazer. Se o tal do PAC até agora não acelerou coisa nenhuma, imagine o leitor amigo se algum programa que beneficie a classe média poderá um dia vir a ser implementado neste país do “nunca antes” e do “não é bem assim”. Basta ler as pesquisas de opinião que garantem que o prestígio presidencial não caiu um milímetro depois da transubstanciação do Caos Aéreo Nacional em tragédia coletiva para concluir que a classe média indignada é incapaz de romper os acolchoados de algodão que impedem as duas orelhas dadas pelo Criador ao presidente de ouvir sua ira exposta em apupos.
Os beneficiários do atual sistema usam aviões próprios – sejam eles banqueiros ou a zelite dirigente republicana – ou simplesmente nunca entraram num aeroporto nem para fazer um lanche, porque a Bolsa-Família não chega para tais luxos. Os passageiros de avião de carreira não têm número suficiente para se fazerem ouvir por Lula, nem se Deus lhe tivesse dado quatro – e não dois – ouvidos encapsulados em orelhas à prova de queixas, muxoxos e recriminações e sempre disponíveis para a lisonja e a aprovação. No aulicismo reinante, mais vale uma nota fria que um boi pastando e o chefe se protege do amuo dos infelizes fazendo a felicidade dos bajuladores ao lado.

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 08 de agosto de 2007, p. A2, Opinião

Obscenos, insensíveis, incompetentes

No Brasil de hoje, segundo a Infraero de Lula, avião seguro só no solo
Foram execráveis, mas jamais surpreendentes, os gestos com que o professor Marco Aurélio Garcia e o jornalista Bruno Gaspar, assessores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, comemoraram no Palácio do Planalto a hipótese de a queda do Airbus da TAM em Congonhas ter sido causada por falha mecânica. A comemoração chula seria estúpida em qualquer ocasião. Mas foi ainda mais grave por ter ocorrido depois da morte de 200 pessoas num desastre. E porque culminou a insensatez galhofeira com que o primeiro escalão federal tratava antes o caos aéreo nacional e o descaso com que o chefe do governo lidava com o problema. A ministra do Turismo, Marta Suplicy, já se aproximara da obscenidade ao receitar o “relaxa e goza” aos passageiros angustiados com adiamentos e cancelamentos de vôos. Seu colega da Fazenda, Guido Mantega, deixara clara a falta de seriedade da administração federal quando atribuiu a crise nos aeroportos a um aumento de demanda provocado pela prosperidade na economia. E o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, cunhara o lema definitivo de sua gestão na aviação comercial brasileira ao constatar que, neste país, avião seguro só avião no solo.
Em matéria de sinceridade a toda prova, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia dado sua contribuição à candura impune com que ele e seu governo lidam com a administração de uma das 12 maiores economias do mundo, ao confessar que faz o que pode e deixa o resto como está para ver como é que fica. Essa confissão, feita algumas horas antes de o jato se espatifar na loja da TAM Express e no posto de gasolina autorizado a funcionar no outro lado da avenida para a qual dá o fim da principal pista de pousos e decolagens do aeroporto mais movimentado do País, foi levada à prática com empenho e zelo ao longo da crise. Cultor ele próprio de patacoadas, algumas vezes inócuas, Sua Excelência perdoou cada batatada de seus subordinados. Nenhum deles foi sequer admoestado publicamente pela chefia, ainda que todos tenham, pelo menos teoricamente, contribuído para desgastar a imagem do governo. Ou seja, desde o início ficou claro que o gesto grosseiro dos dois auxiliares do presidente, mesmo que só expressem o desprezo de ambos pela liberdade de expressão, que Garcia assumiria em nota oficial, terminou por simbolizar, de forma grotesca e brutal, o que a zelite dirigente faz com a sociedade indefesa. E a forma como esta sabe que é tratada pela “companheirada” no poder.
Se dúvidas havia quanto a isso, elas foram dirimidas, primeiro, pelo flagrante da descontração sorridente da cúpula da Infraero em São Paulo na hora da catástrofe e, depois, pelas reações oficiais nos dias posteriores ao flagrante do gesto chulo, que não foi uma manifestação privada, pois ocorreu num prédio público cuja denominação serve de metáfora para o poder máximo na República. O comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, associou-se aos colegas “aloprados”, contribuindo para a marcha geral da insensatez, ao condecorar três diretores da Agência Nacional da Aviação Civil (Anac), por seus préstimos à aviação nacional. Santos-Dumont, cujo aniversário foi festejado na data da entrega da medalha, teve sua memória conspurcada pelas condecorações para o militante petista Milton Zuanazzi, o presidente, a protegida de José Dirceu Denise Abreu e o aliado, do PMDB baiano, Leur Lomanto. No mesmo dia, o presidente da República prometeu à Nação dar mais força à Anac para resolver o problema, do qual a tragédia foi resultado.
Pois é. Luiz Inácio Lula da Silva ficou calado por 72 horas e convocou rede nacional de rádio e televisão para apresentar condolências aos familiares das vítimas; anunciar providências que só serão tomadas em dois meses; e cumprimentar os bombeiros paulistas, heróis da tragédia. Os pêsames foram dados com três dias de atraso; as providências deveriam ter sido tomadas dez meses atrás, quando caiu o jato da Gol na Amazônia; e os bombeiros teriam de ser cumprimentados pessoalmente, como faria o líder de uma democracia que se preze. É bastante discutível que as providências anunciadas dêem resultados positivos. Mas mais relevante é o fato de a Nação se ter sentido desamparada e órfã quando o presidente calou e não ver motivo nenhum para haver achado amparo no pronunciamento.
Pois os gestos de Garcia e Gaspar não foram fortuitos, mas reveladores: expressaram a brutalidade pragmática que a cúpula federal aprendeu com seu líder máximo, o ditador georgiano Josef Stalin. Com base na filosofia de Karl Marx e na submissão às conveniências políticas do partido que se considera a vanguarda da classe trabalhadora, aprendida por Lenin no Catecismo de Netchaiev, o tirano soviético ensinou a seus discípulos que “os fins justificam os meios”. E, depois que a herança stalinista foi soterrada sob as ruínas do Muro de Berlim, restou aos neostalinistas do PT a lição de que o Estado existe para empregar os “bons companheiros” e isso basta para justificar a permanência no poder. Fosse qual fosse a motivação para o silêncio e, depois, para o pronunciamento do presidente – a tentativa de transferir o ônus político para os adversários no governo do Estado e na Prefeitura de São Paulo, o olho arroxeado pelo terçol ou a falta do que dizer –, ela foi cruel. Pois à Nação só resta agora rezar para evitar a próxima tragédia, de novo anunciada, uma vez mais inexorável. Afinal, os neostalinistas, além de obscenos, também são incompetentes e irresponsáveis. Há burocratas demais pondo em risco vidas de passageiros nos aviões do Brasil e nem o ministro da Defesa, Waldir Pires, assumiu sua óbvia responsabilidade pela gestão.
É cada um por si e nem a Deus cabe intervir – nem perdoar. Pois eles sabem o que fazem. Mas não como fazer.

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 25 de julho de 2007, p. A2, Opinião

Perdoador Geral

Com seu vernáculo trôpego de Odorico Paraguaçu, o prefeito folclórico da fictícia Sucupira da novela e do seriado O bem amado, de Dias Gomes, do cerrado, o senador Joaquim Roriz (PMDB-DF) fez uma defesa considerada fraca tecnicamente pelo presidente nacional de seu partido, Michel Temer (SP). Nem por isso ela foi irrelevante. Em pelo menos um trecho, Sua Excelência produziu uma sutil, mas cabal, definição de como as coisas funcionam aqui. No meio de sua versão, considerada estapafúrdia pelo colega Romeu Tuma (DEM-SP), corregedor, o réu apelou para um argumento decisivo: o de que nunca negou seu apoio às propostas do governo. Ou seja, não interessa se ele cometeu, ou não, um delito que configure quebra do decoro parlamentar. O que está em jogo é sua lealdade de fiel serviçal do governo.
Essa mentalidade de encarar o debate político como um Palmeiras X Corinthians ou Vai Vai X Camisa Verde e Branca, na base do ou está comigo ou está “sem migo”, como diria o jogador Dedeu, do Náutico de Recife, levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a absolver o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), até que se produza prova de sua culpa. Do alto de sua montanha de votos e na crista da onda da popularidade, apesar do Caos Aéreo Nacional e do “me dá um dinheirinho aí” do mano Vavá, o chefe do Executivo incorporou de novo seu papel favorito de “perdoador-geral da República”. E conta para isso com o silêncio cúmplice da oposição, pois o DEM passou 24 horas na presidência do Conselho de Ética do Senado, não indicou o relator, como deveria ter feito, e ainda fingiu disputar a presidência. Argh!
© Jornal da Tarde, terça-feira, 03 de julho de 2007.

A pouca vergonha dos senadores sem votos

Os suplentes no Senado não têm compromisso com nenhum eleitor

 

O Senado Federal vira de pernas para o ar todos os conceitos morais e institucionais republicanos no cabuloso escândalo protagonizado por seu presidente, Renan Calheiros (PMDB-AL), e promete novas cambalhotas em outro caso de dimensões mais modestas, o de Joaquim Roriz (PMDB-DF).
A história do senador adúltero que leva a amante a tiracolo em viagens internacionais bancadas pelo dinheiro do desdentado da favela é tão comum que Juca de Oliveira a transformou na comédia Às Favas com os Escrúpulos, em cartaz em São Paulo. A peça é estrelada por Bibi Ferreira e o principal papel masculino, do próprio autor, poderia ter sido entregue ao pai dela, Procópio, contemporâneo de casos semelhantes ao do fictício senador Bernardo, de qualquer época, de qualquer partido e sem vergonha alguma. Chega, porém, a ter tal atualidade que parece ter sido a realidade que imitou a ficção, e não o contrário.
Mas nem a habilidade conquistada ao longo da experiência de repetidos sucessos cênicos inspirados na desavergonhada miséria ética nacional levou o dramaturgo a imaginar uma situação em que, apanhado em flagrante delito, o ilustre réu escolhe o juiz, nomeia o promotor e indica cada um dos jurados. Desde o babilônio Hamurabi não há notícia de julgamento tão esdrúxulo. Pelos serviços prestados ao governo, o presidente do Congresso conta com a cumplicidade do Poder Executivo, tendo em Romero Jucá (PMDB-RR) e Ideli Salvatti (PT-SC), cuja mão foi flagrado beijando, defensores de um denodo capaz de ofuscar os momentos de mais justa indignação cívica de Sobral Pinto e Evaristo de Morais, com o perdão do mau uso da memória deles nestas linhas.
O corregedor Romeu Tuma (DEM-SP) preferiu inocentar o colega a honrar o currículo de xerife de competência reconhecida a ponto de se transformar em razão do voto de milhões de paulistas. Sua má vontade em investigar foi desmascarada na primeira esquina por um telejornal, cujos profissionais se limitaram a conferir as notas fiscais com as quais o réu tentou se explicar, mas só se complicou. A presidência do conselho de sentença foi entregue a um ilustre aliado do réu, Sibá Machado (PT-AC), cujo senso de justiça pode ser medido pelo projeto que patrocina pretendendo a substituição do exame vestibular pelo sorteio das vagas em universidades, por ter o próprio pimpolho sido reprovado. O primeiro relator, Epitácio Cafeteira (PTB-MA), foi trazido do ostracismo em que se encontrava para se deixar encandear pelo brilho fátuo dos holofotes do noticiário. E sucumbiu, em seguida, ao contraste entre o peso da responsabilidade da absolvição do companheiro e o clamor das ruas. O caso do ressurrecto que voltou à paz do esquecimento com atestado médico não tem registro histórico ou mitológico. Não consta da Bíblia, nem de Homero ou mesmo de As Mil e Uma Noites.
Mas os aliados de Renan no Senado surgem de todos os lados e são de todos os partidos. Comove o constrangimento com que os líderes da dita oposição, puxados pelo paletó pela indignação nacional, evitaram o arquivamento in limine do relatório que nada relatava. José Agripino Maia (DEM-RN) e Arthur Virgílio (PSDB-AM), que correram para o abraço no que a corporação achou que poderia ter sido um gol presidencial, a fala do trono ante a mulher traída, agora tentam salvar a face. Mas, como o desafeto de José Américo de Almeida, choram pelo olho de vidro: seus adversários bem sabem que o que não pôde ser arquivado deve ser esquecido e o não faltam possibilidades de delongas numa Casa onde poucos não contam com a hipótese de o tempo ser, não o senhor da razão, como queriam os romanos, mas um escravo da malandragem cínica.
Epitácio Cafeteira atribuiu à própria esposa o ridículo papel a que se prestou. Mas, na verdade, ele sabe que é morador da sesmaria dos Sarney e ao melhor amigo de Renan deve seu mandato, mais que ao difuso e desconhecido eleitorado maranhense. Seu substituto, Wellington Salgado, o brevíssimo, tal como Sibá Machado, nem satisfação deve a cidadão nenhum, pelo simples e ineludível fato de que nenhum dos dois tem eleitor algum. A impunidade de Renan Calheiros pode ser garantida por vários fatores intrínsecos ao sistema representativo da democracia brasileira, que vão desde o fato de ele ser um craque na arte de “fazer amigos e influenciar pessoas” até o corporativismo, que, se é grande na Câmara, maior ainda é no Senado. Recentemente este jornal exumou evidências deste truísmo. Apesar dos pesares, a Câmara já teve de expelir alguns peixes gordos de seu aquário, entre estes José Dirceu e Roberto Jefferson. Os senadores são mais “leais” aos colegas e, quando levam um a deixar o convívio, caso de ACM, logo o recebem de volta, festejando a sábia máxima brasileira segundo a qual o povo sempre esquece e o eleitor sempre perdoa. Aleluia, irmãos!
O caso é que essa engrenagem só consegue funcionar porque é azeitada pela falta de compromisso dos sem-votos. Compara-se muito o velho Senado de Machado de Assis com este. E a diferença fundamental é que a Casa já foi, como queriam os fundadores da instituição, cidadãos romanos, o lugar do debate entre os mais sábios e probos. A regra eleitoral que determina a escolha dos senadores hoje permite que Sibá Machado e Wellington Salgado se iniciem por lá. Um é suplente de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente. O outro, de Hélio Costa, ministro das Comunicações. Nenhum dos dois tem compromisso com eleitor nenhum, com nenhum conceito, com nada. É gente assim que assegura a permanência da impunidade.
Os escândalos Renan Calheiros e Joaquim Roriz deslustram o Senado. Mas o envergonham ainda mais seus suplentes sem votos. E só o voto popular pode acabar com essa pouca-vergonha.
© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 27 de junho de 2007, p. A2

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