Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Política 2006/2005

O resgate da moral

Não sei quantos seremos, mas qu’importa?!
um só que fosse e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

(Miguel Torga: Câmara Ardente, 1962 )
Por incrível que pareça, no meio do tiroteio do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo, entre um flash e outro dos julgamentos dos assassinos dos casais Richthofen e Liana Friedenbach e Felippe Café, no auge do noticiário sobre mais um escândalo cabeludo na política (a Máfia dos Sanguessugas) e em plena vigência da baixaria generalizada nas campanhas políticas, uma notícia aparentemente amena pode ainda ser mais inquietante que tudo. Em entrevista às páginas amarelas da Revista Veja, o escritor Sílvio de Abreu, autor da telenovela Belíssima, recentíssimo sucesso do horário nobre da televisão, veio nos contar que as donas de casa da classe média, que participam dos grupos de pesquisa qualitativa que acompanham os programas de maior audiência na televisão, torceram pelos vilões e não pelos mocinhos de seu folhetim eletrônico. Sim, é verdade que os mocinhos são personagens sem graça, mas será que o são só porque cometem a “estupidez” de fazer o bem? Os maus, não, estes têm charme, têm verve. Para quem imaginasse que esta não é uma novidade, o autor de telenovelas explicou que, há cinco anos, quando assinou outra telenovela na mesma campeã de audiência, a Rede Globo de Televisão, As Filhas da Mãe, o comportamento desses grupos de avaliação do trabalho ficcional do veículo por excelência de diversão popular, era exatamente o oposto. Ou seja, nos últimos cinco anos em alguma cloaca infecta a sociedade brasileira despejou alguns de seus valores morais mais caros para abraçar uma amoral ética de resultados, que se resume na forma como essas donas de casa encaram, com bonomia, a trajetória de personagens que fazem o mal só para se dar bem. Essa atitude explica, em parte, o prestígio que o presidente da República tem demonstrado na corrida pelos votos de sua reeleição, apesar de seu partido, o PT, e seu governo terem tido sua imagem estilhaçada por um escândalo de corrupção de graves proporções, talvez inédita na história da República. A verdade é que essa perda de valores estabeleceu agora duas regras básicas. Uma é a do “sou, mas quem não é?” da personagem cínica do antigo programa humorístico na TV. A outra é a brincadeira que o humorista Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) fazia em suas colunas nos jornais nos anos 50 e 60 do século passado, no Rio de Janeiro: “restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”. Não se trata mais de discutir quem nasceu primeiro, se foi o ovo e a galinha. Ou seja: a questão agora não é responder à dúvida filosófica que se põe diante da questão: serão os políticos safados representantes de uma sociedade amoral ou o cidadão se tornou amoral pelo exemplo dado pela sórdida elite dirigente que controla os cordéis do jogo político. Seja qual for a resposta a essa dúvida, que, aliás, deveria estar, mas não está, sendo discutida nos palanques e na academia, o buraco é bem mais embaixo. Vivemos imersos numa cultura de corrupção da qual praticamente ninguém está isento. Quem nunca corrompeu um guarda de trânsito? Quem nunca pagou uma propina a um funcionário público para furar a fila em alguma demanda? Quem nunca deu um cala-boca a um policial para fugir a um flagrante? Para sair dessa cloaca é preciso usar como lema a humilde constatação feita por Jesus Cristo quando deteve a malta que, em nome da lei mosaica, se preparava para apedrejar uma mulher adúltera: “o que de vós está sem pecado que atire a primeira pedra” (João, 8, 7). Urge fazer já (e não dá para esperar mais) o resgate dos valores morais para a reconstituição do tecido social que se esgarça dia a dia sem abrir mão dos conceitos fundamentais da liberdade política e econômica. Nada de recorrer a estratégias espúrias como o voto nulo ou o niilismo alienado. Nem ficar convocando os velhos fantasmas autoritários e aventureiros do trágico passado recente. Parte da perda de nossos velhos valores morais se explica exatamente pela covarde abstenção do cidadão de seus deveres elementares de votar, ser votado e influir na gestão dos negócios públicos. Cada um tem de assumir a sua parte na faxina necessária: debater, pôr a cara a tapa, não transigir – esta é a palavra de ordem. Quem fugir, quem se acovardar será cúmplice do suicídio moral a que a sociedade brasileira se tem conformado de forma estúpida, embora consciente.

 

© revista eletrônica PRONTO!

Lula não ganhou

É natural que alguém fique ansioso para prever o futuro. Isso explica por que tanta gente inteligente recorre a cartomantes e também justifica a publicação de horóscopos nos jornais. No caso de eleições para cargos da relevância dos governos estaduais e da Presidência da República, tal obsessão pela futurologia encontra motivo mais forte na expectativa de investidores e até eleitores comuns de apostarem no vencedor. Natural pode ser, mas não é muito sensato. Já diziam as raposas mineiras que de bumbum de nenê, cabeça de juiz e urna só se sabe o que sairá depois que sair. Correto?
Nenhum pleito ocorreu sem que houvesse essa atenção exagerada dada aos oráculos de plantão, mas neste parece que os profetas estão sendo demandados além da conta. Talvez por isso seus vaticínios tenham sido tão erráticos quanto tem sido desventurada nossa aventura democrática. Até maio de 2005 não se discutia quem sucederia a Luiz Inácio Lula da Silva: sua reeleição era dada como certa. A oposição discutia apenas quem se sacrificaria à derrota inexorável agora para garantir um lugar privilegiado na eleição de 2010. A aposta se baseava na premissa, não de todo destituída de lógica, de que, após a emenda constitucional patrocinada pelo tucano Fernando Henrique, qualquer presidente que se eleja o será por oito anos – com um recall no meio. O candidato à reeleição disputa o próprio posto sem sair dele e goza das prerrogativas que este lhe dá, desde a caneta de nomear até a notoriedade permanente garantida no noticiário. Basta para tanto não fazer tolices de grande monta.
O tucano José Serra, contudo, pulverizou esse mito ao derrotar Marta Suplicy para a Prefeitura de São Paulo, não apenas estando ela no lugar como gozando de prestígio popular, pois até o dia da eleição as pesquisas atestavam a aprovação da maioria do eleitorado à sua gestão. Mas nem seria preciso recorrer ao exemplo municipal. Pois o ex-amigo Roberto Jefferson detonou a convicção de que Lula não tinha adversários, supurando de dentro do organismo a maior ferida de corrupção já registrada na História do Brasil independente. O PT perdeu a virgindade moral e Lula passou de virtual vitorioso a favorito ao ostracismo de uma aposentadoria inglória. A oposição tinha tanta certeza da derrota dele que, quando o marqueteiro Duda Mendonça deu a oportunidade histórica para o impeachment, confessando haver recebido dinheiro petista no exterior, a oposição a desprezou, consagrando a máxima que o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) cunhou, em reunião com o líder do PSDB no Senado, Artur Virgílio (AM), e o presidente nacional da OAB, José Roberto Busato: “Vamos fazê-lo sangrar até a eleição.”
O praticamente exangue presidente deu impressão de que estava tonto no ringue, mudando de explicação a cada pronunciamento para o inexplicável desbaratamento dos recursos públicos no projeto de transformação do Estado brasileiro numa inesgotável fábrica de “boquinhas” para companheiros, cupinchas e associados. Mas logo se viu que a hemorragia de votos do presidente era uma ilusão de noiva dos oposicionistas. Com seu inesgotável conhecimento de causa do pensamento e do vernáculo do povão, Sua Excelência pegou um programa tucano – o Bolsa-Família – e o transformou no maior cabo eleitoral institucional da História do Brasil. O noticiário freqüente de falcatruas desmascaradas e desbaratadas pela Polícia Federal em sua gestão, somado a esse talento de prestidigitador que o fez capaz de transmitir às camadas menos informadas e mais populosas da população a falsa impressão de que mandou apurar malfeitos e punir malfeitores do “mensalão”, o pôs de volta no lugar mais alto do pódio. Não sem uma ajuda dos adversários que, embriagados pela possibilidade de disputar uma eleição já ganha, se engalfinharam numa refrega suicida para estabelecer o pretendente antes de calcularem o alcance de sua pretensão.
Por conta de tudo isso, Lula passou a ser novamente a “pule de dez” na própria sucessão e, da mesma forma que os adversários, se deixou iludir por sua infalibilidade, tomando decisões cuja relação de custo-benefício lhe pode ser fatal. O caso mais evidente foi essa vergonhosa entrega dos Correios ao PMDB. Ponto de partida da delação do ex-amigo Jefferson, a estatal foi doada ao partido que mais se identificou no passado recente com o fisiologismo, pelo menos na óptica popular. E a empresa, cuja imagem de eficiência foi jogada no lixo pela propina paga a um burocrata que terminou por abrir a caixa de Pandora da corrupção na máquina pública nacional, passou a ser gerida por homens de confiança de gente como o líder peemedebista no Senado, Ney Suassuna (PB), protagonista do escândalo da hora e da vez: o da tal da máfia dos sanguessugas.
O presidente continua na frente nas pesquisas e seus adversários têm feito o que podem para mantê-lo lá: já se fala, à boca pequena, em comitês traiçoeiros Lula-Serra e Lula-Aécio em colégios eleitorais da relevância de São Paulo e Minas Gerais. Ou seja, o petista tem tudo para ganhar a eleição, não no primeiro, mas no segundo turno, com a ajuda dos que prometem votar em Heloísa Helena (PSOL-AL) nas preliminares para purgar o pecado venial de sufragar “aquele que tem compromisso com o social” na hora fatal. Mas ainda não ganhou a eleição. Do alto de sua empáfia, seus estrategistas poderiam lembrar-se da ex-companheira Luiza Erundina (PSB-SP), que derrotou Paulo Maluf no sermão das 10 nas paróquias da periferia no domingo da eleição para a Prefeitura paulistana. Ou de Jânio Quadros, que venceu o desafeto deles Fernando Henrique, sem se esforçar, para o mesmo cargo.
Talvez as batatas de Alckmin até estejam a assar, mas Lula ainda não pôs as mãos nas que se dão ao vencedor.

 
© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 26 de julho de 2006

Mamata impune e sem responsável

Lula só queria ser como Stalin, o único que nunca ‘soube’ de nada

 
A solenidade em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou ao PMDB o comando dos Correios é o exemplo definitivo de como a gestão petista radicalizou todas as distorções que têm desmoralizado a República e depauperado o Estado brasileiro. O primeiro aspecto relevante a ser destacado é o uso do ancestral sistema das capitanias hereditárias, pelo qual os colonizadores portugueses conseguiram, na base do mínimo esforço, extrair de forma predatória os recursos naturais de Pindorama; espoliar as populações nativas e os degredados d’África; e dilapidar as riquezas produzidas além-mar, em solo americano. Em benefício de Lula se pode dizer que o loteamento das “boquinhas” na máquina pública federal não foi inventado pelo PT e é, sim, uma herança que vem de longe, muito longe, no tempo. Mas talvez não seja excessivo lembrar que o presidente e seu partido convenceram a Nação a mudar a direção de seu destino para abolir vícios malsãos como este – na base de “jamais verás governo assim” ou “não há, ó gente, ó não, patota como esta do nosso partidão”.
Agora, com a ajuda do medo que os adversários do PSDB e do PFL têm da natureza combustível do próprio rabo-de-palha, o PT e o chefe do governo pretendem fazer o mesmo eleitorado perceber as evidências de que eles são seus semelhantes em tudo, inclusive no cinismo com que praticam e justificam suas “maracutaias” (apud Lula). O conivente silêncio com que a oposição permitiu ser assada a pizza do mensalão nos fornos da Câmara, contudo, não poderá calar a evidência do desastre da coalizão formada por derrotados do PT nas últimas eleições e aliados de ocasião, que afundou o País num mar de desmandos de corrupção e erros terríveis de administração.
A hora de lembrar é esta, às vésperas da reeleição já apregoada aos quatro ventos. Principalmente pelo fato de o escancaramento da opção do PMDB – sob o comando do líder no Senado, Ney Suassuna (PB), um dos suspeitos do último escândalo, o da máfia das ambulâncias – ter dado ao presidente a oportunidade de explicitar à Nação sua mais recente estratégia para escapar de qualquer acusação que o possa envolver na sujeira revolvida no sórdido episódio do “valerioduto”. Após se ter dito “traído” por companheiros do governo e do partido, sem delatar nenhum deles; distribuído, de forma socialista, a culpa pelo crime fiscal do “caixa 2” em campanha a todos os partidos; ungido os eventuais culpados pela bênção do próprio perdão e acusado os adversários de havê-los torturado; Sua Excelência vem entregar, juntamente com os cargos, o ônus exclusivo dos eventuais delitos neles cometidos aos meeiros de gestão. “É mais que justo que o partido que tenha um ministro no governo seja o responsável por todo o ministério”, disse o mestre na arte de “tirar o corpo fora”, como se diz na gíria do lúmpen que o elegerá e perfeitamente entendida pelos banqueiros que, embriagados pelos lucros obtidos em seu governo, o aplaudem com fervor e mantêm seus adversários a pão e água.
Justiça seja feita: não se trata de uma atitude nova de Sua Excelência. Ele já não ouviu as denúncias do então secretário de Obras e vice-prefeito de Campinas, Antônio Costa Santos, que lhe contou detalhes da roubalheira promovida pelo prefeito petista ao qual era subordinado. E fez ouvidos de mercador às evidências de irregularidades nos contratos das prefeituras do PT com o senhorio do luxuoso apartamento onde morava de graça em São Bernardo, que lhe foram contadas por Paulo de Tarso Venceslau. Seu desapreço pela leitura não deixa dúvidas de que não tem conhecimento do fundador dessa prática do “não sei, não me contaram, nada tenho que ver com isso”, que foi o ídolo, não dele, mas de seu ex-lugar-tenente José Dirceu: Stalin. Simon Montefiore conta num livro como o georgiano manobrava os magnatas bolcheviques, levando-os ao massacre múltiplo e mútuo, dando a impressão a algozes, vítimas e sobretudo à população de que ele era o “único a não saber”. Sem a cultura nem os requintes de crueldade do tirano comunista, nosso “guia máximo” cumpre à perfeição seu papel de “supremo irresponsável” pelos malfeitos de seus auxiliares, ao mesmo tempo que garante a continuidade no poder se beneficiando o quanto pode do farnel de bondades que o governo sob sua égide distribui a banqueiros e miseráveis – sempre a cada um pelos serviços que poderá prestar ao amo e senhor de todos os súditos.
Esta não é, também, uma exclusividade do chefe do Executivo. Desde a promulgação da Constituição de 1988, o Congresso Nacional tem agido como se nada tivesse que ver com a hora do Brasil. O nosso é o regime da mamata impune e sem compromisso, também comungado pelo Poder Judiciário, cujos membros praticam as maiores barbaridades em nome das leis que interpretam a seu bel-prazer, embora aleguem ser impotentes para mudá-las. O discurso do presidente e candidato à reeleição na entrega da capitania hereditária (por ironia do destino, exatamente aquela em cujo núcleo apodrecido estourou o tumor da corrupção do mensalão, com o flagrante de uma propina filmada e divulgada) é a consagração definitiva dessa prática perversa na política nacional: a busca do poder total sem contrapartida de responsabilidade. O espírito folgazão, sem compromisso com nada que não seja a própria ânsia de mandar, do chefe da Nação talvez venha a autorizar a iniciativa de alguém com poder suficiente para modificar o dístico da Bandeira Nacional. Com a ordem enxovalhada pelos facínoras do crime organizado e de uns tais movimentos sociais e o progresso esfrangalhado pela desfaçatez com que os grupos que se assenhoraram do poder rapinam os escassos recursos da sociedade brasileira, é o caso de inscrever: “Poder total com responsabilidade zero.”

 
© O Estado de S. Paulo, quarta-feira 12 de julho de 2006

Quem está salvando a pátria

O que podem ter a ver os ilustríssimos senhores lentes da secular Faculdade de Direito da USP no Largo de São Francisco e os jovens mal saídos da adolescência dos bairros mais violentos da Grande São Paulo? Por incrível que pareça, é possível encontrar nesses elementos díspares e aparentemente antípodas uma característica comum: o condão de reinjetar a esperança nas veias esclerosadas de uma Nação entorpecida pelo desânimo, saqueada pela violência e refém da própria indiferença.
Não é nada agradável a sensação de que em temos quantitativos a Nação brasileira transmite a incômoda impressão de que está pouco ligando para o espetáculo de desfaçatez e falta de caráter dado pelas elites dirigentes, das quais o representante máximo é o presidente da República. Egresso das camadas populares, identificado com o cidadão comum, Luiz Inácio Lula da Silva prepara-se este ano para se afirmar como o mais importante líder da História republicana. Afinal, o estancieiro Getúlio Vargas, até agora tido como o tal, atirou no próprio coração para não ter de enfrentar um escândalo de corrupção que, apesar de apelidado de “mar de lama”, comparado com os atuais, não passava de uma “poça”. Enquanto isso, o peão de fábrica, que migrou para São Paulo num pau-de-arara e terminou andando de carruagem ao lado da rainha Elizabeth II, da Inglaterra, está prestes a receber consagradora votação na eleição em que a sociedade decidirá quem será seu sucessor, surfando no que se pode definir, sem exagero, como sendo um “oceano de fezes”.
Dificilmente haverá um brasileiro capaz de acreditar que verdadeiramente o presidente não sabia o que faziam seus mais chegados companheiros de partido e subordinados no próprio governo. No entanto, também não será fácil encontrar um cidadão pobre neste País que não esteja satisfeito com seu governo e, por isso mesmo, deixe de votar nele.
É nesse ambiente de desleixo moral e cívico que se destaca uma solenidade como aquela em que a nata da intelligentsia jurídica nacional festejou no auditório da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco os 95 anos do professor Miguel Reale. Tércio Sampaio Ferraz, Celso Lafer e Miguel Reale Jr., além do próprio homenageado, o intelectual brasileiro número um enquanto viveu (ele morreria logo depois da homenagem), fizeram discursos baseados em princípios e conceitos que parecem extintos. Era a manifestação de uma Nação completamente diferente desse pântano sem escrúpulos em que a politicagem transformou o País oficial, que contaminou definitivamente também o Brasil real.
Semelhante impressão terá quem freqüentar as reuniões dos Círculos de Leitura do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial em Higienópolis, na Capital paulista. Sob a batuta do jornalista nova-iorquino Norman Gall e da psicanalista barcelonesa Catalina Pagés, jovens estudantes de escolas públicas da periferia mais violenta da Grande São Paulo discutem preciosidades da cultura ocidental, como O banquete, do filósofo grego Platão, e A divina comédia, do poeta italiano Dante Alighieri.
O trabalho desses brasileiros, nascidos na Catalunha, nos EUA, em Diadema ou Jardim Ângela, junta-se ao heroísmo anônimo de 180 milhões de brasileiros que permanecem honestos, apesar de todas as dificuldades e de se saberem reféns da delinqüência organizada, rubra de sangue ou de colarinho branco, e das tentações para também se tornarem soldados dessas hordas. Junto com o caseiro Francenildo Santos Costa, que não teve medo de enfrentar o todo-poderoso da Economia federal Antônio Palocci; o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, que denunciou os crimes da quadrilha de 40 manda-chuvas da política; da presidenta do STF, Ellen Gracie, que aos poucos parece recuperar a autonomia (e o pudor) do Judiciário; e dos agentes da lei e paulistanos inocentes que tombaram no banho de sangue do PCC, os luminares do saber jurídico das Arcadas do velho convento franciscano e os meninos da periferia de São Paulo que se interessam por literatura, filosofia e ética merecem, sem ironia alguma, a definição de salvadores da Pátria.

 
© revista eletrônica Pronto. Junho, 2006

A bola e a urna

Nossa seleção foi à Alemanha na condição de vencedora virtual da Copa do Mundo, graças ao virtuosismo de seus astros. Caiu diante da França nas quartas de final com uma decepção que só não iguala a da Inglaterra, em 1966, porque, então, enfrentou Portugal e Hungria, enquanto agora só passou por Croácia, Austrália, Japão e Gana.
Foi um óbvio castigo à soberba. E a prova de descontentamento dos “deuses do futebol” com a vaidade, o individualismo e a ambição desmedida de jogadores e da comissão técnica, empenhados apenas em superar recordes individuais e assegurar o próprio êxito profissional. O hexacampeonato foi sacrificado para Cafu aumentar o número de partidas disputadas pela seleção; Ronaldo Fenômeno se tornar o maior artilheiro de todas as Copas; e Roberto Carlos acrescentar mais partidas disputadas a seu currículo.
O técnico Carlos Alberto Parreira comemorou cinicamente a passagem pelas quartas de final com seu time dando o primeiro chute correto em direção ao gol (e defendido pelo goleiro) a dois minutos do final do jogo, já então perdido.
A torcida, humilhada pela esperança frustrada, está convidada a refletir sobre a euforia arrogante e estúpida de uma geração de profissionais de caráter duvidoso, adequada ao momento político do País. Por conta disso tudo, os excelentíssimos senhores dirigentes do Estado brasileiro, que já se preparavam para usar o “caneco” como trunfo eleitoral, podem começar a pôr as barbas de molho. Pois, da mesma forma como favoritismo não ganha campeonatos, eleições se vencem nas urnas, e não nas pesquisas.
© Artigo publicado no Jornal da Tarde, terça-feira 4 de julho de 2006, Página A2

O desafio do usineiro ao Estado de Direito

O MLST não luta contra o latifúndio, mas contra o império da Lei

 

É interessante observar a estranheza com que algumas pessoas reagem ao fato de Bruno Maranhão não ser um pobre camponês, mas o lídimo descendente de uma linhagem de senhores rurais, proprietários de sesmarias de canaviais, e cultor dos melhores sabores da vida, entre os quais o gosto refinado por produtos de vinícolas francesas. E ver a imprensa registrar o peculiar bom humor bonachão com que esse usineiro de boa cepa reage às brincadeiras de seus companheiros da cúpula do Partido dos Trabalhadores a respeito do abismo social que o separa dos egressos do “chão de fábrica” e, o que é mais comum, da direção dos sindicatos. Não escapará ao observador atento das fotos em que o líder da depredação da Câmara dos Deputados, na semana passada, aparece com o presidente da República um certo aplomb, um inequívoco ar de superioridade, no rictus irônico desenhado por seus músculos faciais, ante os próprios companheiros de jornada a seu lado.
Mas quem o conhece bem, e há muito tempo, não se surpreende com isso. É o caso, só para dar um exemplo, do advogado paraibano Rômulo de Araújo Lima, que fundou com ele o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), dissidência armada do velho Partidão stalinista. “O impressionante é que ele não mudou nada”, observou o ex-companheiro de aventura e tortura nas masmorras da ditadura. Será, então, Bruno Maranhão ainda um revolucionário sonhador que, à imagem e semelhança dos guerrilheiros de Sierra Maestra, em Cuba, de Douglas Bravo, na Venezuela, dos tupamaros, no Uruguai, ou de Tiro Fijo, na Colômbia, desafiava o poderio imperialista nos grotões de nossa América Latina? Nada disso! Para Araújo Lima, o antigo companheiro de direção do grupo revolucionário já era, então, e continua a sê-lo hoje, o retrato encarnado e esculpido da casta social na qual nasceu e foi criado. E mais: para o ex-camarada de luta armada, o líder do Movimento da Libertação dos Sem-Terra (MLST) é uma expressão perfeita da faceta esquerdóide do coronelismo rural nordestino. Aparentemente, trata-se de uma conclusão espantosa. Como pode um militante que dedica a vida ao combate ao latifúndio não passar de uma espécie de raivoso dissidente socialista dos senhores das terras e das almas do interior nordestino?
Para entender isso convém tirar as cascas da cebola mítica da ideologia e ir ao cerne da questão. Somente os que têm por ideologia a tolice acreditam – e os espertalhões que disso se aproveitam para se locupletar na política divulgam – que o MLST, o MST e outros movimentos ditos sociais dos desterrados das periferias urbanas lutam por uma reforma agrária para tomar a terra dos especuladores e entregá-la aos que nela podem produzir. Qualquer cidadão isento e lúcido está a par de que o verdadeiro inimigo desse tipo de grupo, que manobra com o lumpesinato urbano em busca do Éden campestre, é o Estado de Direito e tudo quanto este representa na luta por igualdade de oportunidades e possibilidade de ascensão social pelo mérito, e não pelo compadrio ancestral.
A brutalidade cega e estúpida contra a Câmara é a prova definitiva de que líderes como Bruno Maranhão não estão interessados em terra para produzir, mas na desmoralização das instituições democráticas, entre as quais o Poder Legislativo, por mais improdutivo e desmoralizado que de fato este já esteja. Concentrar a atenção na barbárie planejada e executada meticulosamente é abordar o fenômeno apenas pelos efeitos. Tão grave quanto a violência é o progressivo processo de leniência com que o Estado brasileiro trata as violações permanentes e impenitentes contra as leis por cujo cumprimento deveria zelar.
Os próceres aos quais a sociedade delega o poder de comandar o Estado se comportam como se fossem suseranos a quem o voto permite passar por cima das normas jurídicas vigentes quando isso lhes convém. Fernando Henrique estendeu tapete vermelho para o MST e entregou ao sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, um estado de coisas em que os inimigos da democracia já eram tratados como se fossem vítimas dela. Com sua inata (e explosiva) mescla de sagacidade com ignorância e oportunismo, o atual presidente aproveitou-se o quanto pôde dessa verdadeira “herança maldita” para pagar as dívidas do PT com alguns grupelhos de extrema-esquerda inimigos figadais da democracia, muitos dos quais, aliás, abrigados não apenas nos porões, mas até mesmo nas torres do relógio do partido governista. A ostentação de bonés e outros badulaques deles pelo chefe do Estado é o símbolo decisivo da vigência do pacto da truculência coronelista com o corporativismo sindicalista contra o império impessoal das leis.
Esse pacto se manifesta claramente nas prioridades estabelecidas pelo governo petista, que, nunca é ocioso lembrar, financia as hordas de vândalos que invadem propriedades privadas e próprios públicos ao arrepio da lei e ao abrigo da indiferença dos guardiães desta. O governo que engordou os cofres do MLST do coronel Maranhão com R$ 5,7 milhões é o mesmo que propiciou um aumento, em três anos, de 26% dos lucros das cinco maiores instituições financeiras nacionais a mais que nos oito anos do governo anterior, execrado por proteger banqueiros. E, não por acaso, injetou 23% de aumento na renda do lumpesinato, aplicando com intenções eleiçoeiras o sistema assistencialista coronelista, já adotado na gestão tucana, da Bolsa-Família. Com a garantia da satisfação da elite financeira, o que leva a campanha adversária à indigência, e a segurança do triunfo eleitoral com o apoio das urnas milionárias da mendicância, o grupo no poder pouco se importa com os efeitos malignos de sua opção pelo lucro dos bancos e pela esmola aos pobres na redução dos investimentos. Isso lá dá voto?!

 
© O Estado de S. Paulo, 14 de maio de 2006.

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