Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Jornalismo

No Blog do Nêumanne: O pato de Donald repetirá o patrão

No Blog do Nêumanne: O pato de Donald repetirá o patrão

José Nêumanne

Bolsonaro já avisou a quem interessar possa que seguirá modelo da invasão do Capitólio se perder a eleição de 2022 e não for adotado voto impresso, o que tem poucas chances de ocorrer

Duas notícias da semana passada, que aparentemente não têm relação entre si, revelam o alto risco corrido pela incipiente, mas até agora sólida, democracia brasileira de repetir autogolpes recentes da História da República: o de Getúlio, em 1937, e o da junta militar de 1969. O estancieiro gaúcho, que havia amarrado os cavalos da tropa no obelisco no Rio, em 1930, submeteu o movimento constitucionalista dos paulistas, em 1932, e assumiu a ditadura escancarada cinco anos depois, interrompendo a eleição presidencial em plena disputa entre Armando de Salles Oliveira e José Américo de Almeida. Após o impedimento do segundo presidente sob o golpe de 1964, marechal Costa e Silva, o vice-presidente civil, udenista e mineiro Pedro Aleixo, que se opusera ao Estado Novo getulista, teve a posse vetada, 32 anos depois, por uma junta militar. Composto pelo almirante Augusto Rademaker, pelo general Lira Tavares e pelo brigadeiro Márcio de Sousa Melo, o triunvirato escancarou a ditadura com “eleições” indiretas de três generais: Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo.

Em 7 de janeiro passado, o capitão terrorista Jair Bolsonaro anunciou, sem medo de ser feliz, ao comentar o fiasco do golpe de seu patrão ianque, Donald Trump, na véspera, Dia dos Santos Reis: “Se nós não tivermos o voto impresso em 2022, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos”. Mais tarde, na live semanal de quinta-feira, insistiu: “Qual o problema nisso? Estão com medo? Já acertaram a fraude para 2022? Eu só posso entender isso aí. Eu não vou esperar 2022, não sei nem se vou vir (sic) candidato, para começar a reclamar. Temos que aprovar o voto impresso”. Eis a crônica do autogolpe anunciado, sem pudor, sem lógica e sem admitir contraditórios.

Em março passado, o presidente disse que apresentaria provas de que o pleito presidencial de 2018, vencido por ele, foi fraudado. Como de hábito, estava blefando: nunca apresentou sequer um indício de que o resultado da eleição tenha sido alterado de forma ilícita, contrariando a vontade do eleitor. Em novembro, seu patrão, Trump, perdeu a reeleição para o democrata Joe Biden por diferenças abissais: 74 delegados dos 50 Estados (306 a 232) e 8 milhões 59 mil e 741 sufrágios na votação popular (81.283.485 a 74.223.744). No entanto, abusou da “regra três” (como cantavam Toquinho e Vinicius no século passado), ao reclamar, sem provas, de ter sido “furtado”. Mas, como seu pato dos trópicos, o patrão ianque não revelou um indício de fraude que fosse, teve todas as ações rejeitadas nos Estados e não recebeu a proteção com que contava na Suprema Corte, onde seis dos nove ministros são conservadores, incluindo a última, que ele próprio indicou, Amy Coney Barrett ao arrepio da evidência de abuso pelos poucos dias que faltavam para o fim do mandato.

Como seu pato tupiniquim, o patrão abusado protagonizou um escândalo de dimensões ciclópicas ao pressionar o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, em telefonema de uma hora, revelado pelo jornal que denunciou o escândalo Watergate, The Washington Post. Carl Bernstein, um dos autores da reportagem, disse à CNN que esse caso ainda é mais escandaloso que o de Richard Nixon. No entanto, Trump o superaria ao convocar, em comício, uma turba de radicais lunáticos a invadir por quatro horas o Capitólio, sede do Senado e da Casa dos Representantes (equivalente à nossa Câmara dos Deputados), provocando o maior quebra-quebra institucional da História da democracia dos pais fundadores, desde 1776, há 244 anos. O mundo inteiro desabou sobre a cabeça do presidente dos EUA, com uma exceção. Mais uma vez, Bolsonaro não se fez de rogado ao comentar o vexame fascistoide de seu ídolo: “Você sabe que sou ligado ao Trump. Então, você sabe qual a minha resposta aqui”.

Haverá alguma instituição no País pronta para segui-lo na aventura para ter êxito imitando o malogro de Trump? Apesar de sempre insinuar e, às vezes, afirmar que as Forças Armadas estão com ele e de manter em cargos bem remunerados oficiais da ativa e da reserva, invejáveis boquinhas, talvez não conte com sua ajuda numa aventura antidemocrática para impor o voto impresso. Que só interessa a seus amigos das milícias cariocas e aos coronéis que ainda restam nos grotões, alguns deles do Centrão. Na verdade, ele conta mesmo é com as milícias armadas, que parodiam o lema de seu mais novo aliado secreto, Lula da Silva: “O povo armado jamais será vencido”. O apoio que alicia é das Polícias Militares estaduais. E, segundo reportagem de Felipe Frazão, do Estadão em Brasília, já há no Congresso, à espera de votação, dois projetos de lei orgânica das Polícias Civil e Militar restringindo o poder de governadores sobre braços armados dos Estados e do Distrito Federal. Ninguém pode deixar de agir por desconhecimento. Na reunião ministerial de 22 de abril de 2020, gravada e transmitida para todo o País graças à clarividência do ex-decano do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello, Sua Insolência defendeu claramente armar o que ele chama de “povo”. E mais: o capitão de milícias, que prestigia todas as formaturas de academias de PMs, não perde uma oportunidade de declarar sua posição favorável à tal “excludente de ilicitude”, que, na prática, inocenta todos os policiais acusados de abuso de autoridade em confrontos armados em comunidades, sejam quais forem as circunstâncias. Menos ainda o por enquanto presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Pois seu pai, o ex-prefeito César Maia, invocou o próprio testemunho para lembrar que, no golpe facistoide de Pinochet, no Chile, os “carabineiros” tiveram tal importância que o ditador adotou a corporação como quarta força armada. Nenhum dos 70 projetos de impeachment do candidato ao autogolpe, contudo, sai da gaveta do filhote, que, aliás, nasceu no Chile, não foi?

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda 11 de janeiro de 2021)

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Nêumanne Entrevista Fausto De Sanctis

Nêumanne Entrevista Fausto De Sanctis

Desembargador lamenta fim da Lava Jato

O desembargador paulista Fausto De Sanctis, que, na primeira instância, condenou os corruptos do clube das empreiteiras em São Paulo na Operação Castelo de Areia, interrompida no STJ, lamentou a extinção das operações de combate à corrupção, como Lava Jato de Curitiba e do Rio e Greenfield de Brasília. Na série Nêumanne Entrevista, o especialista em lavagem de dinheiro denunciou o retrocesso provocado pelos Poderes Executivo e Legislativo e pela cúpula do Judiciário que torna o Brasil um péssimo exemplo no mundo inteiro pela demolição constante e corrosiva com que o governo Bolsonaro, o Congresso Nacional e os altos tribunais do Judiciário, e com a ajuda do MPF, tornam leis que de fato puniram criminosos do colarinho branco autênticos valhacoutos em que bandidos poderosos se refugiam. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará.

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Artigo no Estadão desta quarta-feira: Bolsonaro e Mourão são a quintessência da maldade

Artigo no Estadão desta quarta-feira: Bolsonaro e Mourão são a  quintessência da maldade

José Nêumanne

Vice fã de torturador garante distância

de presidente desumano de eventual impeachment

Balanço do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) aponta que, até 21 de novembro de 2020, foram registradas no Brasil 200 mil mortes, 24% mais do que era estimado para o ano findo. Naquela data, as perdas em decorrência da covid-19 chegavam a 168.989, conforme dados divulgados pelo consórcio dos meios de comunicação, já que o Ministério da Saúde se recusa a fornecer dados confiáveis. A coincidência levanta a hipótese de que, mesmo com aumento da população, a pandemia, maior causa de óbitos do País no ano, está muito longe de poder ser definida como mera “gripezinha”. Os números nunca mentem, mas isso não comoveu quem cruzou o marco do calendário gregoriano facilitando a contaminação pelo novo coronavírus.

Alguns brasileiros ilustres agiram como agentes desse contágio. O craque Neymar promoveu festa para 500 convidados em Mangaratiba, aviltando o tema do sucesso de Luiz Gonzaga. O influenciador em redes sociais Carlinhos Maia aglomerou centenas no Natal da Vila, resultando em 47 contaminados. Outro ídolo de crianças e adolescentes nas redes sociais, Felipe Neto, criticou-o, mas foi filmado jogando futebol. O governador de São Paulo, João Doria, jura adesão à ciência, mas fez um bate-volta para Miami a pretexto de “merecido” repouso de guerreiro. Outro tucano, Bruno Covas, festejou a reeleição para a Prefeitura de São Paulo num “covidão” que lembrou bailes funk da periferia, e ainda promoveu um bonde da alegria com aumento de 46% para si, o vice, vereadores e servidores. Merval Pereira definiu-os como “sem noção” em sua coluna no Globo.

Dentre eles, Jair Bolsonaro é hors-concours. Ganhou menção especial porque passou o Natal num forte militar em São Francisco do Sul (SC), pertinho de Presidente Getúlio, no Vale do Itajaí, onde 21 brasileiros morreram afogados numa enchente. Na companhia de um magote de bajuladores, deixou em Brasília a mulher, Michelle, que usufruiu o feriadão rodando de kart com o maquiador Agustin Fernandez no Ferrari Kart do Autódromo Nelson Piquet. Madame pode ser adicionada ao rol.

Depois, o presidente cometeu insanidades tentando desviar sua responsabilidade no combate à vacinação, com exigência de imagens do calo ósseo na mandíbula de Dilma, torturada no regime militar. E na grotesca exposição de sua barriga pseudoatlética ao se jogar de um barco ao mar para nadar até um grupo previamente reunido de apoiadores, que insultaram adversários aos berros e o chamaram de “mito”. Aglomerados e jorrando perdigotos, como só convém ao vírus.

No show de indiferença ao risco de morte de 212 milhões de vítimas desgovernadas por ele, destacou-se sua crítica desastrada à decisão do Congresso argentino de descriminalizar o aborto. Nem isso alterou o sono perpétuo decretado por seu pretenso adversário, Rodrigo Maia, presidente da Câmara, a mais de 40 processos de impeachment. Parte dessa expressão de inércia se deve ao fato de seu substituto eventual, o vice Hamilton Mourão, ser, como ele, admirador confesso do torturador e assassino Brilhante Ustra, acusado por Dilma de lhe haver fraturado a mandíbula. A tortura, reconhecem os “mansos de coração” do sermão das bem-aventuranças Daquele que ele diz adorar, Jesus Cristo, é a máxima covardia. Só poltrões como Bolsonaro e seu vice podem considerar esse oficial “herói” e “homem de honra”. Covardia é o contrário de bravura, qualidade que dá medalhas a militares em ação nos campos de batalha. E só pode ser pior do que um torturador quem o admire sem coragem de imitá-lo, só por faltar ocasião.

O desgovernante que torna inviável a vacinação, sonhada pelo povo real (e não o fictício na Praia Grande e no “chiqueirinho” do Alvorada) como sopro de sobrevida, não é, contudo, um ponto fora de curva na história dessa “Pátria Amada” ideal de comerciais de promoção da Secretaria de Comunicação. Bolsonaro e Mourão são a quintessência da maldade de momentos abjetos de nossa História. O Brasil foi a última Nação do Ocidente a abolir a escravidão de africanos transportados em brigues imundos através do Atlântico, e da qual se livrou em doses homeopáticas e condições indignas, denunciadas pelo abolicionista Joaquim Nabuco. A República cega e surda não enxergou a ignomínia do massacre dos crentes sertanejos em Canudos, comandado por covardes arrogantes como Moreira César, apesar do relato do gênio Euclydes da Cunha. Nem ouviu os gemidos dos dissidentes no Estado Novo de Getúlio, relatados em Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos;

A encenação da grosseria contagiosa nas areias de Praia Grande, a cargo de agentes da morte treinados nas “milícias populares” do capitão terrorista em Polícias Militares (PMs), celebrou a agonia anunciada pelo combate ao uso da máscara, ao isolamento social e à imunização, condizentes com as melhores conquistas civilizatórias do honrado Brasil real. A farsa fúnebre nada tem que ver com a definição de amor, verdade e vida do Deus manso, ao Qual reza o facínora-mor. Só propicia safras malditas de ódio, mentira e dolorosa tortura da morte antecipada.

 Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página A2 do Estado de S. Paulo, quarta-feira 6 de janeiro de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Donald afunda no próprio cuspe. Mas, e Jair?

No Blog do Nêumanne: Donald afunda no próprio cuspe. Mas, e Jair?

José Nêumanne

Escândalo inócuo, provocado pelo presidente dos EUA a 17 dias da posse de Biden, deveria alertar seu pato Bolsonaro a não tentar repetir lorota da fraude eleitoral se perder em 2022

O mundo parecia levar na gozação a cantilena golpista do presidente da maior potência militar e geopolítica do mundo, Donald Trump, de tentar ganhar no gogó golpista e na empáfia negacionista a disputa eleitoral em que foi amplamente derrotado. No colégio eleitoral, 306 a 232, e na votação popular, 81 milhões e 400 mil a 74 milhões e 200 mil. Mas o derrotado resistiu além da lógica e da sensatez. O ano novo começou com a notícia de que senadores republicanos tentariam reverter a decisão dos cidadãos norte-americanos no Senado, ainda presidido até 20 de janeiro pelo vice-presidente Mike Pence, da chapa vencida. Tudo parecia decidido, definido e distante até que o resiliente perdedor protagonizou escândalo de dimensões ciclópicas e, conforme observadores relevantes, históricas.

O jornal The Washington Post publicou a notícia e divulgou em suas redes sociais a gravação de um telefonema impertinente e antidemocrático do presidente pressionando o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, a “encontrar” votos suficientes para reverter sua derrota para Joe Biden naquele Estado. Isso foi feito e provado na reprodução de um telefonema que durou uma hora, feito no sábado 2/1. O jornal obteve a gravação da conversa em que Trump repreende Raffensperger, tenta bajulá-lo, implora-lhe que aja e o ameaça com vagas consequências criminais se o interlocutor se recusar a obedecer-lhe. Chega a alertar Raffensperger de que este assumirá “um grande risco”.

Não bastaram a inconveniência e a grosseria do chefe do Executivo a apenas mais 18 dias na Casa Branca, publicadas pelo veículo de comunicação que revelou ao mundo o celebérrimo caso Watergate. Pois assomou ao noticiário o vulto de um dos repórteres que assinaram a reportagem que levou Richard Nixon a renunciar para evitar o impeachment inevitável. Parceiro de Bob Woodward na cobertura real e como autores e protagonistas do best-seller em livro e filme Todos os Homens do Presidente, Carl Bernstein engrossou o caldo venenoso. Ele cobrou a renúncia de Trump e disse mais: que o grampo atual contra o presidente dos EUA é pior que o de Watergate. “Esta é a fita definitiva de uma arma fumegante”, disparou Bernstein, em entrevista à CNN.

A exemplo de Nixon, que mereceu, à época das manifestações de protesto contra a intervenção militar dos EUA no Vietnã, a alcunha depreciativa de Tricky Dick (Ricardinho Pilantra), Trump abusou da regra três, em que, como alertava a canção de Toquinho e Vinicius de Moraes, “o menos vale mais”. Fê-lo ao abrigar na Casa Branca delinquentes políticos capazes de violar a lei para prestarem serviços ilícitos ao chefe do Executivo. Essa patota de compadritos empreitou o arrombamento do escritório de campanha do democrata George McGovern no edifício Watergate para furtar documentos sigilosos. Para piorar as coisas, comentou o assalto com os responsáveis por ele e assegurou que não o havia feito. Só que as conversas no Gabinete Oval eram gravadas desde a presidência Kennedy. A primeira gravação foi feita no despacho de Lincoln Gordon, então embaixador no Brasil, em que foi selado o apoio da democracia dos “pais fundadores” à ditadura militar brasileira, como registra o documentário O Dia que Durou 21 anos, de Camilo Tavares.

Com o apoio de Katherine Graham, proprietária, e Ben Bradlee, editor-chefe, o Washington Post passou a publicar diariamente o avanço das investigações com a ajuda de uma fonte misteriosa do Pentágono, que confirmava as informações corretas e avisava sobre as pistas falsas. Com o codinome de Garganta Profunda, título de um filme pornográfico de muito êxito, esse funcionário foi fundamental para o sucesso da empreitada. Outro servidor público de muita serventia foi o procurador Archibald Cox, cuja investigação implacável levou Nixon a renunciar. O irônico é que McGovern não tinha, como ficou provado na eleição, nenhuma chance de derrotá-lo. Como Nixon, Trump cometeu a suprema imprudência de derreter sua estratégia golpista cometendo o erro de desprezar a possibilidade de ter seu telefone grampeado, seja por um assessor que não goste dele, seja do próprio interlocutor, como “advertiu” Allan dos Santos.

Dificilmente Trump repetirá Nixon. Mas talvez possa servir de exemplo para seu fâmulo brasileiro, Jair Bolsonaro, que desde seus tempos de baixíssimo clero na Câmara dos Deputados alimenta a ilusão de tirar vantagem de denúncias de fraude eleitoral e da solução estúpida do voto impresso. Recentemente, em declaração na qual negou a esperteza de quem venceu uma disputa eleitoral em que era azarão, o capitão terrorista denunciou ter sido fraudado o pleito por ele vencido. E agora se aproveita disso para “prever” nova fraude na disputa de 2022, em que pretende se reeleger. A possibilidade de voto impresso ser aprovado pelo povo e pelas instituições é muito remota. Mas o jurista Miguel Reale Júnior, um dos autores do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, do PT, advertiu: “A grave menção de que, ‘se não houver voto impresso, esqueça-se a eleição de 2022’, somada à corte que Bolsonaro faz às polícias militares, instigadas contra a imprensa livre, forma um quadro preocupante diante da possível derrota do presidente, que terá preparado o terreno para uma ‘lei marcial’, tal qual a pensada por Trump, dando fim à democracia”, que, aliás, nenhum dos dois, o patrão ianque e o servo patrício, jamais cultuou.

Agora Donald afundou na saliva do golpe retórico, que não tem como dar certo. Ainda que isso não sirva de lição para seu pato latino, convém atentarmos para a advertência judiciosa do jurista. Xô, Bolsonaro!

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 4 de janeiro de 2021)

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Nêumanne Entrevista Aristides Junqueira

Nêumanne Entrevista Aristides Junqueira

Para Aristides, Lava Jato não acabará

“A Lava Jato não acabará”, disse o primeiro procurador-geral da República a ocupar o cargo na vigência da atual Constituição neste vídeo Nêumanne entrevista Aristides Junqueira. No colóquio, ele revelou pela primeira vez em público como ele próprio foi nomeado pelo então presidente Sarney e, depois, reconduzido ao posto máximo da carreira por Collor, o que não o impediu de pedir ao STF que processasse o então presidente por corrupção. O mineiro, que começou atuando no serviço público como procurador do Estado de Goiás, manifestou-se a favor da escolha do PGR pelo presidente em lista tríplice eleita pela corporação, mas adiantou que isso, que já ocorre nas procuradorias estaduais, só deveria ocorrer na federal se a Constituição for alterada. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará.

 

 

 

No Blog do Nêumanne: O Brasil do bem tem nojo de Bolsonaro

No Blog do Nêumanne: O Brasil do bem tem nojo de Bolsonaro

José Nêumanne

Ao perdoar delitos que considera menores, presidente é coerente com seu passado de delinquente desaforado no último país a abolir a escravidão no Ocidente e de forma execrável, como denunciou Nabuco

“Ninguém me pressiona para nada, eu não dou bola para isso”, confessou o presidente Jair Bolsonaro, enquanto circulava ao longo de duas horas em Brasília, sem usar máscara, no sábado, 26 de dezembro, um dia depois da celebração do nascimento do fundador da fé que ele diz professar. No dia seguinte, domingo, 27, fiel ao estilo de carcará, que pega, mata e come, mas depois assopra na ferida, assegurou: “Temos pressa em obter uma vacina, segura, eficaz e com qualidade, fabricada por laboratórios devidamente certificados. Mas a questão da responsabilidade por reações adversas de suas vacinas é um tema de grande impacto, e que precisa ser muito bem esclarecido”. Ou seja, nem sempre ele mente descaradamente a ponto de merecer o apelido de “minto”. Quando morde, é veraz. Quando recua, mente, ao fingir que o fez antes.

Faltou mais com a verdade, de forma repetida e contumaz, no palanque da campanha presidencial, quando prometeu combater a corrupção, a violência, o crime e os privilégios de uma casta, à qual pertence, que trata as burras da República como se fossem propriedade familiar. No exercício do mandato presidencial, que conquistou com o mais extenso, desavergonhado e cínico estelionato da História do País, ele dedicou-se a perdoar os “pequenos delitos”, cometidos por assassinos da velocidade ao volante, desmatadores da Amazônia e destruidores do meio ambiente. Em particular, ele próprio e seus filhotes, que extorquem funcionários fantasmas em seus gabinetes, legitimados pelo voto popular proporcional em seus mandatos, de acordo com provas levantadas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP/RJ). Assim como portadores de armas legalizadas e fora do alcance do rastreamento do Exército, que dispensou escoiceando o comando da Força sem a menor cerimônia.

Embora sua eleição majoritária seja uma obra-prima do engodo da venda do bonde e pronta entrega de uma parelha de muares, não se pode, contudo, incriminá-lo por falta de coerência, segundo Assis Chateaubriand a virtude dos imbecis. Afinal, sua ação, resultante na mortandade superior à propiciada pelas bombas atômicas ianques sobre Hiroshina (140 mil mortos) e Nagasaki (74 mil), supera 190 mil numa contagem rasa com subnotificação. Ou seja, deixa ambas para trás em recorde e deverá alcançar, à média de mil por dia, a soma das duas tragédias em um mês.

  Bolsonaro entrou na latrina pública planejando atentados à bomba em quartéis e na adutora do Guandu, no Rio. Condenado em segunda instância por terrorismo, foi perdoado por nostálgicos da ditadura no Superior Tribunal Militar, em decisão estúpida, absurda e funesta. No exercício de sete mandados de deputado federal entre 1991 e 2018, destacou-se pelo apoio irrestrito dado ao capitão PM do Rio Adriano da Nóbrega, chefe da milícia de Rio das Pedras e do empreendimento homicida Escritório do Crime, na base eleitoral dele e de sua famiglia. E também pela associação com o médico, sindicalista e petista Arlindo Chinaglia na autorização para venda da “pílula do câncer”, primeira demonstração explícita de sua vocação para charlatão barato de feira livre.

Na campanha presidencial de 2018, adotou bandeiras populares com desfaçatez e esperteza. E caiu no gosto do Brasil profundo, que, como ele, tem um vasto elenco de vilezas históricas. A maior delas, a escravidão de índios e, depois, africanos degradados em porões infectos de navios negreiros, cospe na honra de quem desfralda o “auriverde pendão”, como denuncia o poeta Castro Alves. Outra, quase das mesmas proporções, é o degredo em território nacional em pocilgas desumanas dos escravos forros, abandonados à própria sorte sem o menor planejamento, conforme denunciou o mais lúcido dos abolicionistas, Joaquim Nabuco.

O presidente, pois, não caiu na História de pára-quedas, que aprendeu a manejar quando conheceu Fabrício Queiroz, subtenente da PM RJ, tesoureiro do peculato de que o MP RJ acusa seu primogênito, Flávio, beneficiário de “doações” de Adriano e benemérito doador de ao menos R$ 98 mil na conta da primeira-dama, Michelle, que o vendedor da cloroquina, destruidora de fígados e devoradora de fetos, assumiu como seus.

Em reveladora entrevista que publico no Blog do Nêumanne no Portal do Estadão desde sábado 26 último, o pioneiro no jornalismo ambiental no Pasquim, Edilson Martins, contou que a famiglia Bolsonaro sempre teve relações íntimas com milícias. Mas não é a única. A modalidade criminosa controla, como ele lembrou, os distritos eleitorais em que o prefeito afastado e não reeleito do Rio, Marcelo Crivella, mais recebeu votos. E nenhum ex-prefeito, entre eles o que agora foi reeleito, Eduardo Paes, nem governador nenhum, incluindo o atual, Cláudio Castro, moleque de recados do clã presidencial, denunciaram as evidências de crime dos bandos na periferia da ex-Cidade Maravilhosa.

O Brasil do bem sabe que o torturador Brilhante Ustra não é “um cidadão de honra” e que o massacre de Canudos é uma nódoa indelével na história do Exército. E sente vergonha e nojo do Brasil do Bê, de Bolsonaro, que deplora a vacina e exalta, não o placebo, mas uma mezinha maldita, que faz mal ao paciente impaciente pela imunização, que ele lhe nega.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 28 de dezembro de 2020)

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