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No Blog: Nêumanne entrevista Paulo Melo

No Blog: Nêumanne entrevista Paulo Melo

Chega de Lula!

Para cineasta e ex-analista do CNPq, petista “já deu o que tinha de dar”, está muito rico e agora deve submeter ao julgamento da História seu legado de recessão, desemprego e inflação

O cineasta e ex-analista do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Paulo Melo disse que “o grande esforço nacional seria no sentido de esquecer Lula, por um simples e prosaico motivo: ele já deu o que tinha a dar”. Segundo o assistente de direção do filme Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., “bem ou mal, que a História, no seu tempo devido, o julgue, que diga realmente em que importaram para o Brasil seu poder e sua glória. Quanto à fortuna, se é o caso da financeira, essa ele já tem usufruído de há muito”. Na série Nêumanne Entrevista, publicada semanalmente neste blog, Melo afirmou ainda que, “de toda essa confusão armada pelo PT, nada indica de que Lula possa vir a fazer algo de significativo para o País, se que é verdadeiramente chegou a fazer, haja vista o legado de recessão, desemprego e inflação que ele deixou. Em causa própria, inteligente e esperto como poucos, fez até demais. Deixou até de ser uma pessoa para se tornar uma ideia”.  E mais: “Nessa podridão em que está envolvida a classe política, e num país sem partidos políticos verdadeiros, o fato de ele ter cometido crimes e por eles estar cumprindo pena pouco importa, até o ajuda, pois para muitos, em especial no nosso irremediável Nordeste, ele é mesmo um preso político, quem sabe um mártir e talvez até mesmo um santo”,ponderou Melo.

Paulo Melo: "Estamos engalfinhados em discussões radicalizadas de uma nota só e desafinada, que só levam a um febril culto à personalidade" Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo: “Estamos engalfinhados em discussões radicalizadas de uma nota só e desafinada, que só levam a um febril culto à personalidade” Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo nasceu em João Pessoa (Paraíba), em maio de 1943. Graduado em Filosofia pela UFPB, com especialização em administração cultural pela UnB/OEA. Diretor da Divisão de Documentação e Cultura (1968-9), do Teatro Santa Roza (1970-5) e do Departamento de Assuntos Culturais/Diretoria Geral de Cultura (1975/79), órgãos da Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba, diretor das quatro primeiras edições do Festival de Areia (1976-1979) e diretor da Editora da Universidade Federal da Paraíba (1979-1980). No CNPq, em Brasília, assumiu as funções de coordenador editorial (1980-6) e secretário dos Órgãos Colegiados (1991-2013), incluindodiretoria executiva (redação da ata de 364 reuniões) e conselho deliberativo (organização e secretaria executiva de 128 reuniões). Foiassessor especial da Secretaria de Cultura da Presidência da República (1990-1), gestão de Ipojuca Pontes. Participou de 11 filmes: foi assistente de direção em Menino de Engenho (1965), de Walter Lima Jr.; Onde a Terra Começa (1967), de Ruy Santos; Fogo Morto(1976), de Marcos Farias, e Soledade (1975) e Batalha de Guararapes (1977), ambos de Paulo Thiago; produtor executivo de O Homem de Areia (1980), de Vladimir Carvalho; co-roteirista e autor da pesquisa em Poética Popular (1970), de Ipojuca Pontes, e Incelência para um Trem de Ferro (1973), de Vladimir Carvalho; e diretor dos curtas-metragens Contraponto sem Música (1968), com Virgínius da Gama e Melo, Paraíba, prá seu Governo (1969), e A Última Chance (1973). Escreveu na imprensa de João Pessoa no período de 1959-1980.

Nêumanne entrevista Paulo Melo

Nêumanne – As narrativas de grandes feitos de líderes revolucionários de origem popular, das quais o senhor tem conhecimento, foram capazes de profetizar ou registrar uma história de vida como a do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que saiu da extrema miséria echegou apoder, glória e fortuna, em proporção igual ou similar à por ele atingida?

Paulo Melo – Você já imaginou o quanto se tem perdido de tempo, energia e dinheiro com essa lengalenga do PT com a inviável candidatura de seu único líder? É como se o Brasil, com seus gravíssimos problemas, não existisse, fosse uma espécie de Escandinávia. É por isso que, dias atrás, lhe disse que o grande esforço nacional seria no sentido de esquecer Lula, por um simples e prosaico motivo: ele já deu o que tinha a dar. Bem ou mal, que a História, no seu tempo devido, o julgue, que diga realmente em que importaram para o Brasil esse poder e essa glória a que você se refere. Quanto à fortuna, se é o caso da financeira, essa ele já tem usufruído de há muito. De toda essa confusão armada pelo PT, nada indica de que ele possa vir a fazer algo de significativo para o País, se que é verdadeiramente chegou a fazer, haja vista o legado de recessão, desemprego e inflação que ele deixou. Em causa própria, inteligente e esperto como poucos, fez até demais. Deixou até de ser uma pessoa para se tornar uma ideia. Para júbilo da militância. Imagine aonde chegamos! Tá difícil. Por exemplo, de suas dez perguntas, a metade diz respeito diretamente a ele. É preciso ter, então, paciência.

Paulo Melo, líder estudantil, discursa para colegas do tradicional Lyceu, de João Pessoa. Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo, líder estudantil, discursa para colegas do tradicional Lyceu, de João Pessoa. Foto: Acervo pessoal

N – Há na História universal o caso de algum líder político, social ou empresarial que caiba de forma tão total e acabada no perfil daquilo que os burgueses chamam de self-made man capaz de se igualar ao do mesmo Lula, que foi de entregador de lavanderia a presidente da República e depois se revelou vitorioso produtor de presidentes, governadores e outros políticos poderosos?

P – É possível que essa trajetória de sucesso pessoal seja a principal responsável pela relevância que ele ainda ocupa no cenário político. Uma série de fatores convergiu para que isso acontecesse. Numa época, estou falando nos anos 1970-1980, quando ainda se considerava o proletariado o salvador coletivo, a emergência de Lula como líder sindical, em aparente oposição aos pelegos patrocinados pelo getulismo, parecia uma mão na roda. Os intelectuais orgânicos, na falta de melhor opção, trataram, então, de moldá-lo no melhor figurino de um genuíno líder esquerdista, e o fizeram a contento. Com a fundação do PT, em 1980, e transformado num político profissional, não faltou muito para que a peça esculpida assumisse vida própria e fosse pouco a pouco, bom de palco e ardiloso nas articulações como lhe é proverbial, galgando posições e se tornasse o que veio a ser. E assumiu de forma que nada é feito no PT sem o seu consentimento. Sem nenhum espírito democrático, tornou-se o partido um suserano, um absolutista, a exemplo de um Luiz XIV ou um pequeno Stalin. Para tanto, o que não é pouco, o talento e o instinto contribuíram, mas não foi o suficiente, de forma que, como tal, não foi exatamente um self-made man.

Paulo Melo em intervalo das filmagens de Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., com Sávio Rolilm no papel-título. Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo em intervalo das filmagens de Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., com Sávio Rolilm no papel-título. Foto: Acervo pessoal

N – Em sua vida, o senhor já leu algum folheto de cordel, romance de realismo mágico, tratado de psicopatologia, poema épico, peça de teatro do absurdo, filme documentário ou de ficção ou letra canção popular ou erudita que narre a saga de um herói que ascendeu ao poder nos braços do povo, foi condenado sob acusação de ter promovido uma rapina em todos os cofres públicos de uma nação miserável, apenado e preso, mas, ainda assim, ser tido como o maior chefe político da História e liderar da cadeia as pesquisas de intenção de voto da próxima eleição direta?

P – Meu caro Nêumanne, pouca gente neste país conhece a carreira de Lula tão bem como você. Mas só para recordar, quando ele surgiu, no regime militar, já tinha o instinto e a intuição como qualidades e o poder como projeto de vida. Teve a inteligência necessária, e nem sempre o escrúpulo devido, para ir lidando com as pessoas de uma forma muito eficaz e para muitos até com certo encanto. Já no comando do PT,  a candidatura ao governo de São Paulo foi apenas um exercício para o salto maior, qual seja, a Presidência da República. Na quarta tentativa conseguiu, depois de ter perdido para o Collor e duas vezes para o Fernando Henrique, que, coitado, com essas vitórias sobre o operário salvador angariou da intelectualidade, em especial, a uspiana, uma irreversível antipatia. Bem, quando o hoje milionário Lula chegou ao Planalto, explorando ao máximo as suas origens de sofrido retirante, ele já possuía uma sólida máquina de propaganda e, no exercício do poder, essa máquina não só se azeitou como se tornou imbatível e poderosa financeiramente. Isso sem contar que nos oito anos de Brasília se esmerou em procurar ser a mãe dos pobres, o pai dos ricos e o benfeitor da politicagem baixa e rasteira. Tudo isso contribuiu para que fosse criada, ao menos para aqueles tradicionais 30%, uma imagem redentora difícil de se desconstruir. E nessa podridão em que está envolvida a classe política, e num país sem partidos políticos verdadeiros, o fato de ele ter cometido crimes e por eles estar cumprindo pena pouco importa, até o ajuda, pois para muitos, em especial no nosso irremediável Nordeste, ele é mesmo um preso político, quem sabe um mártir e talvez até mesmo um santo.

Paulo Melo em intervalo das filmagens de Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., com Sávio Rolilm no papel-título. Foto: Acervo pessoal

Natanael Alves, Gonzaga Rodrigues, Paulo Melo e Vladimir Carvalho entrevistam José Américo de Almeida para filme O homem de Areia. Foto: Acervo pessoal

N – A que tipo de messianismo, sebastianismo, fanatismo ou qualquer outro fenômeno religioso e social o senhor associa a fé cega e faca amolada com que as multidões de devotos rezam pela cartilha da fantasia insana, de tão absurda, para considerar com seriedade e sem serenidade a hipótese estapafúrdia de que Luiz Inácio Lula da Silva não é um mero criminoso condenado pela Justiça em segunda instância, mas, sim, um preso político injustiçado e perseguido pela gana de seus inimigos do status quo, que não querem permitir sua volta?

P – Quanto mais enraizada for a crença, mais difícil é sair dela e não importam as evidências, os fatos, o dado concreto e a realidade objetiva. Quando você se impregna de uma fé, cristalizada ao longo do tempo, superá-la é como se estivesse jogando fora um pedaço de sua vida, é como se reconhecesse que teria sido enganado, iludido. Se você abriu mão de muita coisa, às vezes até de sua dignidade, em favor de uma causa, por mais questionável que ela se tenha tornado, não é uma tarefa fácil abandoná-la. Supostos princípios e valores que nortearam suas convicções passaram a constituir um dom moral de que sua subjetividade não toleraria abdicar. É preciso, então, muito coragem pessoal e, sobretudo, muita honestidade intelectual. Nem todos são capazes dessa autocrítica, dessa insurgência, dessa insubmissão. Ao contrário do que Lula acabou dizer sobre o juiz Sergio Moro ser intocável, ele, sim, é que se considera como tal e mais ainda seus seguidores sobre ele. Reconhecer que Lula foi capaz das mais baixas falcatruas, para não dizer vilanias, indo de encontro a uma imagem erigida com um fervor mais que religioso, não só é uma ofensa, uma heresia, mas afeta diretamente a consciência de quem o elegeu seu guia e seu condutor. E para muitos, até mesmo de forma consciente, ainda que sem fundamento ético ou histórico, ele está acima de qualquer jurisprudência, seja ela moral, política ou jurídica. E não é à toa que ele mesmo se considera o homem mais honesto deste país. E a militância entra em êxtase, não admitindo ter sido ele condenado e estar cumprindo pena, não importando que em todo o processo tenham sido respeitadas as leis em vigor.

Natanael Alves, Gonzaga Rodrigues, Paulo Melo e Vladimir Carvalho entrevistam José Américo de Almeida para filme O homem de Areia. Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo com Glauber Rocha e o francês Jean Rouch, teórico do cinema direto, no hall do Hotel Nacional em Brasília. Foto: Acervo pessoal

 N – Que explicação o senhor dá, a partir de sua experiência como educador, para a vassalagem absoluta com que grandes líderes da esquerda se têm submetido ao poder mágico de Lula da Silva, desde seu surgimento, seguindo seus passos e beijando as fímbrias de suas vestes, tais como Miguel Arraes no passado e tantos outros em nossos tempos frios e secos?

P – É possível que parte dela esteja na resposta anterior. Muito embora as revoluções do século passado tenham sido deflagradas em nome e em favor dos, digamos, oprimidos, nenhum destes as liderou, à exceção talvez de Lech Walesa, em quem, aliás, Lula não só se espelhou, como esperava suplantá-lo como personalidade internacional. Desde a redemocratização não temos lideres nacionais. Para muitos, o regime militar dificultou o aparecimento deles, o que pode ser verdade, mas Lula se lançou naquele período e, para alguns, sob o patrocínio do Golbery do Couto e Silva. Como nenhum outro político alcançou a sua dimensão do ponto de vista popular, o comodismo, o paternalismo e a inércia propiciaram toda essa submissão. Quando o ex-operário do ABC conquistou o poder, o que poderia ter acontecido antes não fosse a impertinência de FHC, toda uma estrutura já estava montada para que essa nova onda nele permanecesse por décadas. Naquela ocasião, a Carta ao Povo Brasileiro foi o selo de garantia para que teórico opositor, ou seja, o capital, não fosse importunado, muito ao contrário, como se viu depois. Mas por falar em Arraes, afirmam que Pernambuco é o Estado mais lulista do País. Em compensação, não tem um escasso deputado federal numa bancada de 25 representantes. Aliás, dos 151 deputados federais do Nordeste, o PT tem 15, sendo 7 da Bahia.

N – No verão de nossas ilusões, os cidadãos – encantados com o trabalho eficiente de uma geração de policiais, procuradores e juízes federais, que rompeu o ancestral paradigma de que no Brasil o inferno prisional deve ser destinado apenas a pretos, pobres e prostitutas – ensaiaram uma reação, imaginando ser possível adotar o lema otimista “não reeleja ninguém”.Onde e por que, a seu ver, se perdeu o ânimo da massa e de alguns brasileiros bemintencionados que prometiam sair de seus casulos para entrar no perigoso e sujo universo político, mas terminaram se protegendo de volta a suas vidas confortáveis, sem mais ambição de poder?

P — É difícil você manter e aprofundar um movimento de contestação, para não dizer de insurgência, sem uma efetiva liderança que não só imprima consistência às reivindicações e galvanize os anseios da sociedade naquele determinado contexto, como imponha respeito e credibilidade. Muito se fala dos acontecimentos de meados de 2013 aqui, no Brasil, mas tenho minhas dúvidas quanto à sua eficácia política, como, aliás, ainda hoje tenho com relação a maio de 1968, até porque De Gaulle, o grande contestado na ocasião, terminou obtendo logo em seguida uma vitória esmagadora nas eleições parlamentares. O ânimo trazido pela Lava Jato tem tido algum resultado e atingido seus objetivos primordiais, mas sabemos que não o suficiente  para alterar substancialmente o comportamento dos políticos e fazer com que eles tomem vergonha na cara. De todo modo, a prisão de Lula e a condenação de outros poderosos não deixam de ser um grãozinho de areia nesse enorme edifício de respeitabilidade que precisa ser construído neste país. Só que é preciso muito otimismo para acreditar que ele se erga sem ameaças de desmoronamento. Mas a respeito dessas movimentações de massa, com a licença dos mestres Cleonice e José Paulo, permita-me indicar a leitura de uma crônica de Fernando Pessoa intitulada A ilusão política das grandes manifestações populares. É uma maravilha!

N – Porque passamos pelo outono das desilusões, caímos no inverno da desesperança e hoje nos deparamos com uma disputa presidencial pela qual a população parece não se interessar mais e numa eleição para a renovação do Congresso Nacional, que é quem mandará na próxima gestão, na qual, como dizia Jânio Quadros, e agora mais radicalmente do que à época dele, as moscas mudam, mas as fezes são as mesmas?

P – Ótimo o trocadilho com as estações do ano. Mas já não poderia dizer o mesmo com essa nefasta, mas verdadeira, previsão para as próximas eleições. Penso ser difícil haver desenvolvimento com um país desunido e parece não haver nenhum candidato que possa, mesmo de longe, começar a representar a possibilidade de agregar forças para o salto de qualidade que se espera. De vez em quando penso nos tigres asiáticos e a experiência de alguns deles, em particular a da Coreia do Sul, é costumeiramente lembrada como um modelo a seguir. Tudo bem. Nos anos 1950 estava bem atrás do Brasil, hoje, muito à frente. Mas o Brasil é muito grande, muito diversificado, muito heterogêneo, muito populoso. Não é fácil administrá-lo. Aí você fala da China e até mesmo da Índia. Mas são países milenares, de fortes tradições culturais, e têm um povo acostumado a pensar coletivamente. Em geral, o brasileiro sempre espera que o Estado possa fazer alguma coisa por ele e em face desse paternalismo a tendência tem sido de acomodação. É assim desde sempre. Difícil de mudar. É por isso que costumo dizer: tem coisas que dão certo e tem coisas que não dão certo. O Brasil, desafortunadamente, está neste último caso. Paciência, mais uma vez.

Cartaz do longa-metragem autoral Paulo Melo e o cinema, de Wills Leal. Reprodução: Acervo pessoal

Cartaz do longa-metragem autoral Paulo Melo e o cinema, de Wills Leal. Reprodução: Acervo pessoal

N – O que ainda lhe interessa numa campanha eleitoral em que não se discutem temas como a recuperação das finanças públicas, à beira do colapso, uma política de segurança pública capaz de deter a violência desmedida do crime organizado, a continuação do combate eficaz à corrupção deslavada, desvairada e deletéria e programas que tirem saúde e educação do fundo do poço em que foram atiradas pela sequência de desgovernos sem outro compromisso que não fosse com o enriquecimento dos maganões da elite política, que age, de fato, como uma escória?

P – Num país como o nosso, em que parece que perdemos o bonde da História, os problemas básicos se impõem como absolutamente prioritários. É o que vemos na agenda dos candidatos, mas em geral com muita demagogia e muito populismo. São discursos que se repetem ad nauseam. Aí o pretenso compromisso se reveste de uma capa de cinismo que as campanhas tornamintolerável. Depois de eleitos, assumem o estelionato com o maior descaramento possível e o povo, desconsolado, arruma a viola no saco e procura se virar como pode. Muito se fala em projeto de nação.Mas qual, que cabeças pensantes poderiam ser mobilizadas para sua elaboração, quais as metas perseguidas, como avaliar sua execução e seu desempenho? Sem conferir à educação e à saúde o peso de que são merecedoras, não tem jeito, a gente não sai do lugar. E olhe que para universalizar uma educação e uma saúde de qualidade, em que todos esses novos instrumentos de informação e comunicação devam ser considerados, são necessários, no mínimo, uns 20 anos. O gapante os países que já superaram essa etapa aumenta em proporção geométrica. E aí, onde ficamos? Por falar em educação, que contribuição a universidade brasileira tem dado nesse sentido? Ideologizada como está, preocupa-se mais em garantir a hegemonia de suas correntes de pensamento do que em discutir e formular propostas que a tornem um núcleo com o qual a sociedade conte para seu aprimoramento sociocultural. Quando olho o descaso criminoso com a saúde pública, emotivo que sou, não contenho a emoção. Quando vejo o comportamento dos nossos parlamentares, democrata que sou, sofro de indignação.  .

N – Durante algum tempo, ultimamente, alguns ingênuos, como este seu velho amigo, acreditaram na lorota de que bastaria uma maciça votação popular que legitimaria um presidente, congressistas e chefões partidários, aos quais entregaríamos o poder para ao menos minorarem a penúria de 26 milhões de brasileiros sem emprego digno e sem esperança. Hoje já se percebe que não existe possível deus exmachina do teatro grego, que tanto o senhor aprecia, para desatar o nó górdio que nos enforca, nem espada como a de Alexandre Magno que venha a ser capaz de decepá-lo?

P – Pois é, se não temos nem uma coisa nem outra, a quem recorrer? De que vale a legitimidade, se falta demonstração convincente de compromisso com a coisa pública, além de autoridade, competência, honestidade e firmeza de propósitos? E sobram demagogia e populismo. Isso me faz pensar na reeleição, que existe nos países democráticos e desenvolvidos.  O problema é que entre nós e em parte da América Latina ela existe não como um tempo a mais para o governante poder equacionar aqueles problemas básicos, mas, sim, como projeto de poder, quase sempre com resquícios de autoritarismo. Se tivéssemos a lucidez de seguir o modelo dos EUA, com apenas dois mandatos consecutivos e depois o velho e confortável pijama, certamente não estávamos engalfinhados em discussões radicalizadas de uma nota só e, ainda por cima, desafinada, que não levam a nada, a não ser a um febril culto à personalidade, como agora estamos tristemente vivendo. E, como disse no início, o Brasil, que é bom, fica pra depois, e olhe lá.

Almoço em Cabedelo, Paraíba, com outros dois cineclubistas, o crítico de cinema Martinho Moreira Franco e o cineasta Ipojuca Pontes. Foto: Acervo Pessoal

Almoço em Cabedelo, Paraíba, com outros dois cineclubistas, o crítico de cinema Martinho Moreira Franco e o cineasta Ipojuca Pontes. Foto: Acervo Pessoal

N – O que o senhor tem dito a seus netos para prepará-los para enfrentar sem esmorecer o futuro que os espera à saída da maior crise moral, política, econômica e financeira, pela qual o avô deles ainda está passando?

P – Como não se pode nadar contra a correnteza dos smartphones, dos tablets, da internet e das redes sociais, mesmo não sendo fácil prever até onde ela vai chegar, é preciso de todo o modo que ela seja levada em conta no processo de aprendizagem. As mudanças ocorridas nos últimos anos no campo da informação eram impensáveis no final do século 20 e creio ainda não existirem as ferramentas necessárias para lidar com os efeitos que essas transformações podem causar, e têm causado, na percepção e na dinâmica do que essa nova forma de relacionamento pode produzir. Como cultivar de maneira constante e sistemática o espírito crítico nessa meninada me parece o grande desafio e as novas gerações parecem subestimar a possibilidade de orientação que velhos como nós possam ainda proporcionar nesse sentido. E eu, que não tenho celular, não estou no Facebook e em assemelhados, sou visto com um ser estranho, fora da realidade. Pois é, pode até ser.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/chega-de-lula-2/

Nêumanne entrevista: Paulo Melo. 19ª edição da Da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista: Paulo Melo. 19ª edição da  SÉRIE
10 PERGUNTAS

No Estadão desta quarta-feira: O Brasil tem tudo para não dar certo tão cedo

No Estadão desta quarta-feira: O Brasil tem tudo para não dar certo tão cedo

País está dividido entre os que se deixam seduzir pelo populismo e os que o rejeitam

O ano começou com uma expectativa generalizada de que teria início nele algo que um romancista inspirado chamaria de “o verão de nossas esperanças”. Antes de setembro chegar, trazendo a primavera, ninguém precisará ser muito pessimista para lembrar, neste “inverno de nossas desilusões”, que agosto é, de fato, um mês de muito desgosto e que o verão de 2019 em nada corresponderá aos sonhos de renovação de oito meses atrás. Por quê?

Em 2005 teve início no Supremo Tribunal Federal (STF) o julgamento da Ação Penal 470, que ficou popular com o apelido de mensalão e radiografou a podridão das vísceras do primeiro governo soit-disant socialista da História, sob a égide do ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. Nos debates do plenário da Corte, acompanhados com interesse antes só despertado pelos festivais da canção e pela Copa do Mundo, foi revelado ao povo um esquema de compra de apoio parlamentar com o erário sendo tratado como quirera.

Os “supremos” magistrados condenaram à prisão políticos de alto coturno, que trataram os partidos que dirigiam como se fossem organizações criminosas: José Dirceu e José Genoino, que tinham presidido o Partido dos Trabalhadores (PT), Roberto Jefferson, suserano do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Valdemar Costa Neto, rei do Partido Liberal (PL), que viraria Partido da República (PR), Pedro Corrêa, dirigente do Partido Progressista (PP), e outros.

Reza o folclore político que, instado a participar de um movimento para depor o então presidente Lula, o ex-chefão do Partido da Frente Liberal (PFL), hoje o Democratas (DEM), Antônio Carlos Magalhães, disse que preferia derrotá-lo nas urnas. Como a História, implacável, registra, Lula bateu o tucano Geraldo Alckmin na eleição de 2006. Os chefões das quadrilhas partidárias seriam, depois, indultados pela companheira Dilma Rousseff, que Lula elegeria sua sucessora, e, afinal, perdoados pelos companheiros nomeados para o fiel e desleal STF.

Mas, ah, ora, direis, ouvindo estrelas, o povo foi às ruas para reclamar daquilo que, antes de comandar a rapina nos cofres públicos, o PT chamava de “tudo o que está aí”. A rebelião das ruas, que apoiou o combate à corrupção por uma geração de jovens policiais, procuradores e juízes federais, porém, passou ao largo de alguma mudança de fato no Brasil que Machado de Assis chamava de “oficial”, em contraponto ao nobre, pobre e probo “País real”. No ano seguinte às espetaculares manifestações de rua em nossas cidades, 2014, Dilma foi reeleita com Temer e o PMDB na chapa em campanha de que, como depois revelaria outra devassa, nem os vencidos sairiam inocentes. Tudo como dantes no cartel de Abrantes.

Para cúmulo da ironia, levado a julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o triunfo da chapa que juntou a fome com a vontade de comer passou a ser dado como absolvida “por excesso de provas”. Mas a decisão, tomada numa sessão presidida pelo ministro do STF Gilmar Mendes, manteve Temer na Presidência, depois do impeachment da titular da chapa vencedora. E Dilma sem cargo, mas liberada para ocupar posto público por uma canetada praticada pelas mãos esquerdas do senador peemedebista Renan Calheiros e do então presidente do STF, Ricardo Lewandowski.

Isso ocorreu apesar do enorme entusiasmo popular com novo feito da Justiça em primeira instância, a Operação Lava Jato, iniciada em 2014 e responsável pela sequência da AP 470, levando às barras dos tribunais e às celas os maiores empreiteiros do Brasil, Marcelo Odebrecht à frente, e o ex-presidente Lula. Este havia saído incólume do mensalão por obra e graça da omissão do relator, tido como implacável, Joaquim Barbosa, e a atenta proteção do sucessor deste na presidência do STF, Lewandowski. O que não impediu que depois fosse condenado e preso como “chefe da quadrilha”.

No verão, esperava-se que se elegessem um presidente para limpar a máquina pública e um Congresso para apoiá-lo na guerra à corrupção. No inverno, 90% dos deputados e 65% dos senadores candidatos sepultam o devaneio do “não reeleja ninguém”. Dos seis pretendentes à Presidência com chance, nenhum se compromete com o que de fato importa: o combate a privilégios, política econômica para pôr fim à crise e ao desemprego e o basta à impunidade de criminosos armados ou de colarinho branco. Quem está em primeiro lugar nas pesquisas de preferência de voto é um condenado por corrupção e lavagem de dinheiro a 12 anos e 1 mês de prisão.

O economista Cláudio Porto, da Macroplan, acaba de divulgar a pesquisa Cinco cenários para o governo do Brasil 2019-2023, que conclui que qualquer governo terá de conviver com cinco condicionantes imediatos: renda per capita 9% abaixo da de 2014 e desemprego de 14 milhões de pessoas; contexto externo menos favorável do que o dos últimos anos; tensão permanente entre a população impaciente e a maioria fisiológica dos políticos; demandas da sociedade por mais e melhores serviços públicos, em confronto com a manutenção e a conquista de mais benesses pelo baronato de políticos; e combate à corrupção menos intenso.

Para enfrentar esses problemas o eleitorado, segundo Porto, divide-se pela metade, não entre esquerda e direita, mas entre a sedução do populismo e a saída não populista. A pesquisa, feita para a Macroplan pelo economista Flávio Tadashi entre 6 e 8 de agosto, situa em 16,1% a adesão ao populismo de esquerda; 17,4% ao de direita e 16,5% ao “de ocasião”. A saída não populista divide-se em 27% para a conservação do status quo e 23% para o “reformismo modernizante”.

As chances de o Brasil continuar a não dar certo são de 77% e as necessárias reformas e modernização para o País crescer e prosperar não são inviáveis, mas dependem de a maioria do eleitorado ser convencido de que a melhor saída seria essa.

Jornalista, poeta e escritor

 

No Blog do Nêumanne: Prostituição, fraude e sabotagem

No Blog do Nêumanne: Prostituição, fraude e sabotagem

Nenhum candidato com chance de ser presidente ousou, no debate da Band, referir-se aos escândalos de mensalão e petrolão para não perder eventuais eleitores de Lula, político preso e ausente

No artigo Todos juntos pela impunidade, publicado na semana passada, comentei como a blindagem da Polícia Federal (PF), sob a égide do criminalista Márcio Thomaz Bastos, foi rompida por dois acidentes de percurso. Roberto Jefferson, furioso com a partilha da propina, pôs a boca no trombone, denunciando a compra de votos, e Joaquim Barbosa, o estranho no ninho, pegou o touro à unha e o levou até o fim.

Recentemente, foi publicada entrevista de Paulo Lacerda, diretor da PF dita “republicana” de Márcio Thomaz Bastos, que foi advogado de Lula na Justiça Militar à época das greves dos metalúrgicos e, depois, ministro da Justiça no primeiro mandato presidencial do petista. Segundo ele, a Polícia Federal (PF) fazia vista grossa à malandragem dos políticos que obedeciam cegamente aos poderosos e não conseguia desvencilhar-se de ingerências politiqueiras. A narrativa de “PF republicana” durou pouco e foi para o saco na Operação Xeque-Mate, que pegou Vavá, irmão de Lula. A PF “republicana”, que o causídico Bastos regia, só investigava inimigos dos donos do poder. Seu modelo era a famigerada Delegacia Especial de Segurança Política e Social (DESPS), versão federal dos Dops estaduais no Estado Novo de Getúlio Vargas e que centralizou o aparato policial para perseguir, processar e levar à prisão adversários do regime.

Quando o PT, Lula e Márcio Thomaz Bastos ascenderam ao poder, fizeram um remanejamento de quadros na PF. E a deusa da Justiça, Têmis, inspirou os ocupantes de postos-chave, em que usavam seus  olhos vendados a favor do regime e contra a liberdade de quem ousasse desafiá-lo. Por isso  os órgãos de fiscalização do Estado de Direito, descentralizado por definição – a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o Tribunal de Contas da União (TCU), a Superintendência de Previdência Suplementar (Previc/fundos de pensão), o Banco Central, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e a PF –,  não ouviram o tropel nem viram a manada de elefantes passando à vista por 13 anos e meio a fio: da posse de Lula ao impeachment de seu poste, Dilma.

Só a vista grossa da deusa Têmis pode justificar como a maior corrupção da História chegou ao ponto a que chegou sem ser percebida.

A Lava Jato foi um acidente de percurso e decorreu do tratamento dado a Marcos Valério, que provocou a deserção de mercenários. No mensalão, Lula,  o comandante em chefe, nem sequer foi arrolado, sob a proteção de seus lugares-tenentes no Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski (revisor) e Dias Toffoli e com a complacência do relator (e depois presidente da mais alta Corte) Joaquim Barbosa.  Nesse ambiente, Luiz Gushiken, personagem importante no escândalo nunca desvendado da guerra das teles gigantes, foi excluído de investigação, processo e pena, chegando a ser inocentado e elevado ao panteão dos heróis nacionais num discurso laudatório fora de propósito de Lewandowski, que substituiria Barbosa na presidência do colegiado. Mesmo citado como chefe da quadrilha, José Dirceu só ficou dois anos na prisão, sendo um em prisão domiciliar. Já o publicitário Marcos Valério, que obedecia às ordens de Dirceu, foi condenado a 40 anos e a bailarina Kátia Rabello, dona do Banco Rural, usado na operação, mas na qual ela nunca teve noção do que acontecia, a 16. Os mercenários perceberam que o bote salva-vidas do PT fora inspirado no Titanic: nele só embarcaram os passageiros da primeira classe. O resto foi deixado para servir de pasto aos tubarões. Mas a trava da caixa de Pandora só foi quebrada com Márcio Thomaz Bastos fora da Esplanada dos Ministérios. E a mensagem ao Garcia chegou à “mercenariocracia”. Ao primeiro risco de afundar, os mercenários, já sabendo que não teriam lugar no bote do PT, partiram para agarrar o que flutuava: a delação premiada. O que lhes restou foi o instituto usado nos Estados Unidos e na Operação Mãos Limpas, da Itália, para perfurar a blindagem dos poderosos chefões da Máfia, originária da Sicília, que se tornou rica e influente agindo no porto de Nova York e nos bares de Chicago. Não é à toa que tal expediente é o inimigo número um de advogados grã-finos que representam a fina-flor da bandidagem nacional, em particular a turma da empreita, distribuidora de propinas nas frestas da legislação que regula as relações entre contratados e contratadores de obras e serviços públicos desde os tempos da caprichosa Xica da Silva.

O esforço atual é orquestrado para fechar de novo a caixa de Pandora e levar a situação ao estágio anterior, quando havia uma proteção velada das instituições e do Estado ao governo e o entendimento de que dinheiro ilegal usado em eleições é um mal inevitável, a que só se recorre para o bem geral. No nome desse jogo o pano de frente é a compra de votos.

O PT transformou o Congresso em mercado persa. Nele tudo é comprado: apoio, votos, leis, decretos-lei, exonerações fiscais, etc. O que antes já se fazia por baixo do pano, como no sucesso junino de Antônio Barros e Cecéu, à época da compra de apoio de bancadas no Congresso, passou a ser explícito. Nas investigações de operações como Lava Jato, Cadeia Velha, Zelotes e outras se desvendaram práticas antigas, como a de empreiteiros, mas não só eles, que financiavam campanhas políticas redigirem leis que os beneficiam. Nesse sistema, que era secreto e se tornou explícito, a contratação de obras e serviços, concessões e outras formas de negociação do Estado com fornecedores privados passaram a ser moldadas ao interesse de quem fosse premiado com contratos superfaturados e a remunerar os donos das chaves dos cofres da viúva em redes de lavagem de dinheiro no exterior, que receberam a denominação de “propinoduto”, um neologismo que não admite eufemismo.  Parte dos recursos arrecadados era, então, empregada pela elite dirigente dos três Poderes da República privatizada para comprar votos do andar de baixo, em que vivem em condições precárias os mais vulneráveis socialmente.  Na prática, o Partido dos Trabalhadores (!!!) fez o que sempre condenou nos adversários empresários, latifundiários e que tais: “cafetinou” o Congresso para prostituir o eleitorado.

O trabalho eficiente de uma geração jovem e preparada de policiais, procuradores e juízes federais resultou na devassa dos escândalos do mensalão e do petrolão, que desvendaram a prostituição da política e a fraude eleiçoeira que sabota a democracia. O mensalão foi absorvido pelo establishment: os petistas e seus aliados foram indultados por Dilma Rousseff e perdoados pelo STF. José Dirceu e Pedro Corrêa só não tiveram o mesmo prêmio porque foram pilhados pela Lava Jato delinquindo em plena cela. O primeiro, contudo, mesmo condenado a 30 anos e meio de cadeia, com a benemerência da Segunda Turma do STF, sob a égide dos mesmos de sempre, Lewandowski, Toffoli e agora Gilmar, passou férias articulando a sobrevivência do PT no Sul da Bahia, sob a égide da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), ao sol de Itabuna e banhando-se no Atlântico em Ilhéus, no gozo de plena liberdade. Como se fora um sucedâneo contemporâneo do seu Nacib de Jorge Amado.

Enquanto isso, seus companheiros de armas da guerrilha de extrema esquerda e de campanhas eleitorais petistas articulavam com condenados e suspeitos da Lava Jato o sepultamento das operações eficientes de Polícia, Ministério Público e Justiça Federal, na garantia da reeleição dos de sempre para o Congresso. E no apoio a presidenciáveis citados em processos ou aliados na guerra contra a faxina que o povo exigiu nas ruas em 2013. No debate da Bandeirantes em 9 de agosto nenhum dos presentes com chances se referiu à rapina dos cofres públicos promovida por PT, aliados e até oposicionistas domados do PSDB. O tucano Alckmin uniu-se aos apenados no mensalão Roberto Jefferson, Paulinho da Força e Valdemar Costa Neto. Os sermões de irmã Marina nem de longe se referiram aos “malfeitos” do ex-chefe Lula, político preso em Curitiba, excluído da disputa por ser inelegível pela Lei da Ficha Limpa. Nem Álvaro Dias, insistindo em  nomear Sergio Moro ministro da Justiça, que afastaria do combate à corrupção seu agente mais notório, se dignou a fazer uma referência que fosse ao que provocou a fama do herói do povo. Todos de olho nos votos do único que, por exigência da lei, não mentiu no debate: o ausente Lula.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 13 de agosto de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/prostituicao-fraude-e-sabotagem/

Nesta quarta-feira no Estadão: A política como pornochanchada

Nesta quarta-feira no Estadão: A política como pornochanchada

Campanha eleitoral parece tema de roteiro de filme das produções da Boca do Lixo

A República brasileira começou numa parada militar que se tornou um golpe. Quando o desfile acabou defronte ao Arsenal da Marinha, o médico republicano jacobino José Lopes da Silva Trovão foi instado pelo povo, que se recolhera a um botequim, a pagar um trago. A conta somou 40 mil réis e o paladino só tinha 11 mil réis. Resultado: o taverneiro arcou com todo o prejuízo da celebração. A piada pronta, contada no clássico A Formação das Almas: O Imaginário da República Brasileira, do acadêmico José Murilo de Carvalho, revela como ela teve início num porre com pendura.

Até hoje, às vésperas da parada cívica das eleições gerais de outubro (a um mês de completar seu 129.º aniversário), o prejuízo continua sendo arcado pelo empreendedor disponível para financiar a embriaguez geral. Os 40 mil réis bancados pelo taverneiro em novembro de 1889 chegaram ao astronômico déficit público nominal, isto é, a diferença entre receitas e despesas (incluindo os juros da dívida pública), que alcançou a expressiva quantia de R$ 562,8 bilhões. Enquanto o déficit primário (receitas menos despesas, excluindo os juros) na última virada do ano foi de R$ 155,8 bilhões. Em janeiro, esperava-se que o príncipe escolhido pelo povo mataria esse sapo imenso com uma paulada certeira.

O último fim de semana, porém, jogou por terra as ilusões de que um presidente legitimado pelo voto daria um jeito nas contas públicas agônicas. E usaria toda a força obtida nas urnas para avançar na guerra popular contra a corrupção endêmica que mata o País de inanição moral, tuberculose cívica e tumores malignos de despudor. A campanha presidencial está nas ruas e nenhum pretendente ao trono imperial da República cínica gastou um grama de sua saliva para apresentar um plano racional para reduzir a máquina pública devoradora de recursos, pôr fim a privilégios herdados das priscas eras imperiais e impor um garrote de lei e ordem para conter a sangria da guerra civil da violência urbana e rural. O povo esperançoso está é órfão.

O pior é que, em nome desta Nação esfolada, os políticos encarregados de legislar e executar e os juízes aptos a julgar promovem um espetáculo grotesco que não pode ser instalado num picadeiro de circo mambembe por lhe faltarem caráter e pudor, mas sobrar profissionalismo. As comédias do teatro de revista, produzidas por Walter Pinto, e que regalavam o caudilho Vargas, que adorava piadas a respeito dele próprio, são lembranças do pundonor de um passado distante. As aventuras mirabolantes de João Acácio Pereira da Costa, O Bandido da Luz Vermelha, registradas no filme de Rogério Sganzerla, são matéria de contos infantis edificantes, se comparadas com os atuais escândalos de gatunagem.

O ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva chefiou a quadrilha que esvaziou os cofres da República pela qual Lopes Trovão lutou e bebeu, conforme os procuradores que o acusaram, o juiz, os desembargadores e ministros que o condenaram e as evidências dos fatos históricos. À frente de um Partido dito dos Trabalhadores (PT), esse cavalheiro cumpre pena de 12 anos e 1 mês por corrupção e lavagem de dinheiro numa tal “sala de estado maior” da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Ao título de presidente mais amado da História ele adicionou o de presidiário mais celebrado e disputado do inferno prisional, onde, aliás, não vive.

Numa das inúmeras tentativas de garantir um mínimo de limpeza ao exercício de cargos públicos, a Constituição de 1988, que ele próprio assinou, criou a inovação das leis de iniciativa popular. A mais célebre de todas – a Lei da Ficha Limpa – chegou ao Congresso, que a aprovou e foi sancionada por sua mão direita, proibindo desde então candidatura de qualquer cidadão condenado em segunda instância, que é o caso dele. No entanto, sua mão esquerda a rasga, exigindo o absurdo de autorizar o signatário da norma legal a nela escarrar.

A República – que, como Almir Pazzianotto Pinto lembrou, em artigo nesta página, O puxadinho da Constituição, garantiu “pensão vitalícia a D. Pedro II” e autorizou “a compra da casa onde faleceu Benjamin Constant, destinada à residência da viúva” – patrocina hoje a farsa da egolatria de um condenado por furto amplificado. Que outro nome pode ser dado à convenção do PT, em que o aplaudido ator Sérgio Mamberti leu um texto do presidiário, que surgiu em imagem e som na exibição de um vídeo?

Esse espetáculo, aliás, foi precedido por outro show, em que dois ídolos da música brasileira e da resistência à ditadura militar, Chico Buarque e Gilberto Gil, usaram uma canção, Cálice, com inspiração bíblica e símbolo da luta contra a censura, para tratar um político preso como se preso político fora. E precedeu o mais espetacular passa-moleque da tradição de engodos desta República dos desfiles: o lançamento do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad para substituir na chapa o poderoso chefão preso, como vice, que terá a vice do vice, Manuela d’Ávila. Arre!

Tudo pode parecer uma pornochanchada da Boca do Lixo, mas é muito pior. Trata-se de uma tragédia permitida pela democracia de facilidades, fundada por um truque em que a classe política usurpou a casa de leis para inventar a farsa do Congresso constituinte, como se cada voto em 1986 valesse por dois. E pior: para nada.

Pois a candidatura duplamente fora da lei de um apenado e ficha-suja não sobrevive apenas pela fé no torneiro mecânico do ABC que virou o beato Luiz Conselheiro da imensa Canudos em que o Brasil se está tornando. Mas também pelo oportunismo rastaquera de quem o usa para se dar bem na “vida pública”. E de alguns figurões do Judiciário, como o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luiz Fux, que inventou a condenação prévia sem efeito algum em despacho em que arquivou o processo que a pediu. Pensando bem, a comparação é injusta para os filmes da Boca do Lixo, que ao menos não furtavam seu público fiel.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Página A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 8 de agosto de 2018)

No Blog: Nêumanne entrevista José Paulo Cavalcanti Filho

No Blog: Nêumanne entrevista José Paulo Cavalcanti Filho

Ex-ministro da Justiça relaciona culpa de Lula com a de Hitler em crimes nazistas

Para Cavalcanti, como no caso do tríplex, o Führer não assinou ordem para matar judeus e só 0,6% dos recursos contra prisão após 2.ª instância foram revistos

Não há um papel assinado por Hitler ordenando a matança dos judeus, lembra o jurista José Paulo Cavalcanti Filho, que fez parte da Comissão de Notáveis para fazer um projeto para a Constituição, convidado por Tancredo Neves, e da Comissão Nacional da Verdade sobre os crimes da ditadura, a convite de Dilma Rousseff. Segundo ele, “a pergunta é se a ausência de um documento assinado por Hitler seria suficiente para negar ter sido ele responsável pelo Holocausto. Basicamente, temos depoimentos dos sobreviventes. Sem nada em comum entre eles. Como nas delações premiadas do triplex. O que nos leva à questão básica de saber se, ausente uma assinatura, depoimentos ou documentos assim valeriam, como prova, para condenar alguém. Problema, contra Hitler, é não ser crível que algo assim pudesse ter ocorrido longe de seus olhos. Ou de seu comando. Sem conhecimento, e consentimento, da autoridade maior. Do chefe. Coincidências…” Adepto da prisão após segunda instância, o jurista e escritor premiado, convidado da semana da série “Nêumanne entrevista” no Blog do Nêumanne, cita uma estatística para apoiar seu argumento: “Para uma ideia mais clara da desimportância institucional do tema, somente 0,6% dos recursos apresentados ao STJ levaram à revisão dos julgados”.

José Paulo Cavalcanti Filho nasceu em Recife em 1948. É consultor da Unesco e do Banco Mundial. Foi presidente do Cade, da EBN e do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, além de ministro da Justiça e membro da Comissão Nacional da Verdade. Ocupa a cadeira 27 da Academia Pernambucana de Letras. Seu livro Fernando Pessoa, Uma Quase Autobiografia ganhou o prêmio Senador José Ermírio de Moraes da Academia Brasileira em 2012, como melhor livro publicado no Brasil em 2011, o que o introduziu na seleta confraria dos pessoanos de escol. Com a mesma obra conseguiu os primeiros lugares em Bienal do Livro (Brasilia) , Jabuti (São Paulo). Recebeu, em Portugal, o prêmio Dario Castro Alves, ocasião em que foi saudado pelo ex-presidente Mario Soares. Na Itália, Il Molinello. É publicado, até o momento, em Portugal, Itália, Romênia, Israel, Espanha, França, Alemanha, Holanda, Rússia, Inglaterra e Estados Unidos.

A seguir: Nêumanne entrevista José Paulo Cavalcanti Filho

José Paulo Cavalcanti Filho

Cavalcanti confessa que escolherá candidato menos ruim à Presidência na última hora. Foto: Acervo familiar

Nêumanne – O que impediu que o projeto original de Tancredo Neves de convocar a Comissão de Notáveis, da qual o senhor fez  parte, para inspirar os constituintes, foi a morte do criador, com a posse subsequente de um vice comprometido com a ditadura que caíra, ou a circunstância de ter sido debatida e votada numa espécie de quem nunca comeu mel quando come se lambuza, com constituintes sôfregos demais para garantir direitos depois de um período sem eles no regime autoritário?

Cavalcanti – Vejo, hoje, o passado com mais calma. Compreendo que as transições negociadas, de governos autoritários para um ambiente democrático, sempre se passam dentro de um mesmo padrão. Primeiro, do estamento militar do sistema para o estamento civil desse mesmo sistema. E só depois, para as oposições. Veja-se o exemplo de Adolfo Suárez – o primeiropresidente do governo (primeiro-ministro) da Espanha (1976-1981) depois da ditadura de Franco. Aqui tudo parecia caminhar para um padrão diferente. Na linha direta dos militares para Tancredo. Com todas as questões sensíveis negociadas antes, claro. Nem dava para ser diferente. Nem mesmo a extensão da anistia, aprovada em 1979, que não beneficiava os responsáveis pelo Riocentro – de 1981. O compromisso que anotado e cumprido (já não por ele) com a Emenda Constitucional 26, de 1985 (artigo 4.º). Parênteses: curioso é que permanece o mantra de que a Lei de Anistia (no singular) foi aprovada por pressão dos militares. A primeira, sim. A segunda, não. Chancelada pelo mesmo Congresso que elegeu Tancredo. Leis, pois! No plural, e não no singular. Fim dos parênteses. O destino como que retomou essa trilha, pondo Sarney como substituto do presidente morto antes do tempo. Com a base civil do sistema assumindo o lugar que lhe estava reservado pela História. E cumprindo o papel básico, que era o seu, de garantir uma transição sem maiores traumas. Sob essa ótica, seu governo foi um sucesso. Pois tudo se processou sem traumas. Assim entendo. Talvez tenha faltado só um marqueteiro para dizer isso. Ou então, talvez, a dimensão voraz da crise econômica e a necessidade inadiável por reformas estruturais logo tenham tornado obsoleto esse desenho original. Os historiadores dirão depois, com menos paixão, qual o papel real cumprido pelo governo de José Sarney.

       Já em relação à segunda questão, acredito que, num cenário conturbado como aquele, nossa Constituição de 1988 acabou sendo, sobretudo, resultado da gula sem medida dos interesses corporativos. E um repositório de bons sentimentos delirantes que nos legou 112 direitos individuais, coletivos e sociais (artigos 5.º, 6.º e 7.º). Mais que três vezes o de qualquer outra Constituição do planeta (a dos Estados Unidos tem só dez). O que é a cara do Brasil.

Cavalcanti entrevistado por Jô Soares à época do lançamento de seu livro Fernando Pessoa, Uma Quase Biografia. Foto: Ricardo Martins/Rede Globo

Cavalcanti entrevistado por Jô Soares à época do lançamento de seu livro Fernando Pessoa, Uma Quase Biografia. Foto: Ricardo Martins/Rede Globo

N – Certo é que a Constituição resultante do tal Congresso Constituinte ficou sendo esdrúxula e enxundiosa, uma espécie de colcha de retalhos, costurada por um grupo representado pelo amazonense Bernardo Cabral, o relator, e do conterrâneo do senhor Ricardo Fiuza, e já então chamado de Centrão, denominação que agora volta à tona, e pelos sabichões que criaram o PSDB, principalmente Mário Covas e José Serra, sob a regência do multipresidente Ulysses Guimarães, que permitiu liberalidades absurdas como a redação de dispositivos sem aprovação da maioria dos constituintes, como reconheceria depois Nelson Jobim?

– Pouco depois da 2.ª Guerra, o general MacArthur pediu a um amigo, professor de Harvard, que redigisse uma Constituição para o Japão. Quando lá estudei, tentei saber seu nome. Sem sucesso. Não ficaram registros disso na universidade. Nenhum professor se lembrava mais. Provavelmente seria alguém menor, sem fama, e amigo dos militares. Esse texto foi levado para Tóquio, na bagagem do general, e imposto aos derrotados. Com apenas uma delicadeza, que foi manter intacta a estrutura da monarquia. E maldades muitas. O Japão é hoje, por exemplo, o único país do mundo em que a Constituição proíbe a existência de Forças Armadas. Pois bem, naquele tempo tínhamos um país destroçado. Hoje é a terceira economia do mundo. Um país pujante. E quantos artigos, dessa Constituição, redigida por estrangeiro, foram substituídos desde aquele tempo? Nenhum. Penso em nosso Brasil com essa compreensão. De que as Constituições não valem tanto assim, como se pensa. Não determinam o crescimento do País. Nem o impedem. Mais relevante é algo mais amplo, difícil de definir, um como que caldo de cultura do país. E o nosso é pobre. Muito pobre. E frágil. Muito frágil. Infelizmente.

Cavalcanti recebe prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por seu livro Fernando Pessoa, Uma Quase Biografia. Foto: André Lessa/Estadão

Cavalcanti recebe prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por seu livro Fernando Pessoa, Uma Quase Biografia. Foto: André Lessa/Estadão

N – O citado Ulysses cunhou o resultado final de “Constituição cidadã”, denominação completamente alheia à realidade, de vez que, na verdade, o texto constitucional estabeleceu uma espécie de principado de castas, em que políticos de ofício, juízes concursados e uma nata de marajás do funcionalismo público podem tudo e para os cidadãos nada sobrou. Esse mostrengo, a seu ver, resulta do texto original ou de suas perversões?

C – O melhor da pergunta foi ver, nela, usada a palavra mostrengo. Título de poema (de 1918) que está em Mensagem(de 1934). Em lugar do mais previsível, que seria monstrengo. Tudo por conta de nosso comum amigo Fernando Pessoa. Título original do poema seria O Morcego. Só que o poeta não gostou. E foi mudando, como mudou nossa Constituição. No original, escrito por sobre a versão inicial, primeiro escreveu Monstro. Depois, Monstrengo. Depois Mostrodo, Mostrego, Mostroso.Afinal, ficou mesmo O Mostrengo. Escrever um poema exige sofrimento. Esforço. Dedicação. As Constituições deveriam seguir na mesma trilha. Mas nossos congressistas resistem a qualquer mudança. Respondo recitando esse poema: “Quem vem poder o que só eu posso?”. Na ilusão de esperar que, um dia, o indeterminado cidadão comum do povo diga, ainda citando aqueles versos: “Aqui no leme sou maior do que eu”. Sou um povo inteiro. Que quer um país com menos interesses clientelistas e corporativos. Com menos apartação social. E com mais cidadania.

N – É a favor ou contra prisão em segunda instância?

C – A favor. Sem dúvida. No Brasil, prisões sempre se deram em segunda instância. Desde o Código de Processo Penal de 1941. Por uma razão técnica. É que o recurso nas decisões em primeira instância, apelação, tem efeitos devolutivo (faz com que o assunto seja rediscutido por tribunal) e suspensivo (a decisão não produz efeitos até decisão do tribunal). Enquanto os recursos subsequentes, especial e extraordinário, contra decisão desse tribunal, apenas o devolutivo. Para permitir que o caso chegue aos tribunais superiores – STJ e Supremo. Sem poder rediscutir provas, por conta das Súmulas 7 (do STJ) e 279 (do Supremo). E sem suspensão da decisão do tribunal anterior, que deve ser necessariamente executada. No caso, a prisão. Mesmo depois da Constituição de 1988 (artigo 5.º, LVII, “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”) continuou sendo assim. Suspensa em brevíssimo interlúdio no mensalão, quando gente graúda passou a ser condenada, com o julgamento do HC 84.048 (em 2009), logo voltou a se dar com o HC 126.292 (em 2016).

A Corte Constitucional da França julgou, no ano passado, 80 casos; a da Inglaterra, 90; a dos Estados Unidos, 160 (grandes números). Nesse ano mesmo, só o ministro Fachin julgou 8.820 casos. É demais. O Supremo, enquanto não for apenas uma Corte Constitucional (como em todos os outros países), não tem estrutura para examinar tantos processos. E, num país com tão alentado leque de recursos processuais, pode-se garantir que (quase) todos os condenados permanecerão soltos. Beneficiados pela prescrição. Em 2016 (fonte, EBC), tínhamos 726.712 presos (o número não é confiável, mas com certeza é muita gente). Entre eles, traficantes, estupradores, corruptos em geral. Queremos que todos permaneçam em liberdade, depois de condenados por tribunal?  Passariam todos a responder a seus processos em liberdade? Queremos isso? E tudo só por conta desse caso de agora, com um ex-presidente preso? A ONU tem 194 membros, meus senhores. E em 192 deles as prisões se dão em primeira (todo o Primeiro Mundo – Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Alemanha, França, Espanha) ou segunda instância. Fora disso apenas Portugal e Itália, que têm estrutura processual caótica. Pelo amor de Deus…

Ruim, nisso tudo, é que a tese beneficia, invariavelmente, apenas poderosos. Os política e economicamente poderosos. Que pobres não têm recursos para custear advogados nas altas Cortes. Para uma ideia mais clara da desimportância institucional do tema, somente 0,6% dos recursos apresentados ao STJ levaram à revisão dos julgados. E por conta, basicamente, de problemas formais – reconhecimento de prescrição, negação do direito de defesa, por aí. Resumindo, não há uma epidemia de presos inocentes, como pretendem alguns militantes. Valendo as condenações como início promissor na construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. Em que culpados vão para a cadeia, independentemente de suas pompas e circunstâncias – gente do povo, milionários, estupradores, deputados, senadores, milicianos, ministros, traficantes, presidentes.

N – Ainda sobre esse tema, o argumento mais referido é o de que nada pode reparar a prisão de um inocente. Um dia que seja, preso, seria uma contradição à democracia. Isso faz sentido?

C – Não. A presunção de inocência merece um debate minimamente conceitual. Longe das paixões. Um homem inocente não pode ser preso, pretendem ilustres advogados. Elevada essa presunção de inocência a um valor absoluto. Ouvimos várias vezes frases como essas no julgamento do Supremo. Problema é que, para valer, ela não pode admitir sequer uma única exceção. Ninguém será, em nenhuma circunstância, preso antes do trânsito em julgado. Será mesmo? Fico só num exemplo. Importado, para não melindrar susceptibilidades. Tome-se um desses atiradores alucinados em escolas americanas, com espingardas de mira telescópicas, matando 60, 70 crianças. Como esse atirador não foi ainda condenado pelo Supremo, não poderia ser preso (segundo essa gente). Deveria, então, ficar solto. Para voltar a matar. Quantas vezes quiser. Quem sustentar a tese, obrigatoriamente, deve aceitar isso. Mas se entender que pode ser preso, é que a presunção não resulta num valor absoluto. O que nos leva à questão dos critérios para prender.

Nesse caso, é desnecessário perder tempo. Dado ser óbvia sua resposta. Pessoas devem ser presas, ou permanecer soltas, em função do interesse coletivo. Ponto final. O direito individual se curva, necessariamente, a esse interesse coletivo. Não fosse assim, o atirador americano ficaria livre. Até ser condenado pelo Supremo, depois de 20 ou 30 anos. Até lá, podendo repetir o que fez. Quantas vezes quisesse. Traficantes não poderiam também ser presos. Desde modestos vendedores de crack até seus chefes. A prisão de Marcola e a de Fernandinho Beira-Mar, sob essa ótica, teriam sido inconstitucionais. Mesmo a de Pimenta Neves. Inocente (segundo essa gente)mesmo tendo confessado que matou (por amor, assim disse). Estupradores e pedófilos, também. Mesmo com o risco de voltarem a fazer novas vítimas. Crimes inafiançáveis deveriam ser abolidos. Prisões em flagrantes, também. Prisões provisórias ou preventivas, igualmente. E por aí vamos. A lista é longa. Afinal, caso se constate depois ser o réu inocente, e alguns dias ter passado preso. O que seria inaceitável para os defensores da tese. Sendo ainda necessário revogar todas as leis que amparam essas práticas. Isso é bom ou ruim para a sociedade? Não importa para os defensores da tese. Caso seja um valor absoluto, não pode admitir uma única exceção.

Mas como conciliar o direito individual da presunção de inocência com a prisão antes do Supremo? A presunção de inocência não é um valor absoluto, isso já vimos. E considerando o interesse coletivo, pode haver algum tipo de prisão, antes da condenação, não ser mais recorrível. Quando for algo bom para a sociedade. Para o bem comum. Em todas aquelas questões acima referidas há consenso de que prisão é coisa boa. Traficantes, estupradores, pedófilos, o louco que ameaça a mulher de morte, atiradores de escolas, todos podem (e devem) ser presos preventivamente. Antes mesmo da sentença do Supremo, nos respectivos processos judiciais. Devem permanecer presos, pois, depois de condenados em segunda instância. E antes do Supremo. Assim posta a questão, falta só discutir se é possível prisão antes do trânsito em julgado no Supremo. Como se trata de um valor não absoluto, não ofende a Constituição que ocorra antes disso. Em que momento? A posição atual do Supremo parece razoável, isso já foi dito. Que na segunda instância se esgota o exame de provas. Estatisticamente, a revisão dessas sentenças é insignificante. E (quase) sempre por questões formais, como vimos. Por tudo, então, talvez seja hora de retomar essa questão em tons menos apaixonados. Longe da política. E da politicagem. Dos mitos. E dos baixos interesses. Buscando solução que seja melhor, para o Brasil. Se isso for ainda possível, é claro.

N – Em que, em sua opinião, se inspirou o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, para rasurar, em cumplicidade com o senador Renan Calheiros, à época presidente do Senado, o parágrafo único do artigo 52, que proíbe explicitamente presidentes depostos por impeachment de exercerem cargos públicos por oito anos, somente para permitir à petista Dilma Rousseff ser, como ele mesmo disse, “merendeira de escola”?

C – Quando redigimos a acusação, no impeachment do ex-presidente Collor (juntamente com o saudoso mestre Evandro Lins e Silva e o querido professor Fábio Konder Comparato), vimos, com cuidado, a experiência norte-americana – de onde veio o instituto. Apesar de ter sido aplicada por lá, até hoje, só em relação a justices da Suprema Corte – que, protegidos pela vitaliciedade, não aceitavam se aposentar. Mesmo com esclerose avançada (o processo é iniciado com a concordância da família). Nos Estados Unidos, só dois casos:  Andrew Johnson (1868) e Bill Clinton (1998), ambos absolvidos. Richard Nixon nem chegou a ser julgado, renunciou antes disso (em 1974). Por lá, essa novidade brasileira de impeachment sem perda de direitos políticos seria considerada uma piada. Aqui também, por muita gente. Não é demais esperar que nosso STF acabe tendo de dar a última palavra sobre esse assunto. Agora, mais seriamente.

N – Sob a vigência da Constituição, de apenas 30 anos, portanto, uma adolescente institucional, já foram depostos dois presidentes, Collor e Dilma, e isso dá razão aos críticos de seu texto, que lhe atribuem grande responsabilidade pelo fato. O que o senhor tem a dizer sobre essa crítica? E o que se pode fazer para corrigir isso? Será possível eleger uma Constituinte exclusiva, como pretende seu amigo e colega Modesto Carvalhosa, para evitar efeitos perversos que ainda possam agravar a situação, que está longe de ser confortável?

C – O rito do processo é, com certeza, traumático. Demorado. E ruim, para o País. Mas para corrigir isso teríamos de contar com o Congresso. Para mudar a Constituição. Fazendo com que os impeachments se deem mais rapidamente. Essa bela ideia de uma Constituinte exclusiva não parece ruim, no plano dos conceitos. Até por vir de um exemplo, para os advogados brasileiros, que é Modesto Carvalhosa. Só não acredito é que nosso Congresso seja capaz de renunciar ao poder que decorre de um processo assim demorado, em nome do interesse coletivo. Um sonho. Já que citei Pessoa, lembro aqui o que ele escreveu como Bernardo Soares (no Desassossego):

“De tanto lidar com sonhos,

Eu mesmo me converti num sonho.

O sonho de mim mesmo”.

N – Lula teria sido condenado sem provas. Acha esse argumento razoável?

C – Não. A tese desconsidera o papel da prova circunstancial nas condenações. Para ser coerente o mesmo raciocínio deveria ser aplicado em todos os casos. Tome-se o do goleiro Bruno como exemplo. Não há vídeos, nem fotos, nem testemunhos, nem confissões, nada. Nem mesmo um corpo. Em tese, qualquer dia destes sua amante poderia ser vista em algum shopping center, fazendo inocentes compras. E o goleiro Bruno cumpre pena de 22 anos.

Voltemos no tempo. O principal operador na execução da política de extermínio na Alemanha nazista foi Adolf Eichmann. Na Gestapo era diretor de “assuntos referentes aos judeus”. Segundo os defensores dessa tese, teria agido sem conhecimento do Führer. Em livro autobiográfico (Ich: Adolf Eichmann), Eichmann confessa: “Me disseram, em conversa, que o Führer (Hitler)havia ordenado a destruição física do oponente judeu”. O escritor Willem Sassen confirma isso: “Eichmann não pediu ordem escrita. O desejo de Hitler, expresso através de Himmler (“comandante militar das SS”) e Heydrich (“chefe do Gabinete Central de Segurança do Reich”), era bom o suficiente para ele”. Não há, portanto, um único papel assinado por Hitler ordenando a matança dos judeus.

Resumindo: a pergunta é se a ausência de um documento assinado por Hitler seria suficiente para negar ter sido ele responsável pelo Holocausto. Nesse caso dos campos de concentração, por sorte, alguns documentos surgiram depois. Mas, basicamente, temos depoimentos dos sobreviventes. Sem nada em comum entre eles. Como nas delações premiadas do triplex. O que nos leva à questão básica de saber se, ausente uma assinatura, depoimentos ou documentos assim valeriam, como prova, para condenar alguém. Seria cômodo para Hitler reduzir o problema a só uma questão de assinaturas. Problema, contra ele, é não ser crível que algo assim pudesse ter ocorrido longe de seus olhos. Ou de seu comando. Sem conhecimento, e consentimento, da autoridade maior. Do chefe. Coincidências…

Os membros da Comissão Nacional da Verdade, da qual Cavalcanti fez parte, diante do prédio do Ministério da Defesa. Foto: Acervo pessoal

Os membros da Comissão Nacional da Verdade, da qual Cavalcanti fez parte, diante do prédio do Ministério da Defesa. Foto: Acervo pessoal

N – O senhor, que participou da Comissão da Verdade, que investigou os crimes da ditadura, teme que a absurda amnésia de parte considerável da sociedade brasileira possa terminar provocando desastre ainda mais grave de uma ruptura institucional que leve a uma intervenção militar ou à eleição de um presidente como o deputado Jair Bolsonaro?

C – Não acredito em intervenção militar. A regrinha de Castelo Branco do limite de quatro anos num posto militar não dá tempo aos generais de quatro estrelas para liderarem tendências. No terceiro ano já estão cuidando de sua aposentadoria. Da mudança para voltarem à sua terra. Tanto que não falam. Isso quem faz é o Clube Militar, uma corporação de aposentados nostálgicos. Sem contar que o desastre do passado ainda está muito vivo. Já a eleição de candidatos como Bolsonaro, perdão, não assusta. Não creio que deva ser levado a sério. Não voto nele, claro. Mas não temo sua eleição. Talvez por ser um otimista incorrigível.

N – Quando se pôs em discussão a legitimidade de Michel Temer para assumir a Presidência, depois do impeachment de Dilma, houve uma onda de atribuição de um caráter de panaceia universal às eleições gerais de outubro, similar às expectativas com a promulgação da Constituição. O que o senhor espera do pleito de daqui a três meses e já escolheu um pré-candidato a sufragar na urna eletrônica?

– Em algum momento, no futuro, vamos ter de rever nosso modelo de eleições. Não agora. O risco maior é termos, ainda, um baixo contingente de cidadania. Cito meu Estado como exemplo. Em Pernambuco, só no Recife temos o hábito da leitura. Mas, aqui, 71% não leem. Dos 29% que fazem isso, 53% não sabem o que quer dizer a palavra “escrúpulo”. Só 13%, portanto, estão em condição de compreender – em sua dimensão institucional, política e ética – a frase “eu não tenho nenhum escrúpulo”. Só 13% aptos a serem cidadãos, pois. O que mais uma vez revela não haver nada mais urgente, democrático e revolucionário, para o Brasil, do que educação popular. Perdão, mas não tenho a sensação de que o próximo Congresso venha a ser substancialmente melhor que o desastre do atual. Infelizmente. E quem elegeu esse Congresso Nacional fomos nós, povo brasileiro. Sem fugir à sua pergunta sobre candidaturas, minha mulher já decidiu. Ela não vota em político. Se todos os candidatos forem, ela vota em branco. Não é uma boa decisão, já lhe disse. Mas tem cabeça dura. E me faltam argumentos. Quanto a mim, já perto da eleição, vou olhar os candidatos na vitrine. Mesmo não vendo nenhum que me entusiasme. Só que, diferentemente dela, vou acabar votando mesmo no que me pareça menos ruim. Voto em branco? Nunca. Nem pensar. Era só o que faltava.

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https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/ex-ministro-da-justica-relaciona-culpa-de-lula-com-a-de-hitler-em-crimes-nazistas/

Nêumanne entrevista José Paulo Cavalcanti Filho. 15ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS.

Nêumanne entrevista José Paulo Cavalcanti Filho. 15ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS.

No Blog do Nêumanne: O Congresso é dos marajás

No Blog do Nêumanne: O Congresso é dos marajás

Com um quarto dos deputados e o presidente da República servidores, lobby dos marajás do serviço público manda no Congresso, impede as reformas e escraviza os pobres brasileiros, incluídos barnabés

Quando o presidente da Constituinte, da Câmara e do partido no governo, o então PMDB e hoje MDB, Ulysses Guimarães, batizou a Constituição de “cidadã”, o velho timoneiro não se referia à cidadania em geral. Mas a brasileiros de primeira classe, detentores de privilégios no Estado estroina dos marajás. Desde sua promulgação pelo Congresso, que não fora eleito para produzir uma Carta Magna na qual todos os brasileiros fossem iguais perante a lei, o documento, aguardado à época da ditadura militar como se pudesse vir a ser a panaceia universal dos problemas nacionais, dividiu a Nação em duas bandas. De um lado, os que podem tudo e, do outro, os que sobrevivem do que podem, quase sempre pouco, muitas vezes nada.

Esta realidade, paradisíaca para os mandatários dos Poderes Executivo e Legislativo e os potentados apadrinhados do Judiciário, vem ao longo do tempo restaurando a escravidão, desta vez multirracial. Nela o Brasil real sustenta o outro, um país oficial insensível, corrupto e impune, à custa de sangue, suor e lágrimas. Tudo isso acaba de ser revelado numa crua e muito corajosa iniciativa do jornalismo brasileiro: a série Eleições 2018. Os donos do Congresso, do Estadão/Broadcast, iniciada com a reportagem intitulada, na manchete de primeira página deste jornal de domingo 22 de julho de 2018, Servidores têm maior e mais poderosa bancada na Câmara. Essa casta, e não a massa dos funcionários antigamente chamados de “barnabés”, que pertencem à banda espoliada, acaba de enterrar as votações das reformas propostas pelo governo, em particular a da Previdência, e de patrocinar o assalto de R$ 100 bilhões das pautas-bombas no Congresso.

Segundo reportaram Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, da sucursal de Brasília, “a bancada do funcionalismo público na Câmara age sem alarde, mas é considerada atualmente o lobby mais poderoso do País”. Seu poder é inusitado: “dos 513 deputados, 132 são servidores – um em cada quatro”. E não servem: servem-se!

Já na primeira página o leitor deste jornal foi informado de que esse lobby voraz e implacável está longe de obedecer a qualquer proporcionalidade do conjunto da sociedade: ele “representa 11,5 milhões de pessoas, ou 5,5% da população”, revela a reportagem. E em nome do amplo espectro ideológico da política, “do PT ao PSDB, passando por PSOL e DEM”, dinamitou, além da reforma da Previdência, as tentativas de salvar as contas públicas de sua sanha com a reestruturação das carreiras, que limitaria o salário inicial da maioria das corporações que o mantêm. Une políticos e burocratas suspeitos de grossa corrupção e juízes que a combatem, mas não abrem mão de auxílio-moradia e outros absurdos.

Ninguém tem peito para enfrentá-lo. Um exemplo claro disso percorre o noticiário político desde sempre e particularmente nestes dias em que se disputam eleições gerais, principalmente a que levará ao trono presidencial o novo ungido do povo e é vendida como a solução final do voto legítimo.

Assim como a esdrúxula, enxundiosa e monstruosa Constituição de 1988, que consagrou a nova nobreza, espera-se que dela surja alguém que evite a dilapidação do erário com uma varinha de condão que elimine a necessidade urgente de rolar até a eternidade uma dívida que se torna impagável. Há uma miríade de pretendentes ao cargo de mago da Corte. Mas nenhum deles ergueu um dedo para recriminar os agentes dessa enfermidade institucional de gravidade mortal que aumentou as despesas do Orçamento sem apontar a fórmula mágica para pagá-las.

Lula, favorito nas pesquisas, está preso e é inelegível, mas nenhum “supremo” magistrado do império do faz de conta bate o martelo para pôr fim à farsa de sua pretensão. Bolsonaro, o deus ex machina dos nostálgicos da ditadura militar, faltou às sessões da derrama fiscal alegando que tinha mais o que fazer em palanques.

O tucano Alckmin mandou às favas não apenas os escrúpulos, como dizia o coronel Passarinho, corneteiro da fanfarra armada, mas o discurso com que seu partido disputou a última eleição presidencial, fingindo combater a corrupção enquanto se lambuzava no melado jogado pelos adversários aos cães. Em troca de pratos de lentilhas, a serem servidos no horário nada gratuito no rádio e na TV, trocou alianças com condenados do mensalão, Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson, e suspeitos do petrolão, Kassab, Paulinho da Força e o time de Temer, o presidente mais impopular da História. É o mal lavado compartilhando o cocho dos sujos.

Entre os expulsos da comilança, Marina esgueira-se nas sombras, pretendendo ser lembrada assim que for esquecida. Meirelles, favorito de Lula do PT e queridinho do mercado, parece disputar votos na Tailândia, escondido numa caverna. E Ciro, o coronel de Pindamonhangaba e do Ceará, investe contra o “baronato”, insulto a que os verdadeiros barões do Estado podre apelam para confundir e, com isso, assumir o que ainda restar de migalhas do queijo em decomposição.

O deputado Rogério Rosso (PSD-DF), dos poucos porta-vozes assumidos da bancada dos mandarins de estatais e autarquias, disse que “talvez o governo a tenha subestimado”. Temer, que, aliás, é funcionário público e nessa condição goza das benesses da aposentadoria de luxo paga pelos pobretões e desempregados, entre outras vítimas, inventou uma intervenção militar na Segurança do Rio apenas para não herdar o ônus desse desengano.

Nada podemos fazer nós outros, que pagamos as contas dos furtos da Petrobrás, da merenda escolar e da máfia dos vampiros e o mico de não escaparmos de ver o maganão petista José Dirceu, torso nu ao sol, sem algemas nem tornozeleiras, numa praia baiana, mercê de ex-serviçal que ainda lhe serve na cúpula da Justiça (?). Dormimos indignados e acordamos omissos, definiu, sem felicidade nenhuma, o político Eduardo Jorge. E o que mais?

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. 2A do Estado de S. Paulo da quarta-feira 25 de julho de 2018)

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