Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Diversos

Suingue, forró e chamego

Suingue, forró e chamego

José Nêumanne

Chico Salles é um cabra atrevido do Chabocão, no sertão do Rio do Peixe, lá de onde fui vindo. Um dos ídolos dele, como meu, como de qualquer nordestino, ou melhor, brasileiro que aprecie suingue, forró e chamego é Jackson do Pandeiro. Pois então! Ele sabe que, embora seja um dos pilares da chamada Música Popular Brasileira, seu Zé Gomes não compôs lá muita coisa e gravava o que compunha uma reca de gênios, da qual fazia parte Rosil Cavalcanti, que era pernambucano de origem, mas viveu, trabalhou e ficou famoso, com nariz de palhaço e a alcunha de Zé Lagoa, o campeão de audiência em rádio, na Campina Grande de minha adolescência. Nunca ninguém conseguiu emular Zé Jack no ritmo e na divisão. Mas Chico ousou mostrar que por trás dele havia o Rosil do Brasil. E não é que o danado se saiu bem demais na missão?! Este CD é a melhor prova de que é possível resgatar a genialidade por trás de Jackson exibindo autores do naipe de Rosil. O melhor da verve do autor na interpretação do rei do coco de umbigada foi resgatado numa coletânea primorosamente arranjada e cantada. O sousense da peste tratou o ex-entregador de pão da Panificadora das Neves em Campina Grande como ele merece: com veneração, mas sem endeusá-lo. Com isso, saem ganhando todos: a memória de Jackson, a obra de Rosil, a carreira de Chico Salles. Mas, sobretudo, acima de tudo, o prazer de ouvi-lo, de remexer com ele, ao som do xote Sebastiana, de rolar de rir com A lei da compensação, de tomar conhecimento do melhor do cerne da cultura regional em Cabo Tenório e de chorar de emoção e saudade ouvindo Tropeiros da Borborema, que foi gravada por Luiz Gonzaga, o rei do baião. Pois saiba que a versão de seu Salles não fica devendo nada ao original. Ouça e confira.

José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor.

(Este texto, que está na contracapa do novo CD de Chico Salles, Rosil do Brasil)

Chico Salles

Chico Salles

Prefácio de “Dançar com facas”, livro de poesia de Hildeberto Barbosa Filho

Prefácio de “Dançar com facas”, livro de poesia de Hildeberto Barbosa Filho

A luz silenciosa da poesia

José Nêumanne

Poesia é discurso, mas não é retórica. Retórica é para oradores, tribunos, comunicadores. A oratória também é uma arte, a arte de confeitar bolos. Mas a poesia, mesmo a discursiva, é o método de descarnar o verbo, como no açougue o marchante desossa a carne de um animal pendurada no gancho. A palavra se introduz no verso e, depois, vai sendo exposta à deterioração do tempo, como um trapo secando num varal. Poesia nem sempre é só síntese, mas pode ser tratada como um pano molhado espremido até secar na pia da cozinha. Pois, enquanto a oralidade se exibe como num espetáculo de pirotecnia, a mancha gráfica no papel funciona como uma marca registrada, um desenho no qual os espaços vazios expressam o silêncio no branco que se contrapõe à sombra do tipo gráfico.

Nem tudo se encerra nesta obviedade acima descrita. Primeiro, porque nem toda poética é gráfica nem sequer escrita. Os repentistas do sertão de minha infância, por exemplo, são oradores com seus mantras com modos, ritmo, métrica e rimas. Se alguém tem a pretensão de considerar a cantoria de viola como um gênero menor está incorrendo não em preconceito, mas em mera ignorância. Manuel Bandeira, um dos maiores vates da literatura brasileira de todos os tempos, foi jurado de um torneio de menestréis sertanejos no teatro Santa Isabel, no Recife, e saiu de lá encantado com os cantadores, particularmente com os irmãos Patriota de São José do Egito, lá onde Lampião perdeu as botas. Depois da função, o bardo urbano se disse, em versos, convencido de que ele mesmo não era poeta, não. E completou justificando a súbita modéstia: “poeta é quem inventa / em boa improvisação, / como faz Dimas Batista / e Otacílio seu irmão; / como faz qualquer violeiro, / bom cantador do Sertão”.

Manuéis Bandeiras à parte, a verdade, que vale para os irmãos Patriota, em particular o maior de todos, Lourival, o Louro do Pajeú, é uma só: a poesia é múltipla. Ela se origina dos metros longos da tradição oral grega, reunida em torno de um mito chamado Homero, e se estende pelo tempo afora na épica de Virgílio em latim e dos criadores de idiomas – Dante Alighieri, na Toscana; e o luso Luís de Camões, que canonizou nosso galaico-português. Os decassílabos dos martelos agalopados permitem o truque mnemônico da repetição da invenção improvisada pelos tempos afora, tempos sem gravador e antes da disseminação de Gutenberg pelos sertões ermos. A reprodução elétrica (e agora eletrônica) dos sons levou a herança dos cantadores provençais ao universo da cibernética – das cantigas de amigo a Norbert Wiener. E o prelo velho de guerra permite consagrar os cordelistas de metro curto e os poetas de minuto, cujas estrofes salpicam em páginas quase vazias como bolhas de sabão em roupa lavada e estendida ao sol para quarar.

Hildeberto Barbosa Filho, meu colega no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, ele egresso de Aroeiras, eu, de Uiraúna, no sertão do Rio do Peixe, ele, irmão de Dudezão, forrozeiro de escol, eu, conterrâneo de Ciro de Uiraúna, o maior xilogravador do Brasil, é poeta para todo metro. Foi discursivo em Ira de viver, em que abordou o soneto, técnica elaborada, erudita, exigente e árdua, com maestria, e em O livro da agonia. E minimalista bem-sucedido em São teus estes boleros. Em Dançar com facas, o poeta de Aroeiras volta ao território do minimalismo com uma diferença. No livro anterior, ele abordou o fazer poético à semelhança de Philip Glass, o autor das canções minimalistas. Agora ele burila não mais o verso curto, mas praticamente a palavra solta no branco do papel, como John Cage fez com os sons, valorizando o máximo o silêncio, como se quisesse nos mostrar o óbvio que ninguém vê/ouve: o branco/silêncio interfere no preto/som, entrando na composição como parte dela. Um exemplo deste absoluto poder de síntese, no qual a alusão erudita dá sentido não enunciado ao que é enunciado é Sêneca: “Coisas perdidas. / Coisas vividas / Coisas mortas”. Outro ainda mais exemplar, por enunciar o que não é para enunciar, é Poesia: “Luz / e silêncio”. Este último, no papel, é pugilismo puro. E do bom!

A poética, digamos, mínima não se isenta da emoção, ao contrário do que imaginam os desavisados. Poucos poemas líricos em língua portuguesa têm a força que o modernista paulista Oswald de Andrade deu a seu magnífico Ditirambo: “Meu amor me ensinou a ser simples / como um largo de igreja / onde não há nem um sino / nem um lápis / nem uma sensualidade…” Lenilde de Freitas, de origem recifense, mas nascida e criada na mesma Campina Grande onde Hildeberto e eu estudamos na pré-adolescência e que ganhou uma Bienal Nestlé de Poesia na qual fui um dos jurados, tem enriquecido o florilégio dos brevíssimos cânticos do amor perene com obras notáveis. Eis uma delas, A paixão desmedida: “De tanto te desmontar / te reinvento / com pensamento macio. / Eis-me outra vez / no limiar de tua face. / Por precaução / Conto um-dois-três: / eu mesmo afio teu esporão”.

Hildeberto foi neste rastro em Confissão: “Nada desejo para mim, / exceto a tristeza sem cor / dos olhos teus, / inclassificável beleza / que me enlouqueceu”. Há no poema, como no de Oswald, todo o lirismo do mundo, mas pieguice, zero. Ao contrário, o lírico minimalista Hildeberto é de um antilirismo implacável, a exemplo de  Lenilde e no rastro do melhor da produção de Roberto Carlos, antes de se deixar sufocar com açúcar: “Se você pensa que vai fazer de mim o que faz com todo mundo que te ama…”

Do século XX para cá, desde Oswald, a poesia brasileira tem sido fértil em minimalismo e antilirismo. A paulista e contemporânea Eunice Arruda nos sapeca em seu Propósito uma lição de como dizer tudo falando quase nada: “Viver pouco / mas viver muito/ Ser todo o pensamento / Toda a esperança / Toda a alegria / ou angústia – mas ser // Nunca morrer / enquanto viver”. Sem levar em consideração o fato de que este fecho é de matar de inveja qualquer poeta em atividade, convém reparar no uso das maiúsculas ao abrir versos que exaltam a alegria de viver, resumindo o fardo do penar a um verso aberto com letra minúscula. O poema é realista, mas esperançoso. Nesta coletânea, que tenho a honra de apresentar, Hildeberto refaz o poema de Eunice pelo avesso em Suicida: “Não sou suicida, / mas quantas vezes pensei / em sair dessa para outra, / melhor. // O diabo é que a vida / é um grude e nos prende / à sua casca mágica, / pesar dos remorsos, horrores, / carências…” A palavra solta do fecho transmite uma sensação de abandono de quase levar às lágrimas, não é?

Em Velhice esta carência abriga um pessimismo amargo se espalhando na folha como bile: “Os fardos da idade / começam a humilhar / o pobre corpo. // E a alma, / papoula desgarrada, / nem está mais aqui”. A carência vira solidão. No caso, como se dá a perceber, se trata de um poema que, como poucos neste livro, pode (e até deve) ser lido em voz alta. Ou seja: estamos mais a ouvir pingos de Glass do que a (não) escutar o longo silêncio agoniado de Cage. Mais adiante, Hildeberto premia seu leitor com uma visão cáustica de quem não se dispõe a perdoar: “No fim da cidade, / um loteamento de velhos // Desertos na pele, / crateras no sangue. // Velhos com conhaque / na alma, lúcidos, sem horizonte” (Horizonte, um título que resume o poema). Uma imagem como esta “conhaque na alma” paga qualquer poema. Sem falar no truque da\ quebra da imagem que força o pobre leitor a bisar a leitura para não perder o inusitado da metáfora.

Poucos poetas tiveram a exatidão enxuta e a piada pronta como o caipira apaulistanado José Paulo Paes com suas peças que mais podem ser chamadas de epigramas pós-concretos (ou seriam pós-modernos?). O exemplo mais radical desta faceta dele está em Poética: “conciso?   com siso / prolixo?   pro lixo”. Se algum leitor muito avisado conseguir um manifesto mais curto, mais bruto e mais preciso do que este, por favor, me avise e mo mande. Um poema de Hildeberto, com o mesmo título do de Paes, acrescido de uma ordem de descendência nobiliárquica, o Poética IV troca a condenação feroz pela autocrítica rabugenta: “Desgosto / de muitos poemas / que fiz… // Este nada me diz / Aquele é pura mentira. / Outros, falsos brilhantes / que passam por lira”

Hildeberto Barbosa Filho amadurece e endurece recorrendo às raízes. Sua poesia de agora espelha o sol inclemente do Cariri que parece queimar mais plantas que nascem de pedras por acaso do que participar da urdidura da clorofila. À medida que o tempo passa, ele descobre na aspereza cinzenta de sua paisagem de origem, além da feiúra aparente, uma beleza secreta, para iniciados, que ele passou a apreciar assim como também passou a celebrar com poucas vezes as profundezas do silêncio de estepes sem vento. É o que nos expõe em Legado: “À noite se segue o dia / como as águas abrigam / calor e silêncio. // Resta ao homem / a pluma da linguagem, / ásperos navios de fogo / que iluminam os vazios”. Aqui o metro se alonga além do normal e isso se torna perceptível na leitura linear dos versos quebrados pelo sinal gráfico que reproduz a barra (/). É como se a forma desdissesse o conteúdo e a respiração cortasse o soluço. O luxo do verso abundante, quase um discurso a interromper a matraca, reforça pelo avesso a pregação permanente da ideologia da escassez, que nos leva na obra poética dele à exposição da carência como forma de verter até a última gota do vinho amargo no cálice da paixão. É como ele mesmo diz em Sentidos: “Apenas / vejo o que ouço. // Toco / o que cheiro // e saboreio as palavras”.

Este livro é para ser lido vagarosamente. Quando o leitor acaba, tem a sensação esquisita de que demorou pouco. Afinal, foi tudo muito rápido. Mas aprenda que brevidade nada tem que ver com facilidade. Ela também se conquista com a experiência. Experimente reler e, depois, repita. Faça-o à exaustão. Aprenderá, como eu, que só então sentirá o peso de cada palavra e a verá gotejar na secura alva da página impressa.

José Nêumanne, poeta, jornalista e escritor, é autor de Solos do silêncio – poesia reunida.

(Prefácio de Dançar com facas, livro de poemas de Hildeberto Barbosa Filho, no prelo)

No Estadão, “O sagrado direito de blasfemar”

No Estadão, “O sagrado direito  de blasfemar”

José Nêumanne

Os EUA e o PT não fizeram falta na “grande marcha” contra o terror dos fanáticos da fé

As multidões, calculadas em quase 4 milhões de pessoas, que foram às ruas na França protestar contra o terrorismo fundamentalista islâmico, que fuzilou toda a redação do jornal satírico Charlie Hebdo, trazem a lume neste momento duas questões de alta relevância histórica para estancar o banho de sangue por ele causado.

É lamentável constatar que a mais de 13 anos da demolição das torres gêmeas em Nova York a civilização ocidental ainda não consegue lidar de forma competente e tranquilizadora contra os arroubos selvagens de grupos marginais de brutalidade acima de quaisquer limites. E com enorme capacidade de seduzir prosélitos não apenas em territórios do Islã, mas também em sociedades livres e prósperas. Os celerados que invadiram a redação e executaram quem nela estava eram cidadãos franceses aptos a produzir e compartilhar os bens de uma sociedade próspera e livre. Só que optaram por exterminar quem não comungava com eles uma causa exógena de fanáticos de uma crença de pessoas menos favorecidas em lugares remotos. Sua ascendência africana não altera o inusitado da opção sobre a qual urge refletir e debater antes de enfrentar.

Mesmo alertado pela ocorrência do atentado mais espetacular de todos os tempos, o de Nova York em 2001, o aparato policial armado pelos Estados Democráticos de Direito laicos e liberais ameaçados pela fé cega mostrou-se incapaz e insuficiente para deter outros mais corriqueiros, mas não menos surpreendentes, como o de Paris. A redação já fora atingida antes pelo mesmo tipo de fanatismo e sob idêntica alegação: a blasfêmia. No entanto, a dupla de facínoras, pesadamente armados, não enfrentou a menor resistência para entrar no prédio e, mesmo errando de andar, chegar ao objetivo, render uma funcionária, invadir o recinto de trabalho e promover a carnificina. Os assassinos encontraram a mesma facilidade para deixar o local, matar um patrulheiro na rua à queima-roupa e sair em fuga pela cidade indefesa.

A incompetência do Estado francês foi confirmada ao longo de toda a tentativa de fuga dos assassinos e reconhecida publicamente logo depois da execução dos terroristas. Por mais absurdo que pareça ao instinto de vingança que assoma a qualquer um a clamar pela morte imediata dos criminosos, a própria execução dos fanáticos, cercados numa gráfica nos arredores de Paris, confirma a inaptidão da força policial que os perseguiu. Capturá-los vivos era essencial por todos os motivos lógicos. O mais corriqueiro deles seria obter da dupla encurralada todas as informações possíveis sobre a organização a que pertenciam e a rede de sobreviventes encarregados de executar as ordens e os objetivos dela emanados.

Chega a ser patético apelar para raciocínios mirabolantes e hipóteses nem sempre plausíveis para reconstruir os passos que levaram os irmãos Kouachi ao local e ao êxito de seu intento absurdo. Tudo seria mais simples, embora não necessariamente fácil, se eles tivessem sido presos e processados na velha e boa forma da lei. Pois assim o quebra-cabeças poderia ser montado para esclarecer o ato criminoso ao longo do processo e tornar viável o planejamento da caça a outros eventuais membros das hordas vingadoras do profeta Maomé no Velho Continente.

O atentado de Paris deixou claro que as medidas preventivas de segurança precisam ser aperfeiçoadas, mas não alterou o conceito fundamental de que só se protege a liberdade com mais liberdade. A execução dos fugitivos na gráfica pode até ter livrado o Estado francês do vexame da exibição de sua incompetência. Só que isso deveria ser tornado público para que os erros capitais cometidos pela segurança no caso não sejam repetidos doravante. Aliás, eles não resultam exclusivamente da ancestral leniência francesa. O Ocidente, incluindo os EUA, deveria repensar compreensão e ação no combate ao terrorismo.

A questão positiva resultante do massacre da redação foi a mobilização popular em defesa não apenas da liberdade de expressão, enlutada, mas fortalecida com o tiroteio ocorrido a poucos quarteirões da Bastilha, cuja queda foi o marco inicial da Revolução Francesa, no século 18. Mas também do direito à vida. Os quatro reféns de Amedy Coulibaly no mercado kosher foram capturados por acaso, como quase todas as vítimas de atentados do gênero, em geral aleatórios.

Não foi, então, a censura à liberdade de opinar ou mesmo de satirizar Maomé que inspirou o atentado ao Charlie Hebdo, mas a tentativa tirânica de impor uma crença a quem professa outros credos ou não crê. Mais do que a livre expressão, perto da Bastilha foi atacada a liberdade de viver da forma como cada cidadão quer, o que é seu direito sagrado. Assim como o é o de blasfemar. Foi a percepção desta agressão totalitária que despertou a indignação do cidadão que ocupou as ruas, desarmado. Este, contrariando preceitos politicamente corretos de que também lhe exigem obediência, assumiu a identidade da vítima (Charlie) pacificamente, sem promover desordens. A compreensão deste novo momento do convívio humano em sociedade foi de tal forma completa que os franceses, que tendem em sua maioria a desconfiar da polícia, aplaudiram os agentes da lei, cuja ação em todo esse episódio ficou patente como sendo de escudo para as balas dirigidas a esmo contra qualquer transeunte que passasse.

A “grande marcha”, denominação que lembra a chegada ao poder de uma ditadura brutal, a do comunismo chinês, expressou sua fé contra qualquer totalitarismo. Isso foi entendido por François Hollande, tido como fraco, e por Angela Merkel, conhecida como forte. Obama e Dilma (representada pelo embaixador Bustani) não compareceram ao ato, mas não fizeram falta. Neste instante crucial para o gênero humano, a Europa revelou-se autossuficiente para resgatar a civilização dos riscos de barbárie Sem o Tio Sam nem o PT.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 14 de janeiro de 2015)

Adones Alves de Oliveira. Um amigo boa pinta, bom papo e boa praça.

Adones Alves de Oliveira. Um amigo boa pinta, bom papo e boa praça.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

Recolhendo dados sobre meu querido e velho amigo Adones Alves de Oliveira, repassados pela viúva, Helô Machado, e pelo primogênito Felipe, escrevi um pequeno perfil para o obituário do Estadão. Logo na primeira frase topei com um mistério: por que cargas d’água o pai dele o teria ido registrar em outra cidade, em outro Estado? Adones nasceu na zona rural de Equador, hoje município, mas à época distrito de Parelhas, Rio Grande do Norte, e foi registrado em Santa Luzia do Sabugi, na Paraíba. Um relato simples e curto da historiadora Maria Isabel Pimentel de Castro Pinto, minha mulher desde 9 de junho último, me esclareceu tudo.

 

Adones3

Adones Alves de Oliveira

Isabel é neta de Ageu de Castro, dentista, farmacêutico, rábula e  revolucionário de 1930, personagem de causos que José Américo de Almeida contava e Sebastião Nery reproduziu em livros. Ele foi um político de destaque nos dois Estados vizinhos e ocupou várias prefeituras. Uma delas, a de Parelhas. Ela me esclareceu que foi seu avô quem deu esta denominação ao distrito, porque ele e a população não se conformavam com a denominação fescenina que a tradição cunhou: Priquito de Maria. Esclarecido o mistério: Adones nasceu na zona rural do vilarejo que ainda tinha um nome impublicável quando se deu o parto de dona Clotilde. João Caetano, o pai, preferiu registrá-lo num lugar de nome menos profano e mais sagrado: o da santa padroeira da visão. Não ficou esclarecido? Pois é: coisas do sertão!

Este sertanejo aqui cruzou com Adones sem saber, antes sequer de conhecê-lo. Regina Coeli, minha primeira namorada, minha noiva, minha primeira mulher, mãe de meus filhos, avó de meus netos, morava no Ponto de Cem Réis em Campina Grande. Quando ia me encontrar com ela na bodega de seu pai, seu Aluísio Felizardo, descia a rua João Alves de Oliveira, nomeada em homenagem a um parente bem mais velho dele.

Também conheci-o pelas mãos de uma mulher bonita: Helô Machado, que trabalhava no arquivo da Folha de S.Paulo, em cuja redação eu era repórter da editoria local. Eles eram casados e o primogênito, Felipe, era criança quando passei a frequentar seu apartamento na rua Dr. Veiga Filho, em Higienópolis. Numa festa dessas, Belchior, que, graças à ajuda de Adones e à minha, morava numa casa em construção de Irede Cardoso, colega de Helô e minha na Folha, terminou Como nossos pais. No mesmo lugar, comemoramos a decisão de nossa amiga comum Elis Regina gravar a canção e transformá-la num clássico da música popular brasileira.

 

Adones e Helô

Adones e Helô

Fazia parte de nosso folclore particular a história de Adones levando Helô, filha de coronel da PM paulista, portanto criada com conforto na Pauliceia Dilacerada, para passar a lua de mel em Junco do Seridó, no alto da Serra da Viração, a meio caminho entre Equador e Santa Luzia e perto de Caicó, onde nosso amigo cursou o primário. Conheci bem o Junco. Quando se quer dizer que uma cidade é pequena, diz-se que só tem uma rua. Junco tinha meia. À beira da estrada, meninos vendem excelente castanha de caju torrada. E foi a estrada (o princípio da BR230, que termina na Transamazônica) que permitiu que ela tivesse futuro. Antes ficava fora do caminho. Com a rodovia, ficou literalmente no meio do caminho. Eu estudava no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, e passava férias na casa de meus pais em Uiraúna, no sertão do Rio do Peixe, também limítrofe com o Rio Grande do Norte. Antes de chegar o asfalto, o ônibus parava no posto de João Galo para um lauto e gostoso café da manhã preparado pela excepcional cozinheira dona Lourdes, mulher do dono. Um doido local, Barrão 70, ruivo sarará e feliz proprietário de um único dente na boca inteira, carregou as malas do casal para a casa de um primo de Adones, Dr. Zequinha, local escolhido para a lua de mel.

Adones com Isabel e Nêumanne no Bar do Nelson, de Lilian Gonçalves

Adones com Isabel e Nêumanne no Bar do Nelson, de Lilian Gonçalves

Pouco antes de nosso casamento, Isabel e eu recebemos Adones em casa para um almoço em família. Adones era primo do dr. Zequinha, ou seja de Alexandre Tabajara, meu sogro. Para completar as coincidências, Isabel passou a infância andando de bicicleta na meia rua do Junco. Isabel e eu o encontrávamos frequentemente no Shopping Higienópolis. Conversávamos sobre os Balduíno, fundadores de cidades sertanejas e parentes de ambos ou amigos do passado no Pedro II, Franco Paulino, e em redações: Antônio Torres, do Última Hora de São Pauloo, Cícero Afonso Vieira, lendário chefe de revisão da Folha, e Mário Leônidas Casanova, do Estadão, principalmente. Este papo já faz falta em nossas vidas.

 

Reproduzo abaixo dois textos: o que escrevi para o Estado e o discurso de Felipe na missa de sétimo dia em que encontrei muitos antigos companheiros das redações que freqüentamos da Folha e do Estadão.

Aí vão, se lhe interessar:

 

Adones, 77 anos e 2 meses, jornalista

Adones Alves de Oliveira nasceu em 15 de setembro de 1936 numa fazenda perto do distrito  de Equador, município de Parelhas, no Rio Grande do Norte, mas foi registrado numa cidade próxima, Santa Luzia do Sabugi, no Seridó paraibano, notório pela boa fibra de seus algodoeiros e pela animação das festas juninas. Estudou no internato do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, cidade onde cursou a faculdade de Filosofia e Letras e se tornou profissional de jornalismo na Revista Radiolandia e no jornal Última Hora. Em 1964, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou no Última Hora e, em 1966, entrou na Folha de S.Paulo como repórter, redator e cronista de TV e MPB. Especializou-se, então, na cobertura dos festivais de Música Popular Brasileira, nas TVs Excelsior e na Record, e no Festival Internacional da Canção, da Globo. Foi jurado nos dois últimos. Atuou como galã de fotonovela e fez parte do elenco do filme Bebel, a Garota Propaganda, de Maurice Capovilla.  Nos anos 70, trabalhou como repórter e editor de variedades do Estado de S. Paulo.  Nos 80, fez parte da redação da revista Visão e se dedicou à área de turismo: escrevendo para o Shopping News e Brasilturis, viajou pelo mundo inteiro. Casou-se com a também jornalista Helô Machado, paulistana, e com ela teve dois filhos, Felipe, que dirigiu o portal do Estadão, e Fernando, executivo da indústria fonográfica, e duas netas, Isabel e Laura, ambas de 7 anos. Morava sozinho em Higienópolis e foi surpreendido, à noite, por um infarto fulminante no miocárdio.

 

Um homem vestido de sol

Felipe Machado

A lógica natural da vida exige que todo homem, mais cedo ou mais tarde, pronuncie as temidas palavras que ameaçam dobrar a esquina desde os tempos em que o menino descobre que ninguém vive para sempre.

Meu pai morreu.

Por mais que seja aparentemente contraditório, o mais difícil não é dizer essa frase dezenas de vezes em voz alta, quando a vida em sociedade torna necessário espalhar a triste notícia entre amigos e familiares. É muito mais dolorido quando chega o momento de tentar entender e contar o que aconteceu para si mesmo, longe do carinhoso ruído e das pesadas lágrimas de quem quer sofrer junto.

É o momento mais solitário e, ironicamente, o mais universal. Os que não passaram por isso, passarão. Os que já passaram compartilham o sentimento do navegante que se vê perdido no mar após olhar ao redor e perceber que o farol se apagou.

Mais que um farol, meu pai era um sol. Por várias razões. Pelas mais poéticas, diria que ele foi um ser que irradiou luz e fez girar em sua órbita corpos celestes e terrenos, atraídos por sua inteligência, simpatia e carisma. Pelas razões mais simples, diria que ele era um sol porque andava cada vez mais obcecado pelo calor, pela sensação dos raios solares cortando sua pele como lâminas de luz. Se pudesse escolher, tenho certeza de que nessa última viagem ele teria se vestido apenas de sol.

Meu pai viajou tanto na vida que enjoou. Depois de tanto tempo escrevendo sobre música e arte, foi escrever sobre o mundo. E gostou. Engraçado porque sempre me lembro dele voltando de algum lugar, nunca indo. Talvez eu tenha ficado com essa impressão porque viajar é sempre uma folha em branco, colorida com opiniões e impressões somente depois que se volta. As palavras, suas únicas companheiras constantes em todas as viagens, esperavam ansiosamente até chegar em casa para poder descansar das aventuras nas folhas de papel.

Antes das viagens, meu pai escreveu sobre música. Acho que foi sua grande paixão, mais forte do que o cinema, a literatura, a arte. Tinha orgulho de ver o sobrinho, meu primo Pedro, dividir o palco com as maiores orquestras do mundo. Nos últimos tempos, quando a saúde o obrigou a ficar mais introspectivo, a música se tornou ainda mais parte da sua vida, do seu corpo, da sua alma. Como nós respiramos, comemos e dormimos, meu pai ouvia música.

A vida do meu pai foi uma sinfonia. O primeiro movimento começou devagar, Andante, nos confins do Sertão do Brasil. Os documentos diziam que o filho da minha avó Clotilde e do meu avô João Caetano veio ao mundo em 15 de setembro de 1936 em Santa Luzia, Paraíba, mas ele insistia em dizer que havia nascido em uma fazenda no meio do nada em Equador, Rio Grande do Norte. O amor pelo sol deve ter nascido aí. Ao remexer em papeis antigos, descobri coisas e histórias que ele nunca me contou em vida – e nunca mais contará.

Resta ler que ele fez o primário no Ginásio Diocesano Seridoense, em Caicó, Rio Grande do Norte, uma cidade da qual eu nunca ouvi falar. Como um dos seus irmãos ficou no Rio Grande do Norte, um outro foi para Pernambuco e os outros ficaram na Paraíba, nunca pensamos na infância do meu pai em termos geográficos muito bem definidos: para nós, o lugar de origem do meu pai, o paraíso encontrado onde eu e meu irmão passamos tantas férias, era, simplesmente, o Nordeste.

O segundo movimento da sinfonia Adoniana, Presto, começou com uma viagem que mudou sua vida. Em 1951, o corajoso garoto de quinze anos chegou sozinho ao Rio de Janeiro, para estudar no prestigioso internato Colégio Pedro II. De lá sabemos apenas que fez grandes amizades e desenvolveu o amor pelo cinema, a música e as palavras. Gostou tanto delas que entrou para a Faculdade Nacional de Filosofia, onde cursou Letras Neo-Latinas. E de lá saiu direto para a redação da revista Radiolândia, onde passou a escrever sobre os artistas e as paradas de sucesso.

Em 1960 começa o terceiro e fortíssimo movimento dessa sinfonia: Adones muda-se para São Paulo para escrever no jornal Última Hora. E daí vieram os convites para ser jurado dos grandes festivais, os empregos nos grandes jornais da cidade, Folha e Estadão, as assessorias de imprensa para políticos, as bienais de arte, as intermináveis viagens. Ainda na Folha, conheceu uma jornalista chamada Helô Machado, por quem se apaixonou. Como não se apaixonar? Minha mãe era linda, talentosa, chique. E continua assim até hoje.

O quarto e último movimento da sinfonia do meu pai combina com seu nome. Adágio, Adones. Aposentado, passou a curtir a vida lentamente. Aproveitou para brincar com as netas, Bebel e Laura, conversar com os amigos na praça, passear por Higienópolis, bairro onde se sentia verdadeiramente em casa. O lugar, aliás, que escolheu para viver e morrer, em 24 de julho de 2014.

Meu pai morreu.

 

Adones e Felipe bebê

Adones e Felipe bebê

É duro para um filho dizer isso, mas não sei se cheguei a entender meu pai. A amar, sim, claro, mas acho que nunca cheguei a compreendê-lo direito. Não sei se esse sentimento também é universal, mas para mim meu pai foi um enigma. Nunca se abriu, nunca foi de contar muitas histórias da infância. Conversávamos sobre as músicas dos outros, os livros dos outros, a vida dos outros. E agora tento descobrir quem ele realmente era sem sua presença, lutando para entender as pequenas letras nos diários esquecidos em caixas no fundo do armário. Não há legendas, nem rodapés de página para explicar. As memórias morreram com ele, uma pena. Só nos resta ficar aqui, eu, minha mãe e meu irmão, sozinhos, pensando como seria a vida que nunca mais será.

 

 

Machado e a picareta

Machado e a picareta

José Nêumanne

Pareceu à autora Patrícia Secco uma ideia genial, um ovo de Colombo: apresentar ao Ministério da Cultura (MinC) projeto para simplificar algum texto de um grande escritor, contratar uma equipe, instalar um dicionário no computador e trocar palavras que não sejam familiares ao linguajar contemporâneo por outras mais fáceis para o leitor comum entender. Pois não é que o MinC autorizou que ela captasse recursos da Lei Rouanet para editar 300 mil livros e distribuí-los gratuitamente por bibliotecas e instituições do Brasil? Simplificar um gênio pode dar um dinheirinho – mais, por exemplo, do que escrever livros infanto-juvenis dos quais ninguém ouviu falar. Ela escreveu 200. Dane-se a mutilação do estilo do gênio, que vá para o inferno a turma que não aceita essa tentativa politicamente correta de popularizar um escritor difícil só por elitismo.

A primeira vítima foi apenas o maior escritor brasileiro de todos os tempos, o mulato carioca do morro do Livramento Joaquim Maria Machado de Assis. A sra. Secco não quis saber de desafios como Memórias Póstumas de Brás Cubas. E mandou sua equipe trocar “sagacidade” por “esperteza” na edição simplificada de O alienista, que, por essas artes do destino, desmascara a verdadeira intenção do projeto, que é atualizar a escrita do bruxo do Cosme Velho. Alienista era a palavra usada no século 19 para definir médicos que cuidam de “alienados mentais”. Quando estes passaram a ser dados como simples doidos, a profissão mudou de denominação para “psiquiatra”. Hoje seria “terapeuta”. Mas quem diabo leria um livro prosaicamente intitulado de O terapeuta? A sra. Secco manteve o “alienista” e não perdeu a pose.

Vociferou: “ “A ideia do projeto não é facilitar os textos, mas facilitar o acesso à leitura. Fiz uma transposição da linguagem da época para a linguagem atual. Fiquei muito chateada com as reações, porque o projeto só visa levar Machado a quem não conhece. Não é fazer com que ele deixe de ser Machado, fazer grandes modificações. É para que o leitor não fique parado ou derrapando”.
Depois do “terapeuta” vem A pata da gazela, de José de Alencar. E sabe Deus quantas mais outras falsificações literárias em nome da divulgação de textos clássicos, mas difíceis. O nome disso é picaretagem. E o único jeito é algum parlamentar mais letrado acabar com a farra de picaretas do gênero tombando primeiro Machado depois outros escritores que merecem usar esta denominação de ofício. Tipificar esse tipo de malandragem como crime já seria mais difícil, embora se devesse.

Jornalista, poeta e escritor
(Revista Imprensa, Junho de 2014, Página 19)

Nesta quarta no Estadão: “O palhaço que foi aula e espetáculo”

Nesta quarta no Estadão: “O palhaço que foi aula e espetáculo”

José Nêumanne (*)

Certa vez, Ariano Suassuna foi ao Palácio da Redenção, sede do governo da Paraíba, na Praça João Pessoa, no centro da capital, batizada com o nome do maior inimigo de seu pai, João Suassuna. Lá foi barrado à entrada por um guarda instruído para não permitir que alguém adentrasse o recinto sem gravata. De camisa, calça e paletó de linho, como de hábito, o autor de O auto da compadecida, peça em que se baseou o filme de maior bilheteria do cinema brasileiro, retrucou:

– Olhe, a primeira vez que entrei neste palácio aqui foi nu, viste?

E era verdade: isso se deu em 27 de junho de 1927 num quarto do prédio decadente e saído do ventre da mãe, Rita de Cássia Vilar Suassuna. O pai, João, era presidente do Estado, como se dizia na República Velha. E ali começou a saga de um professor de aparência sisuda que, ao longo do tempo, de tanta comédia que escreveu para o palco, se tornaria o maior palhaço do Brasil, embora nunca tenha sido humorista profissional. Se o cearense Chico Anysio extraía personagens da observação da vida e os tornava reais, Ariano os punha no palco e, depois, brincava com a troça deles recorrendo à graça na cátedra universitária, nos gabinetes da burocracia e numa cadeira na Academia Brasileira de Letras. E, quando tudo isso apenas se esboçava no menino que berrava nu na sede do poder estadual, se desenrolava a tragédia política nacional, em cujo epicentro o palhaço octogenário também desempenhou seu papel.Ariano Suassuna

João Suassuna, chefe do clã sertanejo de Catolé do Rocha, tinha sido substituído na presidência da Paraíba por João Pessoa, sobrinho do ex-presidente Epitácio, oligarca da várzea do Paraíba do Norte, e destinado a se tornar o estopim da Revolução de 30, que sepultaria a Primeira República para, depois de um interregno de arremedo institucional, mergulhar nas trevas do Estado Novo. João Pessoa, candidato a vice na chapa presidencial do gaúcho Getúlio Vargas, derrotada, foi assassinado a tiros pelo advogado João Dantas, aparentado e devotado dos Suassuna e do coronel Zé Pereira, de Princesa Isabel, que havia enfrentado a bala o poder paraibano, armado pelo federal, presidido por Washington Luís, que se preparava para empossar seu candidato eleito Júlio Prestes quando os políticos mineiros e as tropas gaúchas amarraram suas montarias no obelisco do centro do Rio, mandando o presidente deposto para o exílio. Acusado de manter ligações com os mandantes da morte do herói revolucionário, o pai de Ariano foi baleado e morto no centro do Rio em 1930. Corriqueiro seria vingar o patriarca assassinado, mas dona Ritinha nunca permitiu que a vingança levasse a prole a alguma loucura. Criado em Taperoá, terra da mãe, e, depois pelo resto da vida em Recife, o filho nascido no palácio sempre devotou ódio ao inimigo-mor do pai, recusando-se a chamar a antiga Filipéia de Nossa Senhora das Neves de João Pessoa e preferindo sempre designar a capital pelo nome do Estado, como era useiro fazer antes da Revolução de 30.

fotoestadao

Ariano vingou-se em versos. Em 2000, selecionei um poema dele na antologia Os cem melhores poetas do século. Ariano protestou:

– Não sou poeta, poetas são os personagens dos meus romances.
Como negar, contudo, que era do estro do autor o magnífico soneto (modalidade em que era mestre) em que saudou o pai? “Aqui morava um rei quando eu menino”. / Vestia ouro e castanho no gibão, / Pedra da Sorte sobre meu Destino, / Pulsava junto ao meu, seu coração”.
A poesia, aliás, nele tudo originou. Em sua comédia teatral mais popular, O auto da compadecida, fundiu três folhetos de cordel, gênero poético popular por excelência. João Grilo e Chicó, os protagonistas, personificam a força do “amarelo”, que enfrenta valentões com sagacidade e graça. E tudo em Ariano tinha graça. Seu livro Introdução à estética, manual de ensino de teoria literária, é um show de erudição com pitadas de humor que rivalizam com as melhores anedotas de outra comédia dele, O santo e a porca.

arianoestado
Na última vez em que o vi no Centro Cultural Maria Antônia, da USP, em Higienópolis, fez uma palestra intitulada “O humor – de Aristóteles a Bergson”. Nunca uma platéia, formada por professorinhas de escola pública no interior de São Paulo, imaginou que pudesse rir tanto das peripécias do preceptor de Alexandre da Macedônia e do filósofo francês da virada do século 19 para o 20 com aspecto de agente funerário captado pelos pioneiros da fotografia em preto e branco.

É imenso o acervo deixado pelo intelectual que tornou Paraíba e Pernambuco, inimigos em 1930, um Estado só. Mas tudo pode ser resumido numa Aula-espetáculo, título do documentário de Vladimir Carvalho, que se tornou seu cavalo-de-batalha nos últimos anos. Mais do que dramaturgo, romancista (do genial A pedra do reino), professor,  acadêmico secretário estadual da cultura ou mesmo o humorista em que se transformou já velho, Ariano foi, ao mesmo tempo, uma aula viva estupenda e um permanente espetáculo folgazão de inteligência, vida, senso de humor e savoir-faire.

(*)Jornalista e escritor

(Publicado no Caderno 2 do Estado de S. Paulo, quinta-feira 23 de julho de 2014)

Página 2 de 3123
Criação de sites em recife Q.I Genial