Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

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Bodas de trigo. Para Isabel há três anos

Bodas de trigo. Para Isabel há três anos

BODAS DE TRIGO

Neste primeiro triênio,
você decide e nós vamos;
você prescreve
e eu escrevo.
Você é única
e eu só sou seu.

Você acata, eu aceito;
você pesa, eu pego;
você brilha, eu trilho;
você clama, eu tremo;
você chora, eu gemo;
você gripa, eu espirro.

Você nasce, eu cresço;
você brota, eu colho;
você passa, eu peço;
você chama, eu chego;
você trama, eu tremo;
você limpa, eu borro.

Você jorra, eu molho;
você dança, eu canso;
você sai, eu caio;
você para, espero;
você canta, eu planto;
você berra, eu piro.

Você brota, eu colho;
você joga, eu ganho.
você pensa, eu ouço;
você fala, eu calo.
Você sofre à toa,
e eu morro todo.

Eu faço o café, você toma;
você tem fé e eu rezo:
você bola e eu colo;
você pinta, eu sinto;
você, absoluta,
e eu, um anacoluto.

Sem você nada existe,
pois só vivo em você
e, dois, somos apenas um.
O resto só Deus sabe,
pois nossa relação
é coisa lá dEle.

São Paulo, sexta-feira 9 de junho de 2017.

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TV Estadão: Haja propina!

TV Estadão: Haja propina!

No Estadão às 5 ontem, às 17 horas, a TV Estadão retransmitiu em Youtube, Facebook e Twitter minha conversa com o  diretor da Rádio Eldorado – FM 107,3 –, Emanuel Bomfim, sobre a crise política desencadeada pela conversa nada republicana do presidente da República, Michel Temer, na noite nada calada no porão do Palácio do Jaburu, com o marchante Joesley Batista, da J&F. À véspera do julgamento das fraudes eleitorais na eleição de 2014, onde o mesmo Temer e Dilma Roussef reelegeram-se à Presidência e o vice com um conjunto grotesco de propinas milionárias comprometidas por vencedores e vencidos, que recorreram à Justiça, mas também foram pilhados recolhendo propinas.

Para ver o vídeo clique no link abaixo:

Para ver no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/haja-propina/

TV Estadão: De olho no TSE

TV Estadão: De olho no TSE

No Estadão às 5 ontem, às 17 horas, a TV Estadão retransmitiu em Youtube, Facebook e Twitter, minha conversa com o  diretor da Rádio Eldorado – FM 107,3 –, Emanuel Bomfim, sobre a crise política desencadeada pela conversa nada republicana do presidente da República, Michel Temer, na calada da noite no porão do Palácio do Jaburu, com o marchante Joesley Batista, da J&F. À véspera do julgamento das fraudes eleitorais na eleição de 2014, onde o mesmo Temer e Dilma Roussef reelegeram-se à Presidência e vice com um conjunto grotesco de fraudes milionárias comprometidas por vencedores e vencidos, que recorreram à Justiça, mas também foram pilhados recolhendo propinas.

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No Blog do Nêumanne: Falta alguma coisa nessa delação

No Blog do Nêumanne: Falta alguma coisa nessa delação

Joesley gravou conversas com Temer e Aécio, mas não entregou provas contra Lula

Até agora o professor Michel Temer não renunciou à Presidência para resolver a crise criada com as delações premiadas dos irmãos Batista, principalmente Joesley, da Friboi. Ao resistir, tem amealhado a cumplicidade de antigos adversários frouxos, hoje ferrenhos aliados, do que foi, durante a roubalheira nos três governos e meio de Lula e Dilma, do PT, em associação com o PMDB, o soit-disant maior partido da oposição. Era tudo mentira, fingimento. Hoje o PSDB é acusado, e com evidências bastante lógicas e sólidas, de ser sócio no descalabro e companheiro na derrocada da imagem que o tem tornado um bando de párias eleitorais.
Conforme relatou a repórter Isadora Peron, da Sucursal do Estado em Brasília, ministros tucanos se reuniram domingo com Temer no Palácio do Jaburu para lhe garantir que o partido, “por ora”, vai continuar na base aliada. A permanência do PSDB no governo dá fôlego a Temer, que enfrenta nesta semana o início do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pode levar à cassação do seu mandato. Participaram do encontro Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo), Aloysio Nunes (Relações Exteriores) e Bruno Araújo (Cidades), que deu o voto decisivo para sacramentar o impeachment de Dilma e chegou a ameaçar entregar o cargo no dia em que a delação dos empresários do Grupo J&F veio a público. Segundo um dos ministros, a reunião da Executiva do partido foi marcada para quinta-feira 8, mas terá como objetivo fazer uma “análise de conjuntura”, e não decidir se o PSDB deixará o governo. Na semana passada, o presidente nacional do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), havia anunciado que a cúpula da legenda se reuniria na terça-feira 6 para definir uma posição em relação ao governo. Na mesma ocasião, Pauderney Avelino (DEM-AM) deixou claro que seu partido seguirá a decisão, que, na verdade, não configura nenhuma “escolha de Sofia”. Os tucanos continuarão em cima da muralha do oportunismo e o DEM, à sombra dela.
Na Câmara, a bancada tucana, com 46 deputados, está dividida. Uma eventual saída do partido da base, entretanto, depende do aval da Comissão Executiva. Ou seja, ela cumpre o papel histórico da legenda de repetir o ser ou não ser do príncipe Hamlet da Dinamarca. E, jogando no lixo sua promessa eleitoral de representar parte da sociedade que esperava deles a resistência contra os ladravazes da República, seus parlamentares aderiram à resistência de Temer mantendo o apoio ao governo zumbi, sem moral alguma para exercer a autoridade que lhe compete, num abraço cego, surdo e loquaz de afogados insensíveis e mentirosos, que mantém a Nação vítima de sua desumana aliança apodrecida, mas também inquebrantável.
Esta é uma tragédia para todos, mas acima de tudo para a Nação. O Poder Executivo se pintou de guerra para defender o chefe e, com ele, suas mamatas nos carguinhos do governo. O Legislativo está totalmente dominado por suspeitos de cumplicidade na corrupção. E o Judiciário, controlado por uma maioria de indicados, sócios e suspeitos, garantirá uma vitória dos réus no julgamento do Tribunal Superior Eleitoral, por quatro a três. E por seis a quatro no Supremo Tribunal Federal (STF).
A opinião pública está perplexa diante dessa perspectiva. Para complicar, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, tem sido rápido e rigoroso contra Temer, o ex-presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (PSDB-MG), e outros flagrados na tal “ação controlada”. Mas não dá respostas a questões básicas para justificar a liberdade gozada no exterior pelos delatores premiados. Por exemplo: nunca identificaram, processaram nem prenderam os bandidos que, segundo foi informado para justificar o prêmio excessivo para eles, os ameaçaram de morte, o que justificou a leniência excessiva. Quem ameaçou? Por quê?
Além disso, nada se comenta sobre eventual punição aos responsáveis pelo enriquecimento vertiginoso e ilícito dos marchantes de Anápolis que viraram tranchãs da produção e comercialização de proteína animal no mundo. Segundo reportagem de Marcelo Godoy, no Estado, a delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista valeu-lhes o perdão de crimes cujas penas somadas individualmente poderiam alcançar de 400 a 2 mil anos de prisão. Estatísticas da Procuradoria-Geral da República revelam 240 condutas criminosas, reunidas nas confissões dos delatores e em 42 anexos entregues pelo órgão ao Supremo Tribunal Federal (STF). Levantamento feito pelo repórter dá conta de que foram relacionados oito tipos de crimes, entre eles 124 de corrupção e 96 de lavagem, praticados por mais de uma organização criminosa. Segundo Godoy, especialistas em Direito Penal indicam que, em tese, muitas das condutas delatadas, apesar de autônomas, foram praticadas de forma continuada, como se fossem desdobramentos de um mesmo crime. É o caso da lavagem de partes de uma mesma propina por meio de ações diferentes para dissimular o dinheiro, tais como o uso de notas frias para encenar relações comerciais, o superfaturamento na compra de imóveis ou o uso de contratos fictícios de honorários advocatícios. Assim, as penas pelos delitos poderiam cair para algo em torno de 230 anos no mínimo e 1,3 mil anos no máximo. Cáspite!
A análise desses dados reacende a polêmica em torno das vantagens concedidas aos Batistas nos termos do acordo de delação assinado com o Ministério Público Federal (MPF): eles não poderão ser processados por nenhuma das 240 condutas criminosas, recebendo ainda imunidade em outras investigações em andamento e o perdão judicial caso sejam denunciados em outros processos. Os empresários pagaram ainda multa de R$ 110 milhões, valor considerado insuficiente por juristas pelos malfeitos cometidos. Os delatores são ainda suspeitos de usar o acordo com o MPF para lucrar com operações de venda de dólares aproveitando-se da divulgação das delações, suspeita que fez a Justiça Federal decretar o bloqueio de R$ 800 milhões do Grupo J&F.
O repórter citou em seu texto crítica feita pelo criminalista Antônio Cláudio Mariz de Oliveira: “São (os Batistas) criminosos antigos, reiterados e sem nenhum escrúpulo. A delação premiada não pode ser transformada em um instrumento de impunidade”. Ele defende um dos 1.829 políticos delatados: o presidente Michel Temer, seu velho amigo.
A reportagem citada é leitura obrigatória, pois também mostra que, além de corrupção e lavagem de dinheiro, os delatores da holding J&F revelaram financiamentos por caixa 2 de campanhas eleitorais de partidos políticos. O PT e seus integrantes lideram o ranking dos destinatários das propinas, concentrando R$ 616 milhões de cerca de R$ 1,4 bilhão que os Batistas confessaram ter pago. Especialista em combate à lavagem de dinheiro ouvido por Marcelo Godoy, o promotor de Justiça Arthur Pinto de Lemos Junior, do Grupo de Atuação Especial Contra Delitos Econômicos (Gedec), acha que a extensão e a qualidade da delação fortaleceram a decisão do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de conceder os benefícios dados aos Batistas. Segundo ele, “os ilícitos revelados são todos inéditos, eram desconhecidos até então, e o Ministério Público Federal não ia descobri-los se não fosse a iniciativa dos colaboradores.”
O problema é que, sabidamente, há farta produção de provas sobre os delatados do PMDB de Temer e do PSDB de Aécio, Aloysio e Serra,. Mas nenhuma prova documental do uso das duas contas que, segundo Joesley Batista, foram abertas em seu próprio nome e eram manipuladas por Antônio Palocci (o Italiano da Odebrecht), primeiro, e Guido Mantega (o Laticínio, apud Mônica Moura), depois, em favor dos ex-presidentes petistas. Isso não impediu que Lula chamasse o próprio protegido de “canalha” na reunião do PT no fim de semana.
É bem verdade que hoje são vazadas informações de que o Italiano e o Laticínio (ou Latrocínio?) se dispõem a delatar para alterar esse quadro, mas nenhum fato foi confirmado. Além do mais, a abundância de milhões em reais de dinheiro público emprestados aos goianos gestores de matadouros pelo economista Luciano Coutinho quando presidia o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o que tornou possível que prosperassem muito, continua oculta sob um tapete vermelho (a cor do PT). Enquanto esses fatos não vierem à tona, haverá dúvidas e suspeitas. Já passou da hora de revelá-los com a mesma miríade de provas como as que surgiram com gravações e documentos que incriminam muitos chefões partidários, à exceção dos petistas.
• Jornalista, poeta e escritor
(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 5 de junho de 2017)
Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:
http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/falta-alguma-coisa-nessa-delacao/

No Blog do Nêumanne do Estadão: O convescote dos abutres

No Blog do Nêumanne do Estadão: O convescote  dos abutres

Chicanas e negaças não impedem o mau cheiro das manobras da máfia que ainda nos governa

Em nossa capital dos convescotes, onde os três Poderes da República se confraternizam nos fins de semana e passam os dias úteis conspirando para salvar as próprias peles e esfolar a Nação, a máfia dos compadritos, malfeitores portenhos da ficção genial de Jorge Luis Borges, se esfalfa para não ser extinta.

No Poder Legislativo, bocas malditas dão conta à boca pequena que se conspira para dar de mão beijada aos ex-presidentes José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (por que não Fernando Collor?) indulgência perpétua para manter Michel Temer solto, caso seja defenestrado, como o major boliviano Gualberto Villarroel. Este foi atirado pela janela do palácio de Quemados e linchado pela malta enfurecida em 21 de julho de 1946. Ninguém espera que Temer seja atirado vidraça afora do Palácio do Planalto, tendo a palavra defenestrado sido usada apenas como um reforço de linguagem, uma metáfora do desejo da quase totalidade da população brasileira que o prefere sem poder. Mas que saia inteiro, como a rainha da sofrência Roberta Miranda, se dirige ao ex-amor no sucesso Vá com Deus. Embora seja mais difícil querer que ele saia íntegro desde a explosão sobre a faixa presidencial da Bomba H da delação de Joesley Batista, o marchante de Anápolis que virou tranchã do próspero negócio da proteína animal no mundo.

Passadas duas semanas das revelações do delator premiado, Temer não contestou nenhuma das acusações que lhe faz, com base na delação, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no pedido de abertura de inquérito, encaminhado ao relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Edson Fachin: corrupção passiva, organização criminosa e obstrução à investigação. Em vez disso, contratou o perito Ricardo Molina para acusar a gravação da conversa nada republicana de delator com delatado de má qualidade e de prova de incompetência e ingenuidade dos procuradores que a negociaram. OK. E daí?

O Palácio do Planalto já desmentiu o procurador-geral. Mas, junto com o desmentido, foi dada a prova mais evidente de culpa do chefe do governo, ao introduzir o roque do xadrez na gestão pública para qualquer cidadão com quociente de inteligência superior a 50. Insatisfeito com a “timidez” de seu ministro da Justiça na direção da Polícia Federal (PF), ele demitiu o deputado Osmar Serraglio (PMDB) e o substituiu pelo jurista Torquato Jardim, cuja opinião depende tanto do interesse do patrão quanto a do atrapalhado legista. Renan Truffi revelou neste jornal que, em texto escrito em julho de 2015, ele escreveu que, “desconstituído o diploma da presidente Dilma, cassado estará o do vice Michel”.

Como se sabe, em maio de 2016, dez meses depois, o vice Michel era presidente e, no mês seguinte, o renomado causídico assumiu a pasta da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União. Desde então, tornou-se um devoto discípulo do “Velho Capitão” Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, cujo engenho, mesclado à flexibilidade ética que praticava, produziu a pérola que pode servir de lema para o brasão do mais ilustre membro do clã Jardim: “A coerência é a virtude dos imbecis”. É ou não é?

Segundo Felipe Luchete, do site de notícias jurídicas Conjurs, em 21 de fevereiro passado, o ministro criticou procedimentos da operação Lava Jato: ele “listou problemas como as longas prisões provisórias, com duração de até 30 meses, e condenações sem provas, já reconhecidas pela Justiça. Ao comentar a operação, ele afirmou ainda que vazamentos seletivos geram ‘nulidade absoluta’ de processos”, segundo o relato. ODiário do Povo do Piauí publicou no dia de sua posse no ministério de Temer, sua profecia de que a Lava Jato teria igual destino ao das operações anteriores da Polícia Federal, caso da Castelo de Areia, sepultada no STF. Bidu!

Fiel ao brocado de Chatô professado pelo chefe, sua assessoria desmentiu os fatos acima revelados, contrários à opinião da maioria da população, em nota aoFantástico, que os noticiara. Mas isso não quer dizer que sua troca por Osmar Serraglio difira da substituição por Dilma Rousseff do advogado José Eduardo Martins Cardozo pelo procurador Eugênio Aragão, alcunhado por seu chefe, ex-amigo e agora desafeto, Janot, de “Arengão”.

Mais pernóstica do que a missão que ele nega, contudo, é a transferência de seu antecessor para a pasta que antes o incoerente ocupava. O boquirroto Serraglio se jactava a quem se dispusesse a lhe dar um minuto de atenção de que não era “pato manco” no governo Temer. E todos sabemos que isso se devia a que sua permanência na pasta garantia o salvo-conduto para o suplente Rodrigo da Rocha Loures continuar no lado bom do dilema “ou foro ou Moro”, mantendo o foro privilegiado na cadeira para a qual o novo ministro da Transparência fora eleito.

O episódio cancela todos os significados que os dicionários reservam para definir as palavras transparência, fiscalização, controle, justiça e outras, já jogadas no lixo da prática administrativa e política do Brasil, tais como ética, decoro e vergonha. Mas essa consequência é menor do que o motivo real do “movimento combinado do rei e de uma das torres, que se desloca para uma posição mais atuante para dar mais segurança ao rei”, como o Dicionário Houaissdefine o roque, jogada de xadrez citada no início deste texto.

Assim como a tentativa de desqualificar o depoimento do marchante delinquente por causa de seus crimes pregressos ou da má qualidade da gravação que fez nos porões do palácio, a matéria orgânica, à tona de 17 de maio para cá, já ficou insuportável. E exige mais atenção às manobras com que os compadritos da política tentam manter o statu quo. Desfaçatez, chicanas e negaças não perfumam o ar apodrecido das catacumbas da máfia multipartidária que nos governa.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. 2ª do Estado de S. Paulo da quarta-feira 31 de maio de 2017)

Para ler no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/o-convescote-dos-abutres/

No Estadão desta quarta-feira: A república dos compadres

No Estadão desta quarta-feira: A república dos compadres

Chicanas e negaças não impedem o mau cheiro das manobras da máfia que ainda nos governa

Em nossa capital dos convescotes, onde os três Poderes da República se confraternizam nos fins de semana e passam os dias úteis conspirando para salvar as próprias peles e esfolar a Nação, a máfia dos compadritos, malfeitores portenhos da ficção genial de Jorge Luis Borges, se esfalfa para não ser extinta.

No Poder Legislativo, bocas malditas dão conta à boca pequena que se conspira para dar de mão beijada aos ex-presidentes José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (por que não Fernando Collor?) indulgência perpétua para manter Michel Temer solto, caso seja defenestrado, como o major boliviano Gualberto Villarroel. Este foi atirado pela janela do palácio de Quemados e linchado pela malta enfurecida em 21 de julho de 1946. Ninguém espera que Temer seja atirado vidraça afora do Palácio do Planalto, tendo a palavra defenestrado sido usada apenas como um reforço de linguagem, uma metáfora do desejo da quase totalidade da população brasileira que o prefere sem poder. Mas que saia inteiro, como a rainha da sofrência Roberta Miranda, se dirige ao ex-amor no sucesso Vá com Deus. Embora seja mais difícil querer que ele saia íntegro desde a explosão sobre a faixa presidencial da Bomba H da delação de Joesley Batista, o marchante de Anápolis que virou tranchã do próspero negócio da proteína animal no mundo.

Passadas duas semanas das revelações do delator premiado, Temer não contestou nenhuma das acusações que lhe faz, com base na delação, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no pedido de abertura de inquérito, encaminhado ao relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Edson Fachin: corrupção passiva, organização criminosa e obstrução à investigação. Em vez disso, contratou o perito Ricardo Molina para acusar a gravação da conversa nada republicana de delator com delatado de má qualidade e de prova de incompetência e ingenuidade dos procuradores que a negociaram. OK. E daí?

O Palácio do Planalto já desmentiu o procurador-geral. Mas, junto com o desmentido, foi dada a prova mais evidente de culpa do chefe do governo, ao introduzir o roque do xadrez na gestão pública para qualquer cidadão com quociente de inteligência superior a 50. Insatisfeito com a “timidez” de seu ministro da Justiça na direção da Polícia Federal (PF), ele demitiu o deputado Osmar Serraglio (PMDB) e o substituiu pelo jurista Torquato Jardim, cuja opinião depende tanto do interesse do patrão quanto a do atrapalhado legista. Renan Truffi revelou neste jornal que, em texto escrito em julho de 2015, ele escreveu que, “desconstituído o diploma da presidente Dilma, cassado estará o do vice Michel”.

Como se sabe, em maio de 2016, dez meses depois, o vice Michel era presidente e, no mês seguinte, o renomado causídico assumiu a pasta da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União. Desde então, tornou-se um devoto discípulo do “Velho Capitão” Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, cujo engenho, mesclado à flexibilidade ética que praticava, produziu a pérola que pode servir de lema para o brasão do mais ilustre membro do clã Jardim: “A coerência é a virtude dos imbecis”. É ou não é?

Segundo Felipe Luchete, do site de notícias jurídicas Conjurs, em 21 de fevereiro passado, o ministro criticou procedimentos da operação Lava Jato: ele “listou problemas como as longas prisões provisórias, com duração de até 30 meses, e condenações sem provas, já reconhecidas pela Justiça. Ao comentar a operação, ele afirmou ainda que vazamentos seletivos geram ‘nulidade absoluta’ de processos”, segundo o relato. ODiário do Povo do Piauí publicou no dia de sua posse no ministério de Temer, sua profecia de que a Lava Jato teria igual destino ao das operações anteriores da Polícia Federal, caso da Castelo de Areia, sepultada no STF. Bidu!

Fiel ao brocado de Chatô professado pelo chefe, sua assessoria desmentiu os fatos acima revelados, contrários à opinião da maioria da população, em nota ao Fantástico, que os noticiara. Mas isso não quer dizer que sua troca por Osmar Serraglio difira da substituição por Dilma Rousseff do advogado José Eduardo Martins Cardozo pelo procurador Eugênio Aragão, alcunhado por seu chefe, ex-amigo e agora desafeto, Janot, de “Arengão”.

Mais pernóstica do que a missão que ele nega, contudo, é a transferência de seu antecessor para a pasta que antes o incoerente ocupava. O boquirroto Serraglio se jactava a quem se dispusesse a lhe dar um minuto de atenção de que não era “pato manco” no governo Temer. E todos sabemos que isso se devia a que sua permanência na pasta garantia o salvo-conduto para o suplente Rodrigo da Rocha Loures continuar no lado bom do dilema “ou foro ou Moro”, mantendo o foro privilegiado na cadeira para a qual o novo ministro da Transparência fora eleito.

O episódio cancela todos os significados que os dicionários reservam para definir as palavras transparência, fiscalização, controle, justiça e outras, já jogadas no lixo da prática administrativa e política do Brasil, tais como ética, decoro e vergonha. Mas essa consequência é menor do que o motivo real do “movimento combinado do rei e de uma das torres, que se desloca para uma posição mais atuante para dar mais segurança ao rei”, como o Dicionário Houaissdefine o roque, jogada de xadrez citada no início deste texto.

Assim como a tentativa de desqualificar o depoimento do marchante delinquente por causa de seus crimes pregressos ou da má qualidade da gravação que fez nos porões do palácio, a matéria orgânica, à tona de 17 de maio para cá, já ficou insuportável. E exige mais atenção às manobras com que os compadritos da política tentam manter o status quo. Desfaçatez, chicanas e negaças não perfumam o ar apodrecido das catacumbas da máfia multipartidária que nos governa.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. 2ª do Estado de S. Paulo da quarta-feira 31 de maio de 2017)

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