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No caderno Aliás, do Estadão: Herói tratado como um vilão

No caderno Aliás, do Estadão: Herói tratado como um vilão

Em “Guerra fria e política editorial”,
a historiadora Laura de Oliveira retrata o editor Gumercido Rocha Dórea como vassalo dos interesses ianques no Brasil

Como qualquer gênero literário, a ficção científica apresenta aos leitores obras de baixa qualidade ou de esplêndida feitura. Por falta de espaço para elaborar uma lista dos piores livros da modalidade, o autor pede vênia ao leitor para ser dispensado de listá-los. É preferível, para quem escreve e para quem lê, elencar textos que alcançaram o estágio do sublime e que serviram de base para narrativas de alta magnificência em outras artes. É o caso de 2001 – Uma odisseia no espaço, do britânico Arthur C. Clarke. Dele foi extraído o clássico de cinematografia com o mesmo título, dirigido pelo americano Stanley Kubrick. É antológica a cena do primata jogando um osso no espaço com o corte da edição permitindo que o espectador o veja transformar-se numa nave sideral.

FR12 SÃO PAULO - SP - 29/08/2017 - ALIÁS - GUMERCINDO ROCHA DÓREA - Gumercindo Rocha Dórea, fundador da editora GRD, que está com 93 anos. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

FR12 SÃO PAULO – SP – 29/08/2017 – ALIÁS – GUMERCINDO ROCHA DÓREA – Gumercindo Rocha Dórea, fundador da editora GRD, que está com 93 anos. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Um livro britânico e um filme ianque. Será a ficção científica uma exclusividade dos vencedores da Guerra de Secessão? Que dizer de Solaris? Nada poderia ser tão pouco imperialista como uma obra dirigida pelo soviético Andrei Tarkovski no tempo em que a União Soviética ainda existia. E mais: a fita é baseada no romance do polonês Stanislaw Lem, no qual também, diga-se de passagem, baseou-se o gringo Steven Sorderbergh, sulista de Atlanta, para produzir sua própria versão em cinema – exemplo do alcance planetário e extra-ideológico do gênero.

O autor destas linhas é de uma geração de brasileiros privilegiados que conheceram a modalidade multinacional sem ter de aprender russo para ler Cem anos à frente, novela de Kir Bolitchov (1978), e assim conhecer a descrição avant la lettre do corriqueiro celular de nossos dias. Ou fruir em inglês corrente a magnífica prosa de Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. O baiano Gumercindo Rocha Dórea criou uma editora, a GRD, que lançou em português romances, novelas e contos que inspiraram a fundação de clubes de ficção científica pelo País inteiro, permitindo a patrícios monoglotas conhecerem o gênio de Isaac Asimov. Assim como livros proibidos de dissidentes do regime stalinista, como o celebrado Nós, de Ieuguêni Zemiatin. De lambujem, lançou prosadores na língua pátria da estirpe de Fausto Cunha, autor de As Noites Marcianas, Gerardo Mello Mourão, Rubem Fonseca e Nelida Piñon, que dispensam apresentações.

Por causa disso e de muito mais, Dórea sempre foi tratado como herói por cultores do gênero, caso de Bráulio Tavares, meu conterrâneo e contemporâneo de adolescência em Campina Grande, e Ataíde Tartari, paulistano. A historiadora Laura de Oliveira, premiada por sua tese sobre Guerra Fria e Política Editorial, detentora de láureas de saber acadêmico, com texto recentemente lançado em livro pela Universidade Estadual de Maringá, contudo, resolveu reescrever a história, ao feitio stalinista, que Zamiatin denunciou, atribuindo à ficção científica a sórdida condição de mera propaganda imperialista dos EUA e reservando a Dórea o papel de reles vassalo dos interesses da dominação ianque sobre o Brasil na metade do século 20, a soldo do ouro do Forte Knox. Tudo isso porque Dórea nunca escondeu sua condição de integralista, corrente política de inspiração fascista que teve importância na cena política dos anos 30 aos 60, abraçada por políticos e intelectuais como Dom Helder Câmara, San Thiago Dantas e Miguel Reale. Mas dela hoje só restam vagarosas lembranças, como o equivocado ideário autoritário de Plínio Salgado, autor de uma brilhante Vida de Cristo.

A capa do livro não deixa dúvidas quanto a suas intenções e distorções: Tio Sam, de casaca e calça listrada, senta-se no ombro do jovem editor, certamente soprando palavras de ordem para emitir doses fatais de veneno colonialista com o fito de escravizar nossa doce pátria espoliada. Se a capa é grotesca, o texto da autora é pior. Isso deixa a impressão de que a acadêmica foi movida pela intuição de que jamais a própria obra de vulgarização do marxismo-leninismo teria sido publicada por Dórea. Seja por professar ela ideologia antagônica à dele, seja por não ter o texto dela a qualidade exigida por ele na seleção dos originais a serem postos à venda.

Pela leitura do tatibitate menos do que sofrível texto a que a autora expõe o leitor e pelos deslizes editoriais que a tornam uma missão quase impossível, de tão espinhosa (a revisão deixou passar linhas repetidas em algumas páginas), a obra termina por fazer propaganda de Dórea, embora em nenhum momento lhe faça justiça.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no caderno Aliás, Cultura, Pag. 2, Estado de S. Paulo, no domingo 3 de setembro de 2017)

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Sinfac Sp: Palestra de José Nêumanne Pinto

Sinfac Sp: Palestra de José Nêumanne Pinto

 

 

Estadão às 5 da TV Estadão: A República dos filhotes

Estadão às 5 da TV Estadão: A República dos filhotes

No Brasil, que virou o reino encantado do Fufuquinha, com Temer na China e todos os filhotes ocupam os cargos de poder na republiqueta da pinga com mel – Rodrigo, filho de César, na presidência da República com votos de deputado fluminense, André, filho de Fufuca, no comando dos trabalhos da Câmara, Zequinha, filho de Sarney comandando o meio ambiente e Coelhinho, filho de Fernando, mineralizando a Amazônia, os desprezíveis deputados se engalfinham para tirar a maior vantagem possível na próxima eleição. Esta mistureba de mau caráter com cálculo ilícito foi a geleia geral brasileira que Pedro Venceslau apresentou em eu comentei no Estadão às 5 desta quarta-feira 30 de agosto de 2017, às 17 horas, transmitido direto do estúdio do meio da redação e retransmitido por Youtube, Twitter, Facebook e Periscope Estadão.

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No Estadão às 5, da TV Estadão: Desconfiança geral

No Estadão às 5, da TV Estadão: Desconfiança geral

Juízes de primeira instância que condenam e mandam prender delinquentes nunca antes alcançados pelos braços curtos da lei brasileira – caso de Sérgio Moro, da Lava Jato, ainda gozam da simpatia popular, mas, desde que se dedicaram a palestras em excesso e à exposição de suas ideais pessoais começam a perder prestígio. Ministros de altos tribunais que se dedicam a soltar comensais de seus banquetes atingem níveis de apreço popular abaixo da crítica. O mais baixo de todos é, claro, o de Gilmar Mendes: 3%. A pesquisa Ipsos que sustenta a manchete do Estadão – “Onda de desaprovação a autoridades cresce e atinge o STF” – foi noticiada por Adriana Ferraz e comentada por mim no Estadão às 5 da segunda-feira 28 de agosto de 2017, às 17 horas, na TV Estadão, em programa transmitido do estúdio da redação do jornal e retransmitido pelas redes sociais Youtube, Twitter, Facebook e Periscope Estadão.

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Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado: Viés privatizante

Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado: Viés privatizante

O Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na quinta-feira 24 de agosto de 2017 começou com meus comentários sobre o anuncio de privatização pelo governo Temer; mais um capítulo da hedionda novela da auitorreforma dos políticos para se beneficiarem com plena indulgência; a dispensa de Rodrigo Maia abrir impeachment contra Temer pelo ministro Alexandre de Moraes, nomeado para o STF por Temer: o prende e solta de Moro e Gilmar; e as denúncias feitas em Brasília pela ex-procuradora da Venezuela, Luísa Ortega. Eliane Cantanhede e Alexandre Garcia também analisaram o anúncio do pacotão de concessões de Temer, com privatização em massa. E, em Perguntar Não Ofende, Marília Ruiz alertou que, apesar de ter vencido mais uma vez e se distanciado de segundo e do terceiro colocados, o Corinthians não se livrou dos transtornos que lhe causa a janela de transferência de jogadores.

Para ouvir clique no link abaixo:

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Palestra em Piracicaba: Pinga, bola e moda de viola

Palestra em Piracicaba: Pinga, bola e moda de viola

Para suportar as doenças institucionais do Brasil só com uma boa pinga produzida pelo centro acadêmico de excelência de nossa agro-indústria.

A tentativa apressada e desesperada da Câmara dos Deputados de aprovar e passar para o Senado Federal a batata quente de uma reforma constitucional alterando os sistemas eleitoral e de governo e garantindo financiamento para suas campanhas bilionárias é uma forma de usurpação do poder popular. Apesar da pressão exercida pela sociedade, que já compreendeu o alcance do golpe que está sendo aplicado neste momento por meios cínicos e escusos, o que, pelo menos até agora, impediu que o plenário da Câmara aprovasse com três quintos (308) do total dos votos, essa ignomínia, o que está sendo feito inspira-se obviamente na tática bolivariana que transformou a vizinha Venezuela numa ditadura.

De início, os desprezíveis deputados tentaram repetir até o sistema eleitoral que levou o país avassalado por Hugo Chávez e Nicolás Maduro à situação atual: a tal da lista fechada. Quando o Brasil ainda vergava sob a falta de liberdade na ditadura militar, a Venezuela era governada por um Estado de Direito, mas de aparências. O voto era administrado por elites excludentes, corruptas e submetidas ao poderio do maior comprador de seu único produto de exportação: todo o petróleo para os Estados Unidos. A ditadura partidária exercida pela AD social-democrata e pelo Copei socialista cristão terminou ruindo sobre seus pés de barro e permitindo a escalada da ditadura esquerdista apoiada pelas forças armadas e pelos mais pobres, que se sentiam injustamente excluídos dos benefícios do regime.

A agonia do Estado patrimonialista brasileiro, em palestra para a Acipi Foto: Moreno/Acipi

A agonia do Estado patrimonialista brasileiro, em palestra para a Acipi Foto: Moreno/Acipi

Os parlamentares brasileiros não conseguiram impor o sistema de lista fechada, que funciona bem em países parlamentaristas, como a Alemanha, mas se mostra nefasto em nações de instituições frágeis como a nossa. No entanto, a lista foi imediatamente substituída pelo “distritão”, com o qual os hierarcas partidários pretendem manter-se eternamente no poder por um truque de mera aparência democrática. Isso foi desmascarado por brasileiros democratas e decentes e a proposta tem sido modificada de acordo com as possibilidades de sua aprovação. O mesmo acontece com a ideia absurda de um fundo de nome bonito de sustentação da democracia, mas que serviria apenas para manter o esquema de corrupção que contaminou a última eleição presidencial, seja na campanha dos vencedores governistas, seja na da falsa oposição comprada a peso de propinas.

Palestra no auditório da Universidade Metodista de Piracicaba em 12/08;2017. Foto:Marcelo GermanoAcipi

Palestra no auditório da Universidade Metodista de Piracicaba em 12/08/2017. Foto:Marcelo GermanoAcipi

Tive a oportunidade de denunciar esse esquema escabroso de furto do voto popular numa palestra no tradicional Congresso Empresarial, que a Associação Comercial e Industrial de Piracicaba, no interior paulista, tem realizado nos últimos 20 anos, com muito sucesso. Usei a oportunidade para recorrer a uma metáfora apropriada: a luta verdadeira hoje se trava entre as forças empreendedoras de cidades como a que visitei esta semana e os parasitas sanguessugas de Brasília, que só cuidam de depauperar a seiva da produção econômica e da liberdade política para enriquecer por meios ilícitos. Isso funciona desde o século 19, nos estertores do Segundo Império, como foi descrito pelo gênio de Machado de Assis numa crônica para jornal em que definiu o embate entre o País oficial e o Brasil real. E hoje também retrata ao desmanche do Estado patrimonial brasileiro em estágio agônico, provocado pela ambição desmedida e pelo desprezo pela moral e pelos bons costumes de elites cínicas, viciadas e corrompidas.

O público, no imenso auditório da Universidade Metodista de Piracicaba, foi composto por mais de 600 empresários, estudantes, professores, intelectuais e militantes políticos. No prazo reservado às perguntas e respostas, pude sentir o pulso da opinião pública no interior de São Paulo. Na capital da cultura caipira paulista, aprendi que o brasileiro mais impopular atualmente é o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes, também ministro do Supremo Tribunal Federal. Mendes chega a ser menos popular do que Michel Temer, o presidente mais impopular da História. E do que Aécio Neves, que hoje simboliza a frustração do cidadão brasileiro em relação a uma oposição pela qual este pretendia ser representado, mas que terminou traindo a Nação por papel moeda em profusão em mochilas. Na ocasião foi presenteado com uma camisa do tradicional time de futebol do 15 de Piracicaba e uma garrafa da cachaça especial produzida num dos maiores centros de excelência acadêmica, em torno do qual se formou a tradição da agroindústria produtiva e vanguardista do Brasil de hoje, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – Esalq. Para aguentar o Brasil hoje, só com uma boa pinga das margens do Rio Piracicaba, celebrado nas modas de viola.

Do mesmo Congresso Empresarial também participaram o historiador da Unicamp Leandro Karnal, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, e o comentarista de economia Ricardo Sardenberg, do sistema Globo de rádio e televisão.

*Jornalista, poeta e escritor

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