Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

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O baixo calão e o “ódio ao PT”

O baixo calão e  o “ódio ao PT”

O PT de Lula e Dilma é “o” agente do ódio na luta de classes, e não sua vítima preferencial

Como tudo o que diz respeito ao futebol brasileiro, o grotesco episódio dos insultos à presidente Dilma Rousseff no Itaquerão, na partida de abertura da Copa do Mundo da Fifa de 2014 no Brasil, tem algo de malandragem e algo de paixão cega. Pois neste “país do futebol” tudo vira Fla-Flu. Como tudo o que concerne à política nacional, a grosseria é interpretada e utilizada como convém ao freguês, com excessos de oportunismo cínico e deslavada hipocrisia. Dar-lhe a devida medida depende apenas de respeitar os fatos.

Para começo de conversa, não foi o estádio que invadiu o palácio, mas o palácio que ocupou o estádio. Há sete anos Luiz Inácio Lula da Silva, que pode ser tudo na vida menos bobo, comemorou como feito histórico e obra de seu governo a escolha do País para sediar o mais importante torneio da mais popular atividade esportiva e de entretenimento do planeta. O Mundial de Futebol é organizado e explorado comercialmente pela Fifa, entidade global que não pode ser considerada, nem pelos mais néscios nem pelos maiores adoradores do esporte dado como bretão, um claustro de carmelitas descalças. O noticiário produzido em torno de suas atividades, entre as quais a escolha dos locais para sediarem suas biliardárias disputas, é mais assunto para notícia de polícia do que para ser impresso em breviários e edificantes biografias de santo. Seu presidente, o suíço Joseph Blatter, disputa mais uma reeleição sob suspeita de várias falcatruas.

Trata-se de um negócio privado em que se emprega muito dinheiro e se ganha muito mais em direitos de transmissão pela TV e publicidade do que em ingressos para os espetáculos nas chamadas arenas, cujas rendas movimentam apenas uma ínfima fração de seus emolumentos. É duvidoso se os países escolhidos para sede herdam um “legado” à altura dos dispêndios feitos para a montagem do circo gigantesco, mas não restam dúvidas de que os resultados em publicidade dos que se envolvem com o negócio são fabulosos. E aí repousava o olho gordo de Lula.

A ilusão de que a paixão popular reverte sempre em profusão de votos encanta os políticos brasileiros desde priscas eras. Nunca se constatou que essa mágica resulte em algo efetivo, mas os resultados positivos nas urnas de alguns astros do espetáculo ainda inspiram as ambições de gestores públicos ou políticos cegos a ponto de não perceberem óbvios exemplos históricos. Fala-se muito da derrota do Brasil para o Uruguai no Maracanã em 1950, mas poucos se lembram dos políticos que festejaram o título na concentração da seleção no campo do Vasco, em São Januário, à véspera da final. Como ratos num navio naufragado, foram os primeiros a fugir após o fiasco.

Os políticos têm tanta sede a matar por perto dos potes do poder que perdem os limites. Já se calcula em R$ 35 bilhões o dispêndio público no Brasil para armar o circo na “Copa das Copas”. Do ex-prefeito paulistano Gilberto Kassab à presidente Dilma Rousseff, passando pelo tucano Geraldo Alckmin e pelo petista Lula, não houve governante que não garantisse que para um evento em que somente empresas privadas auferem polpudos lucros o gasto público seria zero.

Agora Lula e seus devotos acusam a “elite branca”, que pagou ingressos caríssimos para frequentar as arenas na Copa, de falta de educação e de não saber tratar os outros. Fala como se tivesse exigido da Fifa a contrapartida de que seu eleitorado de gente pobre tivesse direito a entrada gratuita para ver os jogos, de vez que não usufrui o “padrão Fifa” nos hospitais desaparelhados nem nas escolas em ruínas com poucas vagas disponíveis para seus milhões de filhos descamisados. Ao contrário, a Fifa exigiu tudo e levou tudo e ninguém pensou em baixar os preços dos ingressos para permitir que os beneficiários do Bolsa Família pudessem aplaudir Lula e Dilma na abertura do evento. E Lula não justificou sua ausência em Itaquera para ver o jogo in loco.

Como Renato Maurício do Prado constatou em sua coluna no Globo, a expressão chula usada contra a presidente no Itaquerão não é useira e vezeira em comícios ou plenários, mas corriqueira em estádios. Torcidas a empregam contra rivais ou árbitros num festival de cafajestice que destes afasta pessoas recatadas que não têm por hábito usar palavrões à mesa do jantar em casa ou no escritório. Consta que a vítima dos insultos na abertura da Copa não recorre a expressões cochichadas em missas para repreender seus subordinados. Mas isso não é motivo para que ela seja alvo desse baixo calão.

Apesar de já ter contado que torceu pelo Atlético no Mineirão numa época em que o estádio ainda não havia sido construído, Sua Excelência não parece ter intimidade com a cafajestice que impera na atividade futebolística no gramado entre jogadores, na torcida entre torcedores e no convívio pouco amistoso de dirigentes de paixão desenfreada e boca suja. As feministas que atribuíram o xingamento ao machismo tampouco têm intimidade com a linguagem destemperada de nossa “pátria em chuteiras” (e não “de chuteiras”, por amor a Nelson Rodrigues!).

Pode ser que tenham alguma razão os que reclamam dos insultos à presidente pelo desrespeito ao cargo que ela ocupa. Teriam toda a razão se Dilma se tivesse comportado depois da posse como a presidente de todos os brasileiros, entre os quais os que não votaram nela, e não como chefe de uma facção política ou ideológica, dividindo o país que governa em “nós, os de boa-fé”, e “eles, os mal-intencionados”.

Mas esse Fla-Flu começou quando, ao constatar que o tucano José Serra tinha sido majoritário nas regiões mais ricas e ele o fora nas mais pobres, Lula declarou guerra a quem se opusesse a seu projeto “socialista”. Agora, na convenção do PT paulista, pregou uma catilinária contra o “ódio ao PT”. Foi traído pela memória sempre falha: ele e a sucessora é que tornaram seu partido “o” agente, e não a vítima preferencial do ódio entre as classes.

JOSÉ NÊUMANNE PINTO

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag,2A do Estado de S. Paulo na quarta-feira 18 de junho de 2014)

“Eles é que bebem e nós ficamos tontos”

“Eles é que bebem e  nós ficamos tontos”

José Nêumanne

Oposição não precisa ouvir Costa, mas saber por que Foster não fala da “conta de padeiro”

Relator da comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) aberta (pelo menos em teoria) para investigar escândalos protagonizados pela maior empresa brasileira, a Petrobrás, o deputado Marco Maia (PT-RS) fez questão de avisar que a convocação do ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa para nela depor não tardará.

Como é público e notório, Paulo Roberto Costa foi preso pela Polícia Federal quando tentava destruir provas que o comprometiam – no âmbito das investigações da Operação Lava Jato – na condição de parceiro do doleiro Alberto Youssef, acusado de ter “lavado” R$ 10 bilhões. O doleiro continua preso, mas o ex-diretor da Petrobrás foi solto por obra e graça de despacho do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki: este interrompeu sua depressão de 59 dias na cela, mas manteve presos os outros 11 que o juiz Sérgio Moro, do Paraná, mandara prender.

Chegaram até a definir como “troco de pinga” a eventual perda de US$ 1 bilhão (R$ 2,3 bilhões) na compra da refinaria da Astra Oil belga em Pasadena (Texas), pela qual a presidente da estatal, Graça Foster, reconhece pelo menos um prejuízo de US$ 530 milhões (R$ 1,2 bilhão). Mas a conta da refinaria de Abreu e Lima (PE), uma associação em que os brasileiros entraram com a grana e os venezuelanos com saliva, é muito mais pesada. Há duas semanas, o jornal Valor Econômico teve acesso a atas de reuniões do Conselho de Administração da Petrobrás e de sua leitura concluiu que o plano básico de organização da refinaria foi aprovado pelos conselheiros em 30 de outubro de 2008, mas só em 14 de janeiro de 2010 eles conheceram o estudo de viabilidade da refinaria, cuja construção já tinha sido iniciada. E no ano anterior, lembrou o jornal, a estatal havia captado R$ 10,5 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o projeto, que, por esta e outras, viria a se tornar a obra mais onerosa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Pelos cálculos do jornal, a aventura teria elevado o valor a ser gasto na benemerência ao compadre Hugo Chávez à bagatela de R$ 40 bilhões, 10 vezes mais do que se previa no início do projeto (R$ 4 bilhões). A algum crítico renitente, como o autor destas linhas, ocorreria até concluir que a diferença não poderia caracterizar sequer um troco de vinho do Porto Taylor’s de mais de 150 anos, vendido a 2.500 euros (R$ 8 mil) a garrafa. Nenhuma definição, porém, será tão precisa quanto a dada pelo alto funcionário da Petrobrás encarregado da obra, Paulo Roberto Costa, que chamou o embrulho de “conta de padeiro” em entrevista à Folha de S.Paulo. Será a estatal gerida como se fosse uma padaria?

“Conta de padeiro” é um jargão que ainda não consta de dicionários e que significa cálculo feito às pressas, sem os devidos cuidados nem embasamento – neste caso específico, sem projeto algum que justificasse despesas de tal monta. Mas é provável que em próximas edições a expressão venha a ser incorporada ao “pai dos burros”. Ildo Sauer, um dos principais colaboradores na área energética do programa de governo de Lula e ex-diretor de Gás e Energia da Petrobrás, declarou-se perplexo com o uso da expressão, embora concorde com a evidência de que jamais o investimento na refinaria poderia ter passado de US$ 8 bilhões (R$ 19 bilhões), menos da metade do gasto ora previsto. A expressão, de acordo com Sauer, ofende “a história da Petrobrás, que sempre teve uma gestão profissional e técnica” e “é uma desculpa grosseira para justificar o injustificável”.

A oposição decidiu centrar fogo na investigação sobre Abreu e Lima e reclamou da comparação. “Padeiro não erra nem conta. Se errasse, as padarias quebravam”, disse o líder do DEM na Câmara dos Deputados, Mendonça Filho (PE), que insiste na abertura da “caixa de Pandora” da Petrobrás, mas não desiste do meio menos adequado para fazê-lo.

Seria a oposição deficiente em inteligência ou estaria interessada apenas nos holofotes postos no debate nos plenários do Congresso, controlados pelo governo, para compensar o triplo de tempo da aliança governista na propaganda eleitoral no rádio e na TV, aparecendo no noticiário de todo dia da CPMI? Há, contudo, coisas mais importantes a cuidar do que defender a sabedoria contábil dos donos de padaria ou a honra ameaçada da equipe técnica da estatal. Mais grave do que o tom zombeteiro da definição do suspeito-mor, preso para não destruir provas e solto por magnificência do julgador supremo, ou do que a afronta aos funcionários, que até agora não de nada reclamaram pela voz de seus líderes corporativos, é a declaração de Graça Foster. Questionada pelos repórteres ao sair da sede da Fundação Getúlio Vargas, no Rio, a presidente da Petrobrás parodiou o enigma da esfinge de Édipo Rei com uma sentença perturbadora e comprometedora: “Não é que eu não queira, eu não posso falar”.

Quando o Valor Econômico revelou que a empresa que ela preside autorizou despesas de milhões de reais sem embasamento técnico, a estatal negou, em nota oficial, que seu conselho tenha aprovado em apenas 14 dias contratos sem licitação com as construtoras Galvão Engenharia e Queiroz Galvão. Sim, e daí? Agora a sra. Foster diz que não “pode” falar sobre graves acusações que pesam sobre suas costas, feitas publicamente por seu ex-companheiro de diretoria, acusado de corrupção. Em vez de participar da inútil sabatina do ex-diretor ex-preso na CPMI, a oposição serviria melhor ao País se lembrasse à presidente da Petrobrás que ela tem satisfações a dar ao contribuinte, que sustenta sua empresa e paga seu salário, a respeito das estapafúrdias diferenças entre gastos previstos e despesas feitas, que não podem ser tidas como meros erros contábeis. A presidente da Petrobrás não deve agir como se estivesse servindo pinga no balcão de um boteco cujos clientes cantam A Turma do Funil ao contrário.

José Nêumanne Pinto – Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 4 de junho de 2014)

Por que enterrar as verdades de agora?

Por que enterrar as verdades de agora?

Governo manda exumar cadáveres enterrados há  45 anos, mas  sepulta os podres da Petrobrás

Na sexta-feira, a professora Marilena Nakano fez parte de um grupo de ex-militantes contra a ditadura convidados para receberem uma homenagem prestada por movimentos sociais, sindicatos e pela Prefeitura Municipal de Mauá, na Grande São Paulo. Ela, porém, recusou-se a participar do evento por discordar ética e moralmente de alguns de seus organizadores. E aproveitou a ocasião para divulgar um documento intitulado Carta aberta de repúdio contra aqueles que desejam o poder pelo poder e fazem uso político dos mortos, presos, torturados e exilados dos tempos da ditadura como trampolim para permanecer no poder. Esse título denota uma dura condenação aos atuais donos do poder na República e situa a signatária entre os que não concordam com o uso politiqueiro do combate armado ao arbítrio militar. Ou seja, torna-a uma crítica singular dos que tentam usar os porões da repressão como comitês de campanha eleitoral.

Urge, de início, prestar um esclarecimento que convém ser dado, a começar por um questionamento. Ela própria foi vítima da crueldade e da abominação na forma com que os militares que subiram ao poder em 1964 e do qual foram apeados em 1984 com a eleição de Tancredo Neves para suceder ao último general-presidente, João Figueiredo, combateram todos quantos se opuseram ao seu arbítrio, seja de armas na mão ou protestando nas ruas. Que razões teria ela para não se acomodar às benesses do poder, tornadas possíveis nas gestões dos presidentes eleitos pelo voto direto e universal depois da queda da ditadura: Fernando Henrique, Lula da Silva e Dilma Rousseff? Na ditadura, ela militou na política estudantil e, depois, fez parte da Ação Popular (AP), grupo de extrema esquerda originado na ala progressista da Igreja Católica. Poderia agora, como alguns sobreviventes da repressão, estar à sombra de um cargo público. Mas não: preferiu ficar na posição solitária, inóspita e desconfortável de denunciar o oportunismo e a desfaçatez de ex-companheiros de jornada.

Irmã de Maria, viúva de Betinho, o “irmão do Henfil” que virou símbolo da volta dos exilados na canção O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, tornada hino da anistia na voz de Elis Regina, a sra. Nakano carrega nas veias a chance de ser tratada como sobrevivente da porfia quixotesca do cunhado contra a fome no País. Nas três gestões petistas, cuja permanência no poder é garantida pela esmola mensal do Bolsa Família para miseráveis, ela poderia ter virado ícone do imenso curral eleitoral beneficiado pela benemerência feita com dinheiro tomado da Nação por um Fisco de apetite pantagruélico. Mas pelo mesmo motivo com que recusou a última homenagem, rejeitou também esse benefício.

Não o fez por capricho, mas por fidelidade a antigos princípios e a outros laços de família, mais recentes, com os parentes de Celso Daniel, prefeito de Santo André cujos assassinos gozam até hoje de impunidade. Ela não aceita a versão oficial de que o cunhado teria sido assassinado por acaso.

Melhor deixar que ela própria explique sua atitude. “Esses mesmos ideais que me conduziram à prisão no passado conduziram-me recentemente a viver a experiência do exílio no período de 2006 a 2010, porque ousei, com meu companheiro, Bruno José Daniel, não aceitar o silêncio como forma de agir diante do assassinato de Celso Daniel. Pelo fato de não termos abdicado ao direito à palavra, nos deparamos com nossos algozes atuais, que são capazes de tudo em nome do poder. Com uma mão eles acariciam, homenageiam e, com a outra, realizam atos que se assemelham aos praticados pelos ditadores, com os quais convivemos, mas de formas sutis, porque hoje se encontram travestidos de democratas e defensores dos trabalhadores, dos pobres de nosso país… A minha ausência é a forma de dizer que sigo na luta, que meus algozes não me farão calar, salvo se me matarem”, escreveu.

Os inimigos da sra. Nakano podem argumentar que ela exagera no tom para chamar a atenção para a causa a ser perdida pela família Daniel. Trata-se de gente muito poderosa. O secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, foi acusado, em acareação, por João Francisco Daniel, irmão do prefeito morto, de transportar malas com dinheiro das mãos de Celso para as do então presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), José Dirceu, hoje, como se sabe, residente no presídio da Papuda, em Brasília, por outros crimes pelos quais foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). De qualquer maneira, nunca será demais lembrar que seis pessoas envolvidas no caso foram mortas nestes 12 anos depois da morte do então coordenador do programa de campanha de Lula à Presidência em 2002.

Contra a teimosia dos Daniel argumenta-se que a polícia paulista, sob comando do PSDB e do PFL, desde então, garante que Celso foi sequestrado por bandidos que o confundiram com outra pessoa e que um menor o teria atingido de madrugada, num matagal, com uma certeira bala na testa disparada de uma distância de dez metros. Não é mesmo fácil argumentar contra isso. Mas, como o clã Daniel, o Ministério Público Estadual (MPE) desqualifica a investigação policial. E da luta de poucas esperanças de quem nega esse óbvio aparente resultam dúvidas graves. Os argumentos do MPE dormem nas gavetas do Supremo em que repousa o habeas corpus, concedido por Nelson Jobim à época em que presidiu o órgão máximo do Poder Judiciário, ao principal suspeito de quem desconfia que houve execução encomendada: Sérgio Gomes da Silva.

A carta da sra. Nakano soa como cobrança para o STF decidir já sobre isso. E provoca uma desconfiança: por que o governo, que manda exumar cadáveres enterrados há mais de 40 anos, empenha sua força no Congresso para manter sob sete palmos de terra verdades atuais, como o arrombamento dos cofres da Petrobrás?

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. A2 do Estado de S. Paulo de quarta 21 de maio de 2014)

José Nêumanne Pinto fala sobre Ética e Jornalismo na UniÍTALO

José Nêumanne Pinto fala sobre Ética e Jornalismo na UniÍTALO

Transcrição da matéria publicada na página da  UniÍtalo – Centro Universitário Ítalo Brasileiro.

Palestra foi a atração desta terça-feira na Jornada, promovida pelo novo Núcleo de Ética e Cidadania do UniÍtalo

José Nêumanne Pinto foi a atração desta terça-feira (13) da I Jornada de Ética e Cidadania do UniÍtalo. O evento, que continuará durante toda a semana, é realizado pelo novo Núcleo de Ética e Cidadania do Centro Universitário Ítalo Brasileiro, idealizado e liderado pela Dra. Viviane Maldonado, Juíza de Direito da 1ª Vara Cível do Foro Regional de Santo Amaro.

Com o Teatro Ítalo Brasileiro novamente lotado, José Nêumanne Pinto conversou com os presentes sobre Ética e Jornalismo e abordou temas que tomam o noticiário nacional, demonstrando como a falta de ética vem transformando as relações humanas em um estado de barbárie. Com vasta experiência na imprensa, o jornalista atualmente é comentarista da rádio Jovem Pan e editorialista do jornal O Estado de S. Paulo, além de já contar com 11 livros publicados.

Terrorismo

José Nêumanne Pinto iniciou sua apresentação falando sobre a banalização da violência e lembrou de casos recentes no país, como a morte de um torcedor de futebol em Pernambuco, atingido na cabeça por um vaso sanitário arremessado por rivais.

Lembrou da atuação de Jean-Paul Sartre e Albert Camus na Guerra de Libertação da Argélia, nas décadas de 50 e 60, e de como o primeiro apoiou ataques terroristas, enquanto o segundo sempre se posicionou contra as ofensivas. “Não ao terror sempre. O terror é indiscriminado e, portanto, bárbaro”, citou.

Segundo Nêumanne, em uma coletânea de editoriais escritos por Camus, ainda sem tradução para o português, fica clara a ideia do primado da ética sobre o interesse, algo que parece totalmente invertido atualmente no Brasil. “Pensei em pedir para um amigo deputado mudar os dizeres da bandeira de ‘ordem e progresso’ para ‘me engana que eu gosto’ ou para ‘o feio não é roubar, é ser pego’”, brincou.

Opinião

Ao falar sobre jornalismo, o comentarista não poupou críticas à falta de espaço para a opinião nos telejornais, principalmente em sua “ex-casa”. “O SBT extinguiu a opinião e isso é um crime que eu gostaria de denunciar para vocês aqui hoje. Justamente o SBT, que foi um dos pioneiros da opinião na televisão”. O jornalista foi demitido no início de 2014, junto com outros comentaristas como Denise Campos de Toledo e Carlos Chagas.

O palestrante também repudiou a censura à Rachel Sheherazade, também do SBT. Apesar de considerar que a colega errou em seus comentários – nos quais é acusada de estimular a violência, por exemplo –, condenou a mordaça instituída pela emissora.

Barbárie em nosso quintal

“O tema fundamental do século XXI é a ética a serviço da cidadania”, afirmou. Para demonstrar que este assunto ainda precisa evoluir muito na atual sociedade, voltou a comentar sobre barbáries atuais, como o sequestro de estudantes na Nigéria por extremistas mulçumanos.

Nêumanne, no entanto, alertou que o problema não está apenas em outros países e nem tão longe quanto muitos pensam. Relatou que sua esposa é professora na periferia de João Pessoa (PB) e que um de seus alunos sumiu da escola por algum tempo, se escondendo dos traficantes locais, segundo relatos. Quando o estudante reapareceu, havia tido suas mãos deformadas pelos criminosos.

O ético é a favor da vida

O jornalista também abordou o caso do linchamento de uma mulher no Guarujá. “É um ato de barbárie totalmente incompreensível. Um ato terrorista”, recriminou. Contou, ainda, que está acontecendo algo ainda pior: os traficantes da região estão assassinando os agressores, porque o caso atraiu a polícia para a região e está atrapalhando os negócios.

Isto, segundo Nêumanne, é uma combinação terrível de Lei de Talião – “olho por olho, dente por dente” – e do primado do negócio sobre o indivíduo, no qual o traficante, que já pratica uma atividade ilegal, considera suas vendas mais importantes que a vida dos demais. “É muito fácil identificar o que é ético ou não. O que é ético é a favor da vida. O que não é ético é a favor da morte”, definiu.

Antes de abrir espaço para as perguntas da plateia, comentou também sobre a falta de ética no cotidiano do cidadão comum, como o suborno a um guarda de trânsito, por exemplo, e de como isso influencia na sociedade. “Hoje, só temos condições de viver se colocarmos a vida em primeiro lugar. Não só a nossa, mas a do outro também”.

Perguntas

Questionado sobre a atuação ética e a relação entre o interesse do público e a privacidade no fazer jornalístico, o palestrante afirmou que considera que pessoas públicas escolhem ter sua vida devassada, exceto por alguns momentos de privacidade, e que enxerga com naturalidade quando a imprensa aborda temas sobre a vida particular destas pessoas.

Sobre a dificuldade de se trabalhar a ética na educação, tema levantado pela professora Hânia Pilan, falou que é uma missão quase impossível ser professor no Brasil. “Ao longo da minha carreira, aprendi que o maior problema do Brasil é a educação, do primário ao ministro. É um desafio muito complicado.”

“Hoje, a escola é o lugar onde se ‘desalfabetiza’ o aluno. Quem aprendeu alguma coisa em casa, desaprende na escola, principalmente na pública. Isto é muito triste”, lamentou. Após criticar as atuações dos governos PT e PSDB em relação à educação, respondeu à professora: “Não tenho nenhuma palavra consoladora para lhe dar”.

Perguntado por uma aluna sobre quais seriam os benefícios da Copa do Mundo para o país, Nêumanne rebateu prontamente: “Nada!”. A reação foi recebida com muitos aplausos pela plateia. Depois, falou que errou sua previsão sobre a Copa, pois conseguiram roubar ainda mais do que ele poderia imaginar e não haverá legado nenhum. “Sou Flamengo e ia muito ao Maracanã. Me sinto duplamente lesado: por terem derrubado o Maracanã e por terem gastado 1,3 bilhões para construir uma arena. É um estádio de b*”, reclamou.

Para encerrar, falou um pouco mais sobre a classe política brasileira, mas lembrou que os cidadãos também devem atuar eticamente para ajudar a melhorar a situação do país. “Não tem nenhum fdp ladrão lá que não foi colocado por nós”, frisou. “O Brasil somos todos nós!”

No Estadão desta quarta: “Quem ficou rico com os prejuízos da Petrobrás?”

No Estadão desta quarta: “Quem ficou rico com os  prejuízos da Petrobrás?”

Em que chiqueiro de porcos foram jogadas as pérolas do colar da rainha das petroleiras?

José Nêumanne Pinto

A 36 dias da abertura da Copa do Mundo, o futebol vai se tornando o assunto predominante no Brasil, embora as pesquisas de opinião pública sobre a disputa da Presidência continuem em voga. Então, talvez não seja de mau alvitre recorrer a lúcidos ensinamentos do futebol para aplicar na campanha eleitoral. Este é o caso da máxima dos treinadores que mais ganham campeonatos seguindo uma lição simples: “Em time que está ganhando não se mexe”. Mas, com a importância cada vez maior dada ao marketing político nas democracias ocidentais, convém não esquecer o lema que está por trás de toda publicidade, seja comercial, seja religiosa, seja política, atribuído a Joseph Goebbels, o mago da propaganda do nazismo: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

Candidata obstinada à própria reeleição, a presidente Dilma Rousseff pode até não ter pensado nas duas sentenças, mas, na certa, as aplicou quando repetiu o mantra com que seu antecessor, padrinho e agora pedra no sapato Luiz Inácio Lula da Silva derrotou Geraldo Alckmin, em 2006, e ela própria adotou para manter José Serra à distância, em 2010. Há oito anos, aparentemente debilitado pela denúncia do mensalão, o ex-presidente foi ajudado por uma campanha subliminar insinuando que os tucanos privatizariam a Petrobrás. O efeito deletério da patranha em seu desempenho fez o oponente vestir uma jaqueta com logomarcas de estatais, entre elas a Petrobrás. Em vão: teve menos votos no segundo do que no primeiro turno e deu-se a reeleição. Há quatro anos, a falácia levou Serra às cordas e o poste de Lula venceu.

A decisão do eleitor diante da urna depende de muitas motivações e as vitórias petistas não podem ser atribuídas apenas à mentira que, de tão repetida, passou a ser dada como verdadeira. Mas, por via das dúvidas, em Minas, berço dela mesma e de seu maior empecilho à permanência no poder, Aécio Neves, a presidente assumiu como sua a profecia de que a oposição privatizará a Petrobrás ou trocará seu nome.

O problema dela e do Partido dos Trabalhadores (PT) é que o contexto mudou significativamente nesta eleição. Nas duas disputas anteriores, o salário-família para os mais pobres e a bonança econômica para os abonados amplificavam bastante a fé popular na pregação governista. E a Petrobrás propagava ótimas notícias e, consequentemente, excelentes razões para o eleitor não permitir alterações profundas na gestão da maior empresa do Brasil. A fantasia dos Emirados Árabes do Brasil tinha prefixo, hífen e nome: pré-sal – o sonho de mil e uma noites, que Sheherazade não tinha tido a ideia de contar ao rei persa Shariar, de um país disposto a gastar petrodólares em educação e saúde para o povo.

Sete anos após a revelação do sonho, o petróleo extraído da camada do pré-sal no fundo do Atlântico brasileiro continua sendo uma miragem. E, 60 anos depois do delírio de “o petróleo é nosso”, a pérola mais preciosa do colar da rainha das estatais, com sua fortuna enterrada em subsolo brasileiro, chafurda na lama de chiqueiros ocupados por figurões do PT e seus aliados, suspeitos de terem dilapidado um patrimônio bilionário em “nebulosas transações”. E pior: a pérola jogada aos porcos se desvalorizou vertiginosamente. No palanque em que tenta recuperar o prestígio perdido nas pesquisas de intenção de votos, a “gerentona” de Lula se apega ao truísmo de que a empresa vale hoje mais do que valia no tempo de Fernando Henrique. Este desocupou o trono há mais de 11 anos e continua sendo o parâmetro universal do PT.

Essa comparação sem lógica feita pela candidata não elimina, porém, duas constatações assustadoras de fiasco: em seu mandato, a empresa teve o patrimônio reduzido à metade e desabou do 12.º para o 120.º lugar no ranking do Financial Times. Ou seja: a contabilidade da petroleira foi ao fundo do mar, até o pré-sal, mas não extraiu petróleo para vir à tona.

A princípio, pensava-se que a gigante estatal seria vítima apenas da ingerência política que sangrou seus cofres mantendo o preço de derivados abaixo do custo para evitar a má influência da inflação na medição da preferência eleitoral pela chefe do governo em outubro que vem. Essa má gestão causou, segundo O Globo, um rombo de R$ 13 bilhões em outra estatal, a Eletrobrás, para permitir que a candidata à reeleição baixasse demagogicamente o preço da tarifa de luz.

Mas este não foi o único “malfeito”, para usar o termo favorito da beneficiária número um do aparelhamento das empresas públicas pelo PT. A Polícia Federal (PF), que, pelo visto, não foi totalmente submetida ao aparelhamento amplo, geral e irrestrito dos companheiros, constatou na Operação Lava Jato que houve bandalheira. Ao que se saiba até hoje, a desventura em Pasadena, Texas, custou ao cidadão brasileiro, proprietário da Petrobrás, um prejuízo de US$ 2 bilhões. Dez vezes este “troco de pinga” sumiram na obra faraônica da Refinaria Abreu e Lima, bancada pelo público para agradar ao tirânico compadre venezuelano Hugo Chávez.

Governo e oposição acionaram o Supremo Tribunal Federal ( STF) para resolver o impasse que adia a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o tema: esta exige uma comissão mista e aquele não abre mão de circunscrevê-la ao Senado para controlá-la. A presidente da petroleira, Graça Foster, oscila entre o “mau negócio”, pondo o mico nas costas do antecessor, José Sérgio Gabrielli, e o “bom negócio à época”, quando lembrada que a empresa é gerida por petistas e aliados há 12 anos. Investigar será o único jeito de saber quem embolsou o lucro, além do barão belga Frère, da Astra Oil. As compras de altíssimo risco das refinarias de Pasadena e Okinawa, os custos estratosféricos da de Abreu e Lima e as suspeitas associações na operação de três termelétricas são a parte exposta do iceberg. Quem ficou podre de rico com o rombo dos prejuízos que a Petrobrás teve – eis a questão submersa.

José Nêumanne Pinto, jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo na quarta-feira 7 de maio de 2014)

Na Revista Uiraúna: “Nem santo nem conquistador, xilogravador”

Na Revista Uiraúna: “Nem santo nem conquistador, xilogravador”

José Nêumanne

Abdoral e Socorro puseram no rebento um nome composto. Era costume no sertão aí pelos meados do século 20. E capricharam no contraste: o primeiro nome é Francisco, do santo italiano de Assis, o amigo dos animais, particularmente dos passarinhos, o símbolo da humildade e do desapego. Seria difícil encontrar um segundo que contrastasse com ele mais do que Ciro, o imperador persa, o grande guerreiro da antiguidade, o conquistador bíblico das cercanias da Babilônia. O sobrenome, Fernandes, consegue ser ao mesmo tempo comum e nobre. Fernandes todo mundo é no sertão do Rio do Peixe. Alguns assinam Vieira, outros se chamam Pinto, há quem se diga Queiroga. Mas, no fundo, todo mundo é Fernandes, o monsenhor Manoel Vieira, irrepreensível orador sacro, educador e político,  o bispo Dom Luiz Gonzaga Fernandes e o comerciante Francisco Euclides.

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Os Fernandes são, sob qualquer outra denominação, do mesmo clã a que pertence Ciro, como assim passou a ser conhecido, para gáudio de Socorro de Abdoral que, certamente, preferiu o prenome do iraniano de antanho ao destino de todo Chico nas nossas plagas: o bodegueiro Chico Queiroga, meu tio Pintinho, o farmacêutico Chiquinho de Alexandre Fernandes, Titico de seu Batista ou o quengo Chicó, protagonista da farsa de mestre Ariano, O auto da compadecida. Naquele tempo, o nome do santo ainda não havia sido adotado por nenhum papa, só tendo virado nobre quando o foi pelo argentino Bergoglio agorinha mesmo, tantos anos depois.

Mas, fosse qual fosse seu nome, Chico ou Ciro não é personagem de minha infância. Como o foi, aí sim, seu tio Chico de Maroca (taí um Chico na família de nosso personagem), tocador de instrumentos de corda. Ou ainda seus pais, que viveram na mesma Rua Nova, na qual cheguei a morar duas vezes – no começo dos anos 50, no mesmo lado da matriz de Jesus, Maria, José, e, no meio dos anos 60, na calçada oposta, na casa vizinha à de Primo Fernandes, de fulgurante inteligência, e a alguns metros da de “tio Xave”, Xavier, senhor da roda de conversas mais animada da cidade.

Só vim conhecer Ciro de Socorro de Abdoral no Rio de Janeiro quando os ditos anos rebeldes se extinguiam debaixo do fogo da guerrilha urbana e de um banho de sangue dos gorilas do regime. Mas ambos estávamos bem longe das balas perdidas da guerra suja nos sequestros e na perseguição da ditadura militar aos sequestradores. Foi uma apresentação por aproximação familiar. Minha prima Lourdinha (perdão, dona Lourdinha), que substituiu dona Palmira na direção do Grupo Escolar Jovelina Gomes, onde estudei, casou-se com Nonato Luciano, filho do fogueteiro Vitor e dona Zefa, e foram morar no subúrbio de Higienópolis, entre Cancela e Bonsucesso, na Zona Norte do Rio.

Ciro fez o trajeto da retirada oposto ao meu. Saí de Uiraúna para Campina Grande e de lá para São Sebastião do Rio de Janeiro antes de me instalar definitivamente, pelo menos até agora, nos pagos de São Paulo de Piratininga. O retirante Ciro pintava bois em paredes de açougue no distante bairro de Itaquera, gueto de nordestinos na Zona Leste paulistana. Morava numa pensão, engraçou-se da filha do dono, a doce Ritinha, enrabicharam, casaram-se e foram morar no Rio, onde criaram seus filhos Bruno e Milena, óbvia homenagem à noiva de Franz Kafka. Ocorre que Ritinha é prima de Nonato e Ciro e eu nos tornamos unha e carne nos convescotes do clã originário da Quixaba, distrito de Uiraúna, ora no apartamento de Lourdinha e Nonato, ora na casa de Ritinha e Ciro na Vila da Penha. Às vezes, o encontro também podia ser na casa de um primo dos Luciano, Joaquim, em Olaria.

Isso transcorreu ao longo de 1969 e em metade de 1970, quando me mudei para São Paulo. Então, Ciro era diretor de arte numa agência de publicidade. Não era um nababo, mas tinha uma vidinha boa de classe média baixa, com emprego, salário e férias. Eu estava em São Paulo, repórter da Folha, quando Ciro jogou tudo para o ar e resolveu viver de xilogravura. É uma história extraordinária: de origem popular, numa família de artesãos, Ciro era um desenhista sofisticado fazendo de croquis e arte final e escolhendo tipologia de anúncios quando conheceu Zé Altino, artista plástico da geração de Antônio Dias e da turma de Raul Córdula e Chico Pereira, meus amigos de adolescência no planalto e na praia. Não me lembro mais como Ciro chegou a Altino. Sei é que este lhe ensinou a arte e as manhas da xilogravura, modalidade de desenho escavado na madeira que ao contato com a tinta preta chega ao papel modulando figuras de heróis, aventureiros, São Jorge e seu dragão, cangaceiros, quengas, quengos e santos.

O antigo pintor de boi de paredes de açougue interrompeu uma boa carreira de publicitário para fazer capa de folheto de cordel e outras xilogravuras que vendia no Campo de São Cristóvão. João Eudes Fernandes (olha aí o sobrenome de novo), meu colega de classe no grupo escolar, saxofonista do primeiríssimo time, como Zé de Milta e Tiquinho (mais um Francisco) de Xôta, me punha a par das novidades. Quando secretário de redação do Jornal do Brasil, eu costumava ir comer queijo da Serra de Estrela no Adegão Português no Campo de São Cristóvão, pertinho do pavilhão onde Ciro vendia suas xilos. Mas, de fato, nunca nos encontramos na feira dos nordestinos lá. Na folga tomava chope e comia tremoços no Bar Brasil, vulgo Alemão, na Lapa, pertinho da casa do artista, muitas vezes na companhia de Zé do Norte, que registrou Muié Rendeira como música sua, e de Zé Ramalho, de cujos shows em começo de carreira Ciro desenhava os cartazes. Mas foi Eudinho de Amâncio quem me contou que Ciro estava apertado de finanças e não sabia a quem procurar.

Contratei-o como free lancer no Jornal do Brasil, mas meu chefe, o sofisticadíssimo designer mineiro Murilinho Felisberto, achava o estilo de meu conterrâneo muito sombrio e pouco sutil para um jornal chique como era o nosso. Murilinho largou o JB e o jornalismo e foi sentar praça na DPZ como diretor de arte da agência publicitária de Duailibi, Petit e Zaragoza. Eu assumi o lugar dele e, como chefe de Redação, impus Ciro como ilustrador. Mas logo voltei para São Paulo e Ciro voltou a depender das vendas diretas na feira. Adotou o pseudônimo artístico de Ciro de Uiraúna, vive modestamente nas proximidades do Campo de Santana no centro do Rio de Janeiro e não tem por que se arrepender, a não ser do ponto de vista financeiro, de haver abandonado a publicidade por opção e, depois, o jornalismo por livre e espontânea pressão.

Ciro de Uiraúna, que carrega nossa cidade na assinatura de artista, é o maior xilogravador do Brasil, sem favor nenhum, sem medo de exagero. Um touro dele defende o vestíbulo de meu apartamento em Santa Cecília. E um bando de cangaceiros vigia atrás do sofá na sala principal. Muita gente boa que entende do negócio melhor do que eu concorda com minha avaliação. E quem duvidar pode ir à feira de São Cristóvão para apreciar e, se possível comprar, um Dom Quixote altaneiro, uma Dulcinéia faceira, que, como Eva no pecado original, e, de resto, todas as mulheres que Ciro desenha, é a cara de Ritinha, aquela sertanejinha macia que ele conheceu em Itaquera.

Jornalista, poeta e escritor, natural de Uiraúna, José Nêumanne é editorialista e articulista de O Estado de S. Paulo e comentarista na TV GAZETA e na Rádio Jovem Pan.

 Texto publicado na Revista Uiraúna de 2013, celebrando os 60 anos de emancipação do município, em 1953, onde Nêumanne nasceu, em 1951.

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