Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Artigos

Adones Alves de Oliveira. Um amigo boa pinta, bom papo e boa praça.

Adones Alves de Oliveira. Um amigo boa pinta, bom papo e boa praça.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

Recolhendo dados sobre meu querido e velho amigo Adones Alves de Oliveira, repassados pela viúva, Helô Machado, e pelo primogênito Felipe, escrevi um pequeno perfil para o obituário do Estadão. Logo na primeira frase topei com um mistério: por que cargas d’água o pai dele o teria ido registrar em outra cidade, em outro Estado? Adones nasceu na zona rural de Equador, hoje município, mas à época distrito de Parelhas, Rio Grande do Norte, e foi registrado em Santa Luzia do Sabugi, na Paraíba. Um relato simples e curto da historiadora Maria Isabel Pimentel de Castro Pinto, minha mulher desde 9 de junho último, me esclareceu tudo.

 

Adones3

Adones Alves de Oliveira

Isabel é neta de Ageu de Castro, dentista, farmacêutico, rábula e  revolucionário de 1930, personagem de causos que José Américo de Almeida contava e Sebastião Nery reproduziu em livros. Ele foi um político de destaque nos dois Estados vizinhos e ocupou várias prefeituras. Uma delas, a de Parelhas. Ela me esclareceu que foi seu avô quem deu esta denominação ao distrito, porque ele e a população não se conformavam com a denominação fescenina que a tradição cunhou: Priquito de Maria. Esclarecido o mistério: Adones nasceu na zona rural do vilarejo que ainda tinha um nome impublicável quando se deu o parto de dona Clotilde. João Caetano, o pai, preferiu registrá-lo num lugar de nome menos profano e mais sagrado: o da santa padroeira da visão. Não ficou esclarecido? Pois é: coisas do sertão!

Este sertanejo aqui cruzou com Adones sem saber, antes sequer de conhecê-lo. Regina Coeli, minha primeira namorada, minha noiva, minha primeira mulher, mãe de meus filhos, avó de meus netos, morava no Ponto de Cem Réis em Campina Grande. Quando ia me encontrar com ela na bodega de seu pai, seu Aluísio Felizardo, descia a rua João Alves de Oliveira, nomeada em homenagem a um parente bem mais velho dele.

Também conheci-o pelas mãos de uma mulher bonita: Helô Machado, que trabalhava no arquivo da Folha de S.Paulo, em cuja redação eu era repórter da editoria local. Eles eram casados e o primogênito, Felipe, era criança quando passei a frequentar seu apartamento na rua Dr. Veiga Filho, em Higienópolis. Numa festa dessas, Belchior, que, graças à ajuda de Adones e à minha, morava numa casa em construção de Irede Cardoso, colega de Helô e minha na Folha, terminou Como nossos pais. No mesmo lugar, comemoramos a decisão de nossa amiga comum Elis Regina gravar a canção e transformá-la num clássico da música popular brasileira.

 

Adones e Helô

Adones e Helô

Fazia parte de nosso folclore particular a história de Adones levando Helô, filha de coronel da PM paulista, portanto criada com conforto na Pauliceia Dilacerada, para passar a lua de mel em Junco do Seridó, no alto da Serra da Viração, a meio caminho entre Equador e Santa Luzia e perto de Caicó, onde nosso amigo cursou o primário. Conheci bem o Junco. Quando se quer dizer que uma cidade é pequena, diz-se que só tem uma rua. Junco tinha meia. À beira da estrada, meninos vendem excelente castanha de caju torrada. E foi a estrada (o princípio da BR230, que termina na Transamazônica) que permitiu que ela tivesse futuro. Antes ficava fora do caminho. Com a rodovia, ficou literalmente no meio do caminho. Eu estudava no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, e passava férias na casa de meus pais em Uiraúna, no sertão do Rio do Peixe, também limítrofe com o Rio Grande do Norte. Antes de chegar o asfalto, o ônibus parava no posto de João Galo para um lauto e gostoso café da manhã preparado pela excepcional cozinheira dona Lourdes, mulher do dono. Um doido local, Barrão 70, ruivo sarará e feliz proprietário de um único dente na boca inteira, carregou as malas do casal para a casa de um primo de Adones, Dr. Zequinha, local escolhido para a lua de mel.

Adones com Isabel e Nêumanne no Bar do Nelson, de Lilian Gonçalves

Adones com Isabel e Nêumanne no Bar do Nelson, de Lilian Gonçalves

Pouco antes de nosso casamento, Isabel e eu recebemos Adones em casa para um almoço em família. Adones era primo do dr. Zequinha, ou seja de Alexandre Tabajara, meu sogro. Para completar as coincidências, Isabel passou a infância andando de bicicleta na meia rua do Junco. Isabel e eu o encontrávamos frequentemente no Shopping Higienópolis. Conversávamos sobre os Balduíno, fundadores de cidades sertanejas e parentes de ambos ou amigos do passado no Pedro II, Franco Paulino, e em redações: Antônio Torres, do Última Hora de São Pauloo, Cícero Afonso Vieira, lendário chefe de revisão da Folha, e Mário Leônidas Casanova, do Estadão, principalmente. Este papo já faz falta em nossas vidas.

 

Reproduzo abaixo dois textos: o que escrevi para o Estado e o discurso de Felipe na missa de sétimo dia em que encontrei muitos antigos companheiros das redações que freqüentamos da Folha e do Estadão.

Aí vão, se lhe interessar:

 

Adones, 77 anos e 2 meses, jornalista

Adones Alves de Oliveira nasceu em 15 de setembro de 1936 numa fazenda perto do distrito  de Equador, município de Parelhas, no Rio Grande do Norte, mas foi registrado numa cidade próxima, Santa Luzia do Sabugi, no Seridó paraibano, notório pela boa fibra de seus algodoeiros e pela animação das festas juninas. Estudou no internato do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, cidade onde cursou a faculdade de Filosofia e Letras e se tornou profissional de jornalismo na Revista Radiolandia e no jornal Última Hora. Em 1964, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou no Última Hora e, em 1966, entrou na Folha de S.Paulo como repórter, redator e cronista de TV e MPB. Especializou-se, então, na cobertura dos festivais de Música Popular Brasileira, nas TVs Excelsior e na Record, e no Festival Internacional da Canção, da Globo. Foi jurado nos dois últimos. Atuou como galã de fotonovela e fez parte do elenco do filme Bebel, a Garota Propaganda, de Maurice Capovilla.  Nos anos 70, trabalhou como repórter e editor de variedades do Estado de S. Paulo.  Nos 80, fez parte da redação da revista Visão e se dedicou à área de turismo: escrevendo para o Shopping News e Brasilturis, viajou pelo mundo inteiro. Casou-se com a também jornalista Helô Machado, paulistana, e com ela teve dois filhos, Felipe, que dirigiu o portal do Estadão, e Fernando, executivo da indústria fonográfica, e duas netas, Isabel e Laura, ambas de 7 anos. Morava sozinho em Higienópolis e foi surpreendido, à noite, por um infarto fulminante no miocárdio.

 

Um homem vestido de sol

Felipe Machado

A lógica natural da vida exige que todo homem, mais cedo ou mais tarde, pronuncie as temidas palavras que ameaçam dobrar a esquina desde os tempos em que o menino descobre que ninguém vive para sempre.

Meu pai morreu.

Por mais que seja aparentemente contraditório, o mais difícil não é dizer essa frase dezenas de vezes em voz alta, quando a vida em sociedade torna necessário espalhar a triste notícia entre amigos e familiares. É muito mais dolorido quando chega o momento de tentar entender e contar o que aconteceu para si mesmo, longe do carinhoso ruído e das pesadas lágrimas de quem quer sofrer junto.

É o momento mais solitário e, ironicamente, o mais universal. Os que não passaram por isso, passarão. Os que já passaram compartilham o sentimento do navegante que se vê perdido no mar após olhar ao redor e perceber que o farol se apagou.

Mais que um farol, meu pai era um sol. Por várias razões. Pelas mais poéticas, diria que ele foi um ser que irradiou luz e fez girar em sua órbita corpos celestes e terrenos, atraídos por sua inteligência, simpatia e carisma. Pelas razões mais simples, diria que ele era um sol porque andava cada vez mais obcecado pelo calor, pela sensação dos raios solares cortando sua pele como lâminas de luz. Se pudesse escolher, tenho certeza de que nessa última viagem ele teria se vestido apenas de sol.

Meu pai viajou tanto na vida que enjoou. Depois de tanto tempo escrevendo sobre música e arte, foi escrever sobre o mundo. E gostou. Engraçado porque sempre me lembro dele voltando de algum lugar, nunca indo. Talvez eu tenha ficado com essa impressão porque viajar é sempre uma folha em branco, colorida com opiniões e impressões somente depois que se volta. As palavras, suas únicas companheiras constantes em todas as viagens, esperavam ansiosamente até chegar em casa para poder descansar das aventuras nas folhas de papel.

Antes das viagens, meu pai escreveu sobre música. Acho que foi sua grande paixão, mais forte do que o cinema, a literatura, a arte. Tinha orgulho de ver o sobrinho, meu primo Pedro, dividir o palco com as maiores orquestras do mundo. Nos últimos tempos, quando a saúde o obrigou a ficar mais introspectivo, a música se tornou ainda mais parte da sua vida, do seu corpo, da sua alma. Como nós respiramos, comemos e dormimos, meu pai ouvia música.

A vida do meu pai foi uma sinfonia. O primeiro movimento começou devagar, Andante, nos confins do Sertão do Brasil. Os documentos diziam que o filho da minha avó Clotilde e do meu avô João Caetano veio ao mundo em 15 de setembro de 1936 em Santa Luzia, Paraíba, mas ele insistia em dizer que havia nascido em uma fazenda no meio do nada em Equador, Rio Grande do Norte. O amor pelo sol deve ter nascido aí. Ao remexer em papeis antigos, descobri coisas e histórias que ele nunca me contou em vida – e nunca mais contará.

Resta ler que ele fez o primário no Ginásio Diocesano Seridoense, em Caicó, Rio Grande do Norte, uma cidade da qual eu nunca ouvi falar. Como um dos seus irmãos ficou no Rio Grande do Norte, um outro foi para Pernambuco e os outros ficaram na Paraíba, nunca pensamos na infância do meu pai em termos geográficos muito bem definidos: para nós, o lugar de origem do meu pai, o paraíso encontrado onde eu e meu irmão passamos tantas férias, era, simplesmente, o Nordeste.

O segundo movimento da sinfonia Adoniana, Presto, começou com uma viagem que mudou sua vida. Em 1951, o corajoso garoto de quinze anos chegou sozinho ao Rio de Janeiro, para estudar no prestigioso internato Colégio Pedro II. De lá sabemos apenas que fez grandes amizades e desenvolveu o amor pelo cinema, a música e as palavras. Gostou tanto delas que entrou para a Faculdade Nacional de Filosofia, onde cursou Letras Neo-Latinas. E de lá saiu direto para a redação da revista Radiolândia, onde passou a escrever sobre os artistas e as paradas de sucesso.

Em 1960 começa o terceiro e fortíssimo movimento dessa sinfonia: Adones muda-se para São Paulo para escrever no jornal Última Hora. E daí vieram os convites para ser jurado dos grandes festivais, os empregos nos grandes jornais da cidade, Folha e Estadão, as assessorias de imprensa para políticos, as bienais de arte, as intermináveis viagens. Ainda na Folha, conheceu uma jornalista chamada Helô Machado, por quem se apaixonou. Como não se apaixonar? Minha mãe era linda, talentosa, chique. E continua assim até hoje.

O quarto e último movimento da sinfonia do meu pai combina com seu nome. Adágio, Adones. Aposentado, passou a curtir a vida lentamente. Aproveitou para brincar com as netas, Bebel e Laura, conversar com os amigos na praça, passear por Higienópolis, bairro onde se sentia verdadeiramente em casa. O lugar, aliás, que escolheu para viver e morrer, em 24 de julho de 2014.

Meu pai morreu.

 

Adones e Felipe bebê

Adones e Felipe bebê

É duro para um filho dizer isso, mas não sei se cheguei a entender meu pai. A amar, sim, claro, mas acho que nunca cheguei a compreendê-lo direito. Não sei se esse sentimento também é universal, mas para mim meu pai foi um enigma. Nunca se abriu, nunca foi de contar muitas histórias da infância. Conversávamos sobre as músicas dos outros, os livros dos outros, a vida dos outros. E agora tento descobrir quem ele realmente era sem sua presença, lutando para entender as pequenas letras nos diários esquecidos em caixas no fundo do armário. Não há legendas, nem rodapés de página para explicar. As memórias morreram com ele, uma pena. Só nos resta ficar aqui, eu, minha mãe e meu irmão, sozinhos, pensando como seria a vida que nunca mais será.

 

 

Machado e a picareta

Machado e a picareta

José Nêumanne

Pareceu à autora Patrícia Secco uma ideia genial, um ovo de Colombo: apresentar ao Ministério da Cultura (MinC) projeto para simplificar algum texto de um grande escritor, contratar uma equipe, instalar um dicionário no computador e trocar palavras que não sejam familiares ao linguajar contemporâneo por outras mais fáceis para o leitor comum entender. Pois não é que o MinC autorizou que ela captasse recursos da Lei Rouanet para editar 300 mil livros e distribuí-los gratuitamente por bibliotecas e instituições do Brasil? Simplificar um gênio pode dar um dinheirinho – mais, por exemplo, do que escrever livros infanto-juvenis dos quais ninguém ouviu falar. Ela escreveu 200. Dane-se a mutilação do estilo do gênio, que vá para o inferno a turma que não aceita essa tentativa politicamente correta de popularizar um escritor difícil só por elitismo.

A primeira vítima foi apenas o maior escritor brasileiro de todos os tempos, o mulato carioca do morro do Livramento Joaquim Maria Machado de Assis. A sra. Secco não quis saber de desafios como Memórias Póstumas de Brás Cubas. E mandou sua equipe trocar “sagacidade” por “esperteza” na edição simplificada de O alienista, que, por essas artes do destino, desmascara a verdadeira intenção do projeto, que é atualizar a escrita do bruxo do Cosme Velho. Alienista era a palavra usada no século 19 para definir médicos que cuidam de “alienados mentais”. Quando estes passaram a ser dados como simples doidos, a profissão mudou de denominação para “psiquiatra”. Hoje seria “terapeuta”. Mas quem diabo leria um livro prosaicamente intitulado de O terapeuta? A sra. Secco manteve o “alienista” e não perdeu a pose.

Vociferou: “ “A ideia do projeto não é facilitar os textos, mas facilitar o acesso à leitura. Fiz uma transposição da linguagem da época para a linguagem atual. Fiquei muito chateada com as reações, porque o projeto só visa levar Machado a quem não conhece. Não é fazer com que ele deixe de ser Machado, fazer grandes modificações. É para que o leitor não fique parado ou derrapando”.
Depois do “terapeuta” vem A pata da gazela, de José de Alencar. E sabe Deus quantas mais outras falsificações literárias em nome da divulgação de textos clássicos, mas difíceis. O nome disso é picaretagem. E o único jeito é algum parlamentar mais letrado acabar com a farra de picaretas do gênero tombando primeiro Machado depois outros escritores que merecem usar esta denominação de ofício. Tipificar esse tipo de malandragem como crime já seria mais difícil, embora se devesse.

Jornalista, poeta e escritor
(Revista Imprensa, Junho de 2014, Página 19)

Negócios e ideologia juntos contra a ortografia

Negócios e ideologia  juntos contra a ortografia

Acadêmico de internet, políticos e linguista de esquerda tentam evitar acesso do povo à língua

Está nas mãos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Fux uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) em que sociedades civis de arrecadação de direitos autorais contestam a Lei 11.832, que, na opinião delas, autoriza o Estado a intervir numa atividade que é de exclusivo interesse privado. Antes de a Adin chegar a Fux, o presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal, Cyro Miranda (PSDB-GO), foi autorizado a criar um grupo de trabalho para apresentar uma proposta de aperfeiçoamento dos Acordos Ortográficos vigentes. De fato, são dois, pois a presidente Dilma Rousseff adiou a adoção do Acordo Ortográfico de Lisboa, assinado em 1990, do ano anteriormente previsto, 2013, para 2018, e permitindo que também se escreva da forma como se escrevia antes.

Paulista de São José do Rio Preto, o senador, empresário e ex-dirigente de Associações Comerciais, entrou na política seguindo no PL o ministro Guilherme Afif Domingos, secretário da Micro e Pequena Empresa. Eleito em 2010 pelo PSDB, tornou-se conhecido como líder de um grupo que se opôs à extinção dos 13.º e 14.º salários para senadores. Ficou famosa sua frase segundo a qual sentia pena de quem dependia de vencimentos de R$ 19 mil mensais com a estrutura de que dispõe o Senado. E foi uma das cabeças do movimento para convencer a presidente a adiar para as calendas a substituição das antigas regras da ortografia pelas previstas na reforma.

Gaúcha de Lagoa Vermelha, repórter de economia de origem e ex-chefe da sucursal de Brasília da Rede Brasil Sul (RBS), da família Sirotsky, filiada à Rede Globo, a senadora Ana Amélia Lemos, eleita pelo PP de Paulo Maluf numa coligação com os tucanos, tornou-se uma fiel escudeira do senador. Nem Miranda nem Lemos tiveram veleidades em autoria literária, linguística ou no ensino do português. Mas adotaram as ideias do professor Ernani Pimentel, que promove na internet pelo site Simplificando a Ortografia um abaixo-assinado a favor de suas propostas.

Ernani Pimentel, fundador do movimento Acordar Melhor, atua de forma prolífica e polêmica na internet, dizendo-se professor de português há mais de 50 anos, linguista, autor e conferencista. Mas ainda não se deu ao trabalho de informar aos militantes pela ortografia simples, tema do livro que também promove, onde se formou, onde se doutorou e onde dá aulas. Nas entrevistas que deu ao astro da TV Globo Jô Soares e a telejornais como Bom dia DF e em seus manifestos contra a reforma proposta pelos parceiros lusófonos, o guru de Miranda e Lemos não perde tempo dando sugestões para simplificar a ortografia. Ele prefere palavras de ordem do tipo “simplificar a ortografia é promover a inclusão social”.

Conforme nosso editorial A ortografia no Senado no sábado (página A3), “ele promove um abaixo-assinado pela ‘racionalização e simplificação da ortografia’, sem especificar, no entanto, o que deseja mudar. Especifica, no entanto, postular uma redução de carga horária de aulas de ortografia. Segundo o professor, hoje são ministradas 400 horas/aula desde o início do fundamental até o fim do ensino médio, e ele deseja que sejam utilizadas em torno de 150 horas”. O Google, principal instrumento de difusão de suas ideias, não é pródigo em dados a respeito de sua vida. Nem sequer lhe foi dedicado um perfil de Wikipedia.

Nos textos publicados por Ernani Pimentel em jornais como o Correio Braziliense, pode-se concluir que o mestre do guru dos senadores é o linguista Marcos Bagno. Este, sim, é conhecido e seu livro, Preconceito linguístico, é debatido seriamente no meio acadêmico. Trata-se de uma espécie de bíblia de extremistas de esquerda que consideram os cânones gramaticais expressões da cultura do opressor, pois a língua deve ser um organismo vivo, alterado a bel prazer de quem a fala, o povo em casa e na rua, e não engessada por escritores, críticos e professores.

A ortografia pode ser, de fato, de interesse negocial. A decisão de Dilma de gerar o caos permitindo conviverem a ortografia que se usava e a que resultou da reforma aceita pelos países lusófonos com aval de suas academias de letras criou um paralelismo indesejável em que se vendem dicionários, vocabulários, livros didáticos e de ficção com as duas formas de escrever. É possível que o adiamento do que tinha sido combinado da adoção da nova ortografia tenha, então, interferido na economia popular, por forçar a família pobre a adquirir material escolar novo e desnecessário. Há quem discorde, por isso, da reforma. É o caso do autor destas linhas.

Isso não quer dizer, contudo, que o Senado – cujo presidente, o peemedebista alagoano Renan Calheiros, também não é um reconhecido cultor da “última flor do Lácio, inculta e bela” – possa arvorar-se a mandar reduzir as horas de aula da ortografia e submeter a língua escrita a caprichos ideológicos ou de “mestres” de currículo ignoto. A conexão entre negócios pouco claros e interesses ideológicos é óbvia no caso. O que se consegue reduzindo horário de aulas de ortografia e abolindo o conceito de erro no uso da língua escrita é o contrário do que se prega. Os populistas que querem acabar com o analfabetismo simplificando a forma de escrever (como se isso tivesse que ver com aprender a ler e compreender o que foi lido) são, de fato, elitistas fascistoides que promovem a interdição da norma culta, ou seja, dos tesouros literários, a quem tem dificuldade para aprender a ler e entender.

Isso é similar ao neocoronelismo de quem, a pretexto de baratear as obras negando o porcentual a pagar a quem as cria, quer eliminar os direitos autorais, praticados desde o século 18, quando as Revoluções Americana e Francesa consagraram os direitos humanos. Nos dois casos, nega-se ao pobre o direito de saber para ascender social, econômica e politicamente. Para evitar tal ignomínia a lei dá à Academia Brasileira de Letras o encargo de guardiã do vernáculo.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo da quarta 30 de julho de 2014)

 

Nesta quarta no Estadão: “O palhaço que foi aula e espetáculo”

Nesta quarta no Estadão: “O palhaço que foi aula e espetáculo”

José Nêumanne (*)

Certa vez, Ariano Suassuna foi ao Palácio da Redenção, sede do governo da Paraíba, na Praça João Pessoa, no centro da capital, batizada com o nome do maior inimigo de seu pai, João Suassuna. Lá foi barrado à entrada por um guarda instruído para não permitir que alguém adentrasse o recinto sem gravata. De camisa, calça e paletó de linho, como de hábito, o autor de O auto da compadecida, peça em que se baseou o filme de maior bilheteria do cinema brasileiro, retrucou:

– Olhe, a primeira vez que entrei neste palácio aqui foi nu, viste?

E era verdade: isso se deu em 27 de junho de 1927 num quarto do prédio decadente e saído do ventre da mãe, Rita de Cássia Vilar Suassuna. O pai, João, era presidente do Estado, como se dizia na República Velha. E ali começou a saga de um professor de aparência sisuda que, ao longo do tempo, de tanta comédia que escreveu para o palco, se tornaria o maior palhaço do Brasil, embora nunca tenha sido humorista profissional. Se o cearense Chico Anysio extraía personagens da observação da vida e os tornava reais, Ariano os punha no palco e, depois, brincava com a troça deles recorrendo à graça na cátedra universitária, nos gabinetes da burocracia e numa cadeira na Academia Brasileira de Letras. E, quando tudo isso apenas se esboçava no menino que berrava nu na sede do poder estadual, se desenrolava a tragédia política nacional, em cujo epicentro o palhaço octogenário também desempenhou seu papel.Ariano Suassuna

João Suassuna, chefe do clã sertanejo de Catolé do Rocha, tinha sido substituído na presidência da Paraíba por João Pessoa, sobrinho do ex-presidente Epitácio, oligarca da várzea do Paraíba do Norte, e destinado a se tornar o estopim da Revolução de 30, que sepultaria a Primeira República para, depois de um interregno de arremedo institucional, mergulhar nas trevas do Estado Novo. João Pessoa, candidato a vice na chapa presidencial do gaúcho Getúlio Vargas, derrotada, foi assassinado a tiros pelo advogado João Dantas, aparentado e devotado dos Suassuna e do coronel Zé Pereira, de Princesa Isabel, que havia enfrentado a bala o poder paraibano, armado pelo federal, presidido por Washington Luís, que se preparava para empossar seu candidato eleito Júlio Prestes quando os políticos mineiros e as tropas gaúchas amarraram suas montarias no obelisco do centro do Rio, mandando o presidente deposto para o exílio. Acusado de manter ligações com os mandantes da morte do herói revolucionário, o pai de Ariano foi baleado e morto no centro do Rio em 1930. Corriqueiro seria vingar o patriarca assassinado, mas dona Ritinha nunca permitiu que a vingança levasse a prole a alguma loucura. Criado em Taperoá, terra da mãe, e, depois pelo resto da vida em Recife, o filho nascido no palácio sempre devotou ódio ao inimigo-mor do pai, recusando-se a chamar a antiga Filipéia de Nossa Senhora das Neves de João Pessoa e preferindo sempre designar a capital pelo nome do Estado, como era useiro fazer antes da Revolução de 30.

fotoestadao

Ariano vingou-se em versos. Em 2000, selecionei um poema dele na antologia Os cem melhores poetas do século. Ariano protestou:

– Não sou poeta, poetas são os personagens dos meus romances.
Como negar, contudo, que era do estro do autor o magnífico soneto (modalidade em que era mestre) em que saudou o pai? “Aqui morava um rei quando eu menino”. / Vestia ouro e castanho no gibão, / Pedra da Sorte sobre meu Destino, / Pulsava junto ao meu, seu coração”.
A poesia, aliás, nele tudo originou. Em sua comédia teatral mais popular, O auto da compadecida, fundiu três folhetos de cordel, gênero poético popular por excelência. João Grilo e Chicó, os protagonistas, personificam a força do “amarelo”, que enfrenta valentões com sagacidade e graça. E tudo em Ariano tinha graça. Seu livro Introdução à estética, manual de ensino de teoria literária, é um show de erudição com pitadas de humor que rivalizam com as melhores anedotas de outra comédia dele, O santo e a porca.

arianoestado
Na última vez em que o vi no Centro Cultural Maria Antônia, da USP, em Higienópolis, fez uma palestra intitulada “O humor – de Aristóteles a Bergson”. Nunca uma platéia, formada por professorinhas de escola pública no interior de São Paulo, imaginou que pudesse rir tanto das peripécias do preceptor de Alexandre da Macedônia e do filósofo francês da virada do século 19 para o 20 com aspecto de agente funerário captado pelos pioneiros da fotografia em preto e branco.

É imenso o acervo deixado pelo intelectual que tornou Paraíba e Pernambuco, inimigos em 1930, um Estado só. Mas tudo pode ser resumido numa Aula-espetáculo, título do documentário de Vladimir Carvalho, que se tornou seu cavalo-de-batalha nos últimos anos. Mais do que dramaturgo, romancista (do genial A pedra do reino), professor,  acadêmico secretário estadual da cultura ou mesmo o humorista em que se transformou já velho, Ariano foi, ao mesmo tempo, uma aula viva estupenda e um permanente espetáculo folgazão de inteligência, vida, senso de humor e savoir-faire.

(*)Jornalista e escritor

(Publicado no Caderno 2 do Estado de S. Paulo, quinta-feira 23 de julho de 2014)

Felipão, o professor de gestão de Dilma

Felipão, o professor de gestão de Dilma

José Nêumanne

Técnico e presidente usaram pátria, hino e bandeira para chutar a vida real para escanteio

Dilma Rousseff disse, em 1.º de julho de 2013, que seu governo tinha o “padrão Felipão”, em resposta a uma pergunta sobre se seus ministros tinham “padrão Fifa”. Referia-se ao ex-técnico da seleção brasileira Luiz Felipe Scolari após reunião ministerial depois da vitória sobre a Espanha por 3 a 0 no Maracanã, onde ela seria vaiada várias vezes domingo, na final da Copa, antes e ao entregar a taça ao capitão alemão, Philipp Lahm. A comparação tinha sido feita na temporada de protestos nas ruas em que o povo exigiu “padrão Fifa” para a gestão pública federal, nada exemplar. Apesar de ter escolhido o treinador como modelo, ela não foi entregar a Copa das Confederações ao time que ele treinou. Um ano e 13 dias depois, tendo o mesmo time sofrido hecatombes inéditas nos jogos finais da “Copa das Copas”, ela o relegou ao ostracismo para se refugiar no verso de um samba de Paulo Vanzolini (“levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”) e na criatividade (“a derrota é a mãe de todas as vitórias”).

Dilma não atuou na seleção nem a treinou. Não é também dirigente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Mas não resiste a recorrer ao dito esporte bretão para parecer simpática. Nascida em Minas, comemorou a conquista da Libertadores da América pelo Atlético Mineiro em 2013 em redes sociais. “Congratulo (sic) com toda a torcida do Atlético pela conquista do título. Eu sou torcedora do Atlético e, quando criança, ia com meu pai a muitos jogos do Galo no Mineirão”, postou. Não faltou quem nos mesmos veículos lembrou que 1) como nasceu em 1947, tinha 18 anos e, portanto, não era criança, quando o estádio foi inaugurado; e 2) que o pai morrera em 1962, três anos antes de sua inauguração.

Consta que Clio, a deusa da história, é irônica. Pelo visto, os deuses do futebol também. Em 8 de julho o estádio foi palco da derrota mais humilhante que o Brasil sofreu na história, ao perder de 7 a 1 na semifinal da Copa. Dela o técnico saiu como padrão de incompetência, e não de excelência.

Nenhum torcedor dotado do mínimo de bom senso teria apostado pesado no time de Scolari na Copa: ganhou da Croácia com a ajuda do juiz, empatou com o México contando com muita sorte e ao vencer Camarões passou para as oitavas de final contra o Chile, e não contra a Holanda, por absurdos erros do árbitro, que anulou dois gols legítimos dos mexicanos no jogo de estreia contra os africanos. A trave nos últimos segundos da prorrogação e no último pênalti carimbou o passaporte para as quartas de final contra a Colômbia, que nunca foi páreo para a canarinha nos melhores momentos dela e nos piores desta. O Brasil ficou entre os quatro melhores com a ajuda da sorte e de apito amigo.

Mas na véspera da semifinal contra a temida Alemanha a presidente resolveu apostar todas as fichas de chefe de governo e de Estado e de candidata à reeleição no “padrão Felipão” de excelente gestão. A página oficial da Presidência da República na internet, usada na campanha eleitoral com uma sem-cerimônia só comparável à do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ao desconhecer o fato, divulgou sua “conversa” com internautas sobre a Copa. Chamou os adversários de “urubus”, condenou o “pessimismo indevido” de um sujeito oculto chamado imprensa, vulgo “mídia golpista”, e adotou como mascote de palanque o craque Neymar, cuja dor, ao ser atingido por um jogador do time que fora menos violento do que o Brasil no jogo, segundo ela, “feriu o coração de todos os brasileiros”. Para completar, sem se dignar a explicar o significado do gesto nem da expressão, copiou do astro do Barcelona o “é tóis”, paródia criada por ele para o “é nóis” dos corintianos, com a letra T formada pelos braços e pelo cotovelo. E enquanto a torcida lhe fazia eco gritando o nome do ídolo ferido, os alemães impingiram à seleção mais campeã das Copas a pior goleada em semifinais do torneio.

Felipão, fiel a seu padrão de embromation, mal consumado o desastre, elogiou o próprio trabalho, lembrando que seu “grupo” – sua “família”, ou seja, as vítimas de suas doses patéticas de autoajuda – foi o primeiro a chegar a uma semifinal desde a Copa em que ele mesmo treinou o time campeão, em 2002, há 12 anos. O auxiliar técnico Carlos Alberto Parreira comprometeu o respeitável currículo de campeão mundial de 1994 lendo na entrevista a carta de uma fã que elogiou a preparação do time de um esporte cujos fundamentos ela própria dizia desconhecer.

Antes de o “padrão Felipão” ser submetido a outro vexame na disputa pelo terceiro lugar contra a Holanda na arena Mané Garrincha, com o nome de um gênio do tempo em que nosso futebol tinha cara e vergonha, os bombeiros do Planalto correram para salvar a chefe do incêndio. Descalçaram-lhe as chuteiras e ela pôs de novo o capacete de chefe de obras, para jogar espuma sobre a tentativa canhestra de barganhar o sucesso da seleção por votos na eleição. Apelaram até para o óbvio: “Futebol e política não se misturam”. Fez-se isso com desleixo idêntico ao de estropiarem a frase de Nelson Rodrigues “a pátria em chuteiras” por outra, que só adquiriu nexo após o vexame: “a pátria de chuteiras”. Dilma e seu professor (assim os pupilos chamam seus técnicos) usaram pátria, hino e bandeira para chutar a realidade para escanteio.

Dilma ainda contribuiu para o besteirol de político ignorante em esporte ao atribuir o chamado mineiratsen à exportação dos melhores jogadores nacionais para o exterior. O uso da palavra exportação, cabível para médicos cubanos, mas não para nossos craques, omite as evidências de que a seleção atuou em nível similar ao dos campeonatos locais por absoluta incapacidade de dirigentes que se recusam a aprender como se joga nos mercados que hoje vencem. E de governantes que perdoam as dívidas monstruosas acumuladas por estes bancando papagaios de pirata para ganhar votos, perdendo o pudor e as Copas.

José Nêumanne. Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pág.A2 do Estado de S. Paulo na quarta-feira 16 de julho de 2014)

Nesta quarta, no Estadão: “É só mais do mesmo”

Nesta quarta, no Estadão:  “É só mais  do mesmo”

José Nêumanne

Dilma promete de novo o que não fez e Aécio sugere que “suguem o que puderem”

Antes de se lançar candidato à Presidência da República, o então governador de Pernambuco e presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro (PSB), Eduardo Campos, defendia em conversas com interlocutores políticos a teoria de que era preciso que os políticos de depois da redemocratização se unissem para fazer uma reforma de verdade na gestão pública. O exemplo mais próximo que encontrava para apontar como possível aliado era o do senador tucano mineiro Aécio Neves, já então tido como inevitável candidato do maior partido de oposição contra a reeleição da petista Dilma Rousseff. A hipótese de uma união entre os dois ainda parecia plausível quando Campos abriu fogo contra o governo de que fora aliado para tornar viável a própria candidatura. Hoje a proposta sumiu de cena e não está afastada a possibilidade de o socialista apoiar a petista num eventual segundo turno.

O simples fato de os dois candidatos à mudança radical no comando da gestão pública brasileira serem netos de dois dos principais líderes da atividade política no período entre a queda do Estado Novo, em 1945, e o golpe militar de 1964 já bastava por si só para dar à ideia sua verdadeira dimensão: a de papo para espantar o tédio. Afinal, a simples menção aos dois protagonistas dessa aliança “renovadora” nacional (não por acaso uso o nome do partido que congregava civis que apoiavam o regime militar) bastaria para trazer a lume a evidência de que não passava de uma nova roupagem para a única oferta que os políticos têm dado sempre aos cidadãos: “mais do mesmo”. Eduardo assina Campos (do pai, o escritor Maximiano), mas é neto de Miguel Arraes, da mais notória oligarquia nordestina, a Alencar do Ceará. Aécio não assina Cunha, do pai, mas Neves, como o avô materno ilustre, Tancredo, que foi ministro da Justiça do suicida Getúlio Vargas e uniu a dissidência do partido governista, o PDS, com o principal partido de oposição à ditadura na época, o PMDB, para se eleger no colégio eleitoral e faltar à posse por doença.

A citação avoenga de ambos pode até parecer implicância boba deste autor ranheta. Mas os primeiros passos dados na (vá lá) pré-campanha já indicam desde logo que a candidata à reeleição e os dois pretendentes a tirá-la do trono dão indícios claros de que “tudo continua como dantes” no palanque de Abrantes – já que de quartel não se trata mais. Ciente de que a aliança com a ambientalista Marina Silva não o credenciará por si só a chegar ao provável segundo turno contra a presidente, o filho da ex-deputada feita por ele ministra do Tribunal de Contas da União, Ana Arraes, partiu contra o filho do ex-deputado Aécio Cunha com sangue nos olhos e faca nos dentes.

O PSB de Campos – alavanca com que, a exemplo de Arquimedes, ele diz querer remover os compromissos com o passado da política para lançá-la rumo ao futuro ou, no mínimo, para o presente – protagonizou um dos episódios mais óbvios de pragmatismo eleitoral: explicitou apoio ao PT de Dilma no Rio e ao PSDB de Aécio em São Paulo. Mas isso, embora seja mais uma prova de que tudo continua sendo só mais do mesmo, não implica uma prática malfazeja em si, que justifique o apelido dado pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes, ao movimento: “bacanal eleitoral”. Como de hábito na política brasileira, o sujo apenas maldisse o mal lavado. Há pouco, Paes deixou de ser um oposicionista ferrenho ao PT federal para se eleger e reeleger pelo PMDB e, assim, aderir ao partido de Lula, que fingia abominar. Nesse caso, Campos tem toda a razão ao afirmar, como o fez na convenção de seu partido, que “o povo brasileiro que não tem filiação partidária, que não vai disputar eleição, não quer saber se a coligação em tal Estado é assim ou assado, mas se tem na política alguém disposto a fazer o debate que não é só do mundo dos políticos, mas do seu mundo, da sua pauta, do seu sonho”. Os candidatos deveriam decorar essa sentença.

Mas não bastaria enunciar o nobre conceito. Vai ser preciso praticá-lo. Dilma, ainda em primeiro lugar nas pesquisas e ainda com perspectiva de ganhar no primeiro turno, teve a desfaçatez de repetir todas as promessas que fez na eleição para seu primeiro mandato, em 2010. Manteve, então, o hábito de prometer mais, mesmo já tendo mostrado que nem sempre cumpre. A distância entre discurso e ação no palanque dela reproduz uma incoerência que atinge as raias do absurdo. Em 2011, em nome de uma pretensa faxina moral que prometeu fazer na Esplanada dos Ministérios, afastou Alfredo Nascimento do Ministério dos Transportes. A três meses do pleito de outubro, nomeou para o posto o indicado pelo presidente do PR, Valdemar Costa Neto, que ora mantém residência fixa no presídio da Papuda. Depois, fez uma profissão de fé nas “convicções” que comungaria com Gilberto Kassab, dono do PSD, para alcançar o triplo do tempo de propaganda na TV e no rádio de seu perseguidor mais próximo, Aécio, e sete vezes o de Campos.

Este, de olho nos 72% de eleitores que querem mudar já, lembrou que PSDB e PT estão no poder há 20 anos, mas omitiu que não faz tanto tempo assim que um aliado por ele indicado para o governo Dilma, Fernando Bezerra Coelho, carreou para o Estado que governava 90% dos recursos do Ministério da Integração Nacional. E Aécio, que não consegue se aproximar do primeiro lugar na disputa pela preferência do voto, conseguiu bater a favorita Dilma em baixaria ao sugerir que os dissidentes das legendas governistas “suguem o máximo que puderem” e, depois, votem nele. Esqueceu-se de que o leite que engorda as tetas do Estado é pago pelo povo.

Diante disso, muitos cidadãos creem que a resposta mais inteligente será abster-se ou votar nulo e em branco. É mais cômodo, mas também o meio menos responsável de manifestar desagrado pelo “mais do mesmo” que inevitavelmente virá aí. Afinal, os políticos são escolhidos na urna pelo cidadão e este não deve se omitir.

JOSÉ NÊUMANNE PINTO

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag,2A do Estado de S. Paulo na quarta-feira 02 de julho de 2014)

 

Página 4 de 13«...23456...10...»
Criação de sites em recife Q.I Genial