Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

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A Sustentável Leveza de Maria das Graças Targino

A Sustentável Leveza de Maria das Graças Targino

Contracapa do livro Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos, da professora Maria das Graças Targino, que acaba de sair pela editora Halley, de Teresina, PI

Maria das Graças Targino é uma respeitável professora de Comunicação e os textos que compõem esta coletânea se sustentam sobre pilares do templo de sólida carreira acadêmica. Os campos de interesse devassados por seus olhos e analisados por seu cérebro são de uma variedade incrível: paisagens de viagens; tipos humanos cuja experiência de vida lhe chamou atenção; comentários nas redes sociais do computador; a própria vocação pela docência; e a cobrança da decência, entre outros. Mais do que a base do conhecimento, que aqui merece ser chamado de erudição, contudo, o fio condutor desta narrativa, que não é fictícia, mas documental, é tecido com elegância e leveza que denotam a delicadeza e a familiaridade com que a autora aborda o exercício da escrita. As imagens que ela reproduz com precisão e cores de retratista (e não é à toa que o fotógrafo Sebastião Salgado é um de seus ícones) e os conceitos que ela desfia ao longo do novelo são conduzidos de tal forma no navegar pelos mares de sua palavra que o leitor se enfronha (e aqui a palavra ganha força, porque definitivamente a leitura leva a uma intimidade de lençóis, fronhas e edredom sem contato físico, mas de uma conversa a meio tom e ao pé do fogo) e participa da condução do argumento como se fosse seu cúmplice. Temas batidos como a prostituição, controversos como a relação mãe-filho(a) ou duros de suportar como o envelhecimento físico ganham novos tons a partir de pinceladas únicas ou reiteradas. Este livro é um caleidoscópio de imagens, cores, pensamentos e emoções, mas também tem uma unidade singular, mal disfarçando a construção sólida, embora leve, de um perfil variegado, embora também de impressionante nitidez. Infelizmente para um fanático de futebol, como este seu leitor impenitente, Graça não se dignou olhar a bola branca rolar sobre o gramado verde. Se o fizesse, talvez lhe fosse dado perceber que, naquele jogo de tensões e relaxamentos, houve um craque cujo estilo se assemelha ao da escrita dela. E este foi um jogador que João Cabral de Melo Neto escalou como tema: Ademir da Guia, o Divino. Como o jeito do meia da Academia do futebol no Palmeiras, a escrita de Graça padece de uma falsa lerdeza: sem correr, sem perder o fôlego, ela chega sempre à palavra exata e atrás dela chegam outras que a completam. Se alguma vez, o poeta pernambucano, em cuja Recife a autora viveu sua adolescência, a tivesse lido, teria se lembrado do ritmo de suas frases ao descrever o jogo do ídolo improvável: “Ritmo morno, de andar na areia, / de água doente de alagados, / entorpecendo e então atando // o mais irrequieto adversário”. Ritmo ditado, escreveria Graça Targino, pelo destino da finitude do tempo infinito: “Se houvera tempo, talvez não carregássemos conosco o peso dos mortos”. Amém.

José Nêumanne Pinto

Jornalista, poeta e escritor

Sexto capítulo do livro “Junho de 2013. A sociedade enfrenta o Estado”

Sexto capítulo do livro “Junho de 2013. A sociedade enfrenta o Estado”

Sexto capítulo do livro Junho de 2013. A sociedade enfrenta o Estado, organizado pelo cientista político Rubens Figueiredo, editado pela Summus e a ser lançado na terça 21 de outubro na Livraria Cultura do Conjunto Nacional

Capítulo VI – A multidão poderosa virou plebe ignara e tudo ficou como dantes na República de Abrantes

Não faltaram razões – ao contrário, até sobraram – para as multidões sem partidos nem bandeiras invadirem as ruas das cidades brasileiras para reclamar das mazelas de uma máquina pública que custa o sacrifício da cidadania em impostos escorchantes e presta serviços indigentes. Tudo começou com um mal entendido provocado pela crônica incompetência, pela distância abissal da cúpula dirigente em relação à massa e pela absoluta e absurda falta de sensibilidade política e, sobretudo, humana. Para definir neste capítulo a reação dos poderes constituídos da República aos protestos, convém partir de uma rápida digressão desses motivos.

O despertar do monstro

O estopim da bomba tinha que ver com uma das mais evidentes carências nas grandes cidades nacionais – a questão da mobilidade urbana. É absurdo o tempo gasto no deslocamento em condições de insalubridade e desconforto totais pelo trabalhador brasileiro para ir trabalhar e voltar para casa nas metrópoles nacionais. Em 2013, a rotina de pasmaceira que permitia aos gestores públicos estaduais e municipais tratarem o problema com desdém e ainda promoverem reajustes anuais das tarifas cobradas pelo serviço de transporte público foi quebrada por uma lambança do governo federal. Empenhada em empurrar o problema da inflação com a barriga, a presidente Dilma Rousseff pediu encarecidamente a governadores e prefeitos amigos ou adversários que adiassem os reajustes para o meio do ano. Eles o fizeram e deu no que deu: a mudança do calendário despertou o monstro da opinião pública, que deu o ar de sua graça.

capa_sociedadeContando com a velocidade, nunca antes empregada para esse fim, das redes sociais nos computadores, o Movimento Passe Livre (MPL) empunhou a bandeira absurda da tarifa zero (como se houvesse almoço grátis) e convocou a multidão para protestar contra o reajuste. O ambiente propício de insatisfação generalizada anabolizou o protesto monotemático e a reação atabalhoada de governantes desacostumados com movimentos a céu aberto terminaram por incentivar e multiplicar os protestos. Sem ter idéia da dimensão da explosão social nem saber como debelar o que lhe parecia uma sucessão de focos de incêndio, a elite civil política no exercício de mandatos, que antes lhes pareciam apenas possibilidades honoríficas de amealhar fortunas em comissões de obras públicas, meteu os pés pelas mãos e jogou gasolina nas fogueiras de rua imaginando que assim pudesse apagá-las. Quanta estupidez! Contando com a assessoria tida como genial do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os gestores municipais e estaduais, entre os quais alguns adversários do Partido dos Trabalhadores (PT), tentaram acalmar as massas adiando os reajustes anunciados para as calendas gregas.

Todos contra tudo

Da mesma forma como o adiamento dos reajustes nunca poderia ser a solução definitiva para o risco inflacionário, seu cancelamento não aquietou as massas como imaginavam que aconteceria os alienados dirigentes políticos municipais, estaduais e federais. A concessão apenas acicatou o monstro acordado. Já que estava nas ruas mesmo e que tinha conseguido amenizar a fúria truculenta do aparelho policial, a opinião pública resolveu pôr para fora todas as queixas que sempre teve dos métodos nefastos adotados pela representação política e pela gestão pública. A batalha contra o custo exagerado do transporte mal gerido se transformou, então, numa guerra de frentes generalizadas. Virou um combate sem quartel de todos contra tudo.

Até junho de 2013 o Brasil vivia uma esquizofrenia muito esquisita. Quanto mais o Estado retribuía a generosidade dos contribuintes em recordes mensalmente superados de arrecadação do Fisco mais os responsáveis por essa perversidade eram aprovados, reeleitos, aclamados e prestigiados por suas vítimas. Era uma relação masoquista de amor incondicional por todos os agentes que lhes causavam toda a sua dor. Aí, de repente, numa reação instintiva, mas ainda inconsciente, a essa incongruência, as multidões ocuparam as ruas para expressar sua insatisfação difusa, mas ruidosa, com os motivos óbvios de suas queixas: a péssima gestão pública, em geral. Foi contra ela que genericamente se reuniram, gritaram, empunharam faixas e enfrentaram a polícia os manifestantes de junho. Por todos os bons motivos. As mães sem creches para seus bebês, os pais sem boas escolas públicas para seus filhos, os trabalhadores com seus salários corroídos pelas ratazanas inflacionárias, os pobres assaltados nas ruas pelos bandidos e tratados pela polícia como se fossem seus assaltantes, os doentes nas filas intermináveis para as consultas médicas, os pacientes na espera interminável dos corredores de prontos socorros por uma mera maca – todos se deram as mãos ao identificarem o inimigo comum.

Os alvos de seu ódio eram a corrupção que consumia a maior parte do dinheiro arrecadado dos impostos deixando-os sem segurança, educação, saúde, sem nada. E eles gritaram. O que os impedia antes de gritar, há-de se perguntar? A covardia conjunta, a passividade congênita, os séculos de dominação política, as esmolas dadas com o próprio dinheiro por demagogos sem vergonha ou a ignorância de quem sofre, mas é incapaz de reconhecer o causador de sua desgraça? Não dá para saber. Talvez nunca dê. Talvez a resposta seja uma, nenhuma delas ou todas. Acrescentadas à ocasião. Enfim, com a ligeireza do computador se tornou possível contornar uma barreira irremediável: as muralhas ideológicas e partidárias que só permitem enxergar o erro na seara do adversário. Ou ainda a contumácia da cegueira coletiva do rebanho que caminha rumo ao abismo por estar habituado a seguir seu pastor.

A ignorância da inexperiência

A primeira reação dos alvos das manifestações foi de estupefação. No caso da presidente Dilma Rousseff, a perplexidade pode ser explicada tanto pela incompetência absurda de seu serviço de inteligência, que ela viria depois a expor publicamente no ridículo episódio da indignação contra a “espionagem” americana quanto pela ignorância da inexperiência. A presidente que foi eleita de saída sem nunca ter sido sequer síndica de prédio teve na própria biografia uma explicação até razoável para seu mutismo quando soube da presença das multidões nas ruas e da evolução das manifestações.

Seu “espírito santo de orelha”, Padim Lula de Garanhuns, também não foi um conselheiro de muita utilidade ao deixar escapar duas linhas de explicação sobre o inesperado. A primeira delas, adotada com sofreguidão por alguns acólitos antes que percebessem a oportunidade de fazer do limão dos protestos a limonada da demagogia, foi a de que se tratava de uma manifestação da direita que sempre hostilizou a governança petista e foi para a rua lamentar os privilégios perdidos. O velho preconceito às avessas dos populistas contra a classe média inspirou a patacoada. A segunda, embora não mais sensata, foi, pelo menos, mais esperta: o povo reclamou nas ruas porque sua vida melhorou e ele quer mais. Esta, pelo menos, tem como pressuposto uma observação inteligente de como as multidões se comportam. De fato, à medida que conquistam algumas coisas logo passam a exigir mais. Como dizia minha avó, lá no sertão do Rio do Peixe, se você der a mão, lá vêm eles puxando seu braço. Filha de coronel da Guarda Nacional dos tempos de antanho, ele antecipou a constatação dos neocoronelistas petelhos em tempo de monstro da opinião pública despertando e rugindo na rua.

O marketing do “querem mais”

Quando sentiu a força existente na explicação do “querem mais”, a equipe de marqueteiros da República petista alinhavou um discurso que a presidente poderia chamar de seu. E, apesar do atraso, ela recorreu ao velho truque de seu antecessor, patrono, padrinho e paraninfo Luiz Inácio Lula da Silva: convocou rede de televisão e partiu para a cara-dura explícita, técnica aprendida do velho inimigo que virou parceiro, Paulo Maluf, o filhote da ditadura militar, que ela combateu de armas na mão.

No horário nobre, adotando seu velho estilo “balança, mas não cai”, adotado nos carnavais de Recife pelos bonecos de Olinda, a chefe do governo, demonstrando insegurança e falta de convicção, leu um texto preparado pelo mago do marketing político, o baiano João Santana, o Patinhas do grupo Bendegó de música popular. No palanque eletrônico, embora sem o talento de comunicador do ex-chefe, agora no papel de Richelieu, por sobra de esperteza e falta de conhecimento para ser Maquiavel, ela mostrou que se dispunha a aceitar como definitivo o velho mote popular do “me engana que eu gosto”.

Dilma, que seria candidata à reeleição um ano e meio depois, respondeu aos recados que clamavam contra um dos maiores males da República por ela comandada, a corrupção, prometeu mandar para o Congresso uma lei que passasse a considerar a malversação dos recursos públicos “crime hediondo”. A promessa era de uma pseudo-ingenuidade e de uma hipocrisia capazes de fazer corar frade de pedra. Pois quem a fez já tinha readmitido na Esplanada de seu Ministério antigos colaboradores defenestrados de seus gabinetes por denúncias de “malfeitorias” explicitas. Seu ministro do Trabalho, Carlos Lupi, por exemplo, substituído por um dissidente do Partido Democrático Trabalhista (PDT), Brizola Neto, descendente direto do fundador da sigla, voltaria a pontificar na pasta com seus homens de confiança, que, como manda a lógica, logo passaram a ser investigados pela Polícia Federal (PF) pelos mesmos delitos denunciados anteriormente. Tudo isso para manter a sigla no palanque de outubro de 2014. O cinismo retórico é de tal dimensão que o ministro nomeado pelo presidente pedetista, Manoel Dias, prometeu fazer um “pente-fino” nas acusações contra seus auxiliares num “mutirão”, em tudo por tudo lembrando a palavra “faxina” usada pela “gerentona” em 2012.

Outros detalhes passaram despercebidos na proposta de Sua Excelência. A primeira de todas é que o maior rigor da lei não depende do texto proposto pelo Poder Executivo, que a criaria, mas do Legislativo, que a debateria e aprovaria, ou não. Começou, com isso, uma guerra suja entre o governo que propunha e o Congresso que fatalmente seria acusado de recusar sua proposta. No período de Termidor (período da Revolução Francesa em que rolaram na guilhotana as cabeças de radicais como Robespierre), em que a fúria das ruas desaguaria, como, de hábito, ocorre em todo lugar e quaisquer períodos da História da humanidade, tudo que parecia sólido se desmancharia em troca de farpas e outros hábitos deletérios da política cortesã brasileira.

Voto se ganha com saliva

Além disso, a classificação de sequestro como “crime hediondo” não impediu que a modalidade criminosa continuasse prosperando no Brasil de Dilma e nos Estados governados por opositores, como o tucano Geraldo Alckmin em São Paulo e aliados, como Sérgio Cabral no Rio. É evidente que não se combate um delito com saliva. Isso, na verdade, nunca importou nem a Dilma nem aos parlamentares que a apoiam ou se opõem a seu governo. Afinal de contas, é com saliva que se ganha voto. Sempre foi.

A questão da corrupção, contudo, não proporcionou ao governo contestado nas ruas seu momento máximo de prestidigitação. O leit motiv inicial dos protestos – as tarifas dos transportes públicos – motivou mais um lance da demagogia marqueteira palaciana com o anúncio de miragens para resolver o que passou a ser chamado de “mobilidade urbana”, expressão que substituiu outra, mais plebeia e menos charmosa, a do “transporte coletivo de massa”. Os grandes protestos começaram reclamando do aumento da tarifa dos ônibus metropolitanos, outro produto da malandragem federal ajudada pelos lances de oportunismo rastaquera praticados por petistas, aliados e oposicionistas, tucanos ou não, nos âmbitos das grandes cidades e dos Estados. Pressionada pela possibilidade de uma explosão inflacionária no começo do ano, dona Dilma apelou para governadores e prefeitos para adiarem os anúncios de reajustes de tarifas de transportes para depois. Foi mais uma manifestação de amadorismo de gestão a dar com os burros n’água. Os dados da realidade são simples e cruéis: o transporte público urbano brasileiro é ruim, muito ruim, trágico para seus usuários e paradisíaco para as gestões públicas e seus associados empresários concessionários. Mas “nunca antes na História deste País”, como diria o Painho Lula de Caetés, ninguém havia reclamado dessa associação perversa entre Estado e capitalismo selvagem na fixação de tarifas pagas pelos pobres para ajudar a sustentar empresas habituadas a agir em cartéis, denominação benevolente para suas práticas mafiosas. O calendário era favorável e o a efeméride dissolvia na indiferença geral reajustes aparentemente modestos que resultavam em obrigações escorchantes para os passageiros de ônibus em péssimo estado de conservação e que oferecem à clientela desconforto e risco. Benesses concedidas em férias, os decretos fixando novos preços se dissolviam na desmobilização das férias de início do ano e passavam batidos. Se Dilma foi incauta, os gestores estaduais e municipais misturaram indiferença, insensibilidade e ânimo bajulatório ao aceitarem a proposta da gestora-mor de empurrar o aumento inevitável para o meio do ano evitando assim o desconforto da inflação naquele momento. Governadores e prefeitos – como o oposicionista Alckmin, do maior Estado da Federação, e o petista Haddad, do município mais rico e populoso – não resistiram à oportunidade de prestar um servicinho à guardiã dos cofres da poupança nacional e a acompanharam no salto ao abismo da popularidade descendente. Foi um deus-nos-acuda.

A gargalhada de Talleyrand na tumba

Grupelhos radicais, agitando bandeiras irrealistas de “tarifa zero”, assomaram à cena e, mobilizando as massas em redes sociais, ganharam a imerecida fama de condutores do processo de queixas mais espetacular da História do Brasil. O Movimento do Passe Livre – teve seus dias de fama no junho em que o gigante do Hino Nacional teria despertado de seu berço esplêndido. Seus líderes saíram do merecido anonimato para uma fama breve e condizente com os tempos de celebridades febris, céleres e fugazes da era da informação e da tecnologia. A fama dessa gente despreparada teve seu momento de glória quando os líderes juvenis deram ao patriarca de São Bernardo a oportunidade de procurar Dilma e Haddad para aconselhar o óbvio: que cancelassem imediatamente o aumento. Prefeitos e governadores, entre os quais Alckmin, atenderam à profecia do profeta de Vila Euclides. E Charles Maurice de Talleyrand-Périgord, o original, não só se mexeu: também gargalhou na tumba.

Governadores e prefeitos, sob o olhar divertido de Lulinha da Silva, que, como sempre, nada sabia, nada via e nada ouvia, deram duas contribuições para que o movimento contra tarifas virasse um espetacular protesto nacional generalizado contra as piores mazelas do Estado brasileiro: a corrupção, a inflação e a péssima gestão pública, principalmente no que concerne a setores prioritários – saúde, educação e segurança pública. Primeiro, mandaram a polícia despreparada açular as multidões com spray de pimenta, bombas de efeito moral e balaços de borracha. Foi o que bastou para voltarem aos meios de comunicação as imagens da luta dos estudantes e, depois, dos operários e da classe média contra a ditadura militar nos anos 60 e 70 do século XX. Passeata dos 100 mil. Comícios pelas diretas já. Os jornais e revistas, as emissoras de rádio e televisão, as redes sociais e a mídia ninja passaram a brilhar chamando mais gente para a rua.

Depois, os gestores da má gestão pública aceitaram, praticamente sem condições, atender às reivindicações da garotada frenética do MPL, provocando aquela sensação de vitória que só poderia dar em mais engajamento em hordas e a euforia que torna a covardia coragem com a adesão entusiástica das multidões. Mais gente passou a enfrentar mais policiais despreparados, destreinados e sem comando e os encarregados dos negócios públicos mandavam bater quando era para negociar e tentavam negociar quando tinham de reprimir.

Em 24 de junho, a presidente recebeu as lideranças do MPL e as projetou no palco do debate político nacional. Marcelo Hotimsky, um dos líderes do MLP recebidos por ela, considerou a “Presidência despreparada para o debate”. Disse o rapaz: “A gente viu a Presidência completamente despreparada. Eles não mostraram nenhuma pauta completa para modificar a situação do transporte no país, que é de fato muito precária. Eles mostraram uma incapacidade muito grande de entender a pauta do momento, falaram que vão estudar e abriram este canal de diálogo que a gente considera importante sim”. Foi um diagnóstico irreverente e certeiro.

Mas, ancorada na malandragem explícita do marketing político do Palácio, dona Dilma tinha mais cartas na manga da blusa. A mais inteligente e mais cínica de todas foi a cartada genial com que ela vendeu para a multidão enfurecida a solução mágica para o problema insolúvel da indigente saúde pública nacional. Filas de um ano e meio para consultas urgentes, pacientes morrendo nas portas de hospitais, ambulâncias paradas por falta de macas, usadas em corredores para a paciente espera da morte pelos doentes, falta de gaze, de médicos, de enfermeiros, de tudo. Tudo parecia o fim para quem desconhecia o alcance da ignorância e da falta de escrúpulos de um governo que, constituído para acabar com tudo o que está aí, nunca moveu uma pedra para fazê-lo. A solução mirabolante para o problema insolúvel – o tal programa Mais Médicos – nasceu de uma observação canalha do inferno dantesco vigente. Tudo parece muito simples, mas, na verdade, exige observação, insensibilidade e uma dose cavalar de crueldade. Quem leva um ano e meio para receber um cliente? A presidente? O senador? O deputado federal? O deputado estadual? O vereador? O ministro da Saúde? O secretário? O governador? O prefeito? Nada disso! O médico. Eureca, bingo, PT saudações. Nunca ninguém tinha partido de algo tão brutal e tão óbvio ao mesmo tempo. E a estratégia do governo de Dilma apontou o dedo para os médicos sem nunca tê-lo desviado para ninguém mais. Embora isso tenha sido feito com avanços e recuos, idéias luminosas e erros espetaculares, que uma operação de marketing dessas proporções poderia propiciar.

Direto de Cuba para as brenhas

Os médicos brasileiros não querem ir para o sertão nem para a periferia das metrópoles. Dizem que é uma questão de amor à própria vida, mas, na verdade, é zelitismo. Vamos, então, desenterrar uma velha iniciativa não levada à prática pelo governo anterior: trazer médicos de Cuba para os brasileiros pobres consultarem. Lula havia tentado, mas não teve clima para trazer profissionais da cura tratando-os como escravos em território nacional remunerando, a peso de ouro, seus capitães de mato, os tiranetes da família Castro. O ministro Alexandre Padilha, candidato do PT ao governo de São Paulo, única joia que ainda faltava em sua coroa, recheou a empada com o acréscimo de pessoas de jaleco importadas da crise européia, principalmente Portugal e Espanha. Não caiu bem. Logo vieram os idiotas da objetividade para lembrar que a medicina cubana é indigente e que a princesa Isabel havia abolido a escravidão em território brasileiro. Mas, mesmo vaiada no Estádio Mané Garrincha, na abertura da Copa das Confederações, Dilma é craque de bola e driblou os opositores. Fingiu que iria pela direita, voltou para a esquerda e arrematou: gol de Padilha, gol de Dilma, gol de Fidel e Raul. O único empecilho de monta para a entrada dos caribenhos em nossas brenhas foi resolvido com uma canetada: os paramédicos fantasiados não precisaram mais se submeter ao exame de revalidação de seus diplomas, o Revalida.

Tudo foi pensado para punir os médicos tupiniquins: aumentar o curso de Medicina em dois anos e forçá-los a trabalhar sob remuneração vil por conta do falido Sistema Único de Saúde (SUS) foi a pérola que brilhou na ostra. O governo recuou e os médicos nacionais, incentivados por seus conselhos corporativistas, foram receber os escravos de jaleco vindos de Cuba com xingamentos no aeroporto. Racistas. Elitistas. Interesseiros. E a classe médica entrou no exército de “porcos” da oposição. Enquanto isso, o doutor Padilha, um ilustre Zé Ninguém, ganhou manchetes diárias e tornou viável o sonho de Lulinha de fazê-lo pretendente a ocupar o bastião que ainda se mantinha em poder dos inimigos de vôo curto e bico comprido no Palácio dos Bandeirantes. Em marketing, Lula, dez; tucanos, zero.

Prometida a reforma que ninguém pediu

O marqueteiro-mor João Santana também não deixa a chefe decepcionar o padrinho. Nunca, em nenhuma manifestação de rua, o povo pediu reforma política. Mas a “presidenta” insistiu tanto que o povo a queria que conseguiu, mesmo despencando nas pesquisas de opinião pública, aprovação da multidão para a ideia genérica fazendo praça de um projeto preparado para manter o PT no poder pela eternidade dos séculos, amém, modificando a legislação eleitoral para beneficiá-lo. De um texto alinhavado pelo deputado Henrique Fontana (PT-PE), foram copiadas as premissas básicas: financiamento público de campanha para o cidadão-contribuinte financiar palanques e programas milionários em rádio e TV dos governistas; voto em lista para preencher as bancadas majoritárias com pessoas de confiança dos comandantes do partido; e mais o brilhareco falso de miçangas sem valor: extinção do voto secreto nos parlamentos e das suplências sem votos no Senado Federal. Isso sem contar, é claro, com outras medidas a serem acrescentadas ao longo do tempo como soi acontecer com as árvores de Natal das Medidas Provisórias (MPs) que entram em votação.

Não se pense, contudo, que, enquanto Dilma evoluía na avenida, os macacos velhos do Congresso ficaram esperando ver a banda dela passar. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), prometeu uma “agenda positiva”, que resultou no atendimento direto a uma das reivindicações da rua, a extinção do Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 37, que, em teoria, e só em teoria, tirava poder do amado Ministério Público (MP) em benefício da odiada polícia. Outras “lanas caprinas” foram apresentadas para tirar o povaréu da rua: engessamento do Orçamento para dar mais recursos (mas não necessariamente gestão mais eficiente) à saúde e educação e distribuição igualitária dos royalties do pré-sal, que nem sequer foi tirado da terra. Enquanto isso, ninguém lamentou o feito mais espetacular dos governos Lula e Dilma: a decadência semifalimentar da Petrobras, aquela que foi criada sob o lema otimista do “petróleo é nosso”.

No meio do lufa-lufa da disputa entre Congresso e Dilma para concluir quem, afinal, mais engana o povo e mais amado por isso é, foram registradas duas das mais óbvias evidências de que a vaga de indignação popular de todos contra tudo havia escoado pelos esgotos povoados pelos ratos mais oportunistas e covardes da História do Brasil. Em votação secreta, é claro, a Câmara dos Deputados, sob protesto (não diga!) de seu presidente, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), fundou uma sucursal no presídio da Papuda e criou a ocupação esdrúxula de parlamentar-presidiário, mantendo em plenário o mandato do coleguinha Natan Donadon (ex-PMDB-RO). E, depois, Senado e Câmara se puseram em combate para ver que projeto se candidataria ao lugar inédito de lei criada para não valer neste País em que há leis que vingam e outras, não. Os deputados aprovaram a votação secreta universal em todos os parlamentos, simplesmente impossível de acontecer. E os senadores contrapõem seu projeto de autoria deles que limita a proibição de sigilo às votações exclusivas para cassação de mandatos de congressistas. Ah, sim!

Tudo isso é óbvio. Mas só em setembro é que ficou claro que as multidões que foram unívocas para reclamar não tinham soluções unânimes para os problemas que afligiam a todos. Em junho, com o povo na rua, Dilma viu sua popularidade despencar 24 pontos ladeira abaixo em um mês, 30 ao todo desde o recorde de novembro de 2012. Os 30 pontos para os quais caiu eram um pouco mais do que os 28 de Lula em plena efervescência da denúncia do escândalo do mensalão pelo ex-aliado Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB. Mas João Santana previu que fatos novos (o ex-prefeito do Rio César Maia os chamaria mais adequadamente de “factóides”) recuperariam lenta, mas consistentemente, a popularidade e também a preferência no voto para a reeleição. Em setembro os índices voltaram a subir. Apenas sete pontos, mas o suficiente para ela recuperar a condição de favorita à reeleição em outubro de 2014.

No sábado 7 de setembro veio a prova do começo da temporada que os marxistas de antanho chamariam de Termidor: as multidões não encheram as arquibancadas das paradas comemorativas com protestos as ruas, que passaram a ser ocupadas pelos sindicalistas empenhados em conseguir mais privilégios e rendas e, sobretudo, pela canalha miúda dos anarquistas sem bandeira, os black blocs, os anonymous, etc. Subprodutos indesejáveis das belas manifestações de cara limpa, os usuários de máscara para esconder os rostos mobilizaram oportunistas festivos de vários naipes e encurralaram os gestores públicos em sua costumeira posição dividida entre a covardia da inércia e a demagogia da disputa do voto. O inefável baiano Caetano enrolou uma camiseta na cara para simbolizar a absurda posição política correta de gente que, como o personagem de Gerson na propaganda do cigarro Vila Rica, pregou: “é preciso tirar vantagem em tudo”. E produziu o símbolo da contradição: como se manifestar pelo voto aberto e contra a queda da máscara dos vândalos baderneiros.

Beijos na barra da toga

E a contradição ganhou foros de jurisprudência na incoerência de um ministro nomeado por Dilma para o Supremo Tribunal Federal (STF) numa sessão do histórico julgamento do mensalão, no qual o Judiciário fingiu que, pela primeira vez, optaria pela justiça para todos desistindo do denominador comum da lerdeza para amparar quem beije a barra da toga. Ao tomar posse no órgão máximo do poder que julga, o advogado carioca Luís Roberto Barroso bajulou a multidão poderosa, ao definir “como algo positivo (…) essa manifestação pacífica, energia criativa e construtiva que está vindo das ruas, da sociedade brasileira, (que) certamente fará muito bem a esta população”. E, depois, ao ser convocado a manter decisão de colegiado do qual não fazia parte, que negou aos réus do governo petista o direito de não ser igual ao cidadão comum, fez-se de desentendido e fustigou a plebe ignara: “Não julgamos para a multidão, julgamos pessoas”.

Este mesmo mantra justificou o sexto e último voto a favor da discussão dos chamados embargos infringentes, voto dado pelo decano do Supremo, o paulista de Tatuí Celso de Mello. O último juiz a votar, que deu o mais pesado voto contra os “quadrilheiros” do mensalão, foi prolixo ao citar uma miríade de argumentos de outros juristas a favor de sua tese. Destaque-se de seu “sermão da montanha”, como o voto foi apelidado por causa da enxúndia, o principal motivo de sua decisão: “O dever de proteção das liberdades fundamentais dos réus, de qualquer réu, representa encargo constitucional de que este Supremo não pode demitir-se, mesmo que o clamor popular se manifeste contrariamente, sob pena de frustração de conquistas que culminaram, após séculos de lutas e reivindicações do próprio povo, na consagração de que o processo penal traduz instrumento garantidor de que a reação do Estado à prática criminosa jamais poderá constituir reação instintiva, arbitrária, injusta e racional”.

Não se tratam de “meras tecnicalidades jurídicas”, como o próprio Mello lembrou em seu voto, pobre de inspiração e recheado de justificativas prtévias. Nem, evidentemente, é o caso de “Roma locuta, causa finita” (Roma falou, a causa acabou), é claro. Pois o processo prosseguiu e, citando o mesmo decano, não houve julgamento de mérito. Aceitar discutir embargos não significa concordar com seu mérito, ou seja, a extinção de penas que não alterem a condenação, mas podem, por revisão da aceitação da “formação de quadrilha” ou prescrição de algumas, evitar o desconforto de uma prisão fechada para ex-maiorais da República.

Trata-se, contudo, de uma marcha à ré na confirmação histórica do mesmo STF, com composição diferente da que deu a vitória à aceitação de embargos, de que, ao contrário do que imaginam os políticos instalados nos Poderes republicanos, eles não têm direitos especiais para delinqüir em delitos como o famigerado “caixa 2” de campanha. A cúpula do Poder Judiciário, por seis (Ricardo Lewandowski, Luiz Antônio Dias Toffoli, Rosa Weber, Teori Zavascki, Luís Roberto Barroso e Celso de Mello) a cinco (Joaquim Barbosa, Luís Fux, Carmen Lúcia, Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello), decidiu pela lerdeza e contra a justiça, pela prorrogação quase indefinida da defesa, ou seja, pela impunidade.

Se a multidão, que se apaixonou pelo STF em boa medida por causa da decepção generalizada causada pela atuação dos outros Poderes da República, mudou de ânimo por causa desse recuo, não foi por culpa dela, mas pela evidente rejeição dos ministros à aproximação empreendida no julgamento anterior. O Judiciário é que se afastou do povo e se manteve próximo do poder, demonstrando condescedência com clientes de seus alfaiates, seus restaurantes, seus clubes e convivas no clima de congraçamento social da elite dirigente civil em Brasília. Em nome da insistência da defesa, estabeleceu-se a desigualdade dos direitos da cidadania, restituindo o velho conceito de que no Brasil o braço pesado da lei só atinge os três pés: pobres, pretos e prostitutas. Embora tenha mantido a bela retórica do pleno direito de defesa para alguns e o consolo dos adjetivos pesados contra os réus para amansar o gigante que voltou a dormir, não em berço esplêndido, mas em catre mísero, restou ao órgão máximo do Judiciário adotar um lema bem menos simpático: “Quem pode mais chora menos”.

Nesta quarta no Estadão: “O petróleo é deles?”

Nesta quarta no Estadão: “O petróleo é deles?”

Roubalheira na Petrobrás não será punida nem terá fim só com reforma política

Desde os anos 50 do século passado, quando a campanha “o petróleo é nosso” resultou na concessão do monopólio de extração e refino de óleo cru à Petrobrás, para isso criada, a esquerda brasileira passou a defendê-la com unhas e dentes. Como se a estatal fosse o mais valioso patrimônio do povo brasileiro. Será que ainda é?

Após a publicação neste jornal da entrevista que o ex-diretor de Gás e Energia da empresa Ildo Sauer deu ao Broadcast Político, serviço da Agência Estado, há, no mínimo, controvérsias a respeito de tal afirmação. Investigado pelo Tribunal de Contas da União, com os bens bloqueados por ter participado da diretoria da petroleira na época em que esta adquiriu metade do controle acionário da refinaria da belga Astra Oil em Pasadena, no Texas, o especialista reconheceu que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva “intensificou o uso político da Petrobrás”. Sauer não pertence ao chamado Partido da Imprensa Golpista, o PIG, denominação pejorativa com que os petistas definem jornalistas abelhudos que revelam falcatruas cometidas pela “companheirada” no poder. Tampouco é da oposição “revanchista”, que vive procurando pelo em ovo para destronar os populistas desse poder. Ao contrário, ele foi, isso sim, o principal assessor de Lula em petróleo e gás na primeira campanha presidencial vitoriosa deste, razão pela qual foi alçado à diretoria na empresa.

Sauer relatou que, com o advento do presidencialismo de coalizão no Brasil, “no governo Fernando Henrique”, passaram a comandar a empresa “despachantes de interesses”, a serviço de “contratistas, partidos e políticos”. A versão do técnico padece de imprecisão, mas isso não importa tanto. Acontece que a troca de cargos no Executivo por apoio político no Legislativo teve início antes, desde a promulgação da Constituição de 1988, por culpa da qual a negociata passou a ser chamada de “governabilidade”, o que tornou o Congresso um balcão de negócios e os cargos em ministérios, autarquias e estatais, moedas de troca.

Isso não tem relevância porque o técnico, que não é simpatizante do PSDB, não citou casos em que o mau uso por ele denunciado de bons empregos na cúpula da Petrobrás tenha sido flagrado e investigado nos governos Sarney, Collor, Itamar ou Fernando Henrique. Não se pode dizer o mesmo das três gestões federais do Partido dos Trabalhadores (PT) – duas sob a batuta de Lula, com Dilma Rousseff ministra de Minas e Energia, depois chefe da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da estatal, e o mandato dela mesma. Comparado com a roubalheira na Petrobrás nestes 12 anos, o “mar de lama” que levou Getúlio ao suicídio se reduz a uma reles pocinha.

Quem tiver alguma dúvida está convidado a ler o noticiário sobre a delação premiada que um ex-colega de Sauer na cúpula da petroleira, Paulo Roberto Costa, tenta obter da Justiça em troca de delatar todos os outros detentores de benefícios durante sua mais que temerária gestão na Diretoria de Abastecimento. Segundo testemunhos, o delator era carinhosamente chamado de Paulinho por Lula em pessoa. E ainda que este volte a exercitar sua recente e conveniente amnésia, desconhecendo pessoas de cuja intimidade notoriamente privou, é indesmentível que o indiciado e preso pela Polícia Federal operou sob a chefia de alguém de alta confiança do ex-presidente da República, José Sérgio Gabrielli, e ao lado da atual presidente da estatal, Graça Foster, que Dilma trata como Gracinha. Não é?

Os meios de comunicação já informaram que o preso, ora em alto destaque, dispõe da nada módica quantia de US$ 23 milhões em contas sigilosas na Suíça. Isso equivale a quase US$ 1 milhão por vez das 24 nas quais foi distinguido com a subida honra de substituir Gabrielli num dos mais acalentados sonhos de consumo de qualquer executivo que se preze no País: o maior poder na maior das empresas pátrias.

O secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, disse que a revelação feita pela Veja resulta do “desespero” da oposição ante a perspectiva de perder a eleição. Mas, conforme as pesquisas, Dilma é que está ameaçada por Marina Silva, que, se a eleição fosse hoje, a venceria. Essa bravata confirma que a lógica aristotélica não foi sua disciplina favorita no seminário. Ele já tentou desmentir João Daniel, irmão de Celso, de que teria levado malas de dinheiro de Santo André para a sede nacional do PT. Fez o diabo para apagar suas impressões digitais no escândalo do tráfico de influência de que foi acusada Rosemary Noronha, amiga de Lula. E recentemente, acusado pelo motorista Ferreirinha de tê-lo ameaçado para evitar que este contasse que carregava pacotes de dinheiro para o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, jurou que apenas lhe aconselhou prudência.

Mas sua chefe o superou em desfaçatez ao dizer que, se houve desvio na Petrobrás, “a sangria estancou”. Como fazê-lo, se ela nem sabe onde o sangue jorra? E não seria algo como: será proibido roubar se o furto anterior não tiver de ser punido? Ela distorce fatos por estar certa de que o eleitor crerá em tudo o que ela contar em troca da mais Bolsa Família. Como escreveu Ricardo Noblat, em sua coluna no Globo, ela foi, como Lula, surpreendida pelo escândalo do mensalão. Ignorou a suspeita de “malfeitos” atribuídos a Erenice Guerra, seu braço direito na Casa Civil. E se pediu desculpas a Fernando Henrique e à mulher, Ruth, sobre quem foi produzido um dos dossiês falsos chamados pelo delegado Romeu Tuma Jr. de “assassinatos de reputações”, nunca puniu os autores.

Agora Dilma quer utilizar a delação do ex-enfant gaté do PT para tornar obrigatório o financiamento público de campanhas e forçar o plebiscito para reformar a política. Nada disso tem que ver com a roubalheira na Petrobrás. É apenas uma tentativa de deixar os gatunos impunes e, em vez de puni-los, lhes transferir a posse do petróleo que, em tese, seria nosso.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 10 de setembro de 2014)

Adones Alves de Oliveira. Um amigo boa pinta, bom papo e boa praça.

Adones Alves de Oliveira. Um amigo boa pinta, bom papo e boa praça.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

Recolhendo dados sobre meu querido e velho amigo Adones Alves de Oliveira, repassados pela viúva, Helô Machado, e pelo primogênito Felipe, escrevi um pequeno perfil para o obituário do Estadão. Logo na primeira frase topei com um mistério: por que cargas d’água o pai dele o teria ido registrar em outra cidade, em outro Estado? Adones nasceu na zona rural de Equador, hoje município, mas à época distrito de Parelhas, Rio Grande do Norte, e foi registrado em Santa Luzia do Sabugi, na Paraíba. Um relato simples e curto da historiadora Maria Isabel Pimentel de Castro Pinto, minha mulher desde 9 de junho último, me esclareceu tudo.

 

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Adones Alves de Oliveira

Isabel é neta de Ageu de Castro, dentista, farmacêutico, rábula e  revolucionário de 1930, personagem de causos que José Américo de Almeida contava e Sebastião Nery reproduziu em livros. Ele foi um político de destaque nos dois Estados vizinhos e ocupou várias prefeituras. Uma delas, a de Parelhas. Ela me esclareceu que foi seu avô quem deu esta denominação ao distrito, porque ele e a população não se conformavam com a denominação fescenina que a tradição cunhou: Priquito de Maria. Esclarecido o mistério: Adones nasceu na zona rural do vilarejo que ainda tinha um nome impublicável quando se deu o parto de dona Clotilde. João Caetano, o pai, preferiu registrá-lo num lugar de nome menos profano e mais sagrado: o da santa padroeira da visão. Não ficou esclarecido? Pois é: coisas do sertão!

Este sertanejo aqui cruzou com Adones sem saber, antes sequer de conhecê-lo. Regina Coeli, minha primeira namorada, minha noiva, minha primeira mulher, mãe de meus filhos, avó de meus netos, morava no Ponto de Cem Réis em Campina Grande. Quando ia me encontrar com ela na bodega de seu pai, seu Aluísio Felizardo, descia a rua João Alves de Oliveira, nomeada em homenagem a um parente bem mais velho dele.

Também conheci-o pelas mãos de uma mulher bonita: Helô Machado, que trabalhava no arquivo da Folha de S.Paulo, em cuja redação eu era repórter da editoria local. Eles eram casados e o primogênito, Felipe, era criança quando passei a frequentar seu apartamento na rua Dr. Veiga Filho, em Higienópolis. Numa festa dessas, Belchior, que, graças à ajuda de Adones e à minha, morava numa casa em construção de Irede Cardoso, colega de Helô e minha na Folha, terminou Como nossos pais. No mesmo lugar, comemoramos a decisão de nossa amiga comum Elis Regina gravar a canção e transformá-la num clássico da música popular brasileira.

 

Adones e Helô

Adones e Helô

Fazia parte de nosso folclore particular a história de Adones levando Helô, filha de coronel da PM paulista, portanto criada com conforto na Pauliceia Dilacerada, para passar a lua de mel em Junco do Seridó, no alto da Serra da Viração, a meio caminho entre Equador e Santa Luzia e perto de Caicó, onde nosso amigo cursou o primário. Conheci bem o Junco. Quando se quer dizer que uma cidade é pequena, diz-se que só tem uma rua. Junco tinha meia. À beira da estrada, meninos vendem excelente castanha de caju torrada. E foi a estrada (o princípio da BR230, que termina na Transamazônica) que permitiu que ela tivesse futuro. Antes ficava fora do caminho. Com a rodovia, ficou literalmente no meio do caminho. Eu estudava no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, e passava férias na casa de meus pais em Uiraúna, no sertão do Rio do Peixe, também limítrofe com o Rio Grande do Norte. Antes de chegar o asfalto, o ônibus parava no posto de João Galo para um lauto e gostoso café da manhã preparado pela excepcional cozinheira dona Lourdes, mulher do dono. Um doido local, Barrão 70, ruivo sarará e feliz proprietário de um único dente na boca inteira, carregou as malas do casal para a casa de um primo de Adones, Dr. Zequinha, local escolhido para a lua de mel.

Adones com Isabel e Nêumanne no Bar do Nelson, de Lilian Gonçalves

Adones com Isabel e Nêumanne no Bar do Nelson, de Lilian Gonçalves

Pouco antes de nosso casamento, Isabel e eu recebemos Adones em casa para um almoço em família. Adones era primo do dr. Zequinha, ou seja de Alexandre Tabajara, meu sogro. Para completar as coincidências, Isabel passou a infância andando de bicicleta na meia rua do Junco. Isabel e eu o encontrávamos frequentemente no Shopping Higienópolis. Conversávamos sobre os Balduíno, fundadores de cidades sertanejas e parentes de ambos ou amigos do passado no Pedro II, Franco Paulino, e em redações: Antônio Torres, do Última Hora de São Pauloo, Cícero Afonso Vieira, lendário chefe de revisão da Folha, e Mário Leônidas Casanova, do Estadão, principalmente. Este papo já faz falta em nossas vidas.

 

Reproduzo abaixo dois textos: o que escrevi para o Estado e o discurso de Felipe na missa de sétimo dia em que encontrei muitos antigos companheiros das redações que freqüentamos da Folha e do Estadão.

Aí vão, se lhe interessar:

 

Adones, 77 anos e 2 meses, jornalista

Adones Alves de Oliveira nasceu em 15 de setembro de 1936 numa fazenda perto do distrito  de Equador, município de Parelhas, no Rio Grande do Norte, mas foi registrado numa cidade próxima, Santa Luzia do Sabugi, no Seridó paraibano, notório pela boa fibra de seus algodoeiros e pela animação das festas juninas. Estudou no internato do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, cidade onde cursou a faculdade de Filosofia e Letras e se tornou profissional de jornalismo na Revista Radiolandia e no jornal Última Hora. Em 1964, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou no Última Hora e, em 1966, entrou na Folha de S.Paulo como repórter, redator e cronista de TV e MPB. Especializou-se, então, na cobertura dos festivais de Música Popular Brasileira, nas TVs Excelsior e na Record, e no Festival Internacional da Canção, da Globo. Foi jurado nos dois últimos. Atuou como galã de fotonovela e fez parte do elenco do filme Bebel, a Garota Propaganda, de Maurice Capovilla.  Nos anos 70, trabalhou como repórter e editor de variedades do Estado de S. Paulo.  Nos 80, fez parte da redação da revista Visão e se dedicou à área de turismo: escrevendo para o Shopping News e Brasilturis, viajou pelo mundo inteiro. Casou-se com a também jornalista Helô Machado, paulistana, e com ela teve dois filhos, Felipe, que dirigiu o portal do Estadão, e Fernando, executivo da indústria fonográfica, e duas netas, Isabel e Laura, ambas de 7 anos. Morava sozinho em Higienópolis e foi surpreendido, à noite, por um infarto fulminante no miocárdio.

 

Um homem vestido de sol

Felipe Machado

A lógica natural da vida exige que todo homem, mais cedo ou mais tarde, pronuncie as temidas palavras que ameaçam dobrar a esquina desde os tempos em que o menino descobre que ninguém vive para sempre.

Meu pai morreu.

Por mais que seja aparentemente contraditório, o mais difícil não é dizer essa frase dezenas de vezes em voz alta, quando a vida em sociedade torna necessário espalhar a triste notícia entre amigos e familiares. É muito mais dolorido quando chega o momento de tentar entender e contar o que aconteceu para si mesmo, longe do carinhoso ruído e das pesadas lágrimas de quem quer sofrer junto.

É o momento mais solitário e, ironicamente, o mais universal. Os que não passaram por isso, passarão. Os que já passaram compartilham o sentimento do navegante que se vê perdido no mar após olhar ao redor e perceber que o farol se apagou.

Mais que um farol, meu pai era um sol. Por várias razões. Pelas mais poéticas, diria que ele foi um ser que irradiou luz e fez girar em sua órbita corpos celestes e terrenos, atraídos por sua inteligência, simpatia e carisma. Pelas razões mais simples, diria que ele era um sol porque andava cada vez mais obcecado pelo calor, pela sensação dos raios solares cortando sua pele como lâminas de luz. Se pudesse escolher, tenho certeza de que nessa última viagem ele teria se vestido apenas de sol.

Meu pai viajou tanto na vida que enjoou. Depois de tanto tempo escrevendo sobre música e arte, foi escrever sobre o mundo. E gostou. Engraçado porque sempre me lembro dele voltando de algum lugar, nunca indo. Talvez eu tenha ficado com essa impressão porque viajar é sempre uma folha em branco, colorida com opiniões e impressões somente depois que se volta. As palavras, suas únicas companheiras constantes em todas as viagens, esperavam ansiosamente até chegar em casa para poder descansar das aventuras nas folhas de papel.

Antes das viagens, meu pai escreveu sobre música. Acho que foi sua grande paixão, mais forte do que o cinema, a literatura, a arte. Tinha orgulho de ver o sobrinho, meu primo Pedro, dividir o palco com as maiores orquestras do mundo. Nos últimos tempos, quando a saúde o obrigou a ficar mais introspectivo, a música se tornou ainda mais parte da sua vida, do seu corpo, da sua alma. Como nós respiramos, comemos e dormimos, meu pai ouvia música.

A vida do meu pai foi uma sinfonia. O primeiro movimento começou devagar, Andante, nos confins do Sertão do Brasil. Os documentos diziam que o filho da minha avó Clotilde e do meu avô João Caetano veio ao mundo em 15 de setembro de 1936 em Santa Luzia, Paraíba, mas ele insistia em dizer que havia nascido em uma fazenda no meio do nada em Equador, Rio Grande do Norte. O amor pelo sol deve ter nascido aí. Ao remexer em papeis antigos, descobri coisas e histórias que ele nunca me contou em vida – e nunca mais contará.

Resta ler que ele fez o primário no Ginásio Diocesano Seridoense, em Caicó, Rio Grande do Norte, uma cidade da qual eu nunca ouvi falar. Como um dos seus irmãos ficou no Rio Grande do Norte, um outro foi para Pernambuco e os outros ficaram na Paraíba, nunca pensamos na infância do meu pai em termos geográficos muito bem definidos: para nós, o lugar de origem do meu pai, o paraíso encontrado onde eu e meu irmão passamos tantas férias, era, simplesmente, o Nordeste.

O segundo movimento da sinfonia Adoniana, Presto, começou com uma viagem que mudou sua vida. Em 1951, o corajoso garoto de quinze anos chegou sozinho ao Rio de Janeiro, para estudar no prestigioso internato Colégio Pedro II. De lá sabemos apenas que fez grandes amizades e desenvolveu o amor pelo cinema, a música e as palavras. Gostou tanto delas que entrou para a Faculdade Nacional de Filosofia, onde cursou Letras Neo-Latinas. E de lá saiu direto para a redação da revista Radiolândia, onde passou a escrever sobre os artistas e as paradas de sucesso.

Em 1960 começa o terceiro e fortíssimo movimento dessa sinfonia: Adones muda-se para São Paulo para escrever no jornal Última Hora. E daí vieram os convites para ser jurado dos grandes festivais, os empregos nos grandes jornais da cidade, Folha e Estadão, as assessorias de imprensa para políticos, as bienais de arte, as intermináveis viagens. Ainda na Folha, conheceu uma jornalista chamada Helô Machado, por quem se apaixonou. Como não se apaixonar? Minha mãe era linda, talentosa, chique. E continua assim até hoje.

O quarto e último movimento da sinfonia do meu pai combina com seu nome. Adágio, Adones. Aposentado, passou a curtir a vida lentamente. Aproveitou para brincar com as netas, Bebel e Laura, conversar com os amigos na praça, passear por Higienópolis, bairro onde se sentia verdadeiramente em casa. O lugar, aliás, que escolheu para viver e morrer, em 24 de julho de 2014.

Meu pai morreu.

 

Adones e Felipe bebê

Adones e Felipe bebê

É duro para um filho dizer isso, mas não sei se cheguei a entender meu pai. A amar, sim, claro, mas acho que nunca cheguei a compreendê-lo direito. Não sei se esse sentimento também é universal, mas para mim meu pai foi um enigma. Nunca se abriu, nunca foi de contar muitas histórias da infância. Conversávamos sobre as músicas dos outros, os livros dos outros, a vida dos outros. E agora tento descobrir quem ele realmente era sem sua presença, lutando para entender as pequenas letras nos diários esquecidos em caixas no fundo do armário. Não há legendas, nem rodapés de página para explicar. As memórias morreram com ele, uma pena. Só nos resta ficar aqui, eu, minha mãe e meu irmão, sozinhos, pensando como seria a vida que nunca mais será.

 

 

Machado e a picareta

Machado e a picareta

José Nêumanne

Pareceu à autora Patrícia Secco uma ideia genial, um ovo de Colombo: apresentar ao Ministério da Cultura (MinC) projeto para simplificar algum texto de um grande escritor, contratar uma equipe, instalar um dicionário no computador e trocar palavras que não sejam familiares ao linguajar contemporâneo por outras mais fáceis para o leitor comum entender. Pois não é que o MinC autorizou que ela captasse recursos da Lei Rouanet para editar 300 mil livros e distribuí-los gratuitamente por bibliotecas e instituições do Brasil? Simplificar um gênio pode dar um dinheirinho – mais, por exemplo, do que escrever livros infanto-juvenis dos quais ninguém ouviu falar. Ela escreveu 200. Dane-se a mutilação do estilo do gênio, que vá para o inferno a turma que não aceita essa tentativa politicamente correta de popularizar um escritor difícil só por elitismo.

A primeira vítima foi apenas o maior escritor brasileiro de todos os tempos, o mulato carioca do morro do Livramento Joaquim Maria Machado de Assis. A sra. Secco não quis saber de desafios como Memórias Póstumas de Brás Cubas. E mandou sua equipe trocar “sagacidade” por “esperteza” na edição simplificada de O alienista, que, por essas artes do destino, desmascara a verdadeira intenção do projeto, que é atualizar a escrita do bruxo do Cosme Velho. Alienista era a palavra usada no século 19 para definir médicos que cuidam de “alienados mentais”. Quando estes passaram a ser dados como simples doidos, a profissão mudou de denominação para “psiquiatra”. Hoje seria “terapeuta”. Mas quem diabo leria um livro prosaicamente intitulado de O terapeuta? A sra. Secco manteve o “alienista” e não perdeu a pose.

Vociferou: “ “A ideia do projeto não é facilitar os textos, mas facilitar o acesso à leitura. Fiz uma transposição da linguagem da época para a linguagem atual. Fiquei muito chateada com as reações, porque o projeto só visa levar Machado a quem não conhece. Não é fazer com que ele deixe de ser Machado, fazer grandes modificações. É para que o leitor não fique parado ou derrapando”.
Depois do “terapeuta” vem A pata da gazela, de José de Alencar. E sabe Deus quantas mais outras falsificações literárias em nome da divulgação de textos clássicos, mas difíceis. O nome disso é picaretagem. E o único jeito é algum parlamentar mais letrado acabar com a farra de picaretas do gênero tombando primeiro Machado depois outros escritores que merecem usar esta denominação de ofício. Tipificar esse tipo de malandragem como crime já seria mais difícil, embora se devesse.

Jornalista, poeta e escritor
(Revista Imprensa, Junho de 2014, Página 19)

Negócios e ideologia juntos contra a ortografia

Negócios e ideologia  juntos contra a ortografia

Acadêmico de internet, políticos e linguista de esquerda tentam evitar acesso do povo à língua

Está nas mãos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Fux uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) em que sociedades civis de arrecadação de direitos autorais contestam a Lei 11.832, que, na opinião delas, autoriza o Estado a intervir numa atividade que é de exclusivo interesse privado. Antes de a Adin chegar a Fux, o presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal, Cyro Miranda (PSDB-GO), foi autorizado a criar um grupo de trabalho para apresentar uma proposta de aperfeiçoamento dos Acordos Ortográficos vigentes. De fato, são dois, pois a presidente Dilma Rousseff adiou a adoção do Acordo Ortográfico de Lisboa, assinado em 1990, do ano anteriormente previsto, 2013, para 2018, e permitindo que também se escreva da forma como se escrevia antes.

Paulista de São José do Rio Preto, o senador, empresário e ex-dirigente de Associações Comerciais, entrou na política seguindo no PL o ministro Guilherme Afif Domingos, secretário da Micro e Pequena Empresa. Eleito em 2010 pelo PSDB, tornou-se conhecido como líder de um grupo que se opôs à extinção dos 13.º e 14.º salários para senadores. Ficou famosa sua frase segundo a qual sentia pena de quem dependia de vencimentos de R$ 19 mil mensais com a estrutura de que dispõe o Senado. E foi uma das cabeças do movimento para convencer a presidente a adiar para as calendas a substituição das antigas regras da ortografia pelas previstas na reforma.

Gaúcha de Lagoa Vermelha, repórter de economia de origem e ex-chefe da sucursal de Brasília da Rede Brasil Sul (RBS), da família Sirotsky, filiada à Rede Globo, a senadora Ana Amélia Lemos, eleita pelo PP de Paulo Maluf numa coligação com os tucanos, tornou-se uma fiel escudeira do senador. Nem Miranda nem Lemos tiveram veleidades em autoria literária, linguística ou no ensino do português. Mas adotaram as ideias do professor Ernani Pimentel, que promove na internet pelo site Simplificando a Ortografia um abaixo-assinado a favor de suas propostas.

Ernani Pimentel, fundador do movimento Acordar Melhor, atua de forma prolífica e polêmica na internet, dizendo-se professor de português há mais de 50 anos, linguista, autor e conferencista. Mas ainda não se deu ao trabalho de informar aos militantes pela ortografia simples, tema do livro que também promove, onde se formou, onde se doutorou e onde dá aulas. Nas entrevistas que deu ao astro da TV Globo Jô Soares e a telejornais como Bom dia DF e em seus manifestos contra a reforma proposta pelos parceiros lusófonos, o guru de Miranda e Lemos não perde tempo dando sugestões para simplificar a ortografia. Ele prefere palavras de ordem do tipo “simplificar a ortografia é promover a inclusão social”.

Conforme nosso editorial A ortografia no Senado no sábado (página A3), “ele promove um abaixo-assinado pela ‘racionalização e simplificação da ortografia’, sem especificar, no entanto, o que deseja mudar. Especifica, no entanto, postular uma redução de carga horária de aulas de ortografia. Segundo o professor, hoje são ministradas 400 horas/aula desde o início do fundamental até o fim do ensino médio, e ele deseja que sejam utilizadas em torno de 150 horas”. O Google, principal instrumento de difusão de suas ideias, não é pródigo em dados a respeito de sua vida. Nem sequer lhe foi dedicado um perfil de Wikipedia.

Nos textos publicados por Ernani Pimentel em jornais como o Correio Braziliense, pode-se concluir que o mestre do guru dos senadores é o linguista Marcos Bagno. Este, sim, é conhecido e seu livro, Preconceito linguístico, é debatido seriamente no meio acadêmico. Trata-se de uma espécie de bíblia de extremistas de esquerda que consideram os cânones gramaticais expressões da cultura do opressor, pois a língua deve ser um organismo vivo, alterado a bel prazer de quem a fala, o povo em casa e na rua, e não engessada por escritores, críticos e professores.

A ortografia pode ser, de fato, de interesse negocial. A decisão de Dilma de gerar o caos permitindo conviverem a ortografia que se usava e a que resultou da reforma aceita pelos países lusófonos com aval de suas academias de letras criou um paralelismo indesejável em que se vendem dicionários, vocabulários, livros didáticos e de ficção com as duas formas de escrever. É possível que o adiamento do que tinha sido combinado da adoção da nova ortografia tenha, então, interferido na economia popular, por forçar a família pobre a adquirir material escolar novo e desnecessário. Há quem discorde, por isso, da reforma. É o caso do autor destas linhas.

Isso não quer dizer, contudo, que o Senado – cujo presidente, o peemedebista alagoano Renan Calheiros, também não é um reconhecido cultor da “última flor do Lácio, inculta e bela” – possa arvorar-se a mandar reduzir as horas de aula da ortografia e submeter a língua escrita a caprichos ideológicos ou de “mestres” de currículo ignoto. A conexão entre negócios pouco claros e interesses ideológicos é óbvia no caso. O que se consegue reduzindo horário de aulas de ortografia e abolindo o conceito de erro no uso da língua escrita é o contrário do que se prega. Os populistas que querem acabar com o analfabetismo simplificando a forma de escrever (como se isso tivesse que ver com aprender a ler e compreender o que foi lido) são, de fato, elitistas fascistoides que promovem a interdição da norma culta, ou seja, dos tesouros literários, a quem tem dificuldade para aprender a ler e entender.

Isso é similar ao neocoronelismo de quem, a pretexto de baratear as obras negando o porcentual a pagar a quem as cria, quer eliminar os direitos autorais, praticados desde o século 18, quando as Revoluções Americana e Francesa consagraram os direitos humanos. Nos dois casos, nega-se ao pobre o direito de saber para ascender social, econômica e politicamente. Para evitar tal ignomínia a lei dá à Academia Brasileira de Letras o encargo de guardiã do vernáculo.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo da quarta 30 de julho de 2014)

 

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