Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Artigos

No Estadão, “O sagrado direito de blasfemar”

No Estadão, “O sagrado direito  de blasfemar”

José Nêumanne

Os EUA e o PT não fizeram falta na “grande marcha” contra o terror dos fanáticos da fé

As multidões, calculadas em quase 4 milhões de pessoas, que foram às ruas na França protestar contra o terrorismo fundamentalista islâmico, que fuzilou toda a redação do jornal satírico Charlie Hebdo, trazem a lume neste momento duas questões de alta relevância histórica para estancar o banho de sangue por ele causado.

É lamentável constatar que a mais de 13 anos da demolição das torres gêmeas em Nova York a civilização ocidental ainda não consegue lidar de forma competente e tranquilizadora contra os arroubos selvagens de grupos marginais de brutalidade acima de quaisquer limites. E com enorme capacidade de seduzir prosélitos não apenas em territórios do Islã, mas também em sociedades livres e prósperas. Os celerados que invadiram a redação e executaram quem nela estava eram cidadãos franceses aptos a produzir e compartilhar os bens de uma sociedade próspera e livre. Só que optaram por exterminar quem não comungava com eles uma causa exógena de fanáticos de uma crença de pessoas menos favorecidas em lugares remotos. Sua ascendência africana não altera o inusitado da opção sobre a qual urge refletir e debater antes de enfrentar.

Mesmo alertado pela ocorrência do atentado mais espetacular de todos os tempos, o de Nova York em 2001, o aparato policial armado pelos Estados Democráticos de Direito laicos e liberais ameaçados pela fé cega mostrou-se incapaz e insuficiente para deter outros mais corriqueiros, mas não menos surpreendentes, como o de Paris. A redação já fora atingida antes pelo mesmo tipo de fanatismo e sob idêntica alegação: a blasfêmia. No entanto, a dupla de facínoras, pesadamente armados, não enfrentou a menor resistência para entrar no prédio e, mesmo errando de andar, chegar ao objetivo, render uma funcionária, invadir o recinto de trabalho e promover a carnificina. Os assassinos encontraram a mesma facilidade para deixar o local, matar um patrulheiro na rua à queima-roupa e sair em fuga pela cidade indefesa.

A incompetência do Estado francês foi confirmada ao longo de toda a tentativa de fuga dos assassinos e reconhecida publicamente logo depois da execução dos terroristas. Por mais absurdo que pareça ao instinto de vingança que assoma a qualquer um a clamar pela morte imediata dos criminosos, a própria execução dos fanáticos, cercados numa gráfica nos arredores de Paris, confirma a inaptidão da força policial que os perseguiu. Capturá-los vivos era essencial por todos os motivos lógicos. O mais corriqueiro deles seria obter da dupla encurralada todas as informações possíveis sobre a organização a que pertenciam e a rede de sobreviventes encarregados de executar as ordens e os objetivos dela emanados.

Chega a ser patético apelar para raciocínios mirabolantes e hipóteses nem sempre plausíveis para reconstruir os passos que levaram os irmãos Kouachi ao local e ao êxito de seu intento absurdo. Tudo seria mais simples, embora não necessariamente fácil, se eles tivessem sido presos e processados na velha e boa forma da lei. Pois assim o quebra-cabeças poderia ser montado para esclarecer o ato criminoso ao longo do processo e tornar viável o planejamento da caça a outros eventuais membros das hordas vingadoras do profeta Maomé no Velho Continente.

O atentado de Paris deixou claro que as medidas preventivas de segurança precisam ser aperfeiçoadas, mas não alterou o conceito fundamental de que só se protege a liberdade com mais liberdade. A execução dos fugitivos na gráfica pode até ter livrado o Estado francês do vexame da exibição de sua incompetência. Só que isso deveria ser tornado público para que os erros capitais cometidos pela segurança no caso não sejam repetidos doravante. Aliás, eles não resultam exclusivamente da ancestral leniência francesa. O Ocidente, incluindo os EUA, deveria repensar compreensão e ação no combate ao terrorismo.

A questão positiva resultante do massacre da redação foi a mobilização popular em defesa não apenas da liberdade de expressão, enlutada, mas fortalecida com o tiroteio ocorrido a poucos quarteirões da Bastilha, cuja queda foi o marco inicial da Revolução Francesa, no século 18. Mas também do direito à vida. Os quatro reféns de Amedy Coulibaly no mercado kosher foram capturados por acaso, como quase todas as vítimas de atentados do gênero, em geral aleatórios.

Não foi, então, a censura à liberdade de opinar ou mesmo de satirizar Maomé que inspirou o atentado ao Charlie Hebdo, mas a tentativa tirânica de impor uma crença a quem professa outros credos ou não crê. Mais do que a livre expressão, perto da Bastilha foi atacada a liberdade de viver da forma como cada cidadão quer, o que é seu direito sagrado. Assim como o é o de blasfemar. Foi a percepção desta agressão totalitária que despertou a indignação do cidadão que ocupou as ruas, desarmado. Este, contrariando preceitos politicamente corretos de que também lhe exigem obediência, assumiu a identidade da vítima (Charlie) pacificamente, sem promover desordens. A compreensão deste novo momento do convívio humano em sociedade foi de tal forma completa que os franceses, que tendem em sua maioria a desconfiar da polícia, aplaudiram os agentes da lei, cuja ação em todo esse episódio ficou patente como sendo de escudo para as balas dirigidas a esmo contra qualquer transeunte que passasse.

A “grande marcha”, denominação que lembra a chegada ao poder de uma ditadura brutal, a do comunismo chinês, expressou sua fé contra qualquer totalitarismo. Isso foi entendido por François Hollande, tido como fraco, e por Angela Merkel, conhecida como forte. Obama e Dilma (representada pelo embaixador Bustani) não compareceram ao ato, mas não fizeram falta. Neste instante crucial para o gênero humano, a Europa revelou-se autossuficiente para resgatar a civilização dos riscos de barbárie Sem o Tio Sam nem o PT.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 14 de janeiro de 2015)

No Estadão: Quase um romance e literatura da boa

No Estadão: Quase um romance e literatura da boa

Literatura – José Nêumanne –

Heloísa Seixas fala da experiência existencial do marido Ruy Castro com a emoção de quem lutou com ele todas as batalhas

O oitavo selo, de Heloísa Seixas, define-se na capa da edição da Cosac Naify como um “quase romance”. O advérbio de intensidade pode dar uma falsa ideia de descompromisso com a definição, que se limita à fácil aproximação de um alvo inalcançado. Mas, de fato, o “quase romance”, idêntica definição de Carlos Heitor Cony para seu melhor livro, Quase memória, pertence a uma estirpe muito especial e atual da mais fina flor da produção literária. O público brasileiro teve há pouco a oportunidade de conhecer algo similar em A Queda – As Memórias de um Pai em 424 Passos, de Diogo Mainardi.

oitavoOu seja, este “quase romance” é literatura boa, plena e da melhor água, uma espécie de neogênero que se tornou um dos “destinos manifestos” da melhor produção literária contemporânea. Suas raízes estão na prosa de Jorge Luís Borges, grande poeta e contista que nunca se aventurou pelo romance propriamente dito. A História universal da infâmia e praticamente todos os seus contos apontam para a trilha inversa da indicada pelo irlandês James Joyce: a da desconstrução linguística do texto de ficção esticada ao extremo. Ao contrário do “romance acabou, viva o romance” do autor de Ulisses, este é o caso de “tudo é romance ou pode ser”, insinuado pelo portenho e, guardadas as devidas proporções, seguido pela patota do new journalism, em particular Truman Capote em A sangue frio. Mas Heloísa vai além do relato jornalístico à guisa de ficção e dos truques do troca-troca entre verdade e mentira do prosador de O Aleph. Os pontos em comum entre os citados são excelência estilística e abordagem totalizante.

O cronista acadêmico Cony tornou o evento simplório do embrulho contendo textos do pai jornalista um feito estético de memória fantasiada. Em A queda, o combativo colunista político Mainardi comove o leitor pelo amor devotado ao filho, nascido com paralisia cerebral. Heloísa recorre à metáfora cinematográfica da partida de xadrez do cavaleiro medieval contra a morte no filme O sétimo selo, de Ingmar Bergman como expediente para narrar as batalhas de seu marido, o jornalista e escritor Ruy Castro, contra a cocaína, o álcool, o câncer, o enfarte, a metástase e um acidente vascular cerebral para se manter vivo e hígido.

Cada um dos oito selos relatados representa uma refrega do protagonista, “o homem”, e ainda dá conta da luta “mais vã” (apud CDA) de sua testemunha, “a mulher”. Ruy imprime na cera cada selo (ou círculo, na imagem dantesca do inferno) com heroísmo digno da outorga de medalhas de bravura. Heloísa usa o advérbio da aproximação malograda não como um facilitário, mas como mais um obstáculo a transpor. Um e outro – e o fato de serem um casal não facilita, mas dificulta a tarefa – não cativam o leitor pela piedade nem pela empáfia, mas por emoções genuínas que se liquefazem em lágrimas mudas ou se tornam sorrisos cúmplices. Este verte uma lágrima teimosa ao ler que “o homem” interrompeu a leitura do final de Carmen Uma biografia com um soluço ecoado no outro lado da linha telefônica pela “mulher”. Antes, sua alma canta quando a mulher se refere ao processo de escrita do livro que o consagrou como bíógrafo e compara: “Ao fazer as correções à mão, debruçado, o tubo de dreno se movia, ondulava como os quadris de Carmen Miranda”.


heloisaruy (1)

O autor-objeto, mimado pelas glórias de O ano pornográfico, sobre Nelson Rodrigues, e processado pelos herdeiros inconformados de “um brasileiro chamado Garrincha” (tema de Estrela solitária), protagonista de várias desgraças de seu Flamengo no Maracanã, exibiu as vísceras para o leitor a quem seduz desde os velhos tempos da revista Senhor. A autora-cúmplice compartilhou a condição de Ariadne a desvelar seu fio para legar ao público um testemunho privado, mas comum, da aceitação não resignada mais amorosa da precariedade da existência no que ela tem de belo e elegante, mas também de mísero e doloroso. Este “quase romance” contém de sobra a arte de deixar a vida escorrer em tinta preta sobre papel branco. Literatura, afinal, não é isso?

Jornalista, poeta e escritor, autor de O silêncio do delator.

O oitavo selo; autora: Heloísa Seixas; editora: Cosac Naify (192 pp., R$ 39,90)

(Publicado na Pag.C5 de O Estado de S. Paulo da quarta-feira 14 de janeiro de 2014)

Foto de Ivson

 

Compromisso com a mediocridade

Compromisso com a mediocridade

José Nêumanne

Direitistas do peito, antigos delinquentes e derrotados denotam governo medíocre

Quando a presidente reeleita Dilma Rousseff anunciou o executivo da área financeira Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, a direita reagiu com espanto e a esquerda, com raiva. No entanto, ela apenas seguiu o figurino de seu primeiro governo, inspirado em seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. No caso específico, ela foi buscar o profissional para decepar os nós da economia a serem enfrentados no segundo governo em dois lugares confiáveis: o segundo escalão da assessoria do adversário tucano, Aécio Neves, e a indicação do banqueiro amigo Lázaro de Mello Brandão, chefe do segundo maior banco privado do País e velho aliado.

O chamado mercado ficou perplexo porque não contava com a astúcia de nossa figura “chapolinesca”. Por falta de desconfiômetro e de sagacidade, os magnatas do negócio financeiro contavam com mais uma figurinha acadêmica carimbada do PT, nos moldes de Guido Mantega, o descartado, ou Aloizio Mercadante Oliva, a bola da vez na sinuca de madame. Ledo e “ivo” engano, dir-se-ia antigamente. Este escriba, precavido, não se surpreendeu por dois motivos: primeiramente, por ter aprendido a entender os atos da alta cúpula petralha no poder, sempre opostos à retórica da propaganda com a qual engana o eleitorado; e, em segundo lugar, por se lembrar de, em palestra no Conselho de Economia da Fiesp, o respeitado macroeconomista Octavio de Barros, vice-presidente do Bradesco, ter feito em priscas eras apaixonadíssimo discurso de louvação à gestão econômica do nosso padim Ciço do Agreste.

Surpreenderam-se os desatentos que não prestaram atenção nesses aparentes detalhes, que, na verdade, são essenciais. O filmete dos banqueiros tomando a comida do trabalhador para associar Neca Setubal, do Itaú, com a adversária Marina Silva era apenas uma patranha de marqueteiro. Como Napoleão espalhou a sábia lição de que “do traidor só se aproveita a traição”, aviso dado antes de mandar fuzilar o alcaguete que lhe delatou as posições das tropas inimigas, Dilma sabe que se ganha o voto com a mentira do marketing político, mas se governa com quem conhece o caminho real das pedras. Pois então: avisou que ia convidar o presidente do banco amigo, Luiz Trabuco, e o recebeu na companhia de seu Brandão, que vetou a solução, mas apresentou uma saída razoável na pessoa de Levy, ex-luminar da gestão lulista. O discurso do banqueiro rapace serve para levar os votos dos tolos. A boa gestão recomenda o uso da frieza dos dedos de tesoura disponíveis – a velha fábula de ganhar com a esquerda e guiar com a direita. Até porque, se não der certo, é só trocar. Não faltarão nomes no colete de seu Brandão.

Os futuros ministros do segundo governo que vêm sendo indicados também não foram inspirados nos discursos do palanque eletrônico, mas nas lições do mestre Maquiavel de Caetés. Que importa se a presidente da Confederação Nacional da Agricultura, Kátia Abreu, assumiu a defesa sub-reptícia de uma “ordem medieval do trabalho” (apud Miriam Leitão) ao recorrer ao Supremo Tribunal Federal contra a implementação de normas explícitas a serem obedecidas pelos proprietários rurais, acusando-as de “preconceito ideológico contra o capitalismo”? A futura ministra é uma direitista do peito, amarrada à chefe por laços de afeto e admiração mútuos, assim como a Graciosa da Petrobrás.

Antes de nomear os novos ministros, a presidente tentou transferir parte de sua responsabilidade para o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pedindo acesso à delação premiada de Paulinho do Lula e de Beto Youssef para evitar nomear receptadores de propinas da roubalheira da Petrobrás. O ex-relator do mensalão Joaquim Barbosa chamou a iniciativa de “degradação institucional”. O loquaz ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, confessou o absurdo, em vez de dar uma de João sem braço. Ficou claro que na nomeação de seu primeiro escalão a chefe do governo leva em conta apenas as notícias do dia, em vez de compulsar os prontuários de seus futuros auxiliares. O líder da minúscula bancada governista do PRB na Câmara, George Hilton, vai tomar conta do Ministério do Esporte durante a Olimpíada no Rio, mesmo já tendo sido flagrado pela polícia carregando R$ 600 mil em pacotes de dinheiro vivo num avião privado. Kátia Abreu, Eduardo Braga e Hélder Barbalho são réus na Justiça. Aldo Rebelo tem ficha limpa, mas isso não basta para, com as palavras de ordem pré-históricas do PCdoB, comandar a pasta de Ciência e Tecnologia. Deus nos acuda.

Cid Gomes foi escolhido para o Ministério da Educação, apesar de ter sido acusado de pagar com dinheiro público o aluguel de um avião particular para viajar com a família (a sogra inclusive) para a Europa. E de ter conquistado com mérito a fama de Mecenas do semiárido por pagar cachês altíssimos a cantores como Ivete Sangalo e Plácido Domingo. Não o recomenda ao cargo a acusação de ter reagido a uma manifestação de professores afirmando: “Quem quer dar aula faz isso por gosto, não por salário. Se quer ganhar dinheiro, deixa o ensino público e vai pro privado”. Sua saída do Partido Socialista Brasileiro (PSB), traindo Eduardo Campos para ficar com a presidente, que obteve votação espetacular no Ceará, o recomendou para o cargo muito mais do que o trabalho pioneiro de seu secretário adjunto de Educação, Maurício Holanda Maia, mais adequado para o cargo.

A reunião de bons burgueses com antigos delinquentes e derrotados nas urnas e o “museu de novidades” (apud Josias de Souza) não bastarão, contudo, para definir com justiça a Esplanada dos Ministérios sob Dilma 2. Sua principal característica genérica é a mediocridade ampla, geral e irrestrita. A mediocridade tirânica, que não se basta, que tudo faz para se impor e governar, é a marca do governo que nos espera e do destino que nos fará engolir.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Estado de S. Paulo na Pag. A2 da quarta-feira 31 de dezembro de 2014)

Nesta quarta no Estadão: “Larga o poço, Graciosa!”

Nesta quarta no Estadão: “Larga o poço, Graciosa!”

José Nêumanne

Orgulha-se Dilma desta Petrobrás que maltrata funcionária que ousa delatar delinquentes?

Na quinta-feira o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, resumiu numa sentença lapidar a frustração de todos os brasileiros com a roubalheira na Petrobrás, que seus subordinados estão investigando na Operação Lava Jato: “Essas pessoas roubaram o orgulho dos brasileiros”. Fê-lo em Curitiba, onde tinha ido entregar a denúncia deles à Justiça, fechando a semana que começara cobrando a demissão da diretoria da estatal, em solenidade da instituição que chefia, no Dia Internacional de Combate à Corrupção. Incapaz de tomar uma atitude que não seja para cumprir ordem da chefe, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, ali presente, ressuscitou o Conselheiro Acácio, de Eça, ao reconhecer a existência de indícios de corrupção na ex-maior empresa do Brasil (agora é a quarta, abaixo de Ambev, Itaú e Bradesco). Só depois negaria legitimidade ao cobrador, na ausência deste.

De fato, não é atribuição de Janot nomear ou demitir funcionários de uma empresa controlada pelo Estado e gerida, em última instância, pela chefe do governo, eleita pela maioria de seus proprietários, os cidadãos. No entanto, o procurador é o encarregado de zelar pela integridade, inclusive moral, das instituições. Faz parte de seus encargos combater a corrupção e denunciar os corruptos, tarefa que a própria “presidenta” encampou, de forma imprópria, na campanha em que se reelegeu. Além disso, ele, como qualquer brasileiro, está vendo nosso patrimônio erodir sob o impacto das picaretadas de um bando liderado pelo doleiro Alberto Youssef, facínora menor do Norte do Paraná. À sombra deste agiam petroleiros desavergonhados, como Paulo Roberto Costa, que o ex-presidente Lula chamava de Paulinho, Renato Duque e Pedro Barusco; e políticos do partido do governo e da base aliada, remanescentes do escândalo do roubo de Santo André, que resultou no assassínio ainda impune do prefeito Celso Daniel. E do mensalão, cujos operadores cumprem pena por graves crimes como corrupção e lavagem de dinheiro.

Se nós, pobres mortais cá na planície, nos enojamos e nos envergonhamos do noticiário que acompanhamos “diuturnamente e noturnamente”, como diria dona Dilma em seu vernáculo mambembe, o que dizer de um funcionário que, por dever de ofício, sabe tudo o que nos chega e muito mais? A reação do causídico Cardozo, ao assumir depois a defesa da diretoria da Petrobrás em entrevista, essa, sim, é que não tem propósito algum. Não tanto porque a função seria do ministro de Minas e Energia, cuja ausência mais uma vez se fez notar. Mas, sim, porque lhe cabe é chefiar, pelo menos em tese, os agentes da Polícia Federal que participam da devassa de algo que nos envergonha e mais deveria escandalizá-lo.

E agora sobram motivos para Cardozo retirar o que disse:

1) Domingo a manchete deste Estado foi: Petrobrás vale menos do que antes do pré-sal. Porque a “empresa, que chegou a valer R$ 737 bilhões em maio de 2008, hoje está avaliada em R$ 127 bilhões”.

2) No mesmo dia a Folha de S.Paulo noticiou a consequência dessa evidência da “gestão desastrosa”, da qual Janot reclamou: “25% dos investidores institucionais (fundos de pensão e investimento) reduziram, desde o início do semestre, em ao menos um terço o número de papéis negociados em Nova York que possuíam”.

3) Por causa disso, as ações preferenciais da estatal caíram anteontem 9,2%, atingindo o menor valor em mais de dez anos e levando o Ibovespa ao pior nível em nove meses. E o dólar subiu até R$ 2,75!

4) Na Veja desta semana, Lauro Jardim informa na coluna Radar: “Enquanto as maiores petrolíferas do mundo tiveram um crescimento médio acima de 20% nos últimos quatro anos, a Petrobrás desvalorizou-se 80,4% entre dezembro de 2010 e dezembro deste ano”. Exemplos: a ExxonMobil valorizou-se 24,5%; a Chevron, 26,2%; e a Shell, 17,5% – no mesmo período.

5) O Globo informou que a estatal comprou uma plataforma da SBM sem valor indicado no contrato. Para receber o US$ 1,2 bilhão da compra a vendedora teve de pagar US$ 36,3 milhões em propinas. Nem um botequim pé-sujo se manteria aberto se seu proprietário se arriscasse a assinar contratos com preço em aberto. Mas o causídico Cardozo jura que não há motivos para a diretoria da Petrobrás largar o poço…

6) Ontem o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro denunciou a estatal por suspeita de superfaturamento.

7) Graça Foster demitiu a geóloga Venina Velosa da Fonseca, assessora do delator premiado Paulo Roberto da Costa, impedindo que ela cuidasse de um “transtorno de ansiedade”, diagnosticado por uma clínica de Cingapura, para onde a tinha exilado. Isso porque esta ousou denunciar irregularidades que fizeram passar de R$ 4 bilhões para R$ 40 bilhões o custo da refinaria de Abreu e Lima (PE). A denúncia consta de documentos entregues por ela ao Valor Econômico. Neles está provado que, ao contrário do que disseram à comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) no Congresso a presidente, Graça Foster, e o diretor de Abastecimento e Refino, José Carlos Cosenza, ambos foram informados pela funcionária e não tomaram nenhuma providência. Ou seja, mentiram! A Petrobrás até tentou ontem desmentir a “empregada” Venina em nota oficial, mas não convenceu nem a Velhinha de Taubaté. Pois há cinco dias, em outra nota, garantia que foram instauradas comissões de inquérito para apurar as denúncias da geóloga. Como pôde investigar informações sem antes recebê-las?

Orgulha-se a presidente Dilma Rousseff da Petrobrás que, gerida por sua amiga Foster, por ela chamada de Graciosa, trata uma trabalhadora como agiu com a denunciante? Ou será o caso de dizer que maltratar um “empregado” que ouse desafiar e delatar delinquentes indicados pelo PT e aliados é mais uma “malfeitoria” da quadrilha que dilapida o patrimônio do povo brasileiro?

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 17 de dezembro de 2014).

Sete bons motivos para Graciosa largar o poço

Sete bons motivos para Graciosa largar o poço

José Nêumanne

Orgulha-se Dilma desta Petrobrás que maltrata funcionária que ousa delatar delinquentes?

Na quinta-feira o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, resumiu numa sentença lapidar a frustração de todos os brasileiros com a roubalheira na Petrobrás, que seus subordinados estão investigando na Operação Lava Jato: “Essas pessoas roubaram o orgulho dos brasileiros”. Fê-lo em Curitiba, onde tinha ido entregar a denúncia deles à Justiça, fechando a semana que começara cobrando a demissão da diretoria da estatal, em solenidade da instituição que chefia, no Dia Internacional de Combate à Corrupção. Incapaz de tomar uma atitude que não seja para cumprir ordem da chefe, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, ali presente, ressuscitou o Conselheiro Acácio, de Eça, ao reconhecer a existência de indícios de corrupção na ex-maior empresa do Brasil (agora é a quarta, abaixo de Ambev, Itaú e Bradesco). Só depois negaria legitimidade ao cobrador, na ausência deste.

De fato, não é atribuição de Janot nomear ou demitir funcionários de uma empresa controlada pelo Estado e gerida, em última instância, pela chefe do governo, eleita pela maioria de seus proprietários, os cidadãos. No entanto, o procurador é o encarregado de zelar pela integridade, inclusive moral, das instituições. Faz parte de seus encargos combater a corrupção e denunciar os corruptos, tarefa que a própria “presidenta” encampou, de forma imprópria, na campanha em que se reelegeu. Além disso, ele, como qualquer brasileiro, está vendo nosso patrimônio erodir sob o impacto das picaretadas de um bando liderado pelo doleiro Alberto Youssef, facínora menor do Norte do Paraná. À sombra deste agiam petroleiros desavergonhados, como Paulo Roberto Costa, que o ex-presidente Lula chamava de Paulinho, Renato Duque e Pedro Barusco; e políticos do partido do governo e da base aliada, remanescentes do escândalo do roubo de Santo André, que resultou no assassínio ainda impune do prefeito Celso Daniel. E do mensalão, cujos operadores cumprem pena por graves crimes como corrupção e lavagem de dinheiro.

Se nós, pobres mortais cá na planície, nos enojamos e nos envergonhamos do noticiário que acompanhamos “diuturnamente e noturnamente”, como diria dona Dilma em seu vernáculo mambembe, o que dizer de um funcionário que, por dever de ofício, sabe tudo o que nos chega e muito mais? A reação do causídico Cardozo, ao assumir depois a defesa da diretoria da Petrobrás em entrevista, essa, sim, é que não tem propósito algum. Não tanto porque a função seria do ministro de Minas e Energia, cuja ausência mais uma vez se fez notar. Mas, sim, porque lhe cabe é chefiar, pelo menos em tese, os agentes da Polícia Federal que participam da devassa de algo que nos envergonha e mais deveria escandalizá-lo.

E agora sobram motivos para Cardozo retirar o que disse:

1) Domingo a manchete deste Estado foi: Petrobrás vale menos do que antes do pré-sal. Porque a “empresa, que chegou a valer R$ 737 bilhões em maio de 2008, hoje está avaliada em R$ 127 bilhões”.

2) No mesmo dia a Folha de S.Paulo noticiou a consequência dessa evidência da “gestão desastrosa”, da qual Janot reclamou: “25% dos investidores institucionais (fundos de pensão e investimento) reduziram, desde o início do semestre, em ao menos um terço o número de papéis negociados em Nova York que possuíam”.

3) Por causa disso, as ações preferenciais da estatal caíram anteontem 9,2%, atingindo o menor valor em mais de dez anos e levando o Ibovespa ao pior nível em nove meses. E o dólar subiu até R$ 2,75!

4) Na Veja desta semana, Lauro Jardim informa na coluna Radar: “Enquanto as maiores petrolíferas do mundo tiveram um crescimento médio acima de 20% nos últimos quatro anos, a Petrobrás desvalorizou-se 80,4% entre dezembro de 2010 e dezembro deste ano”. Exemplos: a ExxonMobil valorizou-se 24,5%; a Chevron, 26,2%; e a Shell, 17,5% – no mesmo período.

5) O Globo informou que a estatal comprou uma plataforma da SBM sem valor indicado no contrato. Para receber o US$ 1,2 bilhão da compra a vendedora teve de pagar US$ 36,3 milhões em propinas. Nem um botequim pé-sujo se manteria aberto se seu proprietário se arriscasse a assinar contratos com preço em aberto. Mas o causídico Cardozo jura que não há motivos para a diretoria da Petrobrás largar o poço…

6) Ontem o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro denunciou a estatal por suspeita de superfaturamento.

7) Graça Foster demitiu a geóloga Venina Velosa da Fonseca, assessora do delator premiado Paulo Roberto da Costa, impedindo que ela cuidasse de um “transtorno de ansiedade”, diagnosticado por uma clínica de Cingapura, para onde a tinha exilado. Isso porque esta ousou denunciar irregularidades que fizeram passar de R$ 4 bilhões para R$ 40 bilhões o custo da refinaria de Abreu e Lima (PE). A denúncia consta de documentos entregues por ela ao Valor Econômico. Neles está provado que, ao contrário do que disseram à comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) no Congresso a presidente, Graça Foster, e o diretor de Abastecimento e Refino, José Carlos Cosenza, ambos foram informados pela funcionária e não tomaram nenhuma providência. Ou seja, mentiram! A Petrobrás até tentou ontem desmentir a “empregada” Venina em nota oficial, mas não convenceu nem a Velhinha de Taubaté. Pois há cinco dias, em outra nota, garantia que foram instauradas comissões de inquérito para apurar as denúncias da geóloga. Como pôde investigar informações sem antes recebê-las?

Orgulha-se a presidente Dilma Rousseff da Petrobrás que, gerida por sua amiga Foster, por ela chamada de Graciosa, trata uma trabalhadora como agiu com a denunciante? Ou será o caso de dizer que maltratar um “empregado” que ouse desafiar e delatar delinquentes indicados pelo PT e aliados é mais uma “malfeitoria” da quadrilha que dilapida o patrimônio do povo brasileiro?

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 17 de dezembro de 2014).

Neste domingo, no Estadão: Pra que discutir com madame?

Neste domingo, no Estadão: Pra que discutir com madame?

José Nêumanne

Marta pode ter pensado no samba famoso quando aproveitou a viagem de Dilma para pedir demissão

Os meteorologistas do Planalto Central, onde um pedaço do Cerrado goiano é interrompido pelo Distrito Federal, têm facilitadas as previsões de tempestades de verão em qualquer estação quando trovoadas fazem eco à voz da Zeus em forma de mulher, mãe e avó escandindo a palavra “querido”. Pode ser que nunca antes na história deste governo alguém tenha sido tão aquinhoado com essa inversão semântica pela presidente Dilma Vana Rousseff, a Júpiter de tailleur, quanto Marta Teresa Smith de Vasconcellos, vulgo Suplicy. Pelas consequências de tais monções verbais se poderá medir o grau de petulância da “querida”, algoz e vítima.
Não é improvável que “dona Marta d/o PT” tenha pensado no samba Pra que Discutir com Madame, de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, quando decidiu aproveitar a oportunosa ensancha de estar a “presidenta” incomunicável no avião rumo ao Catar para protocolar no Palácio do Planalto seu pedido de demissão. Mas é mais provável que tenha imaginado uma apoteose de glória: a saída do jogo aos 40 do segundo tempo com a arquibancada chamando a técnica de “burra” e aplaudindo a “atacanta” marrenta. É que não combina com as meias de seda da atrevida ex-ministra serem tiradas no vestiário, findo o primeiro tempo, junto com gentinha insignificante. Se o clã Smith de Vasconcellos permitisse o emprego de calão impróprio, a psicanalista que virou política olharia para o espelho defronte à poltrona do outro lado do divã e reconheceria que gosta mesmo é de “causar”.
A psicóloga bacharelada na PUC de São Paulo e pós-graduada em Stanford, fina flor da intelligentsia californiana, sócia da Sociedade Brasileira de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association, tem um percurso comum rumo ao socialismo: gordos saldos nos bancos e nobres carteiras na academia. Mas ninguém pode dizer que ela seja uma socialista comum. Como seus companheiros sindicalistas no Partido dos Trabalhadores (PT) e ao contrário do ex-marido Eduardo Matarazzo Suplicy, ela chegou à política nos braços do populacho. Antes de ser populista, a bisneta do barão de Vasconcellos foi popular. Dirigida por Nilton Travesso, mago da televisão comercial, e entre linhas e agulhas do costureiro Clodovil, tornou-se conhecida por um quadro de aconselhamento sobre sexo, versão moderninha do velho consultório sentimental, no programa pré-feminista TV Mulher, da Globo. Marta Teresa falava em público de um assunto que talvez nunca tivesse abordado de forma tão franca no castelo da família ou mesmo com clientes de terapia. Do divã foi falar de cama diante das câmeras e dali ao palanque, ao poder, à tribuna.
Ao contrário de sua ex-chefona, que subiu a rampa da Presidência conduzida pelas mãos de um patrono, o padim Lula da Silva de Caetés, Marta Teresa assumiu a prefeitura da maior cidade do Brasil sem empurrão nem indicação de homem algum. Do ex-marido só usou o sobrenome. Mesmo jejuna na gestão pública, deixou marcas por onde passou, sempre fiel ao estilo muito pessoal de pisar no barro das favelas com sapatos de marca. Sua arrogância produziu contrastes e pérolas na retórica política. Com altos índices de aprovação, perdeu a reeleição para o tucano José Serra, que nunca foi o mais simpático dos candidatos. No Ministério do Turismo de Lula, cunhou a sentença “relaxa e goza” como conselho jocoso aos antigos parceiros da elite branca incomodados com a muvuca dos aeroportos congestionados pelos emergentes do Plano Real, que Lula havia adotado.
No Senado da República, aonde chegou por mérito próprio, foi indicada por Lula para o Ministério da Cultura de Dilma. Mais leiga no assunto do que na atividade, produziu em dois anos de gestão mais poeira nos arquivos do que ajuda às artes. Sob a égide de Dilma, assumiu o “Volta, Lula” com paixão inversamente proporcional ao menosprezo com que o líder máximo a tratou ao passar por cima das óbvias referências dela para fazer de Fernando Haddad seu poste da vez, elegendo-o para o gabinete no palacete dos Matarazzos, que pertencera ao clã avoengo de seus três filhos. A par do desastre administrativo do companheiro pelo qual o levantador de postes a preteriu, Marta Teresa nunca confundiu petulância com orgulho e usa o rancor com frieza calculada. A sair de cena na vala comum do fosso de orquestra preferiu entoar a ária da despedida despejando no governo que larga uma tempestade de granizo com doses de veneno importado da Florença de Maquiavel e antes usado em Vassouras (RJ) por seu antecessor nesse gênero de esgrima Carlos Frederico Werneck de Lacerda.
Marta Teresa almejou que Dilma Vana se “iluminasse” para escolher uma equipe econômica capaz de recuperar a confiança e a credibilidade do governo, sabendo que, mesmo improvável, seu voto não é impossível. E que, quer o realize ou não, a ex-chefona não teria como impedir que ela venha a concretizar o sonho de voltar ao Viaduto do Chá das 5. Como Santo Agostinho, padroeiro das freiras com quem estudou no colégio Des Oiseaux, ela sabe que virtude tem hora. E lugar.
José Nêumanne, jornalista, poeta e escritor, é autor, entre outros livros, de O que sei de Lula (Topbooks)
(Publicado na Pág.E3 do Aliás do Estado de S. Paulo de domingo 16 de novembro de 2014)

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