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O mar chega ao sertão pelo Recife

O mar chega ao sertão pelo Recife

José Nêumanne Pinto

Meu caminho do sertão ao mar foi feito com uma escala: de Uiraúna a Campina Grande e, sem passar em João Pessoa, direto para Recife. O fascínio pela Rainha da Borborema começou cedinho, na infância. Cheguei, ainda pré-adolescente, ao burgo fundado por Nassau, seguindo o rumo do Atlântico, traçado por meus pais desde os ermos do Vale do Rio do Peixe.

Fui estudar num internato em Campina Grande e na biblioteca do seminário redentorista de Bodocongó encontrei-me com Karl May, com quem viajei pelo mundo afora em mil aventuras, os livros de capa azul do Tesouro da Juventude e as obras completas dos poetas cuja obra minha mãe, Mundica Ferreira, costumava dizer de cor nas noites quentes e escuras do sertão sem luz de Paulo Afonso. Destas leituras emergiu minha opção pelo mundo dos estudos, que me levou à galáxia das letras. E a paixão pela cultura fomentou e fermentou meu amor pela cidade de que tinha ouvido falar ainda menino, na leitura dos poemas de Augusto dos Anjos. Ela foi marcada pela cadência repetida dos versos iniciais de seu poema As cismas do destino: “Recife. Ponte Buarque de Macedo. Eu, indo em direção à Casa do Agra, assombrado com a minha sombra magra, pensava no destino, e tinha medo!”.

Ponte Buarque de Macedo - Foto Divulgação

Ponte Buarque de Macedo – Foto Divulgação

Ali me hospedava na casa de uma família sertaneja no Derby e perto dela, na Ilha do Retiro, campo do Sport, vi um jogo de futebol inesquecível entre o Náutico e o Cruzeiro de Belo Horizonte. Este, com Dirceu Lopes e Tostão. Mas, desculpe, não consigo escalar o time todo. O anfitrião sustentou o zero a zero com Lula; Gena, Mauro, Fraga e Clóvis: Salomão e Ivan; Nado, Bita, Nino e Lala. Salomão, médico campinense, era um volante como não há mais: clássico e elegante. Como Carlinhos, do Flamengo. Ou Araponga, que, como ele, também jogou no Campinense.

Recife, Ilha do Retiro. Foto Divulgação

Recife, Ilha do Retiro. Foto Divulgação

Ainda imberbe, passei a frequentar a intelligentsia recifense, meio sem querer querendo, forçando a barra. Numa incursão noturna, imprópria para menores de 18 anos (e eu tinha 15), fui ver o show Memórias de dois cantadores, com Edy e Teca, acompanhados por Geraldinho Azevedo, Naná Vasconcelos e Marcelo Melo (depois do Quinteto Violado), dirigidos por Carlos Fernando. Era um espetáculo de poesia popular e cancioneiro folclórico. Edivaldo Souza virou Edy Star, um dos Dzi Croquettes, e morou na Espanha. Teca Calazans casou-se com Ricardo Villas, com quem formou dupla na guerrilha de esquerda contra a ditadura militar e na música brasileira.

Foto Divulgação. Um anúncio original do TPN

Foto Divulgação. Um anúncio original do TPN

Nunca mais me esqueci de um episódio ocorrido no bar defronte ao Teatro Popular do Nordeste (TPN). Lá estavam Zélia e Ariano Suassuna, ao lado de Leda e Hermilo Borba Filho. Leda é muito amiga de meu amigo de infância Marcus Vinicius de Andrade, maestro, poeta, recifense, criado em João Pessoa. Abordei os quatro a partir daí e a conversa rolou. Na platéia, mas em fila diferente, estava o professor Jomard Muniz de Britto, acompanhando seu amigo Roberto Cavalcanti a irmã deste, a adolescente Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque. Lembrado do episódio na Casa das Rosas em São Paulo, JMB comentou:

– Pois é. Cristina me analisa desde a adolescência dela.

Na platéia, Edy Star, que mora a alguns quarteirões dali, aplaudiu. Naquela noite eu, pré-adolescente conheci de uma vez só Ariano, Hermilo, Jomard, Cristina, Roberto (co-autor de Coronel, coronéis com Marcus Vinicius Villaça), Geraldinho Azevedo, Naná, Marcelo – a fina flor da tradicionalista e da vanguardista Pernambucália de todos os tempos.

Reencontrei Jomard em jornadas pré-tropicalistas. E nunca mais perdi seu arqui-inimigo Ariano de vista. Certa vez, ele me telefonou para pedir licença (imagine!) para citar uma frase que usei ao falar de meu livro Veneno na veia num seminário de literatura em Campina Grande: “Este não é um romance de aventuras, mas o romance de nossa desventura”. Na ocasião em que o convidei para minha posse na Academia Paraibana de Letras, da qual ele fez parte e na qual ocupo a cadeira nª 1, cujo patrono é Augusto dos Anjos, Ariano me avisou que a dita sentença seria a epígrafe do capítulo em que tratava da morte do pai em seu romance inédito. E me perguntou quantos enes tinha meu nome. Respondi que eram três.

–  Como três? – questionou, intrigado.

E eu soletrei:

– Ene (primeiro)-e-u-eme-a-ene (segundo) -ene (terceiro)-e.

– Sujeitinho mais ordinário, você – ele disparou, depois de gargalhar.

Mas Ariano não foi o único interlocutor que tive na capital pernambucana. Depois que virei jornalista no Sudeste, passei a visitar a cidade por conta de compromissos profissionais. O diretor do Jornal do Brasil Mauro Guimarães me escalou para fazer a cobertura de uma reunião da Sudene. Nela Tancredo Neves, então governador de Minas, foi indicado para ser protagonista da coligação civil armada para derrubar a ditadura militar. Tomando um uísque com gelo no salão de refeições opíparas do Palácio do Campo das Princesas, arrisquei:

– Então, o sr. vai ser presidente, hein, dr. Tancredo?

– Que é isso, Zé Nêumanne? O presidente vai ser o Andreazza. Figueiredo não vai permitir que Maluf sequer se candidate.

Maluf se candidatou, Tancredo o venceu, mas não tomou posse.

Recife, Palácio do Campo das Princesas. Foto Divulgação

Recife, Palácio do Campo das Princesas. Foto Divulgação

A política seria o motivo de minhas visitas seguintes a Recife. Fui comensal dos banquetes magníficos que Gustavo Krause dava no palácio. Com meu primo Sávio Vieira (também uiraunense), passei a acompanhar em outras refeições, às vezes em suas casas, às vezes em restaurantes, Roberto Magalhães, Joaquim Francisco, José Múcio Monteiro, Marco Antônio Maciel e, naturalmente, Miguel Arraes.

Certa vez, eleito governador após o interregno do exílio durante a ditadura militar, dr. Miguel me recebeu numa casa majestosa no bairro dos Aflitos, na qual tinha funcionado o QG de sua campanha vitoriosa. Ali me deu uma entrevista para o Estadão, do qual eu era editor de Política. Fazia muito calor, o ar condicionado era muito barulhento e o assessor de Arraes, Ricardo Leitão, fazia ouvidos de mercador a meus insistentes apelos para desligá-lo. Carlos Garcia, correspondente do jornal, também não pôde me ajudar, pois nada havia entendido do que Arraes tinha dito. A única frase que consegui captar foi quando este me anunciou:

– Você não acha que já dei tempo demais para um adversário político?

– Mas, Dr. Arraes, quem sou eu para ser seu adversário político?

– Você pode não ser. Mas seu jornal é.

No arquivo do Estadão encontrei frases do governador eleito para escrever uma página de perguntas e respostas. Foi publicada domingo. Na segunda, ele me telefonou, feliz e solícito:

– Jornalista, cumprimento-o pela extrema fidelidade do que o sr. publicou em seu jornal. Não me lembro se falei aquilo. Mas pensei…

Foi Arraes quem me apresentou seu neto Eduardo Campos, primo de Malu, mulher de Bob Viana, cuja casa, herdada de Pompeia, mãe dela, na Rua das Pernambucanas, era um museu com quadros de Brennand, Cícero Dias, Vicente do Rego Monteiro e de seu chefe, meu conterrâneo e amigo João Câmara, que fez da mansão a sede da fundação que leva seu nome. Meu logradouro favorito no mundo todo é o Largo de Apipucos, onde já morava Letícia, filha de Osman Lins (autor de Avalovara e que conheci em São Paulo) e à época minha colega no Jornal do Brasil. No bairro, notório refúgio de Gilberto Freyre, também morava Thales Ramalho para cuja casa avarandada de Brasília o Recife se mudava sempre que Sávio Vieira, Helena, ele e eu nos reuníamos por lá.

Cidade do Recife vista do Alto da Sé, em Olinda. Foto Divulgação

Cidade do Recife vista do Alto da Sé, em Olinda. Foto Divulgação

Agora que Alberto da Cunha Melo, Toinho Alves, Lula Cortes, Carlos Fernando e Zé Fernandes morreram, resta-me voltar à Livraria do Paço da Alfândega, uma das mais lindas do mundo, de preferência para mais um lançamento de Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque, cuja obra-prima, Luz do abismo, foi editada no Sudeste pela Girafa, da qual eu era sócio. Ou vadear pelas ruas de Olinda com Yanê e Alceu Valença, Amelinha e Raul Córdula, Chico Pereira e Cláudia Cordeiro. Sem me esquecer de comer uma cartola supimpa no Leite, o melhor restaurante do planeta, com Lectícia e Zé Paulinho Cavalcanti, ao som do pianista Edson, de cujos dedos mágicos brota a mais pura vertente da obra do maestro brasileiro Tom Jobim.

É lá que o mar entra Pernambuco adentro até se resumir ao Riacho da Brígida, de volta às brenhas de meu sertão de origem.

Jornalista, poeta e escritor.

(Publicado na revista Uiraúna, 12a. edição, dezembro de 2014, Págs. 54 e 55)

Suingue, forró e chamego

Suingue, forró e chamego

José Nêumanne

Chico Salles é um cabra atrevido do Chabocão, no sertão do Rio do Peixe, lá de onde fui vindo. Um dos ídolos dele, como meu, como de qualquer nordestino, ou melhor, brasileiro que aprecie suingue, forró e chamego é Jackson do Pandeiro. Pois então! Ele sabe que, embora seja um dos pilares da chamada Música Popular Brasileira, seu Zé Gomes não compôs lá muita coisa e gravava o que compunha uma reca de gênios, da qual fazia parte Rosil Cavalcanti, que era pernambucano de origem, mas viveu, trabalhou e ficou famoso, com nariz de palhaço e a alcunha de Zé Lagoa, o campeão de audiência em rádio, na Campina Grande de minha adolescência. Nunca ninguém conseguiu emular Zé Jack no ritmo e na divisão. Mas Chico ousou mostrar que por trás dele havia o Rosil do Brasil. E não é que o danado se saiu bem demais na missão?! Este CD é a melhor prova de que é possível resgatar a genialidade por trás de Jackson exibindo autores do naipe de Rosil. O melhor da verve do autor na interpretação do rei do coco de umbigada foi resgatado numa coletânea primorosamente arranjada e cantada. O sousense da peste tratou o ex-entregador de pão da Panificadora das Neves em Campina Grande como ele merece: com veneração, mas sem endeusá-lo. Com isso, saem ganhando todos: a memória de Jackson, a obra de Rosil, a carreira de Chico Salles. Mas, sobretudo, acima de tudo, o prazer de ouvi-lo, de remexer com ele, ao som do xote Sebastiana, de rolar de rir com A lei da compensação, de tomar conhecimento do melhor do cerne da cultura regional em Cabo Tenório e de chorar de emoção e saudade ouvindo Tropeiros da Borborema, que foi gravada por Luiz Gonzaga, o rei do baião. Pois saiba que a versão de seu Salles não fica devendo nada ao original. Ouça e confira.

José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor.

Suingue, forró e chamego

Suingue, forró e chamego

José Nêumanne

Chico Salles é um cabra atrevido do Chabocão, no sertão do Rio do Peixe, lá de onde fui vindo. Um dos ídolos dele, como meu, como de qualquer nordestino, ou melhor, brasileiro que aprecie suingue, forró e chamego é Jackson do Pandeiro. Pois então! Ele sabe que, embora seja um dos pilares da chamada Música Popular Brasileira, seu Zé Gomes não compôs lá muita coisa e gravava o que compunha uma reca de gênios, da qual fazia parte Rosil Cavalcanti, que era pernambucano de origem, mas viveu, trabalhou e ficou famoso, com nariz de palhaço e a alcunha de Zé Lagoa, o campeão de audiência em rádio, na Campina Grande de minha adolescência. Nunca ninguém conseguiu emular Zé Jack no ritmo e na divisão. Mas Chico ousou mostrar que por trás dele havia o Rosil do Brasil. E não é que o danado se saiu bem demais na missão?! Este CD é a melhor prova de que é possível resgatar a genialidade por trás de Jackson exibindo autores do naipe de Rosil. O melhor da verve do autor na interpretação do rei do coco de umbigada foi resgatado numa coletânea primorosamente arranjada e cantada. O sousense da peste tratou o ex-entregador de pão da Panificadora das Neves em Campina Grande como ele merece: com veneração, mas sem endeusá-lo. Com isso, saem ganhando todos: a memória de Jackson, a obra de Rosil, a carreira de Chico Salles. Mas, sobretudo, acima de tudo, o prazer de ouvi-lo, de remexer com ele, ao som do xote Sebastiana, de rolar de rir com A lei da compensação, de tomar conhecimento do melhor do cerne da cultura regional em Cabo Tenório e de chorar de emoção e saudade ouvindo Tropeiros da Borborema, que foi gravada por Luiz Gonzaga, o rei do baião. Pois saiba que a versão de seu Salles não fica devendo nada ao original. Ouça e confira.

José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor.

(Este texto, que está na contracapa do novo CD de Chico Salles, Rosil do Brasil)

Chico Salles

Chico Salles

“Duas ou três coisas que sei de monsieur Morin”, por José Nêumanne Pinto

“Duas ou três coisas que sei de monsieur Morin”, por José Nêumanne Pinto

Na segunda-feira 23 de fevereiro de dois mil e cinzas, estava eu posto em sossego no sofá da sala mexendo no Twitter nos intervalos comerciais das peripécias de José Alfredo de Medeiros, tentando aprender como se narra com Aguinaldo Silva, colega de escola de Fernando Portela em Pernambuco, quando me deparei com a notícia de que, às 23h30m, a GloboNews levaria ao ar entrevista de Edgar Morin. Retuitei a boa notícia imediatamente, acrescentando a citação: “Gênio contemporâneo!”

Quem me apresentou a Morin foi o cinema. Presidente do Cineclube Glauber Rocha na minha adolescência em Campina Grande, lia tudo o que encontrasse na Livraria Pedrosa sobre a sétima arte. Um dia me deparei com um livro dele editado pela José Olympio: As estrelas: mito e sedução no cinema. Apaixonei-me, é claro, por seu estilo, ao mesmo tempo, simples e instigante. Iniciado na semiologia e na teoria da comunicação por Semiótica & literatura, do poeta concreto paulista Décio Pignatari, devorei avidamente tudo o que Umberto Eco, Roland Barthes, Marshall Mc Luhan, Abraham Moles, Max Bense e Edgar Morin publicaram nos anos 60.  Encantei-me, desde sempre, com a simplicidade do estilo deste último ao falar da complexidade, sua ideia capital, que resume sua crítica demolidora à especialização e à compartimentação do conhecimento.

Edgar Morin

Edgar Morin

Parênteses: Isabel me perguntou como foi possível conhecer tanta gente sem sair de Campina Grande àquela época. O milagre da importação do conhecimento se deveu a Zé Pedrosa, dono de uma livraria que não existe mais e uma espécie de José Olympio da Borborema. E também a uma geração de gente irrequieta que queria conhecer para debater e debater para conhecer. Bráulio Tavares, Marcus Vinicius de Andrade, José Umbelino Brasil, Zé Romão, Ronaldo Pintado, Iremar Maciel de Brito, Agnaldo Almeida, Regina Coeli do Nascimento, Carlos Aranha, Manfredo Caldas, Aderaldo Tavares, Arnaldo França Xavier, Martinho Moreira Franco, Luiz Augusto Crispim, José Adalberto Ribeiro os galegos de Dona Wanda, Ariosvaldo Guimarães, Rômulo de Araújo Lima, Flamarion Tavares Leite…

Em minha curta aventura como editor, na Girafa, publiquei, com Pedro Paulo de Sena Madureira, o belíssimo texto sobre seu pai, Vidal e os seus. E desde então o tenho acompanhado, desde uma visita remota ao Rio de Janeiro, quando revelou: “Chacrinha é um gênio da comunicação de massas”. Até as palestras recentes que andou fazendo na mesma cidade, sob o patrocínio do jornal O Globo.

A entrevista foi luminosa, incandescente, embora em alguns momentos, do alto de sua idade provecta, ele tenha incorrido numa imagem ingênua e colorida do Brasil, metamorfoseando impressões de turista com observações de filósofo.

Corri para o Twitter e registrei alguns momentos que considerei antológicos:

“Só se pode encarar a angústia da incerteza do futuro com o amor e a vida em comum”. A anotação tem que ver com a quadra atual de minha existência, em plena vivência de um casamento feliz com Isabel.

“Há duas formas de barbárie: a da crueldade e da tortura, e a gélida do poder do dinheiro e da burocracia”. Considero esta uma visão precisa, exata e profunda da realidade global. E brasileira: ele poderia estar comentando, por exemplo, a reunião da direita avara, na pessoa do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, com o centro fisiológico, representado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do PMDB, e a esquerda, afundada em corrupção até o pescoço, encarnada por Aloizio Mercadante, conspirando contra o trabalhador e o cidadão, negociando as medidas com que Dilma cuspiu nas conquistas dos trabalhadores e adiando a votação do veto dela à devolução do dinheiro tungado do contribuinte no Imposto de Renda.

Edigar Morin

Edigar Morin

“Informação não é conhecimento. Conhecimento é a organização das informações”. Um breve contra a arrogância dos comunicadores, entre os quais me incluo, e também uma visão filosófica sobre nossa atividade profissional cotidiana.

“Nada é para sempre. Tudo se regenera ou degenera”. Ou, como diria Lourenço Dantas, meu colega de trabalho, aqui ao lado, e que foi seu aluno na École Pratique des Hautes Études, em Paris, em 1971: “tudo o que não se regenera fatalmente degenera”. Isso me lembra a frase famosa de Claude Levi Straus sobre as cidades do Novo Mundo: “Vão direto da barbárie à decadência sem passar pelo apogeu”. Pois é. Sabe aquela lei de Lavoisier – “na natureza nada se perde, tudo se transforma”? O Velho Guerreiro se inspirou nela e em Morin para criar o “nada se cria, tudo se copia”.

Minha última mensagem no Twitter não registrou uma frase dele, mas uma constatação minha: “Quando todos só viam o popularesco em Chacrinha, Boni, Edgar Morin e Muniz Sodré perceberam o fenômeno cultural nele”. Um tributo meu ao legado desta grei que me abriu os olhos em plenos anos rebeldes.

Ou seja: “Abelardo Barbosa tá com tudo e não tá prosa”.

No Estadão, “O sagrado direito de blasfemar”

No Estadão, “O sagrado direito  de blasfemar”

José Nêumanne

Os EUA e o PT não fizeram falta na “grande marcha” contra o terror dos fanáticos da fé

As multidões, calculadas em quase 4 milhões de pessoas, que foram às ruas na França protestar contra o terrorismo fundamentalista islâmico, que fuzilou toda a redação do jornal satírico Charlie Hebdo, trazem a lume neste momento duas questões de alta relevância histórica para estancar o banho de sangue por ele causado.

É lamentável constatar que a mais de 13 anos da demolição das torres gêmeas em Nova York a civilização ocidental ainda não consegue lidar de forma competente e tranquilizadora contra os arroubos selvagens de grupos marginais de brutalidade acima de quaisquer limites. E com enorme capacidade de seduzir prosélitos não apenas em territórios do Islã, mas também em sociedades livres e prósperas. Os celerados que invadiram a redação e executaram quem nela estava eram cidadãos franceses aptos a produzir e compartilhar os bens de uma sociedade próspera e livre. Só que optaram por exterminar quem não comungava com eles uma causa exógena de fanáticos de uma crença de pessoas menos favorecidas em lugares remotos. Sua ascendência africana não altera o inusitado da opção sobre a qual urge refletir e debater antes de enfrentar.

Mesmo alertado pela ocorrência do atentado mais espetacular de todos os tempos, o de Nova York em 2001, o aparato policial armado pelos Estados Democráticos de Direito laicos e liberais ameaçados pela fé cega mostrou-se incapaz e insuficiente para deter outros mais corriqueiros, mas não menos surpreendentes, como o de Paris. A redação já fora atingida antes pelo mesmo tipo de fanatismo e sob idêntica alegação: a blasfêmia. No entanto, a dupla de facínoras, pesadamente armados, não enfrentou a menor resistência para entrar no prédio e, mesmo errando de andar, chegar ao objetivo, render uma funcionária, invadir o recinto de trabalho e promover a carnificina. Os assassinos encontraram a mesma facilidade para deixar o local, matar um patrulheiro na rua à queima-roupa e sair em fuga pela cidade indefesa.

A incompetência do Estado francês foi confirmada ao longo de toda a tentativa de fuga dos assassinos e reconhecida publicamente logo depois da execução dos terroristas. Por mais absurdo que pareça ao instinto de vingança que assoma a qualquer um a clamar pela morte imediata dos criminosos, a própria execução dos fanáticos, cercados numa gráfica nos arredores de Paris, confirma a inaptidão da força policial que os perseguiu. Capturá-los vivos era essencial por todos os motivos lógicos. O mais corriqueiro deles seria obter da dupla encurralada todas as informações possíveis sobre a organização a que pertenciam e a rede de sobreviventes encarregados de executar as ordens e os objetivos dela emanados.

Chega a ser patético apelar para raciocínios mirabolantes e hipóteses nem sempre plausíveis para reconstruir os passos que levaram os irmãos Kouachi ao local e ao êxito de seu intento absurdo. Tudo seria mais simples, embora não necessariamente fácil, se eles tivessem sido presos e processados na velha e boa forma da lei. Pois assim o quebra-cabeças poderia ser montado para esclarecer o ato criminoso ao longo do processo e tornar viável o planejamento da caça a outros eventuais membros das hordas vingadoras do profeta Maomé no Velho Continente.

O atentado de Paris deixou claro que as medidas preventivas de segurança precisam ser aperfeiçoadas, mas não alterou o conceito fundamental de que só se protege a liberdade com mais liberdade. A execução dos fugitivos na gráfica pode até ter livrado o Estado francês do vexame da exibição de sua incompetência. Só que isso deveria ser tornado público para que os erros capitais cometidos pela segurança no caso não sejam repetidos doravante. Aliás, eles não resultam exclusivamente da ancestral leniência francesa. O Ocidente, incluindo os EUA, deveria repensar compreensão e ação no combate ao terrorismo.

A questão positiva resultante do massacre da redação foi a mobilização popular em defesa não apenas da liberdade de expressão, enlutada, mas fortalecida com o tiroteio ocorrido a poucos quarteirões da Bastilha, cuja queda foi o marco inicial da Revolução Francesa, no século 18. Mas também do direito à vida. Os quatro reféns de Amedy Coulibaly no mercado kosher foram capturados por acaso, como quase todas as vítimas de atentados do gênero, em geral aleatórios.

Não foi, então, a censura à liberdade de opinar ou mesmo de satirizar Maomé que inspirou o atentado ao Charlie Hebdo, mas a tentativa tirânica de impor uma crença a quem professa outros credos ou não crê. Mais do que a livre expressão, perto da Bastilha foi atacada a liberdade de viver da forma como cada cidadão quer, o que é seu direito sagrado. Assim como o é o de blasfemar. Foi a percepção desta agressão totalitária que despertou a indignação do cidadão que ocupou as ruas, desarmado. Este, contrariando preceitos politicamente corretos de que também lhe exigem obediência, assumiu a identidade da vítima (Charlie) pacificamente, sem promover desordens. A compreensão deste novo momento do convívio humano em sociedade foi de tal forma completa que os franceses, que tendem em sua maioria a desconfiar da polícia, aplaudiram os agentes da lei, cuja ação em todo esse episódio ficou patente como sendo de escudo para as balas dirigidas a esmo contra qualquer transeunte que passasse.

A “grande marcha”, denominação que lembra a chegada ao poder de uma ditadura brutal, a do comunismo chinês, expressou sua fé contra qualquer totalitarismo. Isso foi entendido por François Hollande, tido como fraco, e por Angela Merkel, conhecida como forte. Obama e Dilma (representada pelo embaixador Bustani) não compareceram ao ato, mas não fizeram falta. Neste instante crucial para o gênero humano, a Europa revelou-se autossuficiente para resgatar a civilização dos riscos de barbárie Sem o Tio Sam nem o PT.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 14 de janeiro de 2015)

No Estadão: Quase um romance e literatura da boa

No Estadão: Quase um romance e literatura da boa

Literatura – José Nêumanne –

Heloísa Seixas fala da experiência existencial do marido Ruy Castro com a emoção de quem lutou com ele todas as batalhas

O oitavo selo, de Heloísa Seixas, define-se na capa da edição da Cosac Naify como um “quase romance”. O advérbio de intensidade pode dar uma falsa ideia de descompromisso com a definição, que se limita à fácil aproximação de um alvo inalcançado. Mas, de fato, o “quase romance”, idêntica definição de Carlos Heitor Cony para seu melhor livro, Quase memória, pertence a uma estirpe muito especial e atual da mais fina flor da produção literária. O público brasileiro teve há pouco a oportunidade de conhecer algo similar em A Queda – As Memórias de um Pai em 424 Passos, de Diogo Mainardi.

oitavoOu seja, este “quase romance” é literatura boa, plena e da melhor água, uma espécie de neogênero que se tornou um dos “destinos manifestos” da melhor produção literária contemporânea. Suas raízes estão na prosa de Jorge Luís Borges, grande poeta e contista que nunca se aventurou pelo romance propriamente dito. A História universal da infâmia e praticamente todos os seus contos apontam para a trilha inversa da indicada pelo irlandês James Joyce: a da desconstrução linguística do texto de ficção esticada ao extremo. Ao contrário do “romance acabou, viva o romance” do autor de Ulisses, este é o caso de “tudo é romance ou pode ser”, insinuado pelo portenho e, guardadas as devidas proporções, seguido pela patota do new journalism, em particular Truman Capote em A sangue frio. Mas Heloísa vai além do relato jornalístico à guisa de ficção e dos truques do troca-troca entre verdade e mentira do prosador de O Aleph. Os pontos em comum entre os citados são excelência estilística e abordagem totalizante.

O cronista acadêmico Cony tornou o evento simplório do embrulho contendo textos do pai jornalista um feito estético de memória fantasiada. Em A queda, o combativo colunista político Mainardi comove o leitor pelo amor devotado ao filho, nascido com paralisia cerebral. Heloísa recorre à metáfora cinematográfica da partida de xadrez do cavaleiro medieval contra a morte no filme O sétimo selo, de Ingmar Bergman como expediente para narrar as batalhas de seu marido, o jornalista e escritor Ruy Castro, contra a cocaína, o álcool, o câncer, o enfarte, a metástase e um acidente vascular cerebral para se manter vivo e hígido.

Cada um dos oito selos relatados representa uma refrega do protagonista, “o homem”, e ainda dá conta da luta “mais vã” (apud CDA) de sua testemunha, “a mulher”. Ruy imprime na cera cada selo (ou círculo, na imagem dantesca do inferno) com heroísmo digno da outorga de medalhas de bravura. Heloísa usa o advérbio da aproximação malograda não como um facilitário, mas como mais um obstáculo a transpor. Um e outro – e o fato de serem um casal não facilita, mas dificulta a tarefa – não cativam o leitor pela piedade nem pela empáfia, mas por emoções genuínas que se liquefazem em lágrimas mudas ou se tornam sorrisos cúmplices. Este verte uma lágrima teimosa ao ler que “o homem” interrompeu a leitura do final de Carmen Uma biografia com um soluço ecoado no outro lado da linha telefônica pela “mulher”. Antes, sua alma canta quando a mulher se refere ao processo de escrita do livro que o consagrou como bíógrafo e compara: “Ao fazer as correções à mão, debruçado, o tubo de dreno se movia, ondulava como os quadris de Carmen Miranda”.


heloisaruy (1)

O autor-objeto, mimado pelas glórias de O ano pornográfico, sobre Nelson Rodrigues, e processado pelos herdeiros inconformados de “um brasileiro chamado Garrincha” (tema de Estrela solitária), protagonista de várias desgraças de seu Flamengo no Maracanã, exibiu as vísceras para o leitor a quem seduz desde os velhos tempos da revista Senhor. A autora-cúmplice compartilhou a condição de Ariadne a desvelar seu fio para legar ao público um testemunho privado, mas comum, da aceitação não resignada mais amorosa da precariedade da existência no que ela tem de belo e elegante, mas também de mísero e doloroso. Este “quase romance” contém de sobra a arte de deixar a vida escorrer em tinta preta sobre papel branco. Literatura, afinal, não é isso?

Jornalista, poeta e escritor, autor de O silêncio do delator.

O oitavo selo; autora: Heloísa Seixas; editora: Cosac Naify (192 pp., R$ 39,90)

(Publicado na Pag.C5 de O Estado de S. Paulo da quarta-feira 14 de janeiro de 2014)

Foto de Ivson

 

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