Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

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Suingue, forró e chamego

Suingue, forró e chamego

José Nêumanne

Chico Salles é um cabra atrevido do Chabocão, no sertão do Rio do Peixe, lá de onde fui vindo. Um dos ídolos dele, como meu, como de qualquer nordestino, ou melhor, brasileiro que aprecie suingue, forró e chamego é Jackson do Pandeiro. Pois então! Ele sabe que, embora seja um dos pilares da chamada Música Popular Brasileira, seu Zé Gomes não compôs lá muita coisa e gravava o que compunha uma reca de gênios, da qual fazia parte Rosil Cavalcanti, que era pernambucano de origem, mas viveu, trabalhou e ficou famoso, com nariz de palhaço e a alcunha de Zé Lagoa, o campeão de audiência em rádio, na Campina Grande de minha adolescência. Nunca ninguém conseguiu emular Zé Jack no ritmo e na divisão. Mas Chico ousou mostrar que por trás dele havia o Rosil do Brasil. E não é que o danado se saiu bem demais na missão?! Este CD é a melhor prova de que é possível resgatar a genialidade por trás de Jackson exibindo autores do naipe de Rosil. O melhor da verve do autor na interpretação do rei do coco de umbigada foi resgatado numa coletânea primorosamente arranjada e cantada. O sousense da peste tratou o ex-entregador de pão da Panificadora das Neves em Campina Grande como ele merece: com veneração, mas sem endeusá-lo. Com isso, saem ganhando todos: a memória de Jackson, a obra de Rosil, a carreira de Chico Salles. Mas, sobretudo, acima de tudo, o prazer de ouvi-lo, de remexer com ele, ao som do xote Sebastiana, de rolar de rir com A lei da compensação, de tomar conhecimento do melhor do cerne da cultura regional em Cabo Tenório e de chorar de emoção e saudade ouvindo Tropeiros da Borborema, que foi gravada por Luiz Gonzaga, o rei do baião. Pois saiba que a versão de seu Salles não fica devendo nada ao original. Ouça e confira.

José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor.

Suingue, forró e chamego

Suingue, forró e chamego

José Nêumanne

Chico Salles é um cabra atrevido do Chabocão, no sertão do Rio do Peixe, lá de onde fui vindo. Um dos ídolos dele, como meu, como de qualquer nordestino, ou melhor, brasileiro que aprecie suingue, forró e chamego é Jackson do Pandeiro. Pois então! Ele sabe que, embora seja um dos pilares da chamada Música Popular Brasileira, seu Zé Gomes não compôs lá muita coisa e gravava o que compunha uma reca de gênios, da qual fazia parte Rosil Cavalcanti, que era pernambucano de origem, mas viveu, trabalhou e ficou famoso, com nariz de palhaço e a alcunha de Zé Lagoa, o campeão de audiência em rádio, na Campina Grande de minha adolescência. Nunca ninguém conseguiu emular Zé Jack no ritmo e na divisão. Mas Chico ousou mostrar que por trás dele havia o Rosil do Brasil. E não é que o danado se saiu bem demais na missão?! Este CD é a melhor prova de que é possível resgatar a genialidade por trás de Jackson exibindo autores do naipe de Rosil. O melhor da verve do autor na interpretação do rei do coco de umbigada foi resgatado numa coletânea primorosamente arranjada e cantada. O sousense da peste tratou o ex-entregador de pão da Panificadora das Neves em Campina Grande como ele merece: com veneração, mas sem endeusá-lo. Com isso, saem ganhando todos: a memória de Jackson, a obra de Rosil, a carreira de Chico Salles. Mas, sobretudo, acima de tudo, o prazer de ouvi-lo, de remexer com ele, ao som do xote Sebastiana, de rolar de rir com A lei da compensação, de tomar conhecimento do melhor do cerne da cultura regional em Cabo Tenório e de chorar de emoção e saudade ouvindo Tropeiros da Borborema, que foi gravada por Luiz Gonzaga, o rei do baião. Pois saiba que a versão de seu Salles não fica devendo nada ao original. Ouça e confira.

José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor.

(Este texto, que está na contracapa do novo CD de Chico Salles, Rosil do Brasil)

Chico Salles

Chico Salles

“Duas ou três coisas que sei de monsieur Morin”, por José Nêumanne Pinto

“Duas ou três coisas que sei de monsieur Morin”, por José Nêumanne Pinto

Na segunda-feira 23 de fevereiro de dois mil e cinzas, estava eu posto em sossego no sofá da sala mexendo no Twitter nos intervalos comerciais das peripécias de José Alfredo de Medeiros, tentando aprender como se narra com Aguinaldo Silva, colega de escola de Fernando Portela em Pernambuco, quando me deparei com a notícia de que, às 23h30m, a GloboNews levaria ao ar entrevista de Edgar Morin. Retuitei a boa notícia imediatamente, acrescentando a citação: “Gênio contemporâneo!”

Quem me apresentou a Morin foi o cinema. Presidente do Cineclube Glauber Rocha na minha adolescência em Campina Grande, lia tudo o que encontrasse na Livraria Pedrosa sobre a sétima arte. Um dia me deparei com um livro dele editado pela José Olympio: As estrelas: mito e sedução no cinema. Apaixonei-me, é claro, por seu estilo, ao mesmo tempo, simples e instigante. Iniciado na semiologia e na teoria da comunicação por Semiótica & literatura, do poeta concreto paulista Décio Pignatari, devorei avidamente tudo o que Umberto Eco, Roland Barthes, Marshall Mc Luhan, Abraham Moles, Max Bense e Edgar Morin publicaram nos anos 60.  Encantei-me, desde sempre, com a simplicidade do estilo deste último ao falar da complexidade, sua ideia capital, que resume sua crítica demolidora à especialização e à compartimentação do conhecimento.

Edgar Morin

Edgar Morin

Parênteses: Isabel me perguntou como foi possível conhecer tanta gente sem sair de Campina Grande àquela época. O milagre da importação do conhecimento se deveu a Zé Pedrosa, dono de uma livraria que não existe mais e uma espécie de José Olympio da Borborema. E também a uma geração de gente irrequieta que queria conhecer para debater e debater para conhecer. Bráulio Tavares, Marcus Vinicius de Andrade, José Umbelino Brasil, Zé Romão, Ronaldo Pintado, Iremar Maciel de Brito, Agnaldo Almeida, Regina Coeli do Nascimento, Carlos Aranha, Manfredo Caldas, Aderaldo Tavares, Arnaldo França Xavier, Martinho Moreira Franco, Luiz Augusto Crispim, José Adalberto Ribeiro os galegos de Dona Wanda, Ariosvaldo Guimarães, Rômulo de Araújo Lima, Flamarion Tavares Leite…

Em minha curta aventura como editor, na Girafa, publiquei, com Pedro Paulo de Sena Madureira, o belíssimo texto sobre seu pai, Vidal e os seus. E desde então o tenho acompanhado, desde uma visita remota ao Rio de Janeiro, quando revelou: “Chacrinha é um gênio da comunicação de massas”. Até as palestras recentes que andou fazendo na mesma cidade, sob o patrocínio do jornal O Globo.

A entrevista foi luminosa, incandescente, embora em alguns momentos, do alto de sua idade provecta, ele tenha incorrido numa imagem ingênua e colorida do Brasil, metamorfoseando impressões de turista com observações de filósofo.

Corri para o Twitter e registrei alguns momentos que considerei antológicos:

“Só se pode encarar a angústia da incerteza do futuro com o amor e a vida em comum”. A anotação tem que ver com a quadra atual de minha existência, em plena vivência de um casamento feliz com Isabel.

“Há duas formas de barbárie: a da crueldade e da tortura, e a gélida do poder do dinheiro e da burocracia”. Considero esta uma visão precisa, exata e profunda da realidade global. E brasileira: ele poderia estar comentando, por exemplo, a reunião da direita avara, na pessoa do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, com o centro fisiológico, representado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do PMDB, e a esquerda, afundada em corrupção até o pescoço, encarnada por Aloizio Mercadante, conspirando contra o trabalhador e o cidadão, negociando as medidas com que Dilma cuspiu nas conquistas dos trabalhadores e adiando a votação do veto dela à devolução do dinheiro tungado do contribuinte no Imposto de Renda.

Edigar Morin

Edigar Morin

“Informação não é conhecimento. Conhecimento é a organização das informações”. Um breve contra a arrogância dos comunicadores, entre os quais me incluo, e também uma visão filosófica sobre nossa atividade profissional cotidiana.

“Nada é para sempre. Tudo se regenera ou degenera”. Ou, como diria Lourenço Dantas, meu colega de trabalho, aqui ao lado, e que foi seu aluno na École Pratique des Hautes Études, em Paris, em 1971: “tudo o que não se regenera fatalmente degenera”. Isso me lembra a frase famosa de Claude Levi Straus sobre as cidades do Novo Mundo: “Vão direto da barbárie à decadência sem passar pelo apogeu”. Pois é. Sabe aquela lei de Lavoisier – “na natureza nada se perde, tudo se transforma”? O Velho Guerreiro se inspirou nela e em Morin para criar o “nada se cria, tudo se copia”.

Minha última mensagem no Twitter não registrou uma frase dele, mas uma constatação minha: “Quando todos só viam o popularesco em Chacrinha, Boni, Edgar Morin e Muniz Sodré perceberam o fenômeno cultural nele”. Um tributo meu ao legado desta grei que me abriu os olhos em plenos anos rebeldes.

Ou seja: “Abelardo Barbosa tá com tudo e não tá prosa”.

No Estadão, “O sagrado direito de blasfemar”

No Estadão, “O sagrado direito  de blasfemar”

José Nêumanne

Os EUA e o PT não fizeram falta na “grande marcha” contra o terror dos fanáticos da fé

As multidões, calculadas em quase 4 milhões de pessoas, que foram às ruas na França protestar contra o terrorismo fundamentalista islâmico, que fuzilou toda a redação do jornal satírico Charlie Hebdo, trazem a lume neste momento duas questões de alta relevância histórica para estancar o banho de sangue por ele causado.

É lamentável constatar que a mais de 13 anos da demolição das torres gêmeas em Nova York a civilização ocidental ainda não consegue lidar de forma competente e tranquilizadora contra os arroubos selvagens de grupos marginais de brutalidade acima de quaisquer limites. E com enorme capacidade de seduzir prosélitos não apenas em territórios do Islã, mas também em sociedades livres e prósperas. Os celerados que invadiram a redação e executaram quem nela estava eram cidadãos franceses aptos a produzir e compartilhar os bens de uma sociedade próspera e livre. Só que optaram por exterminar quem não comungava com eles uma causa exógena de fanáticos de uma crença de pessoas menos favorecidas em lugares remotos. Sua ascendência africana não altera o inusitado da opção sobre a qual urge refletir e debater antes de enfrentar.

Mesmo alertado pela ocorrência do atentado mais espetacular de todos os tempos, o de Nova York em 2001, o aparato policial armado pelos Estados Democráticos de Direito laicos e liberais ameaçados pela fé cega mostrou-se incapaz e insuficiente para deter outros mais corriqueiros, mas não menos surpreendentes, como o de Paris. A redação já fora atingida antes pelo mesmo tipo de fanatismo e sob idêntica alegação: a blasfêmia. No entanto, a dupla de facínoras, pesadamente armados, não enfrentou a menor resistência para entrar no prédio e, mesmo errando de andar, chegar ao objetivo, render uma funcionária, invadir o recinto de trabalho e promover a carnificina. Os assassinos encontraram a mesma facilidade para deixar o local, matar um patrulheiro na rua à queima-roupa e sair em fuga pela cidade indefesa.

A incompetência do Estado francês foi confirmada ao longo de toda a tentativa de fuga dos assassinos e reconhecida publicamente logo depois da execução dos terroristas. Por mais absurdo que pareça ao instinto de vingança que assoma a qualquer um a clamar pela morte imediata dos criminosos, a própria execução dos fanáticos, cercados numa gráfica nos arredores de Paris, confirma a inaptidão da força policial que os perseguiu. Capturá-los vivos era essencial por todos os motivos lógicos. O mais corriqueiro deles seria obter da dupla encurralada todas as informações possíveis sobre a organização a que pertenciam e a rede de sobreviventes encarregados de executar as ordens e os objetivos dela emanados.

Chega a ser patético apelar para raciocínios mirabolantes e hipóteses nem sempre plausíveis para reconstruir os passos que levaram os irmãos Kouachi ao local e ao êxito de seu intento absurdo. Tudo seria mais simples, embora não necessariamente fácil, se eles tivessem sido presos e processados na velha e boa forma da lei. Pois assim o quebra-cabeças poderia ser montado para esclarecer o ato criminoso ao longo do processo e tornar viável o planejamento da caça a outros eventuais membros das hordas vingadoras do profeta Maomé no Velho Continente.

O atentado de Paris deixou claro que as medidas preventivas de segurança precisam ser aperfeiçoadas, mas não alterou o conceito fundamental de que só se protege a liberdade com mais liberdade. A execução dos fugitivos na gráfica pode até ter livrado o Estado francês do vexame da exibição de sua incompetência. Só que isso deveria ser tornado público para que os erros capitais cometidos pela segurança no caso não sejam repetidos doravante. Aliás, eles não resultam exclusivamente da ancestral leniência francesa. O Ocidente, incluindo os EUA, deveria repensar compreensão e ação no combate ao terrorismo.

A questão positiva resultante do massacre da redação foi a mobilização popular em defesa não apenas da liberdade de expressão, enlutada, mas fortalecida com o tiroteio ocorrido a poucos quarteirões da Bastilha, cuja queda foi o marco inicial da Revolução Francesa, no século 18. Mas também do direito à vida. Os quatro reféns de Amedy Coulibaly no mercado kosher foram capturados por acaso, como quase todas as vítimas de atentados do gênero, em geral aleatórios.

Não foi, então, a censura à liberdade de opinar ou mesmo de satirizar Maomé que inspirou o atentado ao Charlie Hebdo, mas a tentativa tirânica de impor uma crença a quem professa outros credos ou não crê. Mais do que a livre expressão, perto da Bastilha foi atacada a liberdade de viver da forma como cada cidadão quer, o que é seu direito sagrado. Assim como o é o de blasfemar. Foi a percepção desta agressão totalitária que despertou a indignação do cidadão que ocupou as ruas, desarmado. Este, contrariando preceitos politicamente corretos de que também lhe exigem obediência, assumiu a identidade da vítima (Charlie) pacificamente, sem promover desordens. A compreensão deste novo momento do convívio humano em sociedade foi de tal forma completa que os franceses, que tendem em sua maioria a desconfiar da polícia, aplaudiram os agentes da lei, cuja ação em todo esse episódio ficou patente como sendo de escudo para as balas dirigidas a esmo contra qualquer transeunte que passasse.

A “grande marcha”, denominação que lembra a chegada ao poder de uma ditadura brutal, a do comunismo chinês, expressou sua fé contra qualquer totalitarismo. Isso foi entendido por François Hollande, tido como fraco, e por Angela Merkel, conhecida como forte. Obama e Dilma (representada pelo embaixador Bustani) não compareceram ao ato, mas não fizeram falta. Neste instante crucial para o gênero humano, a Europa revelou-se autossuficiente para resgatar a civilização dos riscos de barbárie Sem o Tio Sam nem o PT.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 14 de janeiro de 2015)

No Estadão: Quase um romance e literatura da boa

No Estadão: Quase um romance e literatura da boa

Literatura – José Nêumanne –

Heloísa Seixas fala da experiência existencial do marido Ruy Castro com a emoção de quem lutou com ele todas as batalhas

O oitavo selo, de Heloísa Seixas, define-se na capa da edição da Cosac Naify como um “quase romance”. O advérbio de intensidade pode dar uma falsa ideia de descompromisso com a definição, que se limita à fácil aproximação de um alvo inalcançado. Mas, de fato, o “quase romance”, idêntica definição de Carlos Heitor Cony para seu melhor livro, Quase memória, pertence a uma estirpe muito especial e atual da mais fina flor da produção literária. O público brasileiro teve há pouco a oportunidade de conhecer algo similar em A Queda – As Memórias de um Pai em 424 Passos, de Diogo Mainardi.

oitavoOu seja, este “quase romance” é literatura boa, plena e da melhor água, uma espécie de neogênero que se tornou um dos “destinos manifestos” da melhor produção literária contemporânea. Suas raízes estão na prosa de Jorge Luís Borges, grande poeta e contista que nunca se aventurou pelo romance propriamente dito. A História universal da infâmia e praticamente todos os seus contos apontam para a trilha inversa da indicada pelo irlandês James Joyce: a da desconstrução linguística do texto de ficção esticada ao extremo. Ao contrário do “romance acabou, viva o romance” do autor de Ulisses, este é o caso de “tudo é romance ou pode ser”, insinuado pelo portenho e, guardadas as devidas proporções, seguido pela patota do new journalism, em particular Truman Capote em A sangue frio. Mas Heloísa vai além do relato jornalístico à guisa de ficção e dos truques do troca-troca entre verdade e mentira do prosador de O Aleph. Os pontos em comum entre os citados são excelência estilística e abordagem totalizante.

O cronista acadêmico Cony tornou o evento simplório do embrulho contendo textos do pai jornalista um feito estético de memória fantasiada. Em A queda, o combativo colunista político Mainardi comove o leitor pelo amor devotado ao filho, nascido com paralisia cerebral. Heloísa recorre à metáfora cinematográfica da partida de xadrez do cavaleiro medieval contra a morte no filme O sétimo selo, de Ingmar Bergman como expediente para narrar as batalhas de seu marido, o jornalista e escritor Ruy Castro, contra a cocaína, o álcool, o câncer, o enfarte, a metástase e um acidente vascular cerebral para se manter vivo e hígido.

Cada um dos oito selos relatados representa uma refrega do protagonista, “o homem”, e ainda dá conta da luta “mais vã” (apud CDA) de sua testemunha, “a mulher”. Ruy imprime na cera cada selo (ou círculo, na imagem dantesca do inferno) com heroísmo digno da outorga de medalhas de bravura. Heloísa usa o advérbio da aproximação malograda não como um facilitário, mas como mais um obstáculo a transpor. Um e outro – e o fato de serem um casal não facilita, mas dificulta a tarefa – não cativam o leitor pela piedade nem pela empáfia, mas por emoções genuínas que se liquefazem em lágrimas mudas ou se tornam sorrisos cúmplices. Este verte uma lágrima teimosa ao ler que “o homem” interrompeu a leitura do final de Carmen Uma biografia com um soluço ecoado no outro lado da linha telefônica pela “mulher”. Antes, sua alma canta quando a mulher se refere ao processo de escrita do livro que o consagrou como bíógrafo e compara: “Ao fazer as correções à mão, debruçado, o tubo de dreno se movia, ondulava como os quadris de Carmen Miranda”.


heloisaruy (1)

O autor-objeto, mimado pelas glórias de O ano pornográfico, sobre Nelson Rodrigues, e processado pelos herdeiros inconformados de “um brasileiro chamado Garrincha” (tema de Estrela solitária), protagonista de várias desgraças de seu Flamengo no Maracanã, exibiu as vísceras para o leitor a quem seduz desde os velhos tempos da revista Senhor. A autora-cúmplice compartilhou a condição de Ariadne a desvelar seu fio para legar ao público um testemunho privado, mas comum, da aceitação não resignada mais amorosa da precariedade da existência no que ela tem de belo e elegante, mas também de mísero e doloroso. Este “quase romance” contém de sobra a arte de deixar a vida escorrer em tinta preta sobre papel branco. Literatura, afinal, não é isso?

Jornalista, poeta e escritor, autor de O silêncio do delator.

O oitavo selo; autora: Heloísa Seixas; editora: Cosac Naify (192 pp., R$ 39,90)

(Publicado na Pag.C5 de O Estado de S. Paulo da quarta-feira 14 de janeiro de 2014)

Foto de Ivson

 

Compromisso com a mediocridade

Compromisso com a mediocridade

José Nêumanne

Direitistas do peito, antigos delinquentes e derrotados denotam governo medíocre

Quando a presidente reeleita Dilma Rousseff anunciou o executivo da área financeira Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, a direita reagiu com espanto e a esquerda, com raiva. No entanto, ela apenas seguiu o figurino de seu primeiro governo, inspirado em seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. No caso específico, ela foi buscar o profissional para decepar os nós da economia a serem enfrentados no segundo governo em dois lugares confiáveis: o segundo escalão da assessoria do adversário tucano, Aécio Neves, e a indicação do banqueiro amigo Lázaro de Mello Brandão, chefe do segundo maior banco privado do País e velho aliado.

O chamado mercado ficou perplexo porque não contava com a astúcia de nossa figura “chapolinesca”. Por falta de desconfiômetro e de sagacidade, os magnatas do negócio financeiro contavam com mais uma figurinha acadêmica carimbada do PT, nos moldes de Guido Mantega, o descartado, ou Aloizio Mercadante Oliva, a bola da vez na sinuca de madame. Ledo e “ivo” engano, dir-se-ia antigamente. Este escriba, precavido, não se surpreendeu por dois motivos: primeiramente, por ter aprendido a entender os atos da alta cúpula petralha no poder, sempre opostos à retórica da propaganda com a qual engana o eleitorado; e, em segundo lugar, por se lembrar de, em palestra no Conselho de Economia da Fiesp, o respeitado macroeconomista Octavio de Barros, vice-presidente do Bradesco, ter feito em priscas eras apaixonadíssimo discurso de louvação à gestão econômica do nosso padim Ciço do Agreste.

Surpreenderam-se os desatentos que não prestaram atenção nesses aparentes detalhes, que, na verdade, são essenciais. O filmete dos banqueiros tomando a comida do trabalhador para associar Neca Setubal, do Itaú, com a adversária Marina Silva era apenas uma patranha de marqueteiro. Como Napoleão espalhou a sábia lição de que “do traidor só se aproveita a traição”, aviso dado antes de mandar fuzilar o alcaguete que lhe delatou as posições das tropas inimigas, Dilma sabe que se ganha o voto com a mentira do marketing político, mas se governa com quem conhece o caminho real das pedras. Pois então: avisou que ia convidar o presidente do banco amigo, Luiz Trabuco, e o recebeu na companhia de seu Brandão, que vetou a solução, mas apresentou uma saída razoável na pessoa de Levy, ex-luminar da gestão lulista. O discurso do banqueiro rapace serve para levar os votos dos tolos. A boa gestão recomenda o uso da frieza dos dedos de tesoura disponíveis – a velha fábula de ganhar com a esquerda e guiar com a direita. Até porque, se não der certo, é só trocar. Não faltarão nomes no colete de seu Brandão.

Os futuros ministros do segundo governo que vêm sendo indicados também não foram inspirados nos discursos do palanque eletrônico, mas nas lições do mestre Maquiavel de Caetés. Que importa se a presidente da Confederação Nacional da Agricultura, Kátia Abreu, assumiu a defesa sub-reptícia de uma “ordem medieval do trabalho” (apud Miriam Leitão) ao recorrer ao Supremo Tribunal Federal contra a implementação de normas explícitas a serem obedecidas pelos proprietários rurais, acusando-as de “preconceito ideológico contra o capitalismo”? A futura ministra é uma direitista do peito, amarrada à chefe por laços de afeto e admiração mútuos, assim como a Graciosa da Petrobrás.

Antes de nomear os novos ministros, a presidente tentou transferir parte de sua responsabilidade para o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pedindo acesso à delação premiada de Paulinho do Lula e de Beto Youssef para evitar nomear receptadores de propinas da roubalheira da Petrobrás. O ex-relator do mensalão Joaquim Barbosa chamou a iniciativa de “degradação institucional”. O loquaz ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, confessou o absurdo, em vez de dar uma de João sem braço. Ficou claro que na nomeação de seu primeiro escalão a chefe do governo leva em conta apenas as notícias do dia, em vez de compulsar os prontuários de seus futuros auxiliares. O líder da minúscula bancada governista do PRB na Câmara, George Hilton, vai tomar conta do Ministério do Esporte durante a Olimpíada no Rio, mesmo já tendo sido flagrado pela polícia carregando R$ 600 mil em pacotes de dinheiro vivo num avião privado. Kátia Abreu, Eduardo Braga e Hélder Barbalho são réus na Justiça. Aldo Rebelo tem ficha limpa, mas isso não basta para, com as palavras de ordem pré-históricas do PCdoB, comandar a pasta de Ciência e Tecnologia. Deus nos acuda.

Cid Gomes foi escolhido para o Ministério da Educação, apesar de ter sido acusado de pagar com dinheiro público o aluguel de um avião particular para viajar com a família (a sogra inclusive) para a Europa. E de ter conquistado com mérito a fama de Mecenas do semiárido por pagar cachês altíssimos a cantores como Ivete Sangalo e Plácido Domingo. Não o recomenda ao cargo a acusação de ter reagido a uma manifestação de professores afirmando: “Quem quer dar aula faz isso por gosto, não por salário. Se quer ganhar dinheiro, deixa o ensino público e vai pro privado”. Sua saída do Partido Socialista Brasileiro (PSB), traindo Eduardo Campos para ficar com a presidente, que obteve votação espetacular no Ceará, o recomendou para o cargo muito mais do que o trabalho pioneiro de seu secretário adjunto de Educação, Maurício Holanda Maia, mais adequado para o cargo.

A reunião de bons burgueses com antigos delinquentes e derrotados nas urnas e o “museu de novidades” (apud Josias de Souza) não bastarão, contudo, para definir com justiça a Esplanada dos Ministérios sob Dilma 2. Sua principal característica genérica é a mediocridade ampla, geral e irrestrita. A mediocridade tirânica, que não se basta, que tudo faz para se impor e governar, é a marca do governo que nos espera e do destino que nos fará engolir.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Estado de S. Paulo na Pag. A2 da quarta-feira 31 de dezembro de 2014)

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