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No Blog: Nêumanne entrevista Edmar Lisboa Bacha

No Blog: Nêumanne entrevista Edmar Lisboa Bacha

Remédio para crise: voto consciente em outubro,

receita criador da Belíndia

Contra saudosos da ditadura e devotos do “gasto é vida” de Dilma, Bacha lamenta acefalia do atual governo e espera com ansiedade resultado das urnas em outubro

“Voto consciente em outubro deste ano.” Com essa frase curta, escorreita e lógica o economista Edmar Bacha, um dos autores do Plano Real, a maior revolução social da História do Brasil, resume a chave para a economia brasileira sobreviver à crise atual e voltar a crescer. O presidente Michel Temer teve, segundo ele, o juízo de montar “uma equipe econômica da melhor qualidade (que) opera com relativa autonomia, dentro dos estreitos limites da atual conjuntura”. Bacha acha que isso só “não funcionou porque o presidente perdeu todo o seu capital político com a revelação de suas tratativas pouco republicanas na calada na noite com o empresário Joesley Batista … A partir daí o governo teve de se dedicar a barrar o impeachment, incapaz de desenvolver uma agenda econômica positiva”.

Edmar Lisboa Bacha nasceu em Lambari, MG. Casado com Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, reside no Rio de Janeiro desde 1979. Formou-se em economia pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, em 1963. É um dos primeiros economistas brasileiros com doutorado no exterior, pela Universidade de Yale, em 1968. Em 1974, durante a ditadura militar, publicou uma fábula sobre o reino de Belíndia, junção de Bélgica com Índia, que se tornou desde então uma recorrente imagem do Brasil. Integrou a equipe econômica que dominou a hiperinflação, com o Plano Real. Foi também presidente do BNDES e do IBGE e professor em diversas universidades brasileiras e americanas. Foi consultor sênior do Banco Itaú BBA e presidente da Associação Nacional de Bancos de Investimento (Anbid, atual Anbima). Autor de 12 livros, é organizador de outros 18 sobre temas econômicos, políticos e sociais do Brasil, da América Latina e internacionais. Seu último livro autoral é Belíndia 2.0: Fábulas e Ensaios sobre o País dos Contrastes  (Civilização Brasileira, 2012). O último livro que organizou é A Crise Fiscal e Monetária Brasileira (Civilização Brasileira, 2016). Ambos foram agraciados com o Prêmio Jabuti. Publicou também cerca de 200 artigos em periódicos especializados, cerca de 100 artigos em órgãos da imprensa e concedeu cerca de 250 entrevistas a jornais e revistas brasileiros e internacionais. É sócio fundador e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças no Rio de Janeiro, e membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Ciências.

Para Bacha, Temer montou equipe econômica de maior qualidade, mas perdeu capital político lutando contra impeachment Foto: Tasso Marcelo/AE

Para Bacha, Temer montou equipe econômica de maior qualidade, mas perdeu capital político lutando contra impeachment Foto: Tasso Marcelo/AE

A seguir Nêumanne entrevista Edmar Bacha:

JNP – O senhor cunhou uma metáfora perfeita para o Brasil: a Belíndia, parte Bélgica, parte Índia. Essa definição continua valendo em nossos tempos? O que mudou basicamente de lá para cá?

EB – O Rei de Belíndia é uma fábula que publiquei no jornal Opinião em agosto de 1974, no auge da ditadura militar. Era uma crítica aos efeitos negativos sobre a distribuição de renda da política econômica daqueles tempos

De lá para cá, houve avanços. O principal avanço foi o fim da ditadura militar e o retorno da democracia. Depois, o fim da hiperinflação e a instituição do tripé da política econômica: superávit primário nas contas públicas, câmbio flutuante e política de metas de inflação. E então, políticas buscando uma melhor distribuição de renda, como a valorização do salário mínimo e o Bolsa Família.

Em compensação, houve atrasos. A economia antes crescia a taxas elevadas, mas entrou num regime de semiestagnação a partir de 1980. Ficamos presos na armadilha da renda média. Além disso, apesar de arremedos de abertura e de privatização nos anos 1990, continuamos sendo uma das economias mais fechadas do mundo e com um alto grau de intervenção estatal na economia. Daí Mário Henrique Simonsen, a propósito dos exageros da Constituição de 1988, ter proposto para o País a alcunha de Banglabânia, um país que associava a pobreza de Bangladesh  ao fechamento econômico da Albânia.

Outro atraso é que os impostos aumentaram muito (de 25% para 35% do PIB), mas os serviços públicos continuaram miseráveis. Razão por que Delfim Neto propôs chamar o país de Ingana: impostos da Inglaterra, serviços públicos de Gana.

Infelizmente, agora tem mais, com o desvendamento da corrupção endêmica do sistema político-empresarial e da violência sem controle nas ruas. Viramos uma Rusmala, com níveis de corrupção da Rússia e a violência da Guatemala.

N – O senhor é um dos artífices do que eu, particularmente, considero a maior revolução social da História do Brasil: o Plano Real. O que reuniu e inspirou aquela equipe escolhida por Fernando Henrique Cardoso? O que permitiu o sucesso imediato e até inesperado no Brasil daquele ovo de Colombo?

 B – É uma longa história, que começa no final da década de 1970 com a constituição do mestrado em Economia da PUC-Rio. Ali se reuniu um grupo excepcional de jovens economistas, todos com doutorado no exterior e preocupados com as grandes questões econômicas do Brasil de então, especialmente a hiperinflação. Diversas formulações novas daí resultaram, tanto de interpretação do fenômeno hiperinflacionário como de formas de combatê-lo.

O Plano Cruzado foi uma primeira tentativa de estabilização de que alguns desses economistas participamos. Éramos muito jovens e jejunos em questões de política, enfrentando nossa primeira experiência de administração pública e sem poder efetivo de decisão. Não deu certo.

Passaram-se muitos anos e outros planos frustrados de estabilização. Deles ficaram mais lições sobre o que não fazer.

A ida de Fernando Henrique Cardoso (de quem muitos de nós éramos amigos de longa data) para o Ministério da Fazenda, em 1993, com amplos poderes para executar um novo plano de estabilização, deu-nos uma segunda oportunidade de aplicar não só nossas hipóteses teóricas, mas também os conhecimentos que adquirimos com os insucessos anteriores. Dessa vez funcionou.

Em 1994, Bacha com equipe do Plano Real, que chegou ao sucesso como resultado do aprendizado de várias tentativas e erros. Foto: Acervo pessoal

Em 1994, Bacha com equipe do Plano Real, que chegou ao sucesso como resultado do aprendizado de várias tentativas e erros. Foto: Acervo pessoal

N – Que circunstâncias políticas, econômicas, financeiras e até históricas impediram que aquela estrutura tão sólida montada sobre moeda estável, inflação controlada, liberdade cambial e austeridade fiscal sobrevivesse ao segundo governo Fernando Henrique e afundasse no populismo amoral do segundo governo Lula, depois do sopro da brisa da Carta aos Brasileiros, da autoria de Antônio Palocci, hoje preso, condenado na Justiça por corrupção e lavagem de dinheiro?

B – Os economistas temos uma expressão – o efeito voracidade – para caracterizar o impacto político negativo de uma bonança de recursos naturais em países com instituições fracas. Também há outra expressão que é pertinente: a maldição dos recursos naturais, creio que inventada para tentar explicar como a Venezuela, tão rica de petróleo, se tornou a desgraça que hoje é.

No período de 2003 a 2008, na frase do economista americano Kenneth Rogoff, o mundo experimentou  “o mais longo, o mais forte e o mais amplamente disseminado ciclo de expansão da época moderna”. O Brasil foi particularmente beneficiado por essa bonança: alta dos preços de nossas exportações, entrada maciça de capitais estrangeiros, descoberta do pré-sal. A consequência foi que, parodiando a frase já histórica da semana passada do ex-governador Sérgio Cabral, Lula não soube se conter diante de tanto poder. Até que foi parado pela Lava Jato.

N – Algum dos pilares da política de estabilidade e controle fiscal sobreviveu ao segundo governo Lula e aos dois mandatos de Dilma Rousseff? Quais foram? E que causas permitiram que isso ocorresse?

B – Tentar derrubar esses pilares, bem que Dilma tentou, com a tal de “nova matriz macroeconômica”, apenas um novo nome para o velho populismo econômico. Mas quando a inflação subiu ficou claro, até mesmo para o PT, que isso os levaria a um desastre eleitoral. Esse foi outro legado do Plano Real: mostrar que a estabilização vence eleições e que a inflação derrota aqueles que estão no poder.  Tentaram dar uma guinada de 90 graus com a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, mas logo ficou claro que uma andorinha só não faz verão. Deu no que deu.

Em 2009, Bacha com Fernando Henrique em lançamento do livro do ex-chefe, colega acadêmico e amigo de longa data. Foto: Paulo Giandalia/AE

Em 2009, Bacha com Fernando Henrique em lançamento do livro do ex-chefe, colega acadêmico e amigo de longa data. Foto: Paulo Giandalia/AE

N – O senhor esperava ou se surpreendeu com os ataques feitos ao edifício da força-tarefa do Plano Real pela conjunção de doenças antigas da ordem econômica no Brasil: gastos desenfreados do Estado estroina, uso político das estatais, em especial a política de preços da Petrobrás, crescimento exponencial da burocracia do Estado e uso abusivo do orçamento público, sobre o qual Tancredo Neves já advertia, na pré-história do sucesso do primado do respeito ao valor da moeda, com seu “é proibido gastar”?

B – O período de consolidação do Plano Real incluiu a aprovação da Lei da Responsabilidade Fiscal e a instituição do tripé da política econômica já mencionado. Na Carta aos Brasileiros Lula se comprometeu a seguir essas regras e, de fato, o fez no início de seu primeiro mandato. Sobrevieram a crise do mensalão e a queda de Palocci. Internacionalmente, com a ascensão da China e o auge das commodities o País passou a desfrutar um céu de brigadeiro. Foi nessas circunstâncias que se deu a guinada de Lula da responsabilidade fiscal para o social-desenvolvimentismo, de uma forma então bem expressa pela então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff: “Gasto é vida”.

Enquanto durou a bonança externa, parecia tudo bem. Mas o cenário internacional se agravou a partir da crise financeira de 2008-2009. Manteve-se, não obstante, o curso da mesma política, com a adição de controles de preços e do câmbio. Quando houve uma tentativa de ajuste, a partir da reeleição de Dilma, era tarde demais: a consequência foi a mais longa e a segunda mais profunda recessão econômica de nossa História.

Bacha com a mulher, Maria Laura, e o filho Carlos comemorando o Jabuti de 2013 pelo livro O Rei de Belíndia. Foto: Acervo pessoal

Bacha com a mulher, Maria Laura, e o filho Carlos comemorando o Jabuti de 2013 pelo livro O Rei de Belíndia. Foto: Acervo pessoal

N – Até que ponto a roubalheira desencadeada pela volúpia do PT em se lambuzar do mel que nunca havia provado, auxiliado por cúmplices da velhíssima política patrimonialista e pela tibieza da oposição da soit-disant social-democracia do PSDB, corroeu a solidez do edifício do tripé moeda forte, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante? O senhor diria que o mal da corrupção institucionalizada já afastou para um horizonte muito mais longínquo sonhos que voltaram a ser nutridos depois do sucesso do Real?

B – Estranhamente, mesmo um Executivo impopular como o atual, comprometido pela Lava Jato e sobrevivendo na base do toma cá, dá lá, com um Congresso corrompido, tem consciência da importância política de procurar manter íntegro o tripé da política econômica. Uma equipe econômica da melhor qualidade opera com relativa autonomia, dentro dos estreitos limites da atual conjuntura. É um bom sinal para o futuro. O que preocupa é a situação fiscal, que se agravou sobremaneira e cujo enfrentamento exige medidas duras, particularmente no que se refere à reforma da Previdência. Não é para este governo. Vamos ver o que acontece a partir das eleições de outubro.

N – Para deter os efeitos letais do populismo que levou aos 24 milhões de desempregados e desiludidos, Temer, ao substituir Dilma depois do impeachment, tentou uma fórmula mágica da convivência da histórica política da rapina do MDB de sempre com o neoliberalismo do time dos sonhos da economia liderado por Meirelles, Mansueto, Goldfajn, Parente e outros. O senhor diria que não funcionou porque são água e óleo e não se misturam ou pela ligação atávica do presidente com seus antigos aliados?

B – Não funcionou porque o presidente perdeu todo seu capital político com a revelação de suas tratativas pouco republicanas na calada na noite com o empresário Joesley Batista, no Palácio Jaburu, em março de 2017. A partir daí o governo teve de se dedicar a barrar o impeachment, incapaz de desenvolver uma agenda econômica positiva.

N – O sonho (eu diria até delírio) eleitoral de Meirelles, ao sair do governo para disputar a eleição, ajudou a aprofundar a perda de autoridade do governo central depois do lamentável episódio do movimento dos transportadores, que me parece ter desmontado qualquer tentativa de salvar algo daquilo que Temer chamava de seu legado?

B – Parece-me que Eduardo Guardia está mais do que capacitado para dar conta do recado no Ministério da Fazenda, contando com a ajuda de Ilan Goldfajn na presidência do Banco Central. O problema não é esse. É, por um lado, a acefalia política do atual governo. Por outro, a incerteza sobre o que as urnas nos reservam em outubro deste ano.

Em 2017, Bacha entra na Academia Brasileira de Letras para tomar posse na cadeira 40, cujo patrono é o Visconde do Rio Branco . Foto: Guito Moreto/O Globo

Em 2017, Bacha entra na Academia Brasileira de Letras para tomar posse na cadeira 40, cujo patrono é o Visconde do Rio Branco . Foto: Guito Moreto/O Globo

N – Que conselhos sua experiência profissional e sua sensibilidade acadêmica teriam a dar ao País para evitar que aquilo que antes se pensava ser a luz no fim do túnel seja apenas o farol de um trem descarrilado?

B – Voto consciente em outubro deste ano.

N – Espera-se que o resultado da eleição de outubro/novembro resolva de vez a tragédia da Previdência falida, das contas públicas destrambelhadas e de um país afundado na tragédia da violência, da ineficácia da educação, da perda de sentido das palavras saúde e pública pronunciadas em conjunto de candidatos a presidente sem projeto, de um Congresso suspeito e de uma Justiça dividida entre o combate à corrupção na primeira instância e tribunais que se põem a serviço das elites corrompidas desde sempre. Que saídas o senhor vê para esse impasse?

B – Não creio que tecnicamente haja grandes dúvidas. Há consciência da gravidade do desequilíbrio das contas públicas e dos remédios amargos que precisam ser aplicados para deter a expansão da dívida pública sem sacrifício da política social. Há também razoável consenso técnico de que somente recuperaremos a capacidade de crescer com amplas reformas: tributária, educacional e de abertura ao comércio internacional. Nada disso vai acontecer sem lideranças políticas esclarecidas. E estas só podem sair das urnas. Tomara que saiam.

(Publicada no Blog do Nêumanne quarta-feira 13 de junho de 2018)

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Nêumanne entrevista Edmar Lisboa Bacha: 9a. entrevista da Série 10 Perguntas.

Nêumanne entrevista Edmar Lisboa Bacha: 9a. entrevista da Série 10 Perguntas.

No Blog do Nêumanne: Paradoxos de um país surreal

No Blog do Nêumanne: Paradoxos de um país surreal

Mesmo isolado na cadeia, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, Lula lidera pesquisas para presidente beneficiando-se dos sucessores que impôs ao PT e ao País: tatibitate Dilma e desastrado Temer

Os resultados da última pesquisa Datafolha, publicada domingo pela Folha de S.Paulo, não podem ser considerados definitivos para prenunciar a apuração da eleição de daqui a quatro meses porque representam um retrato atual, como sempre, nunca uma profecia exata. E também porque revelam agora uma decisão que muitos cidadãos ainda estão por tomar. Configuram, contudo, e ao que parece de forma cristalizada, tendências que dificilmente mudarão, pois refletem uma situação antiga, crônica, lógica e irrefutável.

Os 30% de preferência pelo soit-disant presidenciável do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, impressionam por dois motivos. Antes de tudo, porque ele foi condenado em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, a 12 anos e 1 mês por corrupção e lavagem de dinheiro. E é inelegível. Em segundo lugar, por cumprir pena em Curitiba e, portanto, não ser disponível para participar de comícios, carreatas e até, conforme presume quem tem bom senso, gravar pronunciamentos para a propaganda nada gratuita no rádio e na televisão. O comportamento inusitado da Justiça, permitindo-lhe um dia a dia não vivido por outro preso comum – e ele é apenas mais um –, pode pôr em questão a segunda afirmativa. Mas, por enquanto, prever a continuação dessa anomalia, vencidos os prazos legais para o registro de candidaturas, não é realista.

A fidelidade de quase um terço do eleitorado brasileiro ao carisma do mais popular líder político e mais famoso presidiário do País, a esta altura do campeonato, confirma uma evidência e nega uma lenda urbana. O primeiro lugar no ranking atesta que a emoção é decisiva no ato de digitar o número do pretendente na máquina de votar. E o petista é, disparado, o único dos que se apresentaram à liça a despertar a paixão do cidadão, seja por afeto, seja por repulsa. Mas também, por paradoxal que pareça, o voto em quaisquer nível social e escolaridade é decidido pelo estômago e pelo bolso.

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso”, resmungará o leitor aflito, citando o repetido verso de Olavo Bilac. Afinal, além de condenado, Lula responde na Justiça a mais seis processos criminais, que, juntos, o desmascaram na chefia de uma organização criminosa que levou a Petrobrás à falência, quebrou as contas públicas, esfolou a economia a ponto de gerar 24 milhões de desempregados e desiludidos, conforme o confiável IBGE, e indicou os dois presidentes mais desastrados e, por isso mesmo, mais impopulares da História: a companheira petista Dilma Rousseff e o cúmplice Michel Temer, do PMDB. Sem Temer, Dilma não teria sido eleita. Sem os votos do PT, Temer não seria presidente.

É aí que entra neste raciocínio a negação de que o brasileiro não tem memória, uma lenda antiga e frágil. Os apressadinhos, que, conforme ensinava vovó, comem cru ou sapecado, arguirão que, ao desprezarem os dados da realidade que fazem de Lula um réprobo, e não os quindins de iaiá, os brasileiros que vegetam abaixo da linha da pobreza não têm memória mesmo e ponto final. Alto lá! História é uma coisa, memória é outra. A História é objetiva, relata fatos indesmentíveis, questiona mitos aparentemente indestrutíveis. A memória é subjetiva. Cada um tem a sua. A lembrança dos fatos ao redor é sempre imprecisa e traiçoeira. A recordação dos benefícios pessoais é permanente. Os que asseguram que votarão em Lula têm a memória gostosa dos tempos de ouro do crédito fácil e do acesso à proteína barata sobre a mesa da família.

A História revela que a inflação acabou, o poder de compra da moeda permitiu o acesso das famílias pobres ao consumo inatingível, por obra e graça do Plano Real, do câmbio flutuante e da Lei de Responsabilidade Fiscal, sob a égide do tucano Fernando Henrique. Mas a memória ressuscita o crédito farto e fácil e é isso que segura Lula no topo das pesquisas.

Detratores de institutos de opinião poderão até constatar que os índices recentes não se confirmarão. Mas dificilmente as tendências serão desmentidas. A principal delas é a novidade que ameaça surgir do panorama visto da pinguela sobre a fossa: a disseminação generalizada de que político nenhum presta mesmo e, então, o melhor é escolher um entre tantos condenados que no passado mais recente lhes “encheram o bucho”, como se diz em meu Nordeste de origem, região tida como baluarte lulista. Sabe o “rouba, mas faz”? Pois…

Em 2013, a população foi à rua protestar contra tudo e no ano seguinte reelegeu Dilma e Temer, dois precipícios para a tragédia. Em 2016 o eleitor surrou o PT porque a Lava Jato levou o partido aos tribunais e às prisões. Presos em Curitiba estão todos os chefões petistas: o próprio Lula, Zé Dirceu e Palocci. E, pior de tudo, três ex-tesoureiros – Delúbio, Vaccari e Paulo Ferreira – tiveram o mesmo destino. Há quem lembre diante desse fato que a organização criminosa, vulgo quadrilha, se afigura na forma da lei com a reunião de mais de quatro membros. Ou seja…

Em 2014 o PSDB fez de Aécio Neves a esperança anti-PT para pelo menos metade da sociedade, que não cai na lábia do profeta de Vila Euclides. O neto de Tancredo Neves, ilusão da Nova República abatida pela septicemia, contudo, protagonizou a maior frustração política da nossa História. Denunciado por um suspeito de ter enriquecido pelo compadrio de Lula e asseclas, gravado anunciando a morte do primo, caso este o delatasse, o mineiro poderia ter passado em branco pela inutilidade que protagonizou em seu mandato de senador pelo Estado mais habilidoso do Brasil. Mas fez muito pior, ao mostrar que seu adversário-mor comprou até a oposição fajuta em que ele mandava.

Lula nem precisará candidatar-se para encarnar o paradoxo deste país surreal, que mantém sob sequestro em sua cela de preso comum: beneficia-se por ter escolhido sucessores que quebraram o Brasil e pagou à oposição para anulá-la.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página 2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 13 de junho de 2018)

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Comentário no Jornal Eldorado: Cuspindo nos torturados

Comentário no Jornal Eldorado: Cuspindo nos torturados

O presidente do Senado, Eunício de Oliveira, não pode continuar fazendo corpo mole para decidir sobre o pedido de impeachment apresentado pelo professor Modesto Carvalhosa contra o ministro do STF Gilmar Mendes, apresentando nove razões para a necessidade da medida, e cobrado pelos senadores Randolfe Rodrigues e Lasier Martins. Agora o indigitado deu mais uma razão, a décima, ao fazer mais uma declaração imprópria à sua condição, que ele mesmo classifica como de um “supremo”, cuspindo na memória de todos os torturados na guerra suja contra a ditadura militar ao comparar o uso de algemas no traslado do ex-governador Sérgio Cabral para o IML de Curitiba, afirmando que se caminha para “tortura em praça pública”.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na quarta-feira 12 de junho de 2018, às 7h30m)

Para ouvir, clique no play abaixo:

Ou clique no link abaixo e, em seguida, no play:

https://soundcloud.com/jose-neumanne-pinto/neumanne-1306-direto-ao-assunto-1

modesto

Para ouvir Não e Não, com Teixeirinha e Mary Terezinha, clique no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=WDw4NKOsgiU

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https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/cuspindo-na-historia/

Assuntos para comentário de quarta-feira 13 de junho de 2018

1 – Haisem Qual será o resultado da iniciativa tomada ontem pelos senadores Randolfe Rodrigues e Lasier Martins, exigindo do presidente do Senado, Eunício Oliveira, uma posição sobre o pedido do professor Modesto Carvalhosa de impeachment do ministro do Supremo Gilmar Mendes, que voltou a fazer mais uma afirmação no mínimo polêmica?

2 – Carolina O que mais o choca no tragicômico espetáculo do terço que o papa Francisco não mandou o advogado argentino entregar a Lula, o preso mais famoso do Brasil, como chegou a ser divulgado até na imprensa no Exterior?

3 – Haisem Que reação você prevê da defesa de Lula à decisão do ministro Félix Fischer de lhe negar a interrupção do cumprimento de pena para fazer campanha antes de o TRF-4 de Porto Alegre decidir sobre esse recurso?

4 – Carolina Que pedra no meio do caminho do PT o Supremo Tribunal Federal colocou ao marcar o julgamento do casal Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann para a terça-feira que vem?

5 – Haisem A inclusão da deputada Cristiane Brasil na investigação da Polícia Federal sobre a quadrilha que rouba dinheiro destinado ao trabalhador no sistema corrompido de registro espúrio de sindicatos altera em que, a seu ver, a imagem do governo Temer, que fez das tripas coração para nomear a filha do dono do PTB ministra do Trabalho?

SONORA_CRISTIANE BRASIL 1306

6 – Carolina Que relevância histórica tem a decisão tomada ontem no STF de adotar também em relação a ministros da limitação do foro privilegiado já empregada no caso de parlamentares?

7 – Haisem O que dizer da intervenção militar na segurança do Rio diante de duas notícias de ontem: a execução do chefe da Delegacia de Combate às Drogas com um tiro na cabeça e a passagem dos 90 dias desde 14 de março, quando Marielle Franco e Anderson Gomes foram eliminados, sem que um só fato relevante tenha sido revelado pela investigação inútil até agora realizada para desvendar o atentado?

8 – Carolina Que justificativa o presidente Temer pode dar ao contribuinte assediado pela crise econômica para gastar milhões de reais num aparelho que lhe permita usar telefone celular em viagens aéreas?

SONORA Teixeirinha e Mary Terezinha Não e não

https://www.youtube.com/watch?v=WDw4NKOsgiU

Comentário no Jornal da Gazeta 2: O conto do vigário de Roma

Comentário no Jornal da Gazeta 2: O conto do vigário de Roma

Argentino se faz de emissário do papa para visitar Lula, mas não o vê

(Comentário no Jornal da Gazeta 2 terça-feira 12 de junho de 2018)

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Comentário no Jornal da Gazeta 1: Podridão no ar

Comentário no Jornal da Gazeta 1: Podridão no ar

Governo só não sente cheiro do próprio cadáver porque está morto

(Comentário no Jornal da Gazeta 1 terça-feira 12 de junho de 2018)

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