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Artigo de José Nêumanne Pinto: Caso Suzi, vergonha para o jornalismo

Artigo de José Nêumanne Pinto: Caso Suzi, vergonha para o jornalismo

Exploração sentimental da solidão de transgênero que violentou e trucidou criança pobre de 9  anos envergonha médico de grife e campeã que já foi monopolista de audiência

No domingo 1.º de março, o Fantástico, da Globo, exibiu quadro apresentado pelo infectologista Dráuzio Varella abordando casos relacionados com a saúde, como o faz há 30 anos. O tema foi a vida de transgêneros nos presídios brasileiros. Todos sabemos que nosso sistema prisional emula na vida real as narrativas mais horripilantes do que se imagina que seja o inferno e, desta vez, a carga emocional foi acima do normal, mas sofreu ao longo da semana uma reviravolta de 180 graus.

Entre depoimentos críticos e outros positivos, um fato raro quando se fala de locais aos quais o então ministro da Justiça da petista Dilma Rousseff, José Eduardo Martins Cardozo, preferia a morte, como declarou publicamente, um gesto do apresentador do quadro teve impacto incomum. Ao ser informado pela entrevistada, identificada como Suzi Monteiro, internada num presídio em Guarulhos, na Grande São Paulo, de que não recebia visitas, correspondência nem presentes em oito anos de pena, comoveu-se o celebrado esculápio. Num rompante gravado e retransmitido, Varella, autor de dois livros sobre o Carandiru e colunista aos domingos da Folha de S.Paulo, levantou-se abruptamente e se ofereceu ao abraço da entrevistada. Editada como um capítulo de telenovela, com música de fundo e apelo piegas, a cena levou mais de 200 pessoas a remeterem para o endereço da detenta cartas e presentes. Na guerra do Ibope, o decadente programa semanal da antiga Vênus Platinada pode ter recuperado ali índices de audiência de um passado que ficou remoto.

Na semana posterior, contudo, a situação inverteu-se totalmente quando o site O Antagonista identificou a solitária “heroína” do dr. Varella como autora de um dos homicídios mais repugnantes da história dos crimes de pedofilia na periferia pobre e abandonada de São Paulo. Há dez anos, ainda com identidade masculina, a trans surpreendeu um filho de 9 anos de Aparecida dos Santos dormindo em casa, violentou-o, assassinou-o e escondeu o corpo, localizado depois já em estado de avançada putrefação. Qualquer pessoa com um mínimo de tirocínio, ao topar com a figura do assassino, saberia que o crime torpe foi cometido também com enorme supremacia de força e peso do assassino sobre sua vítima.

Quando a notícia foi dada, ficou patente que o médico de grife e a Globo, que nada tem de boba, cometeram violações de profissionalismo e ética elementares com a exploração sentimentaloide da solidão da presidiária. O crime é público e notório, com a agravante de a assassina ter sido condenada a 36 anos de prisão. A defesa apelou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), alegando que o cumprimento máximo de pena, então, era de 30 anos (agora são 40), mas o relator do caso, ministro Nefi Cordeiro, manteve-a, certamente motivado pela sórdida motivação do criminoso.

Nenhum repórter iniciante teria completado seu trabalho sem a informação básica sobre a diferença entre Suzi e outras trans, a maioria das quais, segundo informação dada no Fantástico, condenada por pequenos furtos. De início Varella se disse médico, e não juiz. Ninguém exigiria dele mais do que sensibilidade de cidadão ao cometer tão grave omissão, mas médicos não atuam para consolar assassinos, e, sim, para salvar vidas. Ainda bem que o responsável por essa monstruosa barriga, como se define uma notícia falsa no jargão jornalísticos, não se autoproclamou repórter. A profissão de jornalista é regulamentada, como a de médico, e ele não preenche os requisitos para exercê-la, conforme mostrou no caso.

Foram cometidos crimes mais graves ao longo da mistificação usada para comover multidões e anabolizar a audiência de um programa decadente. O tom da edição leva à indignação dos telespectadores ingênuos contra a família que abandonou sua parente. Mas ela tinha bons motivos para isso, pois, além do homicídio com agravantes, a condenada já havia antes tentado violentar menores no próprio núcleo familiar. Qualquer pessoa civilizada há de reconhecer que justiça foi feita com a assassina apenada. Cumprimentos também mereceria em qualquer registro imparcial do caso o fato de o Estado, normalmente omisso em agressões em celas, ter conseguido dar a Suzi proteção num ambiente em que normalmente pedófilos assassinos são torturados até a morte dentro de presídios.

Diante da repercussão do caso, Varella teve a caradura de criticar a exploração política dele, na certa referindo-se ao magnífico discurso da deputada Janaina Paschoal chamando os participantes do caso de “irresponsáveis”. A palavra é leve. Na verdade, tratou-se de crime.

Na terça-feira, 10 de março, o Jornal Nacional, da Globo, exibiu o vídeo em que o infectologista metido a comunicador pediu desculpas à família do menino assassinadoO editor e apresentador William Bonner também se desculpou, em nome do Fantástico e da emissora. “Apenas depois da exibição do quadro, o Fantástico tomou conhecimento da gravidade do crime e só nesta terça-feira a Globo se manifesta com mais clareza sobre o assunto, porque respeitou protocolos de segurança, protocolos que autoridades públicas não seguiram”, afirmou o âncora no encerramento do jornal. No caso, Dráuzio e Bonner se excederam em cinismo. Certamente não é caso de desculpas, mas de demissões. E se algum erro há a criticar das “autoridades públicas”, é o de não haver até agora punido severamente todos os participantes do gravíssimo episódio. Como escreveu Fernando Coelho, que foi competente chefe de reportagem do Fantástico, “essa história não é sobre gênero, sexualidade… É sobre um assassinato hediondo e um jornalismo incompetente”. E temos dito.

*José Nêumanne Pinto. Jornalista, poeta e escritor
Este é o artigo da quarta-feira, 11 de março de 2020, que mando para o grupo Ric de comunicação, coluna semanal oferecida para jornais nacionais

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