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A responsabilidade da imprensa no pecado de simonal

A responsabilidade da imprensa no pecado de simonal

A publicação de reportagem especial com quatro páginas num caderno e chamada no alto da primeira página da Folha de S. Paulo do domingo 21 de junho de 2009 nos ajuda a entender um episódio doloroso e lamentável que teve como protagonista um cantor muito popular, Wilson Simonal, em plena ditadura militar. O jornal deu com grande estardalhaço foros de novidade a uma informação antiga e irrelevante, informando que pela primeira vez um documento reproduziu em suas páginas na reportagem que traz a “prova” de que o artista foi mesmo informante dos órgãos de repressão na guerra suja da ditadura militar contra os grupos de extrema esquerda que o enfrentaram armas à mão. O leitor mais atento e menos ingênuo que se deu ao trabalho de ler o texto do repórter Mário Magalhães, contudo, se deparou com a informação já sabida de todos há 35 anos: não havia ali um documento comprovando que o cantor FOI um dedo-duro, mas, sim, o registro de que ele DISSE SER informante dos órgãos de informação. Apesar de ser uma notícia requentada, pois Simonal dissera o mesmo para os meios de comunicação em plena eclosão do episódio, em 1972, o estardalhaço do jornal levou um colunista importante de um veículo concorrente, Ancelmo Góis, de O Globo, a decretar o fim definitivo do debate: “Simonal foi mesmo delator”.
E foi? Claro que sim. Se levarmos em conta que seu contador Raphael Viviani foi, de fato, sequestrado por policiais amigos dele, há, pelo menos, uma vítima conhecida de uma delação do “rei da pilantragem”. Nunca ficou provado se, afinal, o mau estado das contas pessoais do astro foram prejudicadas por sua irresponsável gastança do dinheiro ganho à farta ou resultado de desfalques feitos pelo empregado. Mas não importa se o contador o roubou, ou não. Importa, sim, que, mesmo que o tivesse roubado, este não poderia ter sido tratado da forma que o fora pelo ex-patrão. Nada justifica o que Simonal fez com o contador. Mas também, como lembram Nelson Motta, Chico Anysio, Toni Tornado e o próprio cantor no documentário Simonal – Ninguém sabe o duro que dei, de Cláudio Manoel, à exceção de Viviani, não é conhecida nenhuma outra vítima da sanha da ditadura militar sabidamente delatada por ele. O mesmo não se pode dizer de muita gente boa que não passou pelo que o ídolo passou, mesmo tendo sido comprovada a delação de vítimas fatais da guerra suja.
O documentário de Cláudio Manoel, ao contrário da citada reportagem da Folha, cujo sensacionalismo é inversamente proporcional à importância que tem como reveladora de fatos históricos, é de excepcionais qualidade, profundidade e imparcialidade. Os depoimentos esclarecem o episódio, seja pela palavra, seja pela imagem dos depoentes. Os filhos Max de Castro e Simoninha não conseguem esconder a emoção quando relatam o drama do pai. Chico Anysio pontua com sabedoria e graça a narrativa. Toni Tornado ajuda, de maneira amiga e inquisitória, a desvendar os fatos ao lançar luz sobre eles. Luiz Carlos Miele põe os pontos nos is quando diz, por exemplo, que Simonal foi o maior cantor brasileiro de todos os tempos – e é difícil negar essa evidência. A pretensão de passar imparcialidade de Ziraldo se trai na exibição das charges de seu colega de Pasquim Henfil, que vão da execração à inaceitável sugestão de suicídio. Mas não se pode negar que ele tem razão, seja ao atribuir à imprensa, antes de seu próprio jornal, responsabilidade pela satanização do ídolo, seja ao constatar corretamente que a delação é um crime imperdoável para o cristianismo, por culpa do apóstolo Judas Iscariotes, que traiu Jesus com um beijo. O cinismo de outro chefão da redação do mais importante representante da imprensa alternativa na resistência à ditadura, o chargista Jaguar, ultrapassou os limites da decência, seja quando sugeriu que a surra no contador poderia ter sido justa, seja quando disse que, da mesma forma que o protagonista do documentário, ele mesmo poderia ter morrido de cirrose. A afirmação é reforçada pela cena: ele deu o depoimento tomando chope e exibindo uma garrafa de cachaça que tem como marca o próprio nome.
José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o ex-todo-poderoso Boni, da Rede Globo de Televisão, contribui com a evidência histórica que nega a importância da “descoberta” de Mário Magalhães: se Simonal fosse mesmo um figurão do regime autoritário, este teria saído em sua defesa. E não saiu. A reação covarde e preconceituosa dos que “gelaram” o ídolo acusado de delação aparece de forma clara no depoimento do grande instrumentista Paulo Moura e também no de Boni, que eximiu de boicote as emissoras de televisão, transferindo a decisão para os responsáveis pela programação.
O documentário não inocenta Simonal. Nem poderia. Os erros cometidos por ele foram monstruosos e imperdoáveis, providenciando uma retaliação absurdamente desproporcional ao eventual delito do contador e, pior ainda, denunciando-o como “terrorista” e assumindo – ao que tudo indica, apesar da afirmação da Folha, falsamente – a condição de colaborador do aparelho policial clandestino e brutal da ditadura militar. O incrível é que, conforme o depoimento do contrabaixista Sabá, do Som3, que o acompanhava e com quem tinha grande intimidade, o cantor teria seguido essa linha absurda a conselho de seu advogado. Ele não definiu qual deles, mas é chocante lembrar que o principal defensor de Wilson Simonal era um dos ícones dos direitos humanos no Direito brasileiro à época da ditadura, Evaristo de Moraes Filho. Custa crer que um causídico com a fama que ele tinha tenha instruído o cliente a cometer erro tão estúpido. Toni Tornado insinua que possa ter havido uma “armação”. É improvável. Simonal pode ter errado por arrogância, prepotência e ingenuidade, na definição do crítico Nelson Motta. É uma hipótese mais plausível. O certo é que ele mesmo provocou sua depressão posterior ao vexame de ser processado e até preso.
Mas a covardia e o preconceito dos que não perdoaram o sucesso incrível do crioulo “folgado” contribuíram com esse erro e interromperam a carreira de um artista que fez Sarah Vaughan, a diva do jazz americano, literalmente babar a seu lado no palco, dando ambos um show inesquecível interpretando The shadow of your smile. E que regeu um coro de 27 mil pessoas no ginásio do Maracanãzinho – como ninguém o havia feito antes nem o faria depois. Foi um crime cometido pelo próprio Simonal com a cumplicidade de todos que se aproveitaram do mal entendido para fazer valer o ódio racial, a inveja social e a mediocridade pessoal. Simonal já morreu e não há mais o que fazer a respeito. Mas o jornalismo sensacionalista continua fazendo suas vítimas, como mostra o caderno especial que a Folha produziu aproveitando-se do embalo da badalação em torno do filme. Mais importante que discutir se Simonal foi, ou não, dedo-duro é debater com clareza e isenção esse pecado capital da comunicação de massas – em 1974 como hoje.

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