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A poesia nunca concede, sempre depura

A poesia nunca concede, sempre depura

Ambos são professores e afastam a poética do lugar-comum
É difícil definir com precisão a poesia. Os antigos a usavam como forma mnemônica de reproduzir a memória oral dos feitos dos povos no melhor de sua língua. De Homero aos repentistas do sertão, a métrica e a rima são recursos para facilitar lembrança e comunicação. Ao longo dos anos e das civilizações, foram acrescentadas novas formas e novas fórmulas. Até que o velho verso branco do passado caiu no verso livre modernista e a liberalidade com que muitos recorreram ao novo esquema chegou ao extremo de identificar o gênero por seu pé quebrado. Este deixou de ser atributo de poetas de estro ralo para diferenciá-la da prosa na mancha gráfica da tinta sobre o papel. A pequena coletânea Poemas vis, de Gustavo de Castro, poeta potiguar radicado em Brasília, onde leciona Estética na Faculdade de Comunicação da UnB, traz agora significativa contribuição ao tratamento desse impasse.
A primeira parte do livro, de capa branca com o título preto em caixa alta e tipos grossos sobre um anjo de Gustave Doré, sob o título de azeviches, aboliu o pé quebrado da mancha gráfica para mostrar com clareza e sem subterfúgios que a poesia se diferencia da prosa mais que pela métrica, pelo ritmo da palavra ou pela rima pobre, rica, branca ou livre, pelo estranhamento. “Submerso nas cores, o destino do poeta é ser porta-voz da noite. Mas também das estrelas por trás das estrelas. Sua luz bruxuleia em estado infantil, incerta; desassombra o medo que encobre o encontro. O poeta não sabe de nada. Anda indefeso pela vida arriando lágrimas, sorrisos e canções”, registrou Castro sem versos e com desassombro. Será prosa poética ou poesia prosaica? Não importa. De vez que é, sobretudo, poesia de primeira água. Já na página seguinte, o leitor incauto tropeçará numa frase que parece sair do meio de uma novela para ofuscá-lo, faiscante de tanta beleza: “Quando você partiu, todos foram embora também. Só ficou tristeza parada. Tristeza grávida de estação. De vez em quando, um silvo remoto içava a lembrança dos que não voltam nunca mais”.
Desacostumado à ausência da célula poética do verso, o leitor poderá imaginar que se trata de um livro de gêneroincerto e não sabido. No entanto, do mais exigente ao mais leniente qualquer um reconhecerá que é poesia e da mais fina feitura. Dessa conclusão logo advém a de que a poética, tal como a trata Castro, é, antes de mais nada, a negação do lugar-comum. E assim já facilita definir: é lugar-comum, não é poesia. É claro que o reverso da frase não vale, pois nem sempre o que não for lugar-comum será poesia, pelo menos da melhor. Mas, convenhamos, já é um bom primeiro passo contar com esse porto para zarpar: mesmo sem os atributos comumente associados ao estro dos vates, estes se qualificam na negação do óbvio e no enfrentamento do verbo consumado. É assim que Castro oferece na segunda parte de sua coletânea, estanhos, versos de pé quebrado, mas novamente sem o chulé verbal dos vãos trocadilhos e das pobres aliterações. Só um exemplo: “Oh Vera//Nem toda maçã/Apodrece/Nem toda laranja/É de sumo/Nem todo limão/Emagrece//Nem sempre a verdade/É a realidade/Vera//O real que se vê/Não se crê/Vera”. Era o que devia ser demonstrado: a brevidade simples e a forma na companhia do contexto.
Outra característica da poesia de boa lavra, conforme Castro, é a consciência de que nem tudo o que se faz deve ser revelado, pois, semeada no plantio, ela se aprimora na poda. Parece até óbvio, mas comum não é. Sua colega professora de estética em São Paulo Dila publicou um livro pequeno como o dele com uma capa desenhada por Guto Lacaz (belíssima) e um trocadilho (argh!) como título: “Dúvida/Dívida/Dádiva”, transcrito como se fosse uma citação de algum exercício de poesia visual de Augusto de Campos. No volume planejado graficamente pelo competente artista plástico, há poesia de pé quebrado (no bom sentido) com qualidade. A que inaugura a coletânea rebrilha com primor: “Jaz//Não me interessa/a poesia, nem/que seja essa:/escrita sem//nada que a valha;/corta-me – não por/dentro – a navalha,/sem contar a dor -//não essa – mas/aquela outra mais/funda que jaz/perene por detrás”. Dila ainda produziu esta joia do lirismo amargo: “Eurídice 1//Um caminho tão/longo/a perseguir/e depois dizer:/foi tudo/pra//você,/e você/dizer:/eu não/estava ali”.
Só faltou à colega de Castro o rigor autocrítico mais exigido do poeta que do professor de Estética. O epigramático que percorre quase todo o volume se perde na tentativa de emular o geométrico num poema que não pode ser repetido aqui e que brinca com “te amar” e “amor” imitando a vã excursão do modernista Cassiano Ricardo pela voga vanguardista dos concretos paulistas. Como o palpite infeliz do título, a concessão ao modismo destoa do resto da coletânea. Pode ser a exceção que toda regra exige, é verdade. Mas a poesia, como a faz Gustavo de Castro, não admite essas concessões aos facilitários da moda vil. A poesia retira no laboratório rigoroso da palavra e da frase a jaça vulgar da infâmia dos trocadilhos e depura o texto dele expelindo contorcionismos de exibicionismo conceitual.

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