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A impermeável leveza de Lula. Livro de Audálio Dantas faz mais justiça ao protagonista que filme de Barreto

A impermeável leveza de Lula. Livro de Audálio Dantas faz mais justiça ao protagonista que filme de Barreto

Livro de Audálio Dantas faz mais justiça ao protagonista que filme de Barreto

Os adversários de Luiz Inácio Lula da Silva acham que ele é dotado de teflon, ou seja, que nada da sujeira que seus apaniguados produzem, ou que lhes é atribuída, macula sua lapela impecável. Mas nem a impermeabilização do mais hábil governante brasileiro desde o desembarque de Tomé de Souza na Bahia escapa à ironia da História. Comprovam-no as vítimas do golpe dos camelôs que vendem o falso DVD do filme Lula, o filho do Brasil, de Fabio Barreto. A capa reproduz o cartaz da produção do clã Barreto, preparada para ser a maior bilheteria de “nunca antes na história deste país”, com a estrela Glória Pires no papel da mãe do líder, dona Lindu, versão feminina de Confúcio no agreste. Mas, ao ser posto para tocar, o DVD não reproduz a fita pretendida, e, sim, O ABC da greve, de Leon Hirszman, sobre a greve dos metalúrgicos de São Bernardo, que ajudou a corroer nas bases a ditadura militar. Haverá ironia maior que comprar a versão pirata de uma falsificação e levar um documentário autêntico e bom?

E esta não é a única ironia da História ao lidar com um fenômeno de comunicação que sepulta bem intencionados e os conduz ao Inferno, conforme máximas atribuídas aos sábios do povo, sintetizados no filme em dona Lindu. Com o filho dela “bombando” nas pesquisas de popularidade, ao atingir 82% no segundo mandato, qualquer um preveria um êxito de matar Xuxa e Renato Aragão de inveja nas bilheterias de cinema do País. Só que a pule de dez começou sua trajetória de arrasa-quarteirão como se fosse um traque junino num copo d’água.
Uma coisa nada tem que ver com a outra por várias razões, sendo uma das mais fortes delas a evidência de um ingresso de cinema custar R$ 18,00, enquanto o voto, além de obrigatório, ser gratuito. Resta, porém, a lição fundamental para os oportunistas que imaginavam transformar o carisma pessoal de Lula em fonte inesgotável de lucro de que, para fazer sucesso como o verdadeiro, o Lula do cinema teria de, pelo menos, se assemelhar um pouquinho mais ao real do que aquela mistura improvável, levada à tela, de herói revolucionário realista socialista com galã de favela. O presidente chegou ao auge da popularidade graças a uma receita equilibrada de defeitos e virtudes, similar à matéria de que são feitos os eleitores brasileiros comuns, particularmente os do segmento mais pobre e inculto da população, e bem diferente do protagonista do filme, sem defeitos, mas sem charme.

 

 
Melhor fariam os espertinhos que produziram a decepção cinematográfica do verão se não tivessem escolhido como base a tese, de constrangedora ingenuidade, de Denise Paraná, relançada em livro, com modesto êxito comercial. Mas, sim, um texto que capta o melhor que há no encanto e no charme – que nem os mais ferrenhos adversários negam – da “história do pequeno retirante que chegou à Presidência da República”. O livro O menino Lula, de Audálio Dantas, ao contrário da fita canhestra de propaganda política do clã Barreto, faz justiça ao protagonista e ao povo brasileiro, que caiu de amores por ele desde que nele viu a chance de assumir o mais alto poder da República sem a intermediação dos bacharéis de antanho. A saga do moleque a quem o pai bruto negava os picolés oferecidos aos meios irmãos, alegando que ele não saberia chupá-los, narrada por um escritor de talento e ilustrada por um excepcional xilogravador, Jerônimo Soares, filho do “poeta repórter” José Soares, convence o cidadão comum de que este não precisará se esforçar muito para transportar nos ombros outro igual a ele, como no hit pop He ain’t heavy, he’s my brother (Ele não é pesado, é meu irmão, de Bobby Scott e Bob Russell, sucesso dos Hollies).
O autor de O menino Lula busca em cenas comezinhas do cotidiano as bases da identificação que o político do futuro teria com o cidadão comum. Ele mesmo egresso de Tanque d’Arca, no sertão também nordestino de Alagoas, o repórter brilhante de sempre não trouxe a lume notas brilhantes do futuro gênio, mas dificuldades sofridas em família sob a égide da mãe, não uma pretensa filósofa da aldeia, mas uma mulher escolada na necessidade de nutrir na escassez.
Quem de nós não se emociona com a lembrança do desvelo paterno quando a criança se feriu numa caçada a dois, um carinho tão raro no brutamontes que até hoje o filho destaca como a evidência de que do pai não recebia só pancada e bronca? Quem não identifica o afeto filial, sempre carregado de alguma censura, na recordação do estivador analfabeto lendo o jornal de cabeça para baixo?
Há mais explicações para a importância alcançada pelo protagonista nesses corriqueiros “causos infantis” que em toda a discursalhada pseudo-épica dos áulicos palacianos e dos pequenos burgueses seduzidos pelo charme proletário do pau-de-arara que subiu a rampa do poder. O livro de Audálio encanta porque ele vai buscar na infância as evidências da leveza de Lula. O filme de Fabio é pesado demais para ser carregado por nossa pobre gente débil, que prefere belas histórias reais a mentiras sem pé nem cabeça da luta pelo poder.

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