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A esquerda e o crime

Há uma certa perplexidade de parte da opinião dita liberal no Brasil em relação aos pronunciamentos de alguns figurões da cultura a respeito da adesão incondicional de artistas de algum renome (peró no mucho) à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. Frases como “política é assim mesmo” (apud maestro Wagner Tiso) ou “estou mais perto do povo” (segundo o ator José de Abreu) funcionam como senhas descaradas para abrir a porta da caverna onde Ali Babá festeja com 40 mensaleiros a pizza nossa de cada companheiro de jornada. Será ingenuidade ou cinismo, burrice ou tolerância? Talvez seja tudo isso junto e muito mais.
Na verdade, a dita esquerda sempre votou à democracia liberal dita burguesa seu mais profundo desprezo. Pode-se dizer que um esquerdista de verdade vomita nela. Lulinha está longe de ser um. Ele é um conservador esperto que montou no primeiro cavalo que passou à porta do sindicato e a montaria estava ajaezada pela patota dos católicos progressistas e dos egressos da luta armada. Deu-se bem na vida por conta das circunstâncias especiais no País, pela própria capacidade de entender o povão e corresponder a seus anseios e empregou doses certas de ignorância, inteligência, falta de escrúpulos e da estupidez alheia para deixar para apear da sela apenas na undécima hora.
Assaltantes brechtianos – Essa turma da esquerda armada está acostumada a assaltar bancos e chamar isso de apropriação. A qualquer cretino de direita que questionar o óbvio a resposta está na ponta da língua com a questão posta por Brechet: “Qual a diferença entre roubar um banco é fundar um?” Se é este o slogan, por que alguém pode imaginar um socialista de verdade condenando um irmão de fé só por ter ele se fartado à tripa forra com a grana coletiva que, por ser de todos, não é de ninguém?
Quem leu O que é isso, companheiro? nas entrelinhas não se surpreendeu com o passo seguinte quando os companheiros do crime comum (pobres vítimas das injustiças da sociedade cruel, não se esqueçam disso) foram instruídos a se organizar para desmoralizar o capitalismo selvagem tupiniquim. Se alguém tiver dúvida da imensa contribuição da esquerda armada contra a ditadura na fundação de organizações como o Comando Vermelho e, depois, o Primeiro Comando da Capital é porque não leu livros capitais sobre o assunto, como o do coleguinha Carlos Amorim, nem freqüentou nenhum curso de lógica elementar. A lógica da guerra ao capitalismo é simples e transparente: desapropriar um burguês é empobrecer a burguesia e ainda desmoralizar a democracia da classe inimiga.
Lições do sindicalismo – Essa lógica se realiza plenamente no sindicalismo. Este, ao contrário do CV e do PCC, não é um fenômeno de subdesenvolvimento caboclo nem uma doença tropical, mas um sintoma universal. Quem quiser saber como é que funcionam os sindicatos na pátria do capitalismo, os Estados Unidos da América, pode ter um curso completo em duas horas vendo o filme The waterfront/ Sindicato de ladrões, de Elia Kazan, com Marlon Brando dando um banho na interpretação de Terry Malloy, o herói fura-greve. No Brasil, o buraco é mais embaixo por dois motivos: o primeiro deles é que não há controle institucional dos sindicatos e seus dirigentes fazem o que bem entendem manipulando orçamentos e assembléias e o segundo é que aqui os partidos são débeis e a burocracia sindical assaltou o poder do Estado diretamente via Getúlio, via Jango ou via PT. Ou alguém ainda imagina que a Central Única dos Trabalhadores, a CUT, é o braço sindical do Partido dos Trabalhadores, e não o exato oposto? Com a formação que o presidente recebeu no sindicalismo dito autêntico dos anos 70 do século passado quem poderia esperar que ele tivesse uma visão da ética na gestão pública semelhante à do brigadeiro Eduardo Gomes ou do general Juarez Távora, cujas personalidades foram forjadas nos rigores da caserna e na falta de cintura da União Democrática Nacional, a velha UDN fundada para derrubar o regime sindicalista de Vargas? Aliás, é bom que se diga que, se a moral de Lula fosse tão rígida quanto à dos dois candidatos citados, o primeiro derrotado duas vezes, para Eurico Dutra e Getúlio Vargas, e o segundo vencido por JK, dificilmente ele teria chegado aonde chegou: ao cobiçado trono e agora à perspectiva quase inexorável de um bis aplaudido por artistas cevados no Tesouro e pela burguesia que engorda e bufa às custas do suor da patuléia desde as priscas eras da Colônia de Portugal. Lula não é socialista, é pragmático. Mas José Dirceu é socialista, da escola oportunista de Fidel Castro, seu chefão cubano. Tudo bem! Só quem acredita na legenda heróica do líder estudantil e guerrilheiro Dirceu, de quem não se conhece a participação num único combate contra os esbirros da ditadura pode imaginar que chefe e chefiado possam ter algum ânimo no combate aos velhos esquemas patrimonialistas da escória parasita que comanda os partidos nesta corrompida República ou se esforcem para erigir algum empecilho constitucional à contaminação dos três Poderes pela corrupção deslavada do bicho, do tráfico, do jogo, do lenocínio, do contrabando de pedras, metais e armas, dos esquemas de lixo e transportes urbanos, etc e coisa e tal.
A dita esquerda e a elite sindical em nossa Pátria varonil desprezam os modos de produção e de negociação política da burguesia. Ocupam o poder na democracia porque esta tem brechas pelas quais elas penetram para sabotá-la. Não há contradição nenhuma, mas lógica plana, no fato de Antônio Palocci, o ai-jesus que garante aos burgueses chupins da vaca velha do Estado patrimonialista caboclo, ter instalado em Ribeirão Preto, de que foi prefeito, escritórios das Farc, guarda pretoriana do tráfico de cocaína na Colômbia, e ser perdoado pelos deslizes éticos que cometeu contra a honra e os direitos de um pobre brasileiro desprotegido da sorte e do regime do PT, o caseiro Francenildo Santos Costa, o Nildo. Ao contrário, faz todo sentido. Há um nexo de causa e efeito, lógico como qualquer texto elementar de Aristóteles, a ligar o crime organizado aos esquemas de corrupção na gestão pública. Assim como a bajulação dos artistas sem público encontra razão, não nas eventuais leituras que estes tenham feito de Gramsci, mas nas verbas fartamente distribuídas por Gushiken a seus projetos fadados ao fracasso de público e ao conforto do autor. Só não enxerga isso quem não quer enxergar. E pelos mesmos motivos que terminaram por produzir a assustadora simbiose entre o crime organizado e o Estado brasileiro, cujos resultados são os cadáveres crivados de balas de Celso Daniel, Antônio Costa Santos e muitas outras vítimas anônimas a povoarem os cemitérios e a falta de pudor de nossas despudoradas, ignorantes e boçais elites dirigentes.

 

© revista PRONTO! n. 9. Acesse!

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